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Pandaemonium Germanicum

 ISSN 1414-1906 ISSN 1982-8837

     

http://dx.doi.org/10.11606/1982-883722371 

Dossiê Literatura e Teoria da História

Apresentação

1Universidade Federal do Rio de Janeiro, Avenida Horácio Macedo, 2151, Cidade Universitária, Rio de Janeiro, RJ, 21941917, Brasil. E-mail: l.villasboas@uol.com.br

2Universidade Federal de Ouro Preto, Rua do Seminário s/n, Mariana, MG, 35430000, Brasil. E-mail: sdmata@ufop.edu.br.

Os ensaios reunidos neste dossiê têm o mérito de trazer à tona alguns dos fios que entrelaçam os estudos literários e a teoria da história. O leitor que percorrê-los será confrontado com uma pluralidade de percepções históricas de um núcleo comum de eventos e processos históricos da Modernidade: A Revolução Francesa, o Esclarecimento, as Grandes Guerras, o nacional-socialismo, a indústria cultural e o conceito de progresso. Os ensaios exploram, cada um a seu modo, a linguagem que molda as percepções históricas, desentranhando palavras, discursos e conceitos que as constituem. Flagram diferenças irreconciliáveis ou afinidades sutis na percepção histórica de autores ligados pela experiência, tradição ou interesse intelectual, como Johann Wolfgang von Goethe e Friedrich Schiller, Erich Auerbach e Siegfried Kracauer, Henry James e Georg Simmel, Ernst Jünger e Arnold Gehlen. Ao discriminar diferentes modos de apreensão verbal dos eventos, problematizam a relação entre linguagem e história, discurso e evento. Por essa razão, tomados em seu conjunto, os artigos situam-se na contramão da tendência a se reduzir a história a um discurso cuja realidade derivaria exclusivamente da sua articulação linguístico-literária. Assim, em virtude da seleção que integram, os artigos convidam o leitor a refletir sobre a relação entre ficcionalidade e facticidade, reconstrução e realidade histórica. Não oferecem respostas pacificadoras; antes, ao invés de excluir do horizonte uma questão fundamental, perseguem-na à luz de abordagens e contextos diversos.

Reinhart Koselleck argumentou ao longo de toda a sua obra que é preciso discriminar (post eventum) o que no desenrolar dos acontecimentos (in eventu) é inseparável, a linguagem que molda as percepções e os resultados concretos das ações que antecipamos mas que ainda não chegaram a se consumar. Cabe ao historiador traçar a distinção de modo a poder explorar a tensão entre os eventos antecipados e os eventos decorridos, os discursos e as ações. Para Koselleck, essa tensão torna-se uma das teses centrais da teoria da história e a condição de possibilidade para a apreensão da pluralidade de esferas e ação e, portanto, do político. Esse argumento implica, além disso, reconhecer o caráter paradoxal da tarefa do historiador que postula a existência de uma realidade extralinguística, mas forçosamente depende da linguagem para produzir o seu objeto. Mas a insistência de Koselleck no paradoxo está a serviço da demarcação da fronteira entre hermenêutica e teoria da história. E essa fronteira, vale a pena recordar, é o que garante a abertura do passado para o político, tomado como um princípio antropológico. O político é inextricável, na concepção de Koselleck, de uma dimensão histórica, i.e., temporal: trata-se do princípio da “heterogenia do fins”, segundo o qual seria inerente às ações humanas que as motivações e o planejamento jamais coincidem com a sua execução e resultados finais. Se as categorias formais como amigo/ inimigo, dentro/ fora, senhor/ escravo circunscrevem as histórias possíveis, o político é o pressuposto da multiplicidade de histórias reais.

No âmbito dos estudos literários poder-se-ia pensar a fronteira divisada por Koselleck a partir de duas distinções. A primeira é interna e diz respeito à organização de toda narrativa, i.e., a oposição entre os eventos narrados e a narração, que assumiria diferentes formulações: histoire e discours, Gechichte e Geschehen, os acontecimentos e a sua representação. É esta distinção chave que permite ao intérprete enxergar a narrativa como uma seleção, uma perspectivação dos acontecimentos. O romance realista, que emerge meados do século XVIII, parte da diferença entre a narração e a realidade, e a emprega para distinguir-se de narrativas não-realistas do passado, como lendas, fábulas ou “contos de fada”. O romance histórico do século XIX explora a tensão entre ficção e referencialidade histórica; pressupõe a autonomia em relação à historiografia que se institucionalizava, sem deixar de aludir ao horizonte histórico do público ao qual se dirige. Uma outra distinção metodológica fundamental para a apreensão da historicidade dos textos, mas menos teorizada ou sistematizada, diz respeito à relação entre texto e contexto. Para o intérprete indagador a relação não está previamente dada; por isso, ele adota como ponto de partida de análise não a identidade, mas a diferença entre texto e contexto. Ao invés de subsumir o texto a um contexto previamente determinado, o pesquisador busca demonstrar correlações entre o seu objeto e seus diversos contextos.

