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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. (Online) vol.31 no.2 Porto Alegre June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472010000200021 

ARTIGO ORIGINAL

 

Perfil dos atendimentos a crianças e adolescentes vítimas de causas externas de morbimortalidade, 2000-2006a

 

Perfil de la atención a los niños y adolescentes víctimas de causas externas de morbilidad y mortalidad, 2000-2006

 

Profile of care delivered to children and adolescents victims of external causes of morbidity and mortality, 2000-2006

 

 

Marta Angélica Iossi SilvaI; Raquel PanII; Ludimila MeloIII; Paula Saud de BortoliIV; Lucila Castanheira NascimentoV

IProfessora Doutora da EERP/USP, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Capítulo Rho Upsilon, Sigma Theta Tau International, Honor Society of Nursing, Membro do GPECCA, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
IIEnfermeira, ex-bolsista de iniciação científica CNPq, Membro do GPECCA e do Capítulo Rho Upsilon, Sigma Theta Tau International Honor Society of Nursing, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
IIIEnfermeira, ex-bolsista de iniciação científica CNPq/EERP/USP, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
IVEnfermeira, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem em Saúde Pública da EERP/USP, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Capítulo Rho Upsilon, Sigma Theta Tau International, Honor Society of Nursing, Membro do GPECCA, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
VProfessora Doutora da EERP/USP, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Capítulo Rho Upsilon, Sigma Theta Tau International, Honor Society of Nursing, Membro do GPECCA, Pesquisadora CNPq, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil

Endereço da autora

 

 


RESUMO

As causas externas constituem importantes fatores de morbimortalidade infantil e de incapacitações permanentes em todo o mundo. Estudo descritivo, de natureza quantitativa que objetivou caracterizar os atendimentos a crianças e adolescentes, na faixa etária de zero a 19 anos, vítimas de causas externas de morbimortalidade em um hospital universitário do interior de São Paulo, Brasil, no período de 2000 a 2006. Constatou-se no período estudado 6.302 atendimentos, sendo que a maioria dos casos registrados ocorreu entre adolescentes de 15 a 19 anos, no sexo masculino, entre sábado e segunda-feira e das 19 à zero hora. O principal diagnóstico de causa externa foram os acidentes de transporte, seguidos das agressões. Conclui-se que é de fundamental importância o papel da enfermagem na atenção aos acidentes, violências e agressões junto às famílias e comunidade, contribuindo para o planejamento e desenvolvimentos de ações preventivas e assistenciais.

Descritores: Causas externas. Criança. Adolescente. Cuidados de enfermagem. Prevenção de acidentes.


RESUMEN

Las causas externas se constituyen en importantes factores de morbilidad, mortalidad y discapacidad permanente en todo el mundo. Estudio cuantitativo, descriptivo y transversal, tuvo como objetivo caracterizar la atención de emergencia para niños y adolescentes con edades de cero a 19 años, víctimas de las causas externas de morbilidad y mortalidad en un hospital universitario en el interior del estado de Sao Paulo, Brasil, desde 2000 hasta 2006. Se observó durante el período de estudio 6302 de los casos, y que la mayoría de los casos notificados ocurrieron entre los adolescentes de 15 a 19 años, varones, entre el sábado y el lunes y de 19 a 00 horas. El principal diagnóstico de causa externa fueron los accidentes de transporte, seguido por agresiones. Así, es de importancia fundamental el papel de la atención de enfermería a los accidentes, la violencia y la agresión entre las familias y la comunidad, contribuyendo a la planificación y desarrollo de acciones preventivas y asistenciales.

Descriptores: Causas externas. Niño. Adolescente. Atención de enfermería. Prevención de accidentes.


ABSTRACT

External causes are important factors of child morbidity and mortality and permanent disabilities around the world. This quantitative, descriptive and cross-sectional study aimed to characterize emergency care for children and adolescents aged from zero to 19 years victims of external causes of morbidity and mortality in a university hospital in the interior of the state of Sao Paulo, Brazil, between 2000 and 2006. At the end of the study period researchers found 6302 emergency attendances and the majority of reported cases occurred among adolescents aged 15 to 19 years, males, between Saturday and Monday and from 7 to 12 pm. The main diagnoses of external causes were transport accidents, followed by assault. In conclusion, the nurses' role in caring for patients who are recovering from accidents, violence and aggression is of fundamental importance for the families and community. It is essential in order to contribute to the planning and development of preventive and assistance actions.

