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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122On-line version ISSN 2178-2547

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.13 no.1 Belém Jan./Apr. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000100003 

ARTIGOS

As mulheres novo-hispanas do Convento da Encarnação (Cidade do México) por meio das suas contas de vidro

Women of New Spain from the Convento de la Encarnación (México City) through their glass beads

Andreia Martins Torres1 
http://orcid.org/0000-0003-4650-2279

1CHAM - Centro de Humanidades (FCSH, Universidade Nova de Lisboa. Universidade dos Açores). Lisboa e Ponta Delgada, Portugal

Resumo

Este trabalho trata sobre a importância simbólica das contas de vidro na Nova Espanha, território do império espanhol na América do Norte até o istmo de Panamá e Filipinas. Nesta ocasião, apresenta-se a coleção arqueológica do antigo Convento da Encarnação, situado em plena Cidade do México. A intenção é refletir sobre o papel desses materiais na construção social de uns corpos de mulheres que aí viveram entre o século XVI e o início do século XIX. Ao mesmo tempo, debatem-se questões teórico-metodológicas enfrentadas pela arqueologia para abordar este tipo de contexto.

Palavras-chave Contas de vidro; Conventos; Gênero; Agências

Abstract

This paper sheds light on the symbolic significance of glass beads in New Spain, the territory of the Spanish Empire in the Americas north of the Isthmus of Panama and the Philippines. Here we present the archaeological collection of Convento de la Encarnación, located in the center of Mexico City. Our intention is to reflect on the role of material culture in constructing the social body of a particular group of women who lived there from the sixteenth century until the beginning of nineteenth century. Some theoretical-methodological issues faced within the discipline in addressing this type of context will be also debated.

Keywords Glass beads; Convents; Gender; Agency

INTRODUÇÃO

As particularidades dos processos de incorporação e de uso das contas de vidro no vice-reino resultam especialmente interessantes para entender a complexa trama de relações de significância gerada ao redor dos objetos, sobretudo em um entorno multiétnico. Não é demais recordar que os primeiros exemplares se introduziram na América por mãos de europeus, quando nenhuma das populações pretéritas desenvolvera ainda a produção artificial de vidro1. Até então, as suas contas faziam-se de um vidro natural chamado obsidiana, de pedra, cerâmica ou concha. Daí deriva assumir que elas foram uma das expressões mais emblemáticas dos processos de recepção do alheio, as quais caracterizaram os encontros e os desencontros ao longo da experiência da conquista.

O resultado da colonização materializou-se em uma sociedade novo-hispana composta por diversos grupos indígenas que habitavam a região antes da chegada dos espanhóis, mas também por europeus, asiáticos e africanos de distintas afiliações étnicas. Embora a oficialidade impusesse diferenças assinaláveis entre cada casta e as suas matrizes culturais condicionassem as experiências individuais, nos espaços de convivência elas protagonizaram conversas, olhares, gestos ou mesmo odores. Assim, expressaram-se em ‘linguagens’ nem sempre perfeitamente ‘interpretadas’ pelos outros.

A aparência foi uma dessas formas de comunicação, sendo em parte mediada por objetos que se colocavam sobre o corpo e transformavam o seu aspecto. Portanto, entende-se que a incorporação de determinados materiais por cada indivíduo constitui um gesto intencional e que a sua seleção ou o modo particular de se conjugarem transmitiram narrativas autorais, até certo ponto culturalmente condicionadas.

As contas, pelo seu amplo uso em todo o mundo e destes tempos recuados, tiveram rápido reconhecimento e emprego pela generalidade da população. As preferências de determinado grupo por alguns modelos ou cores remetem a uma disponibilidade econômica para adquirir essas peças mas, sobretudo, à maneira como participaram na construção social da sua identidade. Paralelamente, o mesmo modelo aparecia sobre corpos que se percebiam diferentes entre si. Para cada uma dessas pessoas, as contas remetiam a universos simbólicos particulares. Nesse âmbito específico elas eram capazes de entender também as contas dos ‘outros’, apesar de que, para ambos, tais peças remetessem a lógicas desconexas. Por tudo isso, as diferenças epistemológicas entre os diversos atores em cena na Nova Espanha propiciaram que estes objetos expressassem múltiplas vozes (Bajtin, 1990; Hodder, 1988).

Entende-se ainda que as características assinaladas tornaram as contas de vidro protagonistas da transmissão ou da mediação de ideias entre pessoas com diferentes sistemas cognitivos. Tal como se afirmou em trabalhos anteriores (Martins Torres, 2017), o fato de esses materiais serem facilmente reconhecíveis por todos, dentro das suas próprias conceitualizações, ocasionou interlocuções, funcionando como plataforma para o diálogo entre categorias de pensamento díspares. No caso específico do Convento da Encarnação da Cidade do México, as normas/ regras da vida conventual observadas entre os séculos XVI e XVIII proporcionaram o estabelecimento das relações quase exclusivamente entre mulheres, incluindo monjas da elite espanhola e criolla2, mas também negras e índias que trabalhavam ali de criadas e que usaram/perceberam as contas encontradas no registo arqueológico.

REFLEXÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS

De acordo com o período cronológico abordado, este trabalho insere-se em um campo de investigação frequentemente designado de ‘arqueologia histórica’, no âmbito do qual se vêm estudando os sítios e os materiais do período vice-reinal no México (Charlton et al., 2016).

O crescente interesse por este ramo refletiu-se em uma produção científica que destaca a contribuição da disciplina para a construção de um discurso histórico com forte vertente etnográfica. Ao reconhecer-se a diversidade étnica que caracterizou a região durante a administração hispana, houve enorme potencial para uma aproximação entre os indígenas do presente e os do passado pré-hispânico. Não obstante, são escassas as monografias acerca de um sítio arqueológico que incidem sobre uma escala temporal ampla, como a que produziu Gamio (1922) nos anos 20 e, mais tarde, Charlton (1969) sobre o Vale de Teotihuacan. Cabe referir ainda as várias publicações a respeito do Vale de Mezquital de Fournier (1996) ou em colaboração com Lourdes Mondragón (Fournier; Mondragón, 2003), que abarcam diferentes períodos. O caráter excepcional destes trabalhos contribui para que o reconhecimento de que os diferentes grupos indígenas tiveram o seu próprio processo histórico esteja ainda longe de se incorporar ao discurso oficial da nação (Palka, 2009, 2005).

Nos últimos anos, gerou-se no meio acadêmico um amplo debate epistemológico em torno da ‘arqueologia histórica’. Uma das principais críticas apontadas é o peso concedido à escrita, ignorando outras formas de expressão e de registo de memórias que, durante séculos, desempenharam papel preponderante em sociedades nas quais a alfabetização era um privilégio das elites, nomeadamente na Europa (Funari, 1999). Além de menosprezar as técnicas de transmissão oral ou a iconografia, o emprego desta terminologia na América desconsidera que diferentes grupos indígenas haviam criado e utilizado sistemas de escrita, com a forma de hieróglifos (maias), pictogramas e ideogramas (astecas). Desta forma, se tem estabelecido uma oposição entre o período pré e pós-conquista espanhola que cria uma ruptura entre ambos, de tal maneira que se omitem importantes processos e continuidades ou adaptações.

Uma opção seria o termo ‘arqueologia colonial’ ou ‘da colonização europeia’ (Rowlands, 1998), mas alguns autores colocam em questão a viabilidade de usar essa expressão para referir-se ao contexto americano. Eles defendem que a orgânica administrativa da monarquia compósita não supôs assumir uma diferença substancial entre as províncias europeias e as americanas do império ou, ainda, que essa terminologia concede uma falsa sensação de processo hegemônico.

Talvez fosse prudente optar por expressões de caráter mais geral, como arqueologia do ‘período moderno’ ou do ‘mundo moderno’, cuja dimensão significativa não estabelece uma hierarquia tão demarcada entre os vários espaços, tal como assinalam Orser e Fagan (1995). Este aspecto é fundamental para romper com uma visão eurocêntrica e favorecer maior equilíbrio na análise dos fluxos entre continentes. Por meio dessa postura será mais fácil recuperar o impacto das culturas americanas no exterior, que reiteradamente vem sendo silenciado.

Atendendo ao exposto, considera-se que para estudar os vestígios materiais novo-hispanos é imprescindível adotar um perspectiva que contemple simultaneamente as especificidades locais e a sua integração em contextos de natureza mais ampla, como a dimensão imperial ou as relações internacionais. Isso é o que apregoa um grupo de investigadores vinculados à global history, dedicados a pesquisar os desdobramentos da descompartimentação do mundo moderno, vinculada aos processos expansionistas europeus. Esta corrente historiográfica surgiu nos anos 80 e teve o seu equivalente na arqueologia uma década depois. Uma das maiores contribuições a esse debate foi dada pelas obras de Orser (1996, 1994), que alcançaram enorme impacto na arqueologia histórica, ao apresentarem, de forma programática, uma abordagem para analisar o mundo moderno por meio de uma perspectiva global. Devem ainda mencionar-se os nomes de South (1988) e Deetz (1977, 1991) como precursores da ideia de adotar esta escala para estudar sítios que, de alguma maneira, se conectam com essa modernidade. Os trabalhos de Andrén (1998) e as obras coletivas editadas por Funari (1999) ou Hall e Silliman (2006) constituem também iniciativas para uma descentralização europeia do debate e para o aprofundamento de questões teóricas relacionadas com a arqueologia global.

Apesar de o tema animar a discussão acadêmica em vários países, os trabalhos baseados em estudos de caso não vêm acompanhando o ritmo das questões teóricometodológicas. Tal como sucede na história, na arqueologia a maioria das obras publicadas com o epíteto de global archaeology é constituída por livros que reúnem várias contribuições com a intenção de mostrar um panorama geográfico ou temporal amplo. Salvo raras exceções, cada artigo incide sobre uma área específica, sem estabelecer pontes com o que acontecia em outras regiões ou identificar como as suas histórias se conectavam. Agravando esta situação, verifica-se uma tendência, na disciplina, a utilizar o termo como sinônimo de ‘toda a arqueologia’, ignorando o intenso debate historiográfico que situa o início da globalização entre os séculos XV e XVI. Os fenômenos de expansão e de colonização anteriores são substancialmente diferentes e, portanto, não podem ser incluídas nesta categoria todas as culturas letradas, como sugere um grupo de pesquisadores.

Apesar do termo ‘global’, a postura adotada não trata de generalizar, mas sim de identificar a diversidade de soluções geradas dentro dessa nova ordem. Por isso, ela é válida para analisar qualquer grupo sociocultural moderno, independentemente do seu grau de participação nos processos de globalização ou de mundialização. Ainda que as dinâmicas de certas sociedades pudessem primar pelo isolamento, desde a perspectiva das instituições e das circunscrições político-administrativas, elas se enquadraram em uma superestrutura. Os comportamentos desviantes e a singularidade de cada objeto de estudo constituem partes de uma mesma realidade plural.

