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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122On-line version ISSN 2178-2547

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.13 no.2 Belém May/Aug. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200007 

Artigos

Sujeito dativo em Canela

Dative subject in Canela

Flávia de Castro Alves1 
http://orcid.org/0000-0002-8275-4935

1Universidade de Brasília. Brasília, Distrito Federal, Brasil

Resumo

Certos predicados (nominais e verbais) podem ocorrer em construções que expressam estados mentais ou físicos em Canela. Nestas construções, com um ou dois argumentos, o experienciador é marcado formalmente pela posposição dativa mã: (i) [ExperienciadorDativo Predicado]; (ii) [ExperienciadorDativo Estímulo Predicado]. Neste artigo, apresento os diferentes tipos de predicados que podem ocorrer nas construções (i) e (ii): nomes e verbos monovalentes, bivalentes e trivalentes. Adicionalmente, identifico o padrão encontrado nessas construções e avalio a condição gramatical do sintagma dativo. Os testes sintáticos aplicados às construções incluem reflexivização, controle e apagamento nas orações coordenadas e subordinadas, e mudança de referência. As propriedades de comportamento e de controle exibidas pelo sintagma posposicional mostram que as construções (i) e (ii) compartilham muitas das características sintáticas das orações verbais. Considerando que as propriedades de comportamento e de controle são os requisitos para a categoria de sujeito, a conclusão é de que, nessas construções, o sintagma dativo comporta-se como o sujeito, não como um oblíquo. Tais evidências são suficientes para argumentar em favor da categoria gramatical do sujeito como morfologicamente heterogênea em Canela, mas que é unificada por seus comportamentos sintáticos.

Palavras-chave Relações gramaticais; Sujeito; Argumento não prototípico

Abstract

A set of predicates (nominal and verbal) can occur in constructions that express mental or physical states in Canela. In these constructions, with one or two arguments, the experiencer is overtly marked by the dative postposition mã: (i) [ExperiencerDative Predicate]; (ii) [ExperiencerDative Stimulus Predicate]. In this paper, I present the different predicates that can occur in constructions (i) and (ii): nouns and monovalent, bivalent, and trivalent verbs. I also identify the pattern found in these constructions and evaluate the grammatical condition of the dative phrase. The syntactic tests applied to the constructions include reflexivization, control and deletion in coordinate and subordinate clauses, and switch-reference. The properties of behavior and control displayed by the dative postpositional phrase show that constructions (i) and (ii) share many of the syntactic characteristics of verbal sentences. Considering that the properties of behavior and control are the requirements for the category of subject, it can be concluded that in these constructions, the dative postpositional phrase is the subject, not an oblique. Such evidence is sufficient to argue in favor of the grammatical category of subject as a morphologically heterogeneous category in Canela, but at the same time is unified by its syntactic behaviors.

Keywords Grammatical relations; Subject; Non-prototypical argument

INTRODUÇÃO

O Canela, falado por cerca de 3.000 indivíduos pertencentes aos povos Canela Apãniekrá e Canela Ramkokamekrá, compõe, junto com as variantes faladas pelos povos Krahô, Gavião Pykobjê, Krikatí, Gavião Parkatejê e Krẽjê, a língua Timbira (família Jê, tronco Macro-Jê) (Rodrigues, 1999). Como os dados aqui apresentados são todos da variante dialetal falada pelos povos Canela, evitarei o termo coletivo Timbira, em favor do termo individual Canela, uma vez que os outros dialetos Timbira podem apresentar diferenças importantes em relação ao padrão apresentado a seguir.

Em Castro Alves (2004), uma série de predicados que condicionam a marcação não prototípica de A, S e P em Canela foram identificados. Posteriormente, o status gramatical desses argumentos, ainda que de maneira preliminar, foi investigado em Castro Alves (2008). O objetivo do presente artigo é discutir, de maneira mais sistemática, a marcação não prototípica de S e de A1.

O rótulo S representa o argumento central de um predicado intransitivo canônico, enquanto os rótulos A e P representam os dois argumentos centrais de um predicado transitivo canônico: A simboliza o argumento similar ao agente; P simboliza o argumento similar ao paciente (Comrie, 1978). Quando S não é uma categoria unificada, uma cisão ocorre entre os argumentos centrais do predicado intransitivo canônico: alguns argumentos mais se parecem com agentes (SA), enquanto outros mais se parecem com pacientes (SP) (Comrie, 2013).

Para os argumentos da construção (ii) [ExperienciadorDativo Estímulo Predicado], que denota estados ou processos físicos ou psicológicos, usarei as noções adicionais Ex e St (experienciador e estímulo, respectivamente) ao invés de A e P, seguindo Croft (2001). Para este autor, A e P referem-se apenas a agentes e a pacientes prototípicos (a principal classe de verbos de dois argumentos), e não se estendem a experienciadores e estímulos. Nessa mesma direção, também adotarei a noção de Ex, ao invés de S, para representar o único argumento da construção (i) [ExperienciadorDativo Predicado], uma vez que não se trata de predicado intransitivo prototípico. A justificativa para tal escolha encontra-se em Haspelmath (2011), segundo o qual não há razão para a tipologia não adicionar outros conceitos comparativos. Segundo Haspelmath (2011), ao começar a incorporar outros tipos de verbos antes negligenciados (como os experienciais, por exemplo), a tipologia ampliaria gradualmente seu alcance.

O artigo está organizado da seguinte maneira: ainda nesta introdução, identifico os predicados (verbais e nominais) que podem ocorrer nos dois tipos de construções (com um ou dois argumentos) e expressam estados mentais ou físicos na língua. Na primeira seção, uma descrição das propriedades do sujeito no Canela é apresentada: suas propriedades de codificação (concordância verbal, marcação de caso e ordem de constituintes) e comportamentais (controle e apagamento). Na segunda seção, é apresentado o sintagma posposicional dativo que realmente não é sujeito. Na terceira seção, é apresentado o sintagma posposicional dativo que é claramente o sujeito. Na quarta seção, apresento a construção de posse, cujo sintagma dativo exibe propriedades mistas de sujeito. Por último, as considerações finais são desenvolvidas.

Os predicados (nominais e verbais) que podem ocorrer nas construções (i) e (ii), as quais expressam estados mentais ou físicos em Canela, são apresentados no Quadro 1. Na primeira coluna do Quadro 1, constam os predicados nominais; na terceira, quarta e quinta colunas constam os predicadores verbais, mono, di e trivalente, respectivamente. A segunda coluna mostra quais predicados podem ocorrer na construção (i); enquanto a última exibe os predicados que podem ocorrer na construção (ii).

Quadro 1 Predicados que expressam estados mentais ou físicos. 

Nome (i) ExDat Pred Verbo monovalente Verbo divalente Verbo trivalente (ii) ExDat St Pred
prãm2 ‘fome’ prãm ‘ter.fome’ prãm ‘querer’
pa ‘medo’ pa ‘ter.medo’ ũpa / cupa ‘ter.medo.de’
kry ‘frio’ kry ‘ter.frio’ akry ‘ser.frio’
côr ‘sede’ côr ‘ter.sede’
kĩn ‘ser.alegre’ kĩn ‘gostar’
ỳn ‘ser.doce’ ỳn ‘gostar (paladar)’
apê ‘ser.melancólico’ apê ‘procurar’ apê ‘querer.perto, ter.pena.de’
ahkre ‘buraco’ ahkre, àhkre ‘plantar’ kre ‘plantar’ ahkre ‘ensinar’ ahkrepej ‘saber, aprender’

Os dados apresentados nos exemplos (1) evidenciam alguns dos predicados que constam do Quadro 1:

[Ex Pred]
(1) a. cupẽ mehĩ prãm to=mõ (1) b. i-mã prãm
estrangeiro índios DAT fome apl=ir 1-DAT ter.fome
‘O homem branco levou fome para os índios (Timbira)’. ‘Estou com fome’.
[Ex St Pred]
(1) c. i-mã me crô j-ĩ prãm
1-DAT PL porco PR-carne querer
‘Nós queremos carne de porco’.

