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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122On-line version ISSN 2178-2547

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.13 no.3 Belém Sept./Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000300009. 

Article

Considerações sobre a posse nominal em Apurinã (Aruák)

Nominal possession in Apurinã (Arawak): some considerations

Marília Fernanda Pereira de FreitasI 
http://orcid.org/0000-0001-7607-6077

Sidney da Silva FacundesI 

IUniversidade Federal do Pará. Belém, Pará, Brasil

Resumo

Os nomes em Apurinã, língua indígena pertencente à família Aruák, falada no sudeste do estado do Amazonas, já foram objeto de investigação de alguns autores, em que diferentes classificações foram propostas (Facundes, 1995, 2000; Brandão, 2006; Facundes; Freitas, 2013). Neste artigo, revisitaremos as diferentes classificações para os nomes em Apurinã, apresentando, posteriormente, a proposta atual de classificação de nomes em Apurinã, com base em Freitas (2017), que classifica os nomes em: (i) alienáveis, (ii) inalienáveis e (iii) nomes não possuíveis. A atual proposta também considera que a (in)alienabilidade na língua é definida em termos não só dos padrões de marcação morfológica dos nomes, mas também leva em conta os parâmetros ‘frequência de ocorrência’, em construções de posse, e ‘motivação econômica’, tal como definidos por Haspelmath (2008), dentro de uma abordagem tipológica. Assim, nomes inalienáveis ocorrem mais frequentemente como possuídos, sendo não marcados em construções de posse, por isso, são mais econômicos; já nomes alienáveis ocorrem mais frequentemente como não possuídos, sendo notoriamente marcados em construções de posse por um conjunto de sufixos, portanto, são menos econômicos.

Palavras-chave (In)alienabilidade; Frequência de ocorrência; Motivação econômica; Apurinã; Aruák

Abstract

Nouns in the Apurinã language (Arawak), which is spoken in southeastern Amazonas, Brazil, have been studied by multiple authors, and different classifications have been proposed (Facundes, 1995, 2000; Brandão, 2006; Facundes; Freitas, 2013). In this paper, we will revisit the different classifications for nouns in Apurinã, and present a new proposal by Freitas (2017), which classifies the nouns in the language as: (i) alienable, (ii) inalienable, and (iii) non-possessible nouns. Inalienability is defined not only in terms of morphological marking patterns, but also considering the ‘frequency of occurrence’ in possessive constructions and ‘economic motivation,’ as defined by Haspelmath (2008), following a typological approach. Inalienable nouns thus more frequently appear as possessed, being unmarked in possessive constructions, and therefore more economical, while alienable nouns more frequently occur as unpossessed, marked in possessive constructions by a set of suffixes, and therefore less economical.

Keywords (In)alienability; Frequency of occurrence; Economic motivation; Apurinã; Arawak

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Neste trabalho, discutiremos como a posse se configura em Apurinã no nível do sintagma nominal, com base em dados relativos a extensivas pesquisas de campo realizadas por Sidney Facundes, ao longo de cerca de três décadas, além de dados coletados em campo por Marília Freitas, entre 2014 e 2017, que permitiram a feitura de uma tese de doutorado (Freitas, 2017) sobre a posse em Apurinã. Pertencente à família Aruák, a língua Apurinã é falada em mais de 100 comunidades, espalhadas, principalmente, ao longo de vários afluentes da bacia do rio Purus. De uma população que varia entre 4.000 e 8.000 pessoas, aproximadamente, dependendo da fonte consultada, estimamos que menos de 10% dessa população sejam constituídos de falantes fluentes da língua, sendo que a maioria destes se apresenta com idade avançada. Dada a dispersão geográfica das comunidades Apurinã, em termos de tempo e de distância que as separam, há marcas evidentes, principalmente na fonologia e no léxico, que permitem identificar diferentes variedades dialetais na língua.

Inicialmente, reportaremos as propostas de classificação de nomes anteriormente feitas, partindo da classificação de Facundes (1995, 2000). Mostraremos também as análises subsequentes (Brandão, 2006; Facundes; Freitas, 2013). Essa discussão é importante e necessária para que as ideias e os dados descritos por outros autores sejam apresentados de forma clara, antes de serem rediscutidos e, em alguns casos, revisados, à luz de novas ideias e de novos dados.

Posteriormente, como foco deste artigo, apresentaremos a atual proposta de classificação de nomes em Apurinã, com base em Freitas (2017), que os divide em três grandes categorias: (i) inalienáveis, (ii) alienáveis e (iii) não possuíveis. Os dados mais recentes revelaram características das construções de posse atributivas em Apurinã nunca antes verificadas, que vêm acrescentar informações relevantes às análises anteriormente feitas para que se observem algumas tendências, em se tratando da escolha de um ou de outro padrão de marcação morfológica de nomes na língua.

REVISITANDO ALGUMAS PROPOSTAS DE CLASSIFICAÇÃO PARA OS NOMES EM APURINÃ

De acordo com Facundes (1995, 2000), apenas a classe dos nomes (e dos pronomes livres) pode formar construções possessivas por justaposição de elementos (por exemplo, kariwa tywy (não.índio panela) ‘panela do não índio’), assim como apenas os nomes podem admitir marcas morfológicas de posse ou de não posse. Dessa forma, os nomes da língua Apurinã são classificados em ‘simples’ (raiz isolada inerentemente nominal, isto é, não derivada de outras categorias), ‘compostos’ (mais de uma raiz nominal) e ‘derivados de outras categorias’ (nomes deverbais). Para os nomes simples, o autor propõe a seguinte classificação, com base em padrões de marcação morfológica: i) inalienáveis1 (obrigatoriamente possuídos, não marcados na forma possuída, sendo alguns marcados quando não possuídos pelo sufixo -txi, englobam nomes classificatórios2 e não classificatórios); ii) alienáveis (não obrigatoriamente possuídos, marcados pelos sufixos -te, -ne ou -re13, quando na forma possuída); iii) mistos (nomes marcados tanto na forma possuída quanto não possuída).

Observem-se os exemplos a seguir (Facundes, 2000, p. 152-153)4:

(1) 

a. [kema kywy] Mipa atama-ta b. [kywĩ-txi] sy-pe
anta cabeça.de n.prop ver-vblz cabeça.de-n.POSSD ir-pftv
‘Mipa viu a cabeça da anta’. ‘A cabeça saiu’5.

