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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122On-line version ISSN 2178-2547

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.11 no.3 Belém Sept./Dec. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222016000300003 

ARTIGOS

Pedra do Peixe: redes sociais na circulação do pescado do Ver-o-Peso para a cidade de Belém do Pará

Pedra do peixe: social networks in circulation of fish from Ver-o-Peso to the city of Belém, Pará

Luiz de Jesus Dias da SilvaI 

Carmem Izabel RodriguesI 

IUniversidade Federal do Pará. Belém, Pará, Brasil

Resumo

Este artigo tem por objetivo apresentar uma etnografia sobre a rede social envolvida no processo de circulação do pescado que chega diariamente ao mercado do Ver-o-Peso, principal entreposto pesqueiro da região amazônica, e é distribuído por toda a cidade de Belém do Pará. Diariamente, o pescado in natura, capturado e trazido em embarcações pesqueiras, entra na área urbana pela Pedra do Peixe, marco espacial e simbólico do mercado do Ver-o-Peso,no qual é vendido e distribuído na cidade e para outras praças do estado e do país, para chegar aos consumidores finais, que o encontram nas feiras, mercados, supermercados e outros pontos de venda, assim como nos restaurantes diversificados, em forma de pratos regionais preparados para os muitos apreciadores do produto. Essa extensa rede de comercialização do pescado apresenta aspectos econômicos, sociais, culturais, regras, informalidades e conflitos, que fazem com que a circulação do pescado em Belém permaneça, até a atualidade, com muito vigor, tendo a Pedra do Ver-o-Peso como centralidade do seu fluxo cotidiano, através das redes de relações e das práticas socioculturais incorporadas por trabalhadores e fregueses que circulam diariamente por esse espaço central da cidade.

Palavras-chave Pedra do Peixe; Ver-o-Peso; Redes sociais; Mercados; Feiras

Abstract

This article aims to present an ethnography on the social network involved in the circulation process of the fish that arrives daily to the market Ver-o-Peso, the main warehouse fishing in the Amazon region, and is distributed throughout the city of Belém, Pará. Every day the fresh fish, captured and brought in fishing vessels, enters the urban area by the Pedra do Peixe, spatial and symbolic milestone in the market Ver-o-Peso, where it is is sold and distributed in the city and other places of the state and country, to reach the final consumers who are at fairs, markets, supermarkets and other retail outlets, as well as the diverse restaurants in the form of prepared regional dishes to the many lovers of the product. This extensive network of marketing of fish has economic, social, cultural, rules, informalities and conflicts that make the circulation of fish in Belém remains, to the present, very powerful, and the Pedra do Peixe at Ver-o-Peso as the centrality of their daily flow through the networks of relationships and sociocultural practices incorporated by workers and customers that circulate daily by this central space of the city.

Keywords Pedra do Peixe; Ver-o-Peso; Social networks; Markets; Fairs

INTRODUÇÃO

Na dinâmica contemporânea do Ver-o-Peso, a comercialização do pescado na Pedra do Peixe mantém importância central, com sua cadeia produtiva1 e redes de circulação, que, desde o período colonial da cidade – quando o pescado desembarcado ali era utilizado, inclusive, como meio para pagamento de funcionários públicos e autoridades eclesiais (Cruz, 1973) –, já demonstravam sua relevância para a vida local. Esse desembarque de pescado contribuiu decisivamente para o estabelecimento de um mercado local e regional, como um mecanismo central na vida da cidade, confirmando que “toda cidade é um local de mercado” (Weber, 1979, p. 69) pois “as cidades são entidades sociais criadas por processos econômicos, sobretudo o comércio” (Becker, 2013, p. 18).

No contexto socioespacial da maior feira e mercado popular da cidade, a Pedra do Peixe é o lugar que centraliza, condensa, organiza e distribui as principais atividades necessárias à manutenção e à expansão da economia local, especialmente as atividades relativas à comercialização diária da produção pesqueira do estuário amazônico2.

A denominação Pedra do Peixe, atribuída ao entreposto pesqueiro oficial da cidade, pode ter surgido em função da construção de seu cais com pedra cantaria3, mas existem outras duas hipóteses para essa denominação. Uma de que seria originada da demarcação do local, ao lado da doca das embarcações, de “desembarcadouro da Ponta das Pedras, nos séculos XVII e XVIII” (Penteado, 1968, p. 215); a outra é advinda de citação popular,coletada através de entrevistas com pessoas que afirmaram ser o termo ‘Pedra’ originado da pedra do primeiro necrotério da cidade colonial4.

A rede social é um conceito operacional que permite entender como os diversos sujeitos envolvidos no processo de produção e circulação do pescado se relacionam através de múltiplas relações empíricas; ao mesmo tempo, é uma abstração da realidade (Barnes, 2010) usada para representar os modos como esses atores sociais se conectam no tecido social, por meio de uma teia de interações possíveis, no horizonte de possibilidades concretas ou virtuais5.

A circulação6 compreende o processo pelo qual o pescado é distribuído, a partir da Pedra, entre e através de seus diferentes sujeitos. Essa distribuição comporta as sucessivas trocas comerciais de compra e venda, as remunerações realizadas com o pescado, as cortesias aparentemente gratuitas empreendidas no próprio entreposto, no Mercado de Ferro, nos mercados e feiras de bairros, nos supermercados e outros locais da cidade. Nesse processo, as redes sociais, tecidas para fazer circular o pescado, se fundem com esses pontos de venda ao longo de toda a cidade, constituindo uma tessitura que interliga as pessoas e eventos nessas localizações socioespaciais.

Assim, o pescado in natura distribuído em Belém chega aos consumidores finais, que o encontram nas feiras, mercados, supermercados e outros pontos de venda da malha urbana da cidade e, mais ainda, nos seus restaurantes diversificados, em forma de pratos regionais preparados aos muitos apreciadores. Essa extensa rede de comercialização do pescado envolve aspectos econômicos, sociais, culturais, regras, informalidades e seus conflitos, permitindo e garantindo que a circulação do pescado em Belém permaneça até a atualidade com muito vigor, tendo a Pedra do Ver-o-Peso como centralidade desse fluxo.

A PEDRA DO PEIXE

A Pedra do Peixe sempre foi um lugar de intensa circulação e interação na paisagem dinâmica da cidade, pela comercialização diária do pescado por atacado, quando aquele espaço passa a ter uso específico de compra e venda desse produto, o que só é possível nas madrugadas, para não haver concorrência com o comércio tradicional que ocorre durante o dia no Mercado de Ferro. A Figura 1 mostra a localização geográfica do Ver-o-Peso em quatro quadros (Figuras 1A-1D), com destaque, na Figura 1D, ao Ver-o-Peso e sua doca, com o indicativo georreferenciado da Pedra do Peixe.

Figura 1 Mapa referencial contextualizando o Ver-o-Peso e a Pedra do Peixe na cidade de Belém: A) localização com relação à América do Sul; B) localização no estado do Pará, ao norte do Brasil; C) localização da cidade de Belém do Pará; D) localização da Pedra do Peixe e do Ver-o-Peso no centro histórico de Belém. Fonte: adaptado do site Google Earth e do siteIBGE (2014)

Após a comercialização do peixe na Pedra, esse espaço é transformado para outros usos, como o de circulação mais intensa de pessoas que vão e vêm ao mercado, à Feira do Ver-o-Peso e, de modo mais específico, a alguns setores do complexo Ver-o-Peso, tais como indicados na Figura 2, todos muito frequentados por pessoas que trabalham no local ou que vão à procura dos produtos oferecidos nos horários específicos de funcionamento de cada setor. Em destaque, a calçada – a Pedra do Peixe – que margeia a Doca das Embarcações, e que durante o dia funciona como um passeio como outro qualquer, servindo de rota para quem vai ou vem do Mercado de Ferro e da Feira do Ver-o-Peso.

