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Sociedade & Natureza

On-line version ISSN 1982-4513

Soc. nat. vol.23 no.3 Uberlândia Sept./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1982-45132011000300008 

ARTIGOS

 

A percepção ambiental de uma comunidade da caatinga sobre o turismo: visões e perspectivas para o planejamento turístico com vistas a sustentabilidade

 

Perceptions of a community environmental caatinga on tourism: visions and prospects for tourism planning toward sustainability

 

 

Isabelle de Fatima Silva PinheiroI; Vera Lúcia Antunes LimaII; Eliza Maria Xavier FreireIII; Antônio Antunes MeloIV

IDoutoranda em Recursos Naturais Universidade Federal de Campina Grande - UFCG. Campina Grande/PB - Brasil. isabelleisp@gmail.com
IIProfessora Doutora em Recursos Naturais Universidade Federal de Campina Grande - UFCG. Campina Grande/PB - Brasil. antuneslima@gmail.com
IIIProfessora Doutora do Programa Regional de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente - PRODEMA, Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN. Natal/RN - Brasil. elizajuju@ufrnet.br
IVDoutorando em Recursos Naturais Universidade Federal de Campina Grande - UFCG. Campina Grande/PB - Brasil. antunesmelo@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

O Turismo é hoje uma relevante alternativa econômica para diferentes cidades, regiões e países. Devido aos elevados índices de renda que este gera, o Turismo passou a ser incentivado por governos de muitos países, desenvolvendo-se de forma desordenada e sem a participação da comunidade local, o que gerou danos a estas comunidades e ao ambiente natural dos vários destinos turísticos. Baseado nisso, esta pesquisa insere-se na perspectiva de aplicar uma estratégia de participação social para o planejamento do Turismo. Para tanto, realizou-se uma análise da Percepção Ambiental da comunidade de Tenente Laurentino Cruz\RN, entendendo que as visões, opiniões e expectativas das pessoas que vivem na localidade caracterizam-se como relevantes subsídios na proposição de ações e políticas de organização do município para o Turismo. A metodologia utilizada consiste em pesquisa bibliográfica e documental, bem como utilização de observações e aplicação de questionários junto aos moradores das zonas urbana e rural de Tenente Laurentino Cruz, nos meses de maio a junho de 2010. Assim, o trabalho traz a Percepção Ambiental como estratégia de participação comunitária no planejamento turístico, contribuindo para a construção de um Turismo menos impactante e mais participativo, que tenha como objetivo último o desenvolvimento de base local.

Palavras-Chave: atividade turística. sustentabilidade e participação social.


ABSTRACT

Tourism is now an important economic alternative for different cities, regions and countries around the world. Due to high-income levels this activity generates, tourism has been encouraged by governments in many countries, growing haphazardly and without the participation of the local community. As a consequence, it has caused damage to local communities and natural environment in various destinations tours. Based on this, this research concerns to the implementation of a social participation strategy on tourism planning. To this end, we carried out and analysis of environmental perception in the community of Laurentino Cruz/RN by considering that the views, opinions and expectations of the people living in the locality are characterized as subsidies in proposing relevant actions and organization policies for local tourism. The applied methodology consists of a documentary and bibliographical research as well as the observation and questionnaires appliance to residents of Laurentino Cruz's urban and rural areas. These activities were performed from May to June of 2010. In short, the work brings environmental awareness as a strategy for community participation in tourism planning, contributing to the construction of a more participatory and less damaging tourism practice focused on the local community development.

Keywords: tourism activity. sustainability and social participation.


 

 

INTRODUÇÃO

O Turismo cresceu e se consolidou no mundo inteiro aproximadamente a partir da década de 1950. Inicialmente, o Turismo foi considerado "a indústria sem chaminés", expressão que o caracterizou por este supostamente não causar os impactos ambientais negativos que as indústrias vinham gerando tanto no ambiente natural, como nos espaços urbanos.

Por resultar em elevados aportes financeiros e não impactar explicitamente os ambientes, o Turismo foi estimulado em diversas regiões do mundo, sem, no entanto, seguir uma lógica de planejamento eficiente e voltada aos parâmetros de equilíbrio natural, econômico, social e político. A partir de então, este fenômeno cresceu de forma acelerada e desorganizada, carente de bases teóricas, conceituais e metodológicas que norteassem estudos e pesquisas na área. Devido a isso, o Turismo ora é entendido como uma indústria, ora é visto como um serviço, considerado uma atividade econômica e, para alguns setores governamentais, uma política de desenvolvimento.

Por envolver diferentes segmentos, denominados por Beni (2002) como subsistemas ecológicos, culturais, sociais e políticos, a pesquisa e o planejamento do Turismo necessitam de uma abordagem interdisciplinar, além da participação da sociedade civil. No entanto, percebe-se ainda a carência de pesquisas que contemplem formas de participação popular no processo de planejamento turístico, bem como pesquisas que busquem estratégias de utilizar o potencial do Turismo para o desenvolvimento local. Esta perspectiva de promoção do Turismo com bases locais é recente. Pesquisas que a Percepção Ambiental como espaço de participação e o fortalecimento local como estratégia de desenvolvimento são escassas e merecem ser viabilizadas para servirem de subsídio às políticas públicas de Turismo. Neste âmbito de pesquisa, pode-se ressaltar os trabalhos de Rodrigues (2002), Seabra (2007), Bartholo; Sansolo; Bursztyn (2009).

Ressalte-se que a Percepção Ambiental pode se caracterizar como relevante instrumento de estímulo à participação popular. As populações nativas conhecem sobremaneira as características do meio natural no qual estão inseridas. Sua participação estimulada e valorizada pode constituir os pilares de sustentabilidade da atividade turística. Ademais, cada localidade e cada ambiente apresentam usos, atividades produtivas, relações de empatia, pertencimento e dinâmica próprios, que refletem as diferentes percepções ambientais dos seus agentes sociais.

