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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

versão impressa ISSN 1981-8122versão On-line ISSN 2178-2547

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.15 no.1 Belém  2020  Epub 27-Jan-2020

https://doi.org/10.1590/2178-2547-bgoeldi-2019-0008 

ARTIGOS

O ‘Criador’ e os ‘barcos grandes’: imaginando políticas institucionais pesqueiras e ambientais

The ‘Criador’ and the ‘barcos grandes’: imagining institutional fishing and environmental policies

Lucas Lima dos Santos1 
http://orcid.org/0000-0001-9538-6441

1Universidade Estadual de Campinas. Campinas, São Paulo, Brasil


Resumo

Cardumes de tainha participam anualmente das paisagens marítimas da vila do Pontal do Leste, ilha do Cardoso, Cananeia, São Paulo. As práticas pesqueiras focadas nesses peixes são costumeiras na vila, mas estão fracassando pela competição com as ‘traineiras’ de diversas localidades da região Sul do Brasil. As traineiras são ‘barcos grandes’ de pesca industrial, com grande poder de pesca. Além das intensas predações dessas embarcações estarem trazendo perturbações nas atividades dos pescadores da vila, e nos processos reprodutivos e de crescimento das próprias tainhas, estão também ocasionando conflitos com os ensinamentos do ‘Criador’ (Deus, no Cristianismo). Enquanto o Criador instrui aos habitantes da vila de que existem limiares de predação para qualquer animal não humano, os barcos grandes, motivados pelo mercado e pelo capital, desrespeitam esses ensinamentos. Um dos objetivos deste artigo é descrever a complexa malha cosmopolítica, analisando algumas controvérsias que emergem dos encontros das tainhas com as traineiras, os pescadores da vila e o Criador. Através desses conflitos, a intenção é, por fim, imaginar formas de construir políticas institucionais pesqueiras e ambientais que coloquem simetricamente os ensinamentos do Criador, os conhecimentos de pescadores da vila e científicos do órgão ambiental local, sem cair em dominações e/ou relativismos.

Palavras-chave Pesca; Imaginação; Cosmopolíticas; Tainha

Abstract

Every year, shoals of mullet are part of the coastal landscape of the village of Pontal do Leste, on Cardoso Island, Cananeia, São Paulo. Fishing practices targeting these fish are common in the village, but they are failing because of the competition with ‘traineiras’ from various locations in southern Brazil. The ‘traineiras’ are ‘barcos grandes’ (big boats) that practice industrial fishing. Intense predation by these vessels is disturbing fishing activities in the village, as well as the reproduction and growth of these fish, and also causes conflict with the teachings of the ‘Criador’ (God in Christianity). While the Criador teaches the villagers that there are predation thresholds for all non-human animals, the barcos grandes (motivated by the market and capital) disrespect these teachings. One objective of this article is to describe the complex cosmopolitical network, analyzing some controversies that emerge from encounters between the mullet, the traineiras, the village fishermen, and the Criador. Through these conflicts, the goal is to envision ways of constructing fishing and environmental policies that symmetrically present the Criador's teachings, the knowledge of local fishermen, and scientists from the regional environmental organization, without lapsing into dominations and/or relativisms.

Keywords Fishing; Imagination; Cosmopolitics; Mullet

DEU MAIS TAINHA NESSE ANO! UMA BREVE INTRODUÇÃO

Logo em uma das minhas chegadas na vila [do Pontal do Leste, Cananeia, São Paulo], no mês de julho de 2016, como de praxe, Juarez vai ao meu encontro. Após me cumprimentar, com a sua particular empolgação serena, o habitante me informa que os pescadores capturaram muita tainha no mês passado. “Pô! A turma pegou muita tainha nesse ano, cara. João, Domingos, Aires e Wellington deram uma cercada bonita aí na praia . . . eles pegaram uma tonelada. Era até bonito de ver aquela quantidade de tainha pulando. Depois, perto da Enseada da Baleia [vila extinta próxima ao Pontal do Leste], eles deram outra, pegaram quase duas toneladas de tainha!” Quando pergunto para Juarez se ele sabia a causa de tanta tainha nesse ano, ele logo me fala que as ‘traineiras’ [embarcações de pesca industrial] foram proibidas de cercar os cardumes no Sul. “Foi só proibir que apareceu. Barbaridade! Quanta tainha! Bastante gente do outro lado [do rio, na vila da Barra do Ararapira] também pegou. A peixaria de Cananeia não estava nem aceitando mais”. Mais tarde, Aires me atualiza que em diversas localidades de ilha Comprida até Iguape, chegando na Juréia (quase em Peruíbe), também foram capturadas muitas tainhas1.

Comparando as quantidades de tainhas capturadas nos anos anteriores, era visível que o inverno do ano de 2016 não seria de escassez igual na vila do Pontal do Leste (ou apenas Pontal), no extremo sul da ilha do Cardoso, em Cananeia, São Paulo. Não apenas para os pescadores ‘pontalistas’2 (pescadores da vila do Pontal do Leste) a fartura era evidente, mas para diversos pescadores espalhados pela costa das regiões Sul e Sudeste brasileiras. Enormes cardumes de tainha (Mugil platanus) apareceram percorrendo o litoral do estado de São Paulo, tornando as práticas pesqueiras tão produtivas – algo que não ocorria há pelo menos cinco ou seis anos, segundo os pescadores Aires, João, Juarez, Laerte e Feliciano – que algumas peixarias tiveram de recusar muitos indivíduos capturados. Os estabelecimentos que ainda estavam comprando, ofereciam preços baixíssimos, devido à ocorrência de maior quantidade de oferta de ‘pescados’ (peixes capturados) em relação à demanda. O abismo foi tão significativo sobre o preço do quilo da tainha que o valor ficou entre 1,50 e 2,00 reais – algo bem díspar em relação à média dos outros anos, com registro de cerca de 15,00 reais por quilo.

Com a baixa abrupta do preço, vários pescadores da região da ilha do Cardoso tiveram de conservar as tainhas ‘escalando-as’ (ou seja, ‘retirando suas tripas’, salgando-as e secando-as ao sol), para que não ficassem ‘passadas’ (estragadas). Dessa forma, o ato de conservar colaborou para que muitos pescadores pudessem aguardar um momento mais satisfatório para vender os pescados. A tainha ‘gorda’ in natura é bastante ponderada localmente e pelos compradores nas peixarias, por conta do excesso de gordura em sua carne, que fornece mais ‘gosto’ (ou sabor) para o pescado, como afirma Ivanildo, habitante do Pontal. Contudo, a carne e a ova da tainha salgada e seca também despertam interesses, por oferecer outra experimentação prazerosa. Por conseguinte, além do esforço de conservar, o próprio peixe escalado é muito sedutor para variados compradores.

A ‘corrida’ (migração) da tainha do sul da costa brasileira para o norte influencia (e é influenciada por) diversos humanos e não humanos. No Pontal, à medida que o outono vem se aproximando do fim e o inverno começa a chegar, os pescadores pontalistas começam a arrumar as suas redes de pesca para estender na praia e/ou colocar dentro de suas canoas3, com o intuito de sair para o mar. Observando o mar periodicamente ao longo dos dias, eles buscam alguns signos que indicam a chegada dos primeiros cardumes. A tainha é um ‘peixe boiado’, isto é, que habita as camadas superiores da água, mais próximas do fio d’água. Sendo assim, um dos principais signos observados pelos pescadores são os seus ‘pulos’ para fora d’água. Em junho de 20164, para a surpresa de alguns pescadores, quando os primeiros cardumes chegaram na região da ilha do Cardoso, a quantidade de pulos não era a habitual em relação a dos anos anteriores. Era, no entanto, muito maior. Os pulos em demasia chamaram a atenção de João em uma das manhãs desse mês, que convidou Domingos, Wellington e Aires para dar uma ‘cercada’5 no mar em frente à vila: “Quando eles cercaram e vieram puxando [a rede] para a praia . . . Jesus de Iguape! Aquela grande quantidade de peixe! Fui lá ajudar a puxar, porque a rede estava muito pesada”, descreveu Lindalva, esposa de Juarez (comunicação pessoal, 2016).

Sendo divulgada em alguns noticiários em rádios e televisões, os habitantes da vila começaram a compreender uma das causas da chegada inesperada dos milhares de tainhas: o impedimento de ‘barcos grandes’ na região Sul do país (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2016) de saírem ao mar, por conta de problemas com as suas licenças. Ao definirem os barcos grandes, os pescadores da vila referem-se às embarcações de pesca em larga escala, incluindo aqui as ‘traineiras’6 – que são direcionadas às capturas de tainhas e sardinhas (Sardinella brasiliensis) – e os barcos de arrasto de camarão – ‘camarãozeiros’. Os barcos grandes capturam toneladas de camarões e tainhas durante as suas respectivas ‘safras’ (períodos de pesca), e é notável que essas embarcações têm grande influência no ‘fracasso’ das práticas pesqueiras locais ao longo dos anos. Basta observarmos a indignação de Feliciano (comunicação pessoal, 2016):

Primeiro, tinha muito peixe aqui, rapaz. Tem uma turma que mata demais hoje. Não sobra peixe para os pequenos pescadores. Esses barcos grandes só querem ganhar dinheiro, meu caneco! O ‘Criador’ [Deus, no Cristianismo] constrói esse mundo para todos nós e esses barcos grandes destroem tudo.

Mário, outro pescador pontalista, tinha uma análise mais pessimista, dizendo: “Se não proibisse esses barcos nesse ano, a tainha iria acabar. Ainda bem que proibiram” (comunicação pessoal, 2016). Acredito que esse pessimismo paira também pelo ‘Meio Ambiente’7, já que, em uma das reuniões realizadas na vila, alguns técnicos demonstraram preocupação quanto à pesca em larga escala de embarcações nos estados do Paraná e de Santa Catarina, comentando, ainda, sobre uma possível proibição da pesca por um longo período, com vistas à conservação da fauna marinha.

