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Sociedade & Natureza

On-line version ISSN 1982-4513

Soc. nat. vol.23 no.3 Uberlândia Sept./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1982-45132011000300010 

ARTIGOS

 

O desempenho da indústria em Uberlândia entre 1996 e 2007: crescimento do setor de alimentos e bebidas e o retrocesso industrial

 

The industrial performance in Uberlândia between 1996 and 2007: growth of the beverage and foods sector and the industrial decline

 

 

Fernando Campos MesquitaI; André Tosi FurtadoII

IGeógrafo, Doutorando em Geografia, Instituto de Geociências, UNICAMP. Campinas/SP - Brasil. fernandocmesquita@gmail.com
IIEconomista, Professor Titular do Depto. de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da UNICAMP. Campinas/SP - Brasil. furtado@ige.unicamp.br

 

 


RESUMO

Este artigo discorre sobre as características que definem a dinâmica industrial em Uberlândia entre 1996 e 2007, focando no crescimento do setor de alimentos e bebidas e sua diversificação interna, com o fortalecimento da agroindústria processadora de carnes equiparando-se ao processamento de grãos. Esse processo é compreendido pela ótica dos novos elementos que caracterizam a economia brasileira após 1990, com a abertura econômica e a reestruturação industrial. Em tese, uma das características desse sistema seria privilegiar as indústrias intensivas em recursos naturais, cuja inserção no mercado externo ocorre de forma mais acentuada. No entanto, conforme buscamos demonstrar pelo estudo da microrregião de Uberlândia, a especialização no setor de alimentos e bebidas tem sido acompanhada por um retrocesso da indústria tanto em nível nacional, quanto estadual.

Palavras-Chave: reestruturação industrial. indústria intensiva em recursos naturais. setor de alimentos e bebidas em Uberlândia.


ABSTRACT: The main purpose of this article is to study the industrial dynamics of Uberlândia, located in Brazilian Minas Gerais State, between 1996 and 2007. Our focus is the beverage and food industry growth and the internal diversification, which the indigenous processing increases to a similar level of the grain processing. This situation was understood by the perspective of new elements that characterize the Brazilian economy after 1990's, like the trade liberalization and productive restructuring. In theory, this system tends to privilege the natural resources industry that has a high level of insertion in the international market. But, we demonstrate, by the study of Uberlândia, that specialization in beverage and foods industry causes a decline to the dynamism of this micro-region in proportion of Brazilians and Minas Gerais industry.

Keywords: industrial restructuring. intensive resources industry. food and beverage industry in Uberlândia.


 

 

INTRODUÇÃO

A partir da década de 1990, o Brasil passa por importantes transformações estruturais que interferem em um novo padrão de crescimento para a atividade industrial. Nesse período, a abertura econômica trouxe um profundo processo de reestruturação produtiva que privilegia os setores mais competitivos. Essas mudanças tenderiam a provocar uma nova dinâmica para a espacialidade da indústria devido aos benefícios que traziam para as regiões baseadas na produção com maior capacidade de inserção no mercado externo, assim como, àquelas que sofriam de forma menos intensa os impactos das importações sobre sua indústria.

Esse é o caso, especialmente, das áreas periféricas associadas à produção intensiva em recursos naturais, como a Microrregião de Uberlândia, localizada na Mesorregião do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, no cerrado de Minas Gerais.

A dinâmica industrial dessa microrregião, que está totalmente integrada às estratégias econômicas do agronegócio que abarcam grande parcela do Brasil Central, demonstra que as mudanças dos anos de 1990 implicaram em uma crescente especialização produtiva no setor de alimentos e bebidas, sobretudo, devido ao elo estabelecido entre a produção agropecuária para o processamento de soja e carnes.

O direcionamento da produção para o setor alimentício se contrapõe ao ensaio de diversificação que se formou nas décadas de 1970 e 1980, quando ganha maior destaque a produção de fumo e, com menor intensidade, de couros e têxtil. Diferentemente, constatamos que, o período de 1996 a 2007, marca uma inflexão dessas demais atividades, fazendo com que, conforme apontam os dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o setor de alimentos e bebidas, passe de 28,1% do Valor da Transformação Industrial (VTI) da microrregião, em 1996, para 62,8% em 2007.

No entanto, conforme busca-se demonstrar neste artigo, a resultante dessa transformação será desfavorável ao dinamismo industrial de Uberlândia, pois, paradoxalmente, nesse mesmo período, a microrregião apresenta uma forte queda no VTI de Minas Gerais, de 9,7% para 6,2%, e, no do país, de 0,8% para 0,6% (IBGE - PIA).

Assim, nosso objetivo é compreender os aspectos que caracterizam a especialização da indústria de Uberlândia no setor de alimentos e bebidas e, a partir de então, apontar a relação desse processo com o baixo dinamismo industrial registrado na microrregião. Essa associação favorece nossa interpretação a respeito das conotações espaciais das políticas de abertura comercial e de como esse modelo está atuando no dinamismo das áreas dependentes da produção agroindustrial

Dentro dessa perspectiva realizamos dois questionamentos: i) quais os motivos que definem a recente especialização de Uberlândia no setor de alimentos e bebidas, minimizando a diversificação existente nos anos de 1970 e 1980?; e ii) até que ponto esse tipo de inserção na divisão nacional do trabalho representa uma vantagem para a microrregião?

Para captar a dimensão da indústria em Uberlândia, este trabalho se apoia na análise do emprego industrial da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e nas informações sobre o VTI disponíveis nas Tabulações Especiais da PIA obtidas junto ao IBGE. Esses dados estão desagregados setorialmente a dois dígitos na Classificação das Atividades Econômicas 1.0 (CNAE 1.0) e, no caso da PIA, a três dígitos para o setor de alimentos e bebidas.

