SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 issue3Recovering macroremains in Amazonian archaeological sites: a new methodological proposal for archaeobotanical studiesA look behind the writting: Benedito Nunes' thinking about the Amazon Maria Stella Faciola Pessôa Guimarães author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.8 no.3 Belém Sept./Dec. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1981-81222013000300017 

MEMÓRIA

 

Emil-Heinrich Snethlage (1897-1939): nota biográfica, expedições e legado de uma carreira interrompida

 

Emil-Heinrich Snethlage (1897-1939): biographical note, expeditions and legacy of an interrupted career

 

 

Gleice Mere

Pesquisadora independente. Porto Velho, Rondônia, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O artigo relata as expedições e a trajetória do acervo de Emil-Heinrich Snethlage (1897-1939). O pesquisador alemão teve a vocação inspirada pela ornitóloga Emilie Snethlage, sua tia, que costumava enviar à família, na Alemanha, cartas nas quais contava suas experiências como pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi. Emil sentiu-se encorajado a viver aventuras como as de sua tia e escolheu a mesma carreira. Sua primeira expedição no Brasil foi realizada como ornitólogo, em estados do Nordeste, para o Museu Field de História Natural (Chicago, Estados Unidos) entre 1923 e 1926. Na segunda, entre 1933 e 1935, viajou como etnólogo para o Museu Etnográfico de Berlim, pelo rio Guaporé, em Rondônia. Apesar de seu acervo ser a fonte mais completa de informações sobre os povos indígenas dessa região no período, as pesquisas que realizou são pouco conhecidas, pois sua morte precoce impediu a publicação de seus estudos. Ele colecionou mais de 2.400 objetos etnográficos, fez escavações arqueológicas, documentou a vida dos povos indígenas em um filme mudo e em fotografias, gravou músicas e escreveu listas de palavras de diversas línguas. Ao final, são publicadas uma lista de palavras indígenas e três cartas inéditas de Curt Nimuendajú, uma para Emilie e as outras para Emil Snethlage.

Palavras-chave: Expedição científica. Coleções etnográficas. Etnologia. Ornitologia. Rio Guaporé. Rondônia.


ABSTRACT

The article describes the expeditions and the trajectory of the collection of Emil-Heinrich Snethlage (1897-1939). The German researcher had his vocation inspired by the ornithologist Emilie Snethlage, his aunt, who used to send to her family in Germany letters in which she reported her experiences as a researcher at the Goeldi Museum. Emil was encouraged to live adventures as his aunt and chose the same career. His first expedition in Brazil was held as an ornithologist in the Northeastern states, for the Field Museum of Natural History (Chicago, United States), between 1923 and 1926. In the second one, between 1933 and 1935, he traveled as ethnologist for the Ethnographic Museum of Berlin through Guapore River, state of Rondônia. Although his collection is the most complete source of information on indigenous peoples of the region in this period, his researches are little known because his untimely death prevented the publication of his studies. He collected over 2,400 ethnographic objects, made archaeological excavations, documented the lives of indigenous people in photographs and in a silent film, recorded songs and wrote lists of words of many languages. At the end, a list of indigenous words and three unpublished letters of Curt Nimuendajú are presented, one for Emilie and the others for Emil Snethlage.

Keywords: Scientific expedition. Ethnographic collections. Ethnology. Ornithology. Guaporé River. Rondônia.


 

 

INTRODUÇÃO

Entre maio de 1933 e novembro de 1934, Emil-Heinrich Snethlage (Figura 1) realizou a expedição que o levou ao alto rio Madeira e ao vale do rio Guaporé, cinco anos antes do etnólogo Claude Lévi-Strauss chegar a essa região. O objetivo da viagem científica era ampliar a coleção do Museu Etnográfico de Berlim. Durante pouco mais de um ano, o pesquisador percorreu os afluentes mais importantes do lado direito do rio Guaporé e visitou 13 povos indígenas, alguns com pouco ou nenhum contato com a cultura ocidental. Ele colecionou mais de 2.400 objetos etnográficos, preservados na reserva técnica do Museu Etnográfico de Berlim, fez escavações arqueológicas, documentou a vida dos povos indígenas em fotografias e em um filme mudo, gravou músicas indígenas em cilindros de cera, arquivados no Arquivo Fonográfico de Berlim (Berliner Phonogramm-Archiv) e anotou listas de palavras de diversas línguas. Os seus cadernos de campo totalizam 1.042 páginas (até hoje, não publicados) e têm conteúdo científico e preciso. O emprego de diferentes suportes de documentação confere ao acervo um caráter singular e o enquadra na categoria multimídia.

O precoce falecimento do pesquisador, pouco antes do advento da Segunda Guerra Mundial, fez com que a publicação dos resultados de suas pesquisas, em relação ao grande volume de informações que registrou, fosse pequena. As fontes bibliográficas, em sua maioria, se limitam às décadas de 1920 e 1930, com artigos e monografias publicados em alemão.

Neste texto, é realizada uma descrição detalhada do itinerário das expedições de Emil Snethlage, de sua trajetória de vida, assim como da saga de seu grande acervo, que somente no século XXI começa a ser divulgado.

 

NOTA BIOGRÁFICA

Emil-Heinrich Snethlage nasceu em 1897, na cidade alemã de Bremerhaven, localizada na margem esquerda da bacia do rio Weser, estado de Bremen. Faleceu aos 42 anos, em consequência de complicações de um ferimento ocasionado por um exercício militar, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial. Durante um treinamento da marinha alemã, Emil recebeu um golpe na parte inferior da perna, que provocou uma trombose no membro. O médico que o atendeu, seguidor dos ideais do Regime Nacional Socialista, considerou o ferimento de pouca gravidade, pelo fato de estarem enfrentando tempos de guerra, e aconselhou o paciente a utilizar uma bandagem especial que impediria a migração do coágulo. No entanto, ao retornar às atividades cotidianas no Museu Etnográfico de Berlim, o coágulo migrou, o pesquisador sofreu uma embolia pulmonar e permaneceu internado no hospital por seis semanas. Nesse tempo, sofreu outras quatro embolias e complicações cardíacas, que ocasionaram sua morte em 25 de novembro de 1939. Durante a internação no Hospital St. Josefs-Krankenhaus Potsdam, em Potsdam, cidade vizinha a Berlim, o pesquisador fez sua esposa prometer que, se ele viesse a falecer, o conteúdo dos cadernos de campo de sua expedição ao vale do rio Guaporé, região de fronteira entre o Brasil e a Bolívia, seria publicado.

Emil-Heinrich era filho de Viktor Snethlage, professor do ensino médio, e de Anna Snethlage, dona de casa. As diversas mudanças da família, ocasionadas pelo posto de trabalho de seu pai, fizeram com que Emil trocasse de escola diversas vezes. Entre 1917 e 1918, prestou serviço militar para a marinha alemã na base naval da cidade de Wilhelmshaven. Somente após o término do serviço militar é que pôde concluir o ensino médio e dar início às atividades acadêmicas.

Emil Snethlage teve sua inspiração profissional no trabalho de sua tia, irmã de seu pai, a Dra. Emilie Snethlage (Figura 2), ornitóloga, então pesquisadora do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, Brasil. Desde os primórdios de sua juventude, as histórias, as cartas e os presentes da tia aguçavam sua fantasia. Assim, o jovem decidiu pela formação acadêmica em ciências naturais, a fim de assegurar os conhecimentos necessários para a carreira de 'pesquisador viajante'. Por sugestão de Emilie, o sobrinho optou por estudar Botânica (Stresemann, 1940). Sua tese de doutorado, concluída em 1923, em Berlim, discorreu sobre a embaúba, árvore tropical que vive em simbiose com as formigas. Apesar disso, Emil tinha inclinação para a Zoologia, especialmente a Ornitologia. Existia um trato entre a tia e o sobrinho, no qual ficou acertado que Emilie seria sua mestra nesse campo da ciência (Stresemann, 1940, p. 613).

 

 

TRAJETÓRIA COMO PESQUISADOR VIAJANTE

Os planos de se tornar pesquisador viajante foram traçados em tempos nos quais não havia preocupações com a própria subsistência. No entanto, na Alemanha do pós-guerra, a economia havia desmoronado e os obstáculos para a realização da viagem ao Brasil eram imensos. Isso teria desencorajado a muitos outros, mas não ao jovem Dr. Snethlage, que, mesmo com pouco dinheiro, se arriscou a viajar para Belém, em março de 1923, logo após a conclusão de sua tese de doutorado. Ele tinha a expectativa de que sua tia o estivesse esperando e lhe introduziria na metodologia da pesquisa científica, assim como faria os contatos necessários para que ele pudesse prosseguir sua carreira1. Não esperou muito tempo até que o professor catedrático Charles E. Hellmayr, recém-empossado diretor do Departamento de Ornitologia do Museu Field de História Natural (Chicago, Estados Unidos), se interessasse pelos planos do jovem entusiasta. O professor o encorajou a realizar uma grande viagem de pesquisa pelos estados do Maranhão, Ceará, Piauí e Goiás (atual Tocantins) para a formação de uma coleção para o museu. Os primeiros meses da expedição tiveram a participação de sua tia ornitóloga, mas nos anos seguintes ele prosseguiu só e retornou a Belém em abril de 1926 (Stresemann, 1940, p. 613-615).

Os meios financeiros para a realização da expedição eram poucos, mas mesmo assim Emil catalogou 449 espécies de aves, identificadas em 13 ambientes naturais, com observações e informações a respeito da biologia reprodutiva para um conjunto expressivo de exemplares. O relatório da expedição e os resultados científicos foram publicados em três fascículos do "Journal für Ornithologie", entre 1927 e 1928.

O pesquisador enviou ao Museu Field uma coleção de, aproximadamente, duas mil peles de aves, que ele mesmo preparou. A relação integral do material obtido e incorporado às coleções do museu foi apresentada em uma monografia, elaborada por Hellmayr (1929, p. 240), a respeito da avifauna do Nordeste brasileiro. Emilie sentiu-se orgulhosa pelo fato de o sobrinho haver encontrado uma ave rara endêmica da caatinga, Megaxenops parnaguae (bico-virado-da-caatinga), descoberta e observada pela última vez em 1903 pelo ornitólogo austríaco Otmar Reiser. Apesar dos grandes feitos como pesquisador, Emil permaneceu uma pessoa modesta, como descreveu Stresemann (1940, p. 615) no obituário publicado na revista de ornitologia: "Quem pôde ouvir as histórias de suas vivências, quando ele as contava em um ambiente com pessoas mais íntimas, certamente lamentou a modéstia do nosso pesquisador, que o impedia de se apresentar em primeiro plano".

TRABALHO NO MUSEU ETNOGRÁFICO DE BERLIM

Quando retornou à Alemanha, em meados de 1926, Emil foi convidado a realizar uma palestra para a Sociedade Berlinense de Antropologia (Berliner Anthropologische Gesellschaft, hoje Gesellschaft für Anthropologie, Ethnologie und Urgeschichte). A apresentação fez com que, em 1927, ele fosse contratado como assistente pelo Museu Etnográfico de Berlim (Museum für Völkerkunde, hoje denominado Ethnologisches Museum). Assim, mudou o curso de sua trajetória científica e passou a dedicar-se ao campo da etnologia (Stresemann, 1940, p. 615). Ele conduziu trabalhos relativos às coleções sul-americanas do museu. De maneira rápida e surpreendente, afeiçoou-se a essa ciência, na qual trabalhou de forma dedicada e com um conhecimento sólido. Em 5 de outubro de 1939, pouco antes de seu falecimento, Emil foi nomeado diretor substituto das coleções americanas do Departamento de Etnografia da América do Sul.

Entre 1933 e 1935, Emil Snethlage realizou uma expedição no vale do rio Guaporé, região fronteiriça entre o Brasil e a Bolívia, a serviço do museu. Durante a expedição, o pesquisador foi um dos primeiros não índios a fazer contato amigável com os Moré-Itoreauhip. Ele também visitou os índios Chiquitano, Abitana-Huanyam (Miguelenos), Makurap, Jabutí (Djeoromitxí), Arikapú, Wayoró (Ajurú), Tuparí, Aruá, Kumaná, Pauserna, Amniapé e Guarategaja2. Os recursos para essa pesquisa foram oriundos da Fundação Baeßler (Baeßler-Stiftung), que financiava expedições para a formação de coleções da cultura material de diversos povos.

A extensão, riqueza e qualidade das informações registradas por Snethlage se devem à sua perseverança e abnegação, as quais foram reconhecidas por outros pesquisadores da época, como Nevermann (1940, p. 65): "Essa expedição foi realizada com os recursos mais simples. O seu pleno sucesso se deve à abnegação pessoal de Emil-Heinrich Snethlage e à sua bondade humana, que fez com que ele ganhasse os corações dos indígenas".

PLANOS

O falecimento precoce de Emil interrompeu seus planos de publicação dos estudos realizados na expedição ao vale do rio Guaporé. Segundo Nevermann (1940, p. 65):

Antes do seu recrutamento, Emil havia alcançado a plenitude de seu trabalho e se dedicava a outros temas: havia redigido parte de um texto a respeito da simbologia sul-americana (...) uma investigação sobre a transformação cultural na América do Sul, considerando, particularmente, a questão da miscigenação; e ensaios sobre a figura do pajé e das concepções de maná e de alma dos índios da América do Sul. Mesmo quando já estava acamado, debilitado pela doença, ele sempre falava desses trabalhos, entre os quais esses últimos lhe eram especialmente caros. Eu esperava pelo tempo em que pudesse voltar a se dedicar aos seus numerosos planos.