Essa fartura de tainhas, no inverno desse ano não trivial de 2016, despertou-me interesse não apenas para descrever as competições e predações em torno das práticas pesqueiras focalizadas nesses peixes, mas também de colocar as próprias tainhas no centro de uma discussão mais profunda, de como imaginar políticas institucionais pesqueiras e ambientais através de variadas perspectivas de mundo. Para isso, este artigo procura demonstrar as diversas perspectivas abordadas sobre e pelas tainhas, trazendo pressupostos e processos que entram em conflitos ao chegarem às práticas pesqueiras. Será preciso, então, descrever a malha de relações e o momento no qual esses entendimentos diversos de mundo encontram-se nas paisagens marinhas pontalistas. Portanto, o objetivo deste artigo é descrever como tainhas (em suas corridas), barcos grandes (fixados no mercado e no capital) e os pescadores pontalistas (operados pelos ensinamentos do Criador) se encontram; e quais são os efeitos desses encontros. Focar no movimento das linhas8 de cada um desses atores ajudará a situar a discussão nas histórias e controvérsias propiciadas por suas relações. A hipótese aqui deixada de antemão é a de que, para que seja realizado o exercício de imaginar novas políticas institucionais, analisando as suas eficácias, é necessário refletir e enfrentar que todo processo imaginativo é mobilizado por diversos humanos e não humanos em âmbitos locais. Isto é, para que hajam as confecções de novas políticas institucionais pesqueiras e ambientais, é preciso a todo instante situar as análises e discussões, cultuando novas linguagens e levando, é claro, em consideração os conhecimentos dos interlocutores em toda a sua potência.

DAS ARANHAS PARA AS TAINHAS: ‘IMAGINAÇÕES TENTACULARES’ PARA UMA ‘ESCRITA-CIBORGUE’

Na chegada em campo, sempre armo a barraca no local costumeiro dentro do terreno de Juarez e Lindalva. Contudo, dois dias antecedendo as tempestades, já estava desconfiado de que a minha presença e a da barraca estavam sendo partilhadas com a moradia de outros seres. Aranhas e insetos sempre se escondiam no sobreteto da barraca, quando os ventos fortes das tempestades começavam. Desconfio que as aranhas eram atraídas pelos insetos, já que eram evidentes algumas teias com indivíduos mortos. Porém, em uma manhã com muita ‘fumaça’ [nevoeiro], devido à umidade, percebi que a barraca e eu estávamos emaranhados em uma paisagem complexa de teias de aranhas. O orvalho se prendeu nas teias, deixando-as evidentes aos meus olhos destreinados, demonstrando que eu tinha invadido territórios aracnídeos. Uma teia cruzava com a outra e muitas estavam presas em minha barraca, formando uma enorme malha no meio da restinga9.

O relato de campo que utilizo para iniciar este tópico ajudará no desdobramento teórico utilizado neste artigo. Desde a minha chegada na pequena área do terreno de Juarez e Lindalva, nota-se que não estava conseguindo perceber a minha participação em um determinado emaranhamento com as aranhas na restinga. Devo à atuação da ‘fumaça’ e de suas gotículas, que me ajudaram a observar e me surpreender com a complexa paisagem aracnídea (Figura 1), a qual trouxe à tona não apenas a malha composta por diversas teias de similares aranhas, mas também como as próprias aranhas, a minha presença e a da barraca estavam sendo coafetadas. Invadindo o território das aranhas, as mesmas estavam se aproveitando e prendendo as linhas das suas teias tanto no interior como no exterior do sobreteto da barraca, para poder caçar. Em contrapartida, estava fascinado com a estética daquela vasta paisagem de linhas formando teias, interligadas umas às outras. As aranhas não haviam apenas capturado a minha barraca, mas a mim mesmo. Trazendo Ingold (2011) para esse momento vívido aracnídeo, se, por conta de variadas linhas, crescemos em mundos, estes mesmos mundos crescem pelas ações de cada indivíduo. Portanto, as aranhas e as suas teias estavam crescendo em mim, à medida que a minha presença estava crescendo nelas.

Foto: Lucas Lima dos Santos (2015).

Figura 1 Aranhas e suas teias na restinga. 

Quando contei que as aranhas estavam usando a minha barraca para caçar, Lindalva esboçou alguns risos e me falou que tive um pouco de sorte ao conseguir avistar essa paisagem aracnídea com orvalho: “Vai uma [teia] se prendendo na outra. É porque não está ventando muito, mas elas [as aranhas] prendem as teias em todo lugar. Planta, folha, na sua barraca [risos] . . . Acho que elas se ajudam” (comunicação pessoal, 2016), descreveu-me a pontalista. Isso demonstra que, além de a rara paisagem só ocorrer em momentos de ventos mais amenos, há uma suspeita da própria pontalista com relação à colaboração entre as aranhas em prol da captura de insetos. Cada uma capturando insetos em suas próprias teias, mas cada teia interligada uma na outra. As linhas animadas tecidas se prendem, se relacionam, colaboram e capturam, dependendo dos caminhos traçados e das conformações produzidas pelas aranhas. É como se as variadas conformações de teias, apesar da semelhança entre as aranhas, pudessem desenvolver múltiplas conexões parciais, onde infinitas são as possibilidades de conexão, e não o número de conexões (Strathern, 2014, p. 295).

Se pensarmos os processos imaginativos como compostos (Haraway, 2016, p. 97), alimentados pelos encontros de (e com) diversas linhas de movimento, aprender inesperadamente com as aranhas – graças à fumaça e ao vento fraco –, suas teias e colaborações podem também ser consideradas uma forma de compostagem, já que, quanto mais nos relacionamos com elas, mais as nossas ecologias cognitivas afetivas são transformadas. Essas linhas animadas funcionam como tentáculos10, que nutrem os nossos compostos imaginativos. A imaginação, fazendo parte do corpo de cada indivíduo, é tentacular11, pois, ao mesmo tempo em que está espalhada pelo mundo, também é situada. Isto é, assim como aranhas e suas ações conseguem mobilizar outras aranhas para caçar, e – voltando para um dos focos deste texto – as tainhas mobilizam outras tainhas para ‘se’ ‘encardumarem’ (formar cardumes) nas épocas das suas corridas, é através dessa tentacularidade, relacionando-nos com humanos e não humanos, que conseguimos alimentar nossas imaginações. São essas ações tentaculares que podem fornecer caminhos alternativos, por exemplo, para imaginar políticas institucionais – no caso do artigo, pesqueiras e ambientais.

Contudo, outro ponto importante a ser contemplado é a própria não inocência dessas desconfiadas colaborações12 aracnídeas, levantadas por Lindalva. Ao mesmo tempo em que as aranhas estão se comunicando, há interesses de cada uma. Descreveu-me Juarez (comunicação pessoal, 2015):

É como qualquer bicho, que está vivendo nesse mundo e precisa sobreviver. Precisam arranjar comida. Alguns pegam mais, outros menos . . . O ser humano também é assim. Mas o ser humano é complicado. Eles querem vender a comida e uns querem ganhar mais do que os outros.

Devido ao fato de interesses estarem sendo mobilizados, a colaboração aracnídea também está vinculada às histórias de competição e predação (e, até mesmo, em alguns casos, de canibalismo13) – assim como ocorre com variados humanos, animais não humanos e plantas. Determinadas aranhas, se tiverem a oportunidade, podem muito bem querer predar uma quantidade muito maior de insetos, de acordo com o tamanho e o local de sua teia, sua voracidade, suas habilidades de resposta – quando algo se prende em sua armadilha (teia) – etc. Semelhante ao que ocorre nas práticas pesqueiras envolvendo pontalistas, já que os interesses dos barcos grandes em aumentar o seu poder de captura estão entrando em conflito com os ensinamentos do Criador, com as tainhas (por conta da predação desenfreada), com os pescadores da vila (devido à ‘competição desleal’) e com a ‘conservação’ defendida pelo Meio Ambiente. Isto é, para entendermos esses conflitos, que serão mais bem abordados mais adiante, é importante realizar descrições concentradas nos diversos interesses locais que compõem a paisagem marinha pontalista. Portanto, isso pode ser feito levando-se em consideração a paisagem como uma unidade de análise, narrando as histórias de variados entes que estão ali emaranhados (Tsing, 2015) – isso também tem como efeito retirar a centralidade humana. É tomando a paisagem como descentralizada e, ao mesmo instante, relacional que é sentida a necessidade de se fazer políticas institucionais com – making with, como indicaria Haraway (2016) – os interesses do Criador, dos pescadores, das tainhas e do Meio Ambiente, propiciando discussões e construções coletivas, tentaculares, criativas e responsabilizadas.

O processo imaginativo, instanciado junto com experiências em âmbitos locais, pode ser uma ação poderosa, para refletirmos sobre alguns conflitos de diversos entendimentos de mundos dispostos no Chthuluceno. O conceito proposto por Haraway (2016) não pretende fazer uma substituição do ‘Antropoceno’14, já que a autora não considera o Chthuluceno uma época geológica, mas uma forma alternativa de pensar mundos, proporcionando torções radicais nas imaginações antropocênicas. Essas torções têm como intuito desestabilizar as possibilidades de resposta e criação engessadas pelo Antropoceno15, ao promover narrativas catastróficas inevitáveis, como levantam Swanson et al. (2015). É como se partíssemos do pressuposto de que, diante dos problemas dos interesses dos barcos grandes no mercado e no capital, as tainhas e variados seres marinhos já estivessem condenados ao desaparecimento, sem haver esperanças e caminhos alternativos. Ou melhor, seria imaginar como se as aranhas mais vorazes (assim como os barcos grandes) atuassem na paisagem aracnídea de tal forma que afetassem prejudicialmente diversas outras aranhas com menores poderes de captura (como as canoas pontalistas) e, inevitavelmente, causassem a extinção de muitos insetos (as tainhas e outros seres marinhos). Um dos problemas das inevitabilidades é o seu efeito subjacente, que estimula a compra de pacotes de soluções aceleradas das urgências do Antropoceno, trazendo maiores equivocações nas construções de políticas institucionais locais.

