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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122On-line version ISSN 2178-2547

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.11 no.1 Belém Jan./Apr. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222016000100012 

Artigos

Do avortado ao comprado: práticas alimentares e a segurança alimentar da comunidade quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará

From production to market: food habits and food safety of the quilombola community of baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará

Elcio Costa do NascimentoI 

Gutemberg Armando Diniz GuerraI 

IUniversidade Federal do Pará. Belém, Pará, Brasil


Resumo

Este trabalho apresenta a análise e compreensão das diferentes estratégias de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) desenvolvidas pelas famílias da Comunidade Quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. A comunidade enfrenta mudanças em suas práticas alimentares, devido à redução dos recursos naturais (animais de caça, peixes e camarões), à diminuição das áreas para produção agrícola e ao aumento do valor comercial da produção. Utilizando uma abordagem qualitativa e os procedimentos de observação participante, entrevista semiestruturada, registro fotográfico, listagem livre e oficinas sobre hábitos alimentares, buscou-se obter informações que permitissem uma compreensão das práticas produtivas e alimentares localmente desenvolvidas. Observou-se maior especificação da produção, diminuindo a diversidade das espécies cultivadas e reduzindo a autossuficiência das famílias; aumento da importância do extrativismo do açaí como fator econômico gerador de renda; substituição de produtos naturais (sucos, chás) por produtos industrializados (café, refrigerante); aumento do poder aquisitivo, estimulado pelo comércio e pelos benefícios sociais recebidos (bolsa família, aposentadoria e seguro defeso). Essa realidade tem influenciado as práticas produtivas e alimentares das famílias, interferindo nas decisões produtivas e na aquisição dos alimentos, tornando-as cada vez mais dependentes do comércio e da geração de renda para garantir a SAN das famílias quilombolas.

Palavras-chave Agricultura familiar; Autossuficiência; Extrativismo; Autoconsumo

Abstract

This research presents the analysis of different strategies of Food and Nutritional Security (SAN) developed by the families of the Quilombola Community of baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. The community is facing changes in their eating habits due the reduction of natural resources (hunting animals, fish and shrimps), decrease of the area for agricultural production and increase of the commercial value of production. Using a qualitative approach and the following procedures: participant observation, semi-structured interviews, photographic record, itemized lists and workshops on eating habits, we investigated the community and their production and food practices. We observed a higher specialization of production, decreasing the diversity of local production and of the families’ self-sufficiency; increasing in the importance of extraction of açaí as an income generator; substitution of natural products (natural juices, teas) for industrial products (coffee, soda); increase in purchasing power, stimulated both by market trades and the social benefits received (bolsa família, pension and seguro defeso). This reality has significantly influenced the production practices and eating habits of the local families, interfering with production decisions and food acquisition, making families dependent on trade and income generation in order to ensure the SAN of the quilombola families.

Keywords Family farming; Self-sufficiency; Extractivism; Self-consumption

INTRODUÇÃO

As práticas e hábitos alimentares são socialmente construídos. As escolhas e o consumo dos alimentos são, segundo Peña e Molina (1999, p. 4), influenciados por diversos fatores, como os saberes locais, os costumes, a cultura, a disponibilidade e o acesso ao alimento. Estes fatores, conjuntamente com as experiências gustativas, as condições sociais, ambientais e locais de existência, refletem na construção de uma identidade alimentar própria e específica, que designa as práticas e as ações aceitas por um determinado grupo, contribuindo para a aquisição de certos hábitos (Pacheco, 2008, p. 218, 221; Castro, 1967, p. 38; Maciel, 2001, p. 149).

Brondízio e Neves (1997, p. 168) afirmam que o caboclo amazônico desenvolveu um sistema adaptado “sustentado por práticas de subsistência eminentemente indígenas”. Estas práticas tinham como estratégia principal a combinação de atividades e usos dos recursos naturais, como a agricultura, a pesca, o extrativismo e a caça (Cerdeira et al., 1997, p. 1). Segundo Brondízio et al. (2002, p. 68-70), as comunidades caboclas combinam produções direcionadas tanto para o consumo familiar quanto para os mercados locais e/ou regionais, garantindo, dessa forma, a continuidade da unidade de produção, indiferentemente dos altos e baixos preços praticados nas redondezas.

Murrieta et al. (1989, p. 148) afirmam que o caboclo amazônico desenvolveu um sistema adaptativo que objetiva estabelecer uma harmonia entre o homem e a natureza, baseada na preservação do espaço, dos recursos naturais e não destruição “do delicado e complexo equilíbrio” existente entre as florestas e os rios da região, necessários para sua reprodução social, cultural e alimentar (Allegretti, 1996, p. 26).

Segundo Fuller (1990), as comunidades amazônicas possuem a capacidade de desenvolver práticas que vão além da produção agrícola, executando atividades de transformação e venda direta da produção, garantindo a segurança alimentar, a manutenção de características sociais e culturais, aliadas à proteção da natureza (Cazella e Roux, 1999; Cazella et al., 2009). Entre essas práticas, Wagley (1988) descreveu a importância do extrativismo para a reprodução social, cultural e econômica de comunidades amazônicas, principalmente durante os “surtos” econômicos que remontam à história do desenvolvimento da região. Castro (1965), apesar de criticar e chamar a prática extrativista de “destrutiva”, demonstra diferentes atividades desenvolvidas na Amazônia, que vão desde a simples coleta de sementes, frutos, raízes e cascas de árvores, a caça e a pesca, até a extração do látex, de óleos e de resinas vegetais. Estas atividades eram desenvolvidas tanto com objetivos comerciais (geração de renda) quanto de autoconsumo. Castro (1965) comenta sobre o papel que as frutas nativas, principalmente o açaí, detêm na alimentação da população amazônica.

No âmbito amazônico, a prática alimentar, largamente difundida, concentra-se no binômio peixe e mandioca (Adams et al., 2005; Murrieta, 1998, 2001). Murrieta (1998) afirma que outros elementos, como frutas, cereais, arroz e feijão, também fazem parte da dieta, porém atuam de maneira complementar, aparecendo com menos frequência no prato do amazônida. Maciel (2001, p. 149) afirma que tal característica foi influenciada pelo meio ambiente, pelas técnicas produtivas utilizadas, pelas crenças e, principalmente, pelos recursos naturais disponíveis localmente, capazes de garantir o acesso a uma alimentação de qualidade e em quantidade suficiente.