Figura 2 Planta baixa do complexo Ver-o-Peso, com destaque para a Pedra do Peixe. Fonte: adaptado de arquivos de projetos físicos de feiras e mercados do município de Belém. Belém: SECON/DFMP (2015). 

Apesar de haver, nos dias atuais, uma pressão muito forte por parte dos gestores estaduais e municipais para a mudança de destinação do uso atual desse espaço como principal entreposto pesqueiro da região, o mesmo permanece como um marco comercial e um referencial simbólico, cuja organização, aparentemente caótica, de fato satisfaz ao conjunto de usuários que interagem nesse lugar central, voltado para a recepção e distribuição do pescado in natura para toda a cidade, desde sua gênese. Nesse sentido, Loureiro (1985, p. 21) comenta que desde o período colonial

[...] a subsistência do homem amazônida fundamentou-se no pescado e na pequena produção agrícola, com destaque para a mandioca usada para fabricar farinha, a qual sobrexcedia todas as demais espécies. O pescado, como produto alimentar básico das populações paraenses tinha seu valor natural reconhecido a tal ponto que, em certa época, serviu como moeda em algumas formas de pagamento7.

A autora enfatiza a importância do pescado para o homem da Amazônia e, consequentemente, a sua comercialização e consumo para alimentação como algo presente na vida dos habitantes da região. Furtado (1993) concorda com Loureiro (1985) quanto a essa combinação alimentícia entre farinha de mandioca e peixe como uma díade que vem acompanhando o habitante da região dos tempos pretéritos até os atuais8, fazendo com que haja sempre a procura por esses importantes gêneros alimentícios, necessários à composição da mesa do amazônida.

A história de Belém do Pará está intrinsecamente ligada à história do Ver-o-Peso, pois, desde 1625 – apenas nove anos após a fundação da cidade –, com a taxação dos produtos que chegavam ou saíam do ancoradouro, logo denominado de Haver-o-Peso (Cruz, 1973), já se iniciava um lugar de comércio, mas também de socialização e de cultura, que perdura ao longo da trajetória de Belém, iniciando ali também uma rede de comercialização na qual diversas gerações vêm reproduzindo atividades voltadas à circulação do pescado para abastecer a cidade.

Carlos (1997, p. 28) considera o espaço como fruto de uma relação que se concretiza, de modo formal, “em algo passível de ser apreendido, entendido e aprofundado”. Esse aporte teórico vem ao encontro do que representa o espaço do Ver-o-Peso, pois a sociedade o produziu ainda no século XVII, o aprofundou e o reproduz a cada dia no seu cotidiano relacional como um limiar entre o rural e o urbano, entre os rios e a cidade. Como afirma Campelo (2010, p. 45), o Ver-o-Peso “encerra em si próprio um espaço significativo para a identidade econômica e cultural da cidade e de toda a região, principalmente as ilhas que dele dependem, emblema oficial da cidade e porque não dizer de todo o Pará”, trazendo em si mesmo moradores da cidade, das ilhas, de outros municípios, principalmente ribeirinhos, que interagem nesse local; uns vendendo, outros comprando, outros carregando e outros tentando ‘dar um golpe’, tentando um furto, mas cada uma das milhares de pessoas que ali se reúnem contribui para a materialização espacial do Ver-o-Peso, mantendo viva sua originalidade de espaço limiar.

Na Pedra, é possível perceber a existência e a manutenção cotidiana de relações de sociabilidade (Simmel, 1979, 1983, 2006), que se constituem e se mantêm através das redes de comercialização do produto; ao lado das relações mais fluidas, passageiras, como a simples compra e venda do pescado, acontecem também relações mais profundas, intrínsecas e duradouras entre os diversos agentes. Ao lado do comércio e das trocas propriamente econômicas, pode-se perceber todo um sistema de trocas e dádivas não econômicas, marcadas pela presença de relações que não têm como objetivo principal ‘ganhar’ dos parceiros. Essas formas de relações confirmam a existência de dinâmicas específicas a partir de suas lógicas próprias de funcionamento, que ultrapassam ou não têm como referência necessária a lógica racional e utilitarista do mercado. Como ocorre com a economia local empreendida na Pedra, a qual é regida pela própria sociedade, e que, embora faça parte da economia de mercado, é ao mesmo tempo popular, no sentido de imperar a informalidade dentro de um microcosmo específico, com regras culturais próprias.

Nesse sentido, a Pedra do Peixe é um espaço representativo da Feira do Ver-o-Peso, com temporalidades próprias, pois funciona durante a madrugada para a venda por atacado, encerrando suas atividades às seis horas da manhã. A Figura 3 apresenta um fragmento desse espaço-tempo peculiar no Ver-o-Peso, quando as balanças que ainda restam são guardadas e os vendedores de peixe aproveitam para oferecer seus produtos expostos em basquetas ou armazenados em caixotes, sendo vendidos no varejo a preços módicos, concorrendo com os praticados no Mercado de Ferro, como um ato de resistência às determinações do poder público.

Figura 3 Imagem da Pedra do Peixe em final de expediente, ao amanhecer. Foto: Luiz de Jesus Dias da Silva (2013). 

REDES SOCIAIS NA PEDRA DO PEIXE

A teoria das redes sociais, iniciada na primeira metade do século XX9, ultrapassou as fronteiras e limites conceituais para se estender e alcançar os mais diversos níveis e dimensões da realidade; atualmente, esse termo remete diretamente à grande rede mundial de computadores (Castells, 1999), às redes sociais populares praticadas na internet, assim como às redes de lojas, de comunicação e outras tantas que se utilizam de tecnologias de informação, possibilitando e, cada vez mais, ampliando um sistema de comunicação entre sujeitos e seus relacionamentos sociais virtuais existentes no planeta. Remete, ao mesmo tempo, às redes globais e informacionais, ora referidas, e às interações sociais presenciais, onde há predominância dos contatos face a face entre as pessoas que as compõem. Assim, foi possível trazer dos agrupamentos humanos – cujos membros se relacionam entre si – a ideia da rede social, que, por diferentes processos de transformação, inspirou os modelos dos complexos conglomerados das redes globais.

Na antropologia social inglesa, devemos a Barnes (1972, 2003, 2010), Bott (1976 [1957]), Mitchell (1969) e Epstein (1969), entre outros, análises situacionais de processos sociopolíticos que enfocavam as redes operacionalizadas por unidades sociais discretas (famílias, grupos, comunidades, associações). Radcliffe-Brown (2013, p. 170) definiu a estrutura social como a “rede de relações realmente existentes” em uma sociedade. Ao afirmar que a antropologia se ocupa de “fatos observáveis e concretos” Radcliffe-Brown (2013, p. 170) e assim propor um sentido empírico à noção de estrutura, o autor de fato inaugurou o uso simbólico da expressão e da ideia de ‘redes e laços sociais’, prenunciando visionariamente a importância que a análise de redes sociais ganharia a partir dos anos 1950 na antropologia social (Barnes, 2010; Mayer, 2010). Segundo Barnes (2010, p. 179):

[...] quer a rede possa ou não ser associada de maneira útil à “estrutura social”, não podemos encontrá-la nem aqui nem ali. Independentemente de qualquer coisa, a rede social é uma abstração de primeiro grau da realidade e contém a maior parte possível da informação sobre a totalidade da vida social da comunidade à qual corresponde. Chamo-a de rede social total.