O Chthuluceno persiste em não aceitar que o fim esteja próximo. As narrativas catastróficas de um fim próximo aos humanos e diversos outros entes fornecem certa impotência às mudanças e uma previsibilidade quanto à extinção, algo divergente dos fenômenos de ‘ressurgência’ nas ruínas do capitalismo, apontados por Tsing (2015); de resistência das paisagens aracnídeas no Pontal, após algum vento forte; ou, até mesmo, da resiliência das tainhas, que continuam a realizar as suas corridas anualmente, apesar da predação dos barcos grandes. Alguns pescadores do Pontal compreendem que as gerações futuras, se quiserem ‘viver da pesca’, demandarão de mais esforços; todavia, também sabem que, se resistirem e conseguirem frear as ações dos barcos grandes, conseguirão colher muitos frutos no mar, fazendo a anormalidade do ano de 2016 tornar-se uma normalidade novamente16. Os habitantes do Chthuluceno não estão aguardando o fim, mas requerem aprender a ser verdadeiramente presentes, não como um pivô em fuga entre passados horríveis e edênicos e futuros apocalípticos e salvíficos, mas buscando sempre critérios mortais entrelaçados na miríade de inacabadas configurações de lugares, tempos, problemas e significados (Haraway, 2016). Esta busca demanda desacelerações, ‘fazer-com’ em âmbito local e ficar com o problema (staying with the trouble). Assim, o compromisso com o problema é se preocupar e se envolver com cada linha e seus encontros em determinadas paisagens – mas nunca esquecendo que a própria intervenção do pesquisador nas práticas locais jamais é estéril.

O termo Chthuluceno traz também a aparente promessa de marcar uma mudança de paradigma (Kuhn, 1996), em que a distinção entre natureza e cultura se colapsa. Ainda é cedo para afirmar se essas promessas serão cumpridas, mas esse colapso de distinções ou fronteiras chama por uma nova forma de escrita, uma ‘escrita-ciborgue’ (Haraway, 2000). O Chthuluceno é uma atualização notável da problemática vigorosamente articulada no ‘Manifesto Ciborgue’, de Donna Haraway, que vê o humano e o não humano, a cultura e a natureza como inextricavelmente entrelaçados, e adverte que as consequências das tentativas de dominar humanos e a natureza não humana podem ser, ao mesmo tempo, devastadoramente bem-sucedidas e produtivamente perversas. O Chthuluceno e o mito do ciborgue caminham juntos, contestando dualismos e, em contrapartida, buscam os ruídos e as poluições.

A prioridade nos não dualismos, nas desacelerações, relações, imaginações e perspectivas localizadas encaminha-nos à proposição ‘cosmopolítica’ de Stengers (2018). A intrincada malha de relações marinha pontalista, como veremos, pode ser entendida também como uma complexa malha cosmopolítica. Para Stengers (2018), a proposta não se trata de um roteiro, um método, mas não é supérfluo frisar que tudo aquilo que, de maneira muito proeminente, lhe faz empecilho, ligando-a à uma ideia irrealista, é igualmente o que impede a colocação em política, no sentido clássico, de nossos problemas. Cosmopolítica vem com a inquietude de desacelerar a construção de mundos comuns, criando espaços de hesitação nos fazeres políticos e científicos. O ‘cosmos’, assim como ele aparenta neste conceito, caracteriza o desconhecido que compõe os mundos diversos – assim como o mundo dos habitantes do Pontal, feito e operado pelo Criador, e o mundo entendido pelo Meio Ambiente –, e as possibilidades de vínculos das quais eles conseguiriam se tornar habilitados.

A proposição cosmopolítica tenta restituir àqueles envolvidos em uma controvérsia o direito de decidir por eles próprios, libertos dos pesos limitadores de normas, que os vetam de estabelecer o que é melhor para eles. Assim, o papel de ‘diplomata’, como sugere Stengers (2018, p. 461), é um caminho a ser tomado quando se imagina e analisa a eficácia de políticas institucionais, focando em “suspender a anestesia produzida pela referência ao progresso” e aos interesses de alguns, e dando vozes àqueles que se definem como ameaçados. Enfim, se com a proposição cosmopolítica, imaginar novas políticas institucionais e mundos possíveis demanda pensar em temporalidades (acelerações e hesitações), considero que seja um bom exercício também compreender as forças capitalistas dispostas nas narrativas locais – que tentam aumentar a velocidade das práticas pesqueiras – e seus jargões – como será exposto na parte final deste artigo, através dos termos ‘recursos pesqueiros e naturais’.

AS ‘CORRIDAS’ DO SUL PARA O NORTE

Diariamente, Aires, um pouco antes do nascer do sol, senta-se na praia para observar o estado do mar. Depois de algumas semanas com um ‘mau tempo’, batendo ventos oriundos do Sul, as condições do tempo começaram a melhorar. Apesar da baixa temperatura, estávamos com os corpos quentes, devido ao café que Maria (irmã de Aires) tinha preparado para nós. Mesmo assim, era visível que Aires ainda estava sentindo um certo desconforto do frio, mas algo o segurava lá. Ele estava procurando os primeiros signos de que as tainhas estavam chegando na região. “Elas vêm . . . Elas vêm por causa do ‘mar grosso’, do mau tempo. O vento sul puxa elas”. Após a sua fala, o silêncio paira no ar e ficamos observando e escutando o mar. Alguns minutos depois, Aires, com a sua calma, me fala: “Pulou uma [tainha] ali. Você viu? Chegaram!”17

Nadando pelos mares da costa brasileira, as tainhas despertam o fascínio de muitos pescadores do Pontal. Muito se deve por conta das suas longas corridas para se ‘produzirem’ (ou ‘reproduzirem’), entre o final do outono e o começo do inverno, quando as águas já estão mais frias. Partem da região da Laguna dos Patos (Rio Grande do Sul), fazendo suas corridas por caminhos repletos de adversidades e particularidades. Sob a concepção pontalista, tentarei descrever algumas alianças e perigos a que as tainhas se submetem para chegar na ilha do Cardoso e na grande região estuarino-lagunar do entorno.

Inicialmente, para entendermos como as tainhas conseguem se deslocar por demasiadas distâncias ao longo da costa sul e sudeste do país, necessitamos abordar um pouco sobre a ecologia eólico-hídrica abrangente no Pontal do Leste18. Os ventos no Pontal são separados por ‘tipos’, sendo que a categorização de cada um é feita de acordo com os seus efeitos e/ou sua origem. Por exemplo, há ventos oriundos de leste e nordeste – denominados de ‘vento leste’ e ‘vento nordeste’ –, que ‘batem’ (ou incidem) na vila mais no verão, sendo bons para a pesca, por atraírem os peixes para locais mais próximos da praia. O vento vindo de noroeste, denominado de ‘vento noroeste’, também é chamado de ‘vento da preguiça’, já que, além de ser um indicativo de que as condições do tempo mudarão futuramente – impedindo a pesca no mar –, e de causar mudanças etológicas em animais não humanos, esse vento pode trazer problemas fisiológicos – dores de cabeça, pressão alta, fadiga e moleza excessiva – nos habitantes humanos do Pontal. Com isso, perceber cada tipo de vento é de extrema importância para o planejamento das atividades cotidianas da vila – creio que para as aranhas na restinga também, pois, de acordo com a intensidade eólica, suas caçadas são comprometidas.

Tratando-se das práticas pesqueiras, subentende-se que os ventos não se limitam a modular as ações de humanos e não humanos apenas em ambientes terrestres. A relação entre a intensidade dos ventos e da agitação do mar é diretamente proporcional. Quanto mais intenso é o vento, mais agitado é o mar. Quando a água fica extremamente agitada, por conta de um ‘mau tempo’ (condição de tempo ruim para as práticas pesqueiras e atividades na vila), o mar é qualificado como ‘grosso’. O mau tempo e o mar grosso são sinônimos de ‘ventos sul’, ventos fortes, frios e tempestades. Começando a impor a sua dominância em ares pontalistas já no meio do outono, os ventos sul vão aumentando a sua frequência, à medida que o inverno chega. É através dessa potência eólica que as tainhas se relacionam em suas corridas. Segundo o pescador pontalista Valdecir (comunicação pessoal, 2015):

[O mar] ‘agita’, mas é bom para a tainha. O único peixe que o ‘vento sul puxa’ mais é a tainha. A tainha se não der vento sul e mar ‘agitado’ . . . Ah! Para aqui não ‘chega’. O mar tem que estar bem agitado. É! Tem que levar uma semana, duas semanas com mar ‘agitado’, para ela vir. É um peixe que o mar ‘amansou’, pronto, já se ‘encarduma’. Se agora ela está aqui e o mar ‘amansou’, ela leva uma semana, duas semanas ‘manteada’ aqui, o cardume dela. Então ela só vai para outra parte quando o mar ‘agita’ muito.