De igual modo, sustém-se que esta posição face ao recorte investigativo não limita a análise do objeto de estudo (e dos fenômenos sociais, culturais ou econômicos a que esteve associado) ao contexto exclusivo dos processos de dominação. Se bem o enfoque permitiu perceber estratégias de resistência e negociação interessantes, limitar as possibilidades a esse universo seria negar toda a originalidade e o peso de processos construídos à margem dessa estrutura. Seria assumir a existência de uma realidade única e negar que, para cada grupo ou em cada lugar, foram geradas percepções distintas dessa conjuntura.

Com a postura assinalada anteriormente, adota-se um enfoque de gênero porque, mais além das relações comerciais e dos contatos interculturais que tiveram lugar na Nova Espanha, falar sobre as contas de vidro do Convento da Encarnação é pensar sobre as mulheres que as usaram, sobre os impulsos que conduziram à sua aquisição e como elas desempenharam um papel relevante na construção social dos seus corpos. Embora estas peças não fossem usadas exclusivamente por pessoas do sexo biológico feminino, o caso analisado remete a um universo espacial e temporal dominado por elas.

Este tipo de abordagem, centrada em resgatar a presença das mulheres na arqueologia, surgiu na Europa, nos anos 70. Ele foi promovido por autoras como Marie Sorensen, de nacionalidade norueguesa, que incorporou aos seus trabalhos um olhar sobre as relações de gênero em sítios da idade do bronze (Sorensen, 1991, 2013). Já nos anos 80, esta corrente teve como principais figuras as pesquisadoras Conkey e Spector (1984), que adotaram um enfoque feminista em suas reflexões na área da pré-história. Cabe ainda mencionar o nome de Voss (2012), cujas publicações se têm centrado em temas tão relevantes como a ‘arqueologia do colonialismo’ e as suas interfaces com questões associadas à sexualidade e à raça, ou seja, em que medida essa nova estrutura política promoveu e condicionou as suas relações, ou ainda à teoria queer. Já a canadense Gilchrist (1994, 2011) constitui uma referência incontornável no estudo de contextos monásticos de época medieval no Reino Unido e, embora o período cronológico e o ambiente étnico-social não se possam comparar com o caso analisado neste artigo, os seus trabalhos apresentam vários pontos de convergência em relação aos debates apresentados no texto.

No México, esta área de estudo encontra-se pouco desenvolvida em comparação com outras especialidades, reproduzindo uma tendência comum a muitos outros países. Ainda assim, nomes como os de Rodríguez-Shadow (2009, 2007a, 2007b), González e Zamora (2007), Hendon (1999), Brumfield (2007, 2001), Fonseca Ibarra (2008), Wiesheu (2007) ou Estrada Muñoz (2006) têm contribuído de maneira sistemática com o aprimoramento dos nossos conhecimentos sobre questões de gênero.

Todos os autores referidos anteriormente dedicaram-se à época pré-hispânica ou à contribuição das mulheres para o desenvolvimento da arqueologia mexicana. Por isso, salvo trabalhos pontuais como os de McEwan (1991), o estudo deste setor da população novo-hispana tem-se confinado ao âmbito acadêmico da disciplina de história. Não é intenção aprofundar na discussão sobre a invizibilização dos sítios e de materiais arqueológicos de período moderno por parte dos órgãos de poder, nomeadamente nas práticas de musealização. No entanto, é possível que este seja um dos principais motivos pelos quais a arqueologia histórica não voltou a sua atenção para as questões de gênero, refletindo uma tendência generalizada, que só nos últimos anos começa a se reverter, fruto da atividade de certos departamentos do Instituto Nacional de Antropología e Historia (INAH), como a División de Subacuática.

O mesmo argumento aplica-se em relação ao interesse por este tipo de objeto em particular, as contas, ou pelo material com que eram feitas, o vidro. A maioria das publicações trata sobre cerâmicas e só raramente centra-se na interpretação das estruturas ou outro tipo de vestígio. Por isso, durante muito tempo este material foi estudado por uma historiografia de corte nacionalista, que reivindicava a cidade de Puebla como o primeiro centro produtor de vidro artificial em todo o continente. Na arqueologia, os únicos trabalhos sistemáticos são o recente livro de Salas Contreras e López Ignacio (2011) 3, o artigo publicado por Peralta Rodríguez e Alvízar Rodríguez (2010) 4 ou a monografia de licenciatura de Nieto Estrada (1996), que se centram em cronologias tardias.

Não é demais recordar as palavras de Williams (1987) ao estudar as missangas usadas por uma comunidade de mulheres no Quênia. Está comprovado que a importância dos objetos não é proporcional ao seu tamanho e que as coisas pequenas não têm porque ser ignoradas. O seu estudo permite aceder a dimensões da realidade que frequentemente se silenciaram e que, ainda assim, fornecem relevantes elementos para entender questões tão interessantes como o consumo, o gosto ou aspectos relacionados com a produção de arte.

Atendendo ao exposto, o estudo das contas de vidro modernas do Convento da Encarnação, dentro de uma perspectiva global e de gênero, constitui uma ampla novidade, quer pela adoção deste recorte, quer pela matéria e o tipo de objeto.

O CONVENTO DA ENCARNAÇÃO

O Convento da Encarnação é um importante testemunho das primeiras fundações da Ordem Concepcionista no vicereino. Originalmente, construiu-se apenas um pequeno mosteiro naquela zona, ao final do século XVI, mas as redes tecidas por estas religiosas alcançaram a elite novo-hispana e conseguiram o apoio de personagens importantes para a cidade, a fim de patrocinar a construção do convento5. As cerimônias para a sua edificação tiveram lugar em 1639 e delas participou diretamente o vice-rei, marquês de Cadereyta, demonstrando uma estreita proximidade com as esferas de poder. Desde então, o convento assumiu-se como um elemento importante para a paisagem urbana e um dos símbolos de sua riqueza, que se media também pela quantidade e pela grandiosidade dos seus templos (Figuras 1 e 2)6.

Figura 1 Localização do Convento da Encarnação. Detalhe de “Biombo com vistas da Cidade do México”, autor desconhecido, segunda metade do século XVIII. Fonte: Museo Franz Mayer (Ciudad de México - México). Foto: Andreia Martins Torres (2013). 

Figura 2 Localização do Convento da Encarnação no Quartel Nordeste da traça urbana da Cidade do México, no “Decreto de empadronamiento de los habitantes de los cuarteles de la ciudad de México”, autor desconhecido, 1752. Fonte: Archivo General de la Nación, México Mapas, Planos e Ilustraciones, n. 2825. 

Até meados do séculos XVIII a sua dimensão aumentou consideravelmente através da compra sucessiva de lotes contíguos. Entre eles, destacam-se as casas que pertenceram a Francisco de Oñate e que, em 1729, repartiram-se entre o convento e a instituição da Real Aduana para a construção do seu edifício7.

A importância da instituição foi de tal ordem que estas mulheres chegaram a gerir um volume de negócios considerável, comprando casas, ingenios, mesones, postos de comércio nos mercados da cidade ou, ainda, atuando como uma das principais entidades prestamistas da capital8. Essas ações foram normalmente intermediadas por um mordomo que atuava como representante do convento, mas não se deve menosprezar a intervenção dessas monjas nas opções adotadas, na sua capacidade de exercer influência, nomeadamente para captar recursos9. Além disso, eram elas que geriam a sua contabilidade, como se expressa nos diversos livros de registros assinados por uma abadessa ou Contadora Mayor10.

Apesar de tudo, os interesses econômicos e o crescente comércio da cidade afetaram profundamente a história do edifício. Localizado junto à aduana da cidade, onde se realizava o controle de todas as mercadorias que ingressavam na capital, o aumento dos fluxos exigiu reformas de ampliação que obrigaram a ceder parte do imóvel, já nos finais do século XVIII11.

O processo de negociação durou algum tempo e não foi pacífico, gerando desentendimentos em relação ao valor de certas casas. Elas aparecem representadas nas Figuras 3 e 4, as quais incorporaram o processo litigioso entre ambos.

Figura 3 “Inmueble que al oeste se encuentra la entrada principal, dividido en 5 estancias, 1 patio central y al final una vivienda la cual escontigua al convento”, José Álvarez e Francisco Antonio Guerrero yTorres, mestres, 1777. Fonte: Archivo General de la Nación, México,Mapas, Planos e Ilustraciones, n. 1387. 

Figura 4 “Casa Contígua a la Aduana. Superficie de terreno en forma rectangular dividido en 7 cuartos (3 grandes, 1 mediano y 3 chicos), 1 estancia y 1 pasillo que sale a la Plazuela de Santo Domingo; está contiguo al convento y la calle de la Perpetua”, José Álvarez e Francisco Antonio Guerrero y Torres, arquitectos, 1778. Fonte: Archivo General de la Nación, México, Mapas, Planos e Ilustraciones, n. 1386. 

Limitada a sua capacidade de extensão, o convento conservou, todavia, uma dimensão considerável e continuou a ser utilizado com essa finalidade até 1861, altura em que o plano de refundição religiosa obrigou à desocupação das instalações. Segundo foi possível averiguar durante as escavações no local, esta fase intermediária, que durou até 1863, caracterizou-se pelo entaipamento de algumas das suas divisões para serem vendidas a particulares ou ocupadas por órgãos de governo. Com a aprovação da lei de extinção das ordens religiosas, o edifício foi definitivamente expropriado pelo Estado, que aproveitou as potencialidades do espaço como sala de exposições, escolas ou residência de estudantes sem recursos para, finalmente, albergar uma biblioteca e a Secretaria da Educação Pública (Salas Contreras, 2006).

Os trabalhos arqueológicos realizados pela Dirección de Salvamento Arqueológico e dirigidos por Dr. Carlos Salas (1989-1993) trouxeram à luz novos dados sobre a sua arquitetura mas, essencialmente, sobre como as pessoas que ali viveram se organizavam e desenvolviam as suas atividades dentro do convento. Desde a igreja à enfermaria, passando pelos diferentes pátios, talvez o que mais surpreenda seja a grande área dividida em quarteirões, onde se localizaram as casas destas mulheres, normalmente estruturadas em torno de um pátio e uma cozinha (Figura 5)12. As contas de vidro aparecem em diferentes áreas do convento, associadas a várias atividades que pautaram o quotidiano no interior do edifício.

Figura 5 Planta do piso térreo do Convento da Encarnação, Carlos Salas. Fonte: Salas Contreras (2006, não paginado). 