Para as comunidades negras, o extrativismo desenvolveu papel importante no processo de fixação e escolha dos seus territórios (Almeida, 2002, p. 49). A viabilidade agrícola e a existência de recursos naturais passíveis de utilização foram, segundo Marin e Castro (1998, p. 41) e Nascimento Junior et al. (2000, p. 50), características importantes na ocupação quilombola na região amazônica. Os autores descrevem a importância das comunidades negras para o comércio regional, fornecendo produtos como café, tabaco, castanha, salsaparrilha e cacau nativo.

Estes fatores – capacidade agrícola e acessibilidade dos recursos naturais – são essenciais para a garantia da segurança alimentar e nutricional (SAN) de um grupo, povo ou sociedade (Brasil, 2006). De acordo com Bentes (2003, p. 149), fatores impeditivos de acesso aos recursos locais que prejudiquem uma produção adequada e o acesso a uma alimentação de qualidade são as principais razões para situações de fome e insegurança alimentar. Entre as comunidades quilombolas, podemos acrescentar a falta de posse de terra, a ausência de uma renda monetária, o aumento de doenças, fatores ambientais, a marginalidade e o analfabetismo (Silva et al., 2008) como aspectos restritivos à obtenção de segurança alimentar.

A comunidade quilombola do baixo Acaraqui, alvo desta pesquisa, apesar de ter seu território reconhecido em 2002 e, dessa forma, garantido o acesso livre aos recursos naturais, vem enfrentando desafios na busca de melhorias de qualidade de vida e na garantia da reprodução das famílias locais. O desmatamento, a redução no quantitativo de animais de caça, peixes e camarões (elementos que fazem parte da dieta local), a diminuição do tamanho das áreas destinadas à produção agrícola, a falta de saneamento básico, de água potável e de acesso a direitos básicos, como saúde e educação, acarretam em vulnerabilidade social, prejudicando a garantia da segurança alimentar das famílias da localidade.

Nesse contexto, objetivou-se, a partir de uma abordagem qualitativa de pesquisa, observar as práticas alimentares e produtivas, analisar e compreender as estratégias de segurança alimentar e nutricional desenvolvidas pelas famílias da comunidade quilombola do baixo Acaraqui.

SITUANDO E CARACTERIZANDO A COMUNIDADE

A comunidade quilombola do baixo Acaraqui (Figura 1) situa-se no município de Abaetetuba, a 56 km da capital paraense, Belém. Forma, junto com outras sete comunidades quilombolas (médio Itacuruçá, médio Acaraqui, alto Itacuruçá, baixo Itacuruçá, Arapapu, rio Tauaré-açu e Jenipaúba) o território quilombola das ilhas de Abaetetuba. O acesso à comunidade é feito somente por via fluvial. Da sede do município de Abaetetuba, desloca-se aproximadamente por 20 a 30 minutos pelo rio Pará, passando pelo rio Arapapu e, em seguida, pelo rio Acaraqui, onde fica localizada a comunidade estudada (ITERPA, 2010, p. 4).

Figura 1 Localização da comunidade quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. Fonte: adaptado de Santos e Coelho-Ferreira (2012, p. 3)

O sistema de fornecimento de água potável é inexistente, desse modo, as famílias quilombolas locais recorrem à água do rio Acaraqui nos afazeres diários (lavar louça, roupa etc.) e para a higiene pessoal, sendo necessários produtos industrializados, como o sulfato de alumínio, para o clareamento da água utilizada na lavagem das roupas. A água empregada no consumo familiar é adquirida em poços existentes em áreas de terra firme, geralmente distantes, e as famílias fazem esse deslocamento em barcos, carregando baldes, garrafas, carotes1 e garrafões, para realizar o transporte da água potável para seus lares. O saneamento básico também não existe e as famílias fazem uso de banheiros com fossa a céu aberto, geralmente distantes das casas. O lixo é queimado no fundo dos quintais, uma vez que não há sistema de coleta de resíduos sólidos.

A educação básica na comunidade é garantida pelas duas escolas da localidade: Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Santa Ângela. Ambas oferecem educação até a 4ª série ou 5º ano, em salas multisseriadas. Após esse período, os estudantes se deslocam para a cidade de Abaetetuba, para dar continuidade aos estudos. Em ambas as escolas há merenda escolar para as crianças, porém, segundo os moradores, oferecem predominantemente produtos industrializados, como bolachas, achocolatados, sucos industrializados e enlatados. Conforme informações obtidas nas escolas, apenas o açaí é inserido como produto natural na merenda escolar, sendo fornecido somente na época da safra do fruto, na forma de mingau, geralmente misturado com arroz e, mesmo assim, em poucas ocasiões.

COLETA DE DADOS

Antes do início da pesquisa, foram realizadas reuniões com membros da Associação dos Remanescentes de Quilombo das Ilhas de Abaetetuba (ARQUIA), que representa as comunidades do território quilombola, nas quais foi explicada a natureza e os objetivos da pesquisa, Solicitando o consentimento para a realização da mesma na região, bem como foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para as famílias entrevistadas, as quais, ao assinarem o documento, demonstraram consentimento em participar da pesquisa

Foram realizadas quatro visitas à comunidade quilombola do baixo Acaraqui, três realizadas no período de maio a outubro de 2012, e uma em janeiro de 2013. O tempo de permanência em cada uma das visitas foi, em média, de 15 dias.

Foram entrevistadas 25 das 35 famílias residentes na comunidade quilombola, alcançando-se, dessa maneira, 68,5% das famílias locais. A média de habitantes por unidade familiar é de cinco pessoas. A renda das famílias é proveniente, principalmente, do extrativismo do açaí (Euterpe oleracea Mart.), do buriti (Mauritia flexuosa L. f.), da pesca e da produção e comercialização do carvão e da mandioca. Os benefícios do governo federal aparecem como a segunda fonte de renda mais importante na comunidade quilombola do baixo Acaraqui. Das 25 famílias entrevistadas, 13 (52%) declaram receber recurso do Programa Bolsa Família (PBF) e 9 (36%) declaram receber a aposentadoria.

