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Sociedade & Natureza

On-line version ISSN 1982-4513

Soc. nat. vol.23 no.3 Uberlândia Sept./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1982-45132011000300014 

RESENHA

 

 

Mauro Maia Laruccia

Professor Dr. do Programa de Mestrado em Semiótica, Tecnologias da Informação e Educação da Universi dade Braz Cubas, da FEA/PUCSP, da Pós-Graduação da FAAP e das Faculdades Integradas. Campos Salles São Paulo/SP- Brasil. mauro.laruccia@gmail.com

 

 

KANE, Adrian Taylor. (Ed.). The Natural World in Latin American Literatures: Ecocritical Essays on Twentieth-Century Writings. Jefferson: McFarland & Co., Publishers, 2010. 252 p.

De acordo com Donald Worster, para desenvolver a história ambiental, não basta mapear o campo e se concentrar no puramente mental ou intelectual, na expectativa de encontrar a natureza nas sociedades humanas. Esse é um processo em que percepções, ética, leis, mitos e outras estruturas de significados se tornam parte de um indivíduo ou um diálogo coletivo com a natureza. É claro que, se a tentativa é buscar conclusões no cognitivo e traiçoeiro domínio semiótico, para, em seguida, reunir evidências aptas a apoiar tais conclusões, isso coloca um sério desafio. A literatura, porém, é uma fonte potencial - com limites e deficiências - para a qual os pesquisadores e historiadores ambientais podem voltar-se, a fim de, entre outros dados, buscar vestígios da natureza no discurso de um momento cultural específico. Em outras palavras, ficção e poesia qualificam-se como exemplos do que William Cronon afirmou serem fontes menos ortodoxas, ou seja, os tipos de provas que os pesquisadores e historiadores tomam emprestados de outras disciplinas, para desenvolver a história ambiental.

Para os historiadores ambientais interessados ​​em usar a literatura em seu trabalho, na totalidade ou em partes da América Latina, uma nova coleção de crítica literária sobre o século passado da ficção latino-americana e da poesia pode, provavelmente, ser valiosa. The Natural World in Latin American Literatures: Ecocritical Essays on Twentieth Century Writings, editado por Adrian Taylor Kane, afirma ser o primeiro trabalho de seu tipo para recolher exemplos de críticas de uma perspectiva ecológica sobre a literatura na América Latina. Kane explica, em seu prólogo, que só recentemente os estudiosos da literatura latino-americana começaram a usar teorias ecológicas e perspectivas. Portanto, o subcampo do ecocriticismo é menos desenvolvido entre os latino-americanistas do que entre os estudiosos literários de escritores dos EUA e da Europa. Jonathan Tittler abre a série de ensaios dessa obra apresentando uma visão geral do ecocriticismo - que ele define de forma sucinta, citando Glotfelty Cheryll, como "o estudo da relação entre a literatura e o ambiente físico" (p. 12) - que inclui a sua gênese, suas principais doutrinas, e oferece exemplos de como pode ser aplicado a uma amostra de escritos. O restante da coleção é composto de onze ensaios que colaboram em um trabalho específico, ou oferecem uma comparação entre duas ou três obras.

Alguns dos ensaios são úteis para pesquisadores não especialistas em literatura, pois destaca escritores mais novos, menos conhecidos, como o argentino Héctor Tizón, e a vanguarda de autores do passado, como Macedonio Fernández, também da Argentina. Outras vezes, a análise compete com escritores e obras com as quais a maioria dos leitores estarão familiarizados. Gabriel García Márquez é um, dentre os famosos, que ganha discussão em vários lugares, assim como as obras clássicas Don Segundo Sombra (1926), de Ricardo Güiraldes, Doña Barbara (1929), de Rómulo Gallegos e obras do bem conhecido escritor peruano Mario Vargas Llosa.

