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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas

Print version ISSN 1981-8122On-line version ISSN 2178-2547

Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciênc. hum. vol.15 no.2 Belém  2020  Epub July 17, 2020

http://dx.doi.org/10.1590/2178-2547-bgoeldi-2019-0081 

DOSSIÊ

A arqueologia do alto Madeira no contexto arqueológico da Amazônia

The archaeology of the Upper Madeira within the archaeological context of Amazonia

Eduardo Góes NevesI 
http://orcid.org/0000-0002-2830-2735

Jennifer WatlingII 
http://orcid.org/0000-0001-7897-5105

Fernando Ozorio de AlmeidaIII  IV 
http://orcid.org/0000-0002-9061-0026

IUniversidade Federal de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil

IIUniversidade de São Paulo. Museu de Arqueologia e Etnologia. São Paulo, São Paulo, Brasil

IIIUniversidade Federal de Sergipe. Programa de Pós-Graduação em Arqueologia. Laranjeiras, Sergipe, Brasil

IVUniversidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil


Resumo

Este artigo faz um balanço dos dados atualmente disponíveis para a arqueologia da área a jusante das cachoeiras do alto rio Madeira. Trata-se de um segmento-chave do maior afluente do rio Amazonas, que possui suas áreas de cabeceira nos Andes Centrais: ele é formado pela junção de grandes rios que vêm da Bolívia e do Peru – Mamoré, Beni e Madre de Díos. Nossa análise comparativa indica que a arqueologia da área a jusante das cachoeiras do rio Madeira possui mais semelhanças com padrões observados na Amazônia central do que com a região de seus formadores. Por outro lado, o alto Madeira também denota elementos da diversidade cultural que caracterizam o seu entorno. Sendo assim, propomos que as cachoeiras do Madeira funcionaram como uma área de fronteira persistente ao longo do Holoceno tardio, conectando regiões com padrões culturais distintos na bacia amazônica.

Palavras-chave Arqueologia do alto Madeira; Diversidade cultural e biológica; Análise comparativa

Abstract

This article reviews the data currently available on the area downstream of the waterfalls on the Upper Madeira River. This is a key segment of the largest tributary of the Amazon River, with headwaters in the Central Andres: it is comprised of the union of the Mamoré, Beni, and Madre de Dios, three great rivers flowing from Bolivia and Peru. Comparative analysis suggests that the archaeology in the area downstream of the waterfalls of the Madeira River bears more resemblance to patterns observed in central Amazonia than in the region upstream. On the other hand, the Upper Madeira also features elements related to the surrounding cultural diversity. We consequently suggest that the waterfalls acted as an enduring boundary throughout the Late Holocene, connecting regions with distinct cultural patterns within Amazonia.

Keywords Archaeology of the Upper Madeira River; Cultural and biological diversity; Comparative analysis

INTRODUÇÃO

A arqueologia do alto rio Madeira se destaca no quadro da arqueologia amazônica e das terras baixas da América do Sul por ser uma das poucas áreas para as quais se tem uma sequência de ocupação que atravessa quase continuamente todo o Holoceno. Por essa razão, trata-se de um local importante para o teste de hipóteses sobre a antiguidade e a intensidade dos processos de criação de paisagens e de modificações antrópicas na Amazônia. Embora seja claro que tais processos já estivessem disseminados por toda a Amazônia há cerca de 2.500 anos, os recorrentes hiatos cronológicos do Holoceno médio (8.200-3.500 BP) impedem que se entenda se tais modificações se constituíram gradativamente ao longo do Holoceno ou se resultaram de mudanças rápidas e bruscas, iniciadas a partir da transição entre o Holoceno médio e o Holoceno tardio (Neves, 2007).

Um exame da arqueologia do alto Madeira mostra alguns padrões análogos aos da Amazônia central (Figura 1), do mesmo modo que revela características puramente locais. Em comum com o restante da Amazônia ocidental, há as camadas enterradas associadas a ocupações com terras pretas e cerâmicas da Tradição Pocó-Açutuba, datadas pelo menos do primeiro milênio BCE, bem como a predominância, mais de mil anos depois, de ocupações associadas à Tradição Polícroma da Amazônia a partir da transição entre o primeiro e o segundo milênios CE. De particular, há, como já mencionado, a longa história de ocupação atravessando quase todo o Holoceno; a formação precoce de solos de terras pretas há pelo menos 3.500 BCE; e, já no primeiro milênio CE, a manifestação de um padrão de diversidade cultural, atestado por diferentes conjuntos cerâmicos contemporâneos, justapostos na mesma área. Por outro lado, se examinarmos as informações disponíveis para a arqueologia dos formadores do rio Madeira, a montante da área de cachoeiras, como os rios Beni, Madre de Díos, Mamoré e Guaporé, notamos a ocorrência de padrões de ocupações e de indústrias cerâmicas bastante distintas das verificadas no alto Madeira.

Figura 1 Localização de regiões e rios discutidos neste artigo. Fonte: adaptado de SimpleMappr (n.d.)

Neste texto, discutiremos brevemente alguns desses padrões, buscando relacioná-los a outros aspectos – culturais, ambientais e adaptativos – que, examinados em conjunto, ajudam a compreender o sentido da ocupação indígena milenar da região. Pretende-se, aqui, contribuir para a arqueologia do alto Madeira por meio de uma comparação com o seu entorno. Dessa comparação, concluímos que a região foi uma área de fronteira, com padrões culturais análogos aos da Amazônia central e ocidental e distintos dos padrões identificados rio acima, em direção ao atual território boliviano. Por outro lado, também concluímos que a diversidade cultural característica do sudoeste amazônico se encontra claramente identificada para o alto Madeira.