Os dados foram coletados por meio de observação participante, entrevista semiestruturada, registro de áudio e de imagens (Poulain e Proença, 2003, p. 374), listagem livre (Santos e Coelho-Ferreira, 2012, p. 3) e oficina sobre os hábitos alimentares (Weitzman, 2008, p. 89).

A observação participante, utilizada durante todo o trabalho de campo, teve como princípio direcionador o maior envolvimento entre o pesquisador e a comunidade em foco, através da convivência com as famílias, e proporcionou a apropriação de informações que permitiram uma compreensão sobre o funcionamento da comunidade e de suas práticas produtivas e alimentares (modo de vida, formas de produção e aquisição de alimentos, moradia, transporte e práticas desenvolvidas e não informadas durante as entrevistas).

As entrevistas semiestruturadas tiveram por objetivo estimular o entrevistado a falar abertamente, sem perder o foco da pesquisa e nem o direcionamento da entrevista. Buscou-se criar um ambiente confortável, no qual o entrevistado pudesse se expressar livremente, sem as limitações criadas por um questionário. As entrevistas foram gravadas, anotadas e posteriormente transcritas, para favorecer a análise.

O registro fotográfico foi utilizado como ferramenta para captação de imagens das práticas, dos costumes, das atividades e como registro cronológico da pesquisa de campo. Para os registros do áudio, foi utilizado um gravador, para melhor transcrição e análise das falas das famílias.

A listagem livre parte do princípio de que os produtos primeiramente citados, e com maior frequência de citações, são os que têm maior importância cultural (Santos e Coelho-Ferreira, 2012, p. 3). Esta técnica foi adotada para identificar os alimentos mais consumidos e comercializados pelas famílias da comunidade quilombola do baixo Acaraqui (frutas, animais e mariscos2) e as mudanças nas práticas alimentares ao longo do tempo.

A oficina teve como objetivo proporcionar uma visão geral das práticas alimentares das famílias quilombolas em comparação com as informações obtidas nas entrevistas individuais. Utilizou-se a dinâmica da oficina “mudanças nos hábitos alimentares ao longo dos anos”, proposta por Weitzman (2008, p. 89, 90). Buscou-se, com esta técnica: a) perceber a diferença e/ou mudança entre os hábitos alimentares “no tempo das avós e dos avôs”, “no tempo dos pais e das mães” e no “tempo atual”; b) analisar as causas das mudanças nos hábitos alimentares e pensar em alternativas para recuperar alguns alimentos que eram consumidos antigamente, assim como visualizar as perspectivas de futuro das famílias quilombolas. Foram produzidos cartazes fazendo referência às práticas alimentares e às refeições do “passado”, “presente” e “futuro”.

DO “AVORTADO” AO COMPRADO

A referência a um passado de fartura3, ou avortado4, foi recorrente nas falas das famílias entrevistadas da comunidade quilombola do baixo Acaraqui. Quando questionados sobre como era a alimentação “no tempo dos pais” em comparação com a alimentação “no tempo presente”5, os entrevistados fizeram alusões tanto à quantidade quanto à facilidade na obtenção dos alimentos, principalmente no que concerne aos mariscos (peixes e camarões) provenientes do rio Acaraqui, dos igarapés, e às caças obtidas em excursões “mata adentro”:

Os pais dela, principalmente, gostavam muito da caça, né? Na casa deles não falhava a caça. De noite, quando ele tinha folga, ia pro mato caçar... Tinha tatu, veado, porco-do-mato, paca, cutia (Seu Luis, aposentado).

(...) na época que a gente se criou era mais fácil a alimentação, né! Você saía pra colocar uma rede aqui no rio, colocar uma linha6, era fácil pra pegar o peixe. Tinha uma quantidade maior. Você colocava uma rede aqui, você com pouco minuto tirava e vinha cheio de peixe (Dona Maria da Glória, lavradora e dona de casa).

A facilidade na obtenção, a fartura existente, a quantidade e, principalmente, a acessibilidade a uma alimentação contínua foram as principais mudanças apontadas pelas famílias locais com relação à alimentação atual. Nas falas anteriormente apresentadas, observa-se a variedade de opções alimentares (diversas espécies de caça e pesca) e a facilidade na obtenção desses alimentos existentes “no tempo dos pais” (Tabela 1). Vale ressaltar a importância dos produtos agrícolas como a mandioca (Manihot esculenta Crantz), o maxixe (Cucumis anguria L.), o milho (Zea mays L.), o feijão (Phaseolus vulgaris L.) e o arroz (Oryza sativa L.) na alimentação local.

Tabela 1 Alimentos consumidos "no tempo dos pais", de acordo com cada refeição, segundo as famílias da comunidade quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. 

Refeição Alimentos Número de citações Local de aquisição
Café da manhã Sucos de diversas frutas 14 Quintal
Tapioca 12 Roça (subproduto da mandioca)
Beiju chica e d'água 8 Roça (subproduto da mandioca)
Bolachas e roscas 6 Feira de Abaetetuba
Chá de capim-santo ou capim-marinho (Cymbopogon citratus (DC.) Stapf) e canela (Cinnamomum zeylanicum Breyn). 6 Quintal
Merenda da manhã Caribé (mingau) 25 Roça (subproduto da mandioca)
Mingaus diversos (farinha de mandioca, miriti, banana e de açaí com banana verde) 25 Quintal e/ou floresta
Pupunhas cozidas 20 Quintal
Castanhas 15 Quintal e/ou floresta
Vinho de miriti 10 Quintal e/ou floresta
Almoço Peixes: tucunaré (Cichla monoculus Spix & Agassiz, 1831.), tambaqui (Colossoma macropomum Cuvier, 1818), mapará (Hypophthalmus edentatus Spix & Agassiz, 1829), mandií (Pimelodus blochii Valenciennes 1840), mandubé (Ageneiosus inermis Linnaeus, 1766) 25 Rio Acaraqui
Carne de caça7: capivara (Hydrochoerus hydrochaeris Linnaeus, 1766), jacarés (Caiman crocodilus Linnaeus, 1758 e Melanosuchus niger Spix, 1825)8, tatu (Dasypus spp.), veado (Mazama sp.), cutia (Dasyprocta sp.), paca (Cuniculus paca Linnaeus, 1766), mucura (Didelphis marsupialis Linnaeus, 1758), porco-do-mato (Tayassu pecari Link, 1795), catitu (Pecari tajacu Linnaeus, 1758) 25 Floresta, quintal e/ou rios da região
Almoço Carne de serimbabo9: frango, galinha caipira, porco, pato e peru 25 Quintal
Camarão de água doce (espécies diversas) 25 Rio Acaraqui
Açaí (Euterpe oleracea Mart.) in natura com farinha de mandioca 25 Quintal
Uruá: espécie de caramujo (Neritina (Vitta) zebra Bruguière, 1792)10 6 Rio Acaraqui
Merenda da tarde Pães, bolachas, rosca 12 Feira de Abaetetuba
Chás 6 Quintal
Café 4 Mercearias locais e feira de Abaetetuba
Jantar (quando tinha) Repetição dos alimentos consumidos no almoço -
Jantar (quando não tinha) Mingau de arroz, de açaí, de farinha ou da curera ou caruera da farinha11 19 Roça e quintal