Cabe destacar que devido às tabulações da PIA estarem disponíveis no nível microrregional, tivemos que optar pela análise da indústria de Uberlândia a partir desse recorte, que, além do município de Uberlândia, inclui: Araguari, Araporã, Canápolis, Cascalho Rico, Centralina, Indianópolis, Monte Alegre de Minas, Prata e Tupaciguara. Porém, isso pouco altera o foco do artigo, que segue associada ao município de Uberlândia e, em menor grau, a Araguari, onde estão concentradas as produções industriais que agregam maior valor. No caso dos dados da PIA, favorece a concentração nessas duas cidades o fato da pesquisa utilizar para análise apenas os estabelecimentos com 30 ou mais funcionários, o que limita o estudo da indústria às unidades maiores e que geram mais valor.

Para contextualizar esse processo, dividimos o artigo em quatro tópicos, além desta introdução: i) uma breve caracterização da reestruturação na indústria brasileira após os anos de 1990; ii) um levantamento geral a respeito da estrutura produtiva da indústria em Uberlândia nos anos de 1996 e 2007; iii) uma análise específica e mais descritiva sobre o setor de alimentos e bebidas em Uberlândia, demonstrando os aspectos referentes à sua diversificação interna e as empresas que atuam nesse ramo; e iv) os motivos que definem o baixo dinamismo industrial de Uberlândia em comparação com o restante do país.

 

ABERTURA COMERCIAL E REESTRUTURAÇÃO INDUSTRIAL NO BRASIL APÓS 1990: OS PRIVILÉGIOS À PRODUÇÃO INTENSIVA EM RECURSOS NATURAIS

A reorientação na política econômica brasileira associada à adoção de medidas visando promover uma maior liberalização comercial condiciona um padrão distinto para o crescimento da atividade industrial durante os anos de 1990 e 2000. Nesse momento, o ambiente competitivo da atividade industrial passa para uma condição nova, que se contrapõe ao sistema fechado e autônomo, voltado para o fortalecimento do mercado interno, estabelecido pela política de "substituição de importações" que predominou desde a década de 1930 até meados de 1970 (TAVARES, 1972).

Inicialmente, esse panorama se modifica durante os anos de 1980 em meio à crise econômica. No entanto, as bases da reestruturação industrial se encontram no período que inicia na década de 1990, ou seja, após o surgimento "de um novo governo movido por um projeto de modernização da economia de cunho neoliberal" (KUPFER, 2005, p. 205).

A princípio, segundo Coutinho (1997, p. 86-87), essas reformas tiveram como resultado uma sobrevalorização do câmbio, com efeitos na "forte deterioração da balança comercial, crescente déficits em conta corrente e concomitantemente o retrocesso de parcela não desprezível da indústria doméstica". Assim, a reestruturação da atividade industrial inicia-se diante de uma conjuntura instável na economia brasileira.

Em 1994, com a adoção do plano Real - um dos pilares da busca de maior estabilização macroeconômica - tem início uma nova fase desse processo (KUPFER, 2005, p. 205). De acordo com Kupfer (2005, p. 206), as medidas adotadas no período representaram "um aprofundamento do grau de abertura efetiva que perdurou até a desvalorização cambial do início de 1999", reduzindo "os níveis de proteção real da indústria".

Desse modo, conforme demonstra Erber (2001, p. 187),

a indústria brasileira passou por um processo de intensa abertura às importações, em que estavam combinadas a valorização da taxa de cambio, eliminação de controles administrativos, redução de tarifas e a possibilidade de financiar importações em melhores condições do que as vendas internas.

Sendo assim, um dos elementos centrais da reestruturação industrial é a diferenciação setorial existente nos impactos causados pelos produtos importados. No caso, a abertura às importações se manifesta com maior intensidade, principalmente, nos setores de bens de capital e eletrônicos, induzindo nessas áreas um processo de desindustrialização devido à "forte substituição de insumos locais por importados, fechamento de linhas de produção e de unidades fabris" (COUTINHO, 1997, p. 92). Com efeito, como aponta Coutinho (1997, p. 94), pode-se afirmar que existe uma clara correlação "entre o baixo dinamismo de muitos setores industriais e a marcante penetração de produtos importados".

De forma geral, os estudos realizados sobre o processo de reestruturação da indústria indicavam a tendência de um direcionamento da produção para atividades de maior inserção no comercio internacional, como é o caso, sobretudo, das indústrias intensivas em recursos naturais (COUTINHO, 1997; ERBER, 2001; KUPFER, 2005).

Um desses trabalhos, por exemplo, realizado por Erber (2001, p. 184), a partir da análise dos anos de 1989 e 1997, constata que

aumenta substancialmente a participação dos setores baseados em recursos naturais, em detrimento dos setores intensivos em mão de obra e dos fornecedores especializados, ao passo que os setores intensivos em escala ou ciência mantém, aproximadamente, sua participação.

Segundo o autor, uma das explicações desse movimento da indústria nacional está no fato da estrutura das importações, que apresentaram "uma perda de peso relativo dos setores intensivos em recursos naturais, onde o Brasil usufrui de vantagens comparativas", ao passo que ocorre um aumento na demanda por exportações desse tipo de produção, que divide a liderança "com os setores intensivos em escala" (ERBER, 2001, p. 188).

Basicamente, essa condição revela, segundo Coutinho (1997, p. 94),

a fragilidade estrutural da posição competitiva brasileira, baseada em setores produtores de commodities, de grandes escalas de produção, intensivos em matérias-primas de base agrícola, em recursos naturais e energia, com grau relativamente baixo de transformação industrial.