CARACTERIZAÇÃO DA POPULAÇÃO DO CONVENTO

O espaço conventual era um contexto exclusivamente feminino, onde supostamente se resguardava as suas castidade e pureza. Os seus corpos estavam sujeitos a prescrições adicionais, pelo vínculo com o sagrado, e obedeceram a um regime de clausura. Ainda assim, as circunstâncias próprias da vida conventual e a imposição de certo isolamento relativo ao mundo exterior proporcionaram condições especiais, que requerem ser tratadas cientificamente e investigadas do ponto de vista da materialidade, nomeadamente dentro das temáticas de gênero e das práticas da vida cotidiana. Nesses âmbitos dominados exclusivamente por elas, logrou-se superar algumas das dualidades de gênero impostas pelo Antigo Regime e desfrutar de certa autonomia. As atividades que desempenharam como coletivo ou a título individual e as relações que estabeleceram entre si ou vinculadas à vida pública são especialmente relevantes. Através delas percebe-se o poder alcançado por estas mulheres, a forma como se organizaram e as solidariedades de gênero que teceram.

Apesar de tudo, a população do convento não foi uniforme e os espaços que utilizaram ou as atividades cotidianas desempenhadas dependeram muito do estatuto que alcançaram dentro da instituição. No caso das monjas, ele esteve determinado essencialmente pela possibilidade de pagar um dote, que, para a época, alcançava um valor considerável e era dos mais elevados da Nova Espanha13. Por isso, regra geral, elas pertenciam à elite de sangue espanhol.

Um grupo importante estava constituído pelas chamadas monjas de hábito negro e coro cuja família pagava o custo do dote, o valor da sua moradia e, eventualmente, as obras de que elas necessitassem. Em ocasiões, o vice-rei exerceu ingerência direta nestas questões, como no caso da filha de Don Pedro Garibay, a quem determinou que dessem 2.000 pesos dos prêmios caducos da lotaria para completar o dote e um desconto de 50 pesos para pagá-lo, em 178714. Houve ainda situações em que esse valor foi patrocinado por obras pias, mas se tratavam sempre de donzelas órfãs de boas famílias cujo poder econômico não alcançava a mesma proporção do que o seu prestígio social15.

O grupo das monjas de hábito branco esteve conformado por aquelas mulheres que durante o noviciado não reuniram o valor total do dote, assumindo por isso uma posição inferior. Além de terem a obrigação de servir as demais, era-lhes negada a participação nas orações que ocorriam no coro da igreja.

Por tudo o que foi exposto, entende-se que o convento não representou um estilo de vida uniforme e que a hierarquia estabelecida com base no critério econômico condicionou o direito de acesso aos principais cargos e ao voto para a sua eleição. Tal como sucedia em outros âmbitos da sociedade vice-real, a aparência e a ostentação foram o meio para validar publicamente esse estatuto e nunca lhes foi exigido voto de pobreza. Quando ingressavam de novicias, elas almejavam garantir o mesmo estilo de vida a que estavam acostumadas, fazendo-se acompanhar dos seus bens mais apreciados.

As distinções perpetradas no interior do convento não eram mais do que o espelho de uma sociedade bastante hierarquizada e podem apreciar-se no registo arqueológico. Os vestígios das suas moradias demonstram diferenças consideráveis no tamanho dos aposentos16. Logo, seria muito interessante que se fizessem estudos individualizados do espólio encontrado nos sucessivos aterros de lixo localizados nos pátios de cada casa. Sabe-se que dessas lixeiras provêm uma enorme quantidade de fragmentos cerâmicos de produção local, importações europeias e porcelanas chinesas, mas as opções de estudo adotadas pelo arqueólogo no seu relatório não permitem ter uma noção dos tipos de peças que tiveram maior incidência nas casas maiores, onde viviam as mulheres mais ricas, uma vez que concede apenas uma visão geral da presença desse espólio no convento, sem diferenciar os compartimentos.

Além das monjas, nestes espaços residiram igualmente seculares. Não raras vezes, estas instituições receberam ‘meninas’ que deveriam se educar nos valores da religião para, depois, casarem e reproduzirem o modelo no entorno da sua família. Algumas nunca chegaram a abandonar a proteção das religiosas e viveram aí com esse estatuto ou ingressaram no noviciado17.

Houve, ainda, casos em que a instituição atuou como ‘depósito’ temporário de mulheres adultas, para garantir a sua honra ante a ausência da proteção direta de algum varão. Esse parece ter sido o caso de Teresa Cortés, que certamente se viu envolvida em uma disputa pelo controle do seu corpo e de seus bens por parte de familiares e um pretendente chamado Luís Gómez de Escobar. No ano de 1672, ele escrevia ao convento solicitando expressamente que essa mulher que se encontrava aí depositada não tivesse qualquer contato com a família18. Apesar de agir como protetor da moral e dos bons costumes, existem motivos para suspeitar que nem sempre se cumpriu o estrito isolamento dessas mulheres. No ano de 1754, a monja María de Guadalupe escrevia a seu irmão Pedro José de Castañeda sobre um tema que a tinha em cuidados e que lhe estava mermando a saúde. Afligia-a pensar sobre os motivos que levariam uns homens a entrarem todas as noites no convento. Até aquele momento não se tinha reportado o desaparecimento de nenhum objeto e supunha que não eram ladrões. Portanto, entende-se que as suas atividades seriam de outra natureza e que gozavam da conivência de alguma residente, que não denunciou a sua presença19.

Completando este quadro, encontrava-se a criadagem do convento e a que cada uma dessas monjas podia manter pessoalmente, embora a sua presença estivesse sujeita a autorização20. Segundo as palavras do viajante Gemeli Careri, o seu número superava três vezes o das religiosas e, portanto, representavam uma parte importante da população do convento. A maioria era de índias e mestiças, mas também se podiam encontrar mulatas ou negras. Aparentemente, elas só raramente possuíam escravas (Careri, 1976, p. 68-69). María de la Cruz foi uma delas, referida na documentação como negra de Angola e viúva. Ela pertencia à Madre Josefa de Santo Tomás e, no ano de 1663, enfrentou grandes dificuldades para conseguir a autorização desta religiosa para casar com Anton Manuel, negro livre e também viúvo21.

Além de servirem no que se poderiam considerar como labores domésticos, algumas monjas tiveram autorização para manter negócios a título particular e usar a sua mão de obra para atuar no exterior do convento. Nesse contexto, em 26 de março de 1649, a monja María de la Trinidad recebia licença do Conde de Salvaterra para trazer pelas ruas um negro vendendo mercadorias, eventualmente algum trabalho manual executado pela própria religiosa ou alguma criada22. Talvez isso fosse mais frequente entre as de hábito negro ‘supernumerárias’, ou seja, cujas despesas eram pagas através dos réditos de seus dotes. Nesses casos, o convento não assumia os gastos com alimentação, vestuário ou habitação, e os mesmos deveriam correr por conta de seus parentes ou, eventualmente, por uma fonte de rendimentos particular.

Dentro dos seus aposentos, estas mulheres gozaram de grande autonomia e privacidade, onde espanholas, índias e negras certamente partilharam confidências, tal como acontecia no âmbito doméstico secular. Elas puderam incluir percepções acerca das contas de vidro ou de histórias nas quais tiveram algum protagonismo. A sua presença no registro arqueológico sugere que elas foram um elemento importante do cotidiano conventual, aparecendo em diferentes espaços do edifício.

No que concerne especificamente às contas de vidro, analisaram-se os 32 exemplares que compõem a coleção custodiada pelo depósito do departamento de Salvamento Arqueológico do INAH, na Cidade do México. Para o efeito, adotaram-se os critérios estabelecidos por DeCorse et al. (2003) para a classificação de contas de vidro. Desse modo, descreveram-se, de forma genérica, os aspectos relacionados com a técnica de produção, a forma, a estrutura23, a cor e o tipo de decoração impressa, identificando a cronologia e o local de produção (Apêndice). Ainda assim, optou-se por apresentar a imagem de pelo menos um exemplar de cada tipo de conta, mas sem realizar um estudo acerca da composição do vidro. Tal escolha deve-se ao fato de ter sido comum reciclar este material ou importar ingredientes para utilizar nas fórmulas locais, o que poderia levar a interpretações equívocas acerca do local de produção dessas peças (Departamento del Fomento General y de la Balanza de Comercio de España, 1805).

Cabe destacar que nenhuma das contas analisadas foi recolhida em contexto residencial. Estes achados concentram-se essencialmente na zona da igreja, em contextos funerários. Mais além das suas funções meramente estéticas, estas peças são um exemplo de como os adornos e os complementos foram relevantes na construção dos corpos dessas mulheres. Para entender estas ambivalências basta interpretar a diversidade dos âmbitos em que foram aplicados por parte desta comunidade. Será em torno delas que estruturaremos esta análise.

IGREJA

A escavação da igreja abrangeu as zonas do corpo propriamente dito, onde circulava a população civil que assistia aí à missa. Era à vista de todos que se encontravam diferentes estátuas religiosas sobre as quais se colocavam finos tecidos bordados e joias, que poderiam incluir contas de vidro24. Ainda assim, ela contava com espaços mais reservados, como a sacristia, o coro e o antecoro ou sala de profundis (pagaduría). Detectaram-se igualmente sete criptas na nave principal do templo com enterramentos e localizou-se o antigo presbitério da igreja inicial. Associadas a estes contextos, apareceram algumas contas de vidro.

O CORO DA IGREJA

O coro dos conventos de monjas foi um espaço reservado exclusivamente ao uso das mulheres de hábito negro e, pontualmente, também das ‘meninas’ que tinham sob seu cuidado. Ele separava-se do corpo da igreja por uma gradearia, de acordo com o protocolo geral que limitava ao máximo o contato destas mulheres com o mundo exterior. Era desde aí que elas assistiam à missa, longe do olhar dos outros fiéis e onde, de modo geral, passavam o dia em orações, em atos de devoção coletiva e particular, que contemplavam expressões musicais25. Neste local tiveram lugar as cerimônias mais importantes do convento, nomeadamente a eleição da madre abadessa ou da profissão de voto, que contou com a presença de personagens políticos importantes26. Em todos eles requereram-se demonstrações de ostentação, quer na decoração quer no vestuário daquelas que participavam dos ritos.

Neste caso, o coro tinha dois andares e durante a escavação do piso térreo encontraram-se 82 enterros dispostos em três capas, os quais pertenceriam a monjas de hábito negro e possivelmente a algum benfeitor ou personagem importante que conseguiu pagar o valor de ter morada eterna entre estas mulheres. O costume de vender o espaço perdurou até finais do século XVIII e início do século XIX, e foi neste contexto, sob o pavimento de madeira original, que se encontrou um fragmento de adorno composto por uma conta.