A REGIÃO DOS FORMADORES DO MADEIRA COMO CENTRO DE PRODUÇÃO DE DIVERSIDADE

A DIVERSIDADE BIOLÓGICA

Para um exame do significado da arqueologia da região de entorno das cachoeiras do alto rio Madeira, é necessária uma mudança de escala que leve em consideração o conhecimento disponível para uma área mais ampla, a qual inclui também os formadores do rio Madeira – Beni, Madre de Díos e Mamoré –, bem como seus afluentes. Essa área é caracterizada por uma relativamente alta diversidade geológica, ao menos se comparada à calha do rio Amazonas e aos baixos cursos de seus principais afluentes (CPRM, 2007), manifestada em uma também rica diversidade paisagística, que inclui extensas planícies aluviais periodicamente alagadas, adjacentes a extensas áreas de terra firme e formações de serras, onde encontra-se o limite norte-ocidental do escudo brasileiro. Trata-se de uma área de ecótonos, no limite entre os ecossistemas de floresta e cerrado, cuja dinâmica, ao longo do Holoceno, evoluiu em resposta a mudanças climáticas de escalas milenares (Mayle et al., 2007; Carson et al., 2014; Lombardo et al., 2019).

É possível que a própria sensibilidade desses ecótonos à redução/instabilidade do regime de precipitação no Holoceno médio (8.200 a 3.500 AP) tenha sido um fator que estimulou o desenvolvimento de sistemas de produção de alimentos tão cedo na região (Watling et al., 2018). Os dados genéticos e arqueológicos discutidos por Watling et al. (2020) mostram que essa região é um importante centro primário e secundário de domesticação de plantas no continente americano, dentro de um processo iniciado no começo do Holoceno, mas intensificado há cerca de 4.000 BCE. As novas evidências da região do alto Madeira parecem apoiar a hipótese, proposta por Harris (1973) e refinada em Piperno e Pearsall (1998), de que os centros americanos de domesticação de plantas foram concentrados nas regiões tropicais ecotonais com estações secas mais prolongadas. A presença de vestígios de tubérculos e de raízes nas ocupações pré-cerâmicas da fase Girau, no sítio Teotônio (Watling et al., 2018), aparentemente apoia outro aspecto dessa hipótese: os sistemas de produção mais recuados, do Holoceno inicial, estavam focados no cultivo de raízes, naturalmente abundantes nas regiões com estações secas marcadas.

Até agora, são poucos os estudos arqueobotânicos de sítios do Holoceno inicial e médio na bacia amazônica, devido, em maior parte, à baixa frequência desses vestígios. Porém, poderíamos desenhar paralelos entre as regiões do alto Madeira, médio rio Caquetá (Piperno, 2011) e Andes setentrionais tropicais (Aceituno & Loaiza, 2014), na Colômbia, e o litoral guianense (Pagán-Jiménez et al., 2015), tanto na antiguidade de cultivo de plantas nativas e exóticas, como na sua importância como área-chave dentro dos caminhos de dispersão de plantas nas terras baixas. O importante papel de árvores frutíferas, como castanha-do-pará (Bertholettia excelsa) e goiaba (Psidium sp.), também evidenciado pela região (Watling et al., 2018; Furquim, 2018), permite comparações com todos os outros sítios arqueológicos amazônicos do mesmo período, para os quais estudos arqueobotânicos foram feitos (e.g. Caverna de Pedra Pintada [Roosevelt et al., 1996; Shock & Moraes, 2019]). Ainda não sabemos como as populações do alto Madeira manejaram essas árvores durante o Holoceno inicial e médio, porém, é provável que essas atividades – e seu impacto na biodiversidade – se intensificaram a partir de ca. 4.000 BCE, quando as populações regionais começaram a produzir outros tipos de vestígios, como terras pretas.

As práticas de domesticação, cultivo e manejo de plantas realizadas pelas populações indígenas do alto rio Madeira desde o Holoceno inicial, e mais visivelmente desde o Holoceno médio, contribuíram para aumentar a agrobiodiversidade regional. Ainda no Holoceno tardio, o período de que trata este artigo, o cultivo por populações mais numerosas teria tido impactos ainda maiores na produção dessa diversidade. Ademais, se nós considerarmos que as dietas e as práticas de manejo variaram entre os diferentes grupos que vieram a ocupar a região do alto rio Madeira nos últimos 3.000 anos (Watling et al., 2020), podemos imaginar uma situação em que a diversidade beta (i.e. entre áreas locais) foi crescendo através do tempo.

A DIVERSIDADE CULTURAL

Conforme apontado por diversos autores deste número especial, dados linguísticos mostram que o sudoeste da Amazônia, onde está situada a bacia do alto rio Madeira e seus formadores, tem um quadro de grande diversidade composto por 50 línguas, agrupadas em oito famílias linguísticas e ainda 11 línguas isoladas (Crevels & van der Voort, 2008). Trata-se de um fenômeno notável, mesmo no contexto de grande diversidade linguística característico da Amazônia, onde foram registradas cerca de 300 línguas indígenas, agrupadas em cerca de 50 ‘unidades genealógicas’ (famílias ou línguas isoladas) distintas (Epps & Salanova, 2013).

Dados arqueológicos provenientes dos rios Beni e Guaporé/Itenez reforçam esse quadro de diversidade: na região de Llanos de Mojos, na Bolívia, ao menos sete ‘áreas culturais arqueológicas’ distintas foram identificadas com base na variabilidade de conjuntos cerâmicos e de padrões de assentamento (Lombardo et al., 2013; Prümers & Jaimes Betancourt, 2014). Na região do médio Guaporé, por outro lado, pelo menos três diferentes conjuntos cerâmicos foram identificados, com datas recuando pelo menos a 4.200 BP (ca. 2.000 BCE), com a fase Bacabal identificada no sambaqui Monte Castelo (Miller, 2009; Pugliese et al., 2017; Zimpel, 2018).