Nesse contexto, este artigo se engaja no esforço de inserir a Percepção Ambiental como uma estratégia de participação social no processo de concepção e planejamento do Turismo em uma comunidade localizada no semiárido nordestino, alinhada às perspectivas de desenvolvimento a partir da sinergia das forças e potencialidades locais.

 

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

O papel da participação social no desenvolvimento do Turismo Sustentável

O Turismo utiliza a diversidade natural e cultural dos espaços, bem como interfere diretamente na dinâmica socioambiental das cidades, regiões e países, além de gerar impactos positivos e negativos nos diferentes ambientes (social, cultural, natural e social). Além disso, o desenvolvimento do Turismo afeta distintos setores de uma estrutura política e social tais como saúde, educação, infra-estrutura, segurança pública, administração pública, dentre outros.

As políticas e planos de desenvolvimento turístico, por este se tratar de um fenômeno que intervém diretamente na realidade ao qual está presente, devem estar baseadas na participação efetiva da comunidade local no processo de planejamento, na tomada de decisões, na seleção dos projetos de fomento e na divisão equitativa dos benefícios advindos com a atividade econômica local. Neste sentido, deve-se estimular a mobilização social, tornando-a protagonista do desenvolvimento local.

Para o planejamento do Turismo Sustentável, a participação possibilita a eficiência do planejamento, aumenta a probabilidade de se obter sucesso na implementação do projeto, bem como difunde o conhecimento sobre o Turismo e seu processo de planejamento e gestão. Segundo afirma Seabra (2007, p. 79), "os objetivos definidos nos planos turísticos serão tanto mais alcançados, na medida em que estejam estruturados sobre bases sustentáveis. Esse modelo requer a inserção social da população local, como fator primordial para a perenidade dos recursos naturais e culturais".

Some-se a isso o fato de que a ampliação das experiências participativas pode funcionar como um meio de informação e sensibilização da sociedade quanto às falhas da administração pública, sobre a criação de políticas públicas, referente à lógica de funcionamento dos órgãos públicos e dos conselhos. "A participação pode ajudar a fortalecer a democracia, permitindo a criação e a expansão de processos que atendam mais aos interesses coletivos do que a demandas associadas a interesses estreitos, de determinados grupos políticos e econômicos" (ARAÚJO, 2009, p.43).

Através da participação, as pessoas passam a tomar consciência quanto aos seus problemas, bem como desenvolve aptidões que lhes permitam discutir e analisar tais problemas, buscando dentro de sua própria realidade a solução para os mesmos e encontrando, neste sentido, espaço para exercer sua cidadania.

No Turismo, a participação pressupõe a formulação de políticas públicas que se preocupem mais em atender os interesses coletivos, (diga-se da comunidade local), do que os interesses de grupos econômicos dominantes. Significa oferecer espaços de discussão para que a população local defina soluções referentes aos problemas gerados pelo Turismo, e possa traçar os contornos da atividade turística em sua localidade.

Para se chegar aos espaços de discussão, devem-se buscar produções que contemplem conceitos e metodologias que estimulem a participação da comunidade local nos processos de planejamento. Para tanto, busca-se o inventário e a adaptação de técnicas pré-existentes de outras áreas do saber tais como a tempestade de idéias, a dinâmica de grupos, a realização de seminários e oficinas, bem como a percepção ambiental das populações locais quanto ao Turismo. Em mãos de tais metodologias de trabalho, planejadores, gestores e demais agentes precisam estar imbuídos da importância de se promover espaços de discussão no processo de elaboração de políticas e projetos turísticos.

A Percepção Ambiental - PA como estratégia de participação

Por Percepção Ambiental entende-se o "processo mental de interação do indivíduo com o meio ambiente, que se dá através de mecanismos perceptivos propriamente ditos e principalmente cognitivos, através do processo de construção do valor da paisagem para cada individuo" (RIO; OLIVEIRA, 1999, p.03). As pesquisas em Percepção Ambiental partem da idéia de que cada pessoa, grupo social ou sociedade apresenta sua forma de ver e sentir o ambiente que os rodeia, bem como mantêm relações diferenciadas com o seu espaço natural. Não obstante, para se intervir em determinada realidade, seja para conhecer as relações entre o homem e o meio ambiente, seja para definir novas ações e projetos de cunho econômico, ambiental ou social para esta localidade, faz-se necessário entender como esta sociedade se apropria dos seus recursos naturais e transforma-os para atender as suas necessidades.

A paisagem, concretização da relação entre o homem e o meio natural, caracteriza-se tanto como matéria prima para o Turismo, como um produto construído para a atividade turística. Neste sentido, a compreensão da percepção da comunidade local com relação à sua paisagem e às atividades econômicas que nela estão sediadas caracteriza-se como pressuposto para o planejamento e a gestão do Turismo dentro dos princípios da sustentabilidade. Assim sendo, entender as opiniões e visões expressas daqueles que percebem a paisagem circundante em seus aspectos naturais, culturais e sociais, "trará informações valiosas e transversais que caracterizam a multidisciplinaridade e relevância do tema, servindo para a gestão do Turismo na localidade, e privilegiando a participação da comunidade" (MILAGRES; SOUZA; SOUZA, 2010, p.04).

Ademais, o desenvolvimento de pesquisas que analisem, estimulem e compreendam a Percepção Ambiental são essenciais para a gestão harmoniosa dos recursos naturais e dos lugares e paisagens de importância para a humanidade. Ressalte-se que os planejadores dos poderes público e privado, os visitantes e a população em geral apresentam valores e opiniões distintos, e a harmonização destas diferentes percepções na ação ambiental estará sendo direcionada para obter resultados mais satisfatórios.

O estudo da Percepção Ambiental se caracteriza ainda como relevante metodologia que promove espaços para que a comunidade possa expressar sua opinião e perspectivas quanto ao desenvolvimento turístico. Para Coimbra (2004, p.540), "a percepção ambiental precisa ser trabalhada nas esferas específicas do indivíduo, da comunidade, da profissão e da cidadania, uma vez que ela pode subsidiar intervenções políticas e econômicas, e estimular posturas individuais e coletivas".