Caminharemos aos poucos entendendo a narrativa de Valdecir, assim como aos poucos as tainhas realizam as suas empreitadas em direção ao norte. Nota-se, nas palavras do pescador, que há dois regimentos participantes – correspondentes a duas ações – no processo de deslocamento da tainha: ‘correr’ e ‘levar manteada’ (ou ‘ficar mantida’). O primeiro está relacionado com o mar grosso, isto é, com os efeitos dos ventos oriundos do Sul. O segundo está, em contrapartida, relacionado com o ‘mar manso’ (mar menos agitado). Com isso, a mudança de regimentos é cíclica, de acordo com o vento sul. Na ecologia eólico-hídrica descrita pelos habitantes do Pontal, tainhas se aliam ao vento sul e o mar grosso para correr, sendo que essa aliança ocorre pelo fato de os indivíduos não possuírem forças próprias para se deslocar em direção ao norte. Portanto, ao mesmo instante em que elas se utilizam das suas energias para nadar, são ‘puxadas’ pelo vento e a agitação extrema do mar em direção ao norte.

Quando o mar amansa, algumas tainhas ficam mantidas em determinados locais da costa, até bater um novo vento sul para continuarem a ‘correr’. Outras acabam adentrando em algum estuário para ‘se produzirem’ (se reproduzirem)19. Nesses momentos em que o estado do mar está mais calmo, a visibilidade d’água fica maior, fazendo com que as tainhas mantidas na costa, com intenção de continuar a corrida ao norte, se encardumem, para se proteger de alguns predadores não humanos (peixes)20. Segundo Sadowski e Almeida Dias (1986), o começo do processo migratório seria proporcionado por variáveis meteoro-hidrológicas específicas nos avanços das frentes frias21: ventos intensos, abrupta queda de temperatura, precipitações pluviométricas e marés altas. O processo migratório seria descontínuo e interrompido conforme as condições do tempo, com breves paradas em águas estuarinas e costeiras. Todavia, eles não levantam os ciclos de deslocamento das tainhas, como os próprios pescadores do Pontal tão bem descrevem22.

Ao mesmo instante em que “o [vento] sul é bom no inverno, por causa da tainha” – como afirma Antônio Sérgio (comunicação pessoal, 2015), pescador pontalista –, ele decreta as ‘férias dos pescadores’, já que ficam impossibilitados de pegar as suas embarcações para pescar no mar. Com isso, o vento sul possui uma capacidade de afastamento, mas também dispõe de um poder de atração. Embora afaste os pescadores pontalistas no inverno, deixando-os preocupados sobre quando as suas férias terminarão, ao mesmo tempo atraem as tainhas para a região do Pontal. Dessa maneira, quando há um desejo dos pescadores para que um mau tempo venha a puxar as tainhas para as proximidades da vila, a preferência é de que este mesmo mau tempo não perdure por semanas. O vento sul é um marca-passo para que as tainhas se desloquem e pescadores consigam sair para o mar, e, por conseguinte, para o encontro entre esses humanos e animais não humanos. Quando as condições do tempo melhoram, é o momento em que canoas pontalistas e os barcos grandes saem, com o intuito de transformarem tainha em pescado.

NO MUNDO FEITO PELO CRIADOR: ‘RESPEITO’ E ‘DESRESPEITO’

Sempre ‘respeitando’ esse mundão. É como se você fosse mandar um mundão de água ali [Região Metropolitana de São Paulo] e faltar água aqui. Os peixes morrem tudo, porque a água fica muito salgada e os pescadores não tiram o sustento deles, né? O ganho, né? Esse pessoal acha que está mandando na natureza, mas o Criador fez as coisas com perfeição. Tem hora que esse ‘desrespeito’, essa ‘destruição’ volta tudo para eles.

(Sinísio, comunicação pessoal, 2016)23.

Conversando um dia sobre algumas notícias de que o governo do estado de São Paulo estava estudando a possibilidade de extrair água do vale do Ribeira, para abastecer a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), desdobrou-se uma conversa de âmbitos maiores, a qual possibilitou compreender alguns pressupostos básicos sobre o que os habitantes entendem pela categoria ‘natureza’. ‘Respeitar’ e ‘desrespeitar’, como descreve Sinísio, não remete apenas aos atores (humanos e não humanos), que participam de diversas atividades pesqueiras e cotidianas na vila, mas ao próprio fundador da natureza em que todos estão habitando. Associados aos ensinamentos do Criador, o mesmo torna-se um grande operador na vila, modulando as ações dos habitantes. ‘Respeitar’ a ‘natureza’ é respeitar o mundo feito pelo próprio Criador através dos seus ensinamentos, convivendo com as linhas da vida tecidas por diversos indivíduos. Isto é, há uma concepção relacional da natureza em que o humano é afetado, mas ao mesmo tempo afeta outros seres.

Quando o Criador fez as coisas, ele não fez mal feito. Ele fez tudo certinho, cara. Isso daqui [apontando para um pé de guapê (Syzygium cumini)] é o que faz a gente aguentar ali [apontando para o sol]. É um ajudando o outro para sobreviver, cara.

(Feliciano, comunicação pessoal, 2016)24.

Para entendermos as ações ‘desrespeitosas’, permitam-me apresentar uma conexão entre as narrativas de Feliciano e Sinísio. Feliciano demonstra a importância e a dependência dos habitantes sobre as árvores (no caso, pés de guapês25) para aguentar o sol escaldante do meio-dia. Sem as árvores para descansar, as atividades na vila teriam de ser planejadas de outra forma. Sínisio tenta descrever que a extração de água de um rio para uma localidade longínqua desrespeita toda uma malha de relações em que muitos humanos e não humanos são codependentes. Nas relações ecológicas entre pontalistas e não humanos, existem, é claro, predações, contudo, Sinísio e Feliciano querem demonstrar que, acima de tudo, no mundo feito pelo Criador, respeitar a malha de codependência é extremamente importante para a sobrevivência de cada indivíduo – há algumas similaridades com o entendimento de colaborações de Tsing (2015). Se o Criador ensina a respeitar a natureza feita por ele, o respeito se dá também por não predar em demasia. Sinísio deixa claro isso, ao tentar demonstrar as simetrias entre as criações (humanas e não humanas) do Criador e como, de alguma forma, as ações desrespeitosas retornariam para aqueles que as realizaram. O respeito ensinado pelo Criador parece insinuar a presença de algo como um acordo simbiótico, na formulação de Stengers (2010), uma aliança entre seres para além dos humanos – entendimento também constatado por Garcia (2018) junto aos Guajá, no Maranhão.

Se tainhas tecem as suas próprias linhas de movimento junto com os ventos sul para a emergência de novas vidas nos estuários, é detectando de maneira tentacular alguns desses caminhos que pescadores pontalistas conseguem os seus ‘ganhos’. Como estes caminhos são traçados de acordo com os ritmos de movimento e o crescimento de cada indivíduo, a própria ação de capturar peixes deve estar de acordo com as temporalidades de diversos processos, para que a natureza feita pelo Criador consiga ‘repor’ (‘se recuperar’). Portanto, ‘tirar o sustento’ da natureza, transformando peixes em pescados, deve respeitar um limiar para que os processos ecológicos se desdobrem e a própria natureza consiga se recuperar. Caso contrário, se as ações de conseguir seus ganhos forem demasiadas, além de “não estar dando tempo para a natureza repor” – como me disse Juarez (comunicação pessoal, 2015) –, atingirão significativamente as malhas de relações, fazendo com que, a cada ano, o esforço de captura de tainhas aumente gradativamente. Por consequência, conviver respeitosamente é estar na natureza de forma horizontal entre outros seres. Descreveu-me Juarez (comunicação pessoal, 2016):

Você não vê as aranhas? As aranhas caçam os insetos, mas precisam respeitar eles. Assim como a gente que pesca peixe no mar . . . Da mesma forma. Tem que respeitar o tempo deles de se produzir, né? Tudo que a gente faz na natureza, tem que respeitar e esperar um tempo para ela repor.

Com essa descrição que faço, não quero conceber certo tipo de passividade generalizante dos pontalistas aos ensinamentos do Criador. Até mesmo porque em campo já foram constatados alguns atos considerados desrespeitosos sendo realizados pelos próprios habitantes. Os efeitos desses atos são extremamente importantes não apenas nas relações, obviamente, com o próprio Criador, os animais não humanos e plantas, mas também nos próprios relacionamentos com os outros pontalistas. Apesar disso, alguns desses desrespeitos ainda são remediados. Uma das vezes em que participei de uma pescaria com Laerte, o pescador percebeu que havia capturado muito parati (Mugil curema)26 com a sua rede. Carregando o seu balaio pelos caminhos da vila, ele foi parando de moradia em moradia, distribuindo paratis para os habitantes. Cuidadosamente, os habitantes da vila selecionavam alguns pescados e agradeciam ao pescador: “Não precisa matar demais, para depois deixar o pescado ficar ‘passado’ [estragado] por aí” (comunicação pessoal, 2015), respondeu-me Laerte, quando o indaguei sobre pescadores que capturam peixes em demasia.

Se formos analisar a ação, complemento ainda que exista uma diferença de valores, mas que se desdobram em três fases. A ação não apenas remedia o desrespeito (efeito negativo), mas reforça as relações de amizade entre ‘camaradas’ de pesca e laços familiares (efeito positivo), apesar da ciência dos beneficiados sobre a problemática desencadeada pelo pescador (efeito negativo).

Ainda seguindo as preocupações dos habitantes sobre a possibilidade de o governo do estado de São Paulo autorizar a extração de água do vale do Ribeira – que agora poderíamos julgar como um plano estatal desrespeitoso, sob os ensinamentos do Criador27 –, para Feliciano, a salinidade da água nos estuários da região aumentaria, fazendo com que milhares de peixes ‘filhotes’ (alevinos) e adultos morressem com tal estresse. É aí que pensamos nas tainhas e em outros peixes que necessitam dos próprios estuários, após as suas corridas, para se reproduzir e cuidar dos alevinos e, por consequência, das próximas gerações de indivíduos. A extração de água da região ocasionaria – assim como a pesca desenfreada já está ocasionando – destruições intergeracionais e atingiria diversos ciclos de vida intraespecífica e interespecífica, já que variados indivíduos dependem dos ciclos de outros indivíduos. Ou seja, o desrespeito é tamanho que chega ao nível de ‘destruição’. Ser altamente desrespeitoso, para os pontalistas, é ser ‘destrutivo’.