A diversidade de conjuntos cerâmicos está refletida nos tipos de sítios arqueológicos deixados pelas populações na macrorregião do alto rio Madeira, incluindo seus formadores acima da área de cachoeiras. Assim como no resto da bacia amazônica e no litoral guianense, os sítios arqueológicos com as cerâmicas mais antigas nessa região são os sambaquis (Pugliese et al., 2017). Alguns desses sambaquis, nos Llanos de Mojos, têm cronologias que chegam até 8.000 BCE, mas não está claro se essas datas antigas se relacionam a contextos com presença de cerâmicas (Lombardo et al., 2013). Já no Holoceno médio, a região do alto Madeira tem o registro mais antigo de terras pretas antropogênicas (TPA) para toda a Amazônia, indicando um novo padrão de ocupação, mais sedentário, inédito à época. Tais solos são associados a ocupações com cerâmicas datadas a partir de ca. 1.500 BCE, e ao longo do médio rio Guaporé, há cerca de 2.000 BCE. No Guaporé, camadas de terras pretas estão associadas tanto a sambaquis (Zimpel, 2018) quanto a zanjas/geoglifos, assentamentos circundados por valetas escavadas em forma circular, cuja extensão geográfica alcança a região do alto rio Tapajós (Prümers, 2014; J. Souza et al., 2018). Já os geoglifos do estado vizinho do Acre não contêm terras pretas ou restos domésticos dentro da área circundada pela valeta, e possuem formas quadrangulares e circulares (Saunaluoma et al., 2018). Nos Llanos de Mojos, próximo à atual cidade de Trinidad, a construção de lomas monumentais a partir de ca. 500 CE coincide, em outras regiões próximas, com a construção de sistemas extensos de campos elevados e outras obras de terra, como canais e diques (Erickson, 2006; Jaimes Betancourt, 2016), onde a terra preta, novamente, está ausente.

Esta breve compilação, que abrange um amplo espaço temporal, dentro de uma região ainda repleta de lacunas, é suficiente para que se proponha, ainda que preliminarmente, que o panorama de diversidade cultural característico da história de ocupação da área das cachoeiras é coerente com um quadro mais amplo de produção de diversidade na grande área de formadores do rio Madeira. Esse quadro fica mais visível e notável a partir do início do primeiro milênio CE, já que a maioria das datas disponíveis para os sítios com cerâmica nos Llanos de Mojos vem desse período. Por outro lado, procuraremos demonstrar que a história da produção cerâmica na área das cachoeiras do alto Madeira mostra, na longa duração, aspectos mais semelhantes aos verificados na Amazônia central do que na área dos formadores do Madeira.

O QUE NOS DIZEM AS CERÂMICAS DO ALTO RIO MADEIRA?

Eurico T. Miller construiu, ao longo de décadas de pesquisas, um amplo quadro cronotipológico para a arqueologia da bacia do alto rio Madeira. A leitura das publicações e dos relatórios produzidos por Miller no último quarto do século passado permite visualizar a grande quantidade de conjuntos estabelecidos por ele, com base em estudos no atual estado de Rondônia, entre os rios Guaporé e Ji-Paraná (e.g. Miller, 1983, 1987). A maior parte desses conjuntos nunca foi datada e muitos foram classificados como isolados, isto é, sem vinculação a nenhuma grande tradição arqueológica amazônica. Nesse cenário, a imensa diversidade do interior oferecia um contraste frente ao quadro mais homogêneo por ele construído para a área entre as cachoeiras a jusante do rio Madeira e o médio e baixo rio Jamari, ao redor da cidade de Porto Velho, caracterizado por conjuntos pertencentes a dois grandes grupos: as tradições Jamari e Polícroma da Amazônia (Miller, 1992; Miller et al., 1992).

Entretanto, os artigos de Zuse et al. (2020), Bespalez et al. (2020), Pessoa et al. (2020) e Kater (2020), apresentados neste dossiê, mostram um quadro mais complexo para a calha do Madeira, com a presença de diferentes conjuntos tecnológicos, além dos previamente descritos por Miller. No artigo de Watling et al. (2020), é possível observar que tal variabilidade não se refere unicamente a modos de fazer cerâmica, como também às maneiras através das quais os diferentes coletivos manejaram plantas ao longo do tempo. Tais hipóteses são baseadas em uma cronologia que, embora com algumas lacunas, indica uma história de ocupações multiculturais na região das cachoeiras do rio Madeira com mais de 3 mil anos de duração (Figura 2).

Fonte: Calib (n.d.).

Figura 2 Sequência cronológica para o alto Madeira obtida por meio de 68 datações calibradas. 

A arqueologia das cachoeiras a jusante do Madeira é caracterizada pela presença de pelo menos seis conjuntos cerâmicos (Almeida, 2013; Almeida & Neves, 2014; Bespalez et al., 2020; Costa, 2016; Zuse, 2014; Kater, 2018, 2020). O mais antigo é a Tradição Pocó-Açutuba, com datas pelo menos entre 1.500 BCE e 200 CE. Trata-se do contexto mais meridional e das datas mais antigas para esse conjunto em toda a Amazônia, o que coloca a região das cachoeiras do Madeira como uma área-chave para a compreensão da dispersão inicial de falantes de línguas da família Arawak, caso se aceite uma associação entre tais grupos e esse conjunto cerâmico (Neves et al., 2014). Os dados linguísticos (e.g. Eriksen, 2011) e históricos (e.g. Menéndez, 1981-1982), entretanto, mostram que os falantes de línguas dessa família já não se encontravam nas margens do alto Madeira na época do contato com os europeus, embora ocupassem áreas relativamente próximas, a sudoeste, na região do alto Purus e dos rios Beni e Madre de Díos, na Bolívia e no Peru. Tais evidências sugerem, portanto, que centenas de anos antes do contato os grupos falantes de línguas Arawak gradualmente teriam ocupado parte da área de entorno do alto Madeira e além, como o atual estado do Acre (Schaan, 2013), os Llanos de Mojos, a Chapada dos Parecis e a Serra dos Apiacás (Heckenberger, 2008), o alto e médio Paraguai (Bespalez, 2015) e o baixo Paraná (Politis & Bonomo, 2019). Trata-se, portanto, de um processo que precede a entrada dos grupos produtores de cerâmicas da Tradição Polícroma no alto Madeira.