No exemplo (1a), nenhuma marca morfológica é adicionada ao nome possuído kywy, no qual há apenas dois nomes justapostos, kema kywy. Em se tratando de nomes inalienáveis, como kywy, em contextos muito excepcionais, ocorrem como não possuídos, a exemplo de (1b), e requerem a presença do sufixo -txi, o qual funciona como um elemento que, quando ocorre, ‘suspende’ o status de ‘obrigatoriamente possuído’ de certos nomes inalienáveis. O sufixo de não posse -txi, entretanto, aplica-se apenas a certos subgrupos semânticos de nomes dessa categoria, quais sejam: partes do corpo ou significados associados ao corpo, pertences individuais, conceitos abstratos, outros conceitos (por analogia) (Facundes, 2000). Termos de parentesco não ocorrem com o sufixo -txi.

Os termos de parentesco, segundo Facundes (2000), não são usados em contextos não possuídos (exceto nos casos de vocativo), conforme exemplo (2) (Facundes, 2000, p. 160)6:

(2) 

ũ-akyru apu-pe
3sg.f-avó.de chegar-pftv
‘A avó dela já chegou’.

Há, portanto, uma subdivisão dos nomes simples inalienáveis não classificatórios, condicionada pelos diferentes padrões de marcação morfológica desses nomes, em que termos de parentesco não recebem a marca -txi; enquanto que as demais subclasses semânticas de inalienáveis (em casos em que a semântica/pragmática permitir) podem receber esse sufixo, quando na forma não possuída.

Os ‘nomes alienáveis’, segundo Facundes (2000), são aqueles que precisam dos sufixos -te, -ne e -re1 quando possuídos; são notoriamente marcados em construções possessivas e não marcados em construções não possessivas. A escolha entre -te, -ne e -re1 é lexicalmente determinada. Os exemplos (3a), (3b) e (3c) ilustram a ocorrência desses sufixos:

(3) 

a. aiku ‘Casa’. n-aiku-te ‘Minha casa’.
b. iuwata ‘Faca’. nhi-iuwata-ne ‘Minha faca’.
c. ãata ‘Canoa (tradicional)’. ny-ãate-re 1 ‘Minha canoa (tradicional)’.

Não é possível identificar um grupo semântico óbvio para distinguir os vários subconjuntos de nomes alienáveis marcados por -te, -ne e -re1.

Por fim, os ‘nomes mistos’, conforme Facundes (2000), são marcados tanto na forma possuída quanto na forma não possuída. Quando possuídos, admitem a marca de posse -re2 e, quando não possuídos, recebem a marca -ry, conforme os exemplos (4a) e (4b):

(4) 

a. xũka-ry ‘Flatulência’. nhi-xũka-re 2 ‘Minha flatulência’.
b. amiana-ry ‘Doença’. n-amiana-re 2 ‘Minha doença’.

A propósito da existência de dois sufixos, -re1 e -re2, fonologicamente idênticos em termos sincrônicos, estes parecem ter origens históricas diferentes (Payne, 1991); outra questão que permite distinguir esses dois sufixos é o fato de ocorrerem com um subconjunto diferente de nomes, uma vez que todos os nomes marcados por -re2, quando na forma possuída, são igualmente marcados também em sua forma não possuída pelo sufixo de não posse -ry, o que não ocorre no caso de -re1.

Brandão (2006) apresentou uma outra proposta de classificação para os nomes simples em Apurinã, incluindo nomes (i) ‘opcionalmente possuídos’, referindo-se a partes do corpo ou a ele relacionados, a objetos pessoais e a conceitos abstratos; não apresentam marcação morfológica quando na forma possuída, mas podem ocorrer na forma não possuída, pelo acréscimo do sufixo -txi; (ii) ‘obrigatoriamente possuídos’, que se referem aos termos de parentesco (com exceção dos vocativos), apresentam a marca de posse e nunca ocorrem com o sufixo de não posse -txi; (iii) ‘obrigatoriamente despossuídos’, em geral, referem-se a nomes da fauna e da flora e a fenômenos da natureza. Esse último rótulo, no entanto, é problemático, uma vez que a autora inscreve tais nomes como uma subclasse dos ‘inalienáveis’, que, por definição, correspondem aos nomes cuja posse é inerente.

De modo geral, a diferença mais evidente entre as classificações de Facundes (2000) e de Brandão (2006) diz respeito ao fato de que, para Facundes (2000), todos os inalienáveis são obrigatoriamente possuídos, enquanto que para Brandão (2006) não. Ao propor a categoria ‘obrigatoriamente despossuídos’, Brandão (2006) exclui qualquer possibilidade de nomes dessa categoria ocorrerem como possuídos. Entretanto, são possíveis, embora em contextos pragmáticos muito específicos, sentenças como no exemplo (5) (Freitas, 2017, p. 173):

(5) 

Nuta sarawa-nã-ta ny-kataty-ne-kata
1sg brincar-progr-vblz 1sg-borboleta-POSSD-assoc
‘Eu tô brincando com minha borboleta’.

No exemplo (5), o nome kataty ‘borboleta’, considerado por Brandão (2006) como obrigatoriamente despossuído, ocorre com a marca de posse -ne, o que contradiz a proposta da autora.

Adicionalmente, mais uma tentativa de classificação foi apresentada por Facundes e Freitas (2013), que identificam cinco subclasses de nomes, de acordo com seus padrões de marcação morfológica, em construções possessivas:

  1. ‘possuíveis com posse não marcada na forma possuída’, incluindo os nomes inalienáveis que prescindem de marcação morfológica em construções possessivas e que podem ser acrescidos do sufixo -txi;

  2. ‘obrigatoriamente possuídos com forma possuída não marcada’, que se referem a termos de parentesco, sendo que estes não ocorrem sem a expressão de um possuidor, exceto no caso de vocativo;

  3. ‘obrigatoriamente não possuídos com forma não possuída não marcada’, denotam, em geral, elementos da natureza, os quais não apresentam qualquer marca morfológica;

  4. ‘possuíveis com forma não possuída não marcada’, que requerem os sufixos -te, -ne e -re1 na forma possuída;

  5. ‘possuíveis com forma possuída marcada e não marcada’, referindo-se àqueles nomes duplamente marcados (ou mistos).

Diferindo das duas classificações anteriores, Facundes e Freitas (2013) propõem uma categorização mais ‘linear’ dos nomes simples em Apurinã, com cinco classes independentes de nomes. Os autores, em se tratando do fenômeno da (in)alienabilidade, consideram, principalmente, a marcação que incide (ou não) sobre cada classe de nomes.

Algumas questões, mencionadas anteriormente (por exemplo, a proposta de existência de um morfema zero para marcar a posse nos inalienáveis; a utilização do rótulo ‘obrigatoriamente despossuído’ como subcategoria dos inalienáveis; a exclusão de qualquer possibilidade de nomes desta última categoria ocorrerem como possuídos), e os novos dados atestados motivaram uma reformulação na classificação dos nomes em Apurinã. Tal proposta, fundamentada na utilização dos parâmetros ‘frequência de ocorrência’ e ‘motivação econômica’, os quais transcendem uma análise respaldada exclusivamente nos padrões de marcação morfológica (como adotado nas propostas anteriores), será objeto das próximas duas seções.