Os documentos elaborados por Emil Snethlage são o único registro científico a respeito de povos indígenas, da fauna, da flora e dos vestígios arqueológicos do vale do rio Guaporé entre as décadas de 1930 e 1950. Nesse período, não houve estudos sistematizados na região, o que deixa uma lacuna na história do atual estado de Rondônia.

Na publicação sobre os instrumentos musicais dos povos indígenas da região do Guaporé ("Musikinstrumente der Indianer des Guaporégebietes"), Snethlage comentou sobre as publicações científicas que havia feito, como o livreto que acompanhou o filme mudo sobre os povos locais e as "Notícias sobre os Pauserna-Guarayu, os Sirionó do rio Baures e dos são-simonianos das proximidades da Serra São Simão" ("Nachrichten über die Pauserna-Guarayu, die Siriono des Rio Baures und die S. Simonianes in der Nähe der Sierra S. Simon"). Ele tinha a intenção de, em breve, publicar estudos mais aprofundados a respeito dos povos Huanyam, assim como sobre os indígenas do rio São Simão e das cabeceiras do rio Mequéns (Snethlage, 1939, p. 3), mas seus planos foram interrompidos.

 

SOBRE AS EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS

ITINERÁRIO DA EXPEDIÇÃO AO NORDESTE BRASILEIRO (1923-1926)3

Entre julho de 1923 e fevereiro de 1924, Emil realizou uma expedição pelo estado do Maranhão em companhia de sua tia, Emilie Snethlage. Ambos estiveram em São Luís, especificamente no então povoado de Anil, depois seguiram para São Bento, Turiaçu, Alto da Alegria e ilha Mangunça.

Entre março de 1924 e abril de 1926, através de contatos de sua tia, Emil foi contratado pelo Museu Field de História Natural para realizar uma viagem de pesquisas zoológicas, que o levou a percorrer os estados do Maranhão, Ceará, Piauí e Tocantins. Em seu trajeto à procura de aves, o pesquisador entrou em contato com povos indígenas. Essa aproximação fez com que Emil se interessasse pelo campo da etnologia. Em 1931, ele publicou, na "Zeitschrift für Ethnologie", o artigo "Entre os povos indígenas do Nordeste brasileiro" ("Unter nordostbrasilianischen Indianern"), sobre os povos Timbira4 e Guajajara, com os quais estabeleceu contato durante a expedição.

As dificuldades com os meios de transporte eram muitas e levavam o pesquisador a esperar durante semanas por um barco que não tinha data certa para chegar ou partir da localidade onde era aguardado. A linha férrea, que não passava por todas as cidades, era uma alternativa, assim como o transporte em mulas, a cavalo e a pé. O trajeto de Emil, após a partida de sua tia, foi: a) Maranhão: ilha de Mangunça, São Luís, Rosário, Itapecuru Mirim, Codó, estação de trem de Cocos, zona rural desse município, Pedreiras, Barra do Corda, Grajaú, Queimadas (às margens do rio Grajaú), Vitória do Mearim, Arari, São Francisco do Maranhão, Alto Parnaíba, Carolina e o distrito de Santo Antônio; b) Ceará: Camocim, Serra de Ibiapaba (localizada na divisa entre o Ceará e o Piauí, município de Crateús), Arara, Várzea Formosa, município de Ipueiras, Sobral e Camocim; c) Piauí: Teresina, Amarante, Floriano, Uruçuí e Inhuma; d) Tocantins: Pedro Afonso e Filadélfia (Figura 3). No início de abril de 1926, retornou a Belém, passando por São Pedro de Alcobaça, no Pará, hoje Tucuruí. Na época, o lugar era uma estação de tráfego de barcos a vapor no rio Tocantins.

 

 

O acervo do pesquisador contém artigos e fotografias sobre essa expedição, que também deveriam ser traduzidos e publicados no Brasil, devido ao seu valor histórico e científico.

GRUPOS INDÍGENAS VISITADOS PELO PESQUISADOR

a) Timbira. A aproximadamente 150 km de Barra do Corda, na cabeceira do rio Corda, Snethlage visitou uma aldeia Timbira, povo subdividido em diversos grupos étnicos. Emil esteve na aldeia Ponto, dos índios Canela, com os quais conviveu. Apesar de esses terem contato com a cultura não indígena, ainda preservavam seus traços culturais e, até aquela época, haviam sido pouco estudados. Em um trecho de sua viagem, quando retornava a São Luís, pelo rio Grajaú, constatou a existência de diversas aldeias Guajajara e de outros povos Timbira, como os Gavião e os Canela. Sua estimativa era de que, do Nordeste brasileiro até o rio Xingu, deveria haver mais de cinco mil índios Timbira (Snethlage, 1931, p. 142).

b) Guajajara. A caminho de Grajaú, Emil esteve com os Guajajara, que viviam reclusos em uma zona de floresta. De acordo com suas estatísticas, a população desse grupo foi estimada em 1.500 índios, espalhados nas regiões do rio Mearim e do rio Grajaú (Snethlage, 1931, p. 119).

c) Apinajé. Entre dezembro de 1925 e março de 1926, o pesquisador esteve no povoado de Santo Antônio. Nas redondezas, pôde visitar os Apinajé (Figura 4), que estavam reconstruindo uma de suas aldeias. Três anos antes haviam estado em guerra entre eles mesmos e contra os índios Krahô. Segundo os cálculos de Emil, existiam, na época, cerca de 150 índios Apinajé (Snethlage, 1931, p. 142).

 

 

ITINERÁRIO DA EXPEDIÇÃO NA REGIÃO DE FRONTEIRA BRASIL-BOLÍVIA (1933-1935)

Na década de 1930, o vale do rio Guaporé (Figura 5) era pouco conhecido do ponto de vista etnográfico, apesar de, no início do século XX, haver sido visitado pelo general Rondon e por pesquisadores como Erland Nordenskiöld, Percy Fawcett e John Haseman. De acordo com informações de seu caderno de notas, Emil foi um dos primeiros não indígenas a estabelecer contato pacífico com um grupo Moré, que vivia na margem boliviana do rio Guaporé. No relatório que entregou ao Museu Nacional, o pesquisador fez um breve relato desse encontro.

Em meados de julho de 1933, Emil chegou a Belém e, em 10 de agosto, seguiu em um barco a vapor para a cidade de Porto Velho, ponto de partida da Ferrovia Madeira-Mamoré, rumo a Guajará-Mirim. A ferrovia foi construída no trecho encachoeirado desses dois rios, o que possibilitava a ligação dessa região com o Atlântico, por meio do rio Madeira.

No acervo de Emil, preservado por sua família, há uma cópia manuscrita do relatório de viagem, em português, que ele entregou ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, o qual transcrevo em sua forma original por apresentar, em detalhes, o itinerário percorrido pelo pesquisador:

Museu Nacional, Rio de Janeiro

Roteiro da viagem do Dr. Emil Heinrich Snethlage ao Guaporé e seus affluentes. Surpreendido pelo decreto do governo do Brazil de maio de 1933 sobre as expedições estrangeiras no Brazil, esperei pelo recebimento da autorização na Bolívia. Antes vi (1)5 no km 151 da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré um número de inscrições nas pedras do rio Madeira. Cheguei no 4 de setembro no Campamento Komareck do baixo Guaporé (Itenes), na margem boliviana. Os índios dessa região queimaram, na noite seguinte, duas casas dessa fazenda. Como, porém, o dono nunca tinha feito mal aos índios e também essa vez tomou a perda como um risco que corria podia entrar no 8 de setembro na maloca dos índios Moré, surpreendeu 4 homens e fazer a eles o sinal que queria eu pacificamente entrar em negócios com eles. No 15 de setembro, sempre vigiado por mim eles atenderam, no dia 18 batiamo-nos os peitos. No dia 24 visitei as primeiras malocas, no dia seguinte eles vinham comigo à fazenda. Mas, somente no dia 10 de outubro visitavam os índios um vizinho do senhor Komareck um senhor Gasafa e poucos dias mais tarde o primeiro brasileiro, o senhor Tancredo na boca do Guaporé, no rio Mamoré e no 9 de novembro o senhor Melchiades de Santos na boca do rio Cautário. Neste tempo ia eu para Guajará-Mirim para buscar mais objetos de troca e tratar dos meus negócios. Voltei no 30 de novembro na lancha do capitão Aluízio de Ferreira, que me convidou acompanha-lo até o Forte Príncipe da Beira [Figura 6] - onde encontrei inscrições nas pedras (4). Fiquei até a festa do Natal nos Morés [Figura 7]: depois subi o rio Cautário a fim de visitar os Kumaná (5) nas cabeceiras do rio São Domingos ou um affluente deste rio. Restaram somente uns vinte e tantos deste tribo, inclusive dos que tinham ido para Canindé, centro dos seringueiros do rio Cautário. No fim de janeiro voltei ao Guaporé e subi esse rio até Bella Vista, na margem boliviana, onde moram agora uns famílias dos Pausernas (6) [Figura 8] e em seguida fazia escavações no Piso Firme (Paranaguá) (7) e Cafetal (8). Na segunda parte do março estava entre os Makurap (9) aldeias dos Mutuns e Coleras (UaiKuri e Guatá), visitei na volta a Serra da Aliança onde fazia excavações (10 e 11). Entrei no Rio Mequens e visitei os Amniapä (12) e Guaratägaja (13), os ultimos ja nas aguas de um affluente do Rio Machado (?). (abril e maio 1934). Desci depois até a barra do Rio Branco (São Simão) e visitei no barracão do snr Julio Mendes os Aruá (14) e numa viagem a pé pelo matta de fim de junho até começo de agosto (35 dias) os Makurap, Jabuti (15), Wayoró (16), Arikapu (17) e Tuparí (18). No fim de Agosto estava entre os Miguelleños (Abitana Huanyam (19)) e parentes no Rio S. Miguel (Limoeiro). Septembro até novembro 1934 estava de novo entre os Moré e Itoreauhip, tribus que moram na maior parte na Bolívia e fazia excursiões aos Kumaná que achei reduzidos a 13 e a famada baia das Onças a onde não achei indios nenhuns. No dezembro de 1934 baixei para o Pará.

 

 

Roteiro da viagem do Dr. E.-Heinrich Snethlage ao Guaporé e seus affluentes.

1) 17 de agosto de 1933. km 151 da E. F. Madeira-Mamoré. Inscrições nas pedras do rio Mamoré.

2) 4.IX ao 28.XI.1933 no território dos Moré e Otoreauhip na margem boliviana do baixo Guaporé e no rio Azul affluente do Guaporé na Bolívia. Encontrei neste tempo somente uma maloca com 5 famílias no Brazil. Elles caçavam na margem brasileira do Mamoré um pouco embaixo da boca do Guaporé até quase o forte da Príncipe da Beira. Subi depois uma pequena demora em Guajara-Mirim no 30 de novembro 1933 com o capitão Aluízio Ferreira até o Forte e para baixo de novo até o Campamento Komareck na margem boliviana. Collecção somente arranjada na Bolívia.

3) 3.I - ca. 23.I no Rio Cautario na região dos Kumaná (Indios Çapacura ou melhor Huanyam como os Moré Itoreauhip, Abitana e demais

Huanyam de S. Miguel). Pequeno tribu que naquelle tempo contava ainda vinte e tantos almas).

4) até 2 de março na Bella Vista em Bolívia entre os Pausernas e ocupadocom excavações em Piso Firme no Paranagua (Bolívia) e Cafétal (Bolívia).

5) ca. 12 -27 do março 1934 nos Makurap (Malocas Oaná (?) Uaikuri e Guatá num affluente do Rio Branco (São Simão).

6) começo do abril, excavações na Serra de Allianza.

7) ca. 17 do abril até fim do maio 1934 entre os Amniapä e Guaratägaja, grupo tupioide no rio Osorio, affluente do Rio Mequens resp. num affluente do rio Tanarú (?).

8) No junho 1934 e agosto 1934 no S. Luiz do Rio Branco entre os Aruá (grupo tupioide).

9) 28 Junho até 2 de agosto marcha a pé pelos 14 malocas dos Makurap (grupo tupioide), Jabuti (com elementos linguisticos Gê), Wayoro (grupo tupioide), Arikapu com elementos linguísticos Gê, e Tupari (grupo tupioide nas cabeceiras dos rios Branco e Colorado).

10) fim do agosto, começo septembro no S. Miguel (Limoeiro) entre os Abitãna e outros Huanyam.

11) septembro até fim do novembro 1934 entre os Morés e Itoreauhip com exploração na Baia das Onças, onde não encontrei nada e outra viagem rapida aos Kumaná que achei reduzidos a 13 cabeças.

Dr. Snethlage

POVOS INDÍGENAS DO VALE DO RIO GUAPORÉ SOB A PERSPECTIVA DE EMIL SNETHLAGE

A seguir, a tradução de um trecho da publicação a respeito dos instrumentos musicais dos indígenas do vale do rio Guaporé, no qual o autor faz uma breve descrição das características dos povos que visitou (Snethlage, 1939, p. 3-4). Também será apresentado um texto sobre a primeira vez em que indígenas do Guaporé ouviram gravações sonoras.