Não se sabe ainda se há ocupações da Tradição Pocó-Açutuba acima das áreas das cachoeiras a jusante do Madeira. Como as ocupações dos produtores dessa indústria cerâmica são quase sempre correlatas a áreas navegáveis de rios, é plausível que a tradição não tenha chegado muito além da ilha do Dionísio, lugar mais a montante do rio em que foi encontrada (Costa & Gomes, 2018). Como discutido por Watling et al. (2020), as evidências da cachoeira do Teotônio sugerem que o milho foi introduzido na calha do alto rio Madeira pelos povos produtores da cerâmica Pocó-Açutuba. Um estudo recente (Kistler et al., 2018) sugere que foram os falantes de línguas Arawak que dispersaram o milho no sentido oeste ao leste da bacia amazônica, em pelo menos dois momentos diferentes. O primeiro – se correta a hipótese da origem da família Arawak na Amazônia ocidental (bacia do rio Purus e os sopés dos Andes) (R. Walker & Ribeiro, 2011) – teria ocorrido logo após a introdução do milho no sudoeste amazônico, ao redor de 4.500 BCE, enquanto o segundo teria acontecido ao redor de 1.200 CE, introduzindo o cultivo aos grupos falantes de línguas Jê das áreas central e leste do Brasil (Kistler et al., 2018). Nossos dados preliminares apoiam uma associação entre as ocupações possivelmente Arawak do alto Madeira (Pocó-Açutuba e, provavelmente, Borda Incisa/Barrancoide) e o cultivo de milho, mas a profundidade de tal associação precisará ser testada em outros sítios e regiões.

O quadro atualmente disponível mostra a presença sincrônica das cerâmicas Pocó-Açutuba e Morro dos Macacos nos primeiros séculos CE, período bastante próximo às datas mais antigas para a Tradição Borda Incisa/Barrancoide (TBIB). Tal sincronia entre conjuntos distintos pode indicar a presença de sistemas regionais multiétnicos similares a casos descritos histórica e etnograficamente para regiões como o alto Xingu (e.g. Heckenberger, 2001, 2005) e o alto rio Negro (Neves, 2006), embora, neste caso, sem a padronização na produção material verificada no alto Xingu e no alto rio Negro. O desenrolar das pesquisas arqueológicas pode demonstrar que as cachoeiras a jusante do Madeira, uma região com poucos dados etnográficos e que possui registros históricos fragmentados, foi o palco de uma longa e dinâmica tradição multicultural. A presença dos conjuntos Morro dos Macacos, Dionísio (Zuse et al., 2020; Kater, 2020) e o conjunto cerâmico isolado do sítio Nova Vida, que possui uma datação cal. 80 a 380 CE (Almeida, 2013), indica a existência de distintas indústrias com distribuição local. Este quadro, portanto, já se mostra suficiente para demonstrar o caráter multicultural da região e que a grande diversidade cultural que presentemente existe nos afluentes do alto Madeira também existia outrora ao longo do curso principal (Figura 3).

Figura 3 Cronologia do alto Madeira com dois possíveis períodos multiculturais. 

Mais complexa é a compreensão dos conjuntos arqueológicos do período que abrange a maior parte do primeiro milênio da era comum: as tradições Borda Incisa/Barrancoide1 e Jamari. Embora instigante, a classificação do conjunto cerâmico descrito por Zuse (2014, 2016), Zuse et al. (2020), Bespalez et al. (2020) (Figura 4), associando cerâmicas da Tradição Borda Incisa à Tradição (ou série) Barrancoide, necessita ser debatida, visto que ocorre uma significativa diferença nas formas dos vasos, em especial a quase ausência de vasos com contornos compostos e complexos no alto Madeira frente a uma presença significativa, por exemplo, na Cerâmica Manacapuru da Tradição Borda Incisa da Amazônia central. Esta última também é caracterizada por possuir bordas expandidas, o que não ocorre com frequência no alto Madeira (Quadro 1). As decorações incisas e ponteadas identificadas nas cerâmicas Borda Incisa/Barrancoide no alto Madeira são distintas das encontradas na cerâmica Manacapuru, assim como a existência de escovados que estão presentes no rio Madeira, mas não na área de encontro dos rios Negro e Solimões. Ocorre também baixa presença de modelados na cerâmica Borda Incisa/Barrancoide do alto Madeira, frente às cerâmicas da Amazônia central. Tais modelados parecem muito mais presentes nas cerâmicas dos geoglifos rondonienses encontrados entre as bacias dos rios Ji-Paraná e Guaporé (Trindade, 2015), assim como na região de Llanos de Mojos. Nesta última, a presença de apêndices modelados na cerâmica Chimay levou pesquisadores, como Nordenskiöld (1924) e Lathrap (1970), a inferirem que esse conjunto estaria vinculado ao macrocontexto de dispersão de conjuntos da Tradição Barrancoide2. Entretanto, recentemente, Jaimes Betancourt (2016) constatou que, apesar da concomitância das decorações modeladas zoomorfas, a cerâmica Chimay possui um repertório de formas não encontrado nas cerâmicas Barrancoides, Borda Incisa ou Pocó-Açutuba, e vice-versa. Em outras palavras, a ligação entre cerâmicas das tradições Barrancoide ou Borda Incisa que se supunha haver entre essas regiões necessita ser melhor estabelecida.

Fontes: Kater (2018) e Zuse (2014).

Figura 4 Conjuntos arqueológicos cerâmicos do alto Madeira. Elaborado por Thiago Kater. 