Violante (2006), ao tratar da Percepção Ambiental, aponta os trabalhos de Polinari (1999), Ferrara (1999) e Tuan (1980) como norteadores para a sua metodologia de pesquisa. Considera ainda que

os hábitos e costumes constroem a imagem do lugar que, para quem vive há muito tempo na comunidade, pode ter estas visões embaçadas pela rotina cotidiana, pelo lugar comum do dia a dia, impedindo sua percepção e tornando o lugar homogêneo, ilegível e sem decodificação. Dessa forma, para cada espectador, seja conhecedor do local, seja adventício, existem vários tipos de percepção (VIOLANTE, 2006, p.86).

Outro aspecto positivo no tocante à Percepção Ambiental como espaço de participação diz respeito à intervenção efetiva nas vulnerabilidades e potencialidades identificadas nas pesquisas em PA, permitindo que as ações incidam diretamente no conhecimento e manuseio do meio ambiente dos pesquisados, fato que repercute na eficácia das propostas e alternativas de uso dos recursos naturais.

É necessário sublinhar que as pessoas da própria comunidade são as que, através do conhecimento construído pela relação histórica com o lugar em que vivem, podem expressar o que cada localidade tem de mais rico, sua diversidade natural e cultural, bem como as relações que se estabelecem entre o homem e o meio ambiente. Some-se a isso o fato de que é a população local que, por sua vivência e por seu conhecimento tácito, conhece a capacidade de suporte dos espaços naturais e construídos.

Diante disso, constata-se a relevância da Percepção Ambiental como subsídio para a elaboração e implementação de projetos de fomento ao Turismo, subsidiando, inclusive, o estabelecimento de novos roteiros turísticos, tais como os indicados pelo Programa de Regionalização do Turismo - Roteiros do Brasil, onde predomina a busca por lugares alternativos e com a proposta de uma maior interação do homem com o ambiente que o cerca.

 

ASPECTOS METODOLÓGICOS

Área de Investigação: Aspectos Gerais do Município de Tenente Laurentino Cruz, Serra de Santana - RN

O município de Tenente Laurentino Cruz está situado em região de Caatinga, especificamente na Mesorregião Central do Rio Grande do Norte, Microrregião Serra da Santana, distando cerca de 229 km de Natal (IBGE, 2010). O município localiza-se sobre área de planalto, com cerca de 700 metros de altitude, coberto parcialmente por exuberante vegetação arbóreo-arbustiva. Juntamente com mais 06 municípios, constitui o complexo serrano localmente conhecido como Serra de Santana.

 


Figura 1 - Clique para ampliar

 

No que concerne ao clima de Tenente Laurentino Cruz, o município apresenta relevantes peculiaridades. Em todo o território do Seridó há uma predominância do tipo BSw'h', da classificação climática de Koppen, caracterizado por um clima muito quente, uma vez que está localizado no semi-árido do Sertão nordestino. No entanto, a Serra de Santana, especificamente Tenente Laurentino Cruz, possui temperaturas médias entre 16º e 30ºC, dispondo de um micro-clima que diferencia a área serrana das demais regiões circunvizinhas (BRASIL, 2006).

O conjunto dessas características constitui um relevante potencial turístico, com a ocorrência de locais para a realização de trilhas ecológicas e apreciação das paisagens, além da riqueza e diversidade natural, inclusive com a existência de espaços naturais que guardam aspectos faunísticos, florísticos e histórico-culturais que denotam relevância para a criação de Unidades de Conservação com fins de uso sustentável (BRASIL, 2000).

A região dispõe de grande riqueza mineral, e possui traços culturais distintos, que encontram na figura do sertanejo um importante ícone de expressão. Some-se a isso o fato de que Tenente Laurentino Cruz integra o Pólo Seridó, região que vêm sendo estruturada para integrar o Programa de Regionalização do Turismo - Roteiros do Brasil, projeto que objetiva estimular o desenvolvimento turístico em cidades interioranas, com o intuito de desconcentrar o fluxo turístico da região litorânea do Estado, e estimular a inserção das manifestações e expressões culturais de roteiros alternativos (BRASIL, 2007).

Investigação e Análise Sobre a Percepção Ambiental aa Comunidade de Tenente Laurentino Cruz

Esta investigação caracterizou-se por pesquisa quantitativa e qualitativa descritiva. Quantitativa uma vez se preocupou em determinar a amostra da pesquisa através de cálculo estatístico de população homogênea para a aplicação dos formulários de Percepção Ambiental, com fins de estabelecer o perfil socioeconômico dos entrevistados.

É também pesquisa qualitativa descritiva uma vez que se voltou à aplicação de formulários com perguntas estruturadas e semi-estruturadas, para obtenção do máximo de informações sobre a Percepção Ambiental da comunidade investigada, entendendo que "nem toda pesquisa orientada qualitativamente deve ter, por obrigação, um fim teórico, mas pode ter objetivos práticos que não a eximem da produção de idéias e do desenvolvimento de modelos de inteligibilidade em relação à questão pesquisada" (REY, 2005, p.11). Neste sentido, esta pesquisa utilizou "técnicas interpretativas com objetivo de descrever e decodificar valores, perspectivas, motivações e relações de afetividade dos entrevistados com determinado fenômeno social, no intuito de propor a determinada sociedade novas bases econômicas e sociais para a sua dinâmica" (NEVES, 1996).

A prática investigativa utilizou o triangulo metodológico de Whyte (1977), que propôs como técnicas de campo para pesquisas em Percepção Ambiental o triângulo "perguntando", "observando" e "ouvindo" e neste sentido, além de realizar visitas para observações e leitura do espaço e do comportamento do homem em seu ambiente, aplicou-se também um formulário com determinados grupos sociais, cujas respostas dos entrevistados foram sendo anotadas para uma posterior organização e interpretação.