Partindo dessa definição, é necessário ter claro que rede social, neste trabalho, é a interpretação das relações existentes entre os sujeitos em um determinado contexto, ou seja, não é uma evidência empírica imediata, mas uma abstração realizada a partir da interpretação de práticas e sentidos nativos. Nesse sentido, o conhecimento teórico sobre redes sociais na antropologia é necessário para a construção dos modelos de relações sociais, que foram utilizados na análise das redes, ou mesmo de seus diversos fragmentos (Barnes, 2010). Para este autor, a análise de redes sociais fica mais plausível quando considerada o que ele chama de rede parcial10. Barnes (2010) considera que, para empreender uma análise de redes, é importante o conhecimento quanto aos instrumentos analíticos disponíveis, entre os quais ele aponta a necessidade de construir um modelo que contenha a representação de pessoas, algumas das quais estão em relacionamentos sociais com outras.

Na construção do modelo, o fato crucial é que toda pessoa real (ou virtual) se conecta com outra ou entra em contato com várias outras pessoas, formando redes parciais ou totais. Em um modelo de análise parcial ou total de uma rede, aparecem seus elementos, chamados de nós11, e suas ligações12, laços ou conexões. A esse modelo facilitador de análise, Wasserman e Faust (2009) chamam de sociograma13. Através dos modelos de redes parciais, é possível examinar seus elementos ou nós, “com base na posição, na forma ou no conteúdo” (Barnes, 2010, p. 180).

É possível identificar a centralidade de um ator em uma rede em razão da quantidade de laços pelos quais está ligado aos outros participantes, de modo que a centralidade é definida pelo número extenso de relações que o ator mantém com os outros sujeitos, e pela maior visibilidade que alcança em razão disso (Wasserman; Faust, 2009).

As interações existentes nas redes sociais da Pedra envolvem processos comunicativos baseados em informações incorporadas (Goffman, 2010), ou seja, no fluxo de mensagens que o emissor comunica através de sua própria atividade corporal e que depende da presença dos corpos dos sujeitos envolvidos no diálogo para sua sustentação e compreensão. Esse tipo de interação simétrica é caracterizado por um rico e contínuo fluxo de informações retroalimentado constantemente enquanto os sujeitos se comunicam, e é condição necessária para a tessitura de redes sociais. Dessa forma, os laços entre os diversos indivíduos concretos que atuam intencionalmente na circulação do pescado na Pedra não se limitam ao campo econômico-comercial, mas avançam para estágios que envolvem, principalmente, confiança, alianças, desafios, conflitos e reciprocidade.

A teoria das redes sociais foi aplicada nessas relações para analisar as posições dos atores sociais, a centralidade de sujeitos de categorias específicas, a força de seus laços (Granovetter, 1973), bem como coalisões (Boissevain, 2010) e formas de suas práticas14. As relações sociais na Pedra vão dos laços mais fortes, em função da proximidade entre os atores sociais, às mais amplas, que geram os laços mais fracos, os quais garantem, por outro lado, a ampliação e consequente densidade da rede.

Para colocar em movimento essa extensa rede de circulação do produto, diversos sujeitos transitam incessantemente entre água e terra, portos e estradas, tendo a Pedra do Peixe como principal espaço mediador dessas relações. As redes sociais conectam os diversos atores sociais envolvidos no processo de circulação do pescado, a partir da pesca nas águas distantes da cidade, passando pelo entreposto pesqueiro do Ver-o-Peso, a Pedra; esse processo envolve direta e indiretamente diversas interações entre vários atores sociais em toda a área continental da cidade e até fora dela.

As observações de campo permitiram perceber que os diversos sujeitos se relacionam em grupos previamente estabelecidos, formando pequenas redes que se interrelacionam e são interdependentes, lembrando o que Barnes (2010) denomina de redes sociais parciais. Por exemplo, um barqueiro só desembarca seu pescado capturado muito distante se ele tiver um balanceiro para fazer circular o produto, o qual, por sua vez, tem um grupo de pessoas que trabalham com ele, na sua rede parcial.

De barqueiros15 – também denominados de geleiros –, com seus tripulantes16 que aportam com os peixes na beira, a viradores17, carregadores18, balanceiros19 e compradores20, entre outros21, há um conjunto de sujeitos em interações que colocam o pescado em movimento e o fazem chegar às casas e às mesas dos consumidores, como um alimento cotidiano ou como prato típico da culinária paraense.

Os trabalhadores da Pedra do Ver-o-Peso desenvolvem suas atividades regulares dentro de suas especificidades, classificadas por eles mesmos em diversas categorias, como as de geleiros ou barqueiros, encarregados, tripulantes, dentro das quais estão as especialidades dos maquinistas, dos pescadores, do cozinheiro e do gelador; esse último trabalha no porão da embarcação, acondicionando o pescado no gelo e nas urnas, que são os compartimentos ou divisórias apropriados para transportar o pescado capturado com todo o cuidado para sua conservação; todos esses sujeitos trabalham embarcados para trazerem o pescado a ser comercializado na Pedra do Peixe.

Antes mesmo da Pedra, a circulação do pescado está em constante movimento pelos tripulantes e barqueiros, por comerciantes que fornecem insumos necessários à pesca, e que muitas vezes são os próprios marreteiros22 ou balanceiros do Ver-o-Peso. Para fazer a captura do pescado em águas marinhas ou estuarinas, esses pescadores passam muitos dias afastados dos seus meios familiares, seus ambientes em terra, enfrentando dificuldades, obstáculos e perigos, tal como analisado por Furtado (2008), que exalta o profundo conhecimento dos ambientes hídricos que atravessam para capturar o pescado e levar sua carga à Pedra do Ver-o-Peso23.

Em terra, estão as categorias dos balanceiros, que trabalham – cada um – com um virador; as categorias dos carregadores, dos compradores, que podem ser peixeiros do Mercado de Ferro, de outros mercados e feiras da cidade, dos compradores de grandes supermercados, compradores avulsos, donos de restaurantes formais e informais, entre outros. Além dessas categorias, estão os vendedores avulsos de produtos diversificados, como miudezas em geral, sacolas, caixas de papelão, cafezinho, mingau, prestadores de serviços, como de manicure, de apostas de jogo do bicho e de loteria. Estão também, na Pedra, os agentes do poder público, como fiscais, policiais, entre outros.

A partir da Pedra, o pescado é distribuído para os mercados, feiras, supermercados, grandes e pequenos consumidores de Belém e outros compradores de municípios próximos e até mesmo de outros estados brasileiros, havendo vários casos de exportação. Entre a produção, no caso a captura do pescado, que se dá ‘lá fora’24 e a pressão do consumo que se faz diariamente na Pedra, existem relações interpessoais que implicam a participação e a distribuição do conhecimento de cada ator social que participa desse conglomerado, em um fluxo que se expande socialmente e se complexifica cada vez mais.

A FEIRA DA MADRUGADA NA PEDRA DO PEIXE

A feira da madrugada é formada por muitas pessoas, como o balanceiro Tetéo, o peixeiro Francisco e a peixeira Pingo, o carregador Faísca, o comprador Guru, a vendedora de caixas de papelão Luiza e tantos outros sujeitos, que participam das redes de circulação do pescado na Pedra do Peixe. Essa feira apresenta similaridades quanto aos ritmos e horário de funcionamento25, assim como contiguidade com a Feira do Açaí26, pois ambas acontecem durante a madrugada, reunindo pessoas e produtos nas interrelações comerciais, e também quanto à forma de comercialização de venda direta, em um ambiente onde muitos sujeitos se conhecem, realizam suas trocas comerciais, ao mesmo tempo em que desenvolvem relações de sociabilidade entre parceiros comerciais, clientes ou eventuais frequentadores do local; outra semelhança é quanto à periodicidade, pois ambas funcionam de segunda-feira a sábado.