Quadro 1 Comparação entre as principais indústrias cerâmicas do alto Madeira e da Amazônia central. Fontes: Kater (2018) e Lima e Neves (2011)

Tradição/
Fase Alto Madeira
Descrição Tradição/
Fase Amazônia Central
Descrição
Pocó-Açutuba
1.500 BCE-200 CE
Manufatura roletada, com antiplástico mineral, caraipé ou carvão. Queima oxidante. Superfícies polidas ou com alisamento fino. Presença de pintura policrômica. Ocorrem flanges labiais, mas não mesiais. Predominância de decorações plásticas incisas, seguidas por escovados e ponteados. Pocó-Açutuba
300 BCE-500 CE
Manufatura roletada, com antiplástico de cauixi e caraipé. Queima oxidante. Geralmente formas abertas. Incisões frequentes. Presença de pintura policrômica. Presença de bocas de vaso com ângulos. Flanges labiais e mesiais. Ocorrem apliques modelados zoomorfos junto às bordas. Presença de escovados e ponteados.
Barrancoide/Borda Incisa
350-1.200 CE
Manufatura predominantemente roletada. Antiplástico de caraipé e, às vezes, cauixi. Queima com núcleo redutor. Presença de incisões irregulares e apliques zoomorfos. Raras pinturas brancas ou vermelhas. Maioria dos vasos é de contorno regular e formas geralmente com contorno simples. Manacapuru
400-900 CE
Manufatura roletada. Antiplástico de cauixi. Queima com núcleos redutores. Presença de incisões e apliques modelados zoomorfos. Flanges labiais, mas não mesiais. As bordas muitas vezes são expandidas. Ocorrem vasos com boca irregular e com formas compostas e complexas.
Jamari
800 BCE-1.800 CE
Manufatura roletada. Antiplástico principal é o caraipé. Alisamento da superfície de mediano a fino. Decorações são escassas, sendo engobo vermelho e incisões as mais notadas. Há formas fechadas e abertas, em geral de contorno simples e suavemente infletidas, sem ângulos. Presença de assadores. Paredão
800-1.200 CE
Manufatura roletada. Antiplástico de cauixi. Queima redutora incompleta. Urnas funerárias com grandes formas globulares e apliques antropomorfos/zoomorfos. Formas fechadas e abertas, geralmente com contorno simples. Presença de assadores, de vasos com alças, bases em pedestal e de vasos com boca irregular.
Jatuarana/Polícroma da Amazônia
700-1.600 CE
Manufatura roletada. Caraipé, carvões e mineral são os antiplásticos mais comuns. Pintura policrômica, muitas vezes delimitada por incisões. Acanalados são raros. Predominância de formas abertas. Muitas formas irregulares, algumas com contorno complexo. Presença de assadores, flanges labiais, mas ausência das flanges mesiais, que caracterizam a cerâmica Guarita. Guarita/Polícroma da Amazônia
1.000-1.600 CE
Manufatura roletada. Antiplástico de cauixi, seguido pelo caraipé e caco moído. Pintura policrômica e decoração plástica geralmente externa (acanalados). Flanges labiais e mesiais. Muitas formas irregulares, algumas com contorno complexo. Presença de assadores e vasos com pescoço.

Existem duas hipóteses iniciais para interpretar as conexões tipológica e cultural entre as ocupações Pocó-Açutuba e Borda Incisa/Barrancoide. A primeira seria um quadro análogo ao da sequência da Amazônia central (cf.Lima et al., 2006), com uma transição gradual entre esses conjuntos cerâmicos, provavelmente dentro de um contexto histórico de ocupação de falantes de línguas Arawak. Um segundo cenário, respaldado pelas diferenças entre as indústrias cerâmicas já apontadas, colocaria o que se tem denominado de Tradição Borda Incisa/Barrancoide (Zuse et al., 2020) como uma manifestação local. A identificação de uma possível praça central circundada por montículos no sítio Santa Paula (Bespalez et al., 2020), interpretada como um contexto Borda Incisa/Barrancoide de ca. 500 CE, aproximaria esse sítio do contexto da Amazônia central, onde há evidências de sítios com montículos circulares no entorno de praças centrais para o mesmo período e, portanto, favorece a primeira hipótese. Uma comparação dos dados microbotânicos do sítio Santa Paula (Watling et al., 2020) e Hatahara, na Amazônia central (Bozarth et al., 2009; Cascon, 2010), também mostra semelhanças entre as espécies utilizadas e seus modos de deposição nos montículos, talvez indicando comportamentos compartilhados. O que parece claro para o alto Madeira é que, a partir do final do primeiro milênio CE, passam a predominar conjuntos cerâmicos associados à Tradição Jamari e, posteriormente, à Tradição Polícroma.

A Tradição Jamari possui datas que chegam a ca. 800 BCE e uma longa cronologia no rio Jamari (Figura 5) (Miller et al., 1992). No rio Madeira, sua presença é ainda menos documentada, aparecendo no sítio Teotônio e possivelmente em outros sítios no entorno da cachoeira de Santo Antônio, como o sítio Brejo (Zuse, observação pessoal, 2012). Uma das questões ainda não respondidas é a ausência dessa cerâmica no sítio Santa Paula, que possui uma sequência de ocupação semelhante à do sítio Teotônio (Bespalez et al., 2020), localizado muito próximo a este último, na margem oposta do rio Madeira.

Fonte: adaptado de Mongeló (2019)

Figura 5 Sítios localizados entre as cachoeiras a jusante do baixo Jamari. Mapa: Francisco Pugliese. 

Robrahn-González (1996) chegou a propor uma ligação entre as cerâmicas Jamari e a Tradição Uru do Brasil central, o que aproximaria a primeira a um contexto de grupos falantes de línguas Macro-Jê. No entanto, apesar de ambos conjuntos apresentarem cerâmicas com pasta ocre, formas simples, ocasional presença de engobo vermelho e antiplástico de caraipé, há também muitas diferenças. Cerâmicas Jamari são mais densas, com menor quantidade de caraipé – que, muitas vezes, vem combinado com carvão –, possuem melhor acabamento de superfície e não possuem bordas reforçadas (cf. Almeida, 2013). Os machados semilunares, associados à Tradição Uru, assim como a presença de falantes de línguas Macro-Jê, tampouco foram identificados nos rios Madeira e Jamari.