Em (1a), prãm ocorre em um sintagma verbal, o argumento interno de to=mõ. Já (1b) instancia a construção monoargumental (i), que expressa um estado físico, em que prãm ocorre como predicado. Por último, (1c) é um exemplo da construção biargumental (ii), que expressa a noção semântica de ‘querer’.

Os exemplos (2a) e (2b) mostram o verbo monovalente kĩn e seus argumentos internos ao sintagma verbal, argumento nominal (2a) e pronominal (2b). Já (2c) instancia a construção biargumental (ii), em que kĩn ocorre como o predicado que expressa a noção semântica de ‘gostar’.

(2) a. [cahãj kĩn]SV (2) b. [pa-kĩn]SV
mulher ser.alegre 1+2-ser.alegre
‘A mulher é simpática’. ‘Nós somos simpáticos’.
[Ex St Pred]
(2) c. i-mã me crô j-ĩ kĩn
1-DAT PL porco PR-carne gostar
‘Nós gostamos de carne de porco’.

Em (3a) e (3b) vê-se o verbo monovalente akry, que se relaciona na forma e na função com o nominal kry. Seus argumentos, internos ao sintagma verbal, são expressos por meio de um nominal em (3a) e de um pronominal em (3b). Já em (3c), akry ocorre causativizado. Por último, (3d) instancia a construção monoargumental (i) que expressa um estado físico, em que kry ocorre como predicado.

(3) a. [ j-akry]SV (3) b. [h-akry]SV
água pr-ser.frio 3-ser.frio
‘A água está fria’. ‘Ela (a água) esfriou’.
[Ex Pred]
(3) c. mẽhwej te [ to=hakry]SV (3) d. i-mã kry
velha ERG água fazer=3nref.ser.frio 1-DAT frio
‘A velha esfriou a água’. ‘Estou com frio’.

O exemplo (4a) exibe o verbo monovalente ỳn, que recebe o prefixo de 3a pessoa h-. O exemplo (4b) instancia a construção biargumental (ii), em que ỳn ocorre como predicado que expressa o significado de ‘gostar’. Neste caso, relacionado apenas ao paladar.

(4) a. apen x-ô h-ĩ tỳjre ne h-ỳn
mangaba pr-fruta top 3-carne ser.forte ss 3-ser.doce
‘Sobre a fruta da mangaba, a carne dela é espessa e doce’.
[Ex St Pred]
(4) b. kwỳr x-ôm kãm mehĩ h- ỳn
mandioca grão loc índios dat 3- gostar
‘Os índios (Timbira) gostam dele (o fruto do bruto) com farinha de mandioca’.

A seguir, (5a) é um exemplo de uma construção com o verbo divalente apê, enquanto (5b) instancia a construção biargumental (ii), em que apê ocorre como o predicado que expressa o significado de ‘ter pena de’ ou de ‘querer algo perto’.

(5) a. quêt=nẽ cu-mã ampo j-apê quê cu-krẽ
neg=nẽ 3-DAT algo PR-procurar 3 3-comer
‘Cala a boca e procura alguma coisa para ele comer’.
[Ex St Pred]
(5) b. i-mã a- j-apê
1-DAT 2- pr-ser.melancólico
‘Tenho pena de você’ ou ‘Quero você perto de mim’.

Ainda em relação aos itens lexicais que constam do Quadro 1, os exemplos (6a) a (6c) exibem o nominal kre com diferentes tipos de argumento interno: um pronominal de 3a pessoa (referencial), outro nominal (uma das estratégias de formação de nomes compostos na língua) e um pronome não referencial de 3a pessoa, respectivamente:

(6) a. ih-kre (6) b. pàr=kre
3-buraco árvore=buraco
‘Buraco dele (do peba)’. ‘Canoa’.
(6) c. ahkre
3nref.buraco
‘Buraco’.

As construções (6d) e (6e) são exemplos dos verbos àhkre (monovalente) e kre (divalente), relacionados na forma e na função com o nominal kre e com seus argumentos:

(6) d. i-te ih-kwỳ kãm i-j-àhkre
1-erg 3-metade loc 1-pr-plantar
‘Eu plantei na metade dele (do campo)’.
(6) e. cuhtoj pàr quê ha jum ih-pa no j-akep ne ih-kre hõhpje rom
cabaça árvore 3 irls alguém 3-galho algum pr-cortar cnj 3-plantar quintal loc
‘O pé da cabaça, se alguém corta um galho dele e planta no quintal’...

O verbo trivalente ahkre ocorre com o nominalizador de agente catê em (6f), enquanto (6g) apresenta uma oração identificacional, a qual consiste de um sujeito mais a posposição , que funciona como cópula, e o complemento expresso por ahkre=kêatre:

(6) f. [ihkàhhôc to h-ahkre] =catê
livro inst 3-ensinar =nmz
‘Professor(a)’ (adaptado de Popjes, Jack; Popjes, Jo, 1986, p. 160, ex. 208).
(6) g. humre ita h-ahkre=kêatre
homem dem cop 3-buraco=mal
‘Este homem é um ignorante’ (adaptado de Popjes, Jack; Popjes, Jo, 1986, p. 168, ex. 250).

Para finalizar, o exemplo (6h) instancia a construção biargumental (ii), em que ahkrepej (literalmente: ahkre=pej ‘buraco (da orelha) bom’) ocorre como predicado que expressa o significado de saber:

[Ex St Pred]
(6) h. i-mã h- ahkrepej
1-DAT 3- saber
‘Eu sei (andar de bicicleta)’.

Na próxima seção, as propriedades do sujeito no Canela são apresentadas com base na proposta de Keenan (1976), que as divide em propriedades de codificação e comportamentais.

PROPRIEDADES DO SUJEITO EM CANELA

Começarei apresentando as propriedades de codificação do sujeito, que incluem concordância verbal, marcação de caso e ordem de constituintes.

PROPRIEDADES DE CODIFICAÇÃO

Concordância verbal

Com base na concordância verbal, o Canela distingue entre dois tipos lexicais de S. Isso significa que o único argumento de uma oração intransitiva é paralelo ou a A (o nominativo) ou a P (o absolutivo) (i.e. intransitividade cindida).

O Quadro 2 apresenta o conjunto das formas pronominais em Canela: uma série de pronomes independentes e de prefixos pronominais. A série de pronomes independentes codifica o argumento nominativo de uma oração, enquanto a série de prefixos pronominais codifica o absolutivo, o objeto da posposição e o possuidor (diretamente em nomes inalienáveis e por meio da posposição genitiva em nomes alienáveis).

Quadro 2 Formas pronominais em Canela. 

Pronomes independentes Prefixos pessoais
1 wa i-
1+2 pa pa(h)-
2 ca a-
3 quê/Ø i(h)-/h-/Ø/cu-

A subclasse ativa de verbos intransitivos (ou intransitivos) tem SA paralelo a A: um argumento externo, não marcado, expresso por nominais ou pronominais independentes (7a e 7b).