Seleção dos grupos sociais a serem investigados

A seleção dos grupos sociais a serem contemplados para esta pesquisa partiu da concepção de quais segmentos sociais poderão ter sua cotidianidade influenciada pelo desenvolvimento das atividades turísticas no município, ou que poderão ser inseridos e contribuir para a dinâmica do Turismo.

Sendo assim, optou-se por contemplar os seguintes segmentos sociais: comerciantes (36 entrevistados), secretários municipais (04 entrevistados), jovens e adolescentes (57 entrevistados), professores (19 entrevistados); e parte da população em geral (urbana e rural) de Tenente Laurentino Cruz (119 entrevistados).

Determinação do universo da pesquisa

Utilizou-se o cálculo amostral de população homogênea, com o erro amostral de 10%, proposto em Martins (1992). O valor do universo de pessoas que integram cada segmento social da pesquisa foi obtido através do site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010). As amostras foram censitárias para o grupo dos secretários municipais - 04 entrevistados. Já a pesquisa amostral abordou 231 pessoas.

Instrumentos de pesquisa

Esta pesquisa traz como proposta metodológica a análise da Percepção Ambiental dos moradores da cidade de Tenente Laurentino Cruz, acerca do desenvolvimento do Turismo na localidade. Esta proposta metodológica pretende dar um cunho interdisciplinar ao estudo, uma vez que a análise dos fenômenos sociais, ecológicos, econômicos e políticos de uma localidade reconhece a interconectividade dos sistemas sociais e ecológicos, e tenta articular a pesquisa científica à formulação de políticas públicas e ao estabelecimento de objetivos sociais.

A elaboração do formulário de pesquisa seguiu os parâmetros para obtenção das informações sobre a Percepção Ambiental da comunidade de Tenente Laurentino Cruz acerca do seu espaço natural e modificado, a sua concepção de saturação dos espaços naturais, bem como o grau de interesse quanto à participação e inserção no Turismo. Também se preocupou em levantar informações sobre como a comunidade percebe seu espaço físico, o que precisa ser melhorado e o que carece de ser ampliado ou construído nas áreas urbana e rural para o desenvolvimento do Turismo, assim como os impactos negativos e positivos gerados pelo Turismo, e as formas de minimizar estes impactos.

Tratamento e categorização dos dados

O tratamento dos dados foi pautado na Análise do Discurso, metodologia que organiza e categoriza as respostas às perguntas abertas, transformando-as em uma planilha sistematizada de informações. Após a organização das respostas, segue-se a análise, mediante a contagem e avaliação da repetição das respostas apresentadas.

A Análise de Conteúdo/AC consiste em um

"conjunto de técnicas de análise das mensagens, visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadoras (quantitativas ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens" (BARDIN, 1977, p.44).

Assim, a AC, através de um conjunto de técnicas parciais mais complementares, sistematiza e analisa o conteúdo das mensagens e da expressão deste conteúdo, com o contributo de índices passíveis ou não de quantificação.

A fase final do tratamento dos dados consistiu na análise das informações e elementos apresentados nos gráficos, e na apresentação dos resultados a partir da interpretação das respostas dos entrevistados.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Percepção Ambiental da Comunidade de Tenente Laurentino Cruz Acerca do Turismo

Este estudo realizou-se com 235 pessoas residentes no município de Tenente Laurentino Cruz, segmentados a partir de grupos sociais que direta ou indiretamente apresentam uma relação com o desenvolvimento do Turismo em sua localidade.

Perfil socioeconômico dos entrevistados

Dentre os entrevistados, o sexo feminino contemplou o maior número de pessoas, com 56% da amostra geral (131 entrevistados), seguido do sexo masculino, com 44% da amostra. Esta proporção aparenta ter decorrido do fato das entrevistas com a população rural e urbana acontecerem através de visitas domiciliares, manhã ou tarde, períodos de maior probabilidade das mulheres se encontrarem em casa trabalhando nas atividades domésticas, enquanto os homens estariam trabalhando em outras ocupações.

A análise da faixa etária dos entrevistados apontou para a predominância de pessoas entre 20 a 29 anos (28%), seguida pela faixa etária de 15 a 19 anos (26%) e 30 a 39 anos (21%), de acordo com Figura 6. A predominância dos entrevistados na idade de 20 a 29 anos e 15 a 19 anos deve-se ao fato de que um dos segmentos sociais selecionados para compor a amostra da pesquisa ser de jovens a adolescentes. Contemplar esta faixa etária também se fez interessante tendo em vista que estes compõem a População Economicamente Ativa - PEA do município, o que pôde expressar melhor as perspectivas de geração de emprego e renda pelo qual o município precisa se preocupar.

O grau de instrução da comunidade entrevistada também caracteriza a segmentação da amostra, uma vez que a aplicação dos formulários com jovens a adolescentes ocorreu com alunos das escolas de ensino fundamental e médio do município. Outro fato que merece destaque na construção do perfil da amostra é que na zona rural, existiu um grande número de pessoas que afirmou ter abandonado os estudos para trabalhar ou para cuidar da família. Assim, constata-se o maior número de pessoas com o ensino fundamental incompleto, ou seja, (27%) dos entrevistados, e ensino médio incompleto, (25%) dos entrevistados, conforme figura 2.

O índice de analfabetismo dentre os entrevistados é pequeno (8%), se comparado à média de analfabetismo da região do Seridó, que é de 27,6% (BRASIL, 2006, p.12). Ressalte-se a existência de uma maior preocupação com a educação no município, com a presença dos núcleos escolares de 1º ao 5º ano na zona rural. Mesmo assim, sabe-se que a população do meio rural ainda sofre alguns entraves para finalizar seus estudos. Como exemplo pode-se citar a ausência de transportes adequados para fazer o deslocamento dos estudantes para a zona urbana onde na maioria dos municípios, e neste caso também em Tenente Laurentino Cruz, estão sediadas as escolas de nível médio.