Miller (2009), por sua vez, propôs que a Tradição Jamari possuiria uma ligação com os grupos de língua Tupi-Arikém (Arikém e Karitiana). O autor argumentou por uma persistência milenar nos territórios de grupos falantes de línguas de diferentes famílias do tronco Tupi, com os falantes da família Tupi-Tupari ocupando a bacia médio Guaporé, os Tupi-Mondé ocupando a bacia do alto e médio Ji-Paraná e os Tupi-Arikém, a área entre os rios Jamari e Jaci-Paraná. Nesse último caso, Miller (2009, p. 37) argumentou, com base na cronologia cerâmica que chegaria próxima do século XIX, que a presença dos Tupi-Arikém ocorreria no rio Jamari desde cerca 3.000 BCE até o momento em que recebem os primeiros relatos etnográficos, por parte da Comissão Rondon ( Rondon, 1948), no início do século XX. Vander Velden (2010a, p. 59), por sua vez, descreve o processo de retomada de territórios por grupos Karitiana – ou a contraterritorialização – no rio Candeias, afluente do Jamari, que incluía áreas de antigas aldeias repletas de fragmentos arqueológicos. Por fim, Almeida (2017), ao analisar a ocorrência do material Jamari ao longo do médio curso do rio homônimo, identificou diferenças estilísticas que parecem condizentes com a divisão territorial dos grupos Karitiana e Arikém descrita por Roquette-Pinto (1975 [1919]). Portanto, apesar de essa hipótese ainda necessitar de uma melhor elaboração, a arqueologia tem trazido contribuições importantes para a discussão sobre a história indígena nos rios secundários do alto Madeira, como também sobre o papel desses grupos na história das ocupações das cachoeiras a jusante do Madeira. Nesse cenário, grupos falantes de línguas Tupi-Arikém, ocupantes antigos do rio Jamari, produtores da cerâmica homônima e visitantes ocasionais das cachoeiras a jusante do rio Madeira teriam ocupado partes desta região por volta do final do primeiro milênio da era comum, para, posteriormente, sofrerem uma retração, já no segundo milênio CE, como consequência da expansão dos grupos produtores de cerâmicas da Tradição Polícroma.

Uma outra possibilidade para interpretar a Tradição Jamari seria, mais uma vez, buscar um correlato na Amazônia central, nesse caso, a cerâmica Paredão. A indústria Jamari não possui os apliques modelados e o antiplástico de cauixi presentes na cerâmica Paredão. Esta última comporta uma diversidade de formas superior à Tradição Jamari, o que pode se dar em parte pelo fato de as tipologias de formas Paredão estarem mais consolidadas do que as Jamari. Por outro lado, a presença de cauixi na pasta já foi questionada quanto ao seu valor comparativo em relação às indústrias da Amazônia central (Tamanaha & Neves, 2014): todas as indústrias da região possuem esse antiplástico. A favor dessa hipótese está o fato de que ambas as cerâmicas são bem queimadas e possuem formas predominantemente simples (Quadro 1), ainda que ocorra diversidade de formas muito superior na fase Paredão em comparação com a cerâmica Jamari (Figura 6). Pode-se citar também o desconhecimento da área de procedência da cerâmica Paredão e a existência de outras indústrias semelhantes a ambas (Paredão e Jamari) na região da foz do Madeira e do rio Maués, tal como a fase Axinim (Moraes, 2013; Simões & Lopes, 1987). Ou seja, mesmo improvável, enquanto não forem estudados a fundo contextos com cerâmica Jamari do alto Madeira, não se pode eliminar a hipótese de que o alto Madeira e a Amazônia central possuam, em alguns aspectos, uma sequência análoga de ocupação. Assim, na Amazônia central e no alto Madeira nos últimos séculos antes do fim do primeiro milênio CE verificou-se uma proliferação de indústrias cerâmicas com distribuições localizadas, como das fases Caiambé (médio Solimões), Paredão (Amazônia central), Axinim (baixo Madeira) e a própria Tradição Jamari do alto Madeira.

Figura 6 Comparação entre as formas das tradições Paredão (Moraes, 2013) e Jamari (sítio Jacarezino, Almeida, 2013). 

Por outro lado, a presença, na sequência do alto Madeira, de complexos também verificados com idades contemporâneas na Amazônia central indica que é possível que processos demográficos e culturais análogos – tais como expansões de grupos falantes de línguas da família Arawak e do tronco Tupi – ocorreram quase que simultaneamente nessas regiões. Tal observação faz sentido, uma vez mais quando se contrastam os padrões totalmente diferentes entre as sequências descritas para o alto Madeira e as áreas dos formadores do rio Madeira, localizadas rio acima.

Chegamos ao final da sequência cerâmica do alto Madeira com o amplo predomínio da Subtradição Jatuarana, da Tradição Polícroma. A relação entre a Subtradição Jatuarana e a Tradição Polícroma é um dos temas mais consolidados da arqueologia regional (Almeida, 2013; Pessoa, 2015). Entretanto, sua antiguidade ainda não foi estabelecida. A despeito de uma data de ca. 700 CE para o sítio Teotônio, o restante da cronologia se concentra no período posterior ao início do segundo milênio CE. Essa data antiga, aliada ao contexto interpretado como macro-Tupi, permitiu sugerir que o alto Madeira teria sido o centro inicial de dispersão Tupi-Polícroma, que se espalharia em poucos séculos por toda a Amazônia (Almeida, 2013). Tal hipótese é também amparada por algumas semelhanças encontradas entre os povos indígenas que historicamente ocupavam os dois extremos da expansão Polícroma na Amazônia ocidental. Por exemplo, a deformação craniana foi registrada entre os Karitiana, no alto Madeira (S. Souza, 1994), e os Omágua, do alto Amazonas (Porro, 1995; Rodrigues Ferreira, 1974 [1788]). Entretanto, os grupos Kokama-Omágua possuíam uma língua relacionada à família Tupi-Guarani (Cabral, 2007; Michael, 2014), e não à Tupi-Arikém falada pelos Karitiana.