Muitos consumidores vêm de bairros distantes do centro histórico, são compradores ou feirantes de outros recantos da cidade que se abastecem, abastecem comerciantes ou consumidores finais, compram no Ver-o-Peso e/ou transportam as mercadorias para seu destino específico. Muitos feirantes da cidade se associam para dividir as despesas de transporte com outros companheiros, e vão juntos à Pedra, à Feira do Açaí ou a outro ponto do Ver-o-Peso, nas madrugadas belenenses.

Esse tipo de associação ocorre a partir de vários bairros da cidade, e se baseia em relações construídas a priori face a face, em bases outras que não o puro interesse econômico: são relações de amizade, lealdade e confiança no outro, com características semelhantes às que estão presentes em um sistema de dádivas e reciprocidade (Mauss, 2003); no caso da associação observada, há também a necessidade coletiva de juntar forças, economizar, se proteger e, principalmente, comprar.

Todos fazem parte da rede, alguns ‘lá fora’, outros muitos na Pedra e outros tantos na malha urbana da cidade, mas todos envolvidos na circulação do pescado, a qual, embora tenha passado por muitas modificações ao longo do tempo, mantém-se ativa, possivelmente nos mesmos moldes há séculos, tendo sua gênese na Belém colonial e vindo por todo esse interstício de tempo a aumentar proporcionalmente com o crescimento espacial e populacional da cidade até os dias atuais, nessa segunda década do século XXI, não se sabe até quando.

Alguns trabalhadores que atuam na Pedra, como o vendedor de peixe salgado Amarildo e o balanceiro Tetéo, preveem que haverá fim dessa atividade se as autoridades que os pressionam resolverem realmente retirar esse entreposto pesqueiro do Ver-o-Peso, ou se houver diminuição significativa da população e de espécies de pescado, ou mesmo se não houver mais trabalhadores das categorias existentes e necessárias para os ofícios que fazem existir a rede do pescado. Considerando que seus ofícios foram iniciados quando ainda eram crianças, e que hoje é proibido o aprendizado infantil, o que impede a renovação do contingente desses trabalhadores, haveria, desse modo, várias ameaças às atividades da Pedra, que, por esses motivos, pode resultar no fim dessa tradição no mercado local.

No caso dos barcos que partem de Belém, após as providências iniciais, eles seguem rumo à cidade de Vigia, no litoral nordeste paraense, onde completam o abastecimento de combustível e procedem à compra do gelo; em seguida, iniciam a viagem até o local ou ponto da pesca ou captura do pescado, onde os tripulantes passam cerca de dez a 28 dias nessa atividade, até encher as urnas com peixes e gelo, ou até acabar o gelo para acondicionar e conservar; começa então a viagem de volta à Pedra, quando ocorre o desembarque e a comercialização pelos balanceiros aos compradores, que geralmente são revendedores e fazem o pescado chegar ao consumidor final. A Figura 4 apresenta um fluxograma dessa atividade.

Figura 4 Fluxograma das ações em torno do pescado. Elaborado pelos autores. 

Ressalta-se que tripulantes, encarregados, barqueiros e balanceiros fazem muitas queixas sobre a diminuição de pescado nos pontos piscosos nas últimas décadas. Atualmente, os barcos levam 25 dias ‘lá fora’ e, por vezes, trazem as urnas com a metade da sua capacidade; uma embarcação com capacidade para vinte toneladas consegue trazer apenas um pouco mais do que dez toneladas de pescado. Quando esse pescado é totalmente vendido e retirado da embarcação, ocorre a prestação de contas pelo encarregado, para que os tripulantes recebam o que lhes é devido pelos acordos de trabalho estabelecidos e, a partir de então, eles iniciarão procedimentos para nova jornada de pesca. Fica implícito, no fluxograma da Figura 4, que há atividades específicas realizadas por diversos trabalhadores em cada etapa; todos se relacionam entre si, direta ou indiretamente, participando dessa rede organizada para levar o pescado à Pedra e fazê-lo circular pela cidade; portanto, cada ponto desse fluxo contínuo pode conter várias redes parciais, que formam a ‘rede’, ou seja, a rede social total do pescado.

Em resumo, o fluxograma apresenta as etapas ou atividades empreendidas para a pesca, comercialização e circulação do pescado na cidade de Belém do Pará; do planejamento para realizar a pesca, desembarque do produto e comercialização na Pedra, momento após o qual os tripulantes recebem seus proventos resultantes da venda do pescado na Pedra e iniciam outro ciclo para realizar nova pescaria; ao mesmo tempo, prossegue, de modo aparentemente autônomo e independente, a comercialização que faz circular o pescado até chegar ao consumidor final.

Os trabalhadores dessa ‘rede’ exercem suas atividades por categorias, agindo individualmente, mas seguindo os padrões de relações e características específicas de cada categoria, e que, em muitas ocasiões, ultrapassam os relacionamentos puramente comerciais entre os atores sociais envolvidos. Leitão e Rodrigues (2011, p. 1) percebem as relações de reciprocidades existentes entre as categorias na ‘rede’, no fluxo, pois:

[...] uma primeira abordagem deixa perceber as relações de reciprocidade entre as diferentes categorias de trabalhadores, revelando igualmente as redes sociais que emergem nos mercados e como a dinâmica de tais ambientes depende da existência dessas redes interpessoais.

Ao perceberem que a relação entre as categorias de trabalhadores e consumidores nas redes parciais se dá dentro dos princípios de reciprocidade, as autoras também consideram que essas redes garantem a dinâmica e a circulação no mercado. Abordagens qualitativas e quantitativas de pesquisa em torno da rede social imbricada nesse processo trazem à discussão a relevância quanto à sua composição, sua importância para as muitas categorias de trabalhadores envolvidas ou dependentes dessa atividade e aos muitos beneficiados, aí incluídos os consumidores finais, que saboreiam o peixe regional nos lares, restaurantes, botequins e outros locais onde esse alimento pode ser servido.

A trama é feita por indivíduos que se relacionam em rede para vender e comprar produtos, onde o principal objeto é o pescado e sua circulação e, embora cada um tenha um posicionamento individual, eles passam a formar categorias interligadas por objetivos específicos, passíveis de serem analisados pela sua importância cultural e socioeconômica.

No caso dos trabalhadores ligados à distribuição do pescado no Ver-o-Peso, é importante a análise da rede social para detalhar a posição de membros das categorias constituídas no contexto das atividades econômicas das quais participam: o que fazem, como fazem, quais as especificidades desse ‘saber fazer’; como se relacionam, como vivem, de onde são, e outras informações importantes que nos permitam apreender suas conexões interpessoais, que surgem a partir da afiliação a uma determinada categoria e fazem parte da “rede social total tanto quanto as que vinculam pessoas de grupos diferentes” (Barnes, 2010, p. 175).

Na Pedra, como em outro setor apontado no fluxograma da Figura 4, existem várias redes parciais, que formam a rede social; como no caso da Figura 5, um sociograma que representa o modelo de uma rede social parcial, onde o balanceiro Tetéo (A) é um nó alfa27, abastecido de pescado, nesse caso, pelo barqueiro Limatão (B). Essa rede visa a apresentar os atores sociais atuantes na Pedra, do ponto de vista do balanceiro Tetéo (A), a figura que tem maior número de ligações, portanto, um nó de centralidade ou nó alfa (Barnes, 2010) dessa trama. Barnes (2010) classifica as pessoas que têm ligações diretas com alfa como contatos de primeira ordem de alfa, e, a partir deste, inicia a análise de posição de cada indivíduo da rede social. Tetéo, um balanceiro da Pedra, faz o papel de intermediário entre um barqueiro, o Limatão, ponto (B) e um comprador, o Anísio (G/I); o barqueiro ou o geleiro são os proprietários da embarcação, às vezes, eles contratam um encarregado para o comando do barco; pode acontecer de o balanceiro ser também o dono do barco, pois “hoje em dia tem balanceiros que são os donos dos barcos, de frota de geleiras” (Tetéo, balanceiro, entrevista realizada em 17 nov. 2013). Ao tratar sobre o assunto, afirma que:

Tem barqueiro que não tem mais filho pra continuar o seu trabalho ou então deve muito, aí negocia com balanceiro que entra nesse negócio de ter embarcação, quer dizer que ele (o balanceiro) ganha no pescado e ganha no peso; mas não deve ser fácil não, lidar com tripulante! Não tem mais homem que queira trabalhar embarcado, não. Isso é uma coisa que passava de pai pra filho, mas agora garoto não pode mais trabalhar [...] roubar ele pode, mas aprender um ofício enquanto é moleque, não pode. (Tetéo, balanceiro, entrevista realizada em 5 jun. 2014).