NOMES EM APURINÃ: NOVA CLASSIFICAÇÃO

A nova classificação para os nomes em Apurinã propõe a existência de três grandes classes de nomes: (i) nomes inalienáveis (‘classificatórios’ e ‘não classificatórios’, esses últimos subdivididos em ‘não marcados’ e ‘marcados na forma não possuída’); (ii) nomes alienáveis (‘marcados na forma possuída’ e ‘marcados na forma possuída e não possuída’); (iii) nomes não possuíveis. Tal classificação admite como parâmetro não apenas os padrões de marcação morfológica de nomes, mas também a ‘frequência de ocorrência’ e a ‘motivação econômica’ (Haspelmath, 2008).

Em Apurinã, nomes inalienáveis são menos marcados do que os alienáveis em construções de posse na língua, isto é, construções de posse inalienável não recebem sufixo, quando na forma possuída, enquanto que as de posse alienável recebem sufixo, quando na forma possuída.

A seguir, apresentamos os exemplos (6a) a (6g), com cada um dos padrões de marcação de nomes em construções de posse da língua Apurinã:

(6) 

a. n-atukyry a’. *atukyry-txi b. ny-waku b’. wakũ-txi
1sg-avô.de avô.de-n.POSSD 1sg-mão.de mão.de-n.POSSD
‘Meu avô’. ‘Avô’. ‘Minha mão’. ‘Mão’.
c. ny-kikiu-te c’. kikiu d. ny-kupiti-ne d’. kupiti
1sg-roçado-POSSD roçado 1sg-panela.de.barro-POSSD panela.de.barro
‘Meu roçado’. ‘Roçado’. ‘Minha panela de barro’. ‘Panela de barro’.
e. ny-sytu-re 1 e’. sytu f. ny-taka-re 2 f’. taka-ry
1sg-mulher-POSSD mulher 1sg-plantação-POSSD plantação-n.POSSD
‘Minha mulher’. ‘Mulher’. ‘Minha plantação’. ‘Plantação’.
g. Kirama g’. *ny-Kirama g”. *ny-Kirama (-te, -ne, -re)
Nome próprio ‘Meu Kirama’. ‘Meu Kirama’.

Em (6a), o termo de parentesco ‘avô’ não recebe qualquer marca, sendo este obrigatoriamente possuído (a posse é parte integrante de sua entrada lexical), não havendo uma forma não possuída correspondente. Em (6b) temos o termo ‘mão’ que, quando na forma possuída, não recebe qualquer tipo de marcação morfológica (sendo a posse parte integrante de sua entrada lexical); quando na forma não possuída, recebe o sufixo -txi. Sendo a posse concebida, nesta análise, como parte integrante da entrada lexical dos nomes inalienáveis, evidencia-se, aqui, ser desnecessário propor um morfema zero para a marcação de posse de tais nomes (contrário às análises anteriores): a posse é marcada lexicalmente, não morfologicamente, em nomes inalienáveis.

Em (6c) a (6e), temos nomes que ocorrem com um sufixo de posse (-te, -ne, -re1). Em (6f), o termo taka, quando possuído, admite o sufixo -re2; quando não possuído, um outro sufixo é necessário: -ry.

Em suma, definiremos a (in)alienabilidade na língua da seguinte forma:

  1. (i) ‘Nomes inalienáveis’ prescindem de marcação morfológica, isto é, são notoriamente ‘não marcados’ em construções de posse (não recebem sufixo);

  2. (ii) ‘Nomes alienáveis’ requerem um sufixo de posse, ou seja, são notoriamente ‘marcados’ em construções de posse (recebem sufixo). O conjunto de nomes duplamente marcados se encaixa nesta categoria;

  3. (iii) ‘Nomes não possuíveis’ não ocorrem em construções de posse, isto é, a noção de (in)alienabilidade não se aplica a esses nomes. Semanticamente, referem-se a nomes próprios e a termos genéricos que designam a denominação de grupos étnicos, além de palavras como kãkiti ‘gente’.

Essa nova proposta de classificação para os nomes em Apurinã, com base em Freitas (2017), está sumarizada na Figura 1.

Fonte: Freitas (2017, p. 187).

Figura 1 Esquema da nova proposta de classificação para nomes em Apurinã. 

Na Figura 1, e concordando com Facundes (2000), verificamos que os inalienáveis podem ser ‘classificatórios’ ou ‘não classificatórios’. Aqui, analisaremos apenas os inalienáveis ‘não classificatórios’7.

A seguir, alguns exemplos de nomes inalienáveis não marcados – (7c) e (7d) – e marcados na forma possuída – (7a) e (7b).

(7) 

Forma não possuída Forma possuída
a. piuki-txi a’. nhi-piuky
dedo.da mão.de-n.POSSD 1sg- dedo.da mão.de
‘Dedo da mão’. ‘Meu dedo da mão’.
b. ukĩ-txi b’. n-uky
olho.de-n.POSSD 1sg-olho.de
‘Olho’. ‘Meu olho’.
c. *ynyru-txi c’. n-ynyru
mãe.de-n.POSSD 1sg-mãe.de
‘Mãe’. ‘Minha mãe’.
d. *ithary-txi d’. nh-ithary
irmão.de-n.POSSD 1sg-irmão.de
‘Irmão’. ‘Meu irmão’.

Entre os alienáveis, temos aqueles marcados apenas na forma possuída, já que recebem um conjunto de sufixos, -te, -ne, -re1. Entre os nomes cuja posse é marcada por -te, estão incluídos, entre outros, nomes cuja posse é considerada pouco familiar, estranha, pelo falante, sendo, muitas vezes, uma segunda opção para os casos de posse indireta (estratégia preferencial, nos casos de posse de animais e de plantas, por exemplo, em que os falantes antepõem um possuidor a um termo genérico, depois do qual vem o item possuído). O exemplo a seguir ilustra o uso do sufixo -te, dado como segunda opção para a posse indireta:

(8) 

a. ny-pyra pathery a’. ny-pathery-te
1sg-criação galinha 1sg-galinha-POSSD
‘Minha galinha’ (literalmente: ‘galinha minha criação’). ‘Minha galinha’.