SA [V]SV A [p-V]SV
(7) a. ca apà (7) b. ca ih-pỳ
2 comer 2 3-carregar
‘Você come/está comendo’. ‘Você o carrega’.

A subclasse não ativa de verbos intransitivos (ou descritivos) tem SP paralelo a P: um argumento interno do sintagma verbal. Se o argumento é pronominal, o verbo leva o prefixo pessoal que identifica P ou SP (8a e 8b).

[Sp-V]SV A [p-V]SV
(8) a. a-pỳm (8) b. wa a-pỳ
2-cair 1 2-carregar
‘Você cai/está caindo’. ‘Eu te carrego’.

O passado recente condiciona o padrão ergativo na concordância verbal. Nessas construções, S não é uma categoria cindida. Os exemplos em (9) mostram o verbo3 exibindo um prefixo pessoal que identifica P ou S. Não há índice para A.

A [p-V]SV [s-V]SV
(9) a. cu-te a-pupun (9) b. a-mõr
3-erg 2-ver 2-ir
‘Ela/Ele te viu’. ‘Você foi’.

O Quadro 3 sistematiza as propriedades da codificação verbal em Canela.

Quadro 3 Concordância verbal em Canela 

Alinhamento Argumento Indexação
Intransitividade cindida A/SA ø
P/SP prefixos
Ergativo A ø
P/S prefixos

Marcação de caso

O nominativo (S=A) é sempre um argumento não marcado, conforme os exemplos (10a) e (10b):

SA V A P V
(10) a. ca ha apà (10) b. cahãj apu tep krẽ
2 irls comer mulher prg peixe comer
‘Você vai comer’. ‘A mulher está comendo peixe’.

O enclítico ergativo te marca abertamente A no passado recente. A é expresso por um sintagma nominal em (11a) e por um prefixo pessoal em (11b):

A p-V A P V
(11) a. cahãj te ih-krẽn (11) b. cu-te tep krẽn
mulher erg 3-comer 3-erg peixe comer
‘A mulher o comeu (o peixe)’. ‘Ela/Ele comeu o peixe’.

P e S são codificados por prefixos pessoais em (11a) e (12a) e por nominais livres não marcados dentro do sintagma verbal em (11b) e (12b):

[s-V]SV [S V]SV
(12) a. h-àpir (12) b. cupry j-àpen
3-subir menina pr-trabalhar
‘Ela/Ele subiu’. ‘A menina trabalhou’.

Há também a possibilidade de variação na marcação de caso no S, mas apenas nas construções que expressam passado recente e desde que um sintagma posposicional ocorra entre o erg e o verbo. Isso significa que o argumento S pode ser expresso apenas como um argumento interno do sintagma verbal (13a e 13b) ou por um prefixo pronominal correferente, marcado pela posposição ergativa no início da oração, e também apresentar concordância no verbo (13c e 13d).

s-V s-V
(13) a. a-crer (13) b. a-catõc
2-cantar 2-explodir
‘Você cantou’. ‘Você atirou’.
erg [ ]SP s-V erg [ ]SP s-V
(13) c. ai-te kỳ pe ai-crer (13) d. ai-te po kãm ai-catõc
2-erg pátio loc 2-cantar 2-erg veado loc 2-explodir
‘Você cantou no pátio’. ‘Você baleou o veado’ (Popjes, Jack; Popjes, Jo, 1986, p. 131)

No modo irrealis, o pronome nominativo codifica o sujeito (14a-14d). Na dúvida de qual argumento é o sujeito, o modo irrealis deixa isso claro.

SA V SP [sp -V]SV
(14) a. wa ha wrỳ (14) b. pai ha pahi-cakôc
1 irls descer 1+2 irls 1+2-falar
‘Eu vou descer’. ‘Nós vamos falar’.
A [P V]SV A [p-V]SV
(14) c. quê ha cuhy pĩr (14) d. cahãji quêi ha a-cakwĩ
3 irls fogo apagar mulher 3 irls 2-bater
‘Ela (a chuva) vai apagar o fogo’. ‘A mulher vai bater em você’.

O Quadro 4 sistematiza as propriedades da marcação de caso em Canela.

Quadro 4 Marcação de caso em Canela. 

Alinhamento Argumento Caso
Intransitividade cindida A/SA ø
P/SP ø
A/SA/SP Pron Nom (irls)
Ergativo A S (Pass Rec, com SP) te
P/S ø

Ordem de constituintes

Em predicados de um único argumento SA e SP (na intransitividade cindida) e S (no alinhamento ergativo) sempre precedem V. SA é um argumento externo ao sintagma verbal, enquanto SP (e S, no passado recente) ocorre dentro do sintagma verbal, como mostram os exemplos (15a) a (15c):

SA V [sp-V]SV [s-V]SV
(15) a. wa ma tẽ (15) b. a-pỳm (15) c. i-tẽm
1 dir ir 2-cair 1-ir
‘Eu vou embora’. ‘Você caiu’. ‘Eu fui’.

Nos predicados de dois argumentos, A precede P, e ambos precedem V. P é um argumento interno do sintagma verbal, como evidenciam os exemplos (15d) e (15e).

A [P V]SV A [p-V]SV
(15) d. quê apu j-akep (15) e. humre te h-akep
3 prg carne pr-cortar homem erg 3-cortar
‘Ela/Ele está cortando carne’. ‘O homem a/o cortou’.

O Quadro 5 sistematiza as propriedades da ordem de constituintes em Canela.

Quadro 5 Ordem de constituintes em Canela. 

Alinhamento Ordem
Intransitividade cindida SA V; [SP V]SV
A [P V]SV
Ergativo [S V]SV
A [P V]SV

O Quadro 6 apresenta um sumário das propriedades de codificação do sujeito em Canela.

Quadro 6 Propriedades de codificação do sujeito em Canela. 

Concordância verbal Marcação de caso Ordem de constituintes
Intransitividade cindida Ø (A; SA)
prefixos (P; SP)
Ø (A; SA; SP; P) SA V; [SP V]SV
A [P V]SV
Pron Nom (irls):
(A; SA; SP)
Ergativo Ø (A)
prefixos (P; S)
Ø (S; P)
te erg (A)
S ~ erg
(Pass Rec, com SP)
[S V]SV
A [P V]SV

Além do sistema ergativo e da intransitividade cindida, a presença de auxiliares condiciona uma situação em que A e P mostram padrões claramente distintos (nominativo versus absolutivo). S é realizado duas vezes, uma vez paralelo a A (externo, não marcado; o nominativo) e, ao mesmo tempo, paralelo a P (interno, como um prefixo no verbo; o absolutivo). Em outras palavras, S é alinhado tanto com A como com P.

Os exemplos a seguir mostram A (16a) e S (16b) expressos por um pronome independente. Além disso, S exibe um padrão de concordância absolutivo, expresso por prefixo pessoal no verbo (16b). P é expresso por um SN (16a). Além dessas propriedades, o verbo ocorre sempre na forma não finita.

A [P V Aux]SV S [s-V Aux]SV
(16) a. ca apu tep krẽn nare (16) b. ca ha a-j-àpãn ncrire
2 prg peixe comer.nf neg 2 irls 2-pr-comer.nf ser.pouco
‘Você não está comendo peixe’. ‘Você vai comer pouco’.

Por uma questão de espaço, esse sistema (descrito como nominativo-absolutivo em Castro Alves, 2004) não é tratado neste artigo4.

A Figura 1 sumariza os três tipos de construções oracionais principais em Canela, diferenciadas pelo tratamento dado aos argumentos centrais A, S e P.