A alimentação das famílias da comunidade quilombola do baixo Acaraqui tem como base o açaí (Euterpe oleracea Mart.), os mariscos e a farinha de mandioca (Figura 2), recursos de maior disponibilidade na região, refletindo, dessa forma, na construção de uma prática alimentar influenciada pelo meio e pelos recursos disponíveis. Essa realidade está associada ao desenvolvimento de práticas alimentares com um elevado grau de adaptação ao ambiente, construídas pelas famílias locais ao longo do tempo. A influência do meio ambiente e dos recursos naturais na construção de hábitos alimentares e na formação de uma identidade alimentar, cultural e social pode ser observada nos trabalhos de Maciel (2001), Murrieta et al. (1989), Murrieta (1998), Moran (1990), Setton (2002), Brondízio e Neves (1997), Brondízio et al. (2002), Marin e Castro (1998, 2004). Constatou-se a importância da combinação de diferentes sistemas de produção/obtenção dos alimentos como a caça, a pesca, a produção agrícola, a coleta e extração de frutas, entre elas o açaí (Cerdeira et al., 1997), nas estratégias sociais, econômicas e culturais das famílias da comunidade.

Figura 2 Refeição típica das famílias do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará: A) camarões (mariscos); B) farinha de mandioca; C) açaí. Foto: Gutemberg Guerra, 2012. 

As dificuldades na obtenção de renda enfrentadas pelas famílias locais eram devidas, principalmente, à baixa valorização dos seus produtos no mercado local “no tempo dos pais” e pela dificuldade de acesso ao comércio da cidade de Abaetetuba (distância e falta de infraestrutura). Segundo alguns relatos feitos pelos entrevistados, estas dificuldades foram decisivas no desenvolvimento das práticas alimentares locais, influenciando nos sistemas de produção direcionados para a prática da caça, da pesca, do extrativismo e da produção agrícola, tendo como espécies cultivadas de maior relevância a mandioca, o feijão e o arroz, destinados quase que exclusivamente para o consumo da unidade familiar. Seu Miguel comenta:

Naquela época era difícil de vender as coisas. Não é que nem agora, que você leva mil pencas de maxixe e você vende rapidinho; a um real é mil reais que você faz. Naquela época não, a gente levava, a gente trocava no mercado de carne, papai tinha uns amigos lá que ele trocava por bucho ou cabeça de boi pra gente trazer, por que a gente não conseguia vender a dinheiro. Papai tirava a tapioca levava já trocado, não é como agora que tudo que você leva pra Abaeté você vende, consegue vender. Aí se torna fácil por essas partes (Seu Miguel, lavrador e pescador).

Durante as entrevistas e na oficina sobre hábitos alimentares, quando questionados sobre como eram as refeições “no tempo dos pais” (café, merenda da manhã, almoço, merenda da tarde e jantar), observouse uma maior ocorrência de alimentos naturais ou de seus subprodutos, extraídos ou produzidos localmente, provenientes da floresta, dos quintais e da roça (Tabela 1). Porém, quando comparada com a alimentação “no tempo presente” (Tabela 2), essa realidade se modificou significativamente, com maior inclusão de produtos industrializados e de fácil preparação (macarrão instantâneo, enlatados e embutidos), elevada presença de sucos industrializados e refrigerantes, acarretando em aumento dos gastos com alimentos adquiridos nos mercados locais (mercearias e mercadinhos existentes na comunidade) ou na feira de Abaetetuba12.

Tabela 2 Alimentos consumidos "no tempo presente", de acordo com cada refeição na comunidade quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. 

Refeição Alimentos Número de citações Local de aquisição
Café da manhã Pão francês, pão caseiro e pão torrado13 25 Cidade de Abaetetuba
Café com leite 19 Cidade de Abaetetuba
Bolachas e roscas 15 Cidade de Abaetetuba
Manteiga 13 Cidade de Abaetetuba
Merenda da manhã Refrigerante 18 Cidade de Abaetetuba
Sucos de frutas 14 Quintal
Suco de pacote ou Ki-suco (industrial) 12 Cidade de Abaetetuba
Bolo de macaxeira 8 Roça (subproduto da mandioca)
Caribé ou mingau de farinha de mandioca 6 Roça (subproduto da mandioca)
Mingau de miriti (Maurítía flexuosa L. f.), de arroz e de banana 6 Quintal, florestas e ou roça (banana e arroz)
Almoço Peixes: tucunaré (Cichla monoculus Spix & Agassiz, 1831), tambaqui (Colossoma macropomum Cuvier, 1818), mapará (Hypophthalmus edentatus Spix & Agassiz, 1829), mandií (Pimelodus blochii Valenciennes 1840), mandubé (Ageneiosus inermis Linnaeus, 1766) 25 Rio Acaraqui
Carne vermelha, geralmente bovina 25 Cidade de Abaetetuba
Almoço Carne de galinha de granja, galinha caipira (somente aos domingos) 25 Quintal (caipira), cidade de Abaetetuba (granja)
Camarão de água doce (diversas espécies) 25 Rio Acaraqui
Açaí in natura com farinha de mandioca 25 Quintal
Feijão com charque (raramente), geralmente aos domingos 21 Cidade de Abaetetuba
Enlatados e embutidos: mortadela, carne defumada, linguiça, carne enlatada 17 Comércio local e na cidade de Abaetetuba
Merenda da tarde Pães, bolachas, rosca 25 Cidade de Abaetetuba
Café, suco de pacote (Ki-suco) e de fruta 25 Comércio local e na cidade de Abaetetuba
Refrigerante 18 Comércio local e na cidade de Abaetetuba
Jantar (quando tem) Repetição dos alimentos consumidos no almoço
Jantar (quando não tem) Mingau de arroz, de açaí, de miriti 25 Quintal e roça (arroz)

