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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. (Online) vol.30 no.4 Porto Alegre Oct./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472009000400020 

ARTIGO ORIGINAL

 

Um olhar sobre a interface trabalho hospitalar e os problemas ambientais*

 

Una mirada sobre la interfaz trabajo hospitalario y los problemas ambientales

 

A view about the interface hospital work and the environmental problems

 

 

Silviamar CamponogaraI; Flavia Regina Souza RamosII; Ana Lucia Cardoso KirchhofIII

IDoutora em Enfermagem, Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), membro dos grupos de pesquisa PRAXIS da UFSC e Trabalho, Educação, Saúde e Enfermagem da UFSM, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil
IIPós-Doutora em Educação, Professora Associada do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC, membro do grupo de pesquisa PRAXIS da UFSC, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil
IIIDoutora em Enfermagem, Professora aposentada do Departamento de Enfermagem da UFSC, Pesquisadora Visitante do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Paraná (UFPR), membro do grupo de pesquisa PRAXIS da UFSC, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

Endereço da autora

 

 


RESUMO

Objetivou-se verificar como se manifesta a reflexividade ecológica no contexto do trabalho hospitalar e sua influência sobre a ação laboral dos trabalhadores. Pesquisa de abordagem qualitativa, realizada junto a trabalhadores hospitalares de uma instituição pública. Os dados foram coletados por meio de análise documental, observação de campo e entrevista individual e coletiva. Os dados revelaram que o trabalhador mantém uma relação de distanciamento com a problemática ambiental, sendo a normatização sobre gerenciamento de resíduos sólidos o principal viés de aproximação com o tema. O desenvolvimento de ações efetivas de preservação ambiental, por parte do trabalhador hospitalar, está vinculado à adoção dessa questão como política institucional, devendo esse tema ser abordado no processo de educação permanente dos trabalhadores, com base em profunda reflexão ética.

Descritores: Ética. Meio ambiente. Saúde ambiental. Recursos humanos em hospital.


RESUMEN

El objetivo fue verificar como se manifiesta la reflexividad ecológica en el contexto del trabajo hospitalario y su influencia sobre la acción laboral de los trabajadores. La investigación de abordaje cualitativa, fue realizada junto a trabajadores hospitalares, de una misma institución pública. Los datos fueron recolectados por medio de un análisis documental, observación de campo y entrevista individual y colectiva.  Los datos revelaron que el trabajador mantiene una relación  distante con la problemática ambiental, siendo la normatización sobre gerenciamiento de resíduos sólidos el principal punto de aproximación con el tema. El desarrollo de las acciones  efectivas de preservación ambiental, por parte del trabajador hospitalario, está vinculado a la adopción de esta cuestión como política institucional, debiendo este tema ser abordado en el proceso de educación permanente de los trabajadores, con base en profunda reflexión ética.

Descriptores: Ética. Ambiente. Salud ambiental. Personal de hospital.


ABSTRACT

Objective to verify how the ecologic reflexivity appears in the context of hospital work and its influence on the workers’ performance. Research of qualitative approach, carried out with hospital workers of a public institution. The data were collected by means of a document analysis, field observation and individual and group interview. The data revealed that the worker has a distant relation with the environmental issue, and the regulation of the management of solid residues is the main topic to approach the issue. The development of effective actions of environmental preservation by the hospital worker, the adoption of this question is related to the adoption of this question as an institutional policy, thus this subject should be approached in the permanent education process of the workers, based on serious ethical consideration.

Descriptors: Ethics. Environment. Environmental health. Personnel, hospital.


 

 

INTRODUÇÃO

As evidências de que vivenciamos, contemporaneamente, uma grave problemática ambiental são contundentes, convocando toda a sociedade a discutir sobre o tema e a agir em prol da preservação do planeta. Entretanto, embora se perceba uma intensa divulgação de dados acerca de questões ecológicas, o desenvolvimento de ações de preservação ainda parece restrito.