Figura 1 Sistemas de alinhamento em Canela. 

As propriedades do sujeito apresentadas a seguir referem-se às suas propriedades comportamentais, a saber: controle do reflexivo, controle e apagamento nas orações coordenadas e subordinadas e mudança de referência.

PROPRIEDADES COMPORTAMENTAIS

Controle do reflexivo

Na reflexivização, A controla o reflexivo (17a e 17b). Já SA e SP (na intransitividade cindida) e S (no alinhamento ergativo) não controlam o reflexivo porque na oração em que ocorrem só há lugar para um argumento (eles mesmos).

A [P V]SV A [P V]SV
(17) a. quêi ha amjii jakep (17) b. cahãji te amjii pupun
3 irls rfl cortar mulher erg rfl ver
‘Ela/Ele vai se cortar’. ‘A mulher se viu’.

Controle e apagamento nas orações coordenadas e subordinadas

O sujeito da oração anterior controla o apagamento sob correferência na oração coordenada subsequente (18b):

sp- A
(18) a. pea=mã ihi-ncryc ne cui-te cu-pê pỳn
então 3-ser.bravo cnj 3-erg 3-mal pau pegar

SA A
(18) b. ne Øi ma tẽ ne Øi ken catut ry h-ãm
cnj 3 dir ir cnj 3 pedra costas loc 3-deixar
‘Então ele ficou bravo, pegou o pau e o deixou atrás do morro’.

No caso de o sujeito ocorrer marcado pelo caso ergativo na oração subsequente, o apagamento sob correferência não é categórico (exemplos 18a e 19):

A A
(19) cui-te i-pyr ne cui-te Ø-to=ihi-kõm
3-erg 3-pegar cnj 3-erg 3-apl=3-beber
‘Ela/Ele a pegou (a cachaça) e bebeu’.

S e SP (diferentemente de SA, de acordo com o exemplo 18b) não podem ser apagados sob correferência em uma oração coordenada (20). Isso acontece porque, nesses contextos, eles são argumentos internos do verbo:

s- s-
(20) h-àpãn ne ih-kõm
3-comer cnj 3-beber
‘Ela/Ele comeu e bebeu’.

As orações nos exemplos (21) e (22) são amostras do apagamento do sujeito (sob correferência) nas orações subordinadas. Em (21), a oração subordinada é análoga a P, enquanto que em (22) a posposição locativa é usada como subordinador:

A [A P V]P V A [A p-V ]LOC p-V
(21) cai ha [Øi cupẽnxê j-apror] to=apackêt (22) cahãj te [Øi ih-krẽr nã] ai-pupun
2 irls (2) pano pr-levar.nf apl=esquecer mulher erg (2) 3-comer.nf sub 2-ver
‘Você vai esquecer de comprar pano’. ‘A mulher viu você comendo carne’.

Quando a oração subordinada funciona como o objeto da principal, o sujeito da oração principal controla o apagamento do sujeito na subordinada (21). Quando a oração subordinada é Loc, o objeto da oração principal controla o apagamento do sujeito na subordinada (22).

Também S em (23), assim como S em (20), não pode ser apagado sob correferência em uma oração subordinada porque, nesse contexto, é um argumento interno do verbo:

A [s-V ]LOC
(23) wa jũm pupu i-picahur
1 alguém ver 1-correr.nf sub
‘Eu vejo alguém correr’.

Mudança de referência

Na mudança de referência, duas estratégias são utilizadas: o morfema para a 3a pessoa no passado recente (24a) ou o pronome nominativo para todos os outros contextos (24b). É sempre o sujeito da oração anterior que controla a mudança de referência na oração subsequente. A conjunção pode ocorrer com o pronome nominativo, mas não de maneira categórica. Os parênteses indicam essa possibilidade (24b).

A A A A
(24) a. cui-te h-ãm cuj-te Ø-to=ihj-kõm (24) b. quêi ha h-ãm (ne) quêj ha Ø-to=kõ
3-erg 3-deixar ds 3-erg 3-apl=3-beber 3 irls 3-deixar cnj 3(ds) irls 3-apl=beber
‘Ela/Ele a deixou (a cachaça) e a/o outra/o bebeu’. ‘Ela/Ele vai deixá-la (a cachaça) e a/o outra/o vai bebê-la’.

O Quadro 7 apresenta um sumário das propriedades comportamentais do sujeito em Canela.

Quadro 7 Propriedades comportamentais do sujeito em Canela. 

Controle do reflexivo Controle do apagamento sob correferência Controle na mudança de referência
Orações coordenadas Orações subordinadas ; pronome nominativo
Intransitividade cindida A A/SA A5 A/SA/SP
Ergativo A A A A/S

Nas três seções subsequentes, identifico o padrão do sintagma dativo encontrado em diferentes construções e avalio sua respectiva condição gramatical.

DATIVO QUE REALMENTE NÃO É O SUJEITO

Os exemplos a seguir exibem os verbos ajkra ‘assustar’, cakôc ‘falar’ e cator ‘chegar’ em construções monovalentes. Em (25a), o intransitivo ajkra atribui o nominativo ao único argumento (SA), enquanto os descritivos cakôc e cator (26a e 27a) atribuem o absolutivo ao seu único argumento (SP). Como visto anteriormente, as construções sentenciais que expressam passado recente condicionam o padrão ergativo-absolutivo. Neste sistema de alinhamento, S é uma categoria unificada (exemplos (25b), (26b) e (27b)):

SA Sp- Sp-
(25) a. ca ajkra (26) a. a-cakôc (27) a. a-cato
2 assustar 2-falar 2-chegar
‘Você se assusta’. ‘Você fala’. ‘Você chega’.

S- S- S-
(25) b. a-pikrar (26) b. a-cakôc (27) b. a-cator
2-assustar 2-falar 2-chegar
‘Você se assustou’. ‘Você falou’. ‘Você chegou’.

Os verbos ajkra, cakôc e cator podem também ocorrer em construções constituídas de dois sintagmas6, em que o sintagma posposicional, semanticamente o experienciador em (25c), o associativo em (26c) e a meta em (27c), é marcado pelo caso dativo:

[ ] s- [ ] s- [ ] s-
(25) c. i-mã a-pikrar (26) c. i-mã a-cakôc (27) c. i-mã a-cator
1-dat 2-assustar 1-dat 2-falar 1-dat 2-chegar
‘Você me assustou’. ‘Você falou comigo’. ‘Você me encontrou’.

A seguir, os testes de sujeito, descritos em termos das propriedades apresentadas na seção anterior, são aplicados a esses sintagmas. O objetivo é mostrar que o sintagma posposicional dativo nessas construções não é o sujeito. Começando pelas propriedades de codificação, os exemplos (25c), (26c) e (27c) demonstram que não há concordância verbal com o sintagma posposicional encabeçado pela posposição e que a marcação de caso é dativa.

Em relação à marcação de caso, quando as construções expressam passado recente, pode haver variação na marcação de caso no S, conforme os exemplos (13c) e (13d). Os exemplos (25d), (26d) e (27d) confirmam essa possibilidade e mostram que S é o argumento interno ao sintagma verbal (não o sintagma dativo).

Erg [ ] s-V Erg [ ] s-V
(25) d. ai-te i-mã ai-pikrar (26) d. ai-te cu-mã ai-cakôc
2-erg 1-dat 2-assustar 2-erg 3-dat 2-falar
‘Você me assustou’. ‘Você conversou com ela/ele’.