No entanto, a População Economicamente Ativa do município ainda apresenta um nível baixo de escolaridade, o que poderá dificultar a inserção da população no mercado de trabalho com maior exigência de qualificação profissional, como é o caso do Turismo. Cabe frisar que guias e condutores locais e demais profissionais que lidam com turistas, realizam atividades de interpretação ambiental que geram intercâmbio de conhecimento e experiências, estimulando novos olhares para o "patrimônio natural, urbano, arqueológico, histórico ou cultural, podendo revelar formas singulares de compreender o ambiente natural e a cultura local e regional" (FERREIRA; COUTINHO, 2010, p. 364). Para atender tais atribuições que as atividades turísticas exigem, a qualificação e os melhores níveis de alfabetização são pressupostos prementes.

A análise da distribuição da profissão demonstra que dentre as ocupações mais citadas estão agricultor (23,8%), seguido de comerciante (21,3%), estudante (18,3%) e do lar (11,1%), de acordo com a Figura 3. O baixo número apresentado nas demais ocupações remete ao fato de no município haver predominância de apenas 03 bases econômicas: a agricultura e pecuária, o comércio e os serviços públicos.

Esta constatação gera uma maior necessidade em propor alternativas para diversificar a economia local, tanto para absorver a faixa etária de jovens e adolescentes no mercado de trabalho, como para agregar maior valor ao produto agrícola produzido no município. Além disso, novas alternativas econômicas dinamizará o comércio local, pois acrescentará renda para a população local.

A renda salarial dos entrevistados reflete a ausência de diversificação econômica do município de Tenente Laurentino Cruz. Constata-se um expressivo número de pessoas cuja família possui a renda salarial de 1 a 3 salários mínimos, (58%). Outro fato que também merece destaque é que 31% dos entrevistados afirmam que a família dispõe de uma renda mensal de menos de 1 salário mínimo.

Assim, a população laurentinense ressente-se da falta de oportunidade profissional e outras fontes de renda que permitam uma melhoria da qualidade de vida local.

Percepção Ambiental da comunidade de Tenente Laurentino Cruz\RN sobre o Turismo

Dada a relevância de se propor alternativas econômicas para a comunidade de Tenente Laurentino Cruz, através de uma abordagem participativa de planejamento, buscou-se conhecer a visão que a comunidade local apresenta sobre o Turismo, expressa através das expectativas, opiniões, relações de empatia e rejeição, sentimentos e preferências, de modo que serão levantadas se as relações entre homem, espaço e Turismo são de cunho topofílico (afetiva) e topofóbico (rejeição).

a) Visões e perspectivas da comunidade local quanto ao Turismo

A pesquisa inicialmente buscou conhecer a opinião\percepção dos entrevistados sobre o Turismo, com o questionamento "Você associa Turismo com...". A abordagem perceptiva é empregada neste trabalho como instrumento para se compreender as inter-relações que se estabelecem entre a comunidade de Tenente Laurentino Cruz e o espaço natural e construído da área de estudo.

Dentre as respostas concedidas, a associação do Turismo com "desenvolvimento local" foi a que obteve o maior número de respostas nos segmentos entrevistados. Já a variável "aprendizado\conhecimento" obteve a segunda maior freqüência de respostas.

Cabe sublinhar que em algumas localidades onde o Turismo se destaca na economia do lugar, como é o caso de Taquaruçu, município de Palmas - TO, as pessoas percebem o Turismo de forma menos idealizada, e já sentem seus impactos. Para os moradores locais, principalmente os mais antigos, a segurança acabou, a água consumida é suja pelos banhistas e hoje já se sentem incomodados com o barulho e o lixo nas ruas (MILAGRES, SOUZA e SOUZA, 2009). Assim, ao que tudo indica, em comunidades onde o Turismo já se desenvolve, os ônus gerados são reconhecidos e a atividade não exerce apenas uma visão benéfica junto aos moradores locais

Uma vez que dentre as respostas concedidas, a associação do Turismo com desenvolvimento local obteve a maior ocorrência entre todos os segmentos sociais contemplados na pesquisa, isto leva a crer que esta resposta pressupõe a carência do município no que concerne a alternativas econômicas que gerem emprego e renda para a população local, além da pouca visibilidade que o município exerce sobre a região do Seridó.

Ademais, os entrevistados acreditam que com o Turismo, os serviços como saúde, transporte, educação e infra-estrutura urbana e paisagística serão melhorados. Isso pode ser constatado na fala de um secretário municipal, ao afirmar que "com o Turismo haverão investimentos e valorização da riqueza oriunda do próprio município", e de um entrevistado da população urbana, que vê no Turismo "uma forma de atrair pessoas, investimentos e renda".

b) Distribuição dos entrevistados quanto à geração de benefícios pessoais do Turismo

Esta pergunta buscou conhecer a percepção dos entrevistados quanto ao Turismo como indutor de melhorias e benefícios individuais. As respostas apontam que os entrevistados, em todos os segmentos envolvidos na pesquisa, percebem o Turismo como um gerador de benefícios pessoais, tendo em vista que 220 entrevistados afirmaram ser bom para os mesmos se o Turismo se desenvolver na cidade, contra apenas 9 entrevistados que responderam tal questionamento negativamente.

Para um melhor entendimento da percepção dos entrevistados quanto ao Turismo como indutor de benefícios individuais, perguntou-se aos que responderam afirmativamente o porquê de ver o Turismo como gerador de aspectos positivos para os mesmos.

c) Benefícios pessoais gerados pelo Turismo segundo percepção dos entrevistados

Para os jovens e adolescentes e a população rural, o maior acesso ao mercado de trabalho através da ampliação das "oportunidades de emprego" é o principal benefício que o Turismo pode trazer para os mesmos. A população urbana, os professores, e os secretários municipais ressaltaram que através do "desenvolvimento socioeconômico do município" os benefícios do Turismo recairão sobre eles próprios. Já os comerciantes, até pela necessidade de novas formas de venda e consolidação do comércio local, viram no Turismo uma alternativa para o aumento das vendas ao responder que o mesmo "dinamizará o comércio local". Ressalte-se que cada entrevistado pôde ter apresentado mais de uma resposta.