Embora a camada se tenha formado efetivamente nos últimos anos de ocupação do convento, ela correspondia a terras de remoção para a reutilização do espaço como ossário. Por isso, a peça em questão enquadra-se cronologicamente entre o século XVII e início do século XIX. Trata-se de um aro de ouro, com forma aberta e três argolas no lado exterior, apresentando, nessa zona, uma decoração de linhas incisas. De uma dessas argolas, pende um pingente composto por capucha polilobulada de metal prateado, com vestígios de sobredourado, aplicado sobre uma conta modelada globuloide de cor vermelha-opaca e totalmente lisa (Figura 6)27. É possível que os outros aros tivessem igualmente algum tipo de adorno, assemelhando-se muito ao perfil de um brinco de três lágrimas que esteve em voga durante todo o século XVIII (Figura 7). Nesse caso, a ausência de representações de monjas com este tipo de complemento sugere que a peça terá pertencido a uma secular, quem sabe a uma das ‘meninas’ protegidas por alguma monja ou por alguma benfeitora. Não se deve descartar ainda a possibilidade de não ser um brinco e ter pertencido à decoração de uma das coroas ou ramos que as monjas colocavam durante a cerimônia de profissão ou quando eram enterradas (Figuras 8 e 9).

Figura 6 Adorno com conta de vidro modelada, de forma globuloide, com extremidades aplanadas e orifício transversal de secção circular, com cor avermelhada-opaca. Dimensões: largura - 9 mm; altura - 8 mm; orifício - 2 mm. Fonte: Catálogo de Salvamento Arqueológico (CATSA) 17375, Sítio Coro Bajo, Unidade Estratigráfica (UE) 76, capa V - contexto de entulho, não associado a enterramento. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Figura 7 Detalhe do quadro “De español y mestiza, castizo”, Andrés de Islas, século XVIII. Fonte: Museo de América de Madrid (Espanha), número de inventário 1980/03/02. Foto: Joaquín Otero Ubeda (sem informação de data) (Gobierno de España, s.d.). 

Figura 8 Detalhe do retrato de “Gertrudis Gimenez, monja profesa”, autor desconhecido, 1820. Fonte: Museo Nacional de Historia, Castillo de Chapultepec (Ciudad de México, México). Foto: Andreia Martins Torres (2011). 

Figura 9 Retrato de “Sor Prudenciana Josefa Manuela del Corazón de María Ramírez de Santillana y Tamariz, professa do Convento da Encarnação da Cidade do México”, feito por Andrés López, em 1872. Fonte: New York State Office of Parks, Recreation and Historic Preservation (USA) (Retrato…, s.d.). 

O ANTECORO OU SALA DE PROFUNDIS DA IGREJA

Situada na parte norte da igreja, esta zona antecedia o coro, comunicando-se com a parte baixa do mesmo mediante um acesso junto ao muro sudeste.

No seu subsolo encontraram-se diferentes camadas arqueológicas correspondentes a sepulturas femininas, na sua maioria de monjas adultas ou de idade avançada (Salas Contreras, 1996b)28. Segundo o arqueólogo Carlos Salas, esta terá sido a zona reservada àquelas que morreram de doenças infecciosas, uma vez que não se detectaram enterramentos na capela privada do jardim, onde normalmente tinham lugar. A profundidade a que se encontrava esta divisão e os cuidados em isolar as deposições com capas de cal diminuiriam o risco de contágio, isolando os restos e acelerando o processo de decomposição.

Apesar disso, nestes estratos registaram-se detalhes interessantes sobre a indumentária dessas mulheres no leito de morte e que ficaram impressos nos blocos recuperados.

Através dos registos arqueológicos sabe-se que as monjas foram enterradas sem mortalha e com os dedos das mãos entrelaçados. O vestido consistia no hábito, um avental, uma touca e um véu, do qual se preservaram fragmentos de rendas em fio de cobre e maguey, complementados com adornos bastante exuberantes que atendiam à solenidade da ocasião (Salas Contreras, 2005). Desses adereços conservaram-se fragmentos das coroas e do ramo que se colocava junto a um braço. Ambos estavam feitos em fio de metal, alguns com banho de prata, que se cobriam com tiras de papel e eram decorados com flores naturais, de papel ou em massa. Além destas peças, foi comum o uso de um medalhão ao peito e, em um dos casos, o seu bordado com contas ficou registado em um fragmento de cal29. Hoje em dia conservam-se vários desses exemplares no Museo Nacional de Historia (MNH), desde modelos menores até peças mais elaboradas (Figuras 10 e 11) que encontram paralelo na pintura (Figuras 8 e 9 respectivamente). Complementando os acompanhamentos funerários colocava-se um rosário, geralmente sobre o ombro esquerdo, o qual era feito à base de contas, terminando em forma de cruz e de cujos braços pendiam três medalhas.

Figura 10 Moldura de medalhão feita em contas de vidro, sem indicação de autor ou procedência e sem data. Fonte: Museo Nacional de Historia, Castillo de Chapultepec, México, número de inventário 10-379013. Foto: Andreia Martins Torres (2011). 

Figura 11 Escudo de cera com orla em contas de vidro, sem indicação de autor ou procedência, século XVI. Fonte: Museo Nacional de Historia, Castillo de Chapultepec, México, número de inventário 10-288072. Foto: Andreia Martins Torres (2011). 

Em duas dessas sepulturas, que correspondem a enterramentos primários indiretos, foram recuperadas nove contas que pertenceriam a rosários. Sem embargo, não se dispõe de mais informação sobre a existência de outro espólio com o qual estivessem associados, uma vez que não parece ter sido realizado até o momento qualquer estudo detalhado do espólio de cada enterramento.

Na sepultura 39 detectaram-se sete contas de vidro, modeladas, globuloides e de pequenas dimensões, de cor vermelho-opaco e ainda com os respectivos remates pertencentes à correia metálica que os uniria (Figura 12)30. Devido às condições de preservação do original desconhece-se o seu modelo, sugerindo-se a possibilidade de tratar-se de uma simples correia, colar ou terço de finais do século XVI e início do século XVII. Nesta época as joias vermelhas estiveram em voga entre as classes privilegiadas, sendo que o seu uso entrou em decadência no século posterior, quando as pérolas ganharam destaque entre as elites e passaram a ser associadas ao adorno próprio dos grupos populares. Estas dinâmicas reproduziram as tendências da moda peninsular e acreditava-se que este material possuía poderes mágicos para garantir a proteção do indivíduo, tanto física como espiritual. Essas propriedades transferiram-se a todas as contas vermelhas, nomeadamente às de vidro, e a presença destes exemplares em um contexto arqueológico associado a doenças infecciosas cobra um sentido especial (Martins Torres, 2016).

Figura 12 Sete contas modeladas de forma irregular, variando entre cilíndrica e globuloide achatada, com orifício transversal de secção circular e cor vermelho-opaca. Dimensões: largura - 3-2 mm; altura - 4 mm; orifício - 1 mm. Fonte: CATSA 17345, Capa III, EP 

As contas referidas são bastante diferentes dos dois fragmentos de uma peça modelada, de forma ovoidal, encontrados na sepultura 53. Ela foi elaborada em vidro translúcido, com uma fina capa dourada e sem qualquer decoração impressa (Figura 13)31. A técnica com que se executaram é muito semelhante à das contas registadas na lixeira da enfermaria, onde se aprofundará toda a discussão que este tipo gera atualmente.

Figura 13 Fragmento de conta (?) modelada, de forma ovoidal (?), com orifício transversal de secção circular e cor âmbar translúcida. Dimensões: largura - 1 cm; altura - 9 mm, orifício - 2 mm. Fonte: CATSA 17350 2/2, C12 Cuadro E Copa III Asoc. a EP 

De maneira geral, os dados compilados acerca da presença de contas de vidro nestes contextos funerários são extremamente reveladores. O peso da aparência e a ostentação na sociedade novo-hispânica refletiu-se no convento, como já se afirmou antes. Além das disparidades no tamanho das residências, os cuidados com a sepultura eterna foram igualmente diferenciados e constituíram uma oportunidade para demonstrar publicamente essa diferença. Isso porque as suas irmãs e os familiares que viviam fora do convento assistiam às cerimônias fúnebres.

A sepultura eterna requereu cuidados especiais com o corpo e o seu adorno, particularmente das monjas de hábito negro que tinham um status superior. Os acompanhamentos e a forma como se associaram estiveram sujeitos às convenções da ordem e expressam uma sensibilidade negociada entre mulheres religiosas para se apresentar condignamente ante Deus. Além do rosário, que constituiu um dos elementos mais quotidianos da vida no convento e através do qual se levava a conta das orações, o vestido era cuidadosamente elaborado, incluindo arranjos florais e bordados de contas de vidro. Segundo alguns autores, esta arte foi introduzida, ou pelo menos fomentada, no convento (Castelló Yturbide; Mapelli Mozzi, 1998), onde as espanholas ensinaram as índias a bordar diferentes roupas, nomeadamente para a decoração das casas ou de alfaias religiosas, como as que ainda hoje se encontram em diversos museus mexicanos. Mas o mais pertinente para o caso que nos ocupa é a possibilidade de os escudos bordados com missangas terem sido executados por elas, como parte dos labores próprios da mulher da elite novo-hispânica ou fruto do seu processo educativo nessas artes.

Além das monjas de hábito negro, foram enterradas ali outras mulheres que certamente padeceram do mesmo mal e que, pela sua posição na hierarquia do convento, não mereceram os mesmos cuidados. As suas sepulturas têm acompanhamentos mais simples, alguns dos quais incluíam apenas o terço ou o rosário.

AS CRIPTAS

No interior das sete criptas localizadas na igreja detectaram-se vários níveis de enterramentos que pertenceriam a indivíduos de uma mesma família, confraria ou irmandade, a quem estava dedicado o altar situado por cima das mesmas (Salas Contreras, 1996a)32. Em uma delas recuperou-se uma conta modelada em forma de pingente e com extremidade mais larga e acabamento côncavo (Figura 14)33. Ela está elaborada em um vidro verde translúcido, bastante fino e sonoro pelo qual se deduz a sua qualidade, mas a ficha que a acompanhava não refere o número da unidade de escavação onde foi recolhida. Neste sentido, não se poderão tecer maiores considerações sobre o exemplar, sabendo-se apenas que se encontrava depositado em níveis de entulho da cripta, podendo pertencer originalmente a um brinco (Figura 15) ou a um adorno de qualquer objeto de arte decorativa.

Figura 14 Fragmento de conta em forma de pingente, modelada, com orifício transversal de decção circular e cor verde muito translúcida e brilhante. Dimensões: largura - 1,6 cm: altura - 9 mm; orifício - 2,5 mm. Fonte: CATSA 23615, UE C14, Capa III, Relleno de la cripta. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Figura 15 Exemplo da aplicação de pinjentes em joalharia/bijuteria. Peça sem identificação de procedência. Fonte: Museo Nacional de Historia, Castillo de Chapultepec, México, número de inventário 10-379123 1/2. Foto: Andreia Martins Torres (2011). 

