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Pandaemonium Germanicum

versão On-line ISSN 1982-8837

Pandaemonium ger.  no.14 São Paulo  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1982-88372009000100007 

A Construção Metafórica do Conceito 'Sociedade'em Perspectiva Comparativa,

 

Ulrike Schröder

Doutora em Comunicação Social pela Universidade de Essen, professora adjunta II da Faculdade de Letras da UFMG. Email: schroederulrike@gmx.com

 


ABSTRACT

Based on two corpora composed of four discourse genres each - spoken interviews, written interviews, newspaper articles and non-fictional books - the article focuses on the way one speaks metaphorically about 'society' in current German and Brazilian discourse. The study reveals that the image schemas tend to be more mixed and dynamic in the German corpus as compared to the Brazilian one and that the conceptual metaphors  -business, building, game, and observation - are more frequent, whereas in the Brazilian corpus, there is a more extensive use of personification, stage, flora, family, and war. In a second step, motivated by a more microanalytic and communicative approach, we turn our attention to 'highlighting' and 'hiding' effects connected to certain ideological backgrounds, strategic aims and speech functions linked to the preference of certain metaphors.

Keywords: Conceptual metaphors, image schemas, society  


RESUMO

Com base em um corpus de quatro gêneros textuais - entrevistas orais e escritas, artigos jornalísticos e livros de não-ficção - o artigo focaliza o modo como o conceito 'sociedade' é abordado metaforicamente em discursos brasileiros e alemães atuais. Os resultados mostram que certos esquemas imagéticos são mais misturados e dinâmicos no corpus alemão em oposição ao corpus brasileiro, onde a percepção da própria sociedade tende a ser mais estática. Com relação a metáforas conceituais, destacam-se as metáforas negócio, edifício, jogo e observação como mais frequentes no corpus alemão, ao passo que no corpus brasileiro  o uso das metáforas personificação, palco, flora, família e guerra é mais frequente. Acrescenta-se também uma microanálise que leva em consideração o contexto e as intenções dos locutores que revelam as funções comunicativas ligadas à preferência de certas metáforas.

Palavras-chave: Metáforas conceituais, esquemas imagéticos, sociedade


 

 

1. Introdução

Desde o nascimento da Teoria Conceptual da Metáfora (Lakoff & Johnson 1980), a metáfora não manteve sua concepção de mera figura trópica no sentido de um ornamento retórico, mas sim, passou a ser entendida como fenômeno cognitivo, no qual se observa um "cross-domain mapping in the conceptual system" (Lakoff 1993: 203), sendo um dos domínios o alvo (target domain) e o outro a fonte (source domain) do mapeamento metafórico. No entanto, nesse processo, ao invés de apenas se referirem descritivamente a um mundo externo, as metáforas passaram a atuar de forma prescritiva e performativa. Por fim, na relação entre indivíduo e sociedade, elas assumiram um papel mediador entre cognição e linguagem, tornando-se o meio central para a criação da cultura (Kövecses 2005: 2006). Enquanto servem à estruturação do nosso mundo interno e externo, no que tange à cognição, com relação à linguagem, elas potencialmente ocorrem em qualquer tipo de comunicação e, sendo assim, guiam também objetivos particulares de ação. Sob essa ótica, o que se torna relevante, são os aspectos semânticos, afetivos, comunicativos e pragmáticos das metáforas (Cameron 2007, 2008, Schröder 2007, 2009). Portanto, a relação entre metáfora e realidade é uma relação recíproca na qual, por um lado, a realidade cultural pode levar a um uso específico de metáforas; por outro lado, trata-se também de um processo no qual essa realidade somente se segue a sua prefiguração metafórica. Dessa forma, metáforas fazem circular imagens que têm uma função epistemológica e condutora, por coordenarem nossas ações cotidianas.

Ora, como no caso de outros domínios abstratos, também quando falamos ou escrevemos sobre 'sociedade', utilizamos metáforas para tornar um tal conceito tratável e estruturável, de algum modo. Com isso, tanto para as instituições sociais como para o indivíduo singular, tem uma relevância profunda se sociedade é conceitualizada como corpo, aparelho, sistema, contrato, nexo natural ou unidade jurídica, como aconteceu nas grandes abordagens filosóficas e sociológicas (Lüdemann 2004). Tais reflexões e criações teóricas sobre nossa realidade social ilustram que "die Einheit der Gesellschaft in der Gesellschaft nur als imaginäre Einheit, als semantische Imagination zu haben ist" (Fuchs 1992: 7).

Uma consequência importante dessa suposição sobre o caráter demiúrgico de metáforas é que locais culturais, sociais ou individuais distintos também contribuem de modos distintos para a construção metafórica da realidade. É o aspecto cultural da metáfora na construção do domínio discursivo 'sociedade' que buscamos explorar em nosso estudo. Em virtude disso, realizamos um estudo sobre o uso divergente de metáforas na tematização da sociedade atual nas comunidades de fala alemã e brasileira.

 

2. Procedimento metodológico

Para a realização do estudo foi composto um corpus com base em quatro gêneros distintos dentro de uma escala contínua da oralidade à escrita:

  • Entrevistas orais com 25 sujeitos em cada cultura (1 a 3 entrevistados por entrevista), resultando em um corpus de 15.926 palavras no caso brasileiro e 15.406 palavras no caso alemão;
  • Entrevistas escritas com 25 sujeitos em cada cultura resultando em um corpus de 7.086 palavras no caso brasileiro e 7.625 palavras no caso alemão;
  • Artigos jornalísticos online que tratam explicitamente do assunto 'sociedade brasileira/alemã atual' pré-selecionados por busca eletrônica, resultando em um corpus de 113.760 palavras no caso brasileiro e 102.455 palavras no caso alemão;1
  • Cinco livros de não-ficção de cada cultura, publicados entre 2005-2008 e relacionados ao tema 'sociedade brasileira/alemã atual', cuja seleção seguiu as listas de best-seller e suas respectivas resenhas nos meios de comunicação relevantes.2

Uma hipótese central que conduziu a escolha dos corpora supõe que esse contínuo represente uma 'scale of conventionality' (Kövecses 2002: 31; Beckmann 2001: 71-82) no que concerne metáforas mais lexicalizadas do lado das entrevistas e metáforas também criativas ou inovativas do lado dos artigos jornalísticos e livros em questão, isto é, metáforas inovativas, muitas vezes, têm sua origem em comentários feitos por políticos ou jornalistas e começam a circular nos meios de comunicação em massa, criando uma certa intertextualidade que influencia o modo como as pessoas falam sobre os assuntos em questão. Sendo assim, seria possível observar tendências que se desenvolvem nas respectivas culturas quanto ao surgimento, o desdobramento e a habitualização de certas metáforas-chave. Concomitantemente, isso nos leva de um macronível a um micronível de análise. Nesse sentido, o estudo combina procedimentos quantitativos com qualitativos.

