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Sociedade & Natureza

On-line version ISSN 1982-4513

Soc. nat. vol.24 no.2 Uberlândia May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1982-45132012000200015 

RESENHA

 

Larissa Arvelos

Aluna do curso de graduação em Geografia, Universidade Federal de Uberlândia larissa.arvelos@gmail.com

 

 

HARVEY, D.; TELES, E.; SADER, E.; et alOcuppy: movimentos de protesto que tomaram as ruas. São Paulo: Boitempo Editorial, 2012. 88p.

O livro "Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas" é uma coletânea de textos que colocam em pauta os movimentos sociais contestadores, que em 2011 manifestaram sua insatisfação com o sistema político vigente de pouca representação dos desejos da maioria e também com a economia que privilegia os interesses da elite. O movimento global dos "ocupas" é caracterizado pelos acampamentos de estudantes e trabalhadores em áreas públicas de centenas de cidades em todo mundo.

Na apresentação feita por Henrique Soares Carneiro, intitulada "Rebeliões e ocupações de 2011" é destacado o caráter espontâneo das mobilizações, expressas por rebeliões contra as estruturas políticas partidárias e sindicais da atualidade. O autor afirma que é necessário um novo projeto que articule uma representação dos anseios de transformação e ruptura. Ressalta também a participação política protagonizada pela nova geração, que por meio difuso de propagação da informação, utilizando-se da internet, sobretudo as redes sociais, mostraram os locais que os movimentos aconteceriam. Em sua opinião, o despertar para essa nova euforia política, num mundo dominado pelos ideais do individualismo, de perpétua continuidade do cotidiano e a carência de projetos coletivos para o futuro, gerou esta profunda indignação, que pode ser o germe de uma revolução.

Slajov Sizek, em "O violento silêncio de um novo começo", destaca a importância de os manifestantes trabalharem pacientemente para pensar alternativas para o futuro, não se focando apenas na negação do sistema capitalista, mas no que realmente querem para o futuro. Sizek afirma que com a participação das massas ao redor do mundo, um tabu foi rompido, pois o capitalismo aparece como o nome do problema e nenhuma maquiagem democrática poderia subverter o desejo de mudança. Ele é categórico em afirmar que a "ilusão democrática", aceitação dos mecanismos democráticos como moldura fundamental de toda mudança, evita a transformação radical das relações capitalistas. Para ele, não se pode esquecer que esses mecanismos democráticos, são parte do aparato "burguês", que garante o tranqüilo funcionamento da reprodução capitalista. Em sua opinião, a resistência ao diálogo faz-se necessária, neste momento de rebelião, uma vez que o debate se faz no território inimigo, o silêncio seria necessário para que com o tempo a nova proposta se posicione. Ele afirma que a apresentação de um conteúdo novo, só poderia ser iniciada por este gesto formal de rejeição. Afirma também que o povo já possui as respostas para a crise que passamos, apenas não sabe como formular as perguntas para seus sintomas, tarefa que caberia aos intelectuais da atualidade. A seu ver, os protestos de 2011 causaram um vazio na ideologia hegemônica e necessitariam de algum tempo para preenchê-la de maneira apropriada, posto que se trata de um vazio que carrega consigo um embrião, que seria a abertura para um projeto verdadeiramente novo.

Para Alexandre Peschanski, em "Os 'ocupas' e a desigualdade econômica", a distribuição de renda e patrimônio desiguais aparece como impulso crítico do movimento global dos "ocupas". A concentração de riqueza, na visão de Peschanski, é uma das principais bandeiras deste movimento. Para ele, os "ocupas" defendem, de maneira ampla, o mesmo acesso aos recursos por todas as pessoas e também a participação nas decisões da sociedade, especialmente daquelas que as afetam. Peschanski rechaça o crescimento econômico, defendido pelos manuais de economia, como redutor da desigualdade econômica, mostrando que os indivíduos ou grupos com o poder de determinar investimentos comandam a base da sobrevivência da maioria da população. Ele afirma também que a desigualdade econômica mina sistematicamente o funcionamento democrático, uma vez que os ricos possuem mais acesso aos tomadores de decisão, e, na política, existe uma tendência a privilegiar os interesses de quem controla os fluxos de investimentos.