O PÁTIO DAS JACARANDAS

Esta divisão situa-se de modo contíguo à igreja, entre o quarteirão residencial e o pátio das noviças, junto ao designado pátio das tinas. Nesta zona, e por baixo do pavimento datado do século XVIII, foi detectada uma camada de entulhos com abundantes materiais cerâmicos e de vidro. A maioria das formas relaciona-se a práticas médicas, por exemplo potes, pratos e tações com indicação de farmácia, pelo que se supõe que tais terras foram removidas desde a lixeira da enfermaria.

De acordo com os dados obtidos durante a escavação, o arqueólogo Carlos Salas sugere que o hospital funcionaria na parte norte das galerias, onde se localizaram cinco salas contíguas, com grandes dimensões, e que permitiriam criar distintos espaços para hospitalização, enfermaria e recuperação (Salas Contreras, 2006). Trata-se de uma área bastante considerável do convento, com aproximadamente 80 m2, e na qual seriam atendidas várias pessoas simultaneamente. De fato, só no mês de fevereiro de 1633 o livro de contas do convento apresenta pagamentos a dois médicos (Andrés Fernandez e Rodrígo Muñoz) e a um cirurgião barbeiro, bem como evidencia diferentes gastos na enfermaria no valor de 34 pesos34.

Independentemente do local onde estaria o hospital do convento, importa destacar que foi neste espaço onde se registou a maior concentração de contas de vidro (20 no total). A sua associação com âmbitos de debilidade corporal, que exigiram proteções especiais, ajuda a entender melhor o significado destes objetos. A sua finalidade não diferiria muito daquelas ervas, pós ou minerais guardados no interior dos potes de farmácia e dos quais se preservaram fragmentos. Enquanto uns aliviavam a dor física, outros confortavam a alma e ajudavam o processo de cura por intervenção sobrenatural. O mais provável é que estas contas integrassem rosários com os quais se pedia o favor divino para uma rápida recuperação ou para encomendar as almas daqueles que morriam nestas circunstâncias. Tampouco dever-se-á descartar a possibilidade de terem pertencido a amuletos que tanta difusão tiveram na Nova Espanha, manifestando saberes de origem pré-hispânica associados a conceitos pagãos propriamente peninsulares.

Dos vinte exemplares encontrados, todos foram elaborados por modelagem e treze deles estão recobertos com uma capa dourada. Desses, dez têm forma globuloide e um apresenta forma globular. Este grupo está composto por sete exemplares que não possuem qualquer decoração impressa (Figuras 16 e 17)35, dois que mostram um padrão composto por linhas incisas (Figuras 18 e 19)36 e dois que possuem decoração de linhas incisas alternadas por linhas perladas (Figura 20)37.

Figura 16 Conta modelada, de forma globular, com orifício transversal de secção circular e cor verdosa, quase transparente e translúcida, com superfície externa dourada. Dimensões: largura - 5 mm; altura - 8 mm; orifício - 1 mm. Fonte: CATSA 17369 4/5, sem indicação da UE em que foi recolhida. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Figura 17 Conta modulada, de forma globular, com orifício transversal de secção circular, de cor âmbar translúcida. Dimensões: largura – 5 mm; altura - 5 mm; orifício - 1 mm. Fonte: CASTA 22874 2/2, sem indicação da UE onde foi recolhida. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Figura 18 Conta modelada de forma globuloide, com orifício transversal de secção circular, de cor verdosa, quase transparente e translúcida. A superfície exterior é dourada e está decorada com linhas transversais incisas. Dimensões: largura - 8,5 mm; altura - 1,1 cm; orifício - 2 mm. Fonte: CATSA 17376 2/2, sem indicação da UE onde foi recolhida. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Figura 19 Conta modelada de forma globuloide, com orifício transversal de secção circular, de cor verdosa, quase transparente e translúcida. A superfície exterior é dourada e está decorada com linhas transversais incisas. Conserva-se ainda um fragmento de correia metálica (possivelmente prata) na qual estaria inserida. Dimensões: largura - 5 mm; altura - 6 mm; orifício - 2 mm. Fonte: CATSA 17376 1/2, sem indicação da UE onde foi recolhida. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Figura 20 Conta modelada de forma globuloide, com orifício transversal de secção circular, de cor verdosa, quase transparente e translúcida. A superfície exterior é dourada e está decorada com linhas transversais incisas, intercaladas com linhas perladas. Dimensões: largura - 7 mm; altura - 6,5 mm; orifício - 1 mm. Fonte: CATSA 23617 1/3, sem indicação da UE onde foi recolhida. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Existem ainda peças únicas, como uma de forma romboidal sem decoração (Figura 21)38 e outra ovoidal, decorada com linhas incisas e perladas intercaladas (Figura 22)39. Devido à cobertura, é difícil determinar a cor exata do vidro com que foram elaboradas ou detectar características particulares da sua composição. Pelo que se observou em zonas a descoberto, elas foram feitas com um vidro esverdeado e translúcido, com exceção de duas peças de tom amarelado, também transparente, que correspondem ao tipo globular e globluloide sem decoração impressa (Figura 17)40.

Figura 21 Conta modelada de forma bitroncocônica, com orifício transversal de secção circular, de cor verdosa, quase transparente e translúcida. A superfície exterior é dourada. Conserva-se ainda um fragmento de correia metálica na qual estaria inserida. Dimensões: largura - 6 mm; altura - 1,1 cm; orifício - 2 mm. Fonte: CATSA 23618, sem indicação da UE onde foi recolhida. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Figura 22 Conta modelada de forma ovoidal, com orifício transversal de secção circular, de cor verdosa, quase transparente e translúcida. A superfície exterior é dourada e está decorada com linhas transversais incisas, intercaladas com linhas perladas. Dimensões: largura - 1 mm; altura - 8 mm; orifício – 1 mm. Fonte: CATSA 23617 3/3, sem indicação da UE onde foi recolhida. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

De modo geral, este tipo de conta dourada tem sido identificado em várias escavações na Cidade do México, nomeadamente na Rua Fernández Legal 62, onde apareceu associado a um edifício religioso41. Sabe-se ainda que este modelo se difundiu por zonas mais periféricas, como povoações de índios, conforme revelaram as escavações feitas na região de Nejapa, onde foi detectado um enterramento do século XVII de um jovem indígena, com uma grande quantidade de contas douradas (King et al., 2012). Nas missões, a presença destes exemplares está bastante bem documentada, nomeadamente na Florida, onde aparecem associados a um enterramento de uma jovem de 20 anos de idade, coincidindo com uso feminino similar ao registado no Convento da Encarnação (Blair et al., 2009).

Apesar de tudo, ainda muito pouco se sabe sobre estas contas. Elas foram detectadas em contextos da primeira metade do século XVII, mas é possível que o seu uso se tenha prolongado por pelo menos até meados do século XVIII. Ao observar atentamente os retratos das monjas coroadas (Figuras 10 e 11), rapidamente identifica-se que os seus rosários estão montados com contas douradas muito semelhantes às encontradas no registo arqueológico. No entanto, dos contextos de deposição no convento estudado só se pode inferir que são anteriores à construção do piso em madeira no século XVIII.

O seu acabamento dourado foi classificado como sendo de ‘ouro’ e frequentemente se lhes atribuiu uma origem peninsular, baseando-se no simples fato de não existirem paralelos nos principais centros produtores europeus de vidro, à época. Esta última ideia apresenta várias falhas, a primeira das quais consiste no fato de não se ter encontrado ainda nada semelhante em Portugal ou na Espanha. Considera-se que esta teoria parte de um desconhecimento do desenvolvimento do setor na Nova Espanha e de uma desconsideração pela capacidade técnica dos seus artesãos para produzir estes objetos. Nos últimos anos, as publicações de Peralta Rodríguez (2005, 2013) e de Fernández (1990) revelam que a produção vidreira foi um setor importante. Do mesmo modo, a investigação particular (e ainda inédita) que se tem vindo a desenvolver com base em fontes de arquivo revela a existência de especialistas na manufatura de contas.

Dada a concentração exclusiva destes exemplares no território americano e o fato de terem existido, na Cidade do México, pessoas capacitadas para os fazer, não se deveria descartar a possibilidade de se tratarem de produções locais. Efetivamente, durante a intervenção de emergência que teve lugar na Cidade do México, na Rua Bolivia, n. 16, foi detectado um forno de vidro com restos de escória e que se pensa ter sido utilizado para a produção artesanal de vitrais. O relatório menciona um número considerável de berlindes e de contas de vidro de vários modelos, nomeadamente do modelo em questão. Embora não se refira o local exato onde as contas se encontravam depositadas, este dado deve ser levado em consideração, uma vez que se pode estar diante de um forno que, pelo menos ocasionalmente, terá produzido este tipo de adornos de vidro.

A prova definitiva de que este modelo foi produzido na Nova Espanha encontra-se em um artigo da Gazeta Mexicana, escrito por José de Alzate ao final do século XVIII:

No se puede dejar pasar en silencio una práctica acostubrada por los Candileros, quiero decir, por los Artesanos que fabrican por medio del candil pequeñas piezas de vidrio: Los que trabajan vidrios por mayor en México por una práctica muy bien pensada, dán color azul al vidrio por mezcla de cobre; los Candileros se surten de él; y para construir cuentas de Rosarios, que tengan el color de cobre, color muy apetecido por los Indios, después de fabricadas las cuentas, las exponen al humo ú ollín del candil; entonces el cobre mezclado al vidrio se revivifica; y es cierto que qualesquiera persona que ignore la verdadera Química, juzgará aquellas cuentas por de cobre: ¿qué prueba esto? La revivificación del cobre, en virtud del flogistico de la grasa: añadase esto á lo expuesto sobre la revivificación de la plata; lo seguro es, que si al mas habil Azoguero se le entrega el metal de cobre, seguro es no conseguirá la mas pequeña porción de metal de cobre: apliquemos esto mismo respecto á los minerales ó metales de plata (Alzate, 1785, p. 7).

Através do relato assinalado, sabe-se que eram os ‘candileros’, e não os vidreiros, a produzirem estas contas e que eles usavam um vidro de tonalidade azul, obtida pela incorporação de cobre à fórmula de produção, para depois o fazer ressurgir através do ollín (ar em nahuatl) quente do candil/lamparina. Isso justifica o aspecto dourado e o tom verdoso dos exemplares recuperados. Ainda que não se fizessem análises à composição, tudo indica que a sua película exterior não é de ouro, mas sim de cobre, como esclarece Alzate (1785).

De acordo com as palavras do autor, pareceria que o consumo deste tipo de conta se restringiria à produção de rosários para o uso da população indígena. De fato, a sepultura onde se encontrou no convento uma dessas contas poderá pertencer a uma criada indígena, uma vez que os seus acompanhamentos são escassos e isso seria pouco apropriado para uma monja de hábito negro. No entanto, a grande representatividade destas peças na enfermaria torna pouco provável atribuir o seu uso exclusivamente a este grupo específico de mulheres que habitaram o convento.