Para a identificação das metáforas e sua sistematização, desenvolvemos as seguintes etapas:

Em um primeiro passo da análise, foram marcados todos os lexemas, ou seja, grupos de lexemas referentes ao tópico 'sociedade' que se destacam de um pano de fundo cotextual e contextual gerando, com isso, uma tensão semântica. Para etiquetar tais unidades lexicais como expressões 'metafóricas', aplicamos a metodologia 'Pragglejaz'3 (Steen 2007:88-91) acerca da questão (1) se as respectivas unidades lexicais têm um significado central e prototípico em outros contextos e (2) se esse significado central precede o significado atual do corpus em perspectiva diacrônica. Em casos mais complexos, foram consultados dicionários etimológicos. Em um segundo passo, foi decidido se o significado atual e contextual4 pode ser contrastado com o significado central e, ao mesmo tempo, se pode ser descrito como polissêmico no sentido de uma extensão metafórica do significado prototípico. Nesse caso, o lexema em questão foi identificado como 'metafórico'. Marcamos exclusivamente palavras de conteúdo semântico próprio (Steen 2002: 187).  Em seguida, agrupamos as expressões metafóricas em feixes e as categorizamos, isto é, elas foram agregadas a certos domínios fonte que serviram como doador da imagem.5

Para uma melhor ilustração, em uma primeira sistematização quantitativa, os resultados serão apresentados em dois passos, seguindo a distinção entre 'bildschematische Metaphern' e  'Konstellationsmetaphern' (Baldauf 1997), aliás, 'image-schema metaphor' e 'structural metaphor' (Kövecses 2002: 36-37):

As the name image-schema implies, metaphors of this kind have source domains that have skeletal image-schemas, such as the one associated with out. By contrast, structural metaphors are rich in knowledge structure and provide a relatively rich set of mappings between source and target. (Kövecses 2002: 37).

Tais esquemas imagéticos baseiam-se em nossas experiências físicas no mundo e nossas interações com o mundo, ao passo que metáforas de constelação possuem um conteúdo proposicional com imagens concretas conceitualizando topologicamente um domínio inteiro. Destarte, por exemplo, agrupamos certas expressões que ocorreram de modo singular, preservando uma estrutura conceitual meramente abstrata e não específica, sob o esquema caminho, enquanto a metáfora complexa viagem foi vista como metáfora de constelação, especificando, estendendo e animando o esquema abstrato do caminho. Expressões que pertencem a essa categoria refletem imagens concretas de uma viagem de trem, de avião, de carro ou de barco. Sendo assim, a delimitação serviu, sobretudo, para evitar etiquetas erradas ou especulativas.

 

3. Resultados

3.1 Comparação das metáforas de esquemas imagéticos

Um primeiro olhar lançado ao número absoluto de lexemas ligados a esquemas imagéticos e sua distribuição percentual nos dois corpora revela o seguinte resultado, no qual é diferenciado entre número de lexemas (token) e variação de lexema (type): 

 

 

 

 

Apesar de muitos paralelos face ao uso de metáforas de esquemas imagéticos também se encontram algumas nuanças cruciais apontando preferências da respectiva cultura:

A comparação intercultural mostra um número de lexemas maior para o domínio contêiner no corpus brasileiro, ao passo que o número percentual parece aproximadamente igual àquele do corpus alemão. Não obstante, no corpus alemão predomina verticalidade, favorecendo um número menor de expressões do domínio centro - periferia que, por sua vez, ocupa o primeiro lugar no corpus brasileiro. Entre outros motivos, essa tendência poderia ter raízes sócio-geográficas, uma vez que, no Brasil, o discurso sobre desenvolvimento urbano e arquitetônico é fortemente dominado pelo antagonismo centro - periferia. Nisso, muitas vezes, as camadas mais pobres estabelecem-se ao redor dos centros urbanos, ou seja, pode-se observar uma correlação entre estrutura local e social. O mesmo se vê no nível regional, no qual a polarização entre metrópoles ricas e interior pobre se destaca em oposição à Alemanha. A despeito disso, desde o começo do 'debate sobre a classe baixa',7 o esquema da verticalidade torna-se cada vez mais uma nova imagem central nos veículos de comunicação da Alemanha.

Ademais, chama atenção a metáfora conceptual do movimento, responsável por um número maior e uma variação maior de lexemas no corpus brasileiro. Ela pode ser interligada ao tópico clássico da esquerda, presente nas suas abordagens sobre a sociedade, nas quais os 'movimentos sociais' passam ao primeiro plano. 

Com relação à variação de lexemas, nos dois corpora, o esquema do caminho está em primeiro lugar, o que poderia ter algo a ver com a animação implícita desse esquema. Em princípio, podem-se observar mecanismos diferentes de dinamização. Sendo assim, no uso da linguagem, simplesmente não se encontram esquemas imagéticos universais e estáticos em correspondência com a visão tradicional da primeira geração da teoria cognitiva da metáfora (Lakoff 1987; Johnson 1987), pois dentro de um contexto sócio-cultural, tais esquemas são animados e surgem como 'esquemas imagéticos compostos' (Cienki 1997; Kimmel 2005; Sinha & Jensen de López 2000; Gibbs 2005).

Assim, no corpus alemão encontram-se configurações específicas que refletem algumas particularidades ligadas à cultura alemã, por serem encontradas apenas raramente no corpus brasileiro, como a frequente combinação dos esquemas verticalidade e caminho (1-5) na imagem de pessoas que caem ou tentam subir. Muitas vezes, esquemas como caminho, verticalidade, contêiner ou centro - periferia (6-8) são combinados como ilustram os seguintes exemplos. No exemplo (8), adicionalmente, o esquema da força é acrescentada:

 

(1) Die einen sind tief gefallen, die anderen haben nie abgehoben (Z32)
(Uns cairam profundamente, outros nunca levantaram)

(2) Abstieg in die Katakomben der Gesellschaft (S2)  (queda para as catacumbas da sociedade)
(3) die soziale Stufenleiter ist überhaupt glitschiger geworden. Der Absturz scheint von überall möglich (Bude 2008, 33)
(a escada social de patamares, em geral, tornou-se mais escorregadiça. A queda parece poder ocorrer em qualquer lugar)
(4) in den Strudel einer ‚Abwärtsspirale' zu geraten (Lessenich et al. 2006,35)
(cair  no turbilhão da ‚espiral para baixo')
(5) Die deutsche Gesellschaft geht immer weiter den Bach runter (EoA10)
(A sociedade alemã continua descendo o rio)
(6) Wer heute in den unteren Teil der Gesellschaft hineingeboren wird, hat nur wenige Chancen, dort im Laufe seines Lebens wieder herauszuklettern(S8)
(Quem nasce  dentro da parte baixa da sociedade, tem hoje apenas poucas chances de subir de lá no decorrer da sua vida)
(7) Besser als die Möglichkeiten der Armen, in die Mittelschicht zu klettern, sind die Aufstiegschancen der Mittelschichtler nach ganz oben. Rund elf Prozent der Beschäftigten schafften im gleichen Zeitraum den Sprung in die oberen Gehaltsklassen. (Z12)
(Melhor do que as oportunidades dos pobres de ascenderem para o interior  da classe média são as chances de ascensão da classe média até o topo. No mesmo período, aproximadamente onze por cento dos que têm emprego conseguiram o salto  para as classes salariais superiores)
(8) Es gibt Druck auf die Ränder, Hartz IV. Ich gehör' mittlerweile zu denjenigen, die den Druck gut finden, sozialpädagogisch, solange diejenigen, die wirklich staatliche Unterstützung brauchen, nicht aus dem Raster fallen (EoA5,1)
(Há pressão nas margens, Hartz IV. Entrementes, faço parte daqueles que acham boa essa pressão, pela perspectiva sócio-pedagógica, enquanto aqueles que realmente necessitam do apoio estatal não caírem para fora do retículo.)

Podemos entender tais 'esquemas imagéticos compostos' também como processos complexos da mesclagem, isto é, como 'integration networks' (Fauconnier & Turner 2008), nas quais domínios-input distintos se mesclam em um espaço novo. O quadro em seguida ilustra como será uma cobertura potencial de todos os esquemas analisados acima:

 

 

A forte animação dos esquemas imagéticos no corpus alemão pode ser vista em conexão com a percepção de uma sociedade que está em transformação, uma vez que, no corpus brasileiro, uma dinâmica comparável é vista em apenas sete artigos jornalísticos que se referem todos a uma estatística que, no início do ano 2008, constatou um crescimento incisivo da classe média, causado por uma melhoria das condições salariais da antiga classe baixa. Apesar disso, os esquemas imagéticos do corpus brasileiro são mais estáticos, e de vez em quando, é até explicitado que não há muitas mudanças na sociedade brasileira, quer dizer, verticalidade ou contêiner também são conceitualizados como modelos estáticos de modo consciente (9-11). No que tange ao esquema do caminho, essa tendência reflete-se na percepção da própria sociedade como objeto animado em movimento circular ou difuso que não consegue andar para frente (12-14).