Nesse sentido, a incorporação dessa discussão no cotidiano de indivíduos e coletividades é essencial. De acordo com alguns sociólogos(1,2) vivemos a chamada Modernidade Reflexiva, período em que sofremos o impacto do progresso tecnológico e econômico, resultando em riscos, dentre eles o ecológico, que ameaçam nossa sobrevivência. Na visão dos autores a sociedade de torna um tema e um problema para ela mesma. O conceito de reflexividade é central, neste caso, referindo-se a autoconfrontação com os efeitos negativos do avanço tecnológico e econômico e sua influência sobre o viver humano, embora isto não signifique que as pessoas realizem uma reflexão sobre o tema(1,2). Dessa forma, como sujeitos contemporâneos, somos forçados a conviver com tais riscos e compelidos a discutir e a agir em contraposição a eles(1).

Em determinados setores e cenários esta realidade é contornada por circunstancias peculiares, como por exemplo, no campo da saúde, o qual mantém uma interface ainda tímida com a questão ambiental(3). Em especial, no contexto da assistência hospitalar, esta aproximação é marcada pelo viés normativo, notadamente relacionado ao gerenciamento de resíduos sólidos, sem uma discussão mais ampla sobre a relação entre a assistência à saúde e a questão ecológica. Os profissionais da saúde, sob este enfoque, são direcionados, predominantemente, para o cumprimento de normas, comprometendo o desenvolvimento de uma visão mais ampla sobre o tema.

Em pesquisa realizada junto a trabalhadores hospitalares, com o objetivo de analisar as manifestações da reflexividade ecológica na relação dos sujeitos com seu trabalho em instituição hospitalar, foi constatada a presença da idéia de separação entre hospital e meio ambiente, sendo predominante uma visão naturalizada deste último, considerado algo externo ao contexto de vida e ação das pessoas. Estes trabalhadores são reflexivamente afetados pela problemática ecológica, na medida em que manifestam preocupação com o atual contexto de riscos advindos da destruição ambiental, inclusive desenvolvendo algumas ações de preservação ambiental, em nível doméstico(4). Contudo, diante dessas concepções, questionamos em que medida esta reflexividade se faz presente no contexto do trabalho hospitalar, uma vez que, o agir responsável com o meio ambiente, ao se constituir em imperativo ético com as futuras gerações(5), é uma demanda imposta a todos os sujeitos, nos mais diversos cenários de atuação.

O estudo acima detectou que, as concepções dos trabalhadores influenciam o seu agir no contexto de trabalho, as quais podem resultar ou não em ações comprometidas com a preservação ambiental. Assim, o presente artigo aborda um dos objetivos desta investigação, qual seja o de verificar como se manifesta a reflexividade ecológica no contexto do trabalho hospitalar e sua influência sobre a ação laboral dos trabalhadores. Os demais objetivos, relacionados à investigação sobre a concepção de meio ambiente e de responsabilidade ambiental, são alvo de outras publicações.

 

METODOLOGIA

Para a realização do estudo, de abordagem qualitativa, foi utilizada a estratégia de Estudo de Caso, a qual permite a realização da pesquisa de fenômenos dentro do seu contexto real, analisando-se profunda e intensamente uma unidade social(6) com triangulação de dados, possibilitando melhor encadeamento de evidências e confiabilidade às informações e interpretações. 

O local do estudo foi um Hospital Universitário, localizado num município no interior do Estado do Rio Grande do Sul. Esta instituição é considerada de grande porte, de caráter público. Desde o ano de 2003, conta com uma Comissão de Gestão Ambiental, que objetiva discutir sobre questões ambientais e implementar estratégias de ação que permitam a assistência em saúde, minimizando impactos ambientais.

Os sujeitos  estudados foram os trabalhadores da referida instituição, os quais foram, informalmente, abordados por ocasião do processo de observação de campo, e formalmente inqueridos por meio de entrevista semi-estruturada, utilizando roteiro com questões norteadoras. Foram realizadas entrevistas individuais com 26 trabalhadores, após estabelecimento de um estudo de representatividade de categorias profissionais no âmbito da instituição, sendo eles: três enfermeiros, seis técnicos de enfermagem, três médicos, um fisioterapeuta, dois auxiliares administrativos, três serventes de limpeza, um técnico de laboratório, dois trabalhadores de serviços de apoio, cinco estudantes de cursos de graduação atuantes na instituição. Também fizeram parte do estudo sete integrantes da Comissão de Gestão Ambiental, abordados por meio de entrevista coletiva.