Não se pode ter a expectativa de que uma expedição de um ano e meio, na qual se visitou mais de uma dezena de povos indígenas, se forme coleções da cultura material as quais não apresentem lacunas. No que se refere aos instrumentos musicais, existem diversos tipos de instrumentos que são feitos para serem utilizados somente em algumas ocasiões e depois são descartados. Isso se tornou evidente entre os Moré e os Itoreauhip, que pouco antes eram temidos como os beligerantes e rapaces Itenes. Para aproveitar o tempo que precisaram para se acostumar com os europeus, eles fizeram diversos tipos de utensílios e brincadeiras, com os quais puderam conseguir algumas 'preciosidades' que desejavam. O que eles não puderam trocar,

devido ao excesso de oferta, foi atirado nos arredores, assim como outros tipos de objetos confeccionados com fibras, que eles costumam fazer durante suas excursões pela floresta e pelos campos.

Esses dois grupos pertencem, linguisticamente, aos Huanyam ou, como Rivet denomina essa família, Txapakura. É possível distinguir os dois grupos por meio do dialeto e devido ao modo como usam o cabelo. Culturalmente, eles podem ser classificados como agricultores tropicais, mas não cultivam amendoim, portanto, segundo Tessmann, podem ser incluídos na "família de culturas antigas". A caça e especialmente a pesca têm grande importância nas vidas desses indígenas. Em grande parte do ano eles têm uma vida nômade e dormem em palhoças improvisadas. As casas permanentes são construções em forma de frontão, nas quais é possível visualizar bem sua construção inclinada. A minha estadia entre eles ou nas proximidades de onde estavam ocorreu entre 4.9 e 24.12 de 1933, 30.1 e 7.2, e 4.10 e 23.11 de 1934.

Os Kumaná do rio Cautário e os Abitana-Huanyam do rio São Miguel [Figura 9] pertencem ao mesmo grupo. Os primeiros possuem grandes casas ovais com duas entradas, uma em frente à outra. Os últimos vivem junto com os civilizados há anos. O número dos sobreviventes de cada povo é menor que 50 almas, cada um. Para agravar a situação, os Kumaná estavam desanimados devido às epidemias pelas quais haviam passado recentemente. Portanto, pude colecionar poucos objetos. Entre os Abitana-Huanyam, estavam alguns Cabixi-Huanyam, com os quais pude fazer algumas gravações. A estadia entre os Kumaná ocorreu entre 19.12.1933 até 27.1.1934 e de 26.9 até 2.10.1934, com os Abitana de 31.8 a 9.9.1934.

 

 

Na região do Branco ou São Simão, havia três tipos diferentes de línguas Tupi e dois povos, os quais apresentavam muitos elementos Gê e alguns Caribe. Eles têm características de agricultores tropicais, nas quais a caça já não representa grande importância. A pesca também é rara, pois nos córregos de serra há somente peixes muito pequenos. As casas permanentes são cones gigantes que, muitas vezes, abrigam todos os que vivem na aldeia.

O grupo tupi dos Makurap está dividido em clãs patrilineares, que demonstram características totêmicas inconfundíveis. Os Wayoró são uma mistura cultural entre esses últimos e os Tuparí, os quais, à primeira vista, parecem ter semelhanças com os Parintintin. Os Aruá também são próximos, mas a sua cultura original foi muito influenciada pelos Makurap, o que pôde ser percebido nas duas lideranças musicais, especialmente nos instrumentos musicais utilizados. Os Jabutí e Arikapú se distinguiram imediatamente dos demais povos vizinhos devido aos seus sons explosivos, no entanto, eram culturalmente dependentes desses.

Mampiapé (Amniapé) e Guarategaja [Figura 10], que vivem nas cabeceiras do rio Mequéns e em seus arredores, linguisticamente, distinguem-se pouco dos Tuparí. A cultura desses indígenas se assemelha à dos Huari, descrita por Nordenskiöld (1915, 1924). Entre eles, há a dança com máscaras, que parece faltar na região do São Simão.

Finalmente, os Pauserna, sob o aspecto linguístico, puro Tupi, absorveram totalmente a cultura dos povos mestiços. A estadia na região do São Simão ocorreu entre 5.3 e 3.4 e de 14.6 a 7.8 de 1934. Na região do rio Mequéns, de 17.4 a 20.5 de 1934.

Também serão citados os instrumentos musicais dos católicos Chiquitano, que estão a serviço de diversos mestiços e brancos.

EPISÓDIO DAS GRAVAÇÕES

Além do acervo iconográfico e científico, Snethlage também fez gravações sonoras de cânticos indígenas. No livro "Atiko Y" (Snethlage, 1937, p. 133), ele descreve uma das ocasiões em que realizou as gravações nos cilindros de cera.

Enviaram-me do arquivo fonográfico estatal um pequeno aparelho e obtive a autorização para gravar algumas danças que, para mim, soam todas iguais. Uma pequena mesa é trazida para que eu possa colocar a máquina sobre ela e lhe dar corda. Os dançadores são instruídos. Eles não podem se movimentar para lá e para cá, a fim de que a gravação fique boa. Isso é muito difícil. Treinou-se muitas vezes, mas os movimentos não são completamente interrompidos [Figura 11]. A admiração é descomunal quando eu apresento a gravação bem sucedida. Especialmente Arirain não se satisfaz e quer ouvir tudo desde o começo. Mas isso não se pode, pois os cilindros são feitos de cera e têm que ser primeiramente fundidos na Alemanha. Eu peço uma outra dança. Os movimentos são novamente os mesmos, ou ao menos parecem ser. Mas o texto é outro. Mal terminam, o que é sempre participado por um grito "hum", eles pedem para ouvir o aparelho. E então lhe deram um nome: índio da floresta. Arirain não consegue se contentar e elogia a precisão do aparelho. Ele não se dá conta de que a voz nítida que se ouve dali é a sua. Certamente, para a minha sorte, pois ele e seus companheiros teriam deixado de ser inofensivos por medo de feitiçaria. Eu também gravo uma melodia com as flautas harmônicas. Mas Arirain, com um instrumento grande, não consegue se aproximar o suficiente do funil do fonógrafo, pois ele tem que movimentar as flautas para lá e para cá a fim de que possa soprar na fileira de baixo.

 

TRAJETÓRIA DO ACERVO DE EMIL SNETHLAGE: UM EXEMPLO DE PERSISTÊNCIA

O acervo de Snethlage chegou aos nossos dias devido a incomensuráveis esforços da viúva de Emil, Anneliese Snethlage, que nos anos seguintes do retorno do pesquisador à Alemanha o auxiliou na sistematização das informações registradas, assim como transcreveu o manuscrito em páginas datilografadas entre 1938 e 1944. A seguir, detalhes de como foi possível salvar o material e digitalizá-lo.

De acordo com Rotger Snethlage, único filho do casal, detentor do acervo, residente em Aachen, Alemanha, a promessa de Anneliese Snethlage, realizada no leito de morte do marido, fez com que, nos anos seguintes, ela sofresse diversas humilhações para proteger o acervo da destruição da guerra e das agruras do regime nazista, tendo em vista que ela não era membro do partido de Adolf Hitler. Quando Emil faleceu, Rotger tinha apenas três anos de idade. No final de julho de 1943, migrou com a mãe para a Áustria6, pois os constantes bombardeios em Berlim, cidade diretamente ligada a Potsdam, fizeram com que o estado de saúde de Rotger se fragilizasse. Sob a alegação de precisar transcrever os cadernos de campo do falecido Dr. Emil Snethlage, a viúva obteve uma autorização especial para migrar para uma região que não era atingida pelos bombardeios, os quais também ameaçavam a documentação do pesquisador.

Ao preparar sua mudança para o povoado austríaco de Buchebrunnen, localizado no município de Zwischenwasser, a viúva organizou seus pertences em duas carrocerias que seriam levadas para um trem de carga. Uma das carrocerias continha o acervo do marido e a outra, pertences pessoais. No entanto, ainda na porta de sua residência, a Gestapo abordou a viúva e a impediu de levar a mudança em duas carrocerias. Ela pôde emigrar com apenas uma carroceria e teve que optar por levar os bens pessoais mais relevantes, entre eles o acervo. Quando chegou à Áustria, Anneliese enfrentou a atmosfera de discriminação contra os alemães, que não eram bem-vindos, por serem considerados inimigos, além de ter esperado a chegada de seus pertences durante semanas, sem ter a certeza de que chegariam ao destino.

Rotger se lembra de adormecer, à noite, com o barulho da máquina de escrever de sua mãe, ao datilografar as 1.042 páginas dos cadernos de campo do falecido marido. A transcrição havia sido iniciada quando ele ainda estava vivo. Ao final da guerra, as pessoas de origem alemã, pouco a pouco, foram expulsas da Áustria, com a permissão de transportar apenas 36 kg. Os alemães foram proibidos de ir ao banco para fazer retiradas de dinheiro ou enviar correspondências. Para sobreviver, Anneliese ministrava, secretamente, aulas particulares de inglês. Por quatro vezes, ela recebeu a ordem de expulsão do país, mas, por intermédio do etnólogo austríaco Martin Gusinde (1886-1969), que vivia em Viena, amigo pessoal de Emil, e do etnólogo francês Paul Rivet (1876-1958), fundador do Musée de l'Homme, também amigo de Snethlage, foi possível evitar a expulsão. Rivet, por meio da influência política da França no pós-guerra, que possuía zonas de ocupação na Alemanha, evitou que a família de Emil deixasse o país sem o acervo, que, provavelmente, seria incinerado.

Em 1947, Anneliese e Rotger foram repatriados com a permissão de transportar o acervo. Para tal, a viúva teve que comprovar um emprego na Alemanha, pois, devido à situação calamitosa vivida pela população, os aliados passaram a exigir que o retorno dos alemães ao país ocorresse sob a garantia de que seriam capazes de prover o próprio sustento. Anneliese conseguiu emprego em uma escola de ensino médio, em Aachen, cidade que foi quase totalmente destruída por bombardeios e se encontrava em estado de grande precariedade.

Para retornar com o acervo, Anneliese teve que datilografar, mais de uma vez, uma lista de 42 páginas em que descrevia, minuciosamente, o conteúdo das 42 caixas que continham livros e manuscritos de Emil, as quais foram rigorosamente controladas pelas forças de ocupação francesas, a fim de garantir que não conteriam literatura nacional-socialista. Após o exame, todas as caixas foram lacradas para o transporte através das zonas de ocupação em que a Alemanha e a Áustria haviam sido divididas. As listas continham 19 carimbos, distintos, para autorizar a travessia de 19 fronteiras. Os carimbos tinham prazo de validade e necessitavam ser renovados à medida que vencia a vigência de cada um. O impulso de todos os burocratas que analisavam o documento era sempre de não permitir que uma mulher e uma criança transportassem consigo tantos pertences. Apesar de todos os esforços para a obtenção das autorizações, na região de Württemberg, a caminho de Aachen, o acervo foi confiscado por um funcionário da alfândega desse estado, sob a alegação de haver risco de o material conter literatura nacional-socialista. Somente após muitas justificativas jurídicas foi possível a liberação das caixas.

Anneliese faleceu em janeiro de 1981, sem cumprir a promessa que havia feito ao marido. Nos anos após seu retorno à Alemanha, ela fez diversas tentativas de publicação, sem sucesso. Por volta de 1999, a linguista holandesa Hélène Brijnen entrou em contato com Rotger Snethlage, para obter informações sobre o acervo, e o incentivou a realizar uma apresentação das pesquisas de seu pai no 50º Congresso Internacional de Americanistas, em Varsóvia, Polônia (Snethlage, 2002).

Desde 2006, com auxílio da autora, hoje procuradora do acervo no Brasil, Rotger, apoiado também por sua família, digitalizou os cadernos de campo de Emil a fim de, finalmente, cumprir a promessa que Anneliese fez no leito de morte do pesquisador. A intenção é disponibilizá-los ao público em forma impressa e digital, em alemão e português do Brasil. No processo de digitalização dos cadernos de campo, foram inseridas informações complementares, de outros manuscritos e publicações de Emil Snethlage, assim como de etnólogos contemporâneos que realizaram pesquisas no vale do rio Guaporé, sob forma de notas de rodapé. Rotger Snethlage também acrescentou informações de fichários elaborados por Emil sobre pessoas, locais e línguas indígenas, entre outros.

 

OBJETOS DA CULTURA MATERIAL, FOTOGRAFIAS, FILME MUDO E GRAVAÇÕES SONORAS

No relato de Emil Snethlage feito no Congresso da Sociedade de Etnologia, em Leipzig (Snethlage, 1936, p. 179-180), consta uma nota do editor sobre o paradeiro da coleção formada na expedição ao vale do Guaporé:

As coleções estão depositadas no Museu Etnográfico de Berlim. Exceto uma pequena parte, que foi entregue ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro. O Museu Etnográfico de Berlim tem a posse das melhores fotografias e do filme original. Os fonogramas estão arquivados em Dahlem, na reserva técnica do Arquivo Fonográfico de Berlim, pertencente aos Museus Estatais em Berlim. As demais fotografias, assim como os cadernos de notas, são propriedade particular do senhor Emil-Heinrich Snethlage. O Centro Imperial para Filmes Educacionais em Berlim [Reichsstelle für den Unterrichtsfilm in Berlin] produziu para o seu arquivo científico (sob o código de arquivo Nr. B 25), a partir dos filmes originais, um filme de 8 mm de 400 m de comprimento, intitulado "As culturas indígenas na região de fronteira Bolívia-Brasil" ["Indianerkulturen im Grenzgebiet Bolivien-Brasilien"].