A reestruturação industrial também se apoia na "mudança na composição por origem do capital de empresas líderes", marcada, em uma primeira etapa, entre 1991 e 1996, pela "transferência de receita das empresas estatais para as empresas privadas, independentemente da nacionalidade" e, em uma segunda etapa, entre 1996 e 1999, pela "transferência de receita das empresas nacionais, independente da natureza pública ou privada, para as empresas multinacionais" (KUPFER, 2005, p. 212). Segundo Kupfer (2005, p. 212), esse processo marca no primeiro momento uma desestatização da indústria no país e, no segundo, uma desnacionalização.

Essa modificação na estrutura industrial brasileira apresenta certa relevância devido ao destino dos investimentos realizados no setor industrial, que, ao minimizar a participação do Estado em setores "estratégicos", acompanhavam as características da reestruturação em curso no país. Nesse sentido, como demonstra Coutinho (1997, p. 103), esses recursos se concentravam "na 'velha' especialização competitiva em commodities de baixo valor agregado".

No início dos anos de 2000, conforme demonstram Cano; Silva (2010, p. 6),

o Presidente Lula assume em primeiro de janeiro de 2003 e mantém a política macroeconômica que vinha sendo executada desde 1999, apoiada na combinação do regime de metas de inflação com o câmbio flutuante e a política de geração de superávit fiscal primário, visando a continuidade do controle inflacionário

De modo que não vigorava no país uma mudança significativa no campo da política econômica capaz de alterar o contexto da reestruturação industrial. No entanto, cabe acrescentar que, nesse momento, foram implantadas políticas industriais de caráter horizontal, como a Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), que favoreciam o "desempenho da indústria no seu conjunto e de sua contribuição para o crescimento e para o fortalecimento da inserção da economia brasileira no cenário internacional, a despeito do bom desempenho de algumas empresas e setores individualmente" (CANO; SILVA, 2010, p. 10).

Ao focar na dimensão espacial da economia, uma das tendências é que as regiões baseadas na produção industrial favorecidas no curso da reestruturação sejam as principais beneficiadas no quadro econômico nacional. Porém, conforme buscamos demonstrar no caso de Uberlândia, a inserção nesse modelo reflete em um retrocesso da atividade industrial da microrregião tanto no contexto estadual, quanto nacional.

A princípio, antes de focar especificamente nessas questões, cabe discorrer sobre os elementos caracterizam a estrutura industrial de Uberlândia.

 

A COMPOSIÇÃO SETORIAL DA INDÚSTRIA EM UBERLÂNDIA ENTRE 1996 E 2007

A condição periférica da inserção de Uberlândia na divisão nacional do trabalho permite a essa microrregião alavancar o crescimento, principalmente, de setores com menor absorção de progresso técnico.

Nesse contexto, ao considerar a classificação proposta por Furtado e Quadros (2005), com base na divisão dos setores industriais quanto a sua intensidade tecnológica, assim como, os dados da Rais referentes ao emprego industrial, atingimos os resultados demonstrados na Tabela 01:

Primeiramente, cabe observar que, em 1996, 87,8% do número de empregados em Uberlândia se concentraram nas atividades de baixa intensidade tecnológica, enquanto em 2007, esse valor passa para 90,6%, o que indica uma continuidade do dinamismo dessas indústrias que, no período analisado, apresenta um acréscimo de 12.603 empregados.

Em segundo lugar, o grupo mais importante de Uberlândia é o de média-baixa intensidade tecnológica que, no entanto, apresenta uma queda de 2,4 p. p. Nesse caso, devido à esses valores serem reflexos da forte redução do emprego no âmbito da produção de "Coque, refino de petróleo e combustíveis nucleares e álcool", cuja hipótese para a queda é uma mudança metodológica na classificação nas indústrias sucroalcooleiras - que predominam nesse setor - para o ramo alimentício, pode-se contatar que a indústria de média-baixa intensidade tecnológica vem, na verdade, tendo certo dinamismo na microrregião.

Em relação ao grupo de média-alta intensidade, Uberlândia registra um acréscimo de 0,4 p. p., conduzidos pelo crescimento da produção de máquinas e equipamentos. A evolução desse setor representa um deslocamento para as regiões de cerrado, ainda que pequeno, da produção de máquinas integrada à industrialização para a agricultura. Até o momento, essas indústrias tem se concentrado no interior paulista, apresentando pouca dispersão espacial.

Por fim, outro ponto que representa a composição setorial da indústria em Uberlândia é a queda de representatividade do grupo de alta intensidade tecnológica, que passa de 1,4 para 0,6% do emprego industrial. Essa perda é o resultado do baixo dinamismo de todos os setores desse grupo, que registram perdas tanto relativas quanto absolutas.

Nesse sentido, os principais aspectos que caracterizam a dinâmica industrial de Uberlândia estão associados ao funcionamento e à reorganização interna no setor de baixa intensidade tecnológica, sobretudo, na produção intensiva em recursos naturais atreladas à produção de fumo e de alimentos e bebidas. Juntas, essas indústrias respondiam por 52,0% do emprego industrial em 1996 e 61,1% em 2007.

Esses setores, no entanto, apresentam comportamentos opostos entre os anos de 1996 a 2007. De um lado, a produção de fumo concebe uma forte redução (-1.073) no emprego industrial, registrando uma queda de 8,8 p. p., de outro, o setor de alimentos e bebidas concebe um acréscimo de 10.854 empregados na indústria, que representam um avanço de 17,9 p. p. no total da microrregião.

A queda na produção de fumo representa um dos aspectos centrais da dinâmica industrial dessa microrregião no período recente, pois, no município de Uberlândia está localizada a fábrica de cigarros da Souza Cruz, uma das mais importantes no país.