Os dados foram coletados de março a maio de 2007. Inicialmente foi feita uma pesquisa documental, procurando documentos que revelassem dados sobre a relação entre a instituição e possíveis ações relacionadas ao tema ambiental. Também foi realizada observação de campo, em todos os setores da instituição, perscrutando questões de interesse relacionadas ao fênomeno em estudo. Finalmente foram realizadas as entrevistas individuais, com a intenção de aprofundar a busca de dados sobre o objeto de estudo, e, uma entrevista coletiva que visou discutir, no âmbito da Comissão de Gestão Ambiental, a relação entre o trabalhador hospitalar e a atual problemática ecológica.

Para análise dos dados, os mesmos foram reunidos, constando o corpo de dados de: cópia dos documentos oriundos da análise documental, diário de campo da pesquisadora utilizado no processo de observação, e transcrição das entrevistas (que foram gravadas e transcritas pela própria pesquisadora). Este material passou por um processo de: pré-analise (categorização preliminar de dados, após leitura flutuante, em busca de expressões significativas), recomposição dos dados em categorias/subcategorias de análise, e análise aprofundada com interpretação das categorias à luz do referencial teórico(7).

As categorias resultantes desse processo são: o hospital e os problemas ambientais, lixo hospitalar, aproximação entre trabalho hospitalar e o meio ambiente, o trabalho hospitalar e a preservação ambiental. Essas categorias estão descritas no item a seguir, destacadas em negrito e ilustradas por meio de falas dos sujeitos, embora sua composição seja oriunda de uma convergência de achados provenientes das diferentes fontes de coleta de dados, como preconiza a estratégia metodológica do estudo de caso.

O estudo atendeu aos preceitos éticos contidos na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde sobre pesquisa com seres humanos(8), tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição (Processo nº 23081.000839/2007-75). A pesquisa somente teve início após aprovação da instituição e, as entrevistas somente foram realizadas mediante leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido por parte dos trabalhadores. Para preservar o seu anonimato, os mesmos foram identificados com nomes populares de animais brasileiros ameaçados de extinção seguidos da categoria profissional.

 

A INTERFACE TRABALHO HOSPITALAR E A PROBLEMÁTICA ECOLÓGICA

A abordagem sobre as manifestações da reflexividade ecológica no contexto do trabalho hospitalar e o desenvolvimento de ações de preservação ambiental é bastante complexa. Nesse sentido, a análise empreendida não pode deixar de considerar alguns aspectos intervenientes, imbricados nessa relação, oferecendo-lhe uma configuração particular, tais como: questões típicas do modo de vida contemporâneo, o processo histórico de surgimento dos hospitais e o modelo hegemônico de produção de conhecimento na área, o estilo gerencial tradicionalmente empregado na gestão hospitalar, os processos de subjetivação a que são submetidos os trabalhadores.

Os fatores anteriormente mencionados possibilitam visualizar um panorama em que o trabalhador mantém uma relação de distanciamento com a problemática ambiental, sendo a normatização sobre gerenciamento de resíduos sólidos o principal viés de aproximação com o tema. No entanto, alguns sujeitos já manifestam algumas questões que sinalizam para uma aproximação, quando demonstram que mantém um processo reflexivo sobre a problemática ambiental, denotando, mesmo que incipientemente, certa influência sobre o seu processo laboral.

Por meio da coleta de dados foi possível verificar que, muitos trabalhadores, não parecem ter clareza no que tange à relação entre o seu trabalho e a problemática ambiental, reforçada pelo fato de os sujeitos não identificarem, num primeiro momento de reflexão, quaisquer convergências entre o hospital e os problemas ambientais, conforme exemplo a seguir:

Olha, a meu ver, para mim... não afeta nada... Acho... quer dizer acho não... para mim não afeta nada (Tatu Canastra – auxiliar de lavanderia).