Influenciados pela Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, o Movimento dos Indignados e o Movimento Geração à Rasca, são para Giovanni Alves, em "Ocupar Wall Street...e depois?", exemplos candentes da verdadeira globalização "dos de baixo", que hoje se contrapõe a globalização "dos de cima". Para o autor, estes movimentos constituem-se de densa e complexa diversidade social, que exprimem a universalização da verdadeira condição de proletariedade (os 99%). Giovanne Alves caracteriza-os como movimentos sociais pacíficos, com manifestantes de profunda consciência moral e senso de justiça social. Destaca a inovação destes movimentos, uma vez que eles lutam contra o capitalismo global que desterritorializa e anseia a territorialização ampliada, difusa e descentrada. Para ele, estes movimentos contestadores expõem as misérias da ordem burguesa, apodrecida pela financeirização da riqueza capitalista, expondo as contradições do sistema. Ele afirma que os movimentos sociais são reverberações do capitalismo senil e que os jovens nos obrigam a refletir sobre as formas e metamorfoses da consciência social. Ressalta o fervor em reconquistar de maneira coletiva e pacífica os territórios urbanos, verdadeiros espaços públicos marginalizados pela lógica neoliberal privatista, que os transformou em espaços de consumo. Segundo Giovanne Alves, a crise do capitalismo global mostra-se num impasse histórico inédito, o que resta saber é se a indignação proveniente dos movimentos de protesto acarretará em uma transformação efetiva.

No texto "Chega de chiclete" de Mike Davis, a retomada dos espaços públicos pelos "ocupas" provocou uma identificação com os desabrigados, pois os manifestantes vivenciaram esta condição aterradora. Esta identificação, seria o catalisador dos protestos e também o impulso para arrebentar os muros que separam o espaço não usado das necessidades humanas urgentes. Davis enfatiza a singularidade e o mérito do Occupy por utilizar da vontade política através do livre debate. Mostra o seu magnetismo em atrair grande número de pessoas, sobretudo a grande massa subjulgada pelos interesses capitalistas. Davis alerta para o fato de que a verdadeira recompensa para os manifestantes seria a aquisição da democracia econômica, que ele expressa como o direito de as pessoas comuns tomarem macrodecisões sobre o investimento social, taxa de juros, fluxos de capital, criação de empregos, aquecimento global e afins. Mike Davis caracteriza a mobilização Occupy the Worl chamando-o de messiânico, generoso e cultivador da solidariedade mútua. Também destaca o poder transformador deste movimento, uma vez que ele propõe uma ética perigosamente igualitária.

Em "Amar uma idéia", Vladimir Safatle recorda a força das idéias que quando começam a circular desconhecem as limitações do espaço, pois detém a força para construir o novo. Demonstra que a idéia de mobilização na Tunísia contra a ditadura de Ben Ali, colocando o povo como protagonista, se dispersou pelo mundo, disseminando esse ideal. Vladimir Safatle coloca em cheque a eterna democracia, aquela que está sempre por vir, com suas imperfeições contínuas. Deixa explícito que quando se acredita que a democracia já está realizada na situação presente, todas as suas falhas aparentam ser impossíveis de serem superadas. Para Safatle os manifestantes entenderam que a democracia parlamentar é incapaz de impor limites aos interesses do sistema financeiro. Entenderam que o cansaço em relação aos partidos, não é sinal de esgotamento político, mas sim urgência na demanda de politização da economia. Safatle enfatiza a importância de pensar antes de agir, mostrando que para encontrarmos uma verdadeira saída, devemos destruir as psêudocertezas que limitam a ultrapassagem dos problemas. Ele afirma que é necessário rechaçar a falta de liberdade que nos é imposta pela ilusão das possibilidades atribuídas ao consumo. Evidencia que a força crítica do pensamento é o único veículo de transformação da realidade, uma vez que respostas e alternativas só podem surgir do pensamento que reconhece quais são seus verdadeiros problemas. Safatle caracteriza o início da segunda década do século XXI como produtora de novas formas sociais impulsionadas pelo mal estar e desencanto político. As populações alcançaram uma consciência social e maturidade nunca vista antes. Ressalta a força que o pensamento crítico possui em moldar um futuro diferente, utilizando-se da consciência social com participação popular, o que é evidente no movimento Occupy.

David Harvey em "Os rebeldes na rua: o partido de Wall Street encontra sua nêmesis...", caracteriza o partido de Wall Street, afirmando seu controle sobre a mídia e partidos políticos, que ele financia. Mostra que Wall Street monopoliza os interesses do dinheiro em esferas diversas como a eleitoral, trabalhista, ambiental e comercial. Afirma seu monopólio da violência, que exclui o público do espaço público. Harvey mostra a abertura que Wall Street prontamente faz aos debates sobre medidas de austeridade e resgate de dinheiro público, mas jamais se abre à discussão sobre à  guerra de classes cruel que ela provoca. O autor demonstra como o poder coletivo de corpos no espaço público continua sendo o instrumento mais efetivo de oposição, quando o acesso a todos os outros meios está bloqueado. Afirma que para ter êxito, o movimento precisa atingir a todos (os 99%), todos os insatisfeitos que reconhecem que o partido de Wall Street não é só bárbaro, mas antiético, moralmente errado e completamente falido,aponta à necessidade de se criar uma organização política alternativa em que sua base seja a justiça social, a igualdade e uma aproximação consciente da nossa relação com a natureza.