Figura 5 Sociograma representando rede social parcial com os atores pertencentes à Pedra. Elaborado pelos autores. 

No sociograma apresentado na Figura 5, evidencia-se o balanceiro Tetéo (A), que vende o pescado do barqueiro Limatão (B) e é auxiliado pelo virador Bote (D). O Limatão (B) tem cinco tripulantes na embarcação, embora só apareça no sociograma o gelador Moacir (C).

O Tetéo tem um sobrinho (F), que é seu auxiliar – quiçá futuro substituto – e uma espécie de conferente, e fica ao seu lado observando e conferindo tudo em volta, mas pode também fazer mandados, como comprar cafezinho, e, ao mesmo tempo, vai aprendendo o ofício. Os carregadores próximos, nesse caso, eram o Faísca (E) e o Motorzinho (E).

Em geral, o Limatão (B), que é o dono de barco, negocia o preço do pescado com o Tetéo (A), mas quando o encarregado é empregado do balanceiro, como Tetéo (balanceiro, entrevista realizada em 05 jun. 2014) declarou anteriormente, “nesse caso ele não interfere no preço”. No barco do Limatão, está o gelador Moacir (C), um tripulante que tem o papel importante de classificar e gelar o peixe “desde lá de fora” e de retirá-lo das urnas internas da embarcação, por espécies, jogando-o no convés do barco, onde o pegador28 o recebe e o coloca nas basquetas, para ser levado do barco à Pedra.

Na Pedra, no caso etnografado, está presente o virador apelidado de Bote (D), um dos sujeitos que trabalha diretamente com o balanceiro Tetéo, sendo elemento de sua confiança; o Bote recebe o peixe do gelador Moacir, que trabalha embarcado como Limatão, ou o retira das caixas de isopor29, as quais, a essas alturas, já estão posicionadas próximas do balanceiro, colocando o produto solicitado na caixa do carregador Faísca (E), que já está na balança do Tetéo; o pescado é pesado pelo Tetéo, sob os olhares atentos do comprador, e, em alguns casos, por um auxiliar do balanceiro, o conferente (F), do geleiro ou pelo barqueiro Limatão (B), que fica por ali, atento. Afinal o peixe é dele e de sua tripulação.

A figura do virador (D) é essencial nesse processo, pois é ele quem trabalha diretamente com o balanceiro, “sendo geralmente parente desse ou seu conhecido há bastante tempo, em quem o balanceiro deposita muita confiança” (Corrêa; Leitão, 2010, p. 113); ele também deve ser forte para poder levantar a caixa do carregador juntamente com este, até ajustar bem na sua cabeça, mais especificamente na rodilha desse carregador, que, após o devido equilíbrio, sai carregando cerca de cem quilos na cabeça, quase correndo. Às vezes, é o carregador (E) quem encontra o comprador ou patrão (G), levando-o ao balanceiro ao qual é mais ligado, tem melhor relacionamento ou que poderia oferecer mais vantagem, conforme o caso, para negociação final do pescado, mas o comum é o comprador pesquisar, escolher bem o produto, o preço e o balanceiro para realizar a transação correta.

A partir dessa etapa, a rede social se dilui bastante, porque os carregadores e compradores são diversos, não têm, a priori, o compromisso de comprar com o Tetéo, pois estão lá presentes cerca de cem a cento e cinquenta balanceiros vendendo nas proximidades, mas há um detalhe importante: alguns compradores são fiéis a um determinado balanceiro, e isso ocorre porque existe uma aliança entre eles, que foi criada anteriormente e permanece sinalizando uma relação entre parceiros comerciais que vai além da simples comercialização, e nesse caso os laços ou ligações se fortalecem.

Mesmo os sujeitos que não possuem aparentemente laços fortes com determinados atores sociais em posições de prestígio podem muito bem se relacionar com outros de prestígio semelhante àquele com o qual pouco se relaciona ou possui laços fracos. Isso demonstra as interconexões nas redes sociais que as tornam mais densas, demonstrando, ainda, que a existência de laços fracos com uns sujeitos pode resultar em laços fortes com outros sujeitos.

Depois do comprador, a distribuição do produto continua até chegar ao consumidor final; D. Josefa (M), por exemplo, o adquire do peixeiro Francisco, na Feira da Avenida Tavares Bastos (J), assim como outros consumidores nos mercados (I), supermercados (K), chegando também aos restaurantes oficiais (L) e aos restaurantes informais, como o da ‘boieira’ Joana (N), que prepara o peixe frito ou cozido para o almoço de seus fregueses em uma barraca na Feira da Avenida Tavares Bastos. O comprador pode ser dono de talhos em mercados e feiras dos bairros, como o Francisco, o Maciel ou o Seu Moju; pode ser um dono ou gerente de restaurante, como o Germano, que compra para o restaurante administrado por ele dentro de um clube da cidade; pode ser um comprador profissional, como a Socorro Araújo e o Guru, que adquirem o produto em grande quantidade, a primeira para uma rede de supermercados da cidade, o segundo para exportação; ou mesmo uma pessoa comum, uma dona de casa que quer somente comprar para consumir, e busca um equilíbrio entre qualidade e preço do produto.

Essa rede social parcial, que interage com outras redes semelhantes segundo os princípios de comercialização, mas também segundo as regras de reciprocidade e formas de sociabilidade local, é composta por muitos atores sociais envoltos na trama, os quais dependem uns dos outros e, quanto mais se ajudam, se comprometem mutuamente, mais estreitam ou fortalecem seus laços, como apontam Corrêa e Leitão (2010, p. 125):

A estreiteza das relações permite certos compromissos entre vendedores e compradores de pescado, pois muitas vezes o dinheiro é adiantado ao marreteiro30 para compra do pescado, por alguém a quem ele se compromete a entregar toda sua produção. Encontram-se nesse emaranhado social também, além da reciprocidade, muitas relações de parentesco, seja consanguíneo ou por afinidade.

Um comprador bem tratado pelo balanceiro retorna para comprar desse sujeito; o carregador que ajuda a escolher o peixe, evitando que o patrão leve ‘peixe fraco’, passa a ser essencial para esse comprador e pode ganhar gorjeta extra, confiança e preferência deste, estabelecendo vínculos de lealdade e obrigações mútuas. O balanceiro que vende fiado ao peixeiro também constrói um vínculo de confiança, uma aliança, a partir do prolongamento da relação comercial. Mas essa aproximação a que se referem Corrêa e Leitão (2010) cria outros desdobramentos, a serem tratados a seguir, como a garantia da distribuição e consequentemente da renda obtida com a venda do pescado e até empréstimos eventuais.