Os onze ensaios são agrupados em três seções. A primeira seção, intitulada "Natureza, Modernidade e Tecnologia na Ficção Latino-Americana do Século XX", é deliberadamente histórica. Baseia-se na premissa de que uma abordagem histórica da literatura oferece compreensão mais profunda da relação complexa natureza-cultura que, inevitavelmente, muda com as circunstâncias históricas. O segundo ensaio de Kane, por exemplo, intitulado "A Natureza e o Discurso da Modernidade na Ficção de Vanguarda Hispano-Americana", trata da tendência modernista dos anos de 1920 e 1930. Kane vê o humor da modernização dos líderes e a política de industrialização que se reflete na vanguarda de autores como Macedónia Fernández, da Argentina ou Salvador Novo, do México. Kane argumenta que a ausência da natureza ou da abstração, e mesmo o modo surreal com que são retratadas na ficção de vanguarda, refletem o foco urbano e o desrespeito pelo ambiente natural que predominou no pensamento latino-americano e nas políticas do período entre guerras.

O terceiro ensaio, "Nature in the Twentieth-Century Latin American Novel and in Cien Años de Soledad", é assinado por Raymond L. Williams, provavelmente o especialista mais realizado na coleção sobre a literatura latino-americana e especialmente sobre García Márquez. Seu ensaio é um dos vários que não são tão aplicáveis ​​a uma compreensão histórica da natureza na América Latina, como os historiadores podem esperar. Em vez disso, os estudiosos usam suas perguntas sobre o papel que desempenha a natureza em uma obra escrita, para chegarem a novas conclusões importantes sobre a escrita, o escritor, ou conexões comparativas entre outras literaturas. Williams defende uma nova maneira de apreciar a complexidade do romance, identificando "uma multiplicidade de filtros" que García Márquez usou na apresentação de suas versões da natureza em suas definições de ficção. Nas descrições da natureza, o autor baseou-se na tradição oral de contar histórias, ou em imagens de um artista europeu, pintor de cenas da América Latina, que, na verdade, nunca a tinha visitado. Em última análise, Williams conclui que o romance é menos sobre a natureza e a tecnologia do que sobre a tradição oral e escrita das imagens culturais da natureza e da tecnologia. O quarto ensaio, de Gustavo Llarull, também analisa Cien Años de Soledad e encontra na obra um retrato complexo e irônico da natureza e da tecnologia.

A segunda seção usa o tema provocativo das utopias, para tentar organizar os próximos três ensaios. No entanto, a noção de utopia só é realmente central para o segundo ensaio, que é a pesquisa de Marisa Pereyra sobre as teorias do ecofeminismo e da literatura utópica, resultante de uma análise da escritora nicaraguense Gioconda Belli e seu romance Waslala: Memorial del Futuro (1996). O primeiro artigo, de Lizbeth Paravisini-Gebert, é um passeio fascinante pelas causas ambientalistas em algumas partes do Caribe, nas décadas recentes, e as formas como os artistas, incluindo escritores, contribuíram para elas. O artigo não se articula e não se envolve na análise literária, como outros ensaios, mas trabalha com as fascinantes causas ambientais que Paravisini-Gevert optou por explorar, exceto no caso da ilha de Vieques, em Porto Rico, pouco conhecida fora de região. Outra conclusão interessante da pesquisa de Paravisini encontra-se em seu ensaio chamado "Caribe, utopias e distopias", no qual os ativistas assistem à derrota de suas causas, o que parece estar em desacordo com a afirmação otimista de Tittler de que escritores e críticos podem mudar as atitudes públicas e, por sua vez, inverter as ameaças ambientais atuais.

O ensaio final na seção Utopia, de Martín Camps, traça a evolução do papel que os pampas têm desempenhado na literatura argentina, ao longo do século XX. Os campos férteis foram lançados na década de 1920 com um importante papel, romantizado em narrativas regionais tais como Don Segunda Sombra. Buenos Aires, mais tarde, aparece como um lugar de escritores, tais como Héctor Tizón e Mempo Giardinelli, que têm dado atenção aos pampas e à Patagônia. Embora a natureza não seja mais romanceada, essa mudança reflete a preocupação renovada para o dano ambiental causado na Argentina pela globalização, de acordo com Camps.