(9)   Quem está dentro não sai, quem está fora não entra (V1)

(10) uma sociedade fundada na dominação patrimonialista de fundo estamental, pirâmide de ascensão previamente bloqueada para os despossuídos de todos os tempos, pendularmente (ausgehängt) oscilantes no trapézio da precariedade social (ESP3)

(11) o negro conhece o seu lugar (Almeida 2007, 231)

(12) fazendo a sociedade permanecer no círculo vicioso do apadrinhamento e se contentando com migalhas (Brotkrumen) (ESP6)

(13) Ela [a sociedade] ainda tá rodando círculo e não se achou (EoB4,1)

(14) [a sociedade] vive num fluxo que leva de nada para lugar nenhum (EoB4,2)

3.2 Comparação das metáforas da constelação

Os resultados acerca das metáforas da constelação podem ser resumidos da seguinte forma:

 

 

 

 

Os resultados, de um modo bem geral, afirmam a tese de Kövecses (2005: 67-87) de que, no caso da variedade cultural de metáforas, na maioria das vezes, não se trata de uma questão de domínios fontes distintos, mas sim, de conceitualizações preferenciais, como mostra, entre outros, o estudo de Schröder (2009) com relação às metáforas aplicadas por estudantes brasileiros e alemães para falar sobre domínio amor. Pois apesar dos domínios fonte aprendizagem e alimentação, sem correspondência no corpus alemão, todos os demais domínios, que revelaram pelo menos três ocorrências, podem ser encontrados nos dois corpora.

Como diferença mais crucial, o que chama a atenção é o número significativamente maior de personificações no corpus brasileiro, considerando tanto o número absoluto de ocorrências como a variação de lexemas. De fato, isso está em correlação com a observação de que a transição da palavra sociedade às pessoas que a compõem acontece mais naturalmente nas entrevistas brasileiras. Nisso, o ponto de partida frequentemente é formado pela perspectiva dêitica:

(15) "Acho que é uma sociedade oprimida, induzida e conduzida de acordo com a opinião da mídia nacional. Mas também somos extremamente calorosos, bem humorados, alegres e amáveis". (EeB2).

Daqui é apenas um passo pequeno para projetar os adjetivos, que são mapeados aos brasileiros, à sociedade em si. Essa disposição à personificação e a plasticidade ligada a essa tendência reflete-se, sobretudo, nos lexemas ligados ao corpo cuja variedade, no corpus alemão, reduz-se aos lexemas cabeça, , cara e testa. Em contrapartida, no corpus brasileiro, há 22 lexemas distintos que são usados para descrever a sociedade através do domínio corpo. Aqui, alguns exemplos:

(16) reforma atinge todo o arcabouço da sociedade nacional (EeB3)

(17) saindo da barriga da família passando para a barriga da sociedade, né (EoB7,1)

(18) fica de braços cruzados esperando as coisas acontecer (EoB11,3)

(19) a distribuição seletiva de privilégios segundo rótulos de raça inocula na circulação sanguínea da sociedade o veneno do racismo (E3)

(20) Com o road map nas mãos, o caminho está dado. (ESP6)

Por detrás dessa preferência metafórica, ao mesmo tempo, há uma preferência trópica, uma vez que os exemplos muitas vezes implicam em uma combinação entre metáfora e metonímia,9 mais especificamente, o que Goossens (1990) chama metonymy within metaphor. Por conseguinte, pode-se reconstruir o seguinte processo da metaforização:

               

 

Tais personificações dão um perfil nítido ao abstrato 'sociedade' e têm uma função concretizante pelo efeito de compressão que se vê na imagem.

Outra particularidade é o número alto de metáforas que são provenientes do domínio teatro / palco. Além de lexemas como Akteur / ator, Bühne/palco, Rolle/papel, Theater/teatro que se encontram nos dois corpora, há lexemas como copiar, máscara, espelhar, fingir, fachada, quimera, dissimulação etc., que servem a uma visualização da falsidade e dissimulação da sociedade e que parecem apontar para um tópico cultural, a saber, o estilo barroco, onipresente na cultura brasileira (Schröder 2004; 2006). As metáforas atributivas - as Attributionsmetaphern (Baldauf 1997: 79-92) - reforçam as personificações. De acordo com isso, a sociedade é descrita como sombria, invisível, opaca, nebulosa, emaranhada, intransparente, moralmente cinzenta, kafkiana etc., lexemas que foram agrupados no domínio intransparência.

Surge outra diferença no que diz respeito ao domínio fonte guerra: embora no corpus alemão, a elaboração lexical seja mais saliente, no corpus brasileiro, há um número significativamente maior de ocorrências, o que poderia ser explicado pela retórica da 'luta das classes', amplamente presente no discurso da esquerda (Schröder 2008). Sendo assim, por exemplo, no livro de Chauí et al. (2006), o lexema-chave luta/lutar, no total, aparece 23 vezes, o lexema movimento 17 vezes. Apenas nesse livro, lexemas ligados ao domínio guerra fazem 41% de todas as expressões metafóricas em oposição a 15,9% no corpus brasileiro inteiro. Nesses contextos discursivos, surge também o subdomínio revolução, formado por lexemas semanticamente interligados como revolução, lutar, escravo, marcha, militante, subjugar, explorar etc., que faltam no corpus alemão.

Metáforas que não se encontram no corpus alemão, mas sim, no corpus brasileiro, vêm dos domínios alimentação e aprendizagem, que são culturalmente específicos. Descrever a sociedade brasileira em termos de um processo de aprendizagem representa um tópico que se vê em muitas abordagens sobre a própria identidade brasileira, no que tange à tematização de nação ainda muito jovem.10 A projeção da sociedade brasileira em imagens compactadas como caldeirão, pizza, bolo ou coquetel recorre ao esquema imagético parte - todo, o que poderia estar em conexão com o conceito da miscigenação: a identidade brasileira é composta por etnias distintas que se misturaram, gerando um 'povo novo' (Ribeiro 1995), o que já se reflete em muitos títulos de livros.11Frequentemente, tais metáforas assumem uma função coesiva por serem rapid, concise, and vivid  (Ponterotto 2003: 294). Sendo assim, elas introduzem um novo tópico

Enquanto no corpus brasileiro, no domínio flora, a variação dos lexemas representa aproximadamente o dobro daquela do corpus alemão, essa relação se inverte, se olhamos para o domínio edifício. Aqui, o número da variação dos lexemas é mais alto no corpus alemão do que no corpus brasileiro. No uso dessa metáfora, também se pode observar uma maior criatividade, tornando a metáfora do edifício em uma analogia, por aprofundar certos esquemas imagéticos voltados para a topologia do domínio em questão. Bude (2008), por exemplo, desenvolve a metáfora casa da sociedade, que pode ser vista como extensão e concretização proposicional do esquema verticalidade ou hierarquia e contêiner, combinada com o domínio fonte tradicional edifício. Isso acontece mais vezes no corpus alemão do que no corpus brasileiro no nível textológico, de modo que metáforas se tornam 'isotexemas' (Plett 2001: 70-71), que podem até determinar toda a narração de um capítulo ou livro:

(22) Im Haus der Gesellschaft bewohnen beide Parteien [Unter- und Mittelschicht] ihre eigene Etage. Die einen müssen sich mit dem Parterre zufrieden geben, die anderen schielen auf die Beletage.        […] Die Ausgeschlossenen, um im Bild zu bleiben, gibt es auf jeder Etage. Sie drücken sich  herum, solange es geht, unten vermutlich länger als in der Mitte. […] Es kann aber passieren, daβ ein Einzelner aufgrund eines "kritischen Lebensereignisses" ins Strudeln gerät und wegen Miet- und anderer Schulden vor die Tür gesetzt wird. Nach und nach sammeln sich die Ausgeschlossenen im Flur und wissen nicht mehr, wohin sie gehören. (Bude 2008: 127)

(Na casa da sociedade, cada partido [a classe baixa e média] mora em seu próprio andar. Uns têm que morar no térreo, outros olham de soslaio para a cobertura. [...] Para continuar com essa imagem, os excluídos encontram-se em qualquer andar. Eles permanecem por  lá o mais possível, provavelmente por mais tempo embaixo do que no meio. [...] Mas pode acontecer que uma única pessoa comece a entrar em turbilhão e seja  jogado para fora da porta por causa de dívidas de aluguel e outras. Pouco a pouco, os exluídos se encontram no corredor e não sabem mais qual é o seu lugar.)

A densidade e o número de lexemas dos domínios jogo / competição são também mais altos no corpus alemão e a variação de lexemas do domínio negócio / empresa é até três vezes maior em comparação ao corpus brasileiro. Em expressões como "Karriere des sozialen Ausschlusses" ("carreira da exclusão social") (Bude 2008: 18-19), "Klienten des Wohlfahrstsstaates" (clientes do estado de bem estar") (Lessenich & Nullmeier 2006: 115), "Wertehaushalt der deutschen Gesellschaft" (orçamento de valores da sociedade alemã") (Neugebauer 2007: 27), "Generationen-Buchhaltung" ("geração de contabilidade") (Lessenich & Nullmeier 2006: 123), "Tiefenkrise der Deutschland AG" ("crise profunda da Alemanha SA) (Beck 2005: 13) oder "Neoliberale Gesellschaft mit begrenzter Haftung" ("Sociedade neoliberal de responsabilidade limitada") (FR4) vimos uma característica especial da discussão atual: o domínio fonte da economia predomina cada vez mais esferas da sociedade alemã e torna estudantes, eleitores e pacientes em clientes e consumidores, o que é ironizado aqui. No seguinte trecho, é tematizado explicitamente no capítulo Verlierer - Gewinner (Perdedores - Ganhadores) do livro de Lessenich et al. (2006):

(23) Die ausufernde Gewinner/Verlierer-Semantik ist dabei vielfach an jene Stelle getreten, an der zuvor Ausdrücke wie ‚Benachteiligte' oder ‚sozial Schwache' gestanden haben. Im Sprachgebrauch des Sozialstaats wurde bei solchen Bezeichnungen die gesellschaftliche         Verantwortung sozial stärkerer Gruppen immer schon mitgedacht - auch deshalb, weil die Schwachen nicht allein als haftbar für ihre Lage galten. Heute jedoch hat sich mit der allerorts erhobenen Forderung nach ‚Eigenverantwortung' geradezu ein neuer Existentialismus        verbreitet, der soziale Nachteile als falsche Entscheidungen individualisiert und keine ‚sozialen Umstände' mehr gelten lässt. (Lessenich et al. 2006: 368-369)

(Nisso, a semântica transbordante do vencedor/vencido ocupa o lugar de expressões como 'desfavoráveis' ou 'socialmente fracos'. No uso da língua do estado social, tais denominações sempre refletiram a responsabilidade de grupos socialmente mais fortes - também porque não era válido atribuir aos fracos toda a responsabilidade para a sua situação. Todavia, junto à exigência onipresente da 'responsabilidade própria', hoje, espalhou-se um novo existencialismo que individualiza desvantagens sociais como decisões falsas e não aceita mais 'condições sociais'.)

Aqui se mostra uma característica do discurso alemão que metaforicamente se reflete no número alto de metáforas que vêm do domínio observação:12 A metareflexão sobre o discurso sobre 'sociedade' tem uma presença muito forte no corpus alemão. Por consequência, no corpus alemão, não apenas o número de lexemas ligados a esse domínio inclui cinco vezes mais expressões do que no corpus brasileiro, também a variação de lexemas, com uma relação de 23:5, é significativamente maior. Essa tendência também se revela nos comentários intertextuais que se referem à forma como as discussões sobre a sociedade são abordadas nos meios de comunicação de massa:

(24) Die Semantik der Unbeweglichkeit (Lessenich et al. 2006: 338)
(A semântica da imobilidade)

(25) Um dann wie gewohnt die Zukunft beflügelt einzuschwärzen und anzuschwärzen (Beck 2005:7-8)
(para denegrir e pintar de  preto o futuro como de costume)

(26) Alles durch die deutsche Brille zu betrachten (Beck 2005: 90)
(observar tudo através dos  óculos alemães)

(27) Man hat ja immer nur ʼnen ganz bestimmten Blickwinkel, ʼnen ganz bestimmten Ausschnitt von dem, was man so mitkriegt von der Gesellschaft (EoD3,1)
(Sempre, tem-se apenas uma certa perspectiva, um certo recorte daquilo que se percebe da sociedade)

(28) Es wird gern ein düsteres Bild von der Lebenssituation der Menschen gezeichnet (W11)
(Gosta-se de pintar uma imagem sombria da situação da vida das pessoas)

3.3 Classes de palavra no uso da linguagem metafórica

Como Steen (2002, 2004) enfatiza, é relevante qual o tipo de palavra ao qual uma metáfora pode ser agrupada, uma vez que isso tem influência sobre o efeito que a metáfora causa no receptor. Por isso, os lexemas dos domínios conceptuais foram classificados segundo as classes de palavra que eles representam, a saber, segundo substantivo, adjetivo e verbo. As partículas adverbiais que têm uma função crucial no caso dos esquemas imagéticos não foram contadas aqui. De fato, uma breve análise dos lexemas (types) não revelou oposições cruciais, não obstante haver algumas nuanças elucidativas no que concerne à distribuição dos lexemas nessas três classes distintas:

 

 

Enquanto a parte percentual de substantivos é mais ou menos igual - embora uma parte significativa dos substantivos alemães seja composta por verbos substantivados - no corpus alemão encontram-se mais metáforas verbais, ao passo que, no corpus brasileiro, há mais metáforas de adjetivos. Essa quota maior de metáforas de adjetivos pode ser vista junto com o alto grau de personificação, na qual características variadas são atribuídas à sociedade como se fosse uma pessoa. Metáforas de adjetivos servem à coloração (Ausmalung) e acessam as emoções do receptor (Kohl 2007: 48). O fato de essa tendência ser mais forte no corpus brasileiro pode estar interligado ao estilo mais barroco, como já foi mencionado anteriormente. Segundo o estudo de Windfuhr (1966: 49-77) a preferência pela metáfora nominal e adjetival é típica do barroco, tendo uma função mais ornamental. A animação do construto abstrato ‚sociedade', no corpus brasileiro, frequentemente abre espaço para a analogia com a metáfora ampliada, ou seja, uma narração metafórica (Kohl 2007: 87). Analogias e comparações que se baseiam em personificações foram usadas 17 vezes no corpus brasileiro, mas apenas cinco vezes no corpus alemão. Com tais imagens comprimidas, muitas vezes, os autores conseguem gerar uma atmosfera que evoca narrações conhecidas:

(29) Podemos responder, dizendo que o "gigante pela própria natureza" não ficou "deitado eternamente em berço esplêndido", na simbologia palavrosa do hino nacional. O gigante caminhou, tropeçou e hoje tateia, incerto, buscando novos rumos. (Reis Velloso et al. 2006: 96)