Erg [ ] s-V
(27) d. ai-te cu-mã ai-cator
2-erg 3-dat 2-chegar
‘Você a/o encontrou’.

A expressão do modo irrealis em (25e) e (26e) demonstra que o sintagma dativo nunca é nem substituído (ver exemplos 14a e 14c) nem correferencial ao pronome nominativo (ver exemplos 14b e 14d):

SA V
(25) e. ca ha i-mã ajkra
2 irls 1-dat assustar
‘Você vai me assustar’.

SP Sp-V
(26) e. cai ha cu-mã ai-cakôc
2 irls 3-dat 2-falar
‘Você vai falar com ela/ele’.

Com relação à ordem de constituintes, o sintagma dativo ocorre entre SA e V em (25e) e entre SP e sp-V em (26e). No passado recente, o sintagma dativo ocorre ou no início da construção – como nos exemplos (25c), (26c) e (27c) – ou entre erg e s-V – como nos exemplos (25d), (26d) e (27d) –, no caso de um sintagma posposicional ergativo correferente a S ocorrer no início da construção.

As propriedades de codificação do sintagma dativo que não é o sujeito estão sistematizadas em negrito no Quadro 8. As propriedades de codificação do sujeito também constam do Quadro 8, para contraste.

Quadro 8 Propriedades de codificação do dativo que realmente não é o sujeito em Canela. 

Concordância verbal Marcação de caso Ordem de constituintes
Intransitividade cindida Ø (A; SA)
prefixos (P; SP)
Ø (A; SA; SP; P) Pron Nom (irls):
(A; SA; SP)
SA V; [SP V]SV
A [P V]SV
Ergativo Ø (A)
prefixos (P; S)
Ø (S; P)
te erg (A)
S ~ ERG
(Pass Rec, com SP)
[S V]SV
A [P V]SV
Dativo (não sujeito) Ø dat Pron Nom (irls): não SA [N ] V; SP [N ] sP-V
te erg: não (erg) [N ] s-V (no Pass Rec)

O sintagma dativo difere-se do sujeito nas seguintes propriedades: não apresenta variação da marcação de caso (nem para ergativo, nem para nominativo). Além disso, em relação à ordem de constituintes, o sintagma dativo ocorre alinhado com o sujeito apenas em (25c), (26c) e (27c).

Em relação às propriedades comportamentais, mais especificamente à reflexivização, é o prefixo verbal (ou seja, o sujeito), e não o dativo, que controla o reflexivo nos exemplos em (28):

[ ] s-V [ ] s-V
(28) a. amjii ai-pikrar (28) b. amjii ai-cakôc
rfl dat 2-assustar rfl dat 2-falar
‘Você se assustou’. ‘Você conversou consigo’.

Em relação ao apagamento sob correferência nas orações coordenadas, é também o prefixo verbal (ou seja, o sujeito), e não o dativo, que controla o apagamento do sujeito na oração subsequente (29):

[ ] s- A
(29) a-mã ii-cator ne Øi me cunea h-aren
2-dat 3-chegar cnj (3) pl tudo dat 3-contar
‘Ela/ele encontrou você e contou isso para todo mundo’.

Por último, também é o sujeito (expresso por meio do prefixo verbal), e não o dativo, que controla a mudança de referência, como evidenciam os exemplos (30a) e (30b):

[ ] s- A
(30) a. a-mã ihi-cakôc cuj-te me cunea h-aren
2-dat 3-falar ds 3-erg pl tudo dat 3-contar
‘Ela/Ele conversou com você e a/o outra/o contou isso para todo mundo’.

[ ] S A
(30) b. a-mã i-pikrar (ne) ca a-te me cunea h-aren
2-dat 3-assustar cnj 2(ds) 2-erg pl tudo dat 3-contar
‘Ela/Ele assustou você e você contou isso para todo mundo’.

As propriedades sintáticas do sintagma dativo que não é o sujeito estão sistematizadas em negrito no Quadro 9. As propriedades comportamentais do sujeito também constam do Quadro 9, para contraste.

Quadro 9 Propriedades comportamentais do dativo que realmente não é o sujeito em Canela. Legenda: – = ausência de dados para testar essa propriedade. 

Controle do reflexivo Controle do apagamento sob correferência Controle na mudança de referência
Orações coordenadas Orações subordinadas ; pronome nominativo
Intransitividade cindida A A/SA A A/SA/SP
Ergativo A A A A/S
Dativo (não sujeito) Não Não Não

O sintagma dativo descrito nesta seção se diferencia sintaticamente do sujeito em três (de quatro) propriedades. Uma vez que ele não passa na grande maioria dos testes de sujeito (codificação e controle) em Canela, não pode ser considerado como sujeito na língua.

Na próxima seção, é avaliado o sintagma dativo que ocorre nas instanciações das construções (i) e (ii), cujos predicados foram apresentados no Quadro 1.

DATIVO QUE É CLARAMENTE O SUJEITO

Começando pelas propriedades de codificação, os exemplos (1b) e (1c) (repetidos aqui por conveniência) mostram que o dativo não apresenta concordância verbal.

[Ex Pred] [Ex St Pred]
(1) b. i-mã prãm (1) c. i-mã me crô j-ĩ prãm
1-dat ter.fome 1-dat pl porco pr-carne querer
‘Estou com fome’. ‘Nós queremos carne de porco’.

No entanto, tais construções podem apresentar variação na marcação de caso: ergativo, ao invés de dativo. Semanticamente, a oposição se dá em termos de um estado passageiro, como em (1b) e (1c), e um estado habitual, como nos exemplos (31a) e (31b).

[Ex Pred] [Ex St Pred]
(31) a. i-te prãm (31) b. i-te me crô j-ĩ prãm
1-erg fome 1-erg pl porco pr-carne querer
‘Estou com fome’ (habitual). ‘Nós queremos carne de porco’ (habitual).

Já o pronome nominativo, na expressão do modo irrealis, é correferente ao dativo:

Nom Ex Pred
(32) a. wai ha ii-mã côr
1 irls 1-dat ter.sede
‘Eu vou ficar com sede’.

Nom Ex St- pred
(32) b. quêi ha humrei a-kĩn
3 irls homem dat 3-gostar
‘O homem vai gostar de você’.

Nom Ex Pred Nom Ex St Pred
(32) c. quêi ha ihkrai pa (32) d. cai ha ai-mã rop j-apê
3 irls criança dat ter.medo 2 irls 2-dat cachorro pr-ser.melancólico
‘A criança vai ficar com medo’. ‘Eu vou sentir falta do cachorro’.

É possível, no entanto, ocorrer uma variação no pronome nominativo, dependendo do valor de certeza. Por exemplo, 3a pessoa em lugar da 1a pessoa, como em (33). Em (32a) a (32d) a leitura é de uma expectativa, uma possibilidade, enquanto (33) indica uma certeza ou pelo menos uma forte chance de ser verdade:

Nom Ex Pred
(33) quê ha i- pa
3 irls 1-dat ter.medo
‘Eu vou ficar com medo’ (certeza).

O pronome nominativo, correferente no modo irrealis – como mostram os exemplos (32a) a (32d) –, pode ainda substituir o sintagma dativo (34):

Ex [ ]St Pred
(34) wa me [Ø crô j-ĩ kur] kĩn
1 pl (1) porco pr-carne comer gostar
‘Nós (exclusivo) gostamos de comer carne de porco’.

A ordem dos constituintes é sempre rígida: (i) Ex Pred e (ii) Ex St Pred, como mostram os exemplos (31a) e (31b).