Uma vez que a população rural e os jovens e adolescentes afirmaram que o Turismo "trará mais oportunidades de emprego" para os mesmos, e se levado em conta que a economia do município de Tenente Laurentino Cruz está baseada na agricultura, no comercio local e no serviço público, pode-se inferir que tal percepção do Turismo apresentada pelos jovens e adolescentes e os filhos dos agricultores foi construída também a partir de um desejo de ter maiores oportunidades de se inserir no mercado de trabalho local. Ressalte-se que na zona rural, as famílias são geralmente muito numerosas e a pequena propriedade agrícola na maioria das vezes não comporta a manutenção de um extenso núcleo familiar. Ademais, os entrevistados disseram que os produtos da agricultura local são vendidos a preços muito baixos e com a presença de atravessadores, o que desvaloriza ainda mais o valor da produção agrícola. Além disso, a população jovem vem deixando gradativamente o meio rural devido à falta de ocupação e renda e porque hoje "o sistema de educação formal prepara o jovem para sair do meio rural, sem conseguir preparar sua juventude para assumir o papel no meio onde ele vive" (BRASIL, 2006, p.06).

Tal opinião quanto aos benefícios gerados pelo Turismo corrobora com a visão apresentada pela comunidade litorânea que vive próximo à Barra Grande\PI, e que ainda não tem o Turismo desenvolvido na localidade. Na referida pesquisa, 92% dos entrevistados afirmaram que através o desenvolvimento turístico local, haverá aumento da oferta de emprego e renda e 77% disseram o aumento da oferta de serviços (CARVALHO, 2010).

Para a população urbana, os professores e os secretários municipais, o Turismo é "outra opção de lazer e entretenimento para a população local", uma vez que o município não dispõe de espaços de lazer tais como teatro, cinema, quadra poliesportiva, clubes, e demais locais de encontro e confraternização. Na verdade, a cidade dispõe de apenas uma praça como equipamento de lazer. Este fato pode contribuir para o elevado índice de uso de bebidas alcoólicas por jovens e adolescentes do município, fato constatado em conversas informais com os moradores locais. Segundo fala de um entrevistado da população urbana "A gente teria mais lazer porque as pessoas não precisariam se deslocar para outras cidades". Já os comerciantes vêem o Turismo como dinamizador do comércio local, ao afirmar, por exemplo, que "pessoas de fora vai aumentar o consumo interno do município, principalmente no comércio".

d) Distribuição dos entrevistados quanto à opinião sobre a geração de impactos negativos gerados pelo Turismo para a localidade

Este questionamento objetivou conhecer a opinião dos entrevistados sobre os problemas que o Turismo pode trazer para o município. Pôde-se também saber o nível de conhecimento da comunidade local sobre o Turismo e suas conseqüências negativas quando o mesmo é desenvolvido sem o devido planejamento e sob os auspícios da exploração dos recursos naturais.

Quando questionados sobre se o Turismo pode gerar problemas para o município, a grande maioria dos entrevistados respondeu que o Turismo não vai causar problemas para sua localidade, conforme expresso na Figura 4. Tais respostas diferem das apresentadas pela comunidade litorânea próxima a Barra Grande\PI, cujos entrevistados, em sua maioria (53%), afirmaram acreditar que o Turismo gera impactos negativos, contra 28% que acreditam na não ocorrência de aspectos negativos advindos com o Turismo (CARVALHO, 2010, p.487) Ressalte-se que esta comunidade ainda não vivencia o Turismo em sua dinâmica, mas já dispõe desta visão mais realista sobre as implicações causadas pelas atividades turísticas.

Ficou evidenciado, através deste questionamento, que a grande maioria dos entrevistados nos segmentos jovens e adolescentes, população rural, população urbana, e comerciantes de Tenente Laurentino Cruz não vê o Turismo como causador de problemas para o município. Isso leva a importância de se promover junto à comunidade local oficinas de capacitação sobre Turismo e suas implicações, bem como palestras e reuniões de sensibilização quanto à importância de um planejamento prévio do Turismo e como atuar para prever, ou pelo menos minimizar, os impactos negativos. Tais oficinas e reuniões podem promover relevantes benefícios, uma vez que "a identificação dos valores e expectativas da população contribui para o planejamento do Turismo, para a qualidade dos serviços, para o gerenciamento dos conflitos, reduzindo os impactos negativos do Turismo no espaço, na cultura e na vida cotidiana" (NOIA, AVILA ; MIDLEJ, 2009, p. 635).

É necessário sublinhar também que a resposta "pode ocorrer impactos se não houver planejamento" demonstra o conhecimento e a preocupação dos entrevistados quanto à necessidade de um planejamento prévio do Turismo para que ocorra a minimização dos impactos negativos gerados por tal atividade. Dentre os entrevistados que apresentaram esta preocupação, estão 02 jovens e adolescentes, 04 entrevistados da população rural, 03 comerciantes, 02 professores e 1 secretário municipal, realçando a necessidade do planejamento como estratégia de minimização de impactos negativos, conforme constatado na fala de um professor ao afirmar que "deve ser uma atividade bem planejada e bem fiscalizada".

Cabe lembrar que em localidades onde o Turismo se desenvolveu com a ausência de um planejamento prévio, os impactos negativos se sobrepõem aos benefícios. Nestes destinos, inicialmente, o Turismo se apresentou como uma alternativa atraente para o desenvolvimento do município, e a comunidade só percebeu os benefícios, principalmente na economia que se encontrava estagnada. "Após o rápido crescimento da atividade turística, devido à falta de planejamento, infra-estrutura e mão de obra qualificada, o Turismo como uma indústria de várias chaminés revelou as suas outras faces" (OLIVEIRA, 2007, p.195).