Os três ensaios da terceira seção se aproximam pelo fato de compartilharem alguma atenção aos grupos oprimidos da sociedade. O ensaio de Dora Ramírez-Dhoore chama a atenção por estudar a ficção feita em língua inglesa pelos escritores chicanos Alicia Gaspar de Alba e Viramontes Helen María. Suas obras trazem a situação de trabalhadores mexicanos nos EUA, em propriedades ou fazendas e fábricas, bem como esclarece a degradação ambiental de áreas agrícolas e industriais onde esse trabalho é feito. Nessa coletânea, no entanto, o ensaio de Ramírez-Dhoore deixa a desejar devido à falta de esclarecimento, de revisão, enfim, de rigor na organização.

Ainda nessa seção, o ensaio seguinte, de Traci Roberts-Camps, examina um único escritor, Rosario Castellanos, e o papel da natureza em seu romance Oficio de Tinieblas (1962), ambientado na região de Chiapas, México. Como a região montanhosa de Chiapas também é lugar de comunidades extensas e exploradas pelo grupo dos Maya, esta história, que Castellanos delineia com características da década de 1930, apresenta protagonistas como Tzotsil Maya e um xamã. Roberts-Camps mostra como Castellanos revela tanto a opressão sofrida por esses índios como sua compreensão da natureza como forma distinta capaz de se comunicar com os humanos.

O ensaio final, intitulado "National Nature and Ecologies of Abjection in Brazilian Literature at the Turn of the Century", é o único na coletânea que aborda o Brasil. Esse estudo de Mark D. Anderson argumenta que as representações do ambiente natural brasileiro figuraram crucialmente em um esforço contínuo por parte de intelectuais para definir a primeira colônia e a nação. Este é o ensaio que caminha o mais próximo do trabalho dos próprios historiadores, porque suas fontes primárias são documentos de não ficção, em sua maior parte, e Anderson está atento à mudança temporal e aos contextos mais amplos de obras particulares. Anderson dedica mais atenção ao escritor Euclides da Cunha. Concentra-se nos pressupostos ecológicos, no trabalho do autor, em sua tentativa de postular um nacionalismo brasileiro por meio de descrições do interior árido do Nordeste e da Amazônia. Anderson defende um pressuposto básico de Euclides, em seu esforço para definir o nacionalismo brasileiro durante fase vulnerável da política do país, e que é compartilhado pela maioria dos intelectuais brasileiros em sua história. Segundo esse pressuposto, as regiões do interior e seus habitantes são resultado dos desvios do ambiente normativo e da sociedade encontrados na costa do Brasil. Anderson não dá conta de outros estudos históricos do Nordeste e da Mata Atlântica que seriam relevantes para o seu ensaio, mas tem êxito em demonstrar o elevado potencial de um enfoque ecológico ao explorar Euclides e seu gênero nacionalista.

Embora esta coleção não seja, propriamente, um texto para propor aos estudantes, mesmo em um curso de pós-graduação, é um passeio que vale a pena para os historiadores e pesquisadores que veem um lugar de evidência literária em seu trabalho sobre a história ambiental da América Latina. Enquanto isso, sua indicação seria aceitável para não especialistas em literatura, que poderão navegar por algumas partes da coleção. O percurso será bem-sucedido pela possibilidade de conhecimento de historiadores ambientais úteis para abordagens teóricas, bem como para o contato com uma literatura com potencial fonte para explorar o que Worster chamou de "as estruturas de sentido" que formam um diálogo entre a sociedade e a natureza.

 

 

Resenha recebida para publicação em 11/09/2011 e aceita para publicação em 02/10/2011