No entanto, ao se analisar a atividade industrial com base nos dados de emprego, deve-se considerar que a queda registrada pode ser o resultado tanto de um aumento da produtividade, quanto de cortes na produção e redução dos gastos. Esses aspectos recebem maior relevância nos anos de 1990 devido ao maior descompasso que passa a ocorrer entre o crescimento da produção física e do emprego (KUPFER, 2005, p. 207).

Desse modo, cabe se questionar em que medida essa involução decorre do regresso das atividades de processamento de fumo.

Um primeiro indicativo de que a queda registrada na Souza Cruz se associa à perda na geração de valor refere-se à dinâmica espacial do Complexo Agroindustrial (CAI) fumageiro, cujos segmentos estão se concentrando na região Sul. Essa reconfiguração pode ser identificada tanto em relação ao processamento agroindustrial, em que a porcentagem do VTI da produção de fumo da região Sul no país passa de 41,2% em 1996 para 72,9% em 2007 (IBGE - PIA), quanto em relação à produção agrícola, que, conforme revelam os dados da PAM, existe uma concentração das lavouras de fumo dessa região, com 93,81% da área colhida no país em 2007, enquanto o Centro-Oeste e a Mesorregião do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, juntos, respondem por apenas 0,04% desse valor.

Essa condição influencia na decisão da Souza Cruz de se construir uma nova unidade na região metropolitana de Porto Alegre, no município de Cachoeirinha, em 2003. Desse modo, a unidade do Triângulo Mineiro perde sua exclusividade no processamento de fumo, para uma fábrica que, por seguir os moldes tradicionais de localização das agroindústrias e apresentar um posicionamento mais favorável para as exportações, tende a apresentar maiores vantagens para esse tipo de atividade.

Um segundo indicativo para a inflexão na produção de fumo consiste no crescimento do setor de alimentos e bebidas, registrado pelos dados de VTI da PIA, entre 1996 e 2007, que se apresenta de forma bastante intensa (+34,7 p. p.).

Desse modo, ao contrário da condição que se construiu em Uberlândia nas décadas anteriores, no período recente, a produção de fumo não apresenta um dinamismo equiparável à indústria de alimentos e bebidas. Com efeito, o tecido industrial dessa microrregião passa a se formar a partir da evolução alcançada pelo setor alimentício e as linhas de produção associada às cadeias produtivas que se deslocam para as regiões de cerrado e do retrocesso da diversificação que havia sido apoiada pela indústria de fumo.

 

O DINAMISMO DO SETOR DE ALIMENTOS E BEBIDAS EM UBERLÂNDIA: CRESCIMENTO E DIVERSIFICAÇÃO INTERNA

A dinâmica industrial de Uberlândia, entre 1996 e 2007, confirma a especialização que acompanha as vantagens propiciadas pela associação entre o crescimento da produção agropecuária e agroindustrial nas regiões do cerrado brasileiro. No caso, a agroindústria processadora da microrregião se insere tanto na cadeia de matérias-primas agropecuárias que podem se deslocar por maiores distâncias, quanto naquelas que devem ser produzidas em uma área próxima ao local de processamento.

No primeiro caso, os principais produtos agrícolas são a soja e o milho, que, além da possibilidade de serem produzidos em Estados como o Mato Grosso e processados no Triângulo Mineiro, são culturas passíveis de armazenamento.

Ainda nesse tipo de funcionamento das agroindústrias, cabe acrescentar a associação com o rebanho bovino no Centro-Oeste e o abate realizado no Triângulo Mineiro e o transporte de leite de outras parcelas do cerrado para as indústrias de laticínios.

No segundo caso, referente à necessidade de o processamento ser realizado próximo às fontes de matéria-prima, Uberlândia insere-se em três cadeias: i) na cana-de-açúcar, em que, considerando-se os dados de 2007, embora a principal microrregião produtora de Minas Gerais seja Uberaba, com um total de 110.740 hectares colhidos de cana-de-açúcar, Uberlândia aparece como a terceira maior microrregião produtora do Estado de Minas Gerais, com um total de 54.790 hectares colhidos (IBGE - PAM, 2007); ii) na produção avícola, cujo sistema organizacional da indústria está baseado em sua relação com as granjas locais, os dados da PPM indicam que Uberlândia, em 2007, apresentou um importante rebanho com 7.172.424 cabeças; e iii) no caso do rebanho suíno, o total foi de 826.821 cabeças, o que faz dessa microrregião a quarta maior produtora do país e a principal fora da região Sul.

A produção agropecuária que insere na área de influência de Uberlândia nos permite realizar duas constatações: a primeira e a mais evidente é que esse sistema cria um local altamente atrativo para o setor de alimentos e bebidas; e a segunda é que, por si só, o posicionamento da microrregião em relação à dinâmica espacial assumida pela agricultura brasileira constitui-se um elemento da diversificação dessa indústria.

A primeira constatação pode ser confirmada com base no dinamismo do setor de alimentos e bebidas em Uberlândia, que não cresce apenas no âmbito local, como passa, entre 1996 e 2007, de 14,5% para 24,0% no VTI do setor em Minas Gerais e de 1,3% para 2,4% em comparação com o país (IBGE-PIA).

A segunda pode-se identificar no fato de que esse crescimento é resultado do dinamismo alcançado por três grupos, a três dígitos da CNAE, referentes à divisão de alimentos e bebidas: i) a "produção de óleos, gorduras vegetais e animais", aqui denominada como processamento de soja, que, conforme demonstra Belik (2001, p. 67), representa "uma participação superior a 90%" da matéria-prima para produção de óleo; ii) o "abate e preparação de produtos de carne e pescado", aqui denominado, processamento de carnes; e iii) a "moagem, fabricação de produtos amiláceos e de rações balanceadas para animais", aqui denominada, moagem, produtos amiláceos e rações. A participação dessas três ramificações do setor de alimentos e bebidas no VTI pode observada no Gráfico 01.