Nomes que podem receber o sufixo -ne expressam uma gama variada de noções semânticas, embora numericamente menor do que aquelas com que ocorre o sufixo -te. Na tese de Freitas (2017, p. 197), temos essa quantificação: enquanto -te ocorre com nove categorias semânticas propostas pela autora, -ne ocorre com apenas sete delas. Também inclui nomes considerados pelo falante como estranhos de serem possuídos, mas em um grau maior do que o de -te, já que sempre que o falante desconhece o nome que designa um dado referente (por exemplo, nos casos de variação dialetal, em que há diferentes nomes para um mesmo referente, dependendo da comunidade em que se fala), ele o marcará, em uma construção de posse, com -ne. Abaixo, exemplos em que os falantes disseram que, embora não fossem familiarizados com as palavras, seria possível acrescentar a elas o sufixo -ne, e apenas ele, deixando claro não reconhecerem as palavras, por conta de variação dialetal:

(9) 

a. nhi-ixiw-awĩthe-ne (ny-kawaru-te, na variedade do colaborador)
1sg-tamanduá-chefe-POSSD
‘Meu cavalo’.
b. ny-sapupeta-ne (ny-pĩtxita-re, na variedade do colaborador)
1sg-pente-POSSD
‘Meu pente’.

Uma outra questão relevante, que envolve tanto o uso de -ne como de –te, é a seguinte: foram atestados vários casos em que ambos os sufixos podem ocorrer com um mesmo nome, sem diferença de sentido:

(10) 

a. ny-puriti-te a’. ny-puriti-ne b. n-ixiwãwite-te b’. n-ixiwãwite-ne
1sg-pimenta-POSSD 1sg-pimenta-POSSD 1sg-cavalo-POSSD 1sg-cavalo-POSSD
‘Minha pimenta’. ‘Minha pimenta’. ‘Meu cavalo’. ‘Meu cavalo’.

Os nomes que recebem o sufixo -re1 constituem um pequeno grupo, referindo-se a conceitos variados, não formando um grupo semântico único. Entre os sufixos de posse alienável, este grupo é o menos frequente, ocorrendo com cerca de uma dezena de nomes. Algo relevante a ser mencionado é que 50% dos nomes que constituem essa classe são derivados de verbos, conforme exemplos:

(11) 

a. nuta sãpaka-re1 a’. ny-sãpaka-pe-ka b. ny-kama-re1 b’. Katarukyry a-kama
1sg cansaço-POSSD 1sg-estar.cansado-pftv-pred 1sg-fazer-POSSD farinha 1pl-fazer
‘Meu cansaço’. ‘Eu já estou cansado’. ‘Meu trabalho’. ‘Nós fazemos farinha’.

Entre os alienáveis, também temos aqueles nomes marcados tanto na forma possuída como na não possuída. O sufixo -re2, sincronicamente, é idêntico a -re1, em termos de sua forma fonológica, mas parece ter origem histórica diferente do segundo (Payne, 1991), conforme mencionado anteriormente. Além disso, -re2 ocorre com um conjunto diferente de termos que, quando não possuídos, recebem um sufixo de não posse -ry. O que nos motivou a manter este subconjunto de nomes como uma subclasse dos alienáveis é o fato de tais nomes serem notoriamente marcados na forma possuída (como os demais alienáveis). Os nomes que constituem a classe dos marcados tanto na forma possuída quanto na forma não possuída também são um grupo fechado, reduzido, sendo que atestamos apenas 17 ocorrências desse padrão de marcação, de um total de 219 ocorrências. Assim como ocorre com a maioria dos nomes marcados por -re1, muitos dos nomes duplamente marcados também ocorrem em construções verbais, mas, diferentemente do primeiro caso, os termos que constituem a classe dos marcados tanto na forma possuída quanto na forma não possuída não são derivados de verbos. Na realidade, são bases lexicais dependentes, que não são nomes nem verbos, mas precisam de morfologia derivacional para se comportarem como um ou outro.

(12) 

a. txipuku-ry a’. nhi-txipuku-re b. kuta-ry b’. ny-kuta-re
fruta-n.POSSD 1sg-fruta-POSSD paneiro-n.POSSD 1sg-fruta-POSSD
‘Fruta’. ‘Minha fruta’. ‘Cesta’. ‘Minha cesta’.

Finalmente, temos aqueles nomes a que a noção de (in)alienabilidade não se aplica, pois são não possuíveis. Mesmo em contextos pragmáticos hipotéticos, nomes dessa classe não recebem nenhuma das marcas de (in)alienabilidade. Os grupos semânticos de tal classe de nomes referem-se a nomes próprios (de pessoas, de lugares etc.), a designação de grupos étnicos e a termos genéricos, como kãkiti ‘gente’. A seguir, alguns exemplos:

(13) 

a. Pupĩkary ‘Apurinã’ a’. *ny-Pupĩkary a” *ny-Pupĩkary (-te, -ne, -re) ‘Meu Apurinã’.
b. Kariwa ‘não índio’ b’. *ny-kariwa b”. *ny-kariwa (-te, -ne, -re) ‘Meu branco’.

Nos exemplos em (13), as tentativas de enquadrar os nomes em questão nos padrões de marcação para nomes (in)alienáveis resultaram em exemplos agramaticais.

Nesta seção, as propostas de classificação anteriores para nomes da língua Apurinã foram questionadas nos seguintes pontos:

(i) Facundes (2000), Brandão (2006) e Facundes e Freitas (2013) consideram um morfema zero marcando a posse de nomes inalienáveis, o que demonstramos não se justificar, uma vez que o traço ‘obrigatoriamente possuído’ é parte integrante da entrada lexical dos inalienáveis;

(ii) enquanto Facundes (2000) separa o que chama de nomes mistos dos alienáveis, entendemos que há motivos consistentes para que os primeiros façam parte dos nomes alienáveis, uma vez que, tal como os demais alienáveis, os nomes mistos, na nomenclatura adotada por Facundes (2000), são notoriamente marcados na forma possuída, além de ocorrerem mais frequentemente como não possuídos do que como possuídos;

(iii) de fato, os padrões de marcação de nomes em Apurinã são lexicalmente determinados, mas, com base em novos dados e análises, podemos fazer algumas subgeneralizações de ordem semântica, morfológica e pragmática no interior de algumas classes de nomes;

(iv) os novos dados revelam ser possível a posse de elementos da natureza em Apurinã, contrariando a classe definida semanticamente como ‘obrigatoriamente despossuído’, na proposta de classificação de Brandão (2006), enquanto subconjunto dos nomes inalienáveis;

(v) a classificação de Facundes e Freitas (2013) também parece não refletir os fatos da língua Apurinã, por igualmente propor uma classe de ‘obrigatoriamente não possuídos’.