A região das cachoeiras do alto Madeira também não possui documentação que indique a presença antiga de grupos falantes de línguas Tupi-Guarani, uma vez que os únicos grupos falantes dessas línguas ali documentados, os Kawahiwa, teriam chegado ao local somente no período colonial (Menéndez, 1981-1982; Nimuendaju, 1924), vindos do Tapajós. Tais interpretações históricas colocam em dúvida a inferência de Miller (2009) sobre o centro de origem dos grupos Tupi-Guarani na bacia do rio Ji-Paraná, uma área tradicionalmente vinculada com grupos Tupi-Mondé (e.g. Levi-Strauss, 1975 [1955]). Se correto, os dados etnohistóricos mostrariam também que os atuais grupos Kawahiwa não são descendentes dos produtores de cerâmicas da Tradição Polícroma no alto rio Madeira (Almeida, 2013).

Entretanto, recentemente, Pessoa (2015) e Pessoa et al. (2020) mostraram que há semelhanças entre a forma de aldeia com praça central do sítio Novo Engenho Velho e as descrições etnográficas das aldeias Kawahiwa do rio Madeira, e sugeriram que os dados históricos podem estar equivocados. Essa hipótese também é fortalecida pela dinâmica observada para os grupos produtores de cerâmica Polícroma no rio Madeira, em que aparentemente ocorrem grandes movimentações em curtos períodos (Almeida & Moraes, 2016). Em última instância, está a definição da cachoeira do Teotônio com o topônimo Tupi-Guarani ‘yaguerites’ (Bespalez et al., 2020; Kater, 2018). Seria esta denominação mais um exemplo do uso disseminado de topônimos nheengatu durante o período colonial ou, ao contrário, manifestação de topônimos Tupi-Guarani pré-coloniais?

Os dados arqueobotânicos sugerem que houve aumento na diversidade de plantas cultivadas, especialmente tubérculos, durante a ocupação Polícroma no sítio Teotônio (Watling et al., 2020). Tal diversidade e as espécies evidenciadas (mandioca, cará, batata-doce, milho, feijão) são fortes indicadores de sistemas de manejo Tupi-Guarani até hoje (Noelli, 1993, p. 283). A presença Tupi-Guarani no alto Madeira se trata, portanto, de uma questão em aberto, assim como a antiguidade da sua presença rio abaixo e rio acima.

No caso do baixo Madeira, essa discussão histórica se refere ao período de entrada dos grupos Tupinambarana. Esse grupo foi identificado por Acuña (1994 [1641]), que propôs se tratar de populações Tupinambá que teriam migrado a partir de Pernambuco (Cypriano, 2007; Heriarte, 1874; Menéndez, 1981-1982). No entanto, essa migração colonial Tupinambá para a ilha de Tupinambarana nunca foi comprovada por dados arqueológicos, embora pesquisas com esse foco tampouco tenham sido realizadas. Como indica o sufixo ‘rana’, os Tupinambarana seriam os ‘falsos Tupinambá’, o que gera mais dúvidas sobre a verdadeira história desse topônimo. Portanto, a arqueologia, neste momento, não descarta a possibilidade de que o corredor Kawahiwa-Tupinambarana, descrito historicamente para o médio e baixo Madeira, seja mais antigo e extenso do que se pensava – abarcando também o alto Madeira – e de que esse corredor teria como correlatos arqueológicos vestígios ligados à Tradição Polícroma.

Por outro lado, aparentemente não há registros de sítios da Tradição Polícroma a montante das cachoeiras do rio Madeira. A amostra mais ocidental da TPA parece ser o sítio do Jamil, um cemitério com um conjunto de urnas da Tradição Polícroma encontradas nas proximidades da cachoeira de Jirau (Moutinho & Robrahn-González, 2010). Embora o uso da policromia como decoração seja verificado na sequência cronotipológica de Loma Salvatierra, em Llanos de Mojos (Jaimes Betancourt, 2012), os elementos ali utilizados são diferentes dos da Tradição Polícroma, o que contradiz hipóteses que associam parte da ocupação dos montículos monumentais de Llanos de Mojos à Tradição Polícroma (Eriksen, 2011; Lathrap, 1970; J. Walker, 2012). De fato, assim como discutido em relação à Tradição Borda Incisa/Barrancoide, o que se vê é um fluxo de alguns elementos entre as cachoeiras a jusante do Madeira e os Llanos de Mojos, mas em indústrias cerâmicas distintas (Jaimes Betancourt, 2017).

Também nos formadores do rio Madeira, há dúvidas quanto à história cultural dos grupos Tupi-Guarani, como os Sirionó (Guarani), que habitam terras bolivianas banhadas por afluentes dos rios Beni e Iténez (Guaporé), que também teriam se fragmentado, empreendendo uma série de movimentos no sudoeste amazônico durante o período colonial (Holmberg, 1948, pp. 455-456). É possível que estejam associados à presença de cerâmica arqueológica pintada e corrugada no rio Madre de Díos (Maqque, 2005). Mais ao oeste, em sítios localizados nos pés dos andes bolivianos, Pärssinen (2005) sugeriu que as cerâmicas corrugadas, unguladas, temperadas com caco moído e datadas em 400 CE seriam evidências da presença antiga de grupos Guarani na região. Essas evidências são difíceis de interpretar, visto que tais tratamentos de superfície estão disseminados por toda a Amazônia ocidental, como os grupos de língua Pano associados à Tradição Cumancaya do Ucayali (DeBoer & Raymond, 1987; Lathrap, 1970).

No alto Madeira, as poucas descrições relacionadas à cerâmica dos falantes de línguas Pano indicam uma indústria mais simples. Sabe-se que os Pacavara, que ocupavam áreas do alto rio Madeira, assim como nos rios Beni, Mamoré, Abunã e Madre de Díos, moravam em casas comunais, se locomoviam em canoas feitas de casca de árvore, plantavam milho, banana e macaxeira – com a qual faziam sua chicha – e produziam cerâmicas simples, apenas com eventuais marcas de folhas. Tais grupos também realizavam enterramentos em urnas funerárias (Keller, 1874, pp. 114, 124; Métraux, 1948, pp. 449-454). Caberia, então, perguntar se não haveria alguma ligação entre esses falantes de línguas Pano e os contextos com urnas funerárias identificados, por exemplo na ilha do Dionísio (Costa & Gomes, 2018; Zuse et al., 2020) e no sítio Teotônio (Costa, 2016; Kater, 2020)?