Nota-se que a agroindústria processadora de soja, mesmo com a perda de participação relativa de 58,9% em 1996 para 35,9% em 2007, mantém-se como o mais importante ramo do setor de alimentos e bebidas. A agroindústria processadora de carnes concebe o mais alto crescimento relativo, passando de 5,9% para 27,6%. O terceiro grupo a registrar maiores taxas é o de moagem, amiláceos e rações, que, com um dinamismo quase simétrico na produção de carnes, registra uma elevação de 2,8% para 12,4%.

Além da produção alimentícia diretamente associada ao agronegócio de carnes e soja, entre os setores que elevam sua participação no VTI do setor de alimentos e bebidas da microrregião entre 1996 e 2007, merece destaque: i) as indústrias de açúcar e de torrefação de café, que em seu conjunto passam de 0,6 para 10,1%, indicando, sobretudo, a nova tendência da agroindústria de Uberlândia associada à cana-de-açúcar para produção de açúcar e álcool; ii) a produção de bebidas, que passa de 4,3 para 4,6%. Entre as indústrias que perdem participação nesses valores, deve chamar a atenção para: i) a indústria de outros produtos alimentícios, que registra a maior perda no setor de alimentos e bebidas, passando de 11,3 para apenas 0,8%; ii) a de conserva de frutas e outros vegetais, que passa de 10,2 para 4,5%; e iii) a produção de laticínios, que, embora passe de 6,6 para 5,2%, continua apresentando uma importante participação na economia local (IBGE - PIA).

Conforme pode se observar nos dados da PIA, o dinamismo da indústria de Uberlândia segue atrelado, principalmente, às agroindustriais processadoras de soja e carnes, que, em 2007, ocuparam, juntas, 39,4% do VTI total da microrregião e 62,8% desse valor no setor de alimentos e bebidas. Nesse ponto, caso tivéssemos a possibilidade de separar a classe a quatro dígitos "fabricação de rações balanceadas para animais" do setor de moagem, amiláceos e rações, delimitando de forma mais precisa o movimento da cadeia de rações-carnes, certamente, essa concentração se mostraria ainda mais intensa, próxima de três quartos da geração de valor na indústria de alimentos e bebidas. Sendo assim, cabe discorrer de forma mais detalhada os aspectos que caracterizam esses dois tipos de produção.

a) A agroindústria processadora de soja

Entre 1996 e 2007, a participação da indústria processadora de soja em Uberlândia no total do VTI nacional passa de 7,8 para 11,2% (IBGE-PIA), o que torna a microrregião uma das principais localidades desse grupo no país.

Esse crescimento se deve a três grandes empresas localizadas no município de Uberlândia: i) a multinacional ADM, de capital norte-americano; ii) a multinacional Cargill Alimentos, também de capital norte-americano; e iii) a ABC Algar, empresa de capital local.

Em relação à ADM, além de Uberlândia, essa empresa possui mais cinco fábricas de processamento de soja no Brasil, localizada nos municípios de: Três Passos (RS), Joaçacaba (SC), Paranaguá (RS), Campo Grande (MS) e Rondonópolis (MT), onde está a maior unidade do grupo (LIMA, 2009, p. 10). "As seis unidades de processamento no Brasil têm capacidade total de 3,5 milhões de toneladas por ano, quase totalidade da produção é dirigida ao mercado interno" (LIMA, 2009, p. 10).

Essa empresa, conforme demonstra Belik (2001, p. 71), operava "no Brasil e Argentina com silos, armazéns e embarque de soja em grão", entrando somente no final de 1997 no mercado de processamento ao adquirir 85% da capacidade instalada no Grupo Sadia. Assim, quando a Sadia Alimentos adquire a Rezende em dezembro de 1999, em 2000, conforme demonstra Lima (2009, p. 10), "a ADM adquiriu as operações de soja da Granja Rezende".

Em relação à Cargill Alimentos, no período atual, além de Uberlândia, essa empresa possui unidades processadoras de soja em Ponta Grossa (PR), Mairinque (SP), Três Lagoas (MS), Barreias (BA) e Rio Verde (GO) (CARGILL, 2007, p. 16), sendo importante mencionar também a nova unidade em Primavera do Leste (MT) inaugurada em 2009. Essas fábricas garantem à Cargill a segunda posição entre as principais processadoras de soja localizadas no território nacional (CARGILL, 2007, p. 2), ficando atrás da Bunge Alimentos.

Segundo a Revista Cargill (2010, p. 8), em Uberlândia está localizado "o maior complexo industrial da Cargill fora dos Estados Unidos", de modo que é nítida a importância dessa unidade, que desde sua implantação até os dias atuais, assume um papel de destaque no impulso ao setor de alimentos e bebidas.

Um dos principais motivos do dinamismo dessa multinacional está na diversidade de linhas de produção e das cadeias produtivas que compõe sua unidade em Uberlândia, onde, além das unidades de armazenamento e de sua atividade principal associada ao processamento de soja, para obtenção do óleo e do farelo, "em 1990, a Cargill inaugurou no local a planta de processamento de milho e, dez anos mais tarde, a de ácido cítrico" (REVISTA CARGILL, 2010, p. 9). A inserção do processamento de milho foi um dos responsáveis por ampliar o mercado de atuação dessa empresa, por meio da produção de amidos e adoçantes, e, segundo Cleps Júnior (1998, p. 229), pela sua inserção no setor de rações.