Desde a publicação dessa nota, o acervo do Museu Etnográfico de Berlim sofreu intervenções e mudanças em virtude da Segunda Guerra Mundial. Hoje, a coleção de objetos da cultura material encontra-se na reserva técnica do museu em Dahlem, Berlim. Não se tem notícia do que aconteceu com o acervo de fotografias que estava no museu. Os fonogramas citados foram publicados em 2013, como parte da série de publicações denominada "Arquivo Fonográfico Berlinense - Documentos históricos sonoros" ("Berliner Phonogramm-Archiv - Historische Klangdokumente"). O centro de documentação alemão, onde estavam depositados os rolos dos filmes, sofreu diversas reestruturações e mudanças de nome e de espaço físico. Até o final de 2010, estavam em Göttingen, no IWF Wissen und Medien (antigo Institut für den Wissenschaftlichen Film), com as seguintes informações catalográficas: "Film number: B 457. Produced 1933-1935, Emil Heinrich Snethlage, Staatliches Museum für Völkerkunde. Published 1936, RWU (Berlin). 16 mm, 430 m; B&W, 52 min; silent; 4 reels". Em novembro de 2012, o IWF foi liquidado e o seu patrimônio transferido para a Teschnische Informations Bibliothek (TIB), em Hannover. Segundo informações da TIB, em sua página na internet, até o momento da publicação deste artigo, ainda estão sendo discutidas as questões dos direitos autorais dos respectivos filmes, antes que voltem a ser colocados à disposição do público.

Uma cópia do filme produzido, em quatro rolos de 8 mm, está em poder de Rotger Snethlage, que digitalizou o material. O filme gravado por Emil contém cenas do cotidiano de diversos povos indígenas de Rondônia. Entre as cenas, há o registro da manufatura de cerâmicas, uma valiosa fonte de informação para a arqueologia da Amazônia. Há cenas de rituais, da cultura material e imaterial, a exemplo do jogo de bola de látex já mencionado, que era um traço cultural típico dos indígenas do vale do rio Guaporé e que passou a ser apenas uma lembrança na memória dos anciãos desses povos.

Pretende-se fazer uma reedição do filme. Nessa nova edição, será possível fazer uma sincronização das imagens com informações sonoras advindas da tradução do livreto original que acompanha o filme, além de atualizações históricas sobre o que ocorreu com os povos que aparecem nas imagens, assim como uma eventual mixagem de músicas indígenas.

Diversas cópias das fotografias estavam guardadas junto com o acervo de Emil-Heinrich. Essas imagens são importantes documentos históricos e podem ser publicadas com os cadernos de campo ou também como um livro de fotografias, com o tratamento digital adequado.

Em junho de 2009, sete representantes dos povos Aruá, Tuparí, Jabutí, Makurap e Kanoé visitaram por vários dias o Museu Etnográfico de Berlim, onde tiveram a oportunidade de conhecer a família de Emil-Heinrich (Figura 12). Esse intercâmbio entre indígenas do vale do rio Guaporé e museus europeus foi organizado pelo antropólogo alemão Andreas Schlothauer e pela autora. Os indígenas conheceram os objetos etnográficos coletados por Emil-Heinrich e também ouviram as gravações históricas dos cilindros de cera, depositados no Departamento de Etnologia Musical do Arquivo Fonográfico. As gravações motivaram os indígenas a cantarem novamente as músicas tradicionais registradas por Emil.

O acervo de Snethlage forma um conjunto estratégico para o esclarecimento de muitas dúvidas que pairam no campo científico a respeito da antropologia, arqueologia e linguística. A publicação dessas informações é de extrema urgência, pois ainda existem informantes indígenas que, por meio de listas de palavras, nomes de ancestrais etc., podem elucidar questões que até hoje permanecem sem resposta, devido à falta de fontes de pesquisa, como as correntes migratórias pré-colombianas da Amazônia meridional. Os dados existentes no acervo também são provas materiais para a identificação e demarcação de terras indígenas, além de serem fontes ímpares para a revitalização e a preservação de traços culturais ameaçados.

Apesar disso, as dificuldades para a publicação dos cadernos de campo de Emil Snethlage são imensas, pois ainda devem ser traduzidos para a língua portuguesa e posteriormente publicados nos dois idiomas. Além da importância histórica, a publicação representa o reconhecimento dos esforços pessoais desse grande pesquisador e de sua família para a preservação do acervo relacionado aos povos indígenas do vale do rio Guaporé.

 

O ACERVO DE EMIL-HEINRICH SNETHLAGE COMO FONTE ÍMPAR DE PESQUISA

Ao realizar a análise de seu trabalho de campo, Emil-Heinrich contou com uma vasta bibliografia histórica, contemporânea e de outros pesquisadores que estiveram nas regiões visitadas por ele, assim como com o acervo de sua tia Emilie Snethlage, falecida em 1929. Esse acervo foi enviado para Emil, que guardou livros, correspondência e manuscritos. Um deles, a lista de palavras da língua Tembé com texto de autoria do índio Tembé Cyriaco Baptista, foi publicado postumamente por Emil.

Além das fotografias da expedição ao Nordeste e ao vale do rio Guaporé, dos cadernos de campo, das separatas de seus artigos, há, no acervo de Emil, correspondências e documentos que demonstram o intercâmbio pessoal que mantinha. Por exemplo, existem cartas dele e de sua tia com o pesquisador Curt Nimuendajú, alemão que imigrou para o Brasil em 1903 e dedicou sua vida ao estudo dos povos indígenas brasileiros.

Essa documentação é uma importante fonte de pesquisa a respeito dos povos indígenas do vale do rio Guaporé e dos estados do Nordeste, e também sobre a ornitologia dessa região. A fim de que se possa ter uma noção do valor desses documentos, exponho aqui uma pequena amostra das informações contidas no acervo.

No final do artigo, apresentarei a tradução que realizei de três cartas inéditas escritas por Nimuendajú, uma para Emilie Snethlage e duas destinadas a Emil, assim como a lista comparativa de vocabulário Arikapú e Djeoromitxí (Figura 13), também de Nimuendajú, organizada a pedido de Emil, em 1935, e citada por ele num artigo publicado em 1937, oriundo do Congresso da Sociedade de Etnologia de 1936, realizado em Leipzig7.

 

 

Em uma das cartas, assim como no artigo do congresso, há uma reflexão, entre outras, a respeito da origem dos povos classificados no tronco linguístico Txapakura. Segundo o obituário de Emil, escrito por Erwin Stresemann, o pesquisador pretendia publicar artigos mais aprofundados sobre o assunto. Infelizmente, com seu falecimento, os manuscritos não foram publicados. Stresemann cita os textos de Emil sobre a transformação cultural na América do Sul. Entre os manuscritos que digitalizei, relacionados ao assunto, constam os seguintes títulos: "Südamerika" ("América do Sul"), "Spuren der Manacica" ("Vestígios dos Manacica"), "Zivilisierung in Südamerika" ("Civilização na América do Sul") e "Das Verhältnis der Indianer zu den Tieren. Selbsterlebtes von einer Forschungsreise in das Guaporégebiet" ("A relação entre os índios e os animais. Vivências próprias em uma viagem de pesquisa à região do vale do rio Guaporé")8.

Na primeira carta de Nimuendajú, escrita para Emil em maio de 1938, há comentários a respeito, provavelmente, do assunto do artigo de Emil para o Congresso da Sociedade de Etnologia e do manuscrito que aborda o tronco Txapakura ("Vestígios dos Manacica"), relacionado à miscigenação dos povos indígenas, assim como às concepções de 'maná' e de 'alma' dos índios da América do Sul. Para que o conteúdo dessa carta possa ser mais bem compreendido, apresento a seguir um trecho que traduzi do artigo do citado congresso (Snethlage, 1936, p. 173-175):

Créqui-Montfort e Rivet (1913) estabeleceram uma família linguística da qual eles calculam que façam parte, além de povos extintos das margens do rio Guaporé e Mamoré, os Tschapakura9, os índios Itenes, os visitados por Hasemann (1912) e mais tarde por Nordenskjöld, Abitana-Huanyam (Pawumwa). Infelizmente, eles receberam o nome de uma ramificação de indígenas de outra língua, que vem de uma região distante do sudeste, isto é Tschapakura. Para que esse termo, também um povo que vivia nos arredores de Santa Cruz de la Sierra e que não está relacionado com a família linguística citada, fosse documentado, eu quero, para evitar equívocos, sugerir um outro nome: Huanyam. Huanyam é a expressão utilizada pelos índios Abitana-Huanyam, do rio São Miguel, para designar índios de línguas da mesma linhagem. Por esse motivo, nos mapas de Nordenskjöld em "Forschungen und Abendteuer in Südamerika", os povos que viviam abaixo do rio São Miguel, no Guaporé, já eram designados como Huanyam. Também os Moré e Itoreauhip conhecem essa expressão, que também era corrente para os Urupa do Jamari (Nimuendajú, 1925; Loukotka, 1935)10.

Nessa língua, podem, com toda certeza, ser incluídos: os Tschapakura11 de Carmen, os Abitana-Huanyam do rio São Miguel, as tribos ainda independentes existentes sob os nomes Kabischi, os Kumana, Mataua, Kujuna e Urunamkan, na região do rio Cautário, os Moré e Itoreauhip (Itenes) que vivem no recanto entre o Guaporé e o Mamoré, os Urupa12 do rio Jamari e os Tora13 e Jaru do rio Machado. Provavelmente, ainda serão adicionados os índios dos Pacas Novas e uma parte das tribos espraiadas próximas à Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que tem o nome de Arara, assim como um pequeno grupo que assalta todos os viajantes que se aproximam dos arredores de Baures.

Segue o trecho do artigo no qual Emil faz referência a uma lista de palavras escrita por Nimuendajú (Snethlage, 1936, p. 177):

Os Jabuti e os Arikapu formam um corpo estranho no meio desses povos de línguas que possuem elementos Tupi. Curt Nimuendajú, a meu pedido, comparou vocabulários que anotei com o material linguístico dele e encontrou diversas ligações com as línguas Jê do leste. Também nesse ponto é necessário um aprofundamento dos resultados de minha viagem.

A segunda carta foi, provavelmente, a última que Nimuendajú escreveu a Emil Snethlage, que faleceu em novembro de 1939. A correspondência é um relatório da viagem do pesquisador aos estados da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo.

A terceira e última carta, de Nimuendajú para Emilie Snethlage, tem 21 páginas manuscritas e foi redigida entre 25.12.1922 e 11.2.1923. O relato narra, entre outros assuntos, as situações vividas por Nimuendajú no posto de pacificação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) no rio Maici-Mirim, estado do Amazonas, próximo a Rondônia. Com uma linguagem pitoresca e de fácil entendimento, o autor descreve, nas entrelinhas, sua visão de mundo com relação aos Parintintin e ao comportamento desse povo junto aos funcionários do posto de pacificação, que, aparentemente, foi criado em 1922 para evitar conflitos com os não índios da região. Nimuendajú foi quem realizou as primeiras conversações de pacificação, em 28 de maio de 1922. Segundo o relato, menos de um ano depois o posto foi fechado por falta de recursos financeiros.

Belém do Pará, 18 de maio de 1938.

Caro Senhor Dr. Snethlage,

Muito obrigado pela sua longa carta de 7 de abril, que somente agora eu respondo, de um lado por causa dos malditos rabiscos com o manuscrito Rąmkókamekra e do outro da minha maldita preguiça, que até o momento não deixou tempo para isso.

A sua caracterização a respeito das culturas na região do Guaporé promete tornar-se muito interessante, mas eu tenho que proteger o Rivet contra as suas observações de que a escolha do nome Čapakura para a família linguística a qual os Wanyam pertencem tenha sido infeliz. O fato é: D'Orbigny encontrou na Missão El Carmen, no alto rio Blanco, quer dizer, na província de Moxos, uma tribo estabelecida que se chamava Chapacura e que, até hoje, mora lá, apesar de sua língua e sua cultura terem se perdido (Nordenskiöld: "Indianer och vita" [Nordenskiöld, 1911]). Segundo indicações de D'Orbigny, essa tribo foi transferida para lá das matas entre as províncias de Moxos e Chiquitos. D'Orbigny foi o primeiro a documentar linguisticamente essa tribo, e essa língua pertence, sem dúvidas, à mesma família dos Wanyam, Torá etc., assim como a língua dos Quitemoca, que são oriundos da mesma região, mas que foram transferidos para o sul, para Concepción e Chiquitos. Então Rivet trata novas famílias linguísticas de acordo com o primeiro elo com que são chamadas ao se tornarem conhecidas. Nesse caso, são os Chapacura (e Quitemoca). Para o caso de não só em Moxos como também em Chiquitos chamar-se Tapacura, então isso se reporta ao seu local de origem, que é entre as duas províncias. Algo também não me é claro no seu ponto 2: entre os Moxos e aqui direto como ramificação dos Manacica. Primeiro, só tenho conhecimento de que os Tapacuraca são denominados como uma tribo que fala a língua Manaci, mas ainda não foi comprovado que Tapacuraca e Chapacura são os mesmos; Rivet separa os dois. Então, gostaria ainda de notar que, para mim, é novo que os Manacica tenham algo a ver com as províncias de Moxos, pois eu conhecia apenas a área onde os Manaci são chamados como uma das línguas da província de Chiquitos, e a partir da história das Missões Jesuítas formei a opinião de que os Manacica, originalmente, moravam na parte oriental dessa província, em direção ao alto Paraguai. - Tudo isso o senhor pode, então, naturalmente, segundo suas fontes de estudo, avaliar melhor do que eu, que nunca me dediquei seriamente a essa zona e por isso mesmo posso fazê-lo muito menos agora. Eu escrevo ao senhor somente o que me passa pela cabeça ao ler a sua carta.

Muito obrigado pelas suas indicações a respeito do zunidor na Ásia.