A presença de variados tipos de frutas, consumidas tanto in natura quanto em forma de sucos (Tabela 3), dos chás, dos mingaus e, principalmente, do açaí, indica a importância das árvores frutíferas e das ervas na alimentação das famílias do baixo Acaraqui. O consumo de beijus, tapioca e da farinha de mandioca propriamente dita, tanto in natura quanto em forma de mingaus (caribé), como acompanhamento nas refeições (almoço e jantar) ou misturada ao açaí, aponta para o grau de relevância que a produção agrícola possui, tendo como base principal o cultivo da mandioca, na vida social, cultural e econômica da comunidade.

Tabela 3 Relação das frutas mais consumidas pelas famílias da comunidade quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. 

Nome comum Nome científico
Abacaxi Ananas sativus Schult. & Schult. f.
Abiu Poutería caimito (Ruiz et Pavon) Radl.
Açaí Euterpe oleracea Mart.
Acerola Malpighia punicifolia L.
Ajuru Chrysobalanus icaco L.
Bacaba ou abacaba Oenocarpus bacaba Mart.
Bacuri Platonia insignis Mart.
Banana Musa sp.
Buriti ou miriti Mauritia flexuosa L. f.
Cacau Theobroma cacao L.
Caju Anacardium occidentals L.
Cana-de-açúcar Saccharum officinarum L.
Castanha-do-pará Bertholletia excelsa Bonpl.
Coco Cocos nucifera L.
Cupuaçu Theobroma grandiflorum (Willd. ex Spreng.) K. Schum.
Ingá Inga edulis Mart.
Inajá Maximiliana maripa (Aubl.) Drude
Jambo vermelho Syzygium malaccense (L.) Merr. & L.M. Perry
Jambo rosa Syzygiumjam bolanum (Lam.) DC.
Laranja Citrus sp.
Limão Citrus sp.
Mamão Carica papaya L.
Manga Mangifera indica L.
Pupunha Bactris gasipaes Kunth
Tangerina Citrus reticulata Blanco
Tucumã Astrocaryum vulgare Mart.

O preço baixo obtido pelas famílias por sua produção incentivou o desenvolvimento de estratégias de obtenção de bens ou de produtos que não eram feitos pela unidade familiar. O sistema de troca e/ou comercialização entre familiares, amigos e vizinhos foi amplamente disseminado, garantindo uma maior variedade de tipos de alimentos disponíveis. Além de ampliar os laços de amizade entre as famílias locais, segundo Marques et al. (2007), esses tipos de relações são capazes de “selar alianças”, através de uma reciprocidade mútua entre os praticantes, a qual, entre as famílias locais, é demonstrada pelo favorecimento na hora da comercialização ou troca, pois quando a transação não é realizada com recursos monetários, é feita por meio de escambo entre as famílias da comunidade:

Eu tenho um casal de porco, vive só preso, esbandalha todo o terreno, o porco a gente mata, tira pra bóia, vende pros vizinhos (Seu Miguel, lavrador e pescador).

É pro consumo (a criação de xerimbabos), como eu falei pra você, meu sonho assim é de criar e dar assim pro meus filhos. Eu não tenho assim uma ambição assim, vamos supor eu criar, 20, 15 frangos, quer dizer que eu vou vender tudinho aquelas criação? E quando precisar como é? Às vezes a gente vai comprar muito mais caro do que a gente vendeu (Dona Ivanilda, lavradora e dona de casa).

Entre esses produtos, os mais destacados pelas famílias foram a farinha de mandioca, os mariscos (peixes e camarão) e a criação dos xerimbabos. Outra característica que estimulou o sistema de trocas e/ou comercialização foi o fato de que nem todas as famílias da comunidade possuem roça. Por isso, adquirem a farinha trocando-a por peixes e camarões no inverno. No verão, de agosto a dezembro, época da safra do açaí, esse produto é utilizado nos processos de troca por outros alimentos. O relato da troca de açaí, peixes e camarões, principalmente pela farinha, com moradores da comunidade quilombola do médio Acaraqui14, foi apontado pelas famílias locais nas entrevistas.

Durante as entrevistas, as famílias descreveram as espécies de animais de caça (Tabela 1) e as espécies vegetais cultivadas nas roças “no tempo dos pais” e “no tempo presente” (Tabela 4). Observa-se que “nos tempos dos pais”, os principais alimentos que constituíam a base da alimentação da unidade familiar, como o arroz e o feijão, eram produzidos localmente, barateando os custos e facilitando o acesso aos alimentos:

Tabela 4 Relação das espécies vegetais cultivadas nas roças "no tempo dos pais" e "no tempo presente" na comunidade quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. 

Nome comum Nome científico Tempo dos pais Tempo presente
Maniva/macaxeira Manihot esculenta Crantz X X
Milho Zea mays L. X X
Maxixe Cucumis anguria L. - X
Melancia Citrullus lanatus (Thunb.) Matsum. & Nakai X X
Jerimum Cucurbita pepo L. X X
Arroz Oryza spp. X -
Feijão Phaseolus vulgaris L. X -
Gergelim Sesamum indicum L. - X

Eu (me) lembro bem que meu pai plantava muito arroz, feijão. Eles plantavam muito, era... Meu pai plantava muito arroz, a casa vivia cheia, cortada pelo bocado de arroz, (que) a gente guardava dentro da casa. Não tinha máquina pra moer, era pisado. Pisado e enchia aquelas saca e saía pra vender, mas vendia barato. Era pro consumo e pra vender, o arroz vendia mais; o feijão não, a minha avó plantava feijão, mas era mais pro consumo, não tinha saída (Dona Maria da Glória, lavradora e dona de casa).