Descriptors: External causes. Child. Adolescent. Nursing care. Accident prevention.


 

 

INTRODUÇÃO

Os acidentes e as violências, também conhecidos como causas externas de morbimortalidade, são constituídos pelos acidentes de trânsito, homicídios, suicídios, outras violências, intoxicações, acidentes de trabalho, queimaduras, quedas, afogamentos, entre outros, e daquelas causas externas não especificadas se acidentais ou intencionais(1). As causas externas constituem importantes fatores de morbimortalidade infantil e de incapacitações permanentes em todas as partes do mundo. No Brasil, em 2009, elas foram responsáveis por 213.165 internações de pacientes menores de 19 anos, em hospitais que integram o Sistema Único de Saúde(2) e, excetuando as afecções perinatais, corresponderam ao maior número de óbitos, nesta mesma faixa etária, totalizando 7.616 óbitos(3).

Os acidentes e as violências na infância envolvem vários segmentos populacionais, com peculiaridades marcantes em relação à faixa etária, ao local de ocorrência e às características ou circunstâncias em que se desenvolvem(4). Dentre as principais causas externas na infância e adolescência, encontram-se as quedas(5), os envenenamentos(6), as queimaduras(7), os acidentes de trânsito(8) e os abusos sexuais(9). Além dos custos sociais, econômicos e emocionais, as causas externas na infância são responsáveis não só por grande parte das mortes, mas também por traumatismos não fatais que exercem um grande impacto a longo prazo, repercutindo, na criança, no adolescente, na família e na sociedade(10) que têm de lidar com as incapacitações temporárias e com as sequelas decorrentes das injúrias(1).

As repercussões das causas externas na criança e no adolescente, na família e na sociedade devem ser consideradas como um importante problema de saúde pública, passíveis de prevenção. Na atualidade, observa-se um aumento do número de pesquisas(5,7,10) que buscam identificar os fatores e os processos pelos quais elas se dão, as características próprias de determinados acidentes e violências e o ambiente social em que ocorrem, visando à sua prevenção. É essencial conhecer o perfil dos atendimentos dessa clientela vítima de causas externas de morbimortalidade, no sentido de planejar um cuidado de saúde que vise à sua prevenção, assim como de fornecer subsídios para o cuidado dos indivíduos com incapacitações temporárias e com sequelas decorrentes das injúrias. Este estudo teve como objetivo traçar o perfil dos atendimentos de crianças e adolescentes vítimas de causas externas de morbimortalidade, na faixa etária de zero a 19 anos, ocorridos, no período de 2000 a 2006, em um hospital universitário do interior paulista.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo e transversal, de natureza quantitativa, que objetivou caracterizar os atendimentos a crianças e adolescentes, na faixa etária de zero a 19 anos, que tenham sofrido algum tipo de causa externa de morbimortalidade, ocorridos no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP), no período de 1º de janeiro de 2000 a 31 de dezembro de 2006. A escolha desse período atendeu à preocupação de ser representativo para a análise do desfecho em pauta.

Para a delimitação da faixa etária do estudo, adotou-se o conceito de criança e adolescente da Organização Mundial da Saúde (OMS)(11). Nessa perspectiva, criança é toda pessoa com idade inferior a 10 anos, e adolescente é aquele entre 10 e 19 anos.

Constituiu-se como local de estudo o HCFMRP-USP, o qual é uma autarquia, mantida pelo governo do estado de São Paulo, vinculada à Secretaria de Estado da Saúde e associada à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). É um hospital universitário, composto por dois estabelecimentos: um localizado na área central do município, denominado Unidade de Emergência (UE), destinado a atendimentos de urgência e cuidados em enfermaria, e outro, no Campus Universitário, reservado a atendimentos ambulatoriais e enfermarias para internação. O paciente admitido em um dos serviços ainda pode ser transferido para outro, de acordo com a sua necessidade de atenção, sendo maior o fluxo de pacientes transferidos da UE para o Campus Universitário. Na amostra de conveniência adotada, foram incluídos todos os atendimentos por causas externas, ocorridos nos dois institutos.