Os sujeitos, embora expressem certa preocupação com os problemas ambientais e desenvolvam algumas ações em prol da preservação ambiental em âmbito doméstico, parecem não transferir este conhecimento para o seu cotidiano laboral. É exemplar disso, a manifestação de economia de água e energia elétrica nos domicílios, o que não é verificado, por meio da observação de campo, no ambiente de trabalho. Em parte, podemos inferir que estão à espera do conhecimento, à espera de normativas que possam lhes mostrar o que pode ou não ser feito dentro da instituição. Esta atitude está bastante relacionada com um processo histórico de gestão hospitalar, inspirado na fábrica fordista e no capitalismo, centrado na burocratização e em processos verticalizados e hierarquizados de comando, ficando os trabalhadores a mercê das regras institucionais e de demandas das esferas de comando superiores. Com isso, vêem sua autonomia para pensar e agir ser tolhida, face ao abismo interposto entre quem comanda e quem executa tarefas.

Nesse sentido, embora reflexivamente afetados por problemas ambientais, os trabalhadores não desenvolvem uma reflexão aprofundada sobre o tema, numa clara relação com o conceito de reflexividade, o qual se refere a uma autoconfrontação, sem necessariamente haver uma reflexão sobre o assunto. Corrobora essa manifestação o fato de a natureza, como experiência segregada dos processos existenciais humanos ficar fora do horizonte de reflexão dos sujeitos(9). O hospital, além disso, é locus onde muitos dilemas morais são segregados, em favor, dentre outros, da profissionalização e do avanço da tecnologia médica. A repressão institucional de questões existenciais é encoberta pela expansão do conhecimento técnico, levando a um contexto de empobrecimento moral, contra o qual se projeta o sujeito moderno. Com isto, fragilizado e sem recursos para lidar com questões existenciais e morais, este sujeito não dedica muita atenção aos riscos globais ou a questões éticas subjacentes ao seu agir(9).

Com relação à questão da gestão hospitalar, sabemos que estão, historicamente, configurados, dentro de modelos que priorizam o controle e de metodologias de padronização (protocolos, normas, rotinas), que ainda seguem a lógica da linha de produção. Este panorama, associado ao avanço das especializações e da tecnologia de assistência à saúde, resulta em fragmentação do processo de trabalho e diminuição da visão de conjunto por parte do trabalhador. Poucas instituições têm se preocupado em investir em formas de gestão mais horizontais e compartilhadas(10).

Os hospitais universitários, particularmente, são caracterizados por proverem um ambiente de aprendizagem e treinamento na área da saúde, e por propiciarem atendimento médico de maior complexidade. Além da formação de profissionais da saúde, são importantes locais de incorporação de novas tecnologias, tendo múltiplas atribuições, vínculos e atores envolvidos em sua organização e funcionamento. Contudo, mantém estreita vinculação com estilos gerenciais tradicionais, o que torna um desafio a incorporação de novos conceitos e estratégias de gestão, face às racionalidades instrumental e capitalista instituídas(11). Entretanto, em que pese o contexto contemporâneo vivenciado e as novas demandas sociais, este é um passo necessário no sentido de comprometer as instituições hospitalares com uma visão mais ampliada sobre o processo saúde-doença, com a atual problemática ecológica e a minimização do impacto ambiental por elas causado, bem como com o investimento em processos de educação permanente comprometidos com a formação de trabalhadores mais conscientes e autônomos.

Assim, face ao estilo gerencial tradicional aliado a processos de subjetivação a que são submetidos os trabalhadores ao longo da vida, tolhendo sua autonomia, verificamos que, alguns sujeitos, ao serem estimulados a refletir sobre a relação entre o hospital e o meio ambiente, se referem ao lixo hospitalar como a única ligação com a problemática ambiental.

Não sei... questão do lixo. Não sei como que é... a questão dos resíduos se é adequadamente. A gente encaminha, mas a gente não sabe para onde vai... se é adequadamente encaminhado esse resíduo (Arara Azul – enfermeira).