O balanceiro Tetéo, assim como outros atores sociais locais, faz parte de redes sociais de compra, venda, mas também de amizade, parentesco e muitas trocas. O Tetéo chega mais cedo e já conta com um grupo de trabalhadores que lhe dão apoio ali, diariamente, como o virador Assis, que, a essa altura, já está posicionando a cadeira e a balança do Tetéo próximo do barco com capacidade para vinte toneladas, cujo encarregado e dono é o Limatão, que ajuda o Assis a carregar e posicionar a balança e fica com sua tripulação a postos para o desembarque do pescado, pesado e vendido por Tetéo.

Os laços fortes (Granovetter, 1973) dependem de relações duradouras, que, muitas vezes, são estabelecidas a partir do parentesco, da confiança, da empatia, da maneira de interagir, das alianças que produzem uma sociabilidade fundada na reciprocidade. Mas os sujeitos envolvidos em laços fracos, como os carregadores e compradores em geral, em relação à rede parcial do balanceiro Tetéo ou em relação à outra rede parcial qualquer, têm uma importância relevante na rede do pescado, justamente porque eles não são participantes exclusivos dessa ou de qualquer outra rede parcial e, desse modo, podem estar presentes em várias redes parciais, o que implica uma difusão e uma integração entre as redes parciais, potencializadas por eles, que ora estão presentes na rede cujo nó alfa é o Tetéo, ora estão na rede do balanceiro Dudu, ora estão em outra rede parcial qualquer, dando densidade à rede total.

Nesse sentido, é possível classificar os atores dessa rede parcial em dois grupos: 1) os que têm laços fortes, como é o caso dos trabalhadores do seu grupo, os respectivos viradores, os encarregados e suas respectivas tripulações; 2) os carregadores, os compradores, os agentes do poder público, os trabalhadores de atividades acessórias e os consumidores finais, que são identificados como os que têm laços fracos com o Tetéo. Esses laços ficam cada vez mais fracos, conforme se afastam do contato dele, considerando para a análise a teoria de Granovetter (1973), até chegar aos consumidores que não têm nenhum laço com a sua rede parcial, mas podem ter laços com a ‘rede’, através de outra rede parcial. Essas observações confirmam que esses atores sociais de laços fracos com o balanceiro Tetéo são responsáveis pela união ou aumento da densidade da ‘rede’.

Como pode ser notado, a partir do nível dos carregadores, há uma mistura das redes parciais, pois o Faísca (carregador) ora está prestando serviço para o Guru (comprador) que só compra com o balanceiro Gouvêa, ora presta serviço para o Francisco (peixeiro), que compra com qualquer balanceiro, embora tenha preferência em comprar com o Morango (balanceiro); desse modo, o Faísca está presente em várias redes parciais, assim como seus colegas de categoria que compõem – ou atravessam – as diversas redes parciais. O mesmo se dá com alguns compradores que têm preferências por determinados balanceiros. Outros, todavia, não têm essa fidelidade, compram com o balanceiro que oferecer pescado de melhor qualidade com o preço mais acessível em cada ocasião e, assim, também circulam através das diversas redes parciais.

O mesmo acontece com os consumidores finais, os quais têm preferência por comprar em determinado lugar, por determinado motivo e com determinado fornecedor, mas, como no caso dos compradores de pescado por atacado, é necessário relativizar sua preferência, em função das muitas opções existentes; no caso dos consumidores finais, há muitos pontos de venda que a cidade oferece para aquisição do pescado; diversos consumidores afirmaram que gostam do pescado do Ver-o-Peso, mas que cada vez está mais difícil estacionar lá, falta segurança, além de outras justificativas para irem às feiras e aos supermercados, em substituição à compra no Ver-o-Peso.

Outras redes semelhantes às do Tetéo multiplicam-se na Pedra, formando a ‘rede’ do pescado, que envolve comercialização, mas também outros tipos de relações na circulação do produto, em uma dinâmica diária de trabalho. A sequência apresentada no fluxograma da Figura 4 representa a cadeia produtiva do pescado e as fases da trama comercial que se combinam, nos momentos de troca, aos atos de sociabilidade presentes nessas relações.

Na Pedra, os sujeitos se agrupam, mesmo sem saber, em redes sociais parciais – que são abstrações semelhantes ao modelo representado na Figura 5 – por interesses mútuos, com práticas de solidariedade envolvidas a partir da relação comercial, progredindo em um processo que vai além da sociação31 , pois “As formas nas quais resulta esse processo ganham vida própria.” (Simmel, 1983, p. 168), onde “[...] cada indivíduo deveria oferecer o máximo de valores sociais [...], compatível com o máximo de valores que [...] recebe.” (Simmel, 1983, p. 172); essas formas “São liberadas de todos os laços com os conteúdos, existem por si mesmas e pelo fascínio que difundem pela própria liberação desses laços.” (Simmel, 1983, p. 168), processo que o autor chama de sociabilidade.

A partir da Pedra, há a distribuição para os diversos pontos de venda na cidade em transportes diversificados, sob a responsabilidade do carreteiro contratado pelo comprador; esse comprador geralmente é um revendedor, podendo ser um peixeiro dos mercados de bairros ou das feiras livres, ou alguém que compra para abastecer supermercados, clubes ou restaurantes diversificados da cidade. Essa etapa do fluxo, na pesquisa, foi denominada de ‘depois da Pedra’.

A CIRCULAÇÃO DO PESCADO ‘DEPOIS DA PEDRA’

‘Depois da Pedra’ é quando o fluxo do pescado e, consequentemente,a formação da rede social com seus atores sociais espalham esse produto pela cidade de Belém, mais especificamente nos diversos pontos de comercialização, como mercados, feiras livres, supermercados e outros, onde se vende o pescado in natura aos consumidores finais, como citado anteriormente, dentro do espaço urbano. As pessoas estão nos fluxos, onde se relacionam comercialmente e se interconectam em redes, fazendo circular o pescado desde a Pedra até os pontos de comercialização do produto na cidade. Na pesquisa, o autor observou a circulação do pescado em três feiras e uma rede de supermercados de Belém, como amostragem representativa do seu universo na malha urbana da cidade.

No caso dos peixeiros de feiras de bairros, seu ganho ou lucro é nitidamente contabilizado a seu favor, a partir do trabalho de ir à Pedra para adquirir o pescado. Cada comprador e, de modo mais específico, cada peixeiro, tem seu jeito próprio de atuação, visando a circular o pescado adquirido na Pedra por toda a cidade, sendo possível até comprar pescado sem precisar ir à Pedra, por meio de um aparelho celular e com base na confiança nas pessoas de sua rede social que trabalham lá.

Em diversos pontos de compra e venda do pescado em Belém, a pesquisa com sujeitos representativos de suas respectivas categorias, bem como com alguns dos seus fregueses, que representam os consumidores finais e o extremo da rede social do pescado, possibilitou observar esse processo de circulação do produto na malha urbana da cidade, assim como os modos de atuação dos sujeitos dentro dessa rede. É este o caso do peixeiro Francisco, da Feira da Tavares Bastos, que compra para seu box e para outros peixeiros, ganhando um real por cada quilo de pescado comprado para os seus parceiros Maciel, Moju e seu irmão Benedito, os quais não precisam ir à Pedra comprar. Semelhante, dentro de determinadas particularidades, é o caso da peixeira Pingo, que trabalha no mercado do Guamá e vai quase diariamente comprar pescado – na Pedra – do seu irmão, que é rotulado por alguns como balanceiro mercosul. Comprando com o Paulo, ela adquire peixe bom, com qualidade e preço que permite sua competitividade. Ela compra principalmente as espécies pescada branca, ‘pequena’, pescada gó e dourada, também de tamanho pequeno, mas ela enfatiza que compra do Paulo e também de outros balanceiros que garantam um preço bom, pois esse item é fundamental para ela.