No relatório anual da Cargill (2007) é possível observar que a unidade de Uberlândia também produz: i) acidulantes, obtidos da cana-de-açúcar e utilizados como matéria-prima por outras indústrias alimentícias; e ii) óleos e lubrificantes industriais, que se referem à elaboração do "óleo ácido de soja, aplicado por indústrias químicas, de mineração, tintas e fertilizantes" (CARGILL, 2007, p. 15).

Por fim, cabe destacar o papel da ABC Inco (atual Algar Agro) uma das poucas empresas de capital nacional que permanecem no setor de esmagamento de soja. Além de Uberlândia, existe outra unidade em Porto Franco (MA), inaugurada em 2007.

A fábrica de Uberlândia é uma das remanescentes da forte reestruturação por que o grupo Algar passa a partir de 1989, quando reduz de 54 para 31 seu número de empresas e em 50% no número de funcionários (CLEPS JÚNIOR, 1998, p. 220). Nesse contexto, de acordo com Cleps Júnior (1998, p. 225), a ABC Inco utilizou novas estratégias, como: i) "verticalização da produção de óleo de soja, com a instalação de um novo sistema de envasamento"; ii) "montagem de uma estrutura própria no Brasil, com capacidade para armazenar 65 mil toneladas de grãos"; e iii) "entrar na produção de derivados de soja - leite e leticina -, sabão em pó e sabão líquido".

De forma geral, considerando-se os dados da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE), referentes à capacidade de processamento de oleaginosas em Minas Gerais, cujo valor, por sua vez, tende a ser próximo ao de Uberlândia, onde estão localizadas as principais unidades do Estado, é possível observar, entre 2001 a 2007, ocorre um crescimento de 5.750 para 6.600 t por dia, que, no entanto, representa uma queda de 5,3 para 4,4% no nível nacional. Essa perda relativa se deve, sobretudo, ao avanço da capacidade de processamento no Centro-Oeste, especialmente em Goiás, que passa de 8.660 para 19.250 t por dia, e no Mato Grosso, onde esse total passa de 10.820 para 22.000 t por dia.

Essa condição se repete em relação à capacidade de refino, para o que os dados da Abiove indicam que, entre 2001 e 2007, Minas Gerais passa de 1.050 para 1.270 t por dia, valor esse que representa uma queda de 6,5 para 6,0%, enquanto, por outro lado, a capacidade de refino em Goiás passa de 1.420 para 3.070 t por dia entre 2001 e 2007 e, no Mato Grosso, esse valor passa de 600 para 2.700 t por dia.

Esses dados indicam que o processo de polarização das áreas do Centro-Oeste que beneficiou o crescimento da indústria de óleos em Uberlândia ao longo dos anos de 1970 e 1980 tende a diminuir mediante os novos investimentos que estão sendo realizados na agroindústria centroestina e que possibilitam o processamento da soja na própria região. Nesse caso, a vantagem nos custos de transporte está aproximando as esmagadoras de soja das fontes produtoras de matérias-primas, que, por sua vez, tem se deslocado juntamente com a fronteira agrícola, sobretudo, para os Estados de Goiás e Mato Grosso. Mas, ainda assim, esse processo, até então, deve ser interpretado como uma maior dispersão espacial atrelada ao crescimento desse mercado, e não como a minimização do papel de Uberlândia no esmagamento de soja.

b) A agroindústria processadora de carnes

A agroindústria processadora de carnes em Uberlândia não cresce apenas internamente, como também, passa de 0,6% para 3,3% do VTI nacional (IBGE-PIA).

Esse setor abrange um total de 12 unidades industriais na microrregião (IBGE - PIA), que se inserem nas linhas produtivas de aves, bovinos e suínos. Porém, cabe focar nos casos da Sadia Alimentos, no município de Uberlândia, e do frigorífico Mataboi, em Araguari.

No primeiro caso, a aquisição da Rezende permitiu à Sadia se inserir em Uberlândia com uma estrutura integrada a montante, com a produção de soja e rações e a jusante, com "industrialização de produtos alimentares finais como subprodutos da soja e carnes" (CLEPS JÚNIOR, 1998, p. 211), além de adquirir "um centro de excelência em genética avícola e de suínos", que despontava como "uma das maiores produtoras brasileiras de 'avós' e matrizes de frango de corte" (SADIA, 2004, p. 1). A Sadia passaria a se concentrar na industrialização dessas linhas de produção, aproveitando-se que já "na época da aquisição, a Rezende abatia 23,4 milhões de frangos/ano, 300 mil suínos/ano e fabricava 42 mil toneladas de produtos industrializados" (SADIA, 2004, p. 1). Além disso, a empresa investiu no crescimento da unidade de Minas Gerais com: a expansão do abate de suínos em 40%; e a mudança do perfil da produção de aves, com a introdução da linha de perus e adicionando um maior valor agregado à produção de frangos (SADIA, 2004). Essa empresa também avançou na fabricação de rações destinadas para aves e suínos.

Os investimentos realizados na ampliação da unidade de Uberlândia são reflexos de uma disputa travada a partir da inserção da Cargill no mercado nacional de carnes com a aquisição da Seara Alimentos. De acordo com reportagem da Isto É Dinheiro (SUPER, 2004, s/n), "Uberlândia foi brindada com investimentos totais de R$ 400 milhões, quase a mesma cifra que a Cargill usou para comprar a Seara e um pouco menos do que a Perdigão e seus integrados aplicaram (R$ 510 milhões) em uma nova fábrica em Goiás". Desse modo, segundo a matéria, "a Sadia transforma a unidade de Uberlândia (MG) em estrela da corporação. Ela passa a ser o maior complexo industrial e a única operação que vai reunir as suas três linhas de animais (frangos, perus e suínos), além de industrializados e rações" (SUPER, 2004, s/n).