(30) que talvez um dia o país possa deixar de caber na seguinte descrição do escritor Paulo Mendes Campos: "Imaginemos um ser humano monstruoso que tivesse a metade da cabeça tomada por um tumor, mas o cérebro funcionando bem; um pulmão sadio, o outro comido pela tísica; um       braço ressequido, o outro vigoroso; uma orelha lesada, a outra perfeita; o estômago em ótimas         condições, o intestino carcomido de vermes. Esse monstro é o Brasil: falta-lhe alarmantemente o mínimo de uniformidade social" (V7)

Em oposição, metáforas verbais dinamizam a imagem e exigem a colaboração imaginativa nos processos mentais. Sociedade é mais vista como um local, no qual há ações, e não como uma pessoa com características fixas. Especialmente na análise dos esquemas imagéticos compostos e dinâmicos, esse aspecto vem à tona, como vimos anteriormente. No corpus alemão, todavia, mesmo como pessoa, a sociedade é esboçada mais frequentemente como agente ativo do que como possuidor de características. Sendo assim, no total, no corpus brasileiro, encontram-se 66 lexemas atributivos para descrever a sociedade como alegre, afetiva, virtuosa, violenta, tranquila, sábia, quente, queixosa, preconceituosa, perversa, mentirosa, lúdica, malandra, hipócrita, invejosa, intimista, cordial, contente, criminosa etc., contrariamente, no corpus alemão, apenas 33. No entanto, desses 33 lexemas, mais da metade não exprime disposições emocionais, mas sim atitudes em relação ao outro: a sociedade é descrita como weltoffen (aberta ao mundo), intolerant (intolerante), solidarisch (solidária), oberflächlich (superficial), rentnerfeindlich (hostil aos aposentados), kinderfeindlich (hostil a crianças), egoistisch (egoista), engstirnig (tapada) etc. As outras personificações referem-se a ações: a sociedade "sieht schwarz" ("é pessimista"), "will Ungerechtigkeiten nicht wahrhaben" ("não quer admitir desigualdades"), "kommt in die Jahre" ("envelhece"), "diskutiert über sich selbst" ("discute sobre si mesmo"), "verhält sich friedlich" ("comporta-se pacificamente") oder "denkt nur an ihre eigene Person" ("pensa apenas em si mesma").13 Ademais, o que chama atenção é que, no corpus brasileiro, muitas vezes prefixos de negação são usados para a descrição da sociedade como injusta, desigual e antiliberal ou partículas de negação como não solidária, sem memória. Às vezes, as pessoas apontam a ausência de certas características que elas gostariam de ver na sociedade brasileira: falta de senso coletivo, ausência de justiça etc.

3.4 Funções e modelos do pensamento de metáforas conceptuais

Metáforas podem assumir diversas funções comunicativas: informativas, expressivas, apelativas, metacomunicativas, heurísticas, estéticas, fáticas, catacréticas, epistêmicas, ilustrativas, argumentativas ou sócio-regulativas. A pergunta pela intenção comunicativa se coloca especialmente acerca dos livros e artigos analisados. Pois nesses dois corpora, metáforas não raramente servem para constituir narrações superordenadas, modelos cognitivos ou fórmulas de sentido e padrões de orientação em construir seu domínio alvo de modo discursivo seguindo, ao mesmo tempo, certos valores e ideias sobre o mundo (Geideck & Liebert 2003, Musolff 2004). Nos dois corpora, três metáforas destacam-se pelo fato de incluírem certos efeitos de highlighting e hiding (Lakoff & Johnson 1980: 10-12, 67), oferecendo estratégias de comunicação tanto para o lado conversacional e neoliberal, como para o lado solidário-social. Nisso, pode-se observar muitos paralelos entre os dois corpora.

A metáfora da família como modelo para a sociedade negativamente conotado encontra-se primordialmente em artigos e livros que têm uma tendência a posturas conservadoras ou neoliberais, opondo-se ao o modelo social-democrático do Nurturant Parent Model (Lakoff 1995):

(31) Mas o mesmo pai que falha ao cuidar dos filhos (Almeida 2007: 92)

(32) Grande parte dessa camada social encontrou abrigo sob os seios generosos do Estado (Reis Velloso et al. 2006: 51)

(33) Kann eine Gesellschaft auf Dauer aushalten, dass viele keine Chance mehr für sich sehen und in eine apathische Alimentierungsmentalität verfallen? (W31)
(Uma sociedade consegue sustentar para sempre o fato de muitos dos seus membros não verem mais chances de se sustentarem e caírem em uma mentalidade de pensão alimentícia?)

Além desse paralelo, no corpus alemão, algumas das contribuições da esquerda também recorrem à mesma metáfora, todavia, elas a colocam em uma conexão diferente, buscando se livrar da acusação inerente a essa argumentação como preconceito inconsistente. Sendo assim, Lessenich et al. (2006) caricatura essa imagem de modo sarcástico:

(34) "… jene Vertreter einer neubürgerlichen Kulturelite, die die sozioökonomischen Umbrüche des flexiblen Kapitalismus als Gelegenheitsstruktur für eine Remoralisierung und Rückerziehung        der - so die Vorstellung - überalimentierten und bewegungsarmen‚Unterschichten' nutzen" (Lessenich et al. 2006: 349).
(… tais representantes de uma elite cultural dos novos burgueses que aproveitam as mudanças sócio-econômicos do capitalismo flexível como estrutura ocasional para uma remoralização e reeducação - é essa a ideia - das 'classes baixas' superalimentadas e imóveis.")

A acusação da passividade e imobilidade presente nessa metáfora da família também se vê na imagem cunhada pelo neoliberalismo da sociedade como paciente doente: em conformidade com isso, a sociedade seria "apathisch" ("apática"), "depressiv" ("depressiva") , teria "Angstsyndrome" ("síndrome do medo"), seria "von einem Bazillus befallen" ("atacada por um bacilo"), sofreria de uma "Gedankenstarre" ("rigidez de pensamento") ou de um "Handikap" ("aleijão"), de uma "Lähmung" ("paralisia") e "Lethargie" ("letargia"), seria "von Krankheiten befallen" ("atacada por doenças") etc.

No corpus brasileiro, as doenças vão além do sofrimento meramente psíquico e o diagnóstico é de doenças crônicas e incuráveis. O que domina são metáforas da desagregação corporal integral, referindo-se sempre à história toda de uma sociedade que teve como ponto de partida a desigualdade e a escravidão: portanto, os diagnósticos chamam-se "cegueira", "tísica", "anemia", "câncer"; a sociedade seria  "contaminada" e "carcomida de vermes", cheia de "fraturas", "inchaços", "infecções" e "feridas"; nela, "vicejam tumores". A falta de vitalidade que se exprime pela metáfora do paciente doente não permite o advento social - como projeto utópico da esquerda -, nem a ligação ao 'Primeiro Mundo' - como visão pragmática das forças neoliberais:

(35) Acredito que seja a apatia. Todos os outros males de nossa sociedade (fome, miséria, corrupção, violência, etc.) só existem devido a nossa passividade. (EeB7)
(36) A debilidade do ensino no Brasil está na origem da desigualdade social do país (FSP6)
(37) É o Brasil em que vicejam o patrimonialismo, o corporativismo, o populismo e outras velhas práticas de efeito paralisante (V2)
(38) A associação entre anemia econômica e expansão da proteção social produziu distorções (FSP3)
(39) um clima psicosocial de desânimo, de derrota (Chauí et al. 2006: 150)