Por ser um hospital de referência terciária, atende o município de Ribeirão Preto e região e usuários oriundos de outros estados e até mesmo de outros países. A escolha do campo de pesquisa se deve ao fato desta instituição hospitalar integrar a Rede de Serviços Sentinela de Vigilância de Violências e Acidentes (Rede VIVA) implantada pelo o Ministério da Saúde, por intermédio da Coordenação Geral de Doenças e Agravos Não Transmissíveis (CGDANT). Neste sentido, o HCFMRP-USP possui um banco de dados estruturado, a partir do qual foram obtidos e analisados os dados secundários deste estudo.

As variáveis selecionadas para o estudo foram: idade, sexo, procedência, hora, dia da semana, mês e ano do atendimento, tipo de atendimento (ambulatório, enfermaria e pronto-socorro), instituto (Campus Universitário e UE), tempo de permanência no hospital em dias, evolução do atendimento (alta ou óbito) e os diagnósticos apresentados pelos pacientes, de acordo com a 10ª revisão da Classificação Internacional das Doenças (CID-10)(12). Os dados foram submetidos a uma análise estatística descritiva, univariada e bivariada, que incluiu o cálculo de frequências e porcentagens, realizadas por meio do software estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) 15.0.

Por se tratar de um estudo que utilizou, exclusivamente, dados secundários provenientes de um banco de dados, o projeto foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da instituição selecionada e foi solicitada a dispensa do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, a qual foi aprovada (Processo nº 4347/2008).

 

RESULTADOS

Caracterização dos atendimentos

No período selecionado, ocorreram, nas Unidades Campus Universitário e de Emergência, 6.302 atendimentos a 4.449 crianças e adolescentes que sofreram algum tipo de causa externa de morbimortalidade, considerando-se que parte da clientela, no período estudado, apresentou mais de um atendimento. A maioria dos pacientes (70,6%) foi atendida uma única vez, e o número máximo de atendimentos por paciente foi sete. Em relação ao sexo, os meninos foram as vítimas mais frequentes, representando 67% dos atendimentos.

A faixa etária que apresentou maior número de acidentes foi a dos adolescentes de 15 a 19 anos, na qual foram registrados 2.341 atendimentos, correspondendo a 37% do total geral. A distribuição dos acidentes, em relação ao sexo e à faixa etária, está ilustrada na Tabela 1.

Em relação ao ano do atendimento, observou-se que, durante o período estudado, houve uma diminuição gradual no número de atendimentos, registrando-se, no ano de 2000, 1.054 atendimentos e, no ano de 2006, 740. A distribuição dos atendimentos nos meses do ano não apresentou variações relevantes. Duas hipóteses podem justificar esse declínio. A primeira é a resolutividade dos casos na atenção primária ou secundária, já que grande ênfase tem sido dada para que sejam referenciados ao nível terciário apenas os casos que necessitem de atendimento de alta densidade tecnológica. A segunda hipótese refere-se à diminuição do número de causas externas, resultado de campanhas que visam à prevenção desse agravo.

Do total dos 6.302 atendimentos por causas externas, 49% ocorreram entre sábado e segunda-feira. Nos demais dias da semana, o número de atendimentos apresentou discreta variação. A distribuição dos atendimentos em relação aos dias da semana está apresentada na Tabela 2.

Em relação ao período do dia em que ocorreram os acidentes, observa-se, na Tabela 3, que o horário das 19 à zero hora foi aquele em que se registrou o maior número de acidentes e agressões.

 

 

Dos 6.302 atendimentos, 6.122 ocorreram na Unidade de Emergência e correspondem a 97,2% do total de atendimentos. Destes, 4.511 (73,7%) aconteceram no pronto-socorro e, os demais, n=1.611 (26,3%), ocorreram nas enfermarias. No campus Universitário, ocorreram 180 (2,8%) atendimentos, destes, três (1,7%) foram ambulatoriais, e os demais (n=177; 98,3%) se deram nas enfermarias. O hospital em questão é referência para Ribeirão Preto e região, sendo assim, em relação à procedência, verificou-se que a maioria dos atendimentos foi prestada a pacientes residentes em Ribeirão Preto (66%), seguidos por pacientes procedentes dos demais municípios, que compreendem o Departamento Regional de Saúde (DRS) de Ribeirão Preto (29%). Contudo, verificaram-se, também, atendimentos a pacientes provenientes de Minas Gerais (n=40) e de outros estados (n=10).