Como já se afirmou, os rosários com que se pintaram as monjas de hábito negro depois de mortas e antes da sua sepultura apresentam características morfológicas semelhantes. A sua estética dourada, capaz de confundir o espectador e de induzi-lo a pensar que se tratavam de joias em ouro, satisfazia plenamente os critérios de ostentação da sociedade vice-reinal. Para a elite criolla, essas peças pareciam-se às bollagras42 de tradição mourisca, usadas na Espanha. Paralelamente, são sobejamente conhecidos os exemplares pré-hispânicos que revelam a perícia dos artesãos nativos para produzir contas de ouro ocas, como as que se recuperaram na região de Oaxaca43.

A proximidade com modelos pré-hispânicos e mouriscos sugere que as peças em questão puderam pertencer a qualquer um dos grupos que procurasse uma associação com tais referenciais. Portanto, acredita-se que estas contas diferenciadas constituem um desses exemplos materiais que se associaram à definição da identidade de vários grupos, embora, para cada um deles, elas remetessem a universos simbólicos distintos. Essas plurivocidades e eventuais negociações seriam especialmente apelativas em situações de doença, sobretudo considerando-se que nesses espaços circularam monjas e criadas que faziam o que estava ao seu alcance para manter o local nas melhores condições e propiciar a cura necessária para a recuperação do enfermo.

O outro grupo de contas mais ou menos uniforme consiste em um conjunto de quatro exemplares pequenos e com bastantes sinais de desgaste e decomposição. A sua forma varia entre globuloide de tom azul cobalto44 ou ovoidal de tom azul cobalto45 e azul turquesa46 (Figuras 23 e 24, respectivamente). Estruturados pela sobreposição sucessiva de camadas de vidro, que atualmente apresentam uma coloração opaca devido às condições de jazida, eles têm semelhanças com o tipo Nueva Cadiz encontrado em contextos americanos e que frequentemente são considerados importações italianas (Stemm et al., 2013). Tais suposições baseiam-se no fato de esta técnica ter surgido pela primeira vez em Veneza e Murano, mas, ao longo do período moderno, ela expandiu-se por toda a Europa, nomeadamente por Barcelona (Catalunha), Amesterdã (Países Baixos) e Hammersmith (Inglaterra). Por isso, não se pode descartar que o fluxo permanente de vidreiros destas regiões na Nova Espanha não tenha suscitado uma produção interna (Gasparetto, 1958; Van Dillen, 1933; Karklins et al., 2015).

Figura 23 Conta modelada de forma globuloide, com orifício transversal de secção circular, de cor azul cobalto translúcido. Dimensões: largura - 4 mm; altura - 5 mm; orifício - 1,5 mm. Fonte: CATSA 22849 2/4, sem indicação da UE onde foi recolhida. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Figura 24 Conta modelada de forma globular, com orifício transversal de secção circular, de cor azul turquesa, originalmente translúcido (?). Dimensões: largura - 6 mm; altura - 6 mm; orifício - 1,5 mm. Fonte: CATSA 22849 4/4, sem indicação da UE onde foi recolhida. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Nesta zona, foram ainda detectadas duas contas modeladas, de forma globular: uma de cor azul-escuro, quase negro (Figura 25)47, e outra negra (Figura 26)48, ambas de vidro opaco, mas também uma peça em forma de pingente (Figura 27)49. As duas últimas aparecem referidas como exemplares dos séculos XVI-XVII na ficha de sítio, mas não se sabe em que elementos se baseou o arqueólogo para definir tal cronologia.

Figura 25 Conta modelada de forma globuloide, com orifício transversal de secção circular, de cor azul turquesa algo translúcido. Dimensões: largura - 7 mm; altura - 5 mm; orifício - 3 mm. Fonte: CATSA 17351, sem indicação da UE onde foi recolhida. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Figura 26 Conta modelada de forma globuloide, com orifício transversal de secção circular, de cor negra opaca. Dimensões: largura - 1 cm; altura - 1 cm; orifício - 2 mm. Fonte: CATSA 17346 1/2, sem indicação da UE onde foi recolhida, séculos XVI-XVII. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Figura 27 Fragmento de conta modelada em forma de pingente, com uma das extremidades arredondada e diâmetro progressivamente mais estreito até a outra extremidade fraturada. O orifício é transversal e de secção circular, e a cor é azul turquesa translúcido. Dimensões: largura - 1,3 cm; altura - 1 cm; orifício - 2 mm. Fonte: CATSA 17346 2/2, sem indicação da UE onde foi recolhida, séculos XVI-XVII. Foto: Andreia Martins Torres (2012). 

Cabe agora perguntar-se sobre o que levaria os seus donos a se desfazerem destas contas, a maioria sem qualquer fratura, sem ponderar a possibilidade de as reaproveitar? Talvez a resposta se encontre no discurso higienista desenvolvido ao longo do século XVIII e que, por temor à propagação de doenças, defendeu a inutilização dos bens com os quais o paciente teve contato mais direto. Isso justificaria, em parte, a inexistência destas peças em contextos de habitação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Convento da Encarnação da Cidade do México constitui um importante espaço para a reflexão sobre o comércio e o consumo das contas de vidro na Nova Espanha. Embora se tratasse de um edifício religioso, destinado a congregar as mulheres virtuosas da elite novo-hispânica, também residiram neste local seculares de diferentes grupos socioculturais que, a acreditar nas palavras de Careri (1976) referidas anteriormente, conformaram a maioria da população do convento. Por isso, não é possível continuar ignorando a pluralidade deste grupo. Ele constituiu-se por religiosas e seculares, livres e escravas, cujas vidas estiveram condicionadas pela arquitetura do edifício e pelas regras ditadas pela Ordem Concepcionista. Tais fatores, associados ao status de cada uma dentro da instituição, determinaram os espaços por onde poderiam circular, as atividades terrenais e espirituais que deveriam desempenhar ou o aspecto que teriam os seus corpos. Todos estes elementos moldaram as experiências e percepções individuais mas, ainda assim, elas exerceram a sua agência, alterando a funcionalidade original dos compartimentos, adquirindo novos lotes para ampliar o recinto ou decorando esses cenários e os seus próprios corpos com detalhes singulares.

Além destes âmbitos que incidiram maioritariamente sobre as percepções visuais, estas mulheres desempenharam uma série de atividades no interior daquelas paredes, que geraram sons e odores específicos, algumas delas diretamente relacionadas com as contas de vidro. A grande concentração destes materiais na zona da enfermaria permite lançar a hipótese de terem sido usados em processos de recuperação, integrando rosários ou amuletos. No primeiro caso, elas associaram-se à passagem dos dedos por cada uma das suas contas, marcando o ritmo compassado das orações, através das quais se pedia a intervenção divina para alcançar a cura ou se encomendava a alma ante a iminência da morte.

Relativamente aos amuletos, cabe referir que o seu uso não foi totalmente condenado pela igreja e que, em alguns casos, se associaram à imagem divina ou à medicina, como sucedeu com o coral e as contas de vidro vermelhas. Embora no convento predominasse aparentemente a ortodoxia católica, a ingerência de mulheres indígenas de diferentes etnias americanas, africanas e eventualmente também asiáticas terá ocasionado comportamentos considerados desviantes e transferências culturais entre ambas. Por isso, não é difícil imaginar que as negras e as índias continuassem a usar os seus objetos de proteção ou remédios tradicionais para curar os seus próprios corpos. Também que, em casos de aflição, tenham acudido a saberes alheios, nomeadamente alguma monja mais receptiva, e usado fórmulas de outras mulheres para alcançarem o seu objetivo, o qual podia estar direcionado à cura do corpo, mas também à satisfação de certas ambições.

Dentro do convento existiram espaços íntimos onde se puderam perpetrar secretamente essas partilhas, tal como sucedia em certos âmbitos da sociedade civil. Portanto, não se poderá descartar que as contas tenham sido protagonistas nesse tipo de ritual, misturando-se com ervas aromáticas, guardando-se junto ao corpo em sítios ocultos e proferindo-se orações que transformavam esses materiais e lhe conferiam poderes mágicos. Tais dinâmicas não deixaram evidências diretas no registo arqueológico. No entanto, as referências documentais sobre esses episódios no mundo exterior criam margem para pensar que no convento, onde viviam as mesmas mulheres e se reproduziam dinâmicas similares, as experiências não tivessem sido tão diversas.

Na zona da igreja, o lugar ocupado pelas religiosas de hábito negro estava situado no extremo oposto ao altar, onde o padre realizava os sacramentos e ritualizava o processo de transformação do pão e do vinho em corpo e sangue de Cristo. Era no coro que elas assistiam à missa, resguardadas do olhar de terceiros por uma grade. Mas esse entorno, que as colocava em uma posição inferior à do homem, negando-lhe a possibilidade de oficiar tais cerimônias ou sequer participar de maneira próxima, era também a zona do convento onde elas se empoderavam. As mesmas grades que impunham um distanciamento físico possibilitavam a sua comunicação com a população exterior ao convento. Era também no coro onde elas exibiam toda a ostentação que logravam imaginar e pagar durante a cerimônia de profissão de fé. Com o mesmo vestuário, celebravam essa data com as irmãs e eram adornados os seus corpos enquanto eram velados e sepultados. Esses complementos aparecem no registo arqueológico onde se recuperaram rosários e bordados de contas de vidro. Isso sugere a sua importância como elementos constitutivos dos seus corpos e da sua identidade em momentos especiais da vida e da morte. Eles associavam-se a outros componentes que complementavam a gramática simbólica da sua aparência e potencializavam as experiências sensoriais. O brilho das contas contrastava com as cores do papel, para se misturar com o cheiro das flores naturais, enquanto se partilhavam momentos de felicidade e de tristeza. Tais adornos foram exclusivos deste grupo de mulheres, próprios dos seus corpos e de suas almas, comprometidos e inteiramente dedicados ao mundo sagrado, pelo menos em teoria.

Embora as ações das religiosas fossem desenvolvidas no interior do edifício, como requeria o regime de clausura, o seu impacto repercutiu na cidade, na devoção dos habitantes e nos negócios ou estratégias políticas. Como se assinalou ao longo do texto, o poder dessas monjas superou largamente o âmbito estrito do convento.

Através da educação das ‘meninas’, elas puderam perpetrar certas ideias na sociedade civil, nomeadamente no que concerne às funções e aos comportamentos que se consideravam apropriados para a mulher secular. Entre eles, incluíam-se as artes de bordar com pequenas missangas, como as que aparecem impressas no molde do escudo de uma monja de hábito negro cuja sepultura foi coberta de cal. Por isso, os vestidos mais faustosos e as peças mais delicadas usadas no vice-reino estavam realizadas com estes materiais, tal como sucedia na Península Ibérica. Na América, eles resultavam de um trabalho praticado apenas por mulheres e que requeria longas horas de dedicação, no decorrer das quais poderiam adotar uma atitude introspectiva ou, pelo contrário, conversar com suas companheiras.