Vale a pena lembrar que, da perspectiva da história da literatura, a relação entre texto e contexto torna-se no romance uma problemática da própria narrativa. Renunciando ao repertório tradicional de tipos e histórias para elaborar um mundo temporalizado, concebido historicamente, no qual o futuro tende a se afastar cada vez mais do passado e das expectativas, o romance passa a tematizar a transmissão da experiência, a relação entre passado e futuro, num mundo em permanente mudança. Além desta dimensão especificamente temporal da questão, Hans Blumenberg revelou como a ascensão do romance é inconcebível sem a emergência moderna de um novo conceito de realidade, em que o real não é entendido apenas como evidência (como na Antiguidade) ou como algo metafisicamente lastreado (como na Idade Média), mas como uma sintaxe de elementos, organizada segundo regras que lhe garantem um nível de consistência específico. Numa palavra: a própria realidade passa a ser entendida como “contexto”. A simultaneidade deste processo com o advento do conceito moderno de história mostra de forma impressionante o nível de articulação, mas também de tensão, entre estes objetos centrais do saber histórico e dos estudos literários - “a” história e o romance -, e cuja “dignidade metafísica” não dá ainda sinais de ser seriamente questionada.

Os trabalhos reunidos neste dossiê situam-se na fronteira entre história e linguagem, hermenêutica e história. A sua contribuição está em romper com a divisão tácita de trabalho que relega aos historiadores à facticidade e aos estudiosos da literatura à ficcionalidade dos textos. Ao abordarem a ficção do factual e a factualidade da ficção, os autores atravessam as barreiras disciplinares e institucionais que persistem mesmo quando as pesquisas e os nossos horizontes intelectuais as desmancharam. A interdisciplinaridade configura-se também pelo viés da germanística. É para os organizadores uma enorme satisfação poder estreitar os laços entre colegas que exploram tradições intelectuais e literárias de língua alemã. Todos sabem que a atuação em áreas e programas diferentes pode alienar os pesquisadores cujos interesses e projetos são convergentes. É preciso resistir a essas distâncias arbitrárias e abraçar o caráter interdisciplinar da germanística. Os mútuos estranhamentos metodológicos, as diferentes tradições interpretativas de repertórios comuns, ou desavenças terminológicas podem exigir a prontidão para a reformulação e a dedicação ao diálogo. São, nesse sentido, irritações e emoções cognitivas.

Uma exigência comum ao ofício literário e histórico é a ordenação de materiais, a execução da continuidade narrativa. Na determinação da sucessão dos artigos oscilamos entre a ordem cronológica ou histórico-problemática. A disposição cronológica dos artigos, pela qual, enfim, optamos, implica a sucessão temporal dos objetos em caso, mas não uma compreensão linear dos contextos e seus desenvolvimentos. Isolados ou em conjunto, os trabalhos trincam as imagens convencionais dos períodos, realçando contracorrentes, recuperando vozes dissonantes e malditas, redefinindo os extratos do tempo de um mesmo tempo. As concepções temporais que são destrinçadas evidenciam essa heterogeneidade. A espinha histórico-problemática atravessa, saliente, a cronologia: a crítica da cultura, legados do Esclarecimento, o relato histórico, as diferenças entre as concepções estético-políticas dos irmãos Thomas e Heinrich Mann, o pensamento conservador, os problemas do realismo e da posthistoire.

Assim, em sua contribuição a este dossiê, André Araújo mostra, a partir de Schiller, como o pensamento antropológico desenvolvido à época do iluminismo tardio alemão serve de fundamento não apenas para os discursos médico e historiográfico, mas também para uma parcela significativa da produção literária. Luciana Villas Bôas reconstrói o envolvimento de Goethe com a tradução da autobiografia do escultor renascentista Benvenutto Cellini, demonstrando como o enlace entre Revolução e autoria atravessa a compreensão goethiana da dimensão extemporânea da arte. A percepção oitocentista sobre o tumultuado campo das práticas jurídicas de inícios da modernidade é revisitada por Carola Pivetta através das lentes de dois importantes escritores do período romântico: E. T. A. Hoffmann e Willibald Alexis. Seu artigo revela como o drama pessoal da Marquesa de Pivardière foi recuperado e retrabalhado por estes dois escritores. Os demais artigos do dossiê são estudos comparativos nos quais se discutem as contribuições de importantes escritores e filósofos do século XX sobre os desafios estéticos, políticos e existenciais gerados pela "condição moderna": as afinidades eletivas entre Georg Simmel e Henry James quanto aos dilemas da cultura numa sociedade de massas, altamente urbanizada (tema do artigo de Luiza Larangeira); as diferenças entre Heinrich e Thomas Mann no tocante ao papel político da arte (discutido por Pedro Spinola Caldas); o sombrio diagnóstico sociológico-literário sobre a posthistoire em Ernst Jünger e Arnold Gehlen (artigo de Sérgio da Mata); e enfim a reflexão sobre as possibilidades e os limites do realismo nas obras de Siegfried Kracauer, Erich Auerbach e Ernst Jünger (presente nos artigos de Danielle Corpas e Victor Coelho).

Os diagnósticos do presente, as expectativas de futuro e as visões do passado que aqui se entrecruzam permitem ao leitor apartar-se de si e do seu tempo. Ele pode examinar os futuros antecipados à luz dos eventos passados e reposicionar-se diante das expectativas do seu tempo.

Luciana Villas Bôas e Sérgio da Mata
Organizadores

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