Foi no subsistema social que os entrevistados demonstraram ter maior conhecimento quanto à incidência de impactos negativos. Nos segmentos jovens e adolescentes e população rural, a "bandidagem e violência" foram os mais citados. Cabe lembrar que este último segmento, ainda dispõe de uma vida tranqüila e neste sentido, estes problemas sociais afetarão diretamente a sua vida pacata. Já no segmento população urbana, os problemas sociais mais citados foram "prostituição e pedofilia" e "preconceito com a população local", ambos com 19 respostas. De qualquer modo, estas são realidades que as cidades, mesmo pequenas, já enfrentam, sendo, portanto, um problema que os mesmos já conhecem.

Quanto aos comerciantes, estes destacaram as "drogas e o tráfico e os secretários municipais a "prostituição e a pedofilia". Os professores lembraram a "bandidagem e violência" e a "prostituição e pedofilia".

e) Distribuição dos atrativos potenciais do município

Um aspecto relevante para esta pesquisa foi a preocupação em estimular a própria comunidade para que esta referendasse os elementos que compõem a sua riqueza natural e cultural e que podem ser utilizados pelo Turismo, caracterizando-se como um mapeamento dos atrativos naturais e culturais da localidade, tendo em vista que ninguém melhor que a população local para apresentar a riqueza natural e a beleza paisagística do município. Este questionamento buscou conhecer o nível de valorização que os entrevistados apresentam junto aos aspectos naturais e culturais de sua dinâmica, verificando se os entrevistados apresentam uma relação topofílica com o seu local de moradia.

Os aspectos da riqueza natural e cultural local foram divididos em quatro segmentos, a saber: atrativos naturais, construções de valor arquitetônico ou histórico, aspectos da dinâmica econômica local e manifestações culturais. Cada entrevistado podia citar mais de um atrativo, o que possibilitou o conhecimento de múltiplos aspectos da natureza e da cultura local, bem como a formulação de gráficos de múltiplas respostas.

Tendo em vista a localização privilegiada de Tenente Laurentino Cruz, os mirantes localizados na zona rural do município foram os aspectos naturais mais apontados por todos os segmentos entrevistados, com 112 respostas. Outro aspecto significativamente lembrado por todos os segmentos foi a árvore conhecida entre a população local como pau do oco, seguido das trilhas ecológicas, com destaque para a trilha do Capim-Açu. Assim, para os entrevistados, os recursos naturais foram os atrativos turísticos mais relevantes a serem utilizados para desenvolver o Turismo em Tenente Laurentino Cruz.

O casarão da família dos "Capitão" caracteriza-se como relevante ícone para a história da comunidade local, inclusive por guardar objetos e móveis antigos que podem servir como museu para o município e local de visitação de turistas, caracterizando-se também como a única construção antiga, onde as pessoas da comunidade reconhecem guardar traços de sua história e de sua cultura. Neste sentido, este casarão antigo é o prédio de valor arquitetônico e histórico mais citado por todos os segmentos entrevistados. Em seguida estão as igrejas locais e a praça.

O Turismo Sertanejo utiliza as características da vida do homem do sertão como principal atrativo para o desenvolvimento turístico. Neste sentido, os "sítios de frutas" foram os aspectos econômicos locais mais citados pelos segmentos entrevistados. Em seguida os entrevistados citaram as "casas de farinha".

As festas dos padroeiros da cidade foram as manifestações culturais que mais obtiveram visibilidade dentre todos os segmentos sociais. Outra festa ressaltada pelos entrevistados que pode servir como atrativo cultural local são os festejos juninos, seguidos pelas pinturas rupestres.

Ressalte-se também que alguns dos entrevistados responderam que o município não dispõe de nada interessante ou bonito que possa servir de atrativo para o desenvolvimento do Turismo na localidade. É lícito supor que estes 20 entrevistados, ao responderem que o município não tem nada de bonito ou interessante para ser mostrado ou valorizado pelos turistas, não exercem a mesma relação topofílica com a paisagem que os demais entrevistados. Estas respostas podem ter ocorrido devido à cotidianidade, que não permite perceber a diversidade e o ineditismo dos atrativos locais, no caso dos jovens e adolescentes, professores e população urbana; ou ainda a percepção da fauna, flora e paisagem natural somente como meio de trabalho e sustento, no caso da população rural.

Resposta semelhante sobre a apreciação da paisagem circundante foi apresentada por um grupo tradicional de pescadores do Alto São Francisco, em Minas Gerais, que afirmaram manter o contato com as matas por dever da profissão (realizar a pesca), e em segundo lugar, para o lazer (NUNES e PINTO, 2007). Desse modo, os grupos tradicionais ou os grupos sociais que convivem diariamente em um espaço natural, na maioria das vezes apresentam uma visão simplista destes espaços, fruto das relações de trabalho e da cotidianidade que os mesmos exercem com os seus recursos naturais.

f) Distribuição das melhorias necessárias para o desenvolvimento do Turismo

Buscou-se conhecer a percepção da comunidade local quanto à capacidade de suporte dos serviços e equipamentos urbanos, tanto para atender a população residente, como para acolher os turistas. Ao serem questionados sobre o que precisa ser melhorado no município para que este se torne um município turístico, buscou-se apreciar a percepção da comunidade quanto ao seu ambiente construído, entendendo que qualquer localidade só será boa para o turista se atender as expectativas e necessidades de seus moradores.

Os jovens e adolescentes, a população rural e população urbana afirmaram que será necessário haver "melhoria dos pontos turísticos e atrativos da cidade". Também os jovens e adolescentes, a população rural, a população urbana e os professores responderam a "criação de infra-estrutura turística, como a instalação de hotéis, pousadas, restaurantes e áreas de lazer", tendo em vista que mesmo o município dispondo de atrativos naturais e culturais potenciais, ainda não oferece equipamentos de hospedagem e lazer que atenda a demanda turística.