Do mesmo modo que para a região de Llanos de Mojos e Baures, na Bolívia, os conjuntos cerâmicos do Médio Guaporé parecem bastante distintos dos do alto Madeira, além de terem uma cronologia mais antiga que chega pelo menos a ca. 2.000 BCE (Miller, 2009; Pugliese, 2018; Zimpel, 2018). Em comum, todas essas áreas – as cachoeiras a jusante do alto rio Madeira e o médio Guaporé, o médio Jamari e provavelmente o médio Ji-Paraná – têm cronologias longas, e talvez seja esta combinação entre profundidade histórica e diversidade cultural que melhor caracterize a parte do sudoeste da Amazônia denominada como Rondônia há 100 anos por Roquette-Pinto (1975 [1919]).

DISCUSSÃO: A HISTÓRIA PROFUNDA DO MOSAICO CULTURAL DO ALTO RIO MADEIRA

As análises comparativas preliminares esboçadas neste texto demonstram haver analogias entre as sequências cerâmicas verificadas na região das cachoeiras a jusante do alto Madeira e a Amazônia central a partir do Holoceno tardio. Ambas as regiões apresentam ocupações associadas à Tradição Pocó-Açutuba no início das sequências e ocupações associadas à Tradição Polícroma em seu final. Entre esses extremos, verificamos o predomínio de complexos locais, que variam de região a região, com exceção das ocupações da Tradição Borda Incisa/Barrancoide, cuja natureza ainda não foi totalmente esclarecida para o alto Madeira. Tal analogia não foi identificada ao compararmos o alto Madeira com a região dos formadores do Madeira, incluindo Llanos de Mojos. Por outro lado, uma característica ampla do sudoeste amazônico está claramente presente no alto Madeira: a diversidade cultural geográfica. A impressão que se tem, quando se examina as arqueologias dos formadores bolivianos do Madeira – os rios Beni, Mamoré e Madre de Díos –, da bacia do Guaporé ou da bacia do alto Purus, é que existe uma série de padrões culturais distintos para cada uma dessas regiões.

Nesse mosaico de áreas culturais, no sentido empregado por Santos-Granero (2002), é possível perceber, nos diferentes conjuntos cerâmicos, a presença de elementos compartilhados. Isso vale para o cultivo do milho ou para a construção de estruturas de terra, especialmente montículos. Na constituição desse mosaico, é notável o fluxo de elementos na forma de ideias, valores, práticas, saber-fazer e objetos (cf. Santos-Granero, 2002), denotando contextos temporalmente dinâmicos, caracterizados pelo fluxo e pelo intercâmbio cultural (Vander Velden, 2010b). Tal intercâmbio estava presente desde pelo menos o Holoceno médio, uma vez que foi através dessas redes de contato que os povos do sudoeste amazônico adotaram cultivos exóticos, como milho, abóbora (Cucurbita sp.) e feijão (Phaseolus sp.). A incorporação bem-sucedida dessas plantas nos sistemas locais implica uma transferência tanto de sementes e cultivares quanto de conhecimentos sobre como plantar, cuidar e reproduzi-las em ambientes novos.

Conforme é possível observar ao longo dos artigos apresentados neste dossiê, a região do alto Madeira se constituiu ao longo do tempo e espaço por uma série de ocupações diferentes que, em comum, tiveram o rio e as cachoeiras, no entorno das quais as pessoas se agruparam. Por um lado, a região das cachoeiras a jusante se encaixa na proposta feita para os afluentes meridionais do rio Amazonas, em que as cachoeiras foram interpretadas como áreas de fronteiras culturais, divisores naturais que serviriam de limites a montante para grupos canoeiros produtores de cerâmicas Polícromas (Meggers et al., 1988). Por outro lado, é recorrente, nas pesquisas recentes (e.g. Almeida & Kater, 2017; Zuse, 2014), encontrar no alto Madeira uma conotação aglutinadora, de microcosmo, que representa simultaneamente a topografia da diversidade cultural do oeste amazônico e, ao mesmo tempo, congrega a imensidão da planície amazônica que começa exatamente ali, nos pés dessas majestosas cachoeiras.

1Há mais de cinquenta anos há uma divergência sobre o uso na Amazônia dos termos ‘Borda Incisa’, ‘Barrancoide’ ou ‘Borda Incisa/Barrancoide’ para designar indústrias cerâmicas do primeiro milênio CE com presença de decoração plástica incluindo apêndices zoomorfos (Meggers & Evans, 1961; Lathrap, 1970; Lima et al., 2006). No presente artigo, optamos por manter a proposta feita por Zuse (2014), em sua interpretação da sequência cerâmica do alto Madeira, apesar de a considerarmos ainda aberta para reformulações.

2É claro que, à época de Nordenskiöld, as tradições Borda Incisa e Barrancoide não haviam ainda sido definidas. Tal interpretação foi proposta posteriormente por Lathrap.

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Recebido: 20 de Agosto de 2019; Aceito: 06 de Abril de 2020

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES

E. G. Neves contribuiu com conceituação, aquisição de financiamento, investigação, administração de projeto, escrita (rascunho original, revisão e edição); J. Watling com conceituação, curadoria de dados, aquisição de financiamento, investigação, escrita (rascunho original); e F. O. Almeida com conceituação, curadoria de dados, análise formal, investigação, metodologia, administração de projeto e escrita (rascunho original, revisão e edição).

Autor para correspondência: Fernando Almeida. Universidade Federal de Sergipe. Praça Samuel de Oliveira, s./n., Centro. Laranjeiras, SE, Brasil. CEP 49170-000 (fernandozorio@hotmail.com).

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