Quadro 1 Comparação entre as diferentes classificações para nomes em Apurinã. Fonte: Freitas (2017, p. 216)

ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS

Em um estudo tipológico-funcional, Haspelmath (2008) apresenta uma relação entre as noções de ‘frequência de ocorrência’ e de ‘motivação econômica’: a primeira resulta de maior familiaridade dos falantes de uma dada língua com relação a um determinado uso linguístico frequente; sendo familiares aos usuários, as relações implicadas nesse frequente uso linguístico tenderão a ser menos explícitas linguisticamente, isto é, menos marcadas, mais ‘econômicas’. Por outro lado, quanto menos familiar for um determinado uso linguístico, as relações implicadas neste tenderão a ser mais explícitas linguisticamente, mais marcadas, menos ‘econômicas’. Assim, quanto mais frequente uma dada expressão linguística, mais econômica será, já que as relações subjacentes a ela são mais familiares aos usuários da língua; quanto menos frequente, menos econômica será.

Por um lado, podemos adotar a hipótese de Haspelmath (2008), de que a noção de inalienabilidade pode ser motivada pela frequência de uso de nomes na forma possuída e por economia. Por outro lado, os dados de Apurinã permitem também propor a hipótese de que nomes ‘inerentemente relacionais’, tais como termos de parentesco e partes do corpo (entre algumas outras noções), como ‘avô’ e ‘mão’, tendem a constituir a maioria dos nomes inalienáveis, já que ocorrem mais frequentemente em construções de posse do que em termos como ‘roçado’, ‘panela’, ‘mulher’ e ‘plantação’. A noção de posse estaria implicada em nomes relacionais. Em outros termos, as relações de ‘posse’ expressas em nomes como ‘avô’ e ‘mão’, em geral, são mais familiares, mais frequentemente empregadas, em comparação a ‘roçado’, ‘panela’, ‘mulher’ e ‘plantação’.

A fim de sustentar essa hipótese, recorremos a um corpus de 31 textos8 (15 coletados por Freitas (2017), 12 retirados do material de conversação Apurinã9 – interlinearizados por Freitas (2017) – e quatro pertencentes a um banco de dados textual digital da língua Apurinã), em que se verificou a porcentagem de ocorrência de cada nome constante em tais textos, em sua forma possuída. Esta análise está presente no trabalho de Freitas (2017), a qual reportamos aqui, por meio da apresentação de tabelas de frequência.

A Tabela 1 mostra, na primeira coluna, nomes inalienáveis em Apurinã (sem a expressão de um possuidor, consistindo apenas de bases nominais); na segunda coluna, observa-se a tradução de tais nomes para o português; na terceira, encontram-se as quantidades totais de ocorrência de cada nome nos 31 textos analisados (em termos absolutos); na quarta, são mostradas as quantidades absolutas de ocorrência desses nomes em sua forma possuída; por fim, na quinta coluna, encontram-se os percentuais de ocorrência de tais nomes na sua forma possuída (por exemplo, para o nome erẽka ‘sangue’, temos três ocorrências nos 31 textos, sendo que tal nome ocorre possuído em duas delas, o que permite dizer que este ocorre possuído em 66,6% das vezes em que é utilizado no corpus analisado).

Tabela 1 Frequência de ocorrência de nomes inalienavelmente possuídos em textos. Fonte: Freitas (2017, p. 182-183)

Nomes inalienáveis em Apurinã Tradução para o português Total de ocorrências Possuído %
erẽka ‘Sangue’ 3 2 66,6%
iãkyny ‘Rastro’ 3 3 100%
apy ‘Osso’ 1 1 100%
mata ‘Pele’ 1 1 100%
xinhi ‘Carne’ 2 1 50%
ĩthu ‘Corpo’ 1 1 100%
kiti-mata ‘Sandália, sapato’ 1 1 100%
kywy-xike ‘Cabelo da cabeça’ 1 1 100%
tsyy-kywy ‘Dor de cabeça’ 4 4 100%
tsyy-ĩthu ‘Dor no corpo’ 1 1 100%
imiakury ‘Filhos’ 7 7 100%
anawakury ‘Filhos’ 1 1 100%
tanyry(ru) ‘Esposo(a)’ 13 13 100%
nyrymany ‘Parente’ 6 6 100%
yry ‘Pai’ 8 8 100%
ynyru ‘Mãe’ 8 8 100%
imatykyry ‘Sogro’ 1 1 100%
ithary(ru) ‘Irmão(ã)’ 2 2 100%
muianary ‘Amigo, companheiro’ 6 6 100%
awapuku ‘Casa, comunidade’ 10 5 50%
awinhi ‘Casa’ 15 14 93,3%
tywy ‘Coisa’ 9 0 0%
mãka ‘Roupa’ 8 7 87,5%
keku ‘Rede’ 9 6 66,6%
thure ‘Porta’ 1 1 100%
tsupa ‘Folha’ 1 1 100%
xiripi ‘Flecha’ 2 1 50%
thapu ‘Arco’ 1 1 100%
parĩka ‘Trabalho’ 6 3 50%
wãka ‘Nome’ 4 4 100%
sãkire ‘Idioma’ 1 1 100%
pinhi ‘Remédio’ 1 1 100%
Média 87,94%

Com base nos nomes inalienáveis encontrados nos 31 textos analisados, verifica-se frequência média de 87,94% de suas ocorrências na forma possuída, sendo que todos os nomes listados na Tabela 1 ocorrem como mais frequentemente possuídos do que como não possuídos, com exceção do nome tywy ‘coisa’, o qual, em todos os contextos encontrados no corpus, ocorreu na forma não possuída; tal nome, embora morfologicamente marcado como inalienável na língua Apurinã, não parece se inscrever semanticamente em uma categoria prototipicamente esperada para inalienáveis, o que, talvez, justifique sua diferença com relação aos demais inalienáveis do corpus.

Com relação aos nomes alienáveis, a Tabela 2 mostra a frequência de ocorrência de tais nomes em construções de posse, nos textos analisados.