Dessa forma, cabe observar o informativo da Sadia (2004, p. 1), segundo o qual

em 2000, a unidade de Uberlândia fechou o ano com um faturamento de aproximadamente R$ 200 milhões e contava com cerca de 4.000 colaboradores. Até setembro de 2004, o número de funcionários já havia chegado 5.000 e chegará a 8.400 num prazo de três anos O faturamento da unidade, que alcançou R$ 800 milhões em 2003 (quase 14% da receita bruta da Sadia no ano), deve atingir R$ 1 bilhão em 2004.

Nota-se o paralelismo entre os altos níveis do faturamento dessa empresa em 2003 e 2004 e o crescimento relativo do VTI do setor de carnes na produção de alimentos e bebidas em Uberlândia, que, nesses anos, dá um salto de 10,8 p. p., bem como o aumento de 4.299 no pessoal ocupado pela indústria de carnes de 2002 a 2003 (IBGE-PIA). Sendo assim, pode-se considerar que, em grande medida, o crescimento da produção de carnes em Uberlândia está atrelado diretamente ao dinamismo da Sadia Alimentos.

Outra empresa da produção de carnes, cujo crescimento está associado, sobretudo, ao mercado externo, é o frigorífico Mataboi, empresa de capital local que desponta como importante para a região desde o início da segunda metade do século XX, quando atuava na produção de charque. Atualmente, esse frigorífico compreende "setores de abate, desossa, resfriamento, congelamento e estocagem" (MATABOI, s/d), tendo como principal atividade a produção de carne bovina. Em 2008, o frigorífico abateu um total aproximado de 486 mil cabeças de gado, tornando-se um dos mais importantes do país (MATABOI, s/d).

De forma geral, devido à demanda por produtos derivados de carne se manter elevada, a tendência é que esse setor continue aumentando seu dinamismo. Isso faz com que essa parcela do cerrado brasileiro, mais próxima aos portos de Santos e Vitória, se torne um dos locais mais atrativos para esse tipo de produção agroindustrial. Nessa direção, cabe destacar a microrregião de Ituiutaba, também localizada no Triângulo Mineiro, onde o setor de carnes apresenta um alto dinamismo.

Desse modo, diferentemente de 1996 quando a agroindústria processadora de soja registrou a maior parcela do VTI do setor de alimentos e bebidas em Uberlândia, no ano de 2007, tal situação se torna distinta. Esse processo demonstra a diversificação e maior integração da atividade agroindustrial no âmbito dessa microrregião em benefício da produção de carnes, condição que tende a se acentuar nos anos posteriores.

 

O RETROCESSO DA ATIVIDADE INDUSTRIAL EM UBERLÂNDIA

O dinamismo da produção intensiva em recursos naturais, decorrente do processo de reestruturação industrial, se reflete claramente na recente diversificação do setor de alimentos e bebidas da Microrregião de Uberlândia, motivada pela expansão dos mercados internos e externos e pelo dinamismo de empresas como a Sadia S.A, assim como, no fortalecimento de grandes grupos agroindustriais do setor da soja, com a Cargill Alimentos, e, de forma geral, no próprio avanço desse setor frente aos demais. No entanto, esse processo não reflete em um maior dinamismo relativo da atividade industrial de Uberlândia, que, ao contrário, entre 1996 e 2007, retrocede relativamente em 36,1% no produto industrial do Estado de Minas Gerais, e em 25,0%, no âmbito nacional (IBGE - PIA).

Nesse ponto, a princípio cabe observar, no Gráfico 02, as variações referentes à participação do VTI de Uberlândia em Minas Gerais e no Brasil entre 1970 e 2007:

Note-se a existência de duas fases distintas na participação da indústria de Uberlândia, em relação tanto ao âmbito nacional como estadual.

Na primeira, de 1980 e 1996, o VTI da microrregião passa de 3,5 para 9,7% em Minas Gerais e de 0,3 para 0,8% em relação ao país. Paralelamente, a participação interna do setor de alimentos e bebidas no VTI de Uberlândia que, em 1980, registra 27,8% do total se mantém essa proporção, atingindo 28,1% em 1996 (IBGE - CENSO INDUSTRIAL, 1980; IBGE - PIA). Essa limitada alteração na participação do setor de alimentos indica a maior diversificação do tecido industrial que sustentou esse crescimento, pois, no período, entre as atividades, se destacavam, além do fumo, a indústria têxtil, com o estabelecimento da Daiwa Têxtil inaugurado em 1975, e de couros, com a unidade da Braspelco, implantada em 1986.

Outro fator é que o aumento da participação de Uberlândia, entre 1980 e 1996, ocorreu em função da crise econômica ter afetado de forma mais intensa os setores de bens de consumo duráveis e de capital, localizados nas regiões mais industrializadas do país, que, em alguns casos, apresentaram, inclusive, uma queda real em suas atividades (CANO, 2008, p. 112). Isso beneficiou os setores intensivos em mão de obra e recursos naturais, que foram pouco afetados pela instabilidade econômica. No caso, vigorava nos anos de 1980 uma continuidade da desconcentração agrícola, "induzindo novos projetos agroindustriais nos cerrados" (CANO, 2008, p. 110), que favoreciam os investimentos em Uberlândia, enquanto, por outro lado, reduziam-se drasticamente os índices de crescimento da indústria no país.

A segunda fase, de 1996 e 2007, define um momento oposto com a intensificação da especialização da microrregião no setor de alimentos e bebidas e a redução do dinamismo industrial. Inicialmente, mesmo considerando que, em grande medida, os ganhos relativos registrados no período anterior estivessem associados às diferentes manifestações da crise econômica nas regiões brasileiras, cabe indagar-se, porque, nessa segunda fase, a especialização de Uberlândia na produção agroindustrial não garantiu-lhe um dinamismo industrial equiparável ao restante do Estado ou do país.