As propriedades de codificação do sintagma dativo que é o sujeito estão sistematizadas em negrito no Quadro 10. As propriedades de codificação do sujeito e do dativo que não é o sujeito também constam do Quadro 10, para contraste.

Quadro 10 Propriedades de codificação do dativo que claramente é o sujeito em Canela. 

Concordância verbal Marcação de caso Ordem de constituintes
Intransitividade cindida Ø (A; SA)
prefixos (P; SP)
Ø (A; SA; SP; P) Pron Nom (irls):
(A; SA; SP)
SA V; [SP V]SV
A [P V]SV
Ergativo Ø (A)
prefixos (P; S)
Ø (S; P)
te erg (A)
S ~ erg
(Pass Rec, com SP)
[S V]SV
A [P V]SV
Dativo (não sujeito) Ø dat Pron Nom (irls): não SA [N mã] V; SP [N mã] sP-V
te erg: não (erg) [N mã] s-V (no Pass Rec)
Dativo (Cxn i) Ø dat Pron Nom (irls): sim Ex Pred
te erg: sim
Dativo (Cxn ii) Ø dat Pron Nom (irls): sim Ex St Pred
te erg: sim

O Quadro 10 mostra que o sintagma dativo das construções (i) e (ii) compartilha muitas das propriedades de codificação do sujeito em Canela: pronome nominativo no modo irrealis, variação do caso ergativo e ordem dos constituintes.

Em relação às propriedades comportamentais, no que diz respeito à reflexivização, é o argumento dativo que controla o reflexivo nos exemplos (35a) e (35b):

Ex St Pred Ex St Pred
(35) a. cui-mã amjii kĩn (35) b. ii- amjii j-apê
3-dat rfl gostar 1-dat rfl pr-ser.melancólico
‘Ele gosta de si’. ‘Sinto pena de mim’.

Em relação ao apagamento sob correferência nas orações coordenadas, o argumento dativo da primeira oração controla o apagamento do sujeito na oração subsequente (36):

Ex A
(36) cui-mã tep prãm ne Øi me cunea h-aren
3-dat peixe querer cnj (3) pl tudo dat 3-contar
‘Ela/Ele queria peixe e contou isso para todo mundo’.

Como descrito na primeira seção, sobre as propriedades do sujeito em Canela, o sintagma ergativo na oração subsequente não é apagado categoricamente nas orações coordenadas, como mostra o exemplo (19). O mesmo acontece em (37a). Em (37b), o sujeito, por ser argumento interno do verbo, também não é apagado, como mostra o exemplo (20).

Ex A
(37) a. cui-mã prãm ne cui-te me cunea h-aren
3-dat ter.fome cnj 3-erg pl tudo dat 3-contar
‘Ela/Ele estava com fome e contou isso para todo mundo’.

Ex s-
(37) b. cui-mã a-kĩn ne cunea ii-cakôc
3-dat 2-gostar cnj tudo dat 3-falar
‘Ela/Ele gosta de você e diz isso para todo mundo’.

Os exemplos (38) e (39) apresentam orações subordinadas. Na oração subordinada análoga a St, Ex da oração principal controla o apagamento do sujeito da subordinada, conforme (38a) a (38c):

Ex [A p-V ]St Pred
(38) a. cui-mã [Øi i-pən] cupa
3-dat 3 1-abraçar.nf ter.medo
‘Ela/Ele está com medo de me abraçar’.

Ex [A P V ]St Pred Ex [ ]ST Pred
(38) b. i-krai [Øi bisicret to=mprar] j-ahkrepej (38) c. cai [Øi tep kur] prãm
1-criança dat (3) bicicleta apl=ir.nf pr-saber 2 (2) peixe comer.nf querer
‘Meu filho sabe andar de bicicleta’. ‘Você quer comer peixe’.

Em (39a) a (39c), em que a posposição locativa é usada como subordinador, St da oração principal controla o apagamento do sujeito da subordinada. A construção manipulativa em (39c) exibe a combinação do verbo to ‘fazer’ mais o predicado prãm ‘querer’ em uma construção serial.

Ex [A p-V ]LOC St- Pred
(39) a. cui-mã [Øi i-pən nã] ai-cupa
3-dat (2) 1-abraçar.nf sub 2-ter.medo
‘Ela/Ele está com medo que você me abrace’.

Ex [ A P V ]LOC St- Pred
(39) b. a-mã [jũri Øi bisicret to=mprar nã] ii-j-ahkrepej
2-dat onde (1) bicicleta apl=ir.nf sub 1-pr-saber
‘Você sabe aonde eu estou indo de bicicleta’.

Ex [A P V ]LOC St-V= Pred
(39) c. ca [Øi tep krẽr nã] ii -to=prãm
2 (1) peixe comer.nf sub 1-fazer=querer
‘Você quer que eu coma peixe’.

Em resumo, quando a oração subordinada funciona como o objeto da principal, Ex – assim como o sujeito em (21) – da oração principal controla o apagamento do sujeito na subordinada, como mostram os exemplos (38a) a (38c). Quando a oração subordinada é Loc, St – assim como o objeto em (22) – da oração principal controla o apagamento do sujeito na subordinada, como se verifica nos exemplos (39a) a (39c).

Contudo, no caso de verbo intransitivo em oração subordinada, o sujeito, por se tratar de argumento interno do verbo, não pode ser apagado, como em (40a) e (40b) – assim como nas orações verbais, no exemplo (23).

Ex [ s-V ]St Pred
(40) a. cui-mã [hi-õt] prãm
3-dat 3-dormir.nf querer
‘Ele quer dormir’.

[s-V ]LOC Ex St Pred
(40) b. [ai -crer nã] wa ai - to=prãm
2-cantar.nf sub 1 2- fazer=querer
‘Eu quero que você cante’.

Os exemplos (41a) a (41d) mostram que é o Ex que controla a mudança de referência:

Ex A
(41) a. cui-mã prãm cuj-te me cunea h-aren
3-dat ter.fome ds 3-erg pl tudo dat 3-contar
‘Ela/Ele estava com fome e a/o outra/o contou isso para todo mundo’.

Ex A
(41) b. cui-mã tep prãm cuj-te me cunea h-aren
3-dat peixe querer ds 3-erg pl tudo dat 3-contar
‘Ela/Ele queria peixe e a/o outra/o contou isso para todo mundo’.

Ex S s-
(41) c. cui-mã pa quêj me cunea ihj-cakôc
3-dat ter.medo 3(ds) pl tudo dat 3-falar
‘Ela/Ele está com fome e a/o outra/o diz isso para todo mundo’.

Ex S s-
(41) d. cui-mã a-kĩn quêj cunea ihj-cakôc
3-dat 2-gostar 3(ds) tudo dat 3-falar
‘Ela/Ele gosta de você e a/o outra/o diz isso para todo mundo’.

As propriedades de controle e de apagamento do sintagma dativo que é o sujeito estão sistematizadas em negrito no Quadro 11. As propriedades comportamentais do sujeito e do dativo que não é o sujeito também constam do Quadro 11, para contraste.

Quadro 11 Propriedades comportamentais do dativo que é claramente o sujeito em Canela. Legenda: – = ausência de dados para testar essa propriedade. 