Tabela 2 Frequência de ocorrência de nomes alienavelmente possuídos em textos. Fonte: Freitas (2017, p. 183-185)

Nomes alienáveis em Apurinã Tradução para o português Total de ocorrências Possuído %
yny ‘Lontra’ 1 0 0%
katarukyry ‘Farinha’ 7 0 0%
xãmyna ‘Lenha’ 4 0 0%
ĩparãa ‘Água’ 1 0 0%
kytypyryky ‘Passarinho’ 1 0 0%
kuta(ry/re) ‘Cesto’ 1 0 0%
iiana ‘Gamela’ 1 0 0%
anãpa ‘Cachorro’ 1 0 0%
tsapukỹã ‘Anzol’ 2 0 0%
tsapukỹãtsa ‘Linha de pesca’ 1 0 0%
malhadera ‘Malhadeira’ 3 0 0%
sutuãry ‘Igarapé’ 5 0 0%
pitikyru ‘Grilo’ 1 0 0%
irary ‘Queixada’ 10 0 0%
matxuky ‘Bicho do coco’ 1 0 0%
tsumi ‘Minhoca’ 1 0 0%
mamury ‘Matrinxã’ 1 0 0%
tũpary ‘Pacu’ 2 0 0%
ykyparu ‘Piau’ 1 0 0%
uma ‘Piranha’ 1 0 0%
kukuixima ‘Jatuarana’ 1 0 0%
kariti ‘Piaba’ 1 0 0%
kapynaxima ‘Tucunaré’ 1 0 0%
iukuwaty ‘Caruaçu’ 1 0 0%
tsukirima ‘Surubim’ 1 0 0%
iuwata ‘Faca’ 2 0 0%
paraky ‘Cartucho’ 1 0 0%
amiana(ry/re) ‘Doença’ 4 1 25%
apuuma(ry/re) ‘Febre’ 3 0 0%
kyynyry ‘Xingané (festa)’ 7 0 0%
txipary ‘Banana’ 6 0 0%
anãna ‘Abacaxi’ 4 0 0%
ĩthupa ‘Mata, floresta’ 9 0 0%
ãkiti ‘Onça’ 4 0 0%
ixuwa ‘Tamanduá’ 1 0 0%
kyky ‘Homem’ 5 0 0%
sytu ‘Mulher’ 9 1 11,1%
paxupata ‘Paxiúba’ 2 0 0%
tsupata ‘Barata’ 2 0 0%
kipatxi ‘Barro’ 3 0 0%
atãkary ‘Espelho’ 2 0 0%
ãputa ‘Abano’ 4 0 0%
nhipuku(ry/re) ‘Comida’ 12 0 0%
ximaky ‘Peixe’ 22 0 0%
iumyary ‘Macaxeira’ 3 0 0%
amãtyyry ‘Fruta’ 3 0 0%
aiku ‘Casa’ 5 0 0%
kupiti ‘Panela de barro’ 1 0 0%
maky ‘Castanha’ 13 2 15,3%
selula ‘Celular’ 1 0 0%
kũputadu ‘Computador’ 1 0 0%
pixu ‘Bicho’ 1 1 100%
tirikapi ‘Lamparina’ 4 0 0%
sapatu ‘Sapato’ 1 1 100%
kikiu ‘Roçado’ 6 3 50%
kumyry ‘Mandioca’ 16 1 6,25%
kawãry ‘Igarapé’ 3 0 0%
itixi ‘Terra, chão’ 1 0 0%
tsapyryky ‘Açaí’ 6 0 0%
kitxiti ‘Patauá’ 3 0 0%
muture ‘Motor’ 1 0 0%
mapurupuwa ‘Barco’ 1 0 0%
amary ‘Criança’ 17 5 29,4%
xamynaky ‘Espingarda’ 8 2 25%
taka(ry/re) ‘Plantação’ 11 5 45,4%
ĩsuãna ‘Rio’ 2 0 0%
awiri ‘Rapé’ 7 0 0%
xika(ry/re) ‘Canto, canção’ 1 0 0%
ỹãrỹã ‘Vinho’ 4 0 0%
kytsyna ‘Calango’ 1 0 0%
mutu ‘Cará’ 2 0 0%
kypary ‘Batata’ 4 0 0%
kimi ‘Milho’ 3 0 0%
iũkyra ‘Sal’ 1 0 0%
parithu ‘Fósforo’ 1 0 0%
muskiteru ‘Mosquiteiro’ 1 0 0%
saasara ‘Terçado’ 1 0 0%
xũpuky ‘Chumbo’ 1 0 0%
xũpupanhi ‘Pólvora’ 1 0 0%
purytaky ‘Espoleta’ 1 0 0%
parapa ‘Cartucho’ 1 0 0%
kaxaxãa ‘Cachaça’ 2 0 0%
paikuma ‘Tingui’ 4 0 0%
kirikunape ‘Buritizal’ 1 0 0%
kimapury ‘Caminho’ 2 0 0%
iatymyna ‘Pé de sorva’ 1 0 0%
ãake ‘Vara’ 1 0 0%
manu ‘Tipiti’ 1 0 0%
pathery ‘Galinha’ 2 0 0%
Média 5%

Diferindo sobremaneira dos nomes inalienáveis, os nomes alienáveis presentes na Tabela 2 apresentam frequência média de apenas 5% em construções de posse, o que, comparado à frequência de 87,94% dos inalienáveis, evidencia o contraste entre essas duas classes de nomes em se tratando de sua frequência de ocorrência em construções de posse. Vale ressaltar que, na Tabela 2, foram incluídos os nomes marcados tanto na forma possuída como na não possuída, uma vez que estes últimos constituem uma subclasse de alienáveis na proposta atual de classificação para nomes em Apurinã, conforme explicado na seção anterior (tanto nomes inalienáveis ‘marcados apenas na forma possuída’ quanto aqueles ‘marcados em ambas as formas’, possuída e não possuída, ocorrem mais frequentemente como não possuídos do que como possuídos).

Para evidenciar o status dos nomes duplamente marcados enquanto subclasse dos alienáveis, apresentamos a Tabela 3, em que se encontram apenas nomes marcados tanto na forma possuída como na não possuída.

Tabela 3 Frequência de ocorrência de nomes alienáveis duplamente marcados em textos. Fonte: Freitas (2017, p. 185)

Nomes alienáveis duplamente marcados em textos Tradução para o português Total de ocorrências Possuído %
kuta(ry/re) ‘Cesto’ 1 0 0%
amiana(ry/re) ‘Doença’ 4 1 25%
apuuma(ry/re) ‘Febre’ 3 0 0%
nhipuku(ry/re) ‘Comida’ 12 0 0%
taka(ry/re) ‘Plantação’ 11 5 45,4%
xika(ry/re) ‘Canto, canção’ 1 0 0%
Média 18,7%

Conforme mostra a Tabela 3, nomes marcados tanto na forma possuída quanto na forma não possuída, com uma frequência média de apenas 18,7% em construções de posse, aproximam-se mais dos alienáveis do que dos inalienáveis, em termos de frequência de ocorrência em construções de posse, já que ocorrem muito mais frequentemente em construções de não posse do que de posse.