O Seu Boneco é peixeiro da Feira da 25 de Setembro32 , trabalha em um box composto (espaço com quatro boxes unidos), que divide com três irmãos; compra peixe na Pedra três vezes por semana; além de pescado, ele compra também camarão e pirarucu salgado. Como tem carro próprio, tipo caminhonete, ele mesmo transporta o pescado comprado na Pedra para a Feira da 25. O Guru é um comprador profissional, que exporta pescado para outros estados e compra ainda para comerciantes que exportam para outros estados e até para outros países; ele compra o pescado todos os dias; prefere negociar com o Gouvêa, mas compra também de outros balanceiros, pela qualidade e pelo preço oferecido. Atualmente, ele está partindo para o ramo de filetagem de pescado.

A Socorro é a gerente encarregada de comprar o pescado para uma grande rede de supermercados de Belém, e ela o faz com auxílio de vários colaboradores da organização comercial, um dos quais vai toda madrugada na Pedra receber, pesquisar e comprar pescado, enquanto outro recebe o pescado no Centro de Armazenamento e Distribuição do grupo; conta também com um gerente setorial em cada uma das lojas da organização em Belém, e um gerente supervisor setorial, que visita as lojas para garantir o padrão de qualidade almejado nesse setor do grupo comercial.

Todos esses atores sociais citados representam categorias que têm em comum a incumbência de dar continuidade à circulação do pescado em Belém do Pará, isto é, à sua distribuição por toda a cidade. Essa distribuição, desde a Pedra, se irradia por toda malha urbana da cidade, de modo a se aproximar da população consumidora nos bairros ou subcentros, através das feiras, mercados, supermercados e outros pontos onde a comercialização se faz com frequência, havendo até promoção semanal nos supermercados, com preços anunciados como baixos. O modo como essa distribuição ou irradiação se materializa ramifica a rede para toda a cidade, finalizando-a nos consumidores do produto.

Segundo dados da Secretaria Municipal de Economia (SECON, 2011), a quantidade de pescado que sai da Pedra é de cerca de 80 toneladas/dia em média; desse total, cerca de 30% sai para feiras e mercados populares da cidade. No entanto, foi possível observar, em um só dia, o comprador Guru adquirir 30 toneladas de um único balanceiro; em outra ocasião,observou-se o comprador da rede de supermercados receber o produto de uma embarcação com 20 toneladas, previamente contratado e comprado, naquela madrugada, por ele, o que permite pensar que há certa variabilidade, possivelmente sazonal, em relação aos dados oficiais. A SECON (2011), todavia, é assertiva em considerar que a “produção da Pedra é muito significativa na microeconomia de Belém e no seu abastecimento”, pois outros dados do Departamento de Feiras, Mercados e Portos (DMFP) da Secretaria confirmam que a “Pedra recebe o pescado por via fluvial e por via rodoviária” e que, na sua distribuição, envolve toda a cidade, “porque da Pedra vai peixe pra toda a Belém” (SECON; DFMP, 2015).

Em síntese, a rede em torno do pescado na cidade de Belém envolve atores diversos: entre pescadores distantes, donos de embarcações e seus tripulantes, os profissionais que atuam na Pedra, os compradores, os consumidores finais e o Estado, que tenta controlar essa trama. Isso possibilita, assim, investigações e pesquisas sobre as relações aí existentes, antes da Pedra, na Pedra e na malha urbana. O que se pretendeu aqui foi fazer um recorte da circulação do pescado, da Pedra do Peixe aos diversos pontos espalhados pela cidade, chegando à ponta da rede social, onde está o consumidor final. Como lembra Penteado (1968, p. 402), “[...] talvez poucas áreas brasileiras consumam tanto peixe como na Amazônia, os mercados de Belém são fartos nesse apreciado alimento, proveniente quase todo das colônias de pesca localizadas na região da foz do rio-mar”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Foi possível constatar, nesta pesquisa, a existência de especificidades que só duram porque há um contrato social envolvendo a comercialização do pescado, mas que passam por alianças formadas a partir dessas relações, surgindo as amizades e outros tratos coletivos,os quais garantem sua continuidade, aceita por todos, havendo poucas exceções. A Pedra é um lugar de sociabilidade entre pessoas que, em rede, fazem circular o pescado em um fluxo constante, abrangendo toda a cidade.

A dinâmica contemporânea do Ver-o-Peso, na visão de trabalhadores da Pedra, como o Amarildo, vendedor de peixe salgado, está atrelada à comercialização do pescado e de outros produtos trazidos pelas embarcações que ancoram na Pedra do Peixe. Esses trabalhadores desembarcam suas cargas e, com os recursos financeiros que auferem, compram no comércio local outros produtos, muitas vezes em grandes quantidades, o que garante vida econômica e longevidade ao comércio central da cidade, além de ratificar a importância central no fluxo da cadeia produtiva do pescado e, consequentemente, na rede de circulação desse produto.

Pode-se concluir que ocorre “um fato social total” (Mauss, 2003) em torno das atividades relativas ao pescado que desembarca na Pedra e que o fazem circular pelos pontos de venda em Belém. Pelas características como os atores sociais se relacionam no modus operandi do fluxo do pescado, pode-se considerar que essa interação empreendida na Pedra se reproduz ao longo de toda sua existência, desde o início do processo de colonização portuguesa, logo após a fundação da cidade de Belém, até os tempos atuais, e essa longevidade só é possível porque os sujeitos envolvidos a produzem através de redes sociais.

Pode-se afirmar que a Pedra do Peixe e, de modo mais amplo, o Ver-o-Peso, possuem inegável importância, tanto histórica quanto cultural, simbólica e econômica, para a vida social de Belém, e que o Ver-o-Peso está atrelado à memória e à identidade do habitante de Belém33. A relevância das práticas e das relações sociais que existem na Pedra ao longo de aproximadamente quatro séculos, através dessa extensa rede social, dinamiza aquele lugar da cidade, garantindo a circulação do pescado para toda a malha urbana local e outros recantos.

Enfim, a rede social em torno do pescado é composta por pessoas que, individualmente, formam os nós de ligações de uma rede. Grupos de pessoas se reúnem em volta de uma determinada atividade e de um determinado ator de grande prestígio ou de muitas ligações, como um balanceiro ou um barqueiro, por exemplo, e formam as redes parciais, as quais, reunidas em um conjunto, formam a rede social que faz circular o pescado, antes da Pedra, na Pedra e depois da Pedra, momento em que é distribuído na malha urbana de Belém, onde encontra a população que busca o pescado na qualidade de consumidor final.

Pedra e redes ultrapassam, aqui, seus sentidos metafóricos, para materializar a circulação do pescado na cidade de Belém, marcando e reproduzindo história, cultura e sociabilidade em rede, envolvendo todos os pontos de comercialização ou degustação do pescado, que circula nesses fluxos, crescendo proporcionalmente e mantendo uma dinâmica própria, desde os primeiros desembarques na doca do Ver-o-Peso, ainda no século XVII, até os dias atuais.

1A cadeia produtiva envolve um conjunto de atividades inter-relacionadas que podem ser separadas, incluindo diferentes aspectos de produção e comercialização em um setor (Souza Junior, 2010).

2Sobre a produção e comercialização do pescado na região estuarina e costeira do nordeste paraense, ver Furtado (1987, 1993, 2008), Leitão (1997, 2010), Loureiro (1985), entre outros autores regionais.

3Pedra cantaria é uma técnica de construção que utiliza pedras talhadas em formas prismáticas, umas sobre as outras, unidas com elementos colantes, visando a uma fortificação em monobloco.