Cascudo (1983) e Barbosa (2007) discorrem sobre a importância e predileção do binômio arroz e feijão no prato dos brasileiros, realidade igualmente observada na comunidade durante esta pesquisa. Atualmente, embora esses alimentos ainda consistam na base alimentar da comunidade, juntamente com o açaí, eles necessitam ser comprados na cidade de Abaetetuba ou nas mercearias da comunidade, uma vez que sua produção diminuiu, sendo que, no momento desta pesquisa, era quase inexistente.

A mudança na prática de produção foi acarretada, segundo os moradores, devido aos seguintes fatores: a) a saída dos jovens da comunidade em busca de empregos na cidade de Abaetetuba; b) a preferência por práticas extrativistas, tais como a coleta do açaí, a qual, segundo as famílias estudadas, é uma atividade menos penosa e mais rentável; e c) a concentração da produção em espécies de maior interesse econômico, como o maxixe15 e a mandioca.

O aumento na valorização da produção local, principalmente do açaí, devido ao crescimento na demanda por esse produto16, é uma das principais causas para a mudança de direcionamento da produção agrícola do autoconsumo para a comercialização. As famílias quilombolas do baixo Acaraqui optaram por investir em atividades, agrícolas ou extrativistas, com maior interesse econômico, especializando a produção e, por essa razão, diminuindo a diversidade de espécies existentes nas roças. A redução da penosidade do trabalho na roça é outra das razões apontadas pelas famílias para as mudanças nas práticas de produção.

A diversidade da produção local, “no tempo dos pais”, proporcionava uma menor dependência com relação ao mercado e maior autonomia da unidade de produção, uma vez que essa produção se destinava, prioritariamente, ao consumo da unidade familiar. A especialização aponta para uma elevação na relação entre a comunidade e o comércio local, com o aumento de sua participação nas transações locais de compra e venda de alimentos, aumento na geração de renda e a possibilidade de acesso a bens antes não acessíveis pela comunidade, como geladeira, televisão, ventilador, liquidificador, máquina de lavar roupa, bicicleta, entre outros.

“No tempo dos pais”, a carne de caça tinha uma participação corriqueira na mesa e na alimentação das famílias locais, devido à facilidade de obtenção desses animais na mata. Durante as entrevistas, 17 moradores, 70% dos entrevistados, comentaram sobre a importância da carne de caça na alimentação “no tempo dos pais”, enquanto que “no tempo presente” apenas 20% afirmaram manter esse hábito em suas práticas alimentares, apesar da dificuldade em encontrar esses animais nas florestas. A persistência no consumo da carne de caça, além do caráter econômico e alimentar, para alguns moradores, é tida como uma prática de lazer. Durante as entrevistas, surgiram histórias relacionadas a essa atividade, em sua maioria se reportando ao passado. Segundo as famílias da comunidade, o aumento do desmatamento e das queimadas da floresta para a produção agrícola, principalmente da mandioca, são as principais causas da diminuição no quantitativo desses animais na região nos últimos 15 a 20 anos.

Da mesma forma que o desmatamento e as queimadas reduziram o número dos animais de caça nas matas, a pesca predatória ameaça o quantitativo de espécies de peixes encontradas no rio Acaraqui. O uso indiscriminado de redes, geralmente com malhas muito pequenas, e a pouca seletividade na apreensão dos peixes quanto ao seu tamanho são os principais fatores apontado pelas famílias quilombolas para a redução na quantidade de peixes na localidade. Isso foi notório nas declarações sobre uma maior facilidade em se adquirir o peixe para a alimentação das famílias, “no tempo dos pais”. Embora em 2012 esse alimento continuasse presente diariamente na alimentação dos moradores da comunidade (Figura 3), a penosidade (tempo e distância) para consegui-lo aumentou consideravelmente. Antigamente, esse produto era adquirido na porta das casas das famílias e, no tempo da pesquisa, fazia-se necessário ir mais longe, rio acima, para conseguir um quantitativo de peixes suficiente para a alimentação da unidade familiar, acarretando, consequentemente, em um maior gasto de tempo para sua obtenção.

Figura 3 Tucunaré pescado com caniço na comunidade quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. Foto: Elcio Nascimento, 2012. 

A oferta de camarão consumido na comunidade diminuiu, de acordo com as famílias locais (Figura 4). A causa mais apontada pelos moradores para esta diminuição do camarão foi o aumento no número das famílias na comunidade e, consequentemente, o aumento do consumo. Costa (2006, p. 172) relata a mesma situação com relação à diminuição da fauna aquática na região das ilhas do município de Cametá e as dificuldades enfrentadas pelos moradores da região. Dona Ivanilda, moradora da comunidade do baixo Acaraqui, comentou sobre essa mudança:

Figura 4 Camarões capturados com o uso do matapí na comunidade quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará. Foto: Elcio Nascimento, 2012. 

Quando meu pai vinha do rio, vinha com “mina” assim de peixe. Hoje em dia a pessoa coloca. Ontem meu marido colocou a rede, você acredita que ele pegou dois “pixinhos”? [peixinhos] Dois “pixinhos” ele pegou... Aí eu acho muita diferença. Que no tempo deles [dos pais] eu achava que era melhor da pessoa se ajeitar, mais fácil. Hoje eu acho mais difícil (Dona Ivanilda, lavradora e dona de casa).

A diminuição dos animais de caça, da diversidade de espécies cultivadas, da quantidade de mariscos nos rios e, principalmente, o aumento da valorização monetária da produção local são os principais fatores que acarretam mudanças nas estratégias de reprodução social das famílias do baixo Acaraqui. Anteriormente, essas práticas eram baseadas em estratégias de subsistência e autoconsumo, porém, com uma maior facilidade na comercialização e com o aumento na valorização dos produtos, o objetivo da produção familiar está em transformação, direcionando-se para o comércio e a geração de renda e o cultivo de espécies de maior interesse econômico, embora a produção para o autoconsumo ainda persista.