Assim, demonstradas as frequências de ocorrência de nomes inalienáveis e alienáveis em sua forma possuída, com base na análise de 31 textos, temos evidências suficientes para utilizar o parâmetro ‘frequência de ocorrência’ em construções de posse para reforçar o contraste entre nomes alienáveis e inalienáveis em Apurinã, o que, agregado à observação dos padrões de marcação morfológica de tais nomes, permite uma aproximação mais acurada em se tratando da compreensão de cada uma dessas duas categorias de nomes na língua.

Nesse sentido, adotamos as seguintes definições para nomes inalienáveis e alienáveis em Apurinã: (i) ‘inalienáveis’ são aqueles nomes não marcados na forma possuída, sendo, portanto, mais econômicos, os quais ocorrem mais frequentemente como possuídos do que como não possuídos (frequência média de ocorrência em construções de posse de 87,94% nos textos analisados); (ii) ‘alienáveis’ são os nomes notoriamente marcados em construções de posse (recebem um sufixo de posse), portanto, menos econômicos, os quais ocorrem mais frequentemente como não possuídos do que como possuídos (frequência média de apenas 5% em construções de posse nos textos analisados).

Essa proposta de definição para nomes (in)alienáveis em Apurinã, portanto, está baseada em seus padrões de marcação morfológica, sendo motivadas pela ‘frequência de ocorrência’ e pela ‘motivação econômica’ (Haspelmath, 2008), acrescentando questões pragmáticas (familiaridade, frequência de uso) à análise dos nomes na língua, além de questões ligadas ao padrão de marcação morfológica. Os dados corroboram a hipótese de que há uma classe semântica que subjaz à noção de inalienabilidade em Apurinã: conceitos inerentemente relacionais. A relevância dessa última informação está na possibilidade que ela oferece de predizer, com base na semântica dos nomes, quais tendem a ser marcados como inalienáveis na língua, além de ocorrer com maior frequência na forma possuída.

Em se tratando dos nomes alienáveis – apesar de, no geral, a marca morfológica que cada nome alienável recebe ser lexicalmente determinada –, é possível observar alguns padrões restritos à parte desses nomes. Uma distinção inicial que pode ser feita entre -te, -ne, -re1 e -re2 diz respeito à quantidade de palavras em que foram atestados: os sufixos -te (em primeiro lugar) e -ne (em segundo) são os mais frequentes (abrangendo uma quantidade maior de categorias semânticas); foram atestadas apenas pouco mais de uma dúzia de palavras ocorrendo com o sufixo -re2; também foram poucas as palavras em que verificamos a ocorrência de -re1, uma dezena. Facundes (2000) atribui a escolha de um desses sufixos a um condicionamento lexical. Entretanto, dados mais recentes nos conduziram a identificar algumas tendências relativamente robustas, em se tratando de subgeneralizações que podem ser feitas sobre a ocorrência de cada um desses sufixos:

(i) nomes de animais e de substâncias/fenômenos/paisagens da natureza ocorrerem apenas com os sufixos -te e -ne, característica semântica que diferencia esses dois sufixos dos demais (que não ocorrem com esses dois grupos semânticos de nomes); isso se deve ao fato de apenas os sufixos -te e -ne ocorrerem com nomes cuja posse é considerada pelos falantes como pouco familiar/comum (a posse de nomes como ãkiti ‘onça’, kema ‘anta’, kasyry ‘lua’ e atukatxi ‘sol’, de fato, parece ser, no mínimo, bastante incomum, ocorrendo em contextos hipotéticos muito particulares). De todo modo, há algumas diferenças entre -te e -ne: o sufixo -te se aplica a um número maior de grupos semânticos e é mais frequente do que -ne; em todos os casos atestados em que os falantes desconheciam um dado nome, seja nos casos de variação dialetal ou nos de referentes desconhecidos, foi usado o sufixo -ne;

(ii) o sufixo -re1 ocorre com poucos itens lexicais, cujos membros designam conceitos variados. A metade dos nomes, até então atestados (dez ocorrências), marcados por -re1 é derivada de verbos, o que nos faz pensar que haja certa tendência de que nomes deverbais ocorram com este sufixo;

(iii) nomes marcados por -re2 são aqueles que recebem a marca -ry quando não possuídos, ocorrem com bases que não são nem inerentemente verbais nem inerentemente nominais, necessitando de morfologia derivacional para se comportarem como nomes ou verbos.

De fato, não há qualquer classe semântica em isolado que dê conta de justificar um agrupamento dos nomes que ocorrem com cada um dos sufixos de posse alienável. Há, ao invés disso, tendências, ora apontadas, de ordem semântica, morfológica e pragmática/discursiva que podem estar ligadas à escolha entre -te, -ne, -re1 e -re2, embora esta seja, no geral, lexicalmente condicionada.

Optamos por propor a existência de uma terceira classe separada de ‘nomes não possuíveis’, que corresponderia ao que Brandão (2006) chamou de ‘obrigatoriamente despossuídos’ e ao que Facundes e Freitas (2013) chamaram de ‘obrigatoriamente não possuídos’. Para justificar a existência dessa terceira classe, levamos em conta que a (in)alienabiliade, do ponto de vista semântico, pressupõe posse, em que há uma relação entre um possuidor e um item possuído, seja ela (prototipicamente) ‘inerente, indissolúvel’ ou não; uma vez que não há relação de posse (não há um possuidor), já que, constituída por nomes ‘não possuíveis’, a noção de (in)alienabilidade não se aplica. Adicionalmente, do ponto de vista morfológico, a partir do modo como definimos aqui a (in)alienabilidade10, não haveria possibilidade de incluir os nomes não possuíveis em uma dessas duas classes, já que estes não recebem qualquer marca morfológica que os caracterize.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A atual classificação proposta para os nomes inalienáveis em Apurinã apresenta diferenças com relação às análises anteriores que, se não substanciais, são importantes: demonstramos que tais nomes não são marcados por um morfema zero em construções de posse, mas sim carregam a informação sobre inalienabilidade como parte do seu significado lexical; a marcação morfológica desses nomes está intimamente ligada à ‘frequência de ocorrência’ em construções de posse e a uma ‘motivação econômica’ (Haspelmath, 2008); finalmente, a noção de nomes inerentemente relacionais adiciona certa previsibilidade sobre quais nomes serão marcados como inalienáveis na língua e, portanto, podem ocorrer com maior frequência na forma possuída. Sobre os nomes alienáveis, observamos que, quando um exame criterioso de seus usos é feito, é possível atestar subgeneralizações, que tornam relativamente previsível a seleção de cada sufixo marcador de nome alienavelmente possuído.