Esse fato tem relação direta, possivelmente, com a normatização sobre segregação de resíduos sólidos, que atualmente é uma demanda obrigatória para os serviços de saúde, inclusive na instituição pesquisada. No entanto, ao mesmo tempo em que apontavam esta relação, o faziam em tom de dúvida, demonstrando certo constrangimento por não terem uma resposta para a questão. Simultaneamente, expressavam dúvida sobre o processo em si, pois, após fazerem a separação dos resíduos, não sabiam se eram adequadamente encaminhados, muitas vezes manifestando dúvida sobre a validade ou não de sua ação de separá-los.

Outro dado importante está atrelado à concepção de que o lixo contaminado ou infectado é o que provocaria maiores danos ao meio ambiente, evidenciando que a racionalidade implícita ao trabalho hospitalar, de maior contato com contaminantes e agentes infecciosos, influencia a percepção dos trabalhadores.

Aqui é o lixo contaminado, que se não pega e separa devidamente, como tem que ser, prejudica bastante (Lobo Guará – servente de limpeza).

Com o advento da chamada "sociedade de consumo" surgiram muitas preocupações relacionadas ao lixo, tanto no que tange ao volume acumulado, quanto ao tipo de resíduo gerado, mas somente a partir da década de 70 o lixo começou a ser considerado uma questão ambiental. Na área da saúde, algumas legislações impulsionaram a adoção de medidas por parte dos serviços de saúde, no tocante à segregação, ao armazenamento e à destinação de resíduos hospitalares(12). Parte do interesse da área foi desencadeado pelo surgimento de doenças como a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), o que levou a maior preocupação com a separação de resíduos, principalmente, os infecciosos. Além disso, não pode ser omitido o fato de o hospital estar historicamente atrelado a uma concepção de local sujo e contaminado, cujas escórias são, potencialmente, nocivas ao conjunto da sociedade(13).

Assim sendo, apesar de seu legado histórico como local, potencialmente perigoso, nas instituições de saúde a preocupação com a separação e destinação adequada destes resíduos somente ocorreu por meio de determinações legais. Entre os trabalhadores, este processo também parece estar relacionado com normativas institucionais.

Contudo, como sujeitos impactados pela atual problemática ambiental, alguns trabalhadores expressaram significações que indicam uma ampliação de visão a respeito do tema, manifestando uma relação de aproximação entre trabalho hospitalar e o meio ambiente, especialmente, quando essa questão começa a se tornar objeto de reflexão por parte do trabalhador. Assim, verificamos uma ampliação da percepção sobre a questão dos resíduos hospitalares, mesmo que inicial e restrita a poucos sujeitos, a partir do momento em que incluem, por exemplo, também resíduos recicláveis como importantes para a consecução da meta de separação do lixo e preservação ambiental.

As atividades humanas são recursivas, ou seja, são criadas por atores sociais e continuamente recriadas por eles. Isto só é possível, porque os sujeitos são reflexivos, o que permite o monitoramento das práticas sociais e sua reformulação, com base em novos conhecimentos(14). A reflexividade estimula a crítica ativa, possibilitando aos sujeitos a efetivação de novas concepções e ações. A análise dessa relação é importante, visto que pode possibilitar a origem de novos significados e práticas e de uma nova relação com o meio ambiente, marcada por maior interação e fundamentada em uma postura ética que permita o desenvolvimento de ações responsáveis.

A este respeito, é preciso ressaltar o grande incremento no uso de produtos médico-hospitalares nas últimas duas décadas, como por exemplo: seringas e agulhas descartáveis, equipos, frascos e soluções de diferentes apresentações. Além disso, outros materiais descartáveis foram incluídos no rol de uso, embora, não propriamente, relacionados com a assistência, tais como: copos e bandejas descartáveis para fornecimento de alimentação aos clientes hospitalizados, dentre outros. Em um primeiro momento, tais produtos foram vistos como bastante positivos, uma vez que facilitariam o processo de trabalho de assistência em saúde e diminuiriam o risco de contaminações. No entanto, com o avanço do conhecimento e incremento tecnológico na área da saúde, houve um grande aumento do volume de geração de resíduos sólidos, impulsionados pelo crescimento do uso de descartáveis nos serviços de saúde(15).