Controle do reflexivo Controle do apagamento sob correferência Controle na mudança de referência
Orações coordenadas Orações subordinadas ; pronome nominativo
Intransitividade cindida A A/SA A A/SA/SP
Ergativo A A A A/S
Dativo (não sujeito) Não Não Não
Dativo (Cxn i) n/a Não n/a Ex
Dativo (Cxn ii) Ex Ex Ex7 Ex

As propriedades comportamentais exibidas pelo dativo das construções (i) e (ii) mostram que ele compartilha muitas (se não todas, cf. Dativo (Cxn ii)) das características sintáticas do sujeito das orações verbais. Essas propriedades de comportamento e de controle, além das propriedades de codificação identificadas anteriormente, revelam que a análise mais adequada para o dativo nessas construções é como o sujeito, ao invés de um oblíquo.

Antes de passarmos para a próxima seção, uma última informação sobre as construções (i) e (ii) é necessária. Ainda que a negação não seja uma propriedade do sujeito em si, a simetria entre (42a) e (42b), esta última uma oração verbal, mostra que cupa ocorre como um verbo em (42a):

Ex [ ]St Pred Neg A P V Neg
(42) a. cui-mã i i-pən] cupa nare (42) b. cahãj apu tep kren nare
3-dat 3 1-abraçar.nf ter.medo neg mulher prg peixe comer.nf neg
‘Ela/Ele não está com medo de me abraçar’. ‘A mulher não está comendo peixe’.

Por outro lado, um tipo diferente de negação ocorre em (42c), um predicado não verbal:

(42) c. intuw amji=kĩn=xà inare/hamnare
jovem MAL rfl=ser.alegre=nmz NEG.EXIST
‘O jovem não tem namorada’ (literalmente: ‘Não há namorada em detrimento do jovem’).

DATIVO COM PROPRIEDADES MISTAS DE SUJEITO: A CONSTRUÇÃO DE POSSE

Esta seção investiga de que maneira o dativo das construções de posse se relaciona (de maneira simétrica ou assimétrica) com o dativo das construções (i) e (ii) e com o sujeito das orações verbais.

Em (43a), a construção de posse exibe um sintagma dativo (que expressa o possuidor) e um sintagma nominal (que expressa o item possuído), nessa ordem. Nessa construção, o possuidor é sempre humano. O exemplo (44a), instanciação da construção (i), é repetido aqui para fins de comparação:

Construção de posse Construção (i)
Pssr Pssd Ex Pred
(43) a. i- tep (44) a. i- prãm
1-dat peixe 1-dat ter.fome
‘Eu tenho peixe’ (literalmente: ‘Há peixe para mim’). ‘Eu estou com fome’.

No entanto, algumas propriedades de codificação diferenciam a construção em (43a) da construção em (44a). Em primeiro lugar, a posposição da construção (43a) pode variar com a posposição Mal (43b). Essa variação não é encontrada nas instanciações da construção (i). O asterisco indica que (44b) não é uma oração encontrada em Canela.

(43) b. i- tep (44) b. *i- prãm
1-mal peixe 1-mal ter.fome
‘Eu não tenho peixe’ (literalmente: ‘(Não) há peixe em meu detrimento’).

De maneira oposta, a posposição do exemplo (44a) pode variar com a posposição te erg (44c). Esse tipo de contraste semântico (te estado habitual versus mã estado passageiro) não ocorre no exemplo (43a):

(43) c. *i-te tep (44) c. i-te prãm
1-erg peixe 1-erg ter.fome
‘Eu estou com fome (habitual)’.

A negação do exemplo em (44a) também é diferente da negação do exemplo em (43a): nare em (44d), o mesmo marcador encontrado na negação das orações verbais, e inare ou hamnare, negação existencial, em (43d). Neste último, a posposição que ocorre é mal:

(43) d. i- tep inare/hamnare (44) d. i- prãm
1-mal peixe neg.exist 1-dat ter.fome
‘Eu não tenho peixe’ (literalmente: ‘Não há peixe em meu detrimento’). ‘Eu não estou com fome’.

Importante reafirmar que a negação não é uma ‘propriedade de sujeito’ em si, mas a assimetria entre (43d) e (44d) mostra que prãm ocorre como um verbo na construção (i). Por outro lado, o diferente tipo de negação que ocorre em (43d) não é evidência de que o possuidor é não sujeito, mas mostra que ele é menos sujeito que o dativo da construção (i).

A última propriedade de codificação a ser comparada é a ocorrência do pronome nominativo na expressão do modo irrealis. A construção de posse em (43e) e a instanciação da construção (i) em (44e) apresentam padrões assimétricos. O pronome nominativo correferente em (44e) identifica o dativo como o sujeito da construção, enquanto em (43e) o resultado é oposto: a ausência de correferência entre o pronome nominativo e o dativo revela que o dativo não é o sujeito.

(43) e. *wai ha ii-mã tep (44) e. wai ha ii-mã prãm
1 irls 1-dat peixe 1 irls 1-dat fome
‘Eu vou ficar com fome’ (possibilidade).

(43) f. quêi ha i-mã tepi (44) f. quê ha i-mã prãm
3 irls 1-dat peixe 3 irls 1-dat fome
‘Eu vou ter peixe’ (literalmente: ‘Haverá peixe para mim’). ‘Eu vou ficar com fome’ (certeza).

Em (43f) e (44f), embora o pronome nominativo de 3a pessoa ocorra nas duas construções, o contraste no valor de certeza só se aplica à construção (i). Por outro lado, (44f) poderia ser considerada, pelo menos como hipótese, como a construção-fonte para a construção, mais gramaticalizada, em (44e).

As propriedades de codificação do sintagma dativo na construção de posse estão sistematizadas em negrito no Quadro 12. As propriedades de codificação do sujeito, do dativo que realmente não é o sujeito e do dativo que claramente é o sujeito também constam do Quadro 12, para contraste.

Quadro 12 Propriedades de codificação do dativo na construção de posse. 

Concordância verbal Marcação de caso Ordem de constituintes
Intransitividade cindida Ø (A; SA)
prefixos (P; SP)
Ø (A; SA; SP; P) Prom Nom (irls): (A; SA; SP) SA V; [SP V]SV
A [P V]SV
Ergativo Ø (A)
prefixos (P; S)
Ø (S; P) te erg (A) S ~ erg (Pass Rec, com SP) [S V]SV
A [P V]SV
Dativo (não sujeito) Ø dat Pron Nom (irls): Não SA [N mã] V; SP [N mã] sP-V
te erg: Não (erg) [N mã] s-V (no Pass Rec)
Dativo (Cxn i) Ø dat Prom Nom (irls): Sim Ex Pred
te erg: Sim
Dativo (Cxn ii) Ø dat Prom Nom (irls): Sim Ex St Pred
te erg: Sim
Dativo (Cxn de posse) Ø dat Prom Nom (irls): Não Pssr Pssd
te erg: Não
pê mal

Em termos de propriedades comportamentais, a construção de posse utiliza as mesmas estratégias encontradas para marcar a mudança de referência nas orações verbais: o morfema indicando mudança de sujeito de 3a pessoa no passado recente (45a); o pronome livre indicando a mudança de referência nos outros contextos (45b). Não há apagamento sob correferência na construção de posse (45c):

Pssr A
(45) a. cahãj tep humre te ih-xêt
mulher dat peixe ds homem erg 3-assar
‘A mulher tinha peixe e o homem o assou’.

Pssr A
(45) b. cui-mã tep (ne) quêj ha me cunea h-arẽ
3-dat peixe cnj 3 irls pl todos dat 3-contar
‘Ele tem peixe e ele (outro) vai contar isso para todo mundo’.

Pssr A
(45) c. cui-mã tep ne cui-te cahãj cu-gõr
3-dat peixe cnj 3-erg mulher dat 3-dar
‘Ele tinha peixe e o deu para a mulher’.