Correspondendo a essa passividade do paciente doente, nos dois corpora surge o esquema do caminho, tanto no discurso sócio-crítico quanto no discurso conservador e neoliberal; porém, o foco (highlighting) é diferente: enquanto o discurso sócio-crítico tematiza aqueles que ficaram para trás, as vozes conservadoras estão mais preocupadas com a mudança do caminho certo e os representantes neoliberais reclamam da baixa velocidade :

(40) Der Zug ist tatsächlich auf einem Gleis, auf das er nicht gehört. Aber irgendwo in der Ferne kommt noch einmal eine Weiche, und die können wir umstellen. (S6)14
(De fato, o trem está num trilho ao qual não pertence. Mas de algum lugar distante, um dia, ainda virá uma via, e nós podemos mudar essa via.)
(41) Der Zug fährt schon seit Jahren in die falsche Richtung - und wenig ist passiert. (W31)
(Já há muitos anos, o trem tomou a direção errada - e pouco acontece.)
(42) Ich glaube, das ist etwas, was vielen Deutschen noch sehr schwer fällt, da selber was in die Hand zu nehmen, sich selber für fähig zu halten, was nach vorne zu treiben, weil man da in Deutschland auch oft gehemmt wird (EoA11)
(Acho que isso é algo que é muito difícil para muitos alemães, resolver as coisas por conta própria, considerar-se capaz a levar as coisas para frente, pois na Alemanha, as pessoas frequentemente são tolhidas.)
(43) abgehängtes Prekariat (Neugebauer 2007: 82)
(precariado desconectado)
(44) "Slow-Motion-Society" (Steingart 2005: 63)
(45) So entsteht, was man in der Soziologie städtische Unterschicht nennt: vom ersten Arbeitsmarkt abgekoppelt, vom gesellschaftlichen Reichtum ausgeschlossen, auf sich selbst und die jeweiligen ethnischen, religiösen und Geschlechteridentitäten zurückgeworfen. […] Nur so       könne man verhindern, dass ein Bildungsproletariat entsteht, das den sozialen Anschluss verliert (T18)
(É assim que se desenvolve o que se chama classe baixa urbana na sociologia: desconectada do primeiro mercado do trabalho, excluida da riqueza da sociedade, largada para trás e entregue a si mesma e às respectivas identidades étnicas, religiosas e sexuais. [...] Só assim que é que se pode evitar que surja um proletariado educacional que perca a conexão)
(46) para frear uma classe dominante sem freios (Chauí et al. 2006: 42)
(47) O Brasil caminha muito vagarosamente na direção da modernidade (Almeida 2007: 128)
(48) o país está em transformação e que ela depende das salas de aula. O avião decolou e está em velocidade de cruzeiro. A velocidade pode aumentar, mas o vôo não sofrerá uma pane. (Almeida 2007: 21)

3.5 Formação e condensação de metáforas sistemáticas no contexto discursivo

Buscando uma superação da estática e unidirecionalidade da teoria conceptual da metáfora na tradição de Lakoff & Johnson, Lynne Cameron dirige sua atenção à metáfora no discurso definindo-a como shifting, dynamic phenomenon that spreads, connects, and disconnects with other thoughts and other speakers, starts and restarts, flows through talk developing, extending, changing. Metaphor in talk both shapes the ongoing talk and is shaped by it. (Cameron 2008: 197). Focalizando a formação e a condensação de metáforas no discurso, ela introduz o conceito da 'metáfora sistemática', que se opõe àquele da 'metáfora conceptual', pois representa a metáfora como produto que surge da interação discursiva como set of semantically-connected (vehicle) terms used across a discourse event or text to refer to a connected set of topics (Cameron 2007: 131). Em seguida, ela ilustra esse aspecto através de uma análise de expressões metafóricas extraídas de uma conversa gravada entre um terrorista e a filha da vítima. Ambos se encontram vinte anos depois do crime para falar sobre os acontecimentos. Cameron chega à conclusão de que as metáforas usadas não são distribuídas de forma linear, mas sim, surgem em certos momentos, nos quais elas tendem a formar feixes (cluster). Através de uma análise indutiva, Cameron frisa que a conversa se constitui por meio de uma metáfora-chave que ela denomina reconciliation involves changing a distorted image of the other, contrastando-a com a metáfora mais genérica, understanding is seeing, na terminologia de Lakoff & Johnson. Aí, ela revela que, no discurso real, não apenas vemos expressões que reproduzem essas metáforas conceptuais idealizadas, mas sim que discurso e contexto influenciam ao mesmo tempo o nível cognitivo. Do ponto de vista de Steen (2007: 271), também podemos falar de cenários que são realizados através de metaphoric chains, desdobrando-se, por exemplo, no decorrer de um artigo jornalístico inteiro. Nisso, o papel coesivo da metáfora vem à tona (Ponterotto 2003).

Em seguida, mostrar-se-á esse efeito por meio de dois exemplos de cada corpus que foram considerados como exemplos prototípicos que refletem certas tendências da cultura em questão. O primeiro exemplo - um trecho alemão de uma entrevista oral - demonstra o desdobramento de uma metáfora do domínio observação que se mescla com os esquemas imagéticos contêiner e parte - todo. Pelas particularidades do discurso e do contexto em si, chegamos a uma metáfora sistemática que pode ser formulada como Minha relação com a sociedade alemã é uma relação de um observador que, às vezes, está dentro e, às vezes, está fora do contêiner olhando para dentro:

(49) I: Wie seht ihr euch im Verhältnis zur deutschen Gesellschaft?
5,1: "Beobachtend" ist das erste Wort, das mir einfällt, obwohl das eigentlich… also ich bin ja Teil auch, aber, ich hab das grad wieder gemerkt, ich kann sehr viel analysieren, also ich guck mir das an.
5,2: Ich bin auch Teil davon und denke eher: Eigentlich steh ich meinem Gefühl nach irgendwie auβen, irgendwie drauβen, guck drauf, also nirgendwo, also ich würde keinen Teil finden können, wo ich sagen würde, da fühl ich mich wirklich zugehörig. Da wüsst ich auch nicht, wo ich mich hinsortieren sollte. Also ich hab so dieses Gefühl, ich bin in diesen Strukturen und das weiβ ich auch, und ich weiβ auch, wie die funktionieren, aber es ist nicht so was von hundert Prozent meins, oder da bin ich so drin aufgegangen oder so.
5,1: Was den Spieβigkeitsfaktor angeht, hab ich mich mächtig in Richtung Spieβigkeit entwickelt. Da merk ich, dass ich so Teil von bestimmten Sachen bin. Und wenn ich mir dann anmaβen würde, ich beobachte das noch, das wär echt ne Anmaβung, oder ich beobachte es nur, das wär ne Anmaβung. […] Ich glaub ich hab ja gestern gesagt, ich geh nicht mehr wählen, und das ist glaub ich auch ein Schritt raus oder daneben. (EoA5)
(I: Como vocês veêm sua relação com a sociedade alemã?

5,1: "Observador" é a primeira palavra que passa pela minha cabeça, embora... então, eu seja também parte, mas, acabei percebendo isso novamente, posso analisar muito, então estou olhando para ela.)
5.2 Eu também sou uma parte disso e penso mais assim: No fundo, pelo que sinto, de alguma forma, estou fora, de alguma forma fora olhando para cima, então em lugar nenhum, não encontraria  nenhuma parte da qual poderia dizer, sinto-me realmente como fazendo parte disso. Também não saberia   onde me deveria agrupar. Então, sinto que estou nessas estruturas e também estou consciente disso, e também sei como elas funcionam, mas não é assim, cem por cento meu, ou que eu esteja me realizando nisso, algo desse tipo.
5,1: Com relação ao fator burguês, acho que me desenvolvi muito em direção à burguesia. Aí, percebo que sou parte de certas coisas. E se assim, me atreveria a dizer que apenas estou observando, realmente seria muita arrogância, ou seja, dizer,  que estou apenas observando isso, seria uma arrogância. [...] Acho que falei isso ontem, não vou  mais votar e acho que isso significa também um passo para fora ou ao lado da sociedade.)