Se Schultz-K.14 incluir no Ku (Couc)15 os rios desconhecidos que foram descobertos por ele, então é preciso fazer a observação de que esses pequenos rios foram primeiramente navegados e registrados por Crevaux e então por Coudreau, e que ao menos esse último já havia encontrado lá os Wayapí, e que esses Wayapí do Ku, por pouco tempo, talvez apenas algumas semanas antes da visita do Schultz-K., foram visitados pelo Delegado do Serviço de Proteção aos Índios do Oyapock, Eurico Fernandes.

A madeira entre a coleira e a correia não tem o objetivo de impedir a mordida nesse último, mas sim evitar que o cachorro se enrole nessa última e se enforque. Isso é empregado em todo o Brasil, então suponho que foi introduzido por Portugal e em português é designado com a palavra cambão.

Parece que, por enquanto, a sua grande ofensiva na selva brasileira não vai ser bem sucedida sob o ódio vigente contra os alemães, por causa da campanha do nacional-socialismo, através da nazificação desrespeitosa dos alemães no exterior, e do flerte com os brasileiros integralistas. Esses caíram em desgraça no 11 de maio, com o seu golpe de Estado que foi repugnantemente derrotado. Então nós vamos, outra vez, exatamente como em 1914, ser colocados como os inimigos do Brasil, e a América do Norte vai persuadir as pessoas, após a 'adesão', de que a invasão da Alemanha no Brasil só foi impedida devido à posição enérgica da América do Norte.

A história dos espíritos com os Ketuaye de Rąmkókamekra é realmente o único elemento religioso do seu rito de passagem da juventude. De maneira geral, esses índios são pouco religiosos. Com os Apinayé, que são um pouco mais religiosos, isso não existe. Os seus ritos de passagem da juventude são de natureza social e cerimonial, sem nenhum vestígio de religião. Os Šerénte, que é o mais religioso desses três grupos Gê, consagram somente os rapazotes de uma de suas ligas de homens mais velhos, e também para esses falta completamente o motivo religioso. Com relação a eles, eu posso afirmar com certeza, pois conheço bem a sua religião. A semelhança com a consagração dos Yamana me parece ser a natureza da questão. Assim que os garotos são consagrados em faixas etárias, e não individualmente, eles têm que ser agrupados de alguma maneira, para poderem se submeter ao cerimonial reunidos. Logo que surge alguma complicação, não é mais possível evitar que a iniciação aconteça em etapas.

Com relação ao fonógrafo, por favor, me informe a respeito do tamanho e peso. Para os que fazem 'expedições' como o senhor e eu, que têm que fazer tudo, desde lavar o cavalo até investigar sobre as visões solares, a quantidade de bagagem e trabalho faz muita diferença.

Em amizade, seu sempre

Curt Nimuendajú

Belém do Pará, 14 de agosto de 1939.

Caro Senhor Dr. Snethlage,

Escrevi-lhe pela última vez em 18 de maio de 1938, como resposta à sua interessante carta de 7 de abril. Desde então, não ouvi mais nada de sua parte e porque eu sentiria muito, se nossa troca de correspondência adormecesse, quero então lhe contar como foi a minha última viagem.

Ela começou em 18 de agosto de 1938, terminou em 19 de maio de 1939 e se estendeu pela região entre os rios Conta e Doce, nos estados da Bahia, Minas e Espírito Santo. Certamente, interessarão ao senhor os índios que ainda existem nessa zona:

1. Os índios de Olivença, no litoral, aproximadamente 300, descendentes dos Tupinakí, cerca de 1/3 são mestiços. Totalmente aculturados. Duas pessoas ainda falam a língua geral. Os demais, os velhos Tupinakí, que eu não visitei, encontram-se ainda em Barcelos e Trancoso, e talvez também isolados em outros lugares da costa.

2. Os Baenãʹ, nas cabeceiras do rio Cachoeira de Itabuna, dez cabeças selvagens e hostis, não querem negociar. Não identificados. Talvez um subgrupo dos Patašó.

3. Os Patašó, um subgrupo dos Hãhãháĩ, 16 cabeças no posto Paraguaçu do SPI, no rio Cachoeira. Os jovens se fazem passar por 'civilizados', os mais velhos ainda falam a língua e preservaram dois ou três elementos de sua antiga cultura. No entanto, a sua ciência, ao menos nessa região, não faz sentido. Portanto, foram totalmente degradados para as figuras ridículas do posto. Eu lamentei muito isso, pois os Patašó são a tribo mais primitiva que já vi até hoje.

Em um afluente do lado esquerdo do rio Jequitinhonha, vivia uma facção de sete cabeças da mesma tribo, mas há quatro anos não se soube mais nada sobre ela, todos eles desapareceram.

4. Os Kamakãʹ: uma mulher de sangue puro e dez mestiços, no posto Paraguaçu. A velha ainda fala a língua e preservou algumas tradições.

5. Os índios de São Bento, cerca de 130, dos quais 86 estão no Posto Paraguaçu. Mais da metade são mestiços. Eles não preservaram nada da sua antiga língua e cultura e já teriam se integrado aos neobrasileiros se não tivessem sido, permanentemente, perseguidos e inferiorizados. Eles são formados, principalmente, pelos descendentes das tribos dos Karirí do Kamurú e Sapúya (Sabuja Martius!) da Aldeia Pedra Branca, em Amargosa, a oeste da capital da Bahia, de onde eles foram expulsos a ferro e fogo. Unidos com alguns índios (Tupinakí? Botocudos?) da Aldeia Trancoso, eles fundaram a Aldeia Santa Rosa, em Jequié, região do rio de Contas, de onde eles também foram expulsos. Após vagarem sem rumo, encontraram-se outra vez em São Bento, nas cabeceiras do rio Catulé, um dos afluentes do lado esquerdo do rio Pardo. Mas aqui eles também tiveram as suas casas e plantações saqueadas, o que os levou a começar a migração para o posto, iniciativa que apoiei o quanto me foi possível.

6. Os Mašakarí, que se autodenominam Mǫnačó (bm), 130 cabeças, dos quais 1/3 são mestiços. Língua e religião próprias. A última é muito interessante: cultos aos espíritos, exclusivamente nas mãos dos homens, que constroem os seus segredos. Por isso, a casa dos homens é proibida para as mulheres. Rombos, aerofones sagrados, sobre os quais as mulheres não podem saber nada. Máscaras primitivas que, para as mulheres, representam os espíritos etc. Aproximadamente metade do conteúdo da cultura ainda está preservada.

A tribo não vive em guerra permanente, mas em condições insuportáveis e perigosas, ameaçada por invasores do território, o qual foi vendido pelo último 'diretor', pelas suas costas, para os neobrasileiros. Todos os dias, pode começar um massacre e me surpreende que isso ainda não tenha acontecido. Para o SPI, a tribo é desconhecida (!).

Esses Mašakarí que vivem nas cabeceiras do rio Itanhaem (rio de Alcobaça), rente à fronteira leste de Minas com a Bahia, são os únicos índios de toda essa zona que ainda formam uma tribo e oferecem interesse etnológico. Entre 1816 e 1818, eles foram visitados por Saint Hilaire, Pohl e o príncipe de Wied. Desde então, não se ouviu mais falar neles. Eles não são Gê, nem linguisticamente, nem culturalmente, no entanto formam, juntamente com os extintos Monoxó, Capoxó, entre outros, uma família especial, como havia definido Loukotka.

7. Botocudos. a) Nos arredores da antiga missão, e hoje cidade de Tambacury, moram espalhados dez índios puros e a mesma quantia de mestiços, dos quais a maioria ainda fala a língua, apesar de se apresentarem totalmente aculturados. Eles são o que sobrou das tribos AranãʹNaknyanúk e Poyicá. Os últimos eram hostis até 1908.

b) No posto do SPI Guido Marlière, no rio Doce, em Minas Gerais, moram 35 descendentes dos Nakrehé do rio Manhuaçu (lado sul do rio Doce). Cerca da metade deles é mestiça. Além do idioma, nada foi preservado da antiga cultura.

No mesmo posto, encontram-se outros seis Botocudos, sobreviventes das tribos do lado norte do rio Doce: Čonvúgn (= Krenák), Nakpie (= Nkutkrák) e Naktúṅ.

c) No posto Pancas, ao norte do rio Doce, no Espírito Santo, viviam 12 Botocudos da tribo Nakrehé (ver item b), assim como os últimos sobreviventes da tribo que aqui vivia, Minyãyirų́gn. Três dias após a minha partida do posto Pancas, eles foram transferidos para o posto Guido Marlière.

8. No mesmo posto, em Pancas, vivia um grupo de uns 50 Guaraní. Há três anos eles emigraram do norte do Rio Grande do Sul. O grupo se fortaleceu com parentes da região da costa de São Paulo. Eles subiram a costa no sentido norte, provavelmente à procura de terras sem males. Os do Rio Grande do Sul permaneceram em Pancas, os paulistanos continuaram a migração. A última notícia que tive deles é que estavam, aproximadamente, a 14° de latitude sul.

Isso é, literalmente, TUDO16 o que restou hoje dos indígenas entre o rio de Contas e o rio Doce. O senhor também imaginava algo diferente?

O resultado científico consiste em:

Descrição do parentesco dos Kamakã e uma pequena coleção de narrativas e contos da mesma tribo.

Um estudo bastante superficial da cultura dos Mašakarí.

Uma lista da descrição de parentesco dos Botocudos junto com um sororato e um levirato, que demonstram a árvore genealógica, e uma interessante coleção de histórias que representam um bom esclarecimento a respeito da religião dos Botocudos. A descrição dos parentescos eu obtive de uma anciã em Tambacury. A árvore genealógica e as narrativas vieram dos últimos representantes (3) dos Naktúṅ e da tribo Convúgn, em Guido Marlière. Eles fizeram para mim, por iniciativa própria, uma estátua Marét17, a qual, até uma década atrás, costumavam utilizar com os Botocudos em seus cultos de origem, na margem norte do rio Doce. Anotações linguísticas sem valor notável sobre os: Patašó, Kamarakãʹ, Mašakarí, Aranãʹ, Naknyanúk, Nakrehé, Naktúṅ e Minyãyirų́gn. Dos Mašakarí, eu trouxe uma coleção de 260 objetos, distribuída para os museus do Rio, Pará e Gotemburgo. Dos Patašó, eu trouxe poucos objetos isolados, e dos Botocudos, apenas a estátua Marét.

Desde o ano retrasado, diversos estudantes de Franz Boas, da Universidade de Columbia, têm trabalhado aqui. Quain estuda os Krahó; Lipkind, os Karayá, Žavaé e, junto com Wagley, os Tapirapé. Wagley ainda está lá, Lipkind quer ir para os Kayapó. Semana retrasada, Quain suicidou-se quando retornava dos Krahó para Carolina. Lowie disse que não confia nesses jovens senhores de Columbia, mas eu penso que, se um etnólogo permanece por mais de um ano com os Karayá, como Lipkind o fez, então ele tem que ter aprendido algo para trazer para casa, mesmo que a sua formação tenha sido ruim.

Baldus agora é um respeitável professor de etnologia na Universidade de São Paulo. Ele me aconselhou a, o mais rápido possível, também me candidatar a um cargo desses em outra universidade brasileira. Eu respondi a ele que essa ideia nem me passava pela cabeça, pois eu estou muito acostumado com a vida que levo e não me sentiria bem em um cargo de professor.

Por enquanto, estou de férias prolongadas. Quero ir aos Gorotire-Kayapó, na região do rio Fresco do Xingu. No entanto, eu preciso esperar que as águas do rio subam, caso contrário a viagem fica muito cara. Por enquanto, a viagem ao Xingu continua interrompida. O financiamento parece duvidoso: Lowie queria 2.000 dólares para o empreendimento e, com muito esforço, conseguiu apenas 500! O que faltar eu terei que pegar emprestado por meios privados e pagar depois com a venda da coleção. Espero poder viajar em novembro.

Mas, antes, espero receber uma longa carta sua para que eu possa saber como andam as coisas no museu e em casa, como está o andamento da publicação dos resultados da sua viagem e se o senhor retornará ao seu antigo campo de pesquisa na região do Guaporé.

Por favor, mande lembranças minhas ao professor Krickeberg e lhe envio os melhores cumprimentos, do seu

Curt Nimuendajú

Curt Nimuendajúa/c de Berringer & C.

Belém do Pará

Caixa 27.

Posto de Pacificação dos Parintintin, Natal de 1922.

Ilustre senhorita Dra. Snethlage,

Então, estou outra vez feliz, sentado na caixa de lata em Maici-Mirim, como a senhorita tanto queria, e eu fico imaginando como está celebrando o Natal no Rio, em um círculo qualquer de uma família alemã. Porque eu não tenho nada para lhe oferecer para as festividades, coloquei-me a lhe escrever - histórias indígenas! Como a vida aqui mudou desde aquele 28 de maio, em que os Parintintin, pela primeira vez, negociaram e, pacificamente, trocaram presentes comigo!

Acompanhado de três homens, subi o rio Maici de barco e tinha um medo terrível de que pudesse ser tarde demais, em consequência da notícia que recebi lá embaixo, no Madeira: o posto indígena estava desprovido de alimentos e objetos de troca para os índios. O meu velho e fiel pessoal havia sido espalhado aos quatro ventos por incapacidade do meu sucessor. Garcia, o único que seria capaz de administrar o posto, foi caluniado e perseguido por seus colegas, e despedido pelo chefe de Manaus. Os índios, desconfiados e insatisfeitos, teriam retomado as hostilidades. O último grupo de funcionários do posto estaria sem liderança, faminto e assustado, a ponto de abandonar a função que se tornou insustentável.