Em relação ao tempo de permanência no hospital, observa-se, conforme apresentado na Tabela 4, que a duração dos atendimentos ambulatoriais e em pronto-socorro foi, em sua maioria, de zero a um dia. Porém, observou-se que alguns pacientes permaneceram até cinco dias no pronto-socorro. Nas enfermarias, o tempo de permanência foi mais prolongado, com internações que duraram até 153 dias na Unidade de Emergência e 165 dias no Campus Universitário.

Evolução dos atendimentos

Em relação aos óbitos, constatou-se um total de 174, o que representa 3% do total de atendimentos e 4% do número de pacientes atendidos. Do total de óbitos, 95% ocorreram com crianças e adolescentes que passaram por atendimento na Unidade de Emergência, e os demais (5%) se deram com crianças e adolescentes atendidos no Campus Universitário.

Diagnósticos

No total, registraram-se 27.860 diagnósticos, distribuídos dentro dos 21 capítulos que compreendem a CID-10. Os capítulos que apresentaram a maior distribuição de diagnósticos foram o capítulo XIX que compreende as lesões, envenenamento e algumas outras consequências de causas externas, e o capítulo XX que envolve todas as causas externas de morbidade e de mortalidade. A distribuição dos diagnósticos da clientela atendida por causas externas de morbimortalidade na instituição em estudo, nos capítulos da CID-10, está apresentada na Tabela 5.

Em relação aos diagnósticos do capítulo XIX, os agrupamentos que apresentaram maior número de diagnósticos foram os referentes aos traumatismos da cabeça (53%), traumatismos do joelho e da perna (7%) e aos traumatismos do abdome, do dorso, da coluna lombar e da pelve (6%). Dentre aqueles do capítulo XX, os agrupamentos que apresentaram o maior número de diagnósticos foram os dos acidentes de transporte (83%) e os das agressões (13%). Em relação aos acidentes de transporte, 13% corresponderam à ciclista traumatizado em um acidente de transporte sem colisão, 10% à ciclista traumatizado em um acidente de trânsito não especificado e 8% à motociclista traumatizado em um acidente de trânsito não especificado. Em relação às agressões, 33% corresponderam à agressão sexual por meio de força física, 22% a outras síndromes de maus-tratos por pessoa não especificada e 16% à agressão por meio de um objeto contundente.

 

DISCUSSÃO

Devido ao rápido crescimento e desenvolvimento, curiosidade e vulnerabilidade, a criança se encontra por vezes predisposta a acidentes(5). O sexo masculino é mais acometido por causas externas, dado também encontrado neste estudo, o que pode ser atribuído à educação oferecida de forma diferenciada, ou seja, os meninos ganham liberdade mais cedo e, rotineiramente, desenvolvem atividades mais dinâmicas que as meninas(8,13-15).

As violências e os acidentes constituem a segunda causa de óbito no quadro de mortalidade geral brasileira. Atingem toda a infância e a adolescência, destacando-se na faixa etária de um a nove anos; 25% das mortes são devidas a estas causas e, no período de 5 a 19 anos, representam a primeira causa de morte entre todas as ocorridas nesta faixa etária(3). Neste estudo, a faixa etária que apresentou maior número de atendimentos por causas externas foi a de 15 a 19 anos.

Destaca-se o fato de que 29,4% dos registros referem-se a crianças ou adolescentes atendidos mais de uma vez nos serviços estudados. Este dado demonstra a recorrente e constante vulnerabilidade que muitas crianças e adolescentes estão expostos, além de revelar a necessidade de se promover a adoção de comportamentos e de ambientes seguros e saudáveis; o acompanhamento, especialmente na atenção básica de famílias e indivíduos que apresentam vulnerabilidade, seja individual, programática ou social; estruturação e consolidação do atendimento voltado à recuperação e à reabilitação; capacitação de recursos humanos para a identificação, notificação, encaminhamento e atenção aos casos de acidentes e violências e de se potencializar a atenção interdisciplinar e intersetorial às vítimas, contemplando uma postura acolhedora, uma escuta atenta, a responsabilização e o vínculo.