Entretanto, na contramão, há que se pensar na grande quantidade de resíduos resultante do acúmulo destes materiais e instrumentais, exigindo que as instituições e os trabalhadores ponderem não somente os benefícios, mas também os custos ambientais. Embora não percebamos que isso seja objeto de preocupação para a maioria dos trabalhadores, alguns comentavam a respeito, demonstrando inquietação, principalmente, com o uso excessivo de copos descartáveis. A pouca expressividade da preocupação dos trabalhadores com o lixo reciclável, certamente, tem vinculação com a noção de que, no hospital, o resíduo de maior impacto ambiental é o infeccioso.

Podemos destacar também a dificuldade manifestada pelos trabalhadores em listar outros fatores de relação entre o hospital e o meio ambiente. Para muitos a pergunta era impactante, deixando explícito o fato de que o trabalhador é fortemente afetado pela norma institucional e tem dificuldades de argumentar, de forma crítica, sobre a possibilidade de outras questões relacionadas ao trabalho hospitalar.

Entretanto, para alguns, existem distintos fatores/contaminantes que podem ter influência sobre o meio, embora, na maioria das vezes, as respostas tivessem, como no caso do lixo, tom de dúvida e incerteza. Em alguns casos, os trabalhadores manifestavam preocupação com medicações, especialmente, quimioterápicos e restos de medicação jogados nas pias, que também são resíduos, o que poderia se constituir em fator de degradação ambiental. Outros manifestavam preocupação com as "fumaças" liberadas pelo hospital, numa emblemática correlação com uma indústria. Pôde-se deduzir daí que alguns trabalhadores percebem que outras questões podem ser fator de prejuízo ambiental, contudo, fica evidente a falta de conhecimento a respeito, dificultando a realização de ações efetivas com relação a isto.

É interessante destacar que muitos trabalhadores que manifestaram dificuldade em relacionar o hospital com problemas ambientais, em seu cotidiano doméstico apresentam uma noção de que inúmeras ações são necessárias à preservação ambiental, tais como: a separação do lixo, a economia de água e energia elétrica, dentre outras. Entretanto, no âmbito hospitalar, além da destacada rotina de separação do lixo e da dúvida a respeito de outros contaminantes, estas outras ações são pouco mencionadas.

Por outro lado, alguns trabalhadores tem um pensamento que relaciona o trabalho hospitalar e a preservação ambiental, na medida em que identificam ações que são ou podem ser desenvolvidas neste sentido.

Sem dúvida. Tu podes, tu tens como orientar, tu tens como preservar. Se tem uma água que a gente sabe que está difícil [...] todo mundo se ajudar, cuidar a torneira, cuidar vazamento. Cuidar lixo, não jogar tudo junto. Tem tudo para separar por que não fazer? (Veado Campeiro – técnica de enfermagem).

Os trabalhadores têm uma visão de que seu trabalho pode ser útil na preservação ambiental. Em algumas situações, mostram-se preocupados e apontam medidas que auxiliariam na minimização do impacto ambiental, por exemplo: maior informatização com redução do consumo de papéis; consumo de materiais sintéticos, que poderiam ser reutilizados; prescrição de medicamentos menos agressivos ao meio ambiente, dentre outros.

Assim, o que se observa, nestes casos, é que, impactados pela problemática ambiental e ao desenvolverem um processo reflexivo sobre o assunto, alguns trabalhadores procuram revisar suas bases, suas práticas, de acordo com uma nova orientação. Isto se estende também ao local de trabalho, embora encontrem dificuldades de implementar novas ações em função da estrutura institucional. A reflexividade da Modernidade estende-se ao núcleo do eu, que se torna um projeto reflexivo, como parte de um processo que conecta mudança pessoal e social. A consciência reflexiva é característica de toda ação humana, já que todo ser humano monitora, continuamente, as circunstâncias de suas atividades, sendo capazes de fazer interpretações discursivas sobre a natureza e razões do seu comportamento(9).