Já os comerciantes ressaltaram a importância de "divulgar mais a cidade", bem como criar as instalações necessárias para receber turistas. Os professores se preocuparam com a "conscientização prévia e a capacitação da comunidade local sobre o Turismo".

Os secretários municipais demonstraram preocupação com a oferta dos serviços e equipamentos urbanos do município, afirmando que será necessária a "melhoria da infra-estrutura urbana como educação, saúde, acesso e segurança" uma vez que os equipamentos urbanos e serviços sociais em Tenente Laurentino Cruz ainda são insuficientes para atender a demanda local, o que gera maior preocupação caso ocorra o aumento de uma população flutuante advinda com o Turismo; e igualmente com a "criação de infra-estrutura turística na cidade".

g) Distribuição dos entrevistados quanto ao seu grau de interesse em participar ou atuar no Turismo

O desenvolvimento turístico, para que seja equitativo e participativo, requer primeiro que a comunidade local conheça o Turismo e suas interfaces, bem como se posicione no sentido de aceitar o Turismo e as mudanças ocasionadas pelo aumento de visitantes em sua localidade. Neste sentido, questionou-se junto aos entrevistados se os mesmos tinham interesse em trabalhar ou participar do Turismo, e em caso afirmativo, em que segmentos ou atividades os mesmos teriam interesse de participar e trabalhar neste setor. Na pesquisa, pode-se constatar que 125 entrevistaram afirmaram ter interesse no Turismo.

Acredita-se que as respostas positivas a este questionamento foram baseadas na busca de novas perspectivas de trabalho para os jovens e adolescentes, população urbana e população rural, já que no município a entrada no mercado de trabalho ainda é muito restrita; bem como mais opções de lazer e entretenimento para a comunidade local, uma vez que o Turismo trará novas pessoas e opções de entretenimento para o município.

Dentre os entrevistados, o segmento "população rural" demonstrou o maior interesse de trabalhar ou participar do Turismo, estimulando a instalação de atividades de Turismo Rural nos sítios e comunidade rurais existentes no município, até porque os moradores da área rural apresentam um sentimento de pertencimento que pode contribuir na elaboração e implementação de ações de planejamento sustentável (HOEFFEL et al, 2008). Ressalte-se que dentre todos os segmentos sociais a maioria dos entrevistados também demonstrou tal interesse, no entanto, o número de pessoas que apresentaram uma resposta negativa também foi representativo.

h) Segmentos e atividades do Turismo de interesse de participação da comunidade local

Entre os que se mostraram interessados pelo Turismo, perguntou-se o segmento ou atividade que os mesmos teriam interesse em participar. Os segmentos jovens e adolescentes, população rural e população urbana demonstraram interesse de atuar como "guia local", ressaltando que os mesmos conhecem os atrativos naturais locais e podem, além de levar os turistas para as localidades onde os atrativos estão, também falar sobre as características, peculiaridades e demais informações sobre tais atrativos. Já os comerciantes demonstraram maior interesse em "divulgar a cidade" ou abrindo o próprio negócio, e os professores em serem "multiplicadores sobre a riqueza e a história do município".

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para que o Turismo se configure como atividade de geração de emprego e renda, que valoriza e conserva o patrimônio natural e cultural das comunidades, este precisa ser concebido através da participação da comunidade local. A comunidade deve expor suas expectativas, anseios, visões e opiniões sobre o turismo e suas interfaces.

Cabe lembrar que é esta comunidade quem sentirá os impactos negativos advindos com o turismo exploratório, bem como conhece as características do espaço onde o turismo se desenvolve.

Através da pesquisa sobre a Percepção Ambiental da comunidade de Tenente Laurentino Cruz, foi possível levantar os atrativos potenciais desta comunidade de caatinga, o que se caracterizou como um inventário turístico do município. Além disso, foi possível conhecer qual visão esta comunidade apresenta sobre o Turismo, bem como as expectativas que esta atividade exerce para os mesmos.

Outra informação importante obtida a partir da pesquisa foi a necessidade de redimensionamento e organização dos serviços sociais e infra-estrutura urbana para o desenvolvimento do Turismo na localidade, de modo que o plano de desenvolvimento turístico para a região orientará onde e como atuar na organização urbana. Além disso, os entrevistados apontaram quais são os impactos negativos que podem ser gerados pelo Turismo na localidade, de forma que os planejadores turísticos saberão onde e como atuar para sanar ou pelo menos minimizar tais impactos.

As informações coletadas com a pesquisa contribuíram sobremaneira para a proposta de um planejamento turístico que busca a integração da população local na dinâmica do Turismo, e em sentido último, objetiva o desenvolvimento local. Propõe-se o alinhamento do Turismo com a dinâmica econômica, social e cultural local, bem como o fortalecimento comunitário através das associações locais e a participação da comunidade no processo de concepção, planejamento, gestão e operacionalização do Turismo. Ressalte-se ainda a diversificação econômica para o município, bem como a inserção de atividades não agrícolas para o meio rural. Tal proposta preocupa-se com as dimensões social e espacial, e em manter uma relação mais intensa entre o turista e a população local, cujo produto turístico é conservado e não explorado, valorizando a gastronomia e o artesanato local, em um espaço caracterizado como o sertão potiguar.

Assim, constatou-se a relevante contribuição de pesquisas que estimule a participação da comunidade local dentro de um processo de planejamento turístico com bases sustentáveis, tendo em vista que a mesma, além de conhecer as peculiaridades do ambiente em que vive, precisa aceitar o Turismo em sua dinâmica, para que impactos negativos sejam minimizados e aspectos positivos potencializados.

 

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Artigo recebido para publicação em 28/07/2011 e aceito para publicação em 02/10/2011.