Verdana, Geneva, sans-serif">Um cenário típico brasileiro que exemplificaremos em seguida baseia-se na combinação de personificação, processo infantil de aprendizagem, falta de orientação psíquica e do esquema imagético caminho construindo a metáfora sistemática A sociedade brasileira é uma criança perdida que ainda não cresceu o bastante para achar seu caminho. Concomitantemente, no trecho escolhido, o estilo redundante é muito saliente, uma característica típica da fala brasileira (Schröder 2003: 156-158), de modo que a cadeia metafórica não se desenvolve apenas por meio de relexicalização, mas sim, ao mesmo tempo e de forma marcante, por meio de repetição verbal. Também poder-se-á perceber no que foi mencionado acima a visão da própria sociedade dada através de características que estão ausentes, mas são desejáveis:

(50) 4,1: A sociedade brasileira, pra mim... pra mim, é um reflexo direto da forma como ela nasceu, da forma como ela foi recriada, né?
4, 2: uma grande sociedade, a nível de organização, que cada dia aprende mais, mas eu acho que o que mais... É... Isso falando das coisas boas, né? Que é uma sociedade que vive no clima tropical. [...] Ela carrega esse estigma da colônia, por que ela não conversa entre si. [...] Então, é uma sociedade que até hoje ainda não sabe se definir basicamente. Só sabe se definir que é brasileira. Mas definir mesmo que rumo tomar, quais são suas verdadeiras origens, a sociedade se perde nisso. Ela ainda tá rodando em si, como não se achou. Então, a coisa que falha que eu acho que é uma das partes ruins da sociedade brasileira que ela não consegue se organizar, por que ela não consegue conversar entre si. Ela não consegue se comunicar, né? [...] O país ainda tá aprendendo a andar, tá aprendendo a lutar, já que ele não sabe ainda [...] Agora o país tem que aprender conviver com essa diferença e se comunicar.  Que se comunicar ela vai... Ela vai resolver os problemas. [...] ela é fachada, ela é... Ela é mentirosa, ela é só para inibir um povo que... É igual eu falei , ela é sem educação. E não tem educação de questionar , de mudar. Num tipo de sociedade que tá acomodada. [...]Tem que aprender com... com... É obvio, tem que aprender com sociedades mais estruturadas a se estruturar, por que o país não tá aprendendo e até hoje não aprendeu. [...]Tem que aprender muito ainda. [...]... Que o Brasil tinha que cuidar mais dele. […]Como ele não aprende consigo próprio, tem que aprender com alguém aí, ué... Por que... O país não sabe gostar de si mesmo. O... A própria sociedade brasileira, ela gosta por que... É omissa, né? É omissa. (EoB4)

Dessa forma, a metáfora sistemática pode assumir a função de constituir um quadro narrativo principal para uma unidade discursiva, o que também se reflete nos outros gêneros textuais. Destarte, muitas vezes, o tópico do cenário metafórico já aparece nas manchetes dos artigos jornalísticos chamando a atenção e focalizando um aspecto específico, antecipando a narração em si. Isso permite a concentração de recursos cognitivos aos aspectos mais relevantes para o autor, o que ao mesmo tempo cobre outros aspectos do assunto em questão. Algumas manchetes e títulos de capítulos de livros do nosso corpus são Ansteckungsängste (Medo de Contaminação) (Bude 2008: 113-119), Gewinner, Verlierer (Vencedores, Perdedores) (Lessenich et al. 2006: 353-371),  Barreira na elite (FSP2), Segurança, melancolia e inércia (FSP 11), Viciados em Estado (V4), As pirâmides perpétuas de Faraó (ESP3),  Im Zentrum der Fliehkräfte (No Centro das Forças Centrífugas) (T3) e Die Überflüssigen (Os Supérfluos) (S2).

 

4. Conclusão

Apesar de muitos paralelos que se revelaram especialmente na parte quantitativa do estudo, ilustramos como é necessária uma observação mais profunda e contextualizada para trazer à luz diferenças ligadas à respectiva cultura. Em um primeiro passo, seguimos uma análise mais extracomunicativa ao mostrar quais as diferenças que surgem, menos em relação a domínios fonte distintos e mais ao uso quantitativo de certas expressões metafóricas que podem ser associadas a uma certa metáfora conceptual que se manifesta na elaboração lexical do domínio cognitivo em questão. Por fim, no micronível da análise, que também avançou para uma perspectiva mais comunicativa, vimos como, no uso discursivo, configurações metafóricas favorecem certos efeitos de highlighting e hiding que, por sua vez, são entrelaçadas com certas posições ideológicas que procuram seguir fins estratégicos e causar certas emoções. Ademais, mostrou-se que tais configurações metafóricas, no uso autêntico, sobrepõem-se, desdobrando-se como mesclagens complexas, de modo que nunca são totalmente prefiguradas como, em muitos momentos, sugere a semântica cognitiva segundo Lakoff & Johnson. Atendendo a certas intenções comunicativas no discurso, 'metáforas sistemáticas' emergem com base em uma densidade alta de lexemas da mesma origem, assumindo um papel coesivo. De forma similar, em cenários metafóricos mais complexos, percebem-se extensões, nas quais feixes de metáforas formam alegorias ou narrações analógicas, comprimindo domínios input distintos em uma rede de integração complexa. Tais tendências, em alto índice, apontam para a necessidade de completar a perspectiva extracomunicativa do nosso primeiro passo - a sistematização e investigação quantitativa dos resultados - por um segundo passo, guiado por uma perspectiva comunicativa na qual sejam focalizadas as funções distintas que as metáforas podem assumir em uma situação comunicativa específica e culturalmente encaixada.

Ao concluir, os resultados mais importantes com relação a uma comparação intercultural incluem as seguintes observações:

Enquanto no corpus brasileiro os esquemas imagéticos, muitas vezes, continuam estáticos, no corpus alemão são mais dinamizados e animados, o que indica uma percepção divergente no que diz respeito às respectivas descrições da sociedade: a ênfase no corpus brasileiro está na continuidade da estrutura da sociedade, ao passo que, no corpus alemão, o foco está nas mudanças pelas quais a sociedade inteira está passando, o que causa preocupações, uma vez que essas transformações são interpretadas como uma despedida do modelo do estado social vigente até então.

No corpus alemão há obviamente uma tendência maior a construções metafóricas com topologias bem estruturadas, ao contrário do corpus brasileiro, no qual se percebem mais personificações comprimindo a ideia sobre a sociedade em uma imagem bem plástica.

No corpus brasileiro, é mais frequente a preferência por metáforas dos domínios flora, teatro / palco, família ou guerra, enquanto que, no corpus alemão, os domínios negócio, edifício, jogo / competição, observação são mais salientados. Além disso, o domínio da observação aponta uma alta autorreferencialidade e intertextualidade na discussão sobre a sociedade alemã.

No corpus alemão, observa-se um uso maior de metáforas verbais, ao passo que no corpus brasileiro metáforas de adjetivos e metonímias são mais frequentes.

 

5. Anexo: Abreviações

Z12 DIE ZEIT: Die Angst geht um, 5.03.2008.

Z32 DIE ZEIT, Die neue Unterschicht, 10.3.2006.

S2 DER SPIEGEL: Die Überflüssigen, 23.10.2006.

S6 DER SPIEGEL: "Wir wurden umprogrammiert", 06.03.2006.

S8 DER SPIEGEL: Der große Graben, 17.12.2007

FR4 Frankfurter Rundschau: Es geht ans Eingemachte, 14.9.2006.