O período do dia com maior número de acidentes foi o das 19 à zero hora, provavelmente após o expediente de trabalho da maioria dos pais, quando crianças e adolescentes retornaram da escola ou creche até o horário de dormir e, provavelmente, período no qual os pais se apresentavam exaustos em decorrência da jornada de trabalho fora do lar. A literatura científica registra que acidentes, como queimaduras, também têm ocorrido no período das 8 às 20 horas, ou seja, no período em que as mães estavam ausentes do ambiente doméstico(14) e, consequentemente, os filhos mais expostos a riscos. Conclui-se, então, que os acidentes com essa clientela podem ocorrer a qualquer hora do dia, reforçando a necessidade de alerta constante dos seus responsáveis e a necessidade de os profissionais de saúde estar atentos à disseminação dos cuidados de prevenção desses agravos em todas as esferas de atenção à saúde.

Em relação aos dias da semana, registraram-se mais acidentes entre sábado e segunda-feira e, como já explicitado, no horário das 19 à zero hora, o que pode ter relação com o tipo de acidente mais frequente, que foi o de transporte. Os acidentes de transporte terrestre são causas importantes de mortalidade e de morbidade em menores de 19 anos(16). Ao principal tipo de acidente verificado neste estudo, o de transporte, seguiram-se as agressões físicas, o que difere da literatura, a qual coloca as quedas como a principal causa de atendimento de menores de 15 anos, em pronto-atendimento e internações(5,13). A literatura demonstra, também, que as queimaduras e as quedas prevalecem entre crianças de 0 a 8 anos, enquanto acidentes de bicicleta, de moto, ferimentos por arma de fogo e por arma branca são as principais causas de morbidade entre adolescentes de 13 a 17 anos(15). Estudos revelam que as crianças e adolescentes são mais vulneráveis aos atropelamentos(17,18), além dos acidentes de bicicleta(19) e, ainda, apontam que as principais causas de óbito por causas externas são acidentes de transporte, afogamentos e aspiração de conteúdo gástrico(5).

O principal tipo de agressão encontrada neste estudo foi a violência sexual, por meio de força física. Milhões de crianças e adolescentes são vítimas de violência no Brasil, a qual se expressa de forma associada, constituindo um problema sócio-histórico e considerado, na atualidade, como um grave problema de saúde pública e como uma das principais causas de morbimortalidade na infância e adolescência.

Algumas vítimas de violência não a denunciam por diversos motivos, como vergonha, culpa, medo por falta de compreensão e vingança por parte do agressor, os quais se relacionam ao contexto socioeconômico e cultural, fazendo com que os registros sejam subestimados e trazendo resultados negativos para a saúde física e mental dessas crianças e adolescentes e para os serviços de saúde que as acolhem(20). Os agrupamentos que apresentaram maior número de diagnósticos, segundo o capítulo XIX da CID-10(12), foram os traumatismos da cabeça, o que vai ao encontro de outros estudos que também apontam esta região, cabeça e pescoço, como a mais afetada(5,15).

A relevância das pesquisas sobre acidentes e violências na infância e adolescência é evidente, em virtude de sua alta incidência e da possibilidade de subsidiar a prática profissional em saúde na perspectiva da integralidade e, assim, contribuir para sua prevenção e redução(13,15). Este estudo, além de caracterizar os principais tipos de causas externas, aponta a importância da sua prevenção. Nesse âmbito, considerando-se a promoção da saúde, é de fundamental importância que a equipe de enfermagem tenha um papel efetivo nos diversos campos de sua atuação, desenvolvendo ações de prevenção de acidentes domésticos e violências, particularmente por meio de atividades educativas junto às famílias, além da busca permanente de evidências que demonstrem a ocorrência destes.

Atuar com o objetivo de promover saúde no âmbito familiar implica no conhecimento do cotidiano dos seus membros. O perfil de atendimentos aqui explorado permite identificar espaços de atuação dos profissionais de saúde, com foco na promoção do bem-estar