É destruindo milhares de vidas, que os efeitos retornam ao destruidor. É destruindo as paisagens – sejam marinhas, aracnídeas, estuarinas – que as respostas chegam a quem destruiu. Contudo, como os interesses dos barcos grandes começam a entrar em conflito com a natureza feita pelo Criador e na qual os pontalistas estão realizando as suas atividades diariamente? Chegou a hora de adentrarmos no que se refere à ‘ganância’ narrada pelos habitantes locais.

A ‘GANÂNCIA’ E AS TRAINEIRAS

É muita ‘ganância’, é muita ‘destruição’. Essa rapaziada quer tirar o sustento com esses barcos grandes e essas redes. Não dá certo. O peixe está acabando . . . A pesca está fracassando, sabe? Esses barcos [grandes] que pegam tainha . . . Como é que esses peixes vão se produzir para o ano que vem? Querem ganhar muito dinheiro destruindo a natureza.

(Laerte, comunicação pessoal, 2015).

Como já supracitado, as traineiras, assim como as canoas da vila, só saem para o mar quando as tainhas ficam mantidas em alguma localidade. Todavia, barcos grandes conseguem ficar um período muito maior pescando no mar, se comparados com as canoas da vila. Como me descreveu Juarez, em uma ocasião na qual estávamos observando Aires remendar uma rede para capturar robalão (Centropomus ssp.), “[As traineiras] É dia e noite saindo para o mar” (comunicação pessoal, 2015). As traineiras, pelo fato de possuírem redes com maiores extensões e uma ‘aparelhagem’ (maquinário) para puxá-las do mar – como os guinchos hidráulicos –, desfrutam de menor esforço para transformar grandes quantidades de tainha em pescado e, por conseguinte, maior período pescando28. A competição entre as canoas da vila e as ações desses barcos grandes torna-se, por isso, ‘desleal’, pois as embarcações pontalistas, devido aos seus menores tamanhos, conseguem suportar apenas um ou dois ‘camaradas’ (tripulantes), além do ‘dono da canoa’, trabalhando de oito a nove horas por dia, até que a exaustão consuma seus corpos, por puxarem a rede diversas vezes de dentro do mar. Para muitos habitantes da vila, a captura de tainha realizada pelas traineiras é tamanha que é necessária a realização de diversas viagens para descarregar os pescados – e, assim, serem vendidos em várias localidades e nas peixarias das cidades grandes.

Dessa maneira, à medida que as tainhas vão intercalando as suas corridas com os momentos de ficarem mantidas, apesar de algumas conseguirem desviar das redes das traineiras vorazes, resistindo e adentrando nos estuários para se reproduzirem, uma grande quantidade delas vai se transformando em pescado, fazendo com que poucas cheguem em região pontalista29. Segundo Aires (comunicação pessoal, 2015), pescador pontalista:

Então, quando o mar amansa para cá para nós, não tem pesca da tainha, não. Ah! Uma semana de mar manso ali eles [os barcos grandes] já acabam com tudo, rapaz. É o dia inteiro, é dia e noite atrás da tainha. É cardume pra cem tonelada, oitenta tonelada, noventa . . . Só teve nesse ano [2016], porque eles proibiram as traineiras no Sul.

De acordo com a Instrução Normativa IBAMA n. 171, de 9 de maio de 2008, a frota de traineiras para cada safra da tainha deve ser, ainda, restrita em 60 traineiras com licenças, para as regiões Sul e Sudeste, sendo que a maioria desses barcos grandes é de Santa Catarina. Entretanto, após o ano de 2008, segundo o “Plano de Gestão para o Uso Sustentável da Tainha, Mugil liza Valenciennes, 1836” (Ministério da Pesca e Aquicultura, Ministério do Meio Ambiente, 2018), novas normativas foram oficializadas, caindo principalmente sobre as regras de limitação do esforço máximo de traineiras, o que impossibilitou a aplicação da Instrução Normativa (IN). Em 2009, por exemplo, foram 115 traineiras liberadas. Já em 2010 e 2011, 82 traineiras puderam sair para o mar em cada ano. No término de 2011, porém, a Sentença Judicial da Ação Civil Pública n. 5001964 - 45.2011.404.7101/RS, movida pelo Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul (MPF/RS), ordenou o acatamento dos critérios da IN IBAMA n. 171. Por consequência, em 2012 e 2013, “a limitação do esforço de pesca industrial, em termos de número de barcos, passou a ser respeitada de fato” (Ministério da Pesca e Aquicultura, Ministério do Meio Ambiente, 2018, p. 153) – sendo restrita às 60 embarcações, a priori, definidas pela IN. No ano de 2013, havia 43 embarcações de Santa Catarina navegando e capturando tainhas, enquanto do Rio de Janeiro eram 11; de São Paulo, cinco; e do Rio Grande do Sul, apenas uma (Ministério da Pesca e Aquicultura, Ministério do Meio Ambiente, 2015). Em 2018 e 2019, os números de embarcações e as cotas totais de captura foram diminuindo. O ano de 2018 teve 50 embarcações com permissão para captura de uma cota total de 2.221 toneladas, a ser dividida igualitariamente entre as traineiras. Para 2019, o atual Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento autorizou apenas 32 embarcações, sendo que as traineiras com permissão foram limitadas a uma cota total de captura de 1.592 toneladas (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, 2019)30.

É através das predações de toneladas de tainhas, realizadas por esses barcos grandes anualmente, que as destruições vão sendo propiciadas, tainhas essas ‘gananciosamente’ transformadas em pescados, pelo fato de as traineiras serem máquinas de produção de pescado em larga escala. Diferentemente dos pescadores pontalistas, com foco em alguns cardumes de tainha que pulam, as traineiras buscam muitos cardumes. O seu poderio de captura é grande demais para alguns cardumes, mas pouco para tudo o que almejam comercializar. Nas palavras de Laerte (comunicação pessoal, 2015), “a ganância é tanta, que às vezes mesmo em lugar proibido [pelo Meio Ambiente], elas [traineiras] vão lá de noite, porque não tem fiscalização”. Sob os entendimentos dos habitantes da vila, nota-se que, quanto mais os pescadores distanciam-se do operador Criador, mais avançam aos interesses regidos por temporalidades aceleradas do mercado e aos grandes lucros proporcionados pelo capital. É através das divergências dos ritmos de diversos processos da natureza feita pelo Criador com as temporalidades do mercado e do capital que as controvérsias vão sendo armadas.

O mercado e o capital não apenas aguçam a ganância das traineiras, mas modificam os próprios entendimentos dos pescadores dessas embarcações sobre as tainhas, fazendo-os caírem no esquecimento sobre a importância desses peixes e de suas corridas para outros humanos e variados não humanos. Essa mudança de concepção sobre as tainhas, segundo alguns pontalistas, acaba trazendo reflexos nas quantidades capturadas pelas traineiras. Os pescados acabam não recebendo um tratamento adequado, já que muitos desses barcos grandes estão mais preocupados com a quantidade de tainhas capturadas, deixando a qualidade de vida desses peixes para segundo plano. Em outras palavras, enquanto no Pontal toma-se de antemão a importância das linhas que as tainhas tecem ao longo das suas vidas, para os barcos grandes, antecedentemente ao momento de realizar as cercadas, os milhares de indivíduos retirados do mar já são considerados produtos e descartes. O exercício de horizontalização (simetria) pontalista é transformado em uma verticalização (assimetria) radical, operada por forças capitalistas, tendo as traineiras como uma das suas engrenagens.

Situando a discussão nessas simetrias e assimetrias, pode-se notar que há correspondências com outras expressões evidenciadas pelos habitantes da vila, como ‘mandar na natureza’ e ‘estar na natureza’. ‘Mandar na natureza’ está para verticalizações, assim como ‘estar na natureza’, para horizontalizações. Contudo, é entendido que o termo mandar na natureza trata-se somente de uma tentativa, já que “não tem como você ficar mandando de verdade na natureza” (Tereza, comunicação pessoal, 2016). Com isso, o termo, muitas vezes, é ainda precedido pelo verbo tentar – como ‘tentar mandar na natureza’ – ou pelo substantivo ‘tentativa’ – como ‘tentativa de mandar na natureza’. Sinísio (comunicação pessoal, 2016) utiliza a sentença “acha que está mandando na natureza” em sua narrativa, quando aborda sobre o possível plano do governo do estado de São Paulo referente à extração de água do vale do Ribeira, que poderia causar destruições nos estuários das regiões de Cananeia e da ilha do Cardoso. A expressão e o plano também podem ser bons exemplos de verticalizações.

Mesmo lidando com a morte de animais não humanos diariamente, entendo que a transformação assimétrica da concepção da tainha por muitos barcos grandes esteja ligada aos efeitos anestésicos das forças capitalistas. Ou seja, nas práticas pesqueiras, ao fazer algumas relações entre as verticalizações das ‘tentativas de mandar na natureza’ e a ‘ganância’, em um sentido pragmático, compreendo que sejam consequências dos ‘feitiços’ anestesiantes das forças capitalistas e do mercado (Pignarre & Stengers, 2005). Os interesses, então, do mercado e do capitalismo enfeitiçam muitas traineiras, ao ponto de elas tornarem-se audaciosas e pensarem que estão mandando na natureza, não respeitando as linhas tecidas por variados humanos e não humanos, aumentando cada vez mais as suas disparidades com os ensinamentos do Criador.