4Em uma dessas entrevistas, um artista plástico que vende souvenirs e artesanato na entrada do Mercado de Carne do Ver-o-Peso afirmou que “o termo Pedra do Peixe surgiu devido ao necrotério da cidade, que ficava naquele prédio, lá no final da doca do Ver-o-Peso, perto da Feira do Açaí, que ainda existe hoje com outra função, que tinha a pedra, onde se colocava[m] os mortos, nos primeiros anos depois da fundação de Belém” (Venturieri, artista plástico, entrevista realizada em 18 dez. 2014).

5Segundo Barnes (2010, p. 173), rede social é um conceito útil “na descrição e análise de processos políticos, classes, relação entre um mercado e sua periferia, provisão de serviços e circulação de bens e informações em meio social não estruturado, manutenção de valores e normas pela fofoca, diferenças estruturais entre sociedades tribais, rurais, urbanas e assim por diante”.

6Circulação, para Marx (2007, p. 79), é o conjunto dos processos que envolvem o intercâmbio de mercadorias, “a troca social da matéria, isto é, a troca dos produtos particulares dos indivíduos privados [que] cria ao mesmo tempo relações sociais determinadas de produção nas quais os indivíduos entram nessa circulação da matéria”.

7A autora se refere ao período colonial, em Belém, quando foi autorizada a taxação de produtos na mesa do Haver-o-Peso e que pagavam os “empregados públicos da época com pescado” (Cruz, 1973, p. 277).

8A dieta do pescador – em atividade de pesca – continua sendo peixe com farinha, sendo que, em muitas localidades do Pará, esse é um prato típico.

9Segundo Santos (2003, p. 3), a teoria das redes sociais surgiu de “várias perspectivas teóricas que em princípio já existiam de forma paralela e autônoma [e] acabaram por confluir para um mesmo ponto”, destacando-se, entre elas, a sociometria (Moreno, 1934), a teoria psicológica do equilíbrio estrutural (Heider, 1946; Cartwright; Harary, 1956), e a teoria matemática dos grafos, creditada a Leonhard Euler, matemático que viveu no século XVIII.

10Rede parcial, para Barnes (2010), é qualquer extração de uma rede total, com base em critério que seja aplicável a essa.

11Nó de uma rede é cada elemento que compõe essa rede social e está passível de ligação com outro nó.

12Ligação, laços ou conexões de uma rede é a ligação entre os elementos ou nós da rede social.

13Sociogramas ou sociomatrizes são modelos da rede parcial passíveis de serem analisados; foram usados pela primeira vez por Moreno (1934), que demonstrou como se poderiam representar as relações retratadas (Wasserman; Faust, 2009).

14Segundo Meneses (2007, p. 24), redes sociais são “um sistema aberto em permanente construção, que se constroem individual e coletivamente. Utilizam o conjunto de relações que possuem uma pessoa e um grupo, e são fontes de reconhecimento, de sentimento de identidade, do ser, da competência, da ação. Estão relacionadas com os papéis desempenhados nas relações com outras pessoas e grupos sociais, constituindo-se nas práticas sociais que no cotidiano não se aproveitam em sua totalidade”.

15Barqueiros ou geleiros são proprietários de embarcações que capturam e trazem o pescado à Pedra.

16Tripulantes são os trabalhadores que atuam nas embarcações que realizam a pesca, é como se autoidentificam para se diferenciarem de outros pescadores que utilizam anzol, ‘os anzoleiros’. São tripulantes também o maquinista ou motorista, o gelador, responsável por conservar o pescado nas urnas que ficam no porão das embarcações, além do cozinheiro e do encarregado ou comandante.

17Viradores são profissionais que recebem o pescado do barco, levando-os até as balanças, onde viram (despejam) o produto na caixa do carregador.

18Carregadores são os profissionais que carregam as caixas, com capacidade para até 100 quilos de pescado, até os carros de carreto.

19Balanceiros são os comerciantes que intermediam a venda do pescado do barco aos compradores.

20Compradores são os sujeitos que compram o pescado, por atacado, dos balanceiros na Pedra.

21 Corrêa e Leitão (2010) denominam essas atividades de acessórias, referindo-se aos vendedores de cafezinho, mingau, sopa, churrasquinho, lanches e outros produtos, como pneus velhos para proteção externa do barco.

22Marreteiro é um termo sinônimo de balanceiro ou comerciante da Pedra, mas é usado de modo pejorativo como atravessador, o qual não é aceito pelo balanceiro.

23O pescado recebido na Pedra é capturado em regiões costeiras, ao norte do Pará, foz do rio Amazonas, foz do rio Pará, na região do Salgado e nos rios interiores e estuarinos e em lagos, como o lago Arari, no Marajó.

24‘Lá fora’ é um termo muito usado pelos atores sociais envolvidos nessa relação comercial na Pedra, quando indicam os locais onde se captura o pescado, em uma referência à distância dos rios estuarinos e litoral em relação ao Ver-o-Peso.

25Quanto ao horário, tanto a Feira do Açaí como a Pedra do Peixe funcionam nas madrugadas porque vendem por atacado aos comerciantes que revendem seus produtos durante o horário comercial.

26A Feira do Açaí é formada na rua que fica na margem oposta à Pedra e suas adjacências, entre o Forte do Castelo e a Doca das Embarcações do Ver-o-Peso; é o local onde desembarcam açaí, ervas medicinais, farinha e diversas frutas vindas de cidades do interior do estado para comercialização.

27Pessoa ou nó alfa é, segundo Barnes (2010), importante para a análise de uma rede social quanto à posição; assim, “é melhor tomarmos primeiramente o critério da posição. As conexões na rede total são relações diádicas entre pessoas, e uma maneira óbvia de isolar uma posição ou localidade social na rede, para estudo detalhado, é qualquer pessoa alfa e examinar a rede a partir do seu ponto de vista” (Barnes, 2010, p. 180).

28Pegador é um tripulante encarregado de pegar o pescado estocado nas urnas localizadas no porão do barco, que é jogado para o convés da embarcação, devendo colocá-lo nas basquetas que serão desembarcadas na Pedra.

29Caixas de isopor, geralmente com capacidade para 200 litros, conservam pescado que vem pela estrada, dos centros pesqueiros como o município de Vigia.

30Marreteiro, na Pedra, é uma denominação pejorativa atribuída aos balanceiros, em uma conotação de sentido negativo, pois, para eles, são atravessadores e seriam os responsáveis pela alta dos preços do pescado na Pedra. Nos locais onde tradicionalmente há movimentação de pesca artesanal no estado, marreteiro é o atravessador que compra o pescado do pequeno pescador para revenda no mercado local ou para venda em Belém ou outra localidade, até fora do Estado.

31Sociação, na visão de Simmel (1983), é a forma pela qual os indivíduos se agrupam em unidades que satisfazem seus interesses.

32A Feira da Avenida 25 de Setembro, mais conhecida como Feira da 25, fica localizada no bairro de São Brás, na Avenida Rômulo Maiorana, antiga Avenida 25 de Setembro, iniciando na confluência da Avenida Duque de Caxias e Travessa Jutaí se estendendo até a Travessa Antônio Baena.

33Em tempos recentes, houve duas enquetes onde, pelo voto popular e espontâneo, o povo deveria escolher o ícone de Belém. A primeira vez na década de 2000, promovida por uma rede bancária, e a segunda vez em dezembro de 2015, por ocasião de proximidade com a data da fundação da cidade, promovida por uma emissora de televisão. Nas duas vezes, o Ver-o-Peso foi o vencedor.

AGRADECIMENTOS

Este artigo é um produto da tese de doutoramento intitulada ‘Pedra, redes e malha na circulação do pescado do Ver-o-Peso ao meio urbano de Belém do Pará’, defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), em março de 2016. Os autores agradecem o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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Received: May 05, 2016; Accepted: June 06, 2016

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