A melhora na obtenção de renda “no tempo presente” foi uma característica apontada pelas famílias do baixo Acaraqui como uma mudança positiva quando comparada com “o tempo dos pais”. Com o aumento da valoração do açaí, das frutas e dos produtos da roça, o rendimento das famílias aumentou e o acesso a bens de consumo cresceu conjuntamente, situação apontada por 100% das famílias entrevistadas.

A chegada da energia elétrica, somada a uma maior participação no comércio local e à inclusão dos benefícios sociais (bolsa família, aposentadoria e seguro defeso) na renda das famílias proporcionaram aumento no poder aquisitivo local, elevando a compra de bens de consumo, como geladeira, televisão, motores para as embarcações, localmente chamados de rabudo17, despolpadeiras de açaí, máquinas de lavar roupa, entre outros eletrodomésticos. Esses fatores contribuíram para a melhoria na qualidade de vida das famílias locais, segundo os próprios moradores. Esses equipamentos contribuíram para situações como a) diminuição da distância entre a comunidade e a cidade de Abaetetuba; b) conservação dos alimentos, aumentando sua durabilidade18; c) trabalho de beneficiamento da produção do açaí, facilitando e agilizando o processo; d) redução das dificuldades do dia a dia na lida da casa.

Esses fatos estão ocasionando uma mudança significativa nos padrões alimentares das famílias da comunidade do baixo Acaraqui. Enquanto “no tempo dos pais” a alimentação era diversificada e proveniente da unidade de produção, “nos tempos atuais” podemos observar uma maior dependência com relação ao comércio local e à cidade de Abaetetuba, principalmente no consumo de produtos industrializados: enlatados, embutidos, refrigerantes, entre outros (Tabela 3). Antes, o arroz e o feijão eram produzidos localmente, agora necessitam ser adquiridos no comércio local. A proteína animal, anteriormente obtida nas matas por intermédio da caça, passou a ser adquirida nos supermercados ou na feira de Abaetetuba. Observou-se também a crescente referência à aquisição de produtos industrializados, como enlatados, salgadinhos, macarrão instantâneo e mortadela, motivado pela facilidade do preparo e de acesso ao centro urbano (Abaetetuba) e aos mercadinhos locais. Os sucos de frutas estão sendo substituídos pelos refrigerantes. O café está tomando o lugar dos chás de capim-santo (Cymbopogon citratus (DC.) Stapf.), de canela (Cinnamomum zeylanicum Breyn), da casca da laranja (Citrus spp.), comumente consumidos no lanche da tarde, no passado. Conforme relato de Dona Ivanilda (lavradora e dona de casa): “(...) por aqui é só mercearia. A gente compra na mercearia. Esse negócio de ovo, mortadela, que é o que eles vendem por aqui (...) deslatado (enlatado) assim. Meus filhos adoram essas coisas de Miojo19 [risos]”.

A fala de Dona Ivanilda ilustra a mudança nos hábitos alimentares da comunidade, na qual a presença de produtos industrializados e adquiridos nos comércios locais está se tornando cada vez mais frequente, substituindo os produtos locais. Observa-se que até o ovo, embora parte seja produzida localmente, passou a ser comprado nos mercadinhos, sinalizando uma modificação nos hábitos alimentares, qual seja a preferência por produtos industrializados, e uma diminuição da autossuficiência alimentar das famílias quilombolas do baixo Acaraqui.

A renda foi um tema recorrente na fala de 80% dos entrevistados (20 famílias) durante a pesquisa de campo. Quando questionados sobre as mudanças, tanto nos hábitos alimentares quanto na qualidade de vida “nos tempos dos pais” e “no tempo presente”, declarações sobre a dificuldade na obtenção de renda eram comuns, devido aos fatores já mencionados, porém, quando se tratava especificamente sobre a alimentação, declaravam que chegava a faltar dinheiro para a aquisição do alimento e, por isso, “tinham que dar o jeito” e esse “dar o jeito” era recorrer ao mingau de farinha, ao mingau de açaí, ao peixe, ao camarão e/ ou ao açaí in natura. Esta informação demonstra que as famílias possuíam um aporte alimentar considerável no passado, garantido pelos recursos naturais ou cultivados existentes nas florestas, nos rios locais, nas roças e nos quintais. Apesar dessa realidade, as famílias, em sua maioria, afirmam que “no tempo presente” as condições de vida na comunidade melhoraram, fazendo alusão principalmente ao aumento do poder aquisitivo e à possibilidade de aquisição de bens de consumo e alimentos, que antes não lhes eram acessíveis:

Ás vez faltava, né? Dinheiro às vezes a gente não tinha. A mulher pegava farinha fazia mingau branco, tinha açaí. Pronto. Por que a gente não tinha condição. Eles [os filhos] não tinham “pavulagem”20, até a gente dar o jeito no outro dia (...) a gente pegava uma mucura. Puxava uns “pixinho” [peixinhos] e ajeitava pro outro dia (...) tinha várzea boa pra tapar (Seu Humberto, lavrador).

Apesar da diminuição da autossuficiência (redução da caça, da aquisição de mariscos e da produção de autoconsumo) e aumento da dependência do mercado local, observa-se, nesta fala, como o extrativismo (animal e vegetal) ainda se faz presente – mesmo de maneira reduzida, no caso da caça – e é uma importante ferramenta na garantia da alimentação diária local (Figura 5), até que a família consiga dar “jeito no outro dia” e que, apesar das dificuldades na obtenção de renda “no tempo dos pais”, o alimento propriamente dito se fazia presente na mesa das famílias do baixo Acaraqui, devido, principalmente, à produção destinada ao autoconsumo. Com a presença dos benefícios do governo (bolsa família, aposentadoria e seguro defeso), as famílias desta comunidade quilombola necessitam reorganizar seu sistema de produção e suas estratégias para aquisição de alimentos, superando as dificuldades ambientais e econômicas, possibilitando, dessa forma, a continuidade do seu modo de vida e garantindo a reprodutibilidade da unidade familiar.