É interessante frisar, compartilhando, ainda, com as ideias de Pignarre e Stengers (2005) e Vanzolini (2018, p. 334), que a pretensão deste artigo não é definir o capitalismo em seu fundamento; contudo, como um etólogo, a intenção seria de “reconhecer a besta pelo que ela pode fazer”. O que configura o capitalismo é sua habilidade em capturar imaginações, sentenciando-as a aceitarem os sinais das alternativas infernais, determinados pelo capital, ou seja, “o conjunto de situações que não parecem deixar nenhuma escolha a não ser a resignação ou uma denúncia que soa um pouco vazia, marcada de impotência, porque não oferece nenhuma possibilidade de tomada de ação” (Pignarre & Stengers, 2005, p. 39).

Podemos citar alguns exemplos dessas alternativas no âmbito do Pontal, como: se for respeitar apenas a natureza feita pelo Criador, a demanda exigida pelo mercado não será estancada; contudo, se os ritmos de captura dos barcos grandes forem mantidos, não haverá mais tainhas para as gerações futuras de pescadores (não somente pontalistas) de pequena escala. Para Pignarre e Stengers (2005), as alternativas infernais atuam como uma condenação de morte da política, da viabilidade de agir coletivamente na confecção de um plano diferenciado do dominante. Portanto, definir o capitalismo como feitiçaria indica a necessidade de ativar ‘técnicas de desenfeitiçamento’, possibilitando a reabertura de novas maneiras de imaginar e viver em mundos comuns.

Certamente, não é minha pretensão passar uma ideia também de que os habitantes humanos do Pontal estejam imunes aos ritmos acelerados do capital, quando os mesmos se reconhecem ‘estando na natureza’; contudo, como já descrevi, há um limiar, sendo que este deve estar centrado, ao mesmo instante, em respeitar as temporalidades de recuperação da natureza e em conseguir alguns ganhos no mercado. Mesmo que haja esse interesse em acumular capital permeando nos espaços da vila – a expressão local, por exemplo, ‘ter um ganho’ já condiz com isso –, o Criador modula-o. Assim sendo, o Criador tenta limitar o feitiço capitalista, para que este último não atinja os pontalistas em toda sua plenitude. Todavia, seguir os ensinamentos do Criador não adianta muito, se grande parte dos barcos grandes, que são justamente as embarcações com maiores poderes de captura, estejam rendidos a este feitiço.

O fracasso local das práticas pesqueiras ao longo dos anos está fazendo com que alguns pontalistas procurem novas alternativas de trabalho. A construção de empreendimentos públicos, espalhados por diversas vilas da região, tornou alguns habitantes da vila assalariados, conseguindo ganhar, em média, de 600 a 700 reais. Outros passaram a realizar pequenos ‘raminhos’ (bicos) nos períodos festivos ou benfeitorias nas casas e terrenos de habitantes de vilas vizinhas. Existem alguns que frequentemente oferecem as suas moradias para serem locadas por turistas nas temporadas de carnaval e ano novo, por exemplo. Contudo, há aqueles também que acabam migrando para participar das práticas pesqueiras nos barcos grandes – como Andrei, filho de Laerte (pescador da vila), que foi visitar alguns parentes no Paraná e acabou ficando para trabalhar em um camarãozeiro31.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: COALIZÕES ENTRE O CRIADOR E O MEIO AMBIENTE

Temo que sua excitação pela mercadoria não tenha fim e eles [os brancos] acabem enredados nela até o caos. Já começaram a tempos a matar uns aos outros por dinheiro, em suas cidades, e a brigar por minérios ou petróleo que arrancam do chão.

(Kopenawa & Albert, 2015, p. 419).

Como apresentado neste artigo, as resistências daqueles que formam algumas das paisagens pontalistas podem ser feitas de diferentes formas. Aranhas a cada vez necessitam resistir aos ventos fortes, assim como as tainhas às predações em suas corridas. Todavia, a resistência de alguns a determinados atores pode ser o favorecimento de outros, já que os próprios ventos, que desfavorecem as aranhas e decretam as férias dos pescadores, puxam as tainhas rumo ao norte. As aranhas tecem suas linhas gerando novas conformações e conexões de teias, ressurgindo (Tsing, 2015) a toda vez uma nova paisagem complexa aracnídea, com novas histórias a serem traçadas e narradas junto com os insetos. Anualmente, pescadores pontalistas também produzem novas narrativas com as tainhas – algumas surpreendentes, como a de 2016. Assim como as tainhas desejam chegar às águas tranquilas dos estuários, para que possam se reproduzir e criar seus filhotes, os habitantes da vila, ansiosamente, a cada safra, esperam observar com mais abundância os belos e prateados pulos32 das tainhas no mar – mesmo que o habitual seja de quantidades menores.

No Pontal, as práticas pesqueiras podem ser tratadas como performances de predação e competição, que tem, em um sentido cosmológico, o Criador como um potente fiscalizador. Há fortes e eficazes tentáculos que aproximam diariamente tainhas (e diversos não humanos), pontalistas e o Criador. A eficácia fornece uma ideia de contínua negociação e resposta a determinadas relações. Isto é, para que algum processo seja considerado eficaz demanda comunicações, envolvimentos, análises e aberturas imaginativas, que tracem caminhos possíveis e/ou alternativos. Porém, analisar continuamente a eficácia de processos demanda desacelerações, algo bem contrastante com os interesses e as temporalidades capitalistas, que, sem contemplar diversos humanos e não humanos, abruptamente transformam a eficácia em eficiência – esta última ligada à otimização do tempo e do espaço. Assim, desacelerar as construções de políticas institucionais pesqueiras e ambientais, além de atrair as reflexões, os debates, os questionamentos –, possibilitando ficar com o problema (staying with the trouble) que gira no entorno, por exemplo, do poderio de captura das traineiras em relação às tainhas –, corrobora as produções de eficácias. Não devo deixar de acrescentar que essas diminuições da velocidade para as tomadas de decisões também podem fornecer aprendizados sobre como nos relacionar com as tainhas como parte do nosso socius, propiciando mediar as controvérsias entre o Criador e as forças capitalistas.

Permanecer com o problema no Chthuluceno, ansiando pelo ressurgimento de safras mais produtivas para as canoas da vila, requer herdar histórias difíceis não apenas para os pontalistas, mas também para as tainhas, que a cada corrida lidam com o capitalismo. Como Vanzolini (2018, p. 334) coloca, a resistência ao capitalismo é o reconhecimento de que

. . . não há questão econômica, científica, ou de outra ordem que possa ser colocada fora da política, fora de debate; que nenhuma razão pode justificar uma decisão sem que se dê ouvidos às questões colocadas por cada um daqueles que serão afetados por ela.

O desenfeitiçamento proposto por Pignarre e Stengers (2005) envolve uma nova relação com a verdade, sendo necessário complicar cada questão, e não a generalizar ou a simplificar. É aqui que os habitantes do Chthuluceno teimam em imaginar caminhos alternativos para ‘resistir à barbárie que vem’ – como indica o título do livro de Stengers (2015) –, caso as tainhas e suas corridas desapareçam e os ensinamentos do Criador continuem a ser desrespeitados.

Se é preciso frear33 as predações de algumas traineiras, que chegam aos níveis de destruição, uma das saídas são as ‘coalizões’ (Haraway, 2000, p. 48). Apesar das significativas disparidades ontológicas entre o Criador e o Meio Ambiente – este último se debruçando principalmente nos conhecimentos científicos, tendo como um dos seus instrumentos o Plano de Manejo34 em Unidades de Conservação –, há uma preocupação comum entre os dois com as gerações futuras de humanos, animais não humanos e plantas. O Criador preza pelo ‘respeito’ aos ritmos de reprodução e de desenvolvimento de animais não humanos e plantas; o Meio Ambiente tenta assegurar a ‘conservação’ dos recursos naturais e pesqueiros de uma área. Todavia, aquilo que é entendido como natureza pelo Meio Ambiente, sendo tratado como recurso natural e pesqueiro, traz uma assimetria não desejada pelos ensinamentos do Criador (e aqueles que os seguem). Tratar a natureza como recurso, no fundo, nada mais é do que realizar o exercício de verticalização executado por alguns barcos grandes, enfeitiçados pelas forças capitalistas. Portanto, é necessário que as coalizões entre os pontalistas e o Meio Ambiente não sigam caminhos essencialistas e mercantilizados, desconstruindo o próprio jargão capitalista de ‘recurso’ – sendo este ligado a um certo tipo de exclusividade humana sobre uma área protegida.

A Figura 2 mostra alguns dos agentes atuantes nas práticas pesqueiras pontalistas e uma breve sistematização da transformação da perspectiva simétrica entre tainhas (enquanto sujeito de codependência) e canoas pontalistas, para a assimetria entre tainhas (enquanto recursos) e traineiras. Ou seja, apesar de os tipos de ventos e o estado do mar estarem a todo instante se relacionando com as tainhas, traineiras e canoas pontalistas, enquanto que nas práticas pesqueiras aproximadas aos ensinamentos do Criador nota-se a horizontalização, na anestesia aplicada pelo capital observa-se a verticalização. Estou ciente de que o ato de diagramar possa impossibilitar expor todos os agentes atuantes nas práticas pesqueiras, que envolvem as competições entre barcos grandes e canoas pontalistas – além de, é claro, poder transparecer certo ar estabilizante para as relações, o que não é a minha pretensão –; contudo, considero que diagramas e gráficos têm o seu poder didático de possibilitar a abertura de entendimentos de leitores de outras áreas para além da antropologia, propiciando a abertura para novas visões e críticas.