Além das ‘meninas’, as criadas e os mordomos foram elos com o mundo exterior, através dos quais se mantinham atualizadas sobre os principais sucessos que as afetavam, ao mesmo tempo que atuavam como seus intermediários. Assim, exerceram influência sem a ingerência direta e permanente dos olhares masculinos, desfrutando de certa liberdade para gerir o seu cotidiano.

No que concerne especificamente às contas de vidro, os usos identificados no convento demonstram que, apesar de existir uma tendência a associar estes materiais a contextos indígenas ou de população negra, eles tiveram um consumo importante entre as espanholas e as criollas. Para elas, vestir-se com adornos de contas e decorar as roupas da casa ou objetos móveis com essas peças era apresentar-se à espanhola. Isso justifica também a proliferação de objetos litúrgicos bordados de abalorios e de popotillo, sem que tais complementos comprometessem a dignidade do ritual.

Ao mesmo tempo, previvia no imaginário de muitos homens da elite, como Alzate (1785), que estes adornos eram próprios de negros e de índios, possivelmente devido a um distanciamento maior deste setor da população relativamente a essas artes. Na prática, elas também penetraram no seu cotidiano, na sua roupa e nos seus acessórios, a exemplo da decoração de cigarreiras, mas a sua percepção sobre esses objetos não levou a uma associação direta com as contas que viam sobre os corpos de pessoas de outros grupos.

Embora, na realidade, o êxito das missangas já não se pudesse comparar nos séculos XVII e XVIII àquele que transparece das primeiras crônicas americanas, existiu sempre um discurso de que eram essenciais em qualquer viagem ‘exploratória’ que implicasse contato com uma população isolada. Elas alcançaram as zonas mais periféricas do vice-reino, mas tiveram maior impacto em populações onde a presença espanhola foi mais efetiva, eventualmente pela maior pressão das autoridades locais para colocar as importações europeias nessas praças50. Neste caso, interessa ressaltar que, associadas ao uso desses objetos, foram transmitidas formas de estar e afinidades com o grupo de quem eram ‘próprios’. Através da cultura material, e especialmente das contas, se aproximaram indivíduos com universos conceituais distintos e que, ao partilhar alguns dos aspectos que definiam os seus corpos físicos, acabaram por se tornar aparentemente menos diferentes. Este fator foi importante para estimular simpatias e garantir certa estabilidade política, que acabaria por ficar associada também a estes objetos (Rodríguez-Alegría, 2010).

Evidentemente, as utilizações e os significados que estes objetos adquiriram no contexto particular de cada grupo social são muito difíceis de ser determinadas. Porém, as fontes escritas e os achados arqueológicos revelam como foram gerados diferentes discursos em torno dos mesmos. Paradoxalmente, as contas de vidro serviram como símbolo de evangelização, da propagação de uma cultura europeia que serviu para aproximar grupos culturais muito diferentes, mas também para reafirmar identidades locais e certos aspectos que a igreja tentava combater.

De tudo isso deriva a dificuldade em atribuir a utilização de uma conta específica a um grupo determinado, mais além do fato de se saber que algumas áreas do convento estariam vedadas às criadas e monjas de hábito branco (como o coro baixo ou a cripta) ou que as de hábito negro foram enterradas com objetos bordados em contas e com rosários de vidro. Por isso, é impossível fazer generalizações e cada contexto arqueológico fornece novos detalhes interessantes sobre as diferentes formas em que se usaram.

De maneira geral, a situação estratégica do vicereino face às principais rotas comerciais possibilitou a manutenção de um fluxo constante de pessoas de todo o mundo. Nos mesmos barcos por onde circulavam esses indivíduos e a sua bagagem chegava uma enorme quantidade de mercadorias, nomeadamente contas, que estiveram disponíveis em qualidades e a preços variados para o consumo de toda a população. Se bem uma parte dessas peças eram importadas da Ásia através de Manila (Filipinas), ou a partir da Europa, outras eram de produção local, como as contas douradas.

O comércio desses gêneros rendeu grandes lucros e o seu consumo foi estimulado por meio de diferentes vertentes. Ele permitiu alimentar a economia da metrópole através do negócio de particulares, mas também da Nova Espanha, onde as redes de distribuição das produções europeias foram sustentadas por uma política imperial que favorecia o enriquecimento das elites mercantis lá instaladas.

No que concerne ao setor vidreiro, sabe-se que só em período tardio foram concedidos incentivos à produção de contas na Espanha, e a maioria das exportações com destino à América seria adquirida no mercado exterior. Recorde-se que, desde 1505 a 1707, o vice-reino de Nápoles pertenceu ao império espanhol e a proximidade com os principais centros de produção de vidro poderá justificar, em parte, esta falta de interesse por estimular a produção peninsular. Por outro lado, parece ter existido um especial cuidado em promover a manufatura do vidro na Nova Espanha, inclusive durante o governo dos Bourbon. Nesse contexto, terá emergido a manufatura das contas de vidro douradas encontradas em escavações no atual território mexicano e norte-americano. Mas esse é um tema para outro artigo que esperamos escrever em breve.

1Nesses contatos iniciais, os designados abalorios tiveram um protagonismo especial, refletido nas crônicas da época e nas memórias desses episódios que seletivamente chegaram à atualidade (Díaz del Castillo, 1976).

2Por criollos entende-se os descendentes de espanhóis nascidos na América. Por isso, seria incorreto fazer uma tradução direta pelo termo ‘crioulos’, cujo significado é substancialmente diferente.

3Este livro está baseado na monografia de licenciatura desta autora (López Ignacio, 2000).---

4O vidro foi também o tema da monografia de licenciatura desta autora (Alvízar Rodríguez, 2007).

5A primeira notícia identificada sobre o convento diz respeito a um pleito sobre se haver passado no novo convento às casas que eram de Rodrigo Pacheco. Archivo General de la Nación (AGN), Bienes Nacionales, v. 673, exp. 3, 1597.

6Vejam-se os vários quadros cartográficos nos quais foram pintadas as ruas e os edifícios notáveis da cidade. Em todos eles torna-se evidente o destaque dado às construções de caráter religioso, constando quase sempre da legenda que acompanhava a ilustração. Um dos exemplos mais antigos é o quadro de Luis Gómez de Trasmonte, Cidade de México, 1628, tinta e aguada, 47,2 × 65 cm, Florença, Biblioteca Medicea Laurenziana.

7AGN, Bienes Nacionales, v. 18, exp. 8, 1729.

8Sobre os engenhos, cabe referir que na Nova Espanha a palavra costumava designar uma oficina têxtil (AGN, Bienes Nacionales, v. 18, exp. 14, 1711). O meson era uma casa onde se dava albergue a viajantes e seus cavalos (AGN, Bienes Nacionales, v. 18, exp. 10, 1795). Em 1774, o convento possuía um cajón (posto) arrendado a María del Pilar Pacheco (AGN, Indiferente Virreinal, v. 2483, exp. 40, 1774).

9Em 1677, chegaram a interceder junto ao Consejo de Índias a favor da candidatura de Juan Centeno de Vera, tesoureiro da Casa da Moeda (Archivo General de Indias (AGI), Escribania, 959, 1677).

10AGN, Regio Patronato Indiano, Templos y Conventos, contenedor 118, v. 226, exp. 2, 1795-1796.

11A venda das casas mencionadas ocorreu durante os anos de 1777 a 1779 (AGN, Tierras, contenedor 946, v. 2238, exp. 7, 1777-1778; AGN, Obras Públicas, contenedor 17, v. 41, exp. 1, 1778; AGN, Reales Cédulas Originales, v. 116, exp. 228, 1779).

12A falta de moradias suficientes fez com que algumas mulheres ocupassem outras zonas do convento. Em 1654, Ana de la Natividad comprava pela quantia de 1.310 pesos uma sala e um ovatório para se instalar em regime de clausura “con el dinero de mi renta y otras cosas adquiridas con el trabajo de mis manos” (AGN, Indiferente Virreinal, v. 1069, exp. 46, 1653). Esta era uma soma considerável, uma vez que, em 1792, uma “celda pequeña” valia 225 pesos (AGN, Indiferente Virreinal, v. 5627, exp. 21, 1792).

13Este dinheiro entraria diretamente para os fundos da comunidade e, segundo a documentação consultada, desde os finais do século XVII e início do século XVIII ele custava 3.000 pesos, subindo ainda nos anos 30 para 4.000 pesos (AGN, Bienes Nacionales, v. 128, exp. 37, 1691; AGN, Bienes Nacionales, v. 482, exp. 29, 1707; AGN, Indiferente Virreinal, v. 5253, exp. 67, 1738).

14AGN, Reales Ordenes, v. 11, n. 198, 1787; AGN, Lotería, contenedor 1, v. 7, exp. 5, 1786 e 1797.

15Vejam-se, por exemplo: AGN, Indiferente Virreinal, v. 6066, exp. 26, 1692; AGN, Bienes Nacionales, v. 535, exp. 35, 1732; AGN, Indiferente Virreinal, v. 5008, exp. 78, 1786.

16Entre 13 e 36 m2 (Salas Contreras, 2006, p. 80).

17Esse terá sido o caso da ‘menina’ María de la Encarnación, que, em 1678, recebia 400 pesos para ajuda de seu dote da obra pia fundada por Alvaro de Lorenzana (AGN, Bienes Nacionales, v. 474, exp. 10, 1678).

18AGN, Indiferente Virreinal, v. 5603, exp. 94, 1672.

19AGN, Indiferente Virreinal, v. 3942, exp. 37, 1754.

20Por isso, Sor Clara de San Joseph solicitou licença para que pudesse entrar no convento a sua criada Polonia Lutgarda, sendo o ano de 1716 (AGN, Indiferente Virreinal, v. 5752, exp. 43, 1716). Do mesmo modo, decorrendo o ano de 1663, a religiosa Ana de San José Neli solicitou uma criada, por se encontrar doente (AGN, Indiferente Virreinal, v. 2885, exp. 7, 1663). Também se localizaram pedidos em nome da instituição, como o que emitiu a abadessa Luisa de Encarnação, em 1600, solicitando seis índias ou mulatas livres (AGN, Bienes Nacionales, v. 78, exp. 39, 1600).

21AGN, Indiferente Virreinal, v. 828, exp. 31, 1663.

22AGN, Reales Cédulas por Duplicado, v. 14D, exp. 754, 1649.

23Simples quando foi feita com uma única capa de vidro, composta quando se aplicaram várias capas de cor diferente e complexa quando possui uma única capa de vidro, mas foi executado algum tipo de decoração.