T3 TAZ: Im Zentrum der Fliehkräfte, 15.12.2006.

T18 TAZ: Vom Bildungsverlierer zum Arbeitslosen, 16.03.2007.

W11 Die Welt: Deutsche fühlen sich arm – doch allen geht's gut, 24.7.2008.

W31 Die Welt: "Viele verfallen in eine Alimentierungsmentalität", 21.10.2006.
EoA3,1 Entrevista oral Alemanha: feminino, 36 anos, programadora de aplicação.

EoA5,1 Entrevista oral Alemanha: masculino, 32 anos, pedagogo social.

EoA5,2 Entrevista oral Alemanha: masculino, 40 anos, pedagogo.

EoA10 Entrevista oral Alemanha: feminino, 36 anos, desempregada.

EoA11 Entrevista oral Alemanha: feminino, 34 anos, gráfica.

V1 Veja: Congelaram a Classe Média, 20.12.2006.

V2 Veja: O Desafio dos dois Brasis, 01.11.2006.

V4 Veja: Viciados em Estado. Entrevista: Armínio Fraga, 17.01.2007.

V7 Veja: Como pensam os brasileiros, 22.08.2007.

ESP3 Estado de São Paulo: As pirâmides perpétuas de Faoro, 25.01.2008.

ESP6 Estado de São Paulo: Brasil, junção de três rios, 18.05.2008.

ESP10 Estado de São Paulo: Racialização do Estado e do conflito, 19.08.2007.

E3 Época: Manifesto: Cento e treze cidadãos anti-racistas contra as leis raciais,21.04.2008.

FSP2 Folha de São Paulo: Barreira na elite, 21.11.2006.

FSP3 Folha de São Paulo: Pobres empregados, 14.11.2006.

FSP6 Folha de São Paulo: Ensino débil explica desigualdade do país, dizem
economistas, 23.09.2006.

EoB4,1 Entrevista oral Brasil: masculino, 25 anos, cantor.

EoB4,2 Entrevista oral Brasil: masculino, 30 anos, produtor musical.

EoB6,1 Entrevista oral Brasilien: femino, 32 anos, estudante de alemão.

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1 O corpus brasileiro abrange artigos de 2006-2008 dos jornais Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Estado de Minas, Jornal d Brasil e das revistas Veja, Carta Capital e Época. O corpus alemão compreende artigos de 2006-2008 dos jornais TAZ, DIE ZEIT, Frankfurter Rundschau, Die Welt e da revista DER SPIEGEL. Uma explicação das abreviações relacionadas às citações encontra-se no anexo.
2 Livros brasileiros analisados: Leituras da Crise de Marilena Chaui, Leonardo Boff, João Pedro Stedile & Wanderley Guilherme dos Santos (2006), Brasil, um país do futuro? de João Paulo dos Reis Velloso & Roberto Cavalcanti de Albuquerque (2006), A Cabeça do Brasileiro de Alberto Carlos Almeida (2007), Brasil Contemporâneo. Crônicas de Um País Incógnito de Fernando Schüler & Gunter Axt (2006) e A Nova Sociedade Brasileira de Bernardo Sorj (2006). Livros alemães analisados: Was zur Wahl steht de Ulrich Beck (2005), Die Ausgeschlossenen. Das Ende vom Traum einer gerechten Gesellschaft de Heinz Bude (2008), Politische Milieus in Deutschland. Eine Studie der Friedrich-Ebert-Stiftung de Gero Neugebauer (2007), Deutschland. Der Abstieg eines Superstars de Gabor Steingart (2005) e Deutschland eine gespaltene Gesellschaft de Stephan Lessenich & Frank Nullemeier (2006).
3 O nome do grupo é composto pelas primeiras letras dos primeiros nomes dos participantes do grupo. A eles pertencem Peter Crisp, Ray Gibbs, Alice Deignan, Graham Low, Gerard Steen, Lynne Cameron, Elena Semino, Joe Grady, Alan Cienki e Zoltan Kövecses.
4 Cf. o conceito 'Kon-Determinationʼ ('con-determinaçãoʼ) de Harald Weinrich (1976: 317-327): Quanto mais contexto é dado a uma expressão tanto mais possibilidades da interpretação são eliminadas. Por conseguinte, em um texto, uma palavra não tem mais seu significado amplo e genérico, mas sim, somente um significado já concretizado. Por isso, o objetivo de Weinrich foi transformar a 'semântica da palavra' em uma 'semântica textual'.
5 Dificuldades encontradas com relação ao agrupamento das expressões em mais do que apenas um domínio (Semino et al. 2004) como no caso dos lexemas vencedor e perdedor, que tanto podem ser associados ao domínio guerra como ao domínio jogo, de modo geral, puderam ser evitadas por desambiguarem o lexema no micronível ou macronível do texto. No caso dos livros, por exemplo, o termo em questão, muitas vezes, encaixou-se em uma narração metafórica superordenada, dominando um capítulo inteiro.
5 A percentagem refere-se ao total das metáforas encontradas no corpus da respectiva cultura.
7 A assim chamada ‚Unterschichtendebatte' surgiu no ano 2006 junto com a discussão sobre a demolição do estado social e a desigualdade crescente.
8 A personificação não pertence à categoria das metáforas da constelação como campo inteiro estruturado por elementos e suas relações, mas sim, forma uma subclasse das metáforas ontológicas (Lakoff & Johnson 1980; Baldauf 1997). Porém, é listada aqui, uma vez que, devido a sua alta proposicionalidade, ela tem mais em comum com a metáfora da constelação do que com os esquemas imagéticos que representam meras gestalts. Então, a diferença decisiva está no grau de abundância proposicional pelo qual metáforas se distinguem como ground models daquelas que representam figure models (Baranov & Zinken 2003). 
9 Nas abordagens atuais, a visão tradicional de que seja possível uma distinção nítida entre as duas figuras trópicas, é substituida pela ideia de um contínuo (Barcelona 2003) ou de uma interação entre as duas figuras (Goossens 1990). Em princípio, o critério para a metáfora é a da similaridade construída, para a metonímia o da contiguidade. Destarte, intimidade, por exemplo, ou pode ser vista como proximidade (metáfora) ou via proximidade (metonímia) (Steen 2007, 58).
10 Cf. entre outros, Brasil, um país do futuro? de Stefan Zweig (1941), Fenomenologia do Brasileiro. Em Busca de um Novo Homem de Vilém Flusser (1998), Mundo nos Trópicos de Gilderto Freyre (1971).
11 Cf. entre outros, Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade (1995), Brasil - Terra de Contrastes de Roger Bastide (1971), The Brasilian Puzzle de David J. Hess & Roberto DaMatta (1995), O labirinto latino-americano de Octavio Ianni (1993).
12 Lakoff & Johnson (1999: 277) denominam essa perspectiva de fora, que é uma metaperspectiva, The Objective Standpoint Metaphor que é composta por Container e Knowing Is Seein'.
13 Nisso, poderia se tratar também de um fenômeno da relatividade cultural, que talvez se interligue a diferenças face a línguas anglo-germânicas e línguas românicas em geral. Em seu estudo no qual se pediu a crianças inglesas, alemãs, espanholas e israelenses para renarrarem uma estória em quadrinhos, Slobin (1996) chega a uma conclusão semelhante no que concerne à relatividade de expressão. Enquanto as crianças espanholas optaram por narrar um cenário no qual predominaram descrições locais e estáticas, focalizando mais o pano de fundo da estória, as narrações inglesas e alemãs incluíram mais verbos de movimento com uma dinâmica direcional.
14 Frank Schirrmacher sobre seu livro Minimum-Gesellschaft em uma entrevista à revista SPIEGEL.

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