Na manhã de 11 de dezembro, a lancha subiu a última curva do rio e, no final do estirão, o terreiro do posto podia ser avistado. Eu tremia, pois, no meu pessimismo, esperava, a qualquer momento, me estarrecer com os postes carbonizados e olhar para o céu e ver os urubus sobrevoando o posto. Foi, então, que veio um brasileiro seminu e correu até o barranco. Por um momento, ele olhou atônito rio acima e mais que depressa voltou para a casa. Em seguida, apareceram na margem do rio dois índios, ágeis e flexíveis como cervos. Eles juntaram as mãos e as movimentaram sobre suas cabeças para demonstrar que estavam desarmados; atrás deles, surgiu alegre e excitada a equipe do posto. Não era tarde demais - mas não faltou muito para que fosse!

Jupá e Tawaré, ambos Parintintin, alegres, ousados e autoconfiantes, ajudaram a descarregar a lancha, entretanto, eles colocaram de lado tudo o que era possível: o meu chapéu, um pente, um terçado, uma garrafa de pimenta - algumas coisas eles devolviam, quando a gente pedia, outras eles deixavam desaparecer. Tawaré entrou um pouco na floresta e soprou uma trombeta de furos transversais, e logo apareceu um homem idoso com um rosto amigável, uma barba fina e cinza, uma pena de jacu na orelha e uma profunda cicatriz de flecha no ombro. Com ele, veio uma bela jovem cujas roupas consistiam em quatro fios de algodão sob os joelhos e acima dos tornozelos. Eles mendigavam de uma forma vergonhosa, quer dizer, não se podia chamar aquilo de 'mendicância', eles EXIGIAM! Por fim, dei algo a cada um deles e foram embora satisfeitos, prometendo retornar pela manhã com as mulheres.

Na manhã seguinte, quando ainda estávamos sentados tomando o café, ouviu-se o ressoar de gritos atrás da curva rio acima, e no momento seguinte vieram disparadas três potentes canoas, lotadas com índios, já bem próximas. Na popa de cada uma, estava sentado alguém que remava lépido e vigoroso, um remar elegante, com a cabeça a oscilar quando o remador mudava o remo de um lado para o outro. As mulheres e crianças estavam sentadas, os homens de pé, desarmados, movendo as mãos vazias sobre suas cabeças. Sem hesitar, colocaram o barco ao lado da lancha, e todos subiram o barranco: 27 índios de todas as idades e ambos os sexos. Rindo e felizes, nos abraçaram a todos, de maneira que não podíamos nem nos mexer, mas ao mesmo tempo pediram, de forma exigente e descarada, as coisas mais impossíveis. A gente tinha que ter atenção como um cão de guarda, caso contrário, eles entrariam em todos os lugares e levariam tudo. As mulheres e as meninas foram de uma falta de cerimônia surpreendente. Caso não fossem imediatamente ouvidas, elas seguravam o queixo da pessoa e repetiam a reivindicação com muita veemência, olho no olho. Quando a gente fingia não entender, elas arrastavam um pelo braço em direção à porta onde acreditavam estarem as coisas desejadas e davam um, mais ou menos suave, empurrão nas costas, e assim também já faziam as meninas de seis anos. Elas não podiam ver botões, não importa onde eles estivessem pregados: elas os torciam até arrancar ou, quando estavam bem presos, gritavam pedindo uma faca, sem largar a presa, para cortá-los, e os enfiavam, satisfeitas, na boca - seu único bolso. Outras, se a faca não chegava rápido o suficiente, as vi arrancar os botões. Eu escolhi três jovens guerreiros para lhes explicar sobre a velha história do grande chefe da grande aldeia, mais a jusante, o que nos enviou para fazer as pazes com os Parintintin e que mandou as coisas que eles receberam de nós. Eles foram extremamente atenciosos. O mais novo colocou as suas mãos sobre o meu quadril, enquanto eu estava sentado, e olhava a minha boca com muita tensão. A existência desse grande chefe não lhes parecia nada estranha. Eles chamaram mais alguns, discutiram o assunto e perguntaram interessados sobre pormenores, especialmente, e por diversas vezes, se eu mesmo havia falado com o grande chefe. Por fim, um deles declarou, com um gesto muito expressivo das mãos, que a guerra acabou, repetindo isso várias vezes. Em seguida, pediram que desenhássemos no chão os rios até Manaus e decoraram seus nomes. Ao final, as mulheres e crianças partiram em dois barcos, os homens ficaram. Nós nos sentamos à mesa do café da manhã e, amigavelmente, os convidamos a participar. Mas estavam doidos pelos utensílios, e queriam mesmo era levá-los, nossa refeição (jabá, feijão, arroz e café) não foi aprovada. Eles fechavam o nariz com indignação, se sacudiam de repulsa e cuspiam enojados. Um pegou um punhado de arroz da mesa e o passou de mão em mão até colocá-lo de volta na tigela. Quando o cozinheiro, ao lavar os pratos, depois que quase todos haviam ido embora, virou as costas por um momento, alguém roubou um dos últimos utensílios que haviam ficado, uma tigela com todas as colheres, e saiu disparado carregando tudo, os outros foram atrás, e somente Tawaré, que havia subido para ficar de sentinela na atalaia, permaneceu calmamente sentado lá e só foi embora depois de um abraço amistoso, no qual durante uns quinze minutos dançou comigo ao redor da casa, e quando viu que havia uma nova visita chegando. O novo grupo era constituído por cinco homens, três mulheres e duas crianças, que se dirigiram à terra firme. Entre eles estava um jovem e atrevido rapaz, que eu conhecia de 28 de maio [1922], quando ele me presenteou com um cocar. Ele mostrou uma ferida aberta horrível em volta de quase metade do pescoço, provavelmente alguém tentou cortar a sua cabeça. As suas exigências eram tão desmedidas quanto as dos outros. Lá estava uma menina de cerca de quatro anos, quando alguém abriu a porta para um cômodo no interior da casa. Mais do que depressa, ela enfiou um dos bracinhos para dentro e agarrou uma trouxa de roupa que estava num canto, ao lado da porta, e não quis mais soltar. Ela chorou e se desesperou, de forma que, por fim, um de nossos homens tirou sua camisa e deu para a pequena, assim, de certa forma, ela se acalmou. Pouco depois, eu vi como a sua irmãzinha maior, de cerca de oito anos, vestiu a camisa - lá fora estava chovendo - e começou a dançar e a cantar na varanda, para cima e para baixo, batia um braço no outro, e batia o pé direito ritmicamente, incansavelmente, de forma séria e impecável durante meia, uma hora. Sobre o posto caía uma terrível tempestade, vários raios caíram nos arredores, de forma que as telhas de metal estalavam e o pai das pequenas, horrorizado, batia as mãos sobre o seu rosto. A menina sequer pestanejava, parecia que não ouvia nem via. Então, ela se aproximou de mim, me pegou por ambas as mãos com os dedos cruzados, e assim nós nos viramos, saltitantes, batendo com os pés e cantando. Sua irmã menor se agarrou com firmeza à parte de trás do meu cinto e começou a dançar conosco, pulando com os dois pés.

Parece haver um dever sagrado dos índios com cada presente ou, após sua concessão, de dançar com cada TROFÉU. Toda vez que um Parintintin recebe algo, ele pega uma flauta pan de quatro tubos, vai para o terreiro e dança, fazendo barulho e levantando o pé direito para lá e para cá. Ao final de cada verso cantado - cujo texto eu, por causa do estilo de canto nasalizado, nunca consigo compreender - , ele sopra duas vezes dois tons duplos, e quando o canto chega ao final, ele solta o grito de guerra. Uma vez que o processo sempre se repete, nós preparamos um local de dança próprio em frente ao posto e sempre temos uma flauta pan disponível. Normalmente eles fazem essa dança quando estão prestes a ir embora, e temos que tomar cuidado porque, no meio dela, subitamente eles podem cometer alguma diabrura e fugir rapidamente. Assim, também nesse dia, o cara com a ferida no pescoço roubou, no último momento, uma panela pequena.

Nos dias seguintes, fomos constantemente visitados por um grupo de quatro rapazes e quatro moças. Entre os primeiros, inocentemente, como se nada tivesse ocorrido, aconteceu o roubo da colher. As moças eram bem comportadas e amáveis, iam atrás de nós em todos os lugares, e onde nós nos sentávamos elas se sentavam ao lado e não deixavam que faltasse um abraço carinhoso. Quando os Parintintin querem demonstrar simpatia, eles colocam a boca perto do ouvido da pessoa e estalam alto com a língua.

Tawaré pediu arco e flecha - ele tinha vindo sem armas - e foi para o rio pescar. Ele voltou apenas quando já começava a escurecer e os outros já tinham ido embora, sorridente e apressado, entregou pontualmente as armas emprestadas e os dois peixes para nós, recebeu seu pagamento e saiu correndo feliz atrás dos outros, através da floresta que estava escurecendo. No dia seguinte, o ladrão da colher fez a mesma coisa. No entanto, no último dia, antes que o grupo se retirasse definitivamente, a sua habitual animação mudou. Felizmente, é possível perceber isso no rosto dos Parintintin. As expressões sinceras e engraçadas de Tawaré tornaram-se sombrias e todo o seu comportamento mostrou a desconfiança de uma pessoa que pretende fazer algo mal. Como ninguém se deixou impressionar, ele nos desafiou com brincadeiras grosseiras e, ao final, me disse com uma cara furiosa que ele queria comer um pedaço do meu braço e da minha coxa e que iria buscar uma faca etc. Eu o ouvi à vontade e tentei levá-lo adiante em sua interessante fala, dizendo que ele deveria fazer isso mesmo. E Tawaré disse: "Eu quero comer seus olhos! Eu quero comer os seus pés! Isso é bom!". Ao final, ele fez uma careta e saiu pisando com raiva, mas, antes de ir até o portão, se virou novamente para mim e fez o gesto de quem iria atirar uma flecha.

Ainda na tarde do mesmo dia, veio uma canoa com dez cabeças subindo rio acima, cujos passageiros já gritavam de longe: "Tragam machados, tragam facões, tragam miçangas!". Eles desceram em um lugar ligeiramente abaixo do posto e vieram em nossa direção, falando em um tom de comando, sempre exigindo presentes. Havia dois homens, um senhor mais velho de barba rala, mas forte e ágil como um rapazote, e um rapaz, que era conhecido pelos funcionários do posto pelos tumultos que fazia. Ambos tinham o rosto, os cabelos e todo o corpo monstruosamente besuntado com argila branca. Com eles vieram suas duas mulheres, a mais velha rabugenta, uma mendiga insatisfeita com um eterno PË - Ë - Ë - RÚ (= Traga-me!), timbre que ressoou nos nossos ouvidos por dias. A mais jovem era menos desagradável e levava um bebê na tipoia, que tinha o cabelo e a testa cobertos por uma espessa camada de urucum. Além deles, havia cinco crianças, entre elas um lindo garoto gordo de uns seis anos, que antes nunca deixava o posto sem ameaçar cortar o pescoço de todo mundo. Agora ele se senta com confiança no colo do primeiro de nós que encontra. Eles receberam alguns presentes, especialmente as crianças, e trouxeram suas armas por causa disso. Quando traziam suas flechas de guerra, antes de entrar, as esfregavam no poste do portão de maneira que perdessem o corte. O velho tornou-se engraçado e agradável, pegava-me e ensinava-me a dançar. Como o briguento Avangajú também se comportou, essa então foi uma visita muito agradável, somente a velha senhora resmungava ininterruptamente o seu dissonante PË - Ë - Ë - RÚ no meio dessa situação. No dia seguinte, eles vieram outra vez e seguiram novamente a jusante.

Subi até o rio para, por meio de um banho, me recuperar das torturas suportadas, após haver examinado atentamente e com cuidado a margem oposta do rio, uma vez que os queridos Parintintin, um dia antes da minha chegada no posto, haviam soltado a famosa piada de que de lá eles atiravam flechas nos banhistas. Embora isso, a bem da verdade, nunca tenha acontecido. De repente, gritaram para mim da outra margem da foz do ribeirão, que deságua no mesmo lado, logo abaixo do posto. Eu deveria, rapidamente, pegar um barco e atravessar. Alguns índios apareceram nos ramos das árvores da margem. O mínimo que teria acontecido, se eu tivesse feito a vontade deles, seria perder o barco, e também não deveria ficar surpreso se, ao descer, um Parintintin me acertasse com uma flecha e cortasse o meu pescoço para fugir com a tão desejada cabeça-troféu. Não entendi bem o que eles queriam e, depois de terem me xingado durante um tempo, bateram na água e vieram através do córrego e do pântano nadando. Quatro homens jovens, suas esposas e uma anciã, que estava totalmente pintada com urucum. Entre os homens, estava Mandariyé, o maior, e Mohangí, o menor Parintintin entre os que medi até agora (171,6 cm e 150,1).