Figura 2 Sistematização das práticas pesqueiras e suas controvérsias. O diagrama foi subdividido em quatro planos interacionais: ‘ensinamentosdo Criador’, ‘ganância e anestesia do capital’, ‘operadores’ e ‘recorte de alguns agentes atuantes nas práticas pesqueiras’. 

O Plano de Manejo tem como um dos seus intuitos fortalecer a participação das populações locais nas construções de políticas públicas institucionais ambientais e/ou pesqueiras. Todavia, como os pontalistas realizam as suas práticas pesqueiras e domésticas em duas áreas consideradas de conservação pelo Meio Ambiente, eles estão envolvidos nas discussões e regulamentações de dois Planos de Manejo – um para a Área de Proteção Ambiental Marinha (APAM) do Litoral Sul (área da qual as suas embarcações navegam) e outro para o Parque Estadual da Ilha do Cardoso (PEIC) (área onde estão as suas moradias e realizam suas práticas domésticas). O Plano de Manejo da APAM do Litoral Sul está em processo de elaboração, com oficinas de zoneamento realizadas em conjunto com os pescadores de diversas localidades, discutindo as subdivisões da Unidade de Conservação e postulando regras para cada área (Fundação Florestal, 2018). Quanto ao Plano de Manejo do PEIC, este já tem a sua existência aprovada, mas a cada cinco anos deve ser revisado35. A elaboração e a revisão dos Planos de Manejo são alguns dos momentos em que os compostos imaginativos de pontalistas e do Meio Ambiente devem ser aflorados, levando os conhecimentos de cada parte em toda a sua potência, sem cair em relativismos e/ou dominações de uma perspectiva sobre outra. Esses afloramentos imaginativos, levados em consideração simetricamente, são vívidos processos, que, ao entrarem em acordos, com efeito, podem produzir eficazes escritas-ciborgues no momento de redigir os Planos de Manejo.

Enfim, como havia deixado claro, este artigo trata-se de uma reflexão e não tem como pressuposto propor soluções de uma vez por todas às controvérsias aqui evocadas. Até mesmo porque os problemas com os barcos grandes e as diminuições das quantidades de tainhas não obedecem aos limites estaduais. Porém, começar por uma diplomacia entre o Meio Ambiente e os ensinamentos do Criador pode ser um pontapé inicial para frear as atuações de alguns barcos de pesca industrial. Se, entre as infinitas possibilidades de relações com as práticas pesqueiras pontalistas, as aranhas foram alguns dos atores que os meus tentáculos buscaram para desenvolver reflexões e propor alianças nas construções de políticas institucionais locais, porque, então, o Criador e o Meio Ambiente, através de uma produtiva coalizão entre eles, não poderiam, posteriormente, buscar novos aliados diversos? Afinal, relembrando mais uma vez Tsing (2015), as colaborações ocorrem através das diferenças.

1Texto extraído do caderno de campo, em estudo realizado em vila do Pontal do Leste, em julho de 2016.

2Termos locais e denominações teóricas da antropologia serão dispostos em aspas simples, para uma maior facilidade no entendimento do leitor. Os nomes científicos de indivíduos e expressões em língua estrangeira serão destacados em itálico.

3As canoas da vila, também denominadas de ‘canoas de fibra’, por serem de fibra de vidro, possuem variações de comprimento de uma embarcação para outra, podendo medir de 8 a 10 metros. Quanto maior, mais estável é a embarcação, maior o espaço para que os pescadores possam trabalhar, conseguindo armazenar mais pescados – normalmente entre 500 e 600 quilos de capacidade.

4As análises de campo foram realizadas em quatro etapas: do início de fevereiro ao final de março e em julho de 2015, do meio de abril ao final de maio, e do meio de junho ao final da segunda quinzena de julho de 2016.

5A ‘cercada’ corresponde à prática de cercar um cardume de peixes com rede. Em relação às tainhas, muitos pescadores da vila utilizam redes que cercam os cardumes e são puxados em direção à praia. Esta prática é realizada normalmente por, no mínimo, dois pescadores, já que os movimentos da água do mar potencializam o peso da rede, ao puxá-la em direção à praia. A quantidade de indivíduos capturados é dividida igualmente entre os pescadores.

6Os tamanhos das traineiras são muitos diversos. No ano de 2019, por exemplo, analisando as embarcações que solicitaram permissão para participar da safra da tainha junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Portaria n. 2.288, de 17 de maio de 2019), nota-se que os comprimentos variam de 15 a 31 metros.

7Disponho aqui a denominação ‘Meio Ambiente’ em caixa alta, como designação própria, por aparecer na vila como um indicativo englobante, representando a composição de órgãos ambientais administradores de variadas Unidades de Conservação, que convivem na região da vila. Isto é, o Meio Ambiente é uma organização composta e complexa, em que somente algumas divisões são compreendidas pelos pontalistas, como o ‘Parque’ – os gestores das Unidades de Conservação (Parques Estaduais e Federais e Áreas de Preservação Ambiental); a ‘Polícia’ ou a ‘Fiscalização’, abrangendo a polícia ambiental; o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e o ‘Ministério’ (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA e do Ministério do Meio Ambiente - MMA). Acredito que essa caracterização englobante de ‘Meio Ambiente’ se deva bastante ao não interesse por parte dos pontalistas quanto à composição e aos compromissos dos órgãos ambientais, não levando em consideração se o Estado se fragmenta em diversos segmentos.

8Utilizo a concepção de linha de Ingold (2011). Segundo o autor, cada ser é instanciado no mundo como uma linha de movimento ao longo de um modo de vida. As vidas humanas e não humanas não seriam entidades fechadas para o mundo, mas sim abertas, como uma linha de devir. Os organismos e as coisas são o que constituem a vida, habitando um mundo também aberto e em constante construção, como feixes abertos de linhas; um entrelaçamento de linhas da vida perpassado por um fluxo de materiais em um espaço fluído.

9Texto extraído do caderno de campo, em estudo realizado em vila do Pontal do Leste, em julho de 2015.

10Segundo Haraway (2016), os habitantes do que ela denomina como ‘Chthuluceno’ são seres tentaculares, como a Medusa, as aranhas e as águas-vivas, bem como jogos de barbantes. Chthuluceno vem da composição de Chthulu, referindo-se tanto ao termo grego khthôn, que significa terra, ou da terra, quanto à espécie de aranha Pimoa cthulhu, que é uma forma viva de jogo de barbante, e o primeiro representante do que a autora chama de ‘pensamento tentacular’. Ceno retoma o grego Kainos, e faz uma marcação temporal para o agora, que não é o mesmo de uma época geológica (Chiodi, 2017). Assim como uma malha, os seres tentaculares estão sempre se engajando, se movendo, se transformando e criando relações, tendo como sua principal vantagem as suas limitações. Os tentáculos, assim como as teias das aranhas, prendem-se em um número limitado de coisas, resultando em contínuas e múltiplas conexões parciais. Com isso, não há relações desenvolvidas pelos tentáculos que sejam completas ou eternas por si só, já que seres tentaculares estão sempre situados. Os tentaculares fazem anexos e destacamentos; eles cortam e fazem nós; eles fazem a diferença; eles tecem caminhos e consequências, mas não determinismos; estão abertos e atados em alguns aspectos, e não em outros. Melhor dizendo, Haraway (2016, p. 192, nota 28) propõe, diante do Chthuluceno, que pensemos os seres aceitando a miríade de temporalidades, espacialidades e “. . . entidades em arranjos intra-ativos, incluindo mais-que-humanos, outros-que-não-humanos, desumanos e humano-como-húmus (human-as-humus)”.

11Entendo que há relações entre Haraway (2016) e a concepção de linhas de Ingold (2011, p. 4). Principalmente quando a autora, com a sua ideia de pensamento tentacular (Haraway, 2016, p. 32), argumenta que a própria “. . . tentacularity is about life lived along lines”.

12Sigo aqui a definição de Tsing (2015), dizendo que colaboração é trabalhar através das diferenças, ainda que essas não sejam a diversidade inocente de caminhos evolutivos autônomos. A autora afirma que “The evolution of our ‘selves’ is already polluted by histories of encounter; we are mixed up with others before we even begin any new collaboration” (Tsing, 2015, p. 29). Dessa forma, por conta das misturas estarem ocorrendo a todo instante, devo acrescentar que a não inocência pode produzir relações que sejam também prejudiciais para diversos indivíduos. Sabe-se muito bem que tanto os cardumes de tainha correndo para o norte quanto o próprio coletivo de aranhas da Figura 1 necessitam lidar constantemente com relações intra e multiespecíficas, algumas trazendo benefícios e outras, malefícios.

13Apesar do entomólogo Wise (2006, p. 446) afirmar que o “Social behavior in spiders is rare”, alguns autores (Avilés, 1997; Buskirk, 1981; Uetz & Hieber, 1997) entendem esses esporádicos momentos como variados, sendo desde agregações facultativas de teias – mas mantidas individualmente – a grupos nos quais adultos compartilham teias e cooperam no cuidado de crias – variando de grupos de indivíduos geneticamente não relacionados a espécies com colônias altamente endogâmicas. Contudo, ainda que algumas aranhas aceitem indivíduos de outros grupos (D’Andrea, 1987), o canibalismo pode ocorrer quando esses indivíduos entram na colônia.

14Termo discutido pelo químico Paul Crutzen (Crutzen, 2002), o Antropoceno é a proposição de uma época em que as atividades humanas se tornaram tão significativas a ponto de as considerarem uma força geológica. Swanson et al. (2015) mostram como muitos estudiosos, artistas e jornalistas estão mobilizados a sinalizar sobre essas abruptas perturbações humanas.