24Sabe-se, por exemplo, que em 1749 se adquiriu uma imagem de São José e que a sua colocação na igreja foi celebrada com 40 dias de indulgências (AGN, Indiferente Virreinal, v. 5211, exp. 47, 1749).

25Uma dessas monjas que se dedicou às artes foi Sor María Francisca de la Santísima Trinidad que, no ano de 1737, pedia autorização ao arcebispado da Cidade do México para se examinar de música (AGN, Indiferente Virreinal, v. 1116, exp. 2, 1737).

26Inclusive da vice-rainha: “Domingo 4, profesó en la Encarnación la hija del castellano de Acapulco; hubo muchos fuegos en la noche antes y hoy, y gran concurso; la señora virreina dentro del convento, dice fue madrina de la religiosa” (Robles, 1946, p. 295).

27CATSA 17375, Sítio Coro Bajo, UE 76, capa V - contexto de entulho, não associado a enterramento.

28A única exceção são quatro sepulturas infantis, de crianças com idades compreendidas entre 10 a 13 anos e que foram enterradas entre as monjas.

29Associado à sepultura número 50.

30Estas peças foram registadas com o número de inventário CATSA 17345, Capa III, EP#39 e, embora estejam catalogadas como contas de vidro, a sua semelhança com o coral exigiria análises químicas para o comprovar. Ainda assim, no momento em que se acedeu a estes exemplares, já não se conservavam os elementos metálicos com que foram encontrados, muito possivelmente pelo estado de degradação em que estariam.

31CATSA 17350 2/2, C12 Cuadro E Copa III Asoc. a E.P.#53. CATSA 17350 (1/2 e 2/2). São dois fragmentos da mesma peça.

32Uma dessas irmandades foi a de Santo António de Pádua que se fundou em 1699 (AGN, Indiferente Virreinal, v. 1254, exp. 12, 1722).

33CATSA 23615, UE C14, Capa III, Relleno de la cripta.

34AGN, Indiferente Virreinal, v. 3555, exp. 10, 1633. Sobre os gastos com a enfermaria durante o século XVII, veja-se também AGN, Indiferente Virreinal, v. 74, exp. 12, 1648-1651. María Luisa Rodríguez-Sala investigou sobre os cirurgiões novo-hispânicos e refere o nome de Antonio de Figueroa, que trabalhou no Convento da Encarnación no início do século XVIII (Rodríguez-Sala, 2011).

35CATSA 17369 4/5, sem indicação da UE em que foi recolhida. CATSA 17369 (1/5 a 5/5); CASTA 22874 2/2, sem indicação da UE onde foi recolhida. CATSA 22874 (1/2 e 2/2).

36CATSA 17376 2/2, sem indicação da UE onde foi recolhida. CATSA 17376 1/2, sem indicação da UE onde foi recolhida. CATSA 17376 (1/2 e 2/2).

37CATSA 23617 1/3, sem indicação da UE onde foi recolhida. CATSA 23617 (1/3 e 2/3).

38CATSA 23618, sem indicação da UE onde foi recolhida. CATSA 23618.

39CATSA 23617 3/3, sem indicação da UE onde foi recolhida. CATSA 23617 3/3.

40CATSA 22874 (1/2 e 2/2).

41Achados que estavam associados à Igreja de la Concepción e respectivo campo santo. Este edifício foi fundado por Hernán Cortés e refundado nos finais do século XVII.

42Um modelo de conta globuloide e interior oco, realizado em metal precioso e decorado com motivos em relevo.

43Vejam-se, por exemplo, a joalharia popular de Alberca (Espanha) e as joias em ouro recuperadas em Monte Albán (Oaxaca).

44CATSA 22849 1/4.

45CATSA 22849 2/4, sem indicação da UE onde foi recolhida. CATSA 22849 2/4.

46CATSA 22849 4/4, sem indicação da UE onde foi recolhida. CATSA 22849 3/4 e 4/4.

47CATSA 17351, sem indicação da UE onde foi recolhida. CATSA 17351.

48CATSA 17346 1/2, sem indicação da UE onde foi recolhida. Séculos XVI-XVII. CATSA 17346 1/2.

49CATSA 17346 2/2, sem indicação da UE onde foi recolhida. Séculos XVI-XVII. CATSA 17346 2/2.

50Vejam-se, por exemplo, as escavações em missões no atual território norte-americano (White, 2013; Mitchem, 1993; Deagan, 1987; Blair et al., 2009).

Apêndice

Classificação das contas de vidro analisadas.

N° inventário Técnica de manufatura Estrutura Forma Cor do vidro Diafaneidade Outra coloração Decoração impressa Medidas: largura x altura x orifício Localização Contexto Cronologia Origem
CATSA 17375 Modelado Simples Globuloide Vermelho Opaco 9 mm x 8 mm x 2 mm Igreja: Coro Bajo Entulho Séculos XVII-XIX Novo-hispânica
CATSA 17345 1/7 Modelado Simples Globuloide Vermelho Opaco 2 mm x 4 mm x 1 mm Igreja: Antecoro Enterramento: sepultura 39 Séculos XVI-XVII (?) Indeterminada
CATSA 17345 2/7 Modelado Simples Globuloide Vermelho Opaco 2 mm x 4 mm x 1 mm Igreja: Antecoro Enterramento: sepultura 39 Séculos XVI-XVII (?) Indeterminada
CATSA 17345 3/7 Modelado Simples Globular Vermelho Opaco 2 mm x 4 mm x 1 mm Igreja: Antecoro Enterramento: sepultura 39 Séculos XVI-XVII (?) Indeterminada
CATSA 17345 4/7 Modelado Simples Globuloide Vermelho Opaco 3 mm x 4 mm x 1 mm Igreja: Antecoro Enterramento: sepultura 39 Séculos XVI-XVII (?) Indeterminada
CATSA 17345 5/7 Modelado Simples Globular Vermelho Opaco 3 mm x 4 mm x 1 mm Igreja: Antecoro Enterramento: sepultura 39 Séculos XVI-XVII (?) Indeterminada
CATSA 17345 6/7 Modelado Simples Globuloide Vermelho Opaco 3 mm x 4 mm x 1 mm Igreja: Antecoro Enterramento: sepultura 39 Séculos XVI-XVII (?) Indeterminada
CATSA 17345 7/7 Modelado Simples Globuloide Vermelho Opaco 3 mm x 4 mm x 1 mm Igreja: Antecoro Enterramento: sepultura 39 Séculos XVI-XVII (?) Indeterminada
CATSA17350 (1/2-2/2) Modelado Simples Ovoidal (?) Âmbar Translúcido 1 cm x 9 mm x 2 mm Igreja: Antecoro Enterramento: sepultura 53 Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Indeterminada
CATSA 23615 Modelado Simples Pingente Verde Translúcido 1,6 cm x 9 mm x 2,5 mm Cripta Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Indeterminada
CATSA 17369 1/5 Modelado Complexa Globuloide Verdoso Translúcido Superfície dourada 4 mm x 5,5 mm x 1 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispânica
CATSA 17369 2/5 Modelado Complexa Globular Verdoso Translúcido Superfície dourada 5 mm x 6 mm x 1 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispânica
CATSA 17369 3/5 Modelado Complexa Globuloide Verdoso Translúcido Superfície dourada 7 mm x 6 mm x 1 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispânica
CATSA 17369 4/5 Modelado Complexa Globuloide Verdoso Translúcido Superfície dourada 5 mm x 6 mm x 1 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispânica
CATSA 17369 5/5 Modelado Complexa Globuloide Verdoso Translúcido Superfície dourada 6 mm x 5,5 mm x 1 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispânica
CATSA 22874 1/2 Modelado Globuloide Âmbar Translúcido Superfície dourada 5 mm x 6 mm x 1,5 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispânica
CATSA 22874 2/2 Modelado Complexa Globular Âmbar Translúcido Superfície dourada (?) 5 mm x 5 mm x 1,5 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo- hispânica
CATSA 17376 1/2 Modelado Complexa Globuloide Verdoso Translúcido Superfície dourada Linhas transversais incisas 5 mm x 6 mm x 2 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispânica
CATSA 17376 2/2 Modelado Complexa Globuloide Verdoso Translúcido Superfície dourada Linhas transversais incisas 8,5 mm x 1,1 cm x 2 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo- hispânica
CATSA 23617 1/3 Modelado Complexa Globuloide Verdoso Translúcido Superfície dourada Linhas transversais incisas, intercaladas com linhas perladas 7 mm x 6,5 mm x 1 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispânica
CATSA 23617 2/3 Modelado Complexa Globuloide Verdoso Translúcido Superfície dourada Linhas transversais incisas, intercaladas com linhas perladas 9 mm x 4 mm x 1 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispânica
CATSA 23618 Modelado Complexa Bitroncocônico Verdoso (?) Translúcido (?) Superfície dourada 6 mm x 1,1 cm x 2 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo- hispânica
CATSA 23617 3/3 Modelado Complexa Ovoidal Verdoso Translúcido Superfície dourada Linhas transversais incisas, intercaladas com linhas perladas 1 cm x 8 mm x 1 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispânica
CATSA 22874 1/2 Modelado Complexa Globuloide Âmbar Translúcido Superfície dourada 4 mm x 6 mm x1 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo- hispânica
CATSA 22874 2/2 Modelado Complexa Globular Âmbar Translúcido Superfície dourada (?) 5 mm x 5 mm x 1 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Novo-hispana
CATSA 22849 1/4 Modelado Composta Globuloide Azul cobalto Translúcido 4 mm x 5 mm x 1,5 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Indeterminada
CATSA 22849 2/4 Modelado Composta Ovoidal Azul cobalto Translúcido 6 mm x 5 mm x 1,5 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Indeterminada
CATSA 22849 3/4 Modelado Composta Ovoidal Azul turquesa Translúcido 6 mm x 5 mm x 1,5 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Indeterminada
CATSA 22849 4/4 Modelado Composta Ovoidal Azul turquesa Translúcido 6 mm x 6 mm x 1,5 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Indeterminada
CATSA 17351 Modelado Simples Globuloide Azul escuro Opaco 7 mm x 9 mm x 4 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Indeterminada
CATSA 17346 1/2 Modelado Simples Globular Negro Opaco 1 cm x 1 cm x 2 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Indeterminada
CATSA 17346 2/2 Modelado Simples Pingente (?) Azul turquesa Translúcido (?) 1,3 cm x 1 cm x 2 mm Pátio das Jacarandas Entulho Novo-hispano (séculos XVI-XIX) Indeterminada

REFERÊNCIAS

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Recebido: 06 de Abril de 2017; Aceito: 31 de Outubro de 2017

Andreia Martins Torres. CHAM - Centro de Humanidades. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Universidade Nova de Lisboa. Av. De Berna, 26C. Lisboa, Portugal. CEP 1096-061 (andreiamtorres@gmail.com). ORCID: http://orcid.org/0000-0003-4650-2279

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