Eles se comportaram bem, e quando perceberam que não conseguiriam o barco, nadaram à tardezinha através do riacho de volta para as crianças, que haviam permanecido sob os cuidados de uma segunda avó e que já choravam há um longo tempo e chamavam pelo pai e pela mãe. Na manhã seguinte, reiniciou-se, outra vez, a tortura por causa do barco, mas eu permaneci firme. Quando eles se convenceram de que não conseguiriam nada, começaram então a fazer uma passarela. Derrubaram uma árvore no sentido do barranco da margem oposta do riacho, mas os galhos quase não alcançaram o brejo dessa margem, que já estava a 2 m de profundidade, sob a água. Eles então prolongaram a passarela ao amarrar varas nas árvores ao redor, até que as varas atingissem o nível de água e afundassem somente cerca de 1 m. Ligeiramente apoiadas contra essa ponte e ligadas a ela por um cipó, eles fincaram hastes, entre as quais esticaram um cipó, de modo que se formou um corrimão bem ajeitado. Toda a passarela deveria ter cerca de 50-60 m de comprimento e foi construída em duas horas, sob forte chuva, por três índios, enquanto o quarto trazia o material da floresta. Eu mandei fazer uma grande fogueira sob um telhado de proteção do posto e pedi que assassem milho para eles. No entanto, por mais que eu os convidasse, para que pudessem se revigorar, eles não vieram até que o trabalho estivesse concluído. Era engraçado ouvir o ecoar do sorriso largo e efusivo do grande Mandariyé. Então, eles vieram com as mulheres e as crianças e se reuniram em volta do fogo, tremendo por estarem molhados. Por um momento, quando entrei na casa, enquanto Garcia distribuía alguns presentes, aconteceu uma cena horrorosa. Sem qualquer razão aparente, uma índia começou a espancar brutalmente sua filha, uma linda indiazinha de uns cinco anos. Ela empurrou a menina, puxou-a para cima e a atirou no ar a alguns metros contra um tronco de árvore. Chutou-a violentamente com os pés e arrastou-a pelos cabelos até o portão. Garcia correu e socorreu a criança. Mesmo contra a excitação e os gritos dos índios, ele a presenteou fartamente. A consequência disso foi que logo depois outras duas maltrataram suas crianças, ameaçaram jogá-las no rio etc., somente para extorquir presentes! Os homens não estavam de bem com a facção do alto Maici-Mirim, que esteve aqui, de barco, para conversar antes deles. Mostraram antigas cicatrizes adquiridas em luta contra esses parentes.

Na manhã seguinte, eles vieram muito cedo com cocares e armas e, sob gritos de guerra, entraram pelo portão para nos assustar e, assim, ganharem muitas coisas. Eu concordei, sem levantar da minha cadeira, com os fortes gritos e, em seguida, fiz trocas com as armas e os adornos. Mais uma vez, percebemos, em seu comportamento, que eles estavam a ponto, por bem ou por mal, de se apossar de algumas coisas e que tentavam, a todo custo, abocanhar o máximo que pudessem. Um deles se tornou impertinente e começou, com todas as suas forças, a fanfarronar e a berrar ameaças, mas logo abaixou a crista, quando ninguém mais prestou atenção. Eles mandaram as mulheres e as crianças voltarem pelo rio, e permaneceram em pé sobre a passarela. No início, riam e ridicularizavam, xingavam e, por fim, jogaram pedaços de madeira. Em seguida, se retiraram. Um pouco mais tarde, os homens foram buscar uma canoa escondida riacho acima, depois de terem se convencido, ao observar nossos barcos, que esses estavam acorrentados de maneira muito segura. No entanto, durante sua ausência, à tarde, dois velhos e duas meninas atravessaram de repente a passarela, cantando. Quando nós estávamos prestes a lhes dar alguns presentes, eles chamaram os outros para que viessem. Especialmente as senhoras de idade tornaram-se novamente muito amáveis, e quando eu dei uma ordem, para evitar um escândalo, elas me levaram a mal. Retiraram-se para fora do portão e fizeram gestos de atirar com arco e flecha e os de cortar a cabeça. Mas, quando chegaram à ponte, já pareciam arrependidas por terem ido e se tornaram, novamente, amigáveis. Pedi a Garcia que as chamasse de volta para dar-lhes algumas miçangas. Em seguida, elas foram embora. Mal haviam saído, podia-se ouvir o estalar das porradas e os gritos desesperados da mesma menina pequena que havia sido maltratada no dia anterior. Logo depois, partiram todos rio abaixo em uma barcaça.

5 de janeiro de 1923.

Os índios ficaram sem aparecer durante sete dias, mas depois chegou um novo bando para nos visitar. Primeiro, era um grupo muito decente de 11 pessoas, que, ao chegar, ofereceu pupunha a todos e se comportou de modo muito decente. Infelizmente, uma hora mais tarde, apareceu outro grupo, mais numeroso e muito menos amável. O seu chefe era aquele índio que negociou comigo em 28 de maio e que, naquela ocasião, se fez de porta-voz. Ele me reconheceu imediatamente. Foi necessária alguma energia para mantê-los sob controle, pois o seu comportamento era grosseiro, desafiador e violento. Um tentou arrancar a capa de revólver vazia que estava no meu cinto. Um senhor idoso, que havia sido alvejado com uma flecha no braço, me contou com gestos eloquentes sobre sua luta contra os inimigos Múra. Nesse grupo, encontrava-se um rapaz simpático de uns 18 anos, Yi̯waká. Quando os outros se foram pelo rio para pernoitar, ele ficou sozinho e nos disse querer dormir conosco. Nós o levamos para o quarto, ele vestiu as nossas roupas e insistiu que gostaria de partir com a lancha para Manaus. Mais tarde, já escuro, veio ainda um segundo, o cara com a ferida no pescoço, Apairandé era o seu nome, e queria também dormir com a gente. Eu não gostei muito dessa ideia, mas deixei que os dois se arranjassem na cozinha - ou melhor, se desarranjassem - , onde eles, à sua maneira, puderam se aquecer perto do fogo. Quando tudo estava quieto, os dois se levantaram, atravessaram o rio e foram até os outros, mas retornaram após uma hora e voltaram a dormir tranquilamente até a manhã. Apairandé, o malandro, tentou, por duas vezes, enfiar sua mão pela fresta da janela da cozinha para roubar o quarto dos trabalhadores, que ficava ao lado, e conseguiu.

No dia seguinte, tivemos uma visita de manhã, 5h30, até à noite, 21h30. Alguns provaram do nosso jabá e, depois que superaram a primeira resistência, comeram até se fartar. Dois velhos deixaram que raspassem sua rala barba grisalha, outros queriam que lhes cortassem os cabelos, e fizemos a eles esse favor. Por fim, ainda exigiram pagamento! Noite adentro se dançou e cantou-se sob o luar. Enquanto isso, Apairandé, pela parte de trás da casa, tentou arrombar o armazém, mas foi pego em flagrante e foi terrivelmente encurralado.

Pela manhã, partiram lentamente no sentido sul, e na manhã seguinte retornaram os que haviam nos oferecido os frutos de pupunha. Pouco tempo depois, chegaram mais quatro barcos com umas 20 pessoas, entre eles o adolescente que, em 28 de maio, havia se manifestado de forma tão drástica sobre como cortaria minha cabeça. Ele também me reconheceu imediatamente e recapitulou os acontecimentos desse dia memorável. Nesse grupo, também estavam dois indivíduos mal afamados que haviam tentado assassinar pessoas do posto. Com um deles eu tive que gritar duramente e ameaçá-lo com a arma, porque ele queria subir pela parede e entrar no meu quarto. Seus barcos estavam carregados com milho, e eles nos presentearam com uma grande quantidade, enquanto as mulheres faziam bolos de milho. Dois dos barcos partiram rio abaixo, enquanto os outros cruzaram o rio para ir ao acampamento.

Na parte da tarde surgiram, de repente, uns gritos de guerra furiosos. Um índio com arco e flecha apareceu na ponte e chamou-me pelo nome em voz alta: "Yimoendayúb!", e desapareceu novamente. Do lado de lá, os gritos e bramidos continuaram: "Tayuká! Tayuká!" (= deixe-me matar!), ululava uma voz esmaecida em raiva. Finalmente, fez-se silêncio. Era somente um novo grupo que chegava, e essa foi a saudação entre as duas partes! Pouco tempo depois, os dois grupos vieram juntos até nós, felizes e em paz, mas com a mesma pintura preta de guerra. À noite, apareceram mais dois para dormir conosco. Mas, como antes de se deitarem, por várias vezes, comportaram-se de forma suspeita atrás da casa e nos causaram preocupações, dei um berro nos dois e os ameacei. Em seguida, eles fugiram, xingaram por algum tempo e se puseram a dançar danças de guerra do outro lado do rio até a meia-noite. - Essa foi a nossa noite de ano novo.

No dia seguinte, eles melhoraram significativamente e se comportaram decentemente, mas à noite, 19h30, seis homens chegaram do outro lado do rio e começaram a ficar ousados e desafiadores. Um começou a rondar a cerca e, secretamente, abriu o portão, claro, para que depois que tivessem terminado suas diabruras, pudessem escapar livremente. Quando viram que nós havíamos notado a história, fugiram.

Na manhã seguinte, recebemos, outra vez, visitas a partir das 5h30. Yi̯wakáhavia havia pintado no meu rosto o desenho do povo Parintintin, e, para isso, eu tive que pintar as mulheres. Ainda pela manhã, os que tinham posturas ameaçadoras partiram a jusante. Eles levaram as mulheres e as crianças, em segurança, para a margem direita do rio, enquanto os homens atracaram na margem esquerda. Alguns deles apareceram na frente do posto, exigindo machados e facões. Eles não receberam nada, e eu esperava que eles fossem atirar contra nós, mas ficaram algum tempo por ali e partiram decepcionados.

Um grupo de 16 cabeças ainda permaneceu. Três homens, cinco mulheres e oito crianças (ver fotografia! [Figura 14]), que foram embora somente no dia seguinte e que, após a retirada dos meliantes, comportaram-se de maneira muito agradável. Eles nos venderam alguns peixes e permaneceram o dia todo conosco, mas não roubaram nada, e só ficaram inconformados por não terem recebido machados e facões.

9 de janeiro de 1923.

No dia 6 veio, novamente, um grupo de três homens, três mulheres, uma moça e algumas crianças. O seu líder era um tal Yeií, que, de todos os Parintintin, foi o mais consequente e com quem se conviveu de maneira pacífica, uma vez que ele tinha começado a se relacionar. Decididamente, influenciou os demais de forma favorável. Ele chegou gritando e batendo portão adentro. Tinha o rosto, o peito e os membros pintados com grandes listras e manchas negras. Ele parecia muito perigoso, mas assim é a saudação dos Parintintin.

Trouxe-nos de presente dois bonecos de madeira, verdadeiros monstros!, e castanhas, e recebeu um barco, que eu mesmo trouxe para ele. Mesmo assim, depois quis nos vender um peixe por um machado e um facão. Quando não os obteve, levou o peixe de volta. Em suas exigências, ele era tão escandaloso quanto qualquer outro, mas não roubou e sabia lidar com as mulheres, quando elas queriam examinar nossos bolsos. A menina recebeu dos Múra uma flechada nas costas, abaixo do ombro direito. No primeiro dia, foi impossível trazê-la para a outra margem do riacho, por ter medo de nós. No segundo dia, ela veio cautelosa, mas, imediatamente, tornou-se tão meiga que andava atrás de nós como se fosse um cachorrinho. Quando eu expliquei a Yeií que a cicatriz em meu pé era proveniente de uma picada de cobra, ele fez uma observação ponderada: "É bom que você não tenha morrido, pois assim pôde nos trazer machados e facas!" - Bem, pelo menos eu sei por que eu ainda estou no mundo!

13 de janeiro de 1923.

Ontem, para quebrar o marasmo, houve um pequeno tiroteio pelintra. Havia cerca de 30 índios no posto e, mais precisamente, sete que haviam, novamente, subido o rio. Os outros eram do grupo de Yeií. Entre os primeiros estavam Ipuaĩ̒, que há alguns meses havia ferido nosso pessoal no terreiro com um punhal de bambu; Apairandé, um dos participantes na primeira negociação pacífica comigo, que há alguns dias havia dormido conosco na cozinha; e um certo Matikamondé, também conhecido meu de 28 de maio de 1922, quando demonstrou como iria cortar a minha cabeça. O primeiro é um dos piores elementos que existe entre os Parintintin; o segundo é covarde, mas atrevido; o terceiro, Garcia sempre tratou com especial consideração e deu a ele muita confiança. Na mesma manhã, ele tratou as terríveis frieiras de que sofria. Quando Matikamondé viu como também Yeií era privilegiado por nós, ficou com ciúmes e se mancomunou com Spuaĩ̒ e Apairandé, os quais, por causa de sua descompostura, não me eram simpáticos. Eu havia lhes dito isso alguns dias antes, quando se tornaram demasiadamente descarados e ladrões. Por volta de 9h30 da manhã, Matikomandé, do portão, começou uma discussão com o cozinheiro. Chamou mais alguns do outro grupo, entre eles o próprio Yeií e seu irmão Pi̯rá. Todos apareceram no canto sudeste da cerca, com gritos de guerra que chamavam o cozinheiro. Dispararam suas flechas contra a casa e destruíram a cerca. Quando saí, vi como Yeií, apenas com o arco na mão, se distanciou do grupo que atacava. Imediatamente, chamei por ele: "Yeií! Yeií! Entre! Eu não vou atirar!". E, realmente, Yeií veio portão adentro e permaneceu do nosso lado. Logo depois, ele buscou da cambada inimiga seu irmão Pi̯rá e um tal Oyiporuí̯, e os trouxe para nós. Mas esse último preferiu retornar ao grupo dos agressores, que, enquanto isso, com uma calma cínica, atirava flechas, uma após a outra, em nossa direção. No comando, estava Jpuaĩ̒, que nos desafiava a trazer as armas e atirar, e Matikomandé, ainda vestido de cuecas, que Garcia havia lhe dado naquela manhã. Garcia, indignado com o comportamento do seu protegido, correu para fora e o chamou. Matikomandé não titubeou, por conseguinte atirou prontamente três flechas com boa pontaria. Uma delas atingiu o canto através de duas paredes próximas e passou tão perto da cabeça do Garcia, que eu vi como ela quase tocou os seus cabelos. O covarde do Apairandé, enquanto isso, ficou na retaguarda e cortou o arame farpado com um facão. Por um instante, enquanto eu o esqueci e me dirigi aos demais, ele rapidamente apontou para mim e, por um fio, teria me acertado. Oyiporuí̯ aproximou-se cautelosamente através da cerca que havia sido destruída, resguardou-se atrás de uma árvore, que não estava a 3 m de distância da casa, e disparou de lá, apesar de todas as minhas admoestações. Assim, por cerca de 20 minutos, eu aguentei tudo isso e tentei, ao menos, trazer um ou outro à razão. Mas, quando tudo foi em vão, eu disparei uma rajada para o ar e nós dois corremos, simultaneamente, dos dois lados, em direção aos patifes que, rapidamente, deixaram cair os arcos e fugiram, entrando no brejo e através do riacho. Yeií e Pi̯rá permaneceram no posto e puderam acompanhar tudo. Pouco depois, os agressores viajaram de barco rio abaixo, exceto Oyiporuí̯, que logo foi chamado por Yeií, e retornou como se nada tivesse acontecido. Eu lhe dei uma bronca e ele se mostrou temeroso e constrangido. Depois, eu deixei que ele viesse até nós e lhe entreguei uma cuia cheia de farinha, que ele havia me pedido. Seria para os seus filhos! - o que se pode fazer com um sujeito assim? Eu deixei que os índios atirassem com flechas em um barril vazio e, em seguida, mostrei-lhes o efeito de tiros de arma de fogo no mesmo alvo. Hoje eles vieram novamente. Oyiporuí̯, por fim, roubou uma tigela e depois todos foram embora.