15Acredito que essas variadas perspectivas de mundos recaem até mesmo no termo Antropoceno. Apesar de estar utilizando o termo no singular, creio ainda que hajam muitos Antropocenos. Como ressalta Swanson et al. (2015, p. 150), o Antropoceno ainda é “menos que um, mas mais do que muitos”. Essa expressão parte de uma discussão na antropologia sobre fenômenos que são “mais do que um e menos que muitos”, desenvolvida por Strathern (1991, p. 35) e que foi muito bem desdobrada por Holbraad e Pedersen (2017, p. 135). Swanson et al. (2015, p. 150) traz, a título de exemplo, o trabalho de Mol (2002), demonstrando que a aterosclerose é tanto uma doença para os médicos quanto uma experiência para os pacientes; nessa multiplicidade, é “mais de um e menos que muitos”. Swanson et al. (2015, p. 151) afirmam que “a erudição antropocênica tem essa característica e qualidade, mas sem qualquer concretude. Pertence a um conjunto comparável, mas contrastante de fenômenos: aqueles sem materialização suficiente para constituir um e ainda amorfo demais para ser numerável em todos. A desatualização da erudição antropocênica atesta nossa incapacidade atual de capturar a realidade do Antropoceno. Tanto o Antropoceno quanto a erudição que tenta compreendê-lo são menos que um e mais que muitos”.

16Há muitas narrativas dos pontalistas sobre os tempos mais antigos da vila, em que haviam farturas de peixes em demasia no mar.

17Texto extraído do caderno de campo, em estudo realizado em vila do Pontal do Leste, em julho de 2016.

18Não poderei adentrar por completo sobre as descrições dos comportamentos dos ventos e das águas; todavia, como o presente artigo é produto da minha dissertação de mestrado (Santos, 2017a), lá abordo este assunto de forma mais detalhada.

19Em outra oportunidade (Santos, 2017b), abordei, através de uma armadilha pesqueira denominada de ‘cerco’, como algumas tainhas, ao entrarem no estuário próximo ao Pontal, são capturadas. A armadilha é uma barreira de taquara, construída a partir da margem do rio, com o intuito de atravessar os caminhos traçados pelas tainhas dentro da água, direcionando-as para adentrarem em uma estrutura denominada ‘caixa-do-peixe’. Essa estrutura possui uma pequena abertura na qual o peixe entra e de lá não consegue mais sair.

20Defesa não muito eficaz em relação aos barcos grandes – incluindo as traineiras – e suas longas redes, como veremos mais adiante.

21Esta pesquisa desenvolvida na região de Cananeia (São Paulo) executou marcações nas tainhas por um período de nove anos seguidos, entre 1954 e 1962. Nos anos de 1956, 1957, 1958 e 1960, na Barra do Rio Grande (Rio Grande do Sul), e em 1960, na ilha de Santa Catarina (Santa Catarina), ocorreram as marcações, sendo que estas levavam informações sobre a pesquisa em um envoltório de plástico, fornecendo uma gratificação ao pescador que passasse as informações solicitadas, como: local e dia de recaptura da tainha, o estado fisiológico (se ovada ou não), o tamanho, o artefato de pesca utilizado para capturar e as escamas do dorso do peixe.

22Há de se levantar também disparidades quanto aos períodos de reprodução da tainha. Sadowski e Almeida Dias (1986) consideram que o período de procriação desse peixe do Sul brasileiro tem o seu começo no mês de março e o desfecho em outubro, observando em novembro a ocorrência de tainhas com ovas na região Sudeste (Cananeia, São Paulo). Contudo, a partir das experiências etnográficas no Pontal do Leste, e até mesmo com as próprias narrativas dos pescadores, foram pescadas tainhas com ovas já nos meses de junho e de julho. Tanto que, no ano de 2016, quando os barcos grandes foram impedidos de capturar tainhas, muitos indivíduos com ovas foram retirados das redes de pesca pontalista.

23Esta informação foi dada pelo pescador pontalista quando comentava sobre a crise de água em São Paulo e a possibilidade de extrair água do vale do Ribeira, para abastecer a capital paulista.

24Esta informação foi dada pelo pescador pontalista enquanto argumentava sobre a extração de água do vale do Ribeira para a RMSP.

25Como argumentaria Ingold (1993), os componentes da paisagem são feitos de histórias. Alguns pés de guapê foram introduzidos na vila pelo pai de Juarez. Em uma de suas visitas a Pariquera-Açu (município vizinho a Cananeia), para ir ao médico, o habitante se abismou com o tamanho da árvore e sabia que ela poderia ajudar a aumentar a área de proteção contra os raios solares no Pontal. Outros pontalistas também acharam interessante o potencial de proteção da árvore e começaram a introduzir novas mudas. Hoje em dia, a vila contém diversos pés de guapê, onde estão as maiores aglomerações de moradias.

26A captura do parati é mais direcionada para a alimentação familiar, já que o peixe não possui muito valor comercial. A pesca é realizada com uma pequena rede, denominada de ‘tarrafa’, podendo ser lançada nas margens do rio ou em cima de uma embarcação.

27Em 2017, as obras do governo do estado de São Paulo que captariam água do rio São Lourenço, no vale do Ribeira, foram suspensas pela justiça, alegando-se que os estudos ambientais “padecem de erros gravíssimos”, uma vez que levaram em conta a análise dos impactos gerados apenas no ponto de captação, sem considerar as bacias hidrográficas adjacentes que serão afetadas (“Justiça suspende”, 2017a, 2017b).

28A pesca em larga escala de tainha nas regiões Sul e Sudeste ocorre há pelo menos 40 anos por uma parte da frota de traineiras, como uma sazonal alternância à pesca da sardinha. Tradicionalmente, grande parcela da frota que pesca sardinha e aponta para a tainha é oriunda de Santa Catarina (Secretaria Especial do Meio Ambiente et al., 1991).

29Realizando um comparativo entre dados quantitativos coletados pelo Instituto de Pesca do Estado de São Paulo sobre o município de Cananeia, através do “Programa de Monitoramento da Atividade Pesqueira Marinha e Estuarina do Estado de São Paulo” (PMAP-SP) (Instituto de Pesca, 2018), nota-se a abrupta diferença dos valores nos meses de maio e junho dos anos de 2015, 2016, 2017 e 2018 – apesar dos dados englobarem diversos tipos de embarcações, que realizam as suas práticas no mar, e de ter havido, no ano de 2018, um aumento no valor. Buscando-se nesses dados informações sobre as técnicas pesqueiras equivalentes mais exploradas na vila no ano de 2016, verificou-se que foram registradas cerca de 96,3 toneladas (ton) de tainhas transformadas em pescado, desembarcando em Cananeia. Em 2015, foram cerca de 16,3 ton capturadas; em 2017, cerca de 9,8 ton; e em 2018, 29,5 ton.

30Todavia, além disso, foi autorizada a atuação também de 130 embarcações que operam com o emalhe anilhado, operantes no estado de Santa Catarina, limitadas a uma cota total de 1.196 toneladas, divididas igualitariamente entre elas. O emalhe anilhado trata-se de uma modalidade pesqueira que utiliza redes para a efetivação da captura por meio do emalhamento dos peixes, possuindo anilhas fixadas em sua extremidade inferior e que se operam com a ajuda de um cabo têxtil. Este cabo passa por entre as anilhas para o fechamento da parte inferior da rede.

31Diria, ainda, que as competições entre barcos grandes e canoas pontalistas, em momentos, podem resultar em canibalismos semelhantes aos de algumas aranhas. Muitos barcos grandes não apenas destroem as paisagens marinhas pontalistas, mas também as práticas pesqueiras das canoas da vila. Não contente, acabam fazendo com que alguns pescadores da vila migrem e se submetam aos trabalhos nas traineiras ou nos camarãozeiros. Não apenas Andrei, mas Wellington (sobrinho de Juarez), Domingos e Aires (irmãos de Juarez), entre outros, já tiveram que se render a trabalhar em algum barco grande.

32Os pulos das tainhas, além de serem signos de chegada e localização dos cardumes, também são indicativos de que um mau tempo está por vir (Santos, 2017a, 2017b). Quando as tainhas ficam mantidas em alguma região da costa, antes de chegar um novo vento sul e voltarem a correr, elas começam a pular com frequências maiores do que a habitual. Esse aumento da frequência faz parte de um fenômeno local denominado de ‘alvoroço dos bichos’, que ocorre quando determinados animais não humanos intensificam certos comportamentos por conta de um mau tempo que está por vir.

33Apesar de haver críticas pontalistas sobre as ações das traineiras, não é o intuito deste artigo passar um ar de urgência para interdição ou impedimento dessas embarcações, já que, além de poder cair nas mesmas armadilhas que incentivam algumas narrativas antropocênicas, de tomar decisões rápidas sobre as controvérsias aqui descritas, muitas vidas também dependem dos barcos grandes. O sentido de frear que coloco nesta frase é de criar hesitações – no sentido cosmopolítico de Stengers (2018) – sobre as ‘tentativas de mandar na natureza’, fazendo com que mais tainhas consigam realizar os seus ciclos reprodutivos.

34De acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei n. 9.985, de 18 de julho de 2000), o Plano de Manejo é o “documento técnico mediante o qual, com fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade” (artigo 2°, inciso XVII). Nessas condições, o Plano de Manejo forma o importante instrumento de organização e gestão das Unidades de Conservação e tem como intuito guiar a gestão e a promoção do manejo dos recursos naturais dessas áreas protegidas.

35De acordo com o parágrafo 2º do art. 43, do Decreto n. 25.341, de 4 de junho de 1986, os Planos de Manejo de parques estaduais sofrerão revisões periódicas a cada cinco anos.

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Recebido: 21 de Fevereiro de 2019; Aceito: 09 de Julho de 2019

Autor para correspondência: Lucas Lima dos Santos. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Rua Cora Coralina, 100. Campinas, SP, Brasil. CEP 13083-896 (luca-bio@hotmail.com)

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