Dada essa reformulação na classificação dos nomes em Apurinã, esperamos ter contribuído para os estudos tipológicos em línguas Aruák, no que se refere aos padrões de marcação morfológica de nomes em construções de posse, assim como para a tipologia geral sobre sistemas de marcação de posse nas línguas do mundo. Finalmente, é possível imaginar que essa classe semântica de conceitos inerentemente relacionais, assim como os nomes não possuídos, possa estar relacionada a aspectos particulares da cultura de um povo. Esta, porém, é uma questão para uma outra pesquisa.

ABREVIATURAS

1 = primeira pessoa

3 = terceira pessoa

assoc = associativo

f = feminino

m = masculino

nc = nome classificatório

n.possd = não possuído

n.prop = nome próprio

pftv = perfectivo

pl = plural

possd = possuído

pred = predicado

progr = progressivo

sg = singular

vblz = verbalizador

1Nomes inalienáveis, como -tsuta, são lexicalmente marcados como obrigatoriamente possuídos, significando ‘tronco de’ (por isso sua glosa é ‘tronco.de’, e não apenas ‘tronco’, já que ‘ser possuído’ faz parte de sua entrada lexical).

2Os ‘nomes simples inalienáveis classificatórios’ são fonologicamente formas presas, isto é, só ocorrem como parte de uma palavra-base ou com uma forma pronominal ligada a eles (como em y-tsuta (3sg.m-nc.tronco.de) ‘tronco dele’), ocorrendo recorrentemente como parte de nomes compostos. Ou seja, até onde a semântica permitir, um nome classificatório pode ocorrer repetidamente como parte de vários nomes compostos. Entre os classificatórios, há um subconjunto de nomes que podem ser incorporados ao verbo para se referir a propriedades semânticas de uma forma nominal previamente referida no discurso. Alguns nomes classificatórios podem ser produtivamente usados para se referir a seu significado-fonte (literal) e/ou significado-alvo (que consistem em extensões metafóricas do significado-fonte) (Facundes, 2000).

3Mais adiante, explicaremos o significado no número subscrito em -re1, em comparação a -re2.

4Os dados de Apurinã extraídos de outras fontes foram traduzidos para o português, quando em língua estrangeira, e ajustados à ortografia da língua atualmente em vigor.

5Nesse caso, ‘cabeça’ refere-se a um personagem mitológico, uma cabeça sem corpo.

6Em Apurinã, há uma série de marcas pronominais proclíticas que codificam, em nomes, o possuidor, enquanto que, em verbos, codificam o sujeito. Assim, temos as seguintes marcas pronominais de sujeito/possuidor na língua e suas realizações alomórficas:

Singular Plural
1 ny-; n-; nhi-; nỹ-; nhĩ- a-; ã-
2 p i-; p-; pi-; pĩ- hỹ-; h~-
3m y-; ø-; i-; ỹ- y-...-na; ø-...-na; i-.....-na; ỹ-.....-na
3f u-; ũ- u-.....-na; ũ-.....-na

7A descrição e classificação dos nomes inalienáveis classificatórios foram discutidas em Facundes (2000). Formam uma classe à parte por se tratarem de raízes fonologicamente presas, com funções classificatórias, sendo que parte desses nomes pode denotar sentidos metafóricos, a partir de certos significados-fonte, que dão origem a novos significados-alvo. Por exemplo: y-tãta (3sg.m-casca.de) ‘casca dele’, uku-tãta (árvore.de.uku-casca.de) ‘casca da árvore uku’, em oposição a uky-tãta (olho.de-casca.de) ‘óculos’.

8Os 27 primeiros textos encontram-se no trabalho de Freitas (2017); os outros quatro estão no banco de dados digital da língua Apurinã, no programa FLEx. No caso dos 15 textos coletados por Freitas (2017), foram apresentados aos colaboradores texto em português, para que estes construíssem a versão em Apurinã. Os 12 textos do material de conversação foram construídos por um colaborador Apurinã e revisados por outros colaboradores. Os quatro textos do programa FLEx foram produzidos espontaneamente pelos colaboradores (dois textos narrativos e dois textos procedurais).

9O referido material ainda não foi publicado oficialmente, e se chama “Amu Asãkirewata Pupĩkary Sãkire”, elaborado por colaboradores Apurinã, junto com Sidney Facundes e sua equipe de trabalho.

10Inalienáveis são não marcados na forma possuída e mais frequentes em construções de posse do que de não posse; alienáveis são notoriamente marcados na forma possuída e mais frequentes em construções de não posse do que de posse.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Ana Paula. Dicionário da fauna e flora Apurinã. 2006. 79 f. Monografia (Graduação em Língua Portuguesa) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2006. [ Links ]

FACUNDES, Sidney da Silva; FREITAS, Marília Fernanda Pereira de. Posse nominal em Apurinã (Aruák). In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS NA AMAZÔNIA, 4., 2013, Belém. Anais eletrônicos... Belém: PPGL-UFPA, 2013. p. 705-715. Disponível em: <http://livroaberto.ufpa.br/jspui/bitstream/prefix/108/1/Livro_AnaisCongressoInternacional_V1.pdf. Acesso em: 4 abr. 2018. [ Links ]

FACUNDES, Sidney da Silva. The language of the Apurinã people of Brazil (Maipure/Arawak). 2000. 705 f. Thesis (Doctorate in Philosophy) – University of New York, Buffalo, 2000. [ Links ]

FACUNDES, Sidney da Silva. Possession and unpossession in Apurinã Maipuran. In: Conference Proceedings of LSA Parassession: languages south of Rio Bravo. Nova Orleans, 1995. [ Links ]

FREITAS, Marília Fernanda Pereira de. A posse em Apurinã: descrição de construções atributivas e predicativas em comparação com outras línguas Aruák. 2017. 429 f. Tese (Doutorado em Letras – Estudos Linguísticos) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2017. [ Links ]

HASPELMATH, Martin. Alienable vs. inalienable possessive constructions. In: Syntactic universals and usage frequency. Leipzig: Leipzig School on Linguistic Diversity, 2008. p. 1-14. Available in: <http://www.eva.mpg.de/lingua/conference/08_springschool/pdf/course_materials/Haspelmath_Possessives.pdf. Access in: 7 June 2015. [ Links ]

PAYNE, David L. A classification of Maipuran (Arawakan) languages based on shared lexical retentious. In: DERBYSHIRE, Desmond C.; PULLUM, Geoffrey K. (Ed.). Handbook of Amazonian Languages. Berlin: De Gruyter Mouton, 1991. p. 355-499, v. 3.s [ Links ]

Recebido: 16 de Março de 2018; Aceito: 17 de Julho de 2018

Autora para correspondência: Marília Fernanda Pereira de Freitas. Travessa do Chaco, 1829. Belém, PA, Brasil. CEP 6609-3541 (mfpf31@yahoo.com.br).

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