Uma primeira explicação consiste na própria perda da diversificação no âmbito da indústria, com a concentração de atividades na produção de alimentos e bebidas, tornando sua economia mais vulnerável, pois se reduzia os mercados de abrangência.

Essa situação nos leva a considerar, assim como Breitbach (2005, p. 4), que no contexto de competição envolto pela globalização, a diversificação industrial se apresenta mais vantajosa para o desenvolvimento regional do que a especialização. Segundo a autora,

uma estrutura diversificada e baseada em recursos endógenos se apresenta, a nosso ver, como uma alternativa a ser reconhecida como válida para fazer face ao comportamento errático dos mercados internacionais. Uma estrutura industrial diversificada tem mais chances de se recuperar de intempéries passageiras, permitindo que os ramos com melhor desempenho assumam o comando, quando alguns passam por dificuldades. Assim, o desemprego em um ramo pode significar absorção de mão-de-obra por outro. Isso sem contar as possibilidades de integração do tecido industrial local, que a diversificação contribui para aprofundar. Dessa forma, é mais provável que o dinamismo global da região seja mantido, mesmo que nem sempre em níveis muito elevados. O importante é que uma região diversificada tende a ser mais adaptável, mais flexível às mudanças econômicas do que uma região altamente especializada.

Nesse sentido, mesmo que a diversificação registrada em Uberlândia nos anos de 1980 a 1996 estivesse delimitada pela produção de baixa intensidade tecnológica, essa condição revela ter sido mais propícia para a economia da microrregião junto ao mercado nacional.

Um segundo motivo, que constitui um agravante para o retrocesso industrial, é que essa microrregião se especializa em um setor de baixa intensidade tecnológica e menor valor agregado. Desse modo, a comparação de sua estrutura produtiva com as demais do país e do Estado de Minas Gerais tende a ser desfavorável, sobretudo, quando se tem a recuperação de outros setores da indústria.

No caso, a queda da participação registrada por essa microrregião em Minas Gerais ocorre devido ao maior dinamismo alcançado pelos bens de produção intermediários, que, conforme constata Cano (2008, p. 170), para o período de 1996 a 2003, "tiveram desempenho mais forte do que a média do setor industrial no estado", principalmente, no caso dos mais exportadores ou energéticos. Segundo o autor, merece destaque a produção de "Papel e Celulose, Metalurgia Básica e Derivados de Petróleo e de Álcool" (CANO, 2008, p. 170).

Em relação ao país, conforme pode ser observado no Gráfico 03, Uberlândia apresenta uma alta especialização em um setor que, diante da retomada do crescimento econômico, perde participação relativa (-1,6 p. p.) no VTI.

Esses dados revelam que nem todos os setores intensivos em recursos naturais foram beneficiados pelo processo de reestruturação industrial. No setor de alimentos e bebidas, por exemplo, mesmo com os benefícios propiciados pela abertura comercial a esse tipo de produção, devido ao seu menor grau de transformação industrial, ocorre uma redução na geração de valor em comparação com a indústria nacional.

Cabe destacar que essa atividade em Uberlândia inclui os segmentos mais dinâmicos do setor de alimentos e bebidas no período, a saber: o refino de açúcar e o processamento de carnes. No entanto, nesses casos, a microrregião recebe um incentivo que mais ameniza sua perda de dinamismo do que propriamente fornece maior impulso.

Assim, o modelo de crescimento industrial de Uberlândia foi vantajoso no período de 1980 a 1996, quando, de fato, as regiões baseadas na produção intensiva em recursos naturais apresentaram um acréscimo no produto industrial. Já entre 1996 e 2007, o contexto de maior estabilidade de determinadas indústria gera perdas relativas em setores como a produção de alimentos e bebidas, prejudicando assim, a ascensão industrial dessa microrregião.

Isso nos leva a concluir que o desempenho da indústria em Uberlândia fornece uma interpretação distinta a respeito das vantagens que a especialização envolta nas estratégias do agronegócio, com a associação da produção agropecuária e industrial, estaria trazendo para a atividade econômica, principalmente, para as parcelas do território nacional onde se deslocam somente a divisão responsável pelo processamento dos alimentos.

No entanto, tal constatação não significa afirmar que a microrregião tende a se manter dependente apenas da produção alimentícia. De um lado, o avanço recente da cana-de-açúcar ao Triângulo Mineiro está atraindo uma ampla gama de setores destinados à produção de açúcar e etanol que pode fortalecer novos empreendimentos industriais e gerar efeitos de encadeamentos distintos. Esse novo dinamismo, ainda que já registrado pela PIA na indústria de açúcar, até o momento, não apresenta uma capacidade comparativa com os complexos da carne e da soja. De outro lado, a indústria de óleos vegetais vem recebendo um novo impulso do mercado interno com a produção de biodiesel, que insere um novo componente ao setor.

De forma geral, nossa constatação é que Uberlândia tem apresentado um reforço a sua condição periférica apoiada na especialização no setor de alimentos e bebidas, que, por sua vez, proporciona uma perda de dinamismo. Essa condição nos possibilita apontar que a microrregião obedece às tendências envoltas na reestruturação industrial, direcionando sua estrutura produtiva para o setor de bens intensivos em recursos naturais, mas, isso não favorece um maior crescimento em comparação com as demais regiões do país e de Minas Gerais. Desse modo, as críticas realizadas ao modelo de inserção do Brasil no comércio internacional, baseadas, sobretudo, no direcionamento da produção para as commodities agrícolas, podem ser aplicadas às estratégias de desenvolvimento econômico do interior do país, onde tal pressuposto é adotado de forma mais intensa.

 

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Artigo recebido em 13/08/2011 e aceito para publicação em 20/09/2011.