Em "O espírito da época", Tariq Ali afirma que os manifestantes do movimento Occupy Wall Street que se instalaram no distrito financeiro de Nova York lutam contra o sistema do capital financeiro despótico. Ele aponta que os "ocupas" estão manifestando seu desprezo em relação aos banqueiros, aos especuladores financeiros e seus mercenários da mídia, que continuam insistindo na não alternativa à suas imposições. Afirma que o modelo de Wall Street adquire  versões locais ao redor do mundo, reproduzindo o modelo neoliberal que impossibilita a justiça social e as perspectivas de igualdade, o que é bem claro no caso da União Européia. A insatisfação expressa pelos ocupas no mundo todo é, segundo Tariq Ali, motivada por representações políticas ineficazes que governam um sistema vazio, onde o dinheiro domina tudo e o Estado serve para preservar o status quo financeiro e custear as guerras do século XXI. Tariq Ali afirma também a importância de se consolidar a luta pela distribuição de riqueza e justiça social com o apoio e a adesão do Occupy pela sociedade em geral. Ressalta por fim a necessidade de uma década de luta perseverante e organizada para enfim efetivar a vitória da democracia verdadeira.

Para Immanuel Wallerstein em "A esquerda mundial após 2011", a economia negativa e suas conseqüências fez de 2011 um bom ano para  se consolidar as perspectivas que permeiam as idéias dos intelectuais de esquerda. Segundo Wallerstein, a insatisfação com a polarização da riqueza, os governos corruptos e a natureza essencialmente antidemocrática dos governos em 2011, sejam eles multipartidários ou não, fizeram surgir uma oposição singular que resultou no movimento dos Indignados, a Primavera Árabe e Occupy Wall Street. Estas manifestações fizeram um abalo no discurso mundial, golpeando o neoliberalismo. Para ele, a esquerda mundial deve organizar-se superando suas diferenças em cada país, para que o sucesso inicial venha a se tornar transformação política. A unidade política da esquerda faz-se necessária para diminuir a dor a curto prazo, com medidas políticas imediatas, uma vez que o poder for conquistado. Wallerstein foca também a efetivação de medidas pontuais, para que a esquerda use táticas de modo apropriado respeitando as especificidades de cada nação, e que com o tempo, o sistema capitalista seja substituído.

Edson Teles em "Democracia, segurança pública e coragem para agir na política", usa exemplos de acontecimentos de 2011 para exprimir o caráter paradoxal do Estado brasileiro, que defende uma deliberada legalidade que viola os direitos humanos. Cita como exemplo a área da "Cracolândia" em São Paulo, que através da ação repressiva da polícia militar expulsou os usuários de crack num projeto higienista que marginalizou os ditos "crackeiros", e privilegiou os interesses imobiliários e comerciais da região. Cita também o bairro Pinheirinho que através de violência opressora da polícia, utilizando balas de borracha e spray de pimenta, desapropriou mais de 1600 famílias, seguindo uma ordem judicial do Tribunal de Justiça de São Paulo. Edson Teles, mostra o caráter contraditório da situação de Pinheirinho, uma vez que a área estava nas mãos de um especulador financeiro Naji Nahas. Teles afirma o caráter cruel do Estado que despejou um enorme contingente de pessoas não lhes garantindo moradia. Desse modo, Teles conclui que a democracia que participa do consenso da política contemporânea, no qual o discurso social dos direitos humanos legitima, paradoxalmente, tanto a resistência dos indivíduos e dos movimentos quanto a violência da ação do Estado. Fazendo refletir o momento grave de nossa vida social, na qual devemos decidir qual democracia queremos e mais do que isso, agir com radicalidade denunciando  a arbitrariedade política do Estado

Emir Sader em "Crise capitalista e o novo cenário no Oriente Médio", afirma que a crise capitalista iniciada em 2008 ganhou contornos mais expressivos em 2011, sobretudo com a recessão na economia européia e à eclosão dos movimentos sociais contestadores ao redor do mundo. Sader cita a queda das ditaduras no Oriente Médio, a conhecida Primavera Árabe, como um lento despertar para a transição política mundial. Afirma que as instabilidades e turbulências do imperialismo se prolongarão até que forças com capacidade de transformação possam se afirmar. Em sua opinião, o mundo sairá distinto da segunda década do século XXI, para melhor ou pior, pois os sintomas de esgotamento dos seus esquemas econômicos e políticos dominantes são evidentes.

O aspecto multifacetado da crise que presenciamos, motiva uma indagação sobre a contradição presente na sociedade contemporânea, gerando uma demanda por propostas que ultrapassem essa era de escassez e ruptura e promova medidas eficazes. Fazendo-se necessário indagar incessantemente sobre as perspectivas para o futuro, o que nos convoca a elaborarmos e defendermos novas alternativas. O livro estabelece o fervor do debate que deve ser incorporado por todos, sobretudo pelo seu caráter urgente.

 

 

Resenha recebida em 23/07/2012 e aceita para publicação em 31/07/2012