Figura 5 Geladeira com produtos oriundos de recursos naturais utilizados na alimentação pela comunidade quilombola do baixo Acaraqui, Abaetetuba, Pará: A) camarões; B) peixes capturados no rio Acaraqui; C) açaí. Foto: Elcio Nascimento, 2012. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As estratégias de produção e de acesso aos alimentos das famílias quilombolas da comunidade do baixo Acaraqui tinham como foco principal, no passado recente, o autoconsumo. As estratégias usadas eram possibilitadas pela abundância de recursos naturais (peixes, camarões, frutas, caças) e pela facilidade no acesso, na obtenção e no quantitativo desses recursos. Esta realidade já não é mais observada com a mesma frequência na comunidade quilombola estudada, sendo necessário o desenvolvimento de novas estratégias, tanto produtivas quanto as que garantam uma alimentação em quantidade e de qualidade suficiente, preservando o modo de vida da comunidade, assim como a reprodução social, econômica e ambiental das famílias do baixo Acaraqui.

Na questão produtiva, a elevação do valor da produção local acarretou um aumento no valor comercial dos recursos da comunidade, tanto agrícolas quanto extrativistas (frutos). Nesse contexto, produtos que tinham pouco interesse econômico no passado, como o açaí, e que eram destinados apenas para o consumo dos membros das famílias ou utilizados em relações de trocas estão sendo destinados sistematicamente para a comercialização. Essa comercialização da produção local nas feiras locais e/ou regionais e sua venda/troca entre vizinhos, amigos e familiares têm contribuído para o aumento da renda das famílias locais, em determinadas épocas do ano, para sua permanência na comunidade e colaborando com o desenvolvimento econômico local. Porém, ao mesmo tempo, vêm acarretando maior dependência com relação aos mercados locais para compra de alimentos e, consequentemente, aumento nos gastos com alimentação e maior necessidade de obtenção de renda para garantir uma alimentação variada, de qualidade e em quantidades suficientes. Essas mudanças nas práticas de produção, no entanto, podem ter tornado essas atividades instáveis frente às flutuações do mercado local, principalmente no inverno, quando as opções de produção e geração de renda diminuem, nessa época, deixando as famílias com incertezas quanto ao seu suprimento alimentar e dependentes dos benefícios do governo federal para garantir o acesso à alimentação.

1Termo utilizado para identificar os vasilhames utilizados para carregar a água dos poços para as casas das famílias.

2É a maneira que as famílias da comunidade quilombola do baixo Acaraqui se referem aos peixes em geral e aos camarões.

3Situação semelhante foi observada nos trabalhos de Nascimento (2006, p. 26) e Woortmann (1992).

4Terminologia amplamente utilizada pelas pessoas do baixo Acaraqui, assim como nas demais comunidades quilombolas da região e na cidade de Abaetetuba. Significa fartura à vontade, grandes quantidades.

5Período da pesquisa: 2012-2013.

6Modo de pescaria realizado pelos moradores da comunidade do baixo Acaraqui, que consiste na utilização de uma linha de nylon contendo o anzol e um pedaço de chumbo. As minhocas são o tipo de isca comumente utilizado nesse sistema de pescaria.

7Os mamíferos, de modo particular os ungulados, como a anta, o veado, a queixada e o caititu, representam o principal grupo de caça consumido e comercializado pelas famílias e nas feiras de Abaetetutba (Baía Júnior, 2006).

8Jacaré-tinga e jacaré-açu, respectivamente. Segundo informações das famílias locais, as formas de consumo da carne desses animais são: jacaré a limão, jacaré salgado e carne de jacaré fresco.

9Termo utilizado pelas famílias ao se referirem aos animais criados no quintal.

10Espécie de molusco que, no Brasil, ocorre desde o Pará até Cabo Frio (Rio de Janeiro), ocorrendo também no Suriname. No estado do Pará, esta espécie é utilizada como alimento e fonte de renda para famílias ribeirinhas, sendo sua concha também utilizada na preparação de argamassa de taipa, junto com outros componentes, como a água e o barro (Barroso, 2009).

11Sobras não aproveitadas da mandioca na fabricação da farinha: talos ou partes duras não amolecidas.

12Levou-se em consideração, para avaliar o aumento no consumo e no gasto familiar, a inexistência nas falas das famílias locais do consumo de alimentos industrializados, no “tempo dos pais”, e uma participação maior de produtos localmente produzidos ou seus subprodutos.

13Feito do pão que resta de um dia para o outro.

14Comunidade quilombola que se encontra a cerca de 20 minutos rio acima da comunidade do baixo Acaraqui. A área é constituída, principalmente, de terra firme, podendo, dessa forma, desenvolver a produção agrícola com mais facilidade do que a comunidade do baixo Acaraqui, localizada em área de várzea.

15A importância do maxixe no sistema de produção aumentou devido à rapidez no ciclo de produção, à facilidade no transporte e na comercialização, ao valor R$ 1,00 um pacote com 14 maxixes.

17A compra desse tipo de equipamento cresceu também por razões de segurança, principalmente pela facilidade de mobilidade, uma vez que esse tipo de máquina pode ser retirada da embarcação e guardada dentro da residência, evitando seu furto, situação recorrente na comunidade.

18Antes da chegada da energia, os alimentos e a água para o consumo eram mantidos em isopores com gelo. Segundo Dona Ivanilda, algumas famílias misturavam o gelo com sal para aumentar a durabilidade do gelo, elevando o tempo de conservação dos alimentos.

19Marca de macarrão instantâneo.

20Conforme o “Dicionário Aulete”: “1. Presunção, empáfia, fatuidade: ‘E depois aquela pabulagem que era homem de bem, que era isto, aquilo’ (Viriato Correia, Contos do sertão); 2. Fanfarrice, bravata; 3. Embuste, mentira” (Aulete Digital, s. d.).

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Recebido: 24 de Outubro de 2013; Aceito: 11 de Abril de 2016

Autor para correspondência: Elcio Costa do Nascimento. Rua São Domingos, Passagem Canaã, 628. Belém, PA, Brasil. CEP 66077-005 (elcioncosta@gmail.com).

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