Ao considerarem o local de trabalho como passível de ações de preservação ambiental, os sujeitos colocam-se na condição de agente/atores com capacidade e responsabilidade em relação à minimização do impacto ambiental causado pelo seu processo de trabalho. A preocupação ambiental tem oportunizado reflexões sobre a complexidade dos sistemas vivos, ampliando possibilidades de análise sobre o processo de produção do trabalho humano, ao tomar ser humano e natureza com maior interdependência e redimensionando a percepção e a cognição humanas frente à questão da sustentabilidade. O trabalho, ao compor parte significativa da identidade dos sujeitos, é também importante fonte de satisfação simbólica e emocional, exercendo impacto psíquico. A formulação de processos cognitivos voltados à preservação ambiental tende a construir, com mais facilidade, uma integração entre objetividade e subjetividade, que possibilita a conformação de uma ética capaz de influenciar ações cotidianas(16).

Podemos depreender que as ações no trabalho, que conectam o mesmo com os significados, manifestações e ações de preservação ambiental, precisam ser captadas a partir das múltiplas determinações e influências que as constituem. A ampliação da consciência ecológica, por parte do trabalhador hospitalar, depende da desconstrução/reconstrução de significados, no sentido de permitir uma postura ética de responsabilidade com a preservação ambiental.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O entendimento das manifestações da reflexividade ecológica no contexto do trabalho hospitalar não pode estar desvinculado dos inúmeros processos de subjetivação que perpassam os trabalhadores – como sujeitos que durante o processo de trabalho também conformam seus modos de pensar, ser e viver. Tal relação tem especial destaque, se levarmos em consideração: o contexto de Modernidade reflexiva, contemporaneamente vivenciado; as significações que a atual problemática ecológica tem para estes trabalhadores e as especificidades do trabalho em saúde, particularmente, no cenário hospitalar.

Dessa forma, com base nos achados do estudo, verifica-se que, o trabalhador hospitalar, embora reflexivamente afetado pela atual problemática ecológica age em prol da preservação ambiental predominantemente pautado em preceitos normativos. Com isso, face à inexistência de uma discussão aprofundada sobre o assunto, o desenvolvimento de ações fundamentadas em um sentimento de responsabilidade ambiental, no contexto do trabalho hospitalar, fica prejudicado.

A incorporação dessa discussão, com base em profunda reflexão ética, é essencial para a ampliação da consciência ecológica dos trabalhadores hospitalares. Contudo, para que esse entendimento tenha lugar, faz-se necessário que as instituições de saúde tenham a preservação ambiental como uma política institucional, e que esse tema seja colocado na pauta de discussões do processo de educação permanente dos trabalhadores.

Da mesma forma, nas instituições formadoras, local em que os futuros profissionais adquirem a base para o exercício profissional, também deve haver espaço para um processo reflexivo e educativo sobre o tema. No entanto, para além de uma inserção pontual nos currículos dos cursos de graduação da área da saúde, a temática ambiental deve vir, transversalmente acompanhada de elementos como: interdisciplinaridade, ética, solidariedade, diálogo, cooperação, no sentido de buscar-se a formação de sujeitos transformadores dessa realidade de degradação ambiental que afeta a sociedade como um todo(17).

 

REFERÊNCIAS

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16 Navarro MBMA. Trabalho, saúde, ambiente, cognição e sustentabilidades. Rev Eletr Ciênc Cognição. 2005;4:25-34.         [ Links ]

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Endereço da autora:
Silviamar Camponogara
Rua Visconde de Pelotas, 1230, ap. 201
97015-140, Santa Maria, RS
E-mail: silviaufsm@yahoo.com.br

Recebido em: 09/09/2009
Aprovado em: 21/12/2009

 

 

* Artigo extraído de capítulo de Tese de Doutorado desenvolvida em 2008 junto ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

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