16 de janeiro de 1923.

Outra vez, por enquanto, meu último dia no posto! Ontem chegou a nossa lanchinha, vinda do Madeira acima, e amanhã, bem cedo, vou descer com ela para Nova Olinda e depois para Manaus e Belém.

Assim que os últimos do grupo de Yeií se retiraram, chegou uma nova tropa do sul tripulada por 40 pessoas. Mas eles eram simpáticos e decentes, e assim a minha última impressão do posto foi agradável. E, dessa forma, conclui-se essa quase interminável história dos índios.

Belém, 11 de fevereiro de 1923.

Quando já se foi funcionário do governo por diversas vezes, como eu, é preciso ter consciência de que se pode ser mandado embora a qualquer momento e estar preparado para todo tipo de surpresa agradável. No entanto, dessa vez, em Manaus, foi pior do que eu seriamente poderia temer. Bento Lemos se viu obrigado a suspender os trabalhos devido à falta de recursos. Nós, que nos cantos mais obscuros do Brasil ensinamos os guerreiros Parintintin a respeitar a bandeira verde e amarela, temos que pagar pelo que foi desperdiçado na praça do Rio de Janeiro. A mim coube a última tarefa, a de escrever as cartas determinando a desocupação do posto em Maici-Mirim e resolver sobre a retirada do pessoal de lá. Então, NOVAMENTE fui despedido do Serviço de Proteção aos Índios. É claro que o dinheiro não foi suficiente para realizar o meu pagamento. Bento Lemos viajará para o Rio. De qualquer maneira, com a extinção do posto, não se perdeu somente um ano inteiro de trabalho duro e perigoso, mas a situação anterior de conflito vai voltar de maneira pior.

Desci triste para o Pará, onde eu, para meu consolo, encontrei sua carta de 12.XII.1922 junto com um telegrama de Nordenskiöld: "Mil coroas enviadas com carta, envie coleção Parintintin". Felizmente, eu trouxe uma pequena coleção - cerca de 170 objetos - que eu já já enviarei para a Suécia. Eu preferiria vê-los em um museu alemão, mas se o Estado - e o governo federal, de forma tão consequente, dão calote no meu salário, então, infelizmente, não posso me dar ao luxo de ser um bom patriota e doar a coleção para um museu alemão. Dessa maneira, eu estou à espera de uma carta de Nordenskiöld para saber o que eu posso fazer com as "1.000 Coroas". É claro que ele quer antigos artefatos indígenas. Por mim, tudo bem, os mortos enterrados em suas urnas ao menos não dão flechadas e não cortam mais a cabeça de ninguém! - Bem, agora à sua carta, pela qual agradeço muito. Como a senhora ainda não retornou ao Pará, eu imagino que ainda não tenha sido despedida ou, o que é mais provável, não pode vir porque não recebeu o seu salário. Eu espero que, em breve, consiga se acertar com os norte-americanos para que possa retornar à Amazônia, refeita com a estadia no sul, para continuar seu trabalho aqui. Encontrar-nos-emos outra vez em algum lugar. Então, a um breve reencontro!

Seu

Curt Nimuendajú.

 

AGRADECIMENTOS

À família Snethlage, em especial Rotger e sua esposa Anne Elisabeth, e seu filho Alhard, que, além de trabalharem no processo de digitalização dos cadernos de campo, durante anos, têm me apoiado e me recebido em sua residência para que a maior parte possível do acervo de Emil-Heinrich Snethlage possa ser sistematizada, digitalizada e publicada. A Hein van der Voort, pelo apoio, críticas, correções, sugestões e auxílio na tradução e revisão deste artigo.

 

REFERÊNCIAS

CRÉQUI-MONTFORT, G.; RIVET, P. La Familie linguistique Čapakura. Journal de la Société des Américanistes de Paris. Nouvelle Série, v. 10, p. 119-171, 1913.         [ Links ]

HASEMANN, J. D. Some notes on the Pawumwa Indians. American Anthropologist, New Series, v. 14, p. 333-349, 1912.         [ Links ]

HELLMAYR, Charles. E. A contribution to the ornithology of Northeastern Brazil. Field Museum of Natural History, Zoological Series, v. 12, n. 18, p. 235-501, 1929.         [ Links ]

LOUKOTKA, Čestmír. Clasificación de las lenguas sudamericanas. Praha: Tipografía Josef Bartl, 1935.         [ Links ]

NEVERMANN, Hans. Emil Heinrich Snethlage zum Gedächtnis. Archiv für Anthropologie, Neue Folge, v. 54, p. 64-65, 1940.         [ Links ]

NIMUENDAJÚ, Curt. As tribus do alto Madeira. Journal de la Société des Américanistes de Paris. Nouvelle Série, v. 17, p. 137-145, 1925.         [ Links ]

NORDENSKIÖLD, Erland. Forschungen und Abenteuer in Südamerika. Stuttgart: Strecker & Schröder Verlag, 1924.         [ Links ]

NORDENSKIÖLD, Erland. Forskningar och Äventyr i Sydamerika. Stockholm: Alfred Bonniers Förlag, 1915.         [ Links ]

NORDENSKIÖLD, Erland. Indianer och hvita i nordöstra Bolivia. Stockholm: Alfred Bonniers Förlag, 1911.         [ Links ]

RIBEIRO, Eduardo Rivail; VAN DER VOORT, Hein. Nimuendajú was right: the inclusion of the Jabuti language family in the Macro-Jê stock. International Journal of American Linguistics, v. 76, n. 4, p. 517-583, 2010.         [ Links ]

SNETHLAGE, Emil Heinrich. Musikinstrumente der Indianer des Guaporégebietes. Berlin: Dietrich Reimer/Andrews & Steiner, 1939. (Baessler-Archiv, n. 10).         [ Links ]

SNETHLAGE, Emil Heinrich. Atiko Y. Meine Erlebnisse bei den Indianern des Guaporé. Berlin: Klinkhardt & Biermann, 1937.         [ Links ]

SNETHLAGE, Emil Heinrich. Übersicht über die Indianerstämme des Guaporégebietes. Bericht über die 2. Tagung 1936 in Leipzig. Tagungsbericht der Gesellschaft für Völkerkunde, p. 172-180, 1936.         [ Links ]

SNETHLAGE, Emil Heinrich. Unter nordostbrasilianischen Indianern. Zeitschrift für Ethnologie, v. 62, p. 111-205, 1931.         [ Links ]

SNETHLAGE, Emil Heinrich. Meine Reise durch Nordostbrasilien I. Reisebericht. Journal für Ornithologie, v. 75, n. 3, p. 453-484, 1927.         [ Links ]

SNETHLAGE, Rotger Michael. Leben, Expeditionen, Sammlungen und unveröffentlichte wissenschaftliche Tagebücher von Dr. Emil Heinrich Snethlage. In: CREVELS, Mily; VAN DE KERKE, Simon; MEIRA, Sérgio; VAN DER VOORT, Hein (Eds.). Current studies on South American Languages. Leiden: Research School of Asian, African, and Amerindian Studies, 2002. (Indigenous Languages of Latin America, 3). p. 75-88.         [ Links ]

STRESEMANN, Erwin. Zur Erinnerung an Dr. Emil-Heinrich Snethlage. Journal für Ornithologie, v. 88, n. 4, p. 613-616, 1940.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Gleice Mere
Avenida Guaporé, 5994.
Condomínio Torres de Espanha, Edifício Barcelona, ap. 901. Rio Madeira
CEP 76821-430, Porto Velho, RO, Brasil
gleicemere@yahoo.com

Recebido em 03/04/2013
Aprovado em 05/09/2013

 

 

1 Em 1923, Emilie Snethlage já havia se transferido para o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em razão das dificuldades financeiras que o estado do Pará e, consequentemente, o Museu Goeldi atravessavam. Ali trabalhou como pesquisadora viajante.
2 Em suas publicações e documentos originais, Snethlage adotou a grafia Amniapä/Mampiapä e Guaratägaja, em virtude de, na língua alemã, [ä] ter o som de [é]. Para esta publicação, adotei a grafia utilizada no Brasil, que é Amniapé/ Mampiapé e Guarategaja.
3 Os nomes dos locais citados no roteiro de viagem do pesquisador foram atualizados, tendo em vista a mudança da grafia na língua portuguesa, assim como as novas divisões políticas e o nome de algumas cidades. Esse é, por exemplo, o caso do estado de Goiás, dividido em 1989 para a criação do estado do Tocantins. O itinerário foi extraído de Snethlage (1927).
4 Nesse artigo, Snethlage empregou o nome Krãn para designar os povos do grupo Timbira. Especifica a pronúncia desse nome com a seguinte nota de rodapé: "O [a] é nasalizado. Em português, esse som nasal é escrito como [ã]. No entanto, para não induzir a uma falsa pronúncia, acrescentei um [n]".
5 A numeração foi inserida no relatório pelo próprio pesquisador, aparentemente, a fim de indicar uma explicação mais detalhada a respeito dos locais que visitou. No entanto, a numeração entre parênteses na primeira parte do texto é mais longa do que os itens que enumerou na segunda parte. Uma análise mais detalhada desse relatório manuscrito é possível se comparado ao itinerário publicado no livro "Atiko Y" (Snethlage, 1937).
6 Em 1938, tropas alemãs invadiram e se apoderaram da Áustria, que até o final da guerra passou a fazer parte do Estado Alemão, portanto, durante a guerra, a região era considerada território da Alemanha. Ao final da guerra, na Conferência de Ialta, foi assinado um acordo entre os Aliados, que separou a Alemanha da Áustria e também dividiu os dois países. França, Reino Unido, Estados Unidos e Rússia criaram quatro zonas de ocupação na Áustria e quatro zonas de ocupação na Alemanha. A ocupação da Áustria permaneceu até outubro de 1955. Quando Anneliese Snethlage migrou para a Áustria, aos olhos do Estado Alemão, ela não emigrou para outro país, apenas recebeu uma autorização especial para viver em uma região que não era afetada por bombardeios e que lhe permitia condições para desenvolver trabalho intelectual, no caso, a transcrição dos manuscritos de seu falecido marido.
7 A lista comparativa do vocabulário Arikapú e Djeoromitxí é apresentada em sua forma original. Com base nos vocabulários coletados por Emil e compartilhados com Nimuendajú, foi possível relacionar ambas as línguas como pertencentes ao tronco linguístico Jê, hoje conhecido como Macro-Jê. Essa descoberta é surpreendente, pois as línguas Macro-Jê são geralmente conhecidas somente no centro-leste do Brasil. A Figura 13 é o documento original no qual Nimuendajú baseou sua hipótese, recentemente confirmada com evidências sistemáticas de Ribeiro e van der Voort (2010).
8 Por falta de apoio para a pesquisa, nunca pude organizá-los. As páginas de diferentes manuscritos encontram-se sem numeração, misturadas em pastas que, apesar de separadas, não possuem uma organização que conduza a uma leitura contínua. Diferentemente das páginas do diário, que, mesmo misturadas, devido à numeração, permitiram uma sistematização mais rápida e precisa para a digitalização.
9 A grafia dos nomes dos povos citados nesta tradução e nas demais é a mesma utilizada pelo autor em seu texto original em alemão.
10 Comparação de todos os grupos linguísticos da região.
11 Segundo Loukotka (1935), os Tschapakura, Itene e Abitana indicam vestígios de Jê na sua língua.
12 Segundo Loukotka (1935), intrusão de Aruak.
13 Segundo Loukotka (1935), misturados com Caribe.
14 Abreviação de Otto Schultz-Kampfhenkel, geógrafo alemão, pesquisador viajante e cineasta.
15 Referência ao rio Cuc, afluente do rio Jari no Amapá.
16 O formato em caixa alta, nesta e nas demais traduções, é oriundo do documento original.
17 Da mitologia dos Botocudos, espíritos encantados que habitam o mundo de cima.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License