As propriedades comportamentais do sintagma dativo na construção de posse estão sistematizadas em negrito no Quadro 13. As propriedades do sujeito, do dativo que realmente não é o sujeito e do dativo que claramente é o sujeito, assim como a negação, também constam do Quadro 13, para contraste.

Quadro 13 Propriedades comportamentais do dativo na construção de posse. 

Controle do reflexivo Controle do apagamento sob correferência Controle na mudança de referência Negação
Orações coordenadas Orações subordinadas mã; pronome nominativo
Intransitividade cindida A A/SA A A/SA/SP nare
Ergativo A A A A/S nare
Dativo (não sujeito) Não Não Não nare
Dativo (Cxn i) n/a Não n/a Ex nare
Dativo (Cxn ii) Ex Ex Ex Ex nare
Dativo (Cxn de posse) n/a Não n/a Pssr inare/hamnare

Mesmo que duas propriedades sejam contrárias à categorização do dativo da construção de posse como sujeito (a ausência de pronome nominativo correferente no modo irrealis e a variação para o caso malefactivo), duas outras propriedades (ordem de constituintes e a mudança de referência) sugerem ser um caso menos gramaticalizado de sujeito (em vez de um oblíquo).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo teve como objetivo avaliar o status gramatical do sintagma dativo que ocorre nas construções (i) [ExperienciadorDativo Predicado] e (ii) [ExperienciadorDativo Estímulo Predicado], as quais expressam estados mentais ou físicos em Canela.

Na introdução, mostrei os diferentes tipos de predicados (nominais e verbais) que podem ocorrer nas construções (i) e (ii): nomes e verbos monovalentes, bivalentes e trivalentes. Na primeira seção, apresentei as propriedades de codificação e comportamentais do sujeito em Canela. Nas seções subsequentes, identifiquei o padrão do sintagma dativo encontrado em diferentes construções e avaliei sua respectiva condição gramatical.

As propriedades de codificação e de controle exibidas pelo dativo das construções (i) e (ii) mostram que ele compartilha muitas das características sintáticas do sujeito das orações verbais. Considerando que as propriedades de comportamento e de controle são os requisitos para a categoria de sujeito, pode-se dizer então que o dativo nas construções (i) e (ii) é o sujeito, não um oblíquo.

Tais evidências são suficientes para argumentar em favor da categoria gramatical de sujeito como morfologicamente heterogênea em Canela, mas que é unificada por seus comportamentos sintáticos.

1A marcação não canônica do sujeito tem sido investigada em línguas germânicas e, especialmente, em línguas escandinavas. Ver Eythórsson e Barðdal (2005) entre outros. Este artigo, ao trazer dados novos de uma língua cuja família ainda é pouco estudada, pretende contribuir com os estudos do diagnóstico do sujeito dativo enquanto questão geral, importante e desafiadora.

2Os dados estão transcritos de acordo com a ortografia canela. Os símbolos ortográficos correspondem aos valores do alfabeto fonético internacional (international phonetic alphabet – IPA) com as seguintes exceções: e [ɛ], ê [e], à [ɜ], ỳ [ə], y [ɨ], ã [ə̃], o [ɔ], ô [o], c/qu [k], k [kh], g [ŋg], h em final de sílaba [ʔ], x [ʧ].

3Em relação à forma verbal, a principal característica morfológica que distingue o verbo das orações do sistema de intransitividade cindida do verbo das orações do sistema ergativo no passado recente é a oposição entre suas duas formas, finita e não finita ( (finita) versus mõr (não finita) ‘ir’; pupu (finita) versus pupun (não finita) ‘ver’). Esta propriedade não é compartilhada com os descritivos (a subclasse não ativa de verbos de um argumento que atribuem o absolutivo ao argumento S), os quais exibem a mesma forma em ambos os tipos de orações, muito embora haja algumas raríssimas exceções, como cato/cator ‘chegar’.

4Para ilustração desse padrão, ver Castro Alves (2010) e Gildea e Castro Alves (2010, no prelo).

5A propriedade mostrada em (22) não consta do Quadro 7 porque se trata de uma propriedade do objeto em Canela. No entanto, é necessário que ela seja descrita neste momento porque será posteriormente retomada, na seção “Dativo que é claramente o sujeito”, para fins de contraste com o St.

6Essas orações são analisadas como intransitivas de acordo com a definição de Andrews (2007, p. 139), que considera que “An NP in an intransitive sentence that is receiving the treatment normally accorded to the single argument of a one-argument predicate will be said to have S function”. O autor não fala nada sobre o tratamento dado ao outro sintagma não S, como o SP dativo nos exemplos em (25c), (26c) e (27c). Neste artigo, ele é tratado como um oblíquo.

7A propriedade mostrada nos exemplos (39b) e (39c) não consta do Quadro 11 porque se trata de uma propriedade do St. No entanto, é importante que ela seja descrita para fazer menção à sua simetria com a propriedade de controle e de apagamento do objeto, apresentada anteriormente, na seção “Propriedades do sujeito em Canela”.

AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer ao Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas, da Universidade de Brasília (IL/UnB), pela possibilidade de me dedicar integralmente às atividades de pesquisa (2017-2018, por meio de licença aperfeiçoamento). Sou grata também ao Departamento de Linguística da Universidade do Oregon, pela hospedagem acadêmica, em 2012-2013 e atualmente (2017-2018), e, em especial, ao meu supervisor, Spike Gildea. Obrigada também aos editores, revisores e à secretaria deste Boletim. Ao povo de Canela, minha eterna gratidão.

ABREVIATURAS

1 primeira pessoa DEM demonstrativo
1+2 primeira pessoa inclusiva DIR direcional
2 segunda pessoa DS sujeito diferente
3 terceira pessoa ERG ergativo
= clítico ou limite entre elementos de um Ex experienciador
composto INST instrumental
A argumento de um predicado transitivo IRLS irrealis
canônico mais similar ao agente LOC locativo
APL aplicativo MAL malefactivo
AUX auxiliar N nome
CNJ conjunção n/a não se aplica
CXN construção NEG negação
CXN i construção (i) NEG.EXIST negação existencial
CXN ii construção (ii) NF não finito
COP cópula NMZ nominalizador
DAT dativo NOM nominativo
NREF não referencial S- prefixo que codifica o argumento S
P argumento de um predicado transitivo SA argumento de um predicado intransitivo
canônico mais similar ao paciente canônico mais similar ao agente
P- prefixo que codifica o argumento P SN sintagma nominal
PASS REC passado recente SP argumento de um predicado intransitivo
PL plural canônico mais similar ao paciente
PRED predicado SP- prefixo que codifica o
PR prefixo relacional argumento SP
PRG progressivo SP sintagma posposicional
PRON NOM pronome nominativo ST estímulo
PSSD possuído SS mesmo sujeito
PSSR possuidor SUB morfema subordinador
RFL reflexivo SV sintagma verbal
S único argumento de um predicado TOP tópico
intransitivo canônico V verbo

REFERÊNCIAS

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Recebido: 27 de Março de 2018; Aceito: 16 de Julho de 2018

Autora para correspondência: Flávia de Castro Alves. Universidade de Brasília. Instituto de Letras. Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas. Campus Darcy Ribeiro. ICC Sul, Bloco B, Mezanino – Asa Norte. Brasília, DF, Brasil. CEP 70910-900 (flaviacastro@unb.br). ORCID: http://orcid.org/0000-0002-8275-4935.

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