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Galáxia (São Paulo)

versão impressa ISSN 1519-311Xversão On-line ISSN 1982-2553

Galáxia (São Paulo)  no.30 São Paulo jul./dez. 2015

https://doi.org/10.1590/1982-25542015205 

Reviews

A gravidade da imagem: arte e memória na contemporaneidadea

The gravity of image: art and memory in contemporaneity

Adriano Carvalho Araújo e Sousa1 

1Adriano Carvalho Araújo e Sousa é doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e autor de Poética de Júlio Bressane: Cinema(s) da Transcriação. logodedalo@hotmail.com

COSTA, L. C.. A gravidade da imagem. Rio de Janeiro: Quartet, 204p. 2014.


Resumo

O artigo pretende analisar a presença do cinema na Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes, realizada em Paris em 1925. Na década de 1920, consolidando-se como meio de comunicação de massa, ele passou a ser utilizado cada vez mais como "vitrine" em que a nação projetava as virtudes nacionais a serem celebradas em um cenário marcado pela corrida imperialista. Neste caso específico, os discursos da modernidade e da tradição conciliaram-se a fim de celebrar o caráter nacional francês dentro de um quadro marcado pela afirmação cultural do cinema.

Palavras-chave arquivo; memória; fotografia; arte

Abstract

This paper analyzes the participation of the cinema in Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes held in Paris in 1925. Since the 1920s, by establishing itself as a means of mass communication, cinema has served more and more as a "showcase" in which the nation could project national virtues to be celebrated in a scenario marked by the imperialist race. In this particular case, the discourses of modernity and tradition reconciled themselves to celebrate the French national character within a framework of growing cultural affirmation of the cinema.

Keywords archive; memory; photography; body

Em A Gravidade da Imagem, Luiz Cláudio da Costa trata das relações entre arquivo e memória, a partir da análise de certa produção artistica contemporânea. Nesse sentido, o titulo é feliz, como assinala o prefácio de Mauricio Lissovsky, numa frase de grande força: "restituir às imagens, sua gravidade". A Quartet, com apoio da Faperj, leva a público uma edição simples, sem perder a elegância.

O livro divide-se em dois momentos. O primeiro situa um debate teórico, referente a questões como o arquivo, a memória e o fotográfico, em relação aos dispositivos. Considera transformações no plano epistemológico surgidas nos meados do século XX, quando eram repensadas noções advindas da teoria da linguagem. Remete a arquivo, memória, presença e ausência pensando alternativas à dicotomia "realismo da representação e idealismo da abstração" (COSTA, 2014, p. 47) e buscando nos artistas sobrevivências da imagem na contemporaneidade: quanto mais o fotográfico invade a arte, mais ela se torna gesto.

Nos termos do autor, estão em jogo as "condições de dar-se a olhar" que as obras proporcionam como uma visada contemporânea do lugar que o documento e o corpo ocupam, no sentido de se apresentarem como sobrevivências da imagem e do fotográfico, por exemplo, levando a aproximações com outros horizontes como a pintura, a land art, a performance, o cinema e as videoinstalações. O estatuto da memória é interrogado (junto com o dispositivo, dado fundamental para o campo da comunicação), sendo pensado como parte de uma época de transformação radical da nossa experiência e percepção de tempo determinado pelas novas midias digitais: uma era em que tudo praticamente se tornou ou encontra seu equivalente na imagem.

No segundo momento, o leitor é convidado a apreciar leituras dos trabalhos, dentre as quais destaco entre outros, Rosângela Rennó, Alfredo Jaar e Doris Salcedo.

Há alguns anos, após uma sessão de Filme de Amor (2003), Júlio Bressane falou sobre uma "tradição de obscuridade" no cinema brasileiro, para referir-se ao acesso às peliculas e à sua conservação. Por sua vez, Luiz Cláudio, que é autor de ensaio sobre o cineasta, nos fala em "máquinas de esquecimento institucional" (Costa, 2014, p. 54) e mais adiante, ao analisar A01 [COD.19.1.1.43]-27[2|COD.23] e 2005-510117385 de Rosângela Rennó, debate a amnésia que, além de possibilitar o roubo de fotografias antigas, "permite o esquecimento e o apagamento voluntários da história" (Ibidem, p. 135). Rennó faz do álbum um objeto artistico e mostra a inoperância institucionalizada como norma, a violência de páginas em branco, versos de fotografias, vultos e sombras. Os furtos aos acervos bibliotecários têm a ver com a tradição de obscuridade que envolve as artes no Brasil. O autor nos recorda o incêndio trágico que destruiu 90% das obras de Hélio Oiticica.

De Alfredo Jaar, chileno radicado em Nova York, o destaque recai sobre Os Olhos de Gutete Emerita. Luiz Cláudio explora os limites da linguagem do artista para expressar situações de violência extrema, caso de genocidios como o de Ruanda. Os Olhos de Gutete Emerita enfrentam a questão, se pensarmos que o silêncio normalmente é visto como uma figura de linguagem. Em sua análise, o autor oferece uma percepção ainda mais radical, porque parece ensinuar que desse acúmulo de escombros e ruinas da guerra talvez tenha restado apenas o silêncio como dobra ao infinito e vertigem. A nudez do olhar da sobrevivente e testemunha de uma catástrofe não se reduz ao silêncio, ela funda uma alteridade desconcertante: a "experiência indizivel da memória do outro violado" (Ibidem, p. 157).

A colombiana Doris Salcedo, autora de Schibboleth, entre outras, transfigura uma experiência de exterminio, mas sem nostalgias. Luiz Cláudio se concentra em Noviembre 6 y 7. Convida o olhar à vertigem, à multiplicação de cadeiras em queda como "lembranças de ausências", possibilidade de evocação dos mortos nem que seja como distanciamento e opacidade. O autor destaca as cisões do tempo: "a obra convoca a imagem da queda associada a uma sociedade que convive há tantos anos com a guerra" (Ibidem, p. 176), "um fim que se repete a cada nova data, de modo que o presente não passa" (Ibidem, p. 178), para "não esquecer os mortos e fazer o luto impossivel" (Ibidem, p. 180).

O autor interessa-se também pelo confronto dos artistas com os fantasmas do esquecimento e experiências traumáticas. A guerra vai se pulverizando e deixa pelo caminho "lacunas e silêncios", acumulando apenas "coleções de ausências". E qual o sentido desta Gravidade da Imagem? "A gravidade da imagem não remete a um fato histórico representado, mas à identificação afetiva com os sofrimentos de quem submergiu com a colonização" (Ibidem, p. 57).

Para nos evocar Derrida, Luiz Cláudio nos oferece mais que senhas para esses artistas, um schibboleth para ter o direito de passar e vislumbrar outros horizontes, em meio à paisagem de ruinas, à impossivel repetição do evento, à experiência contemporânea.

Recebido: Fevereiro de 2015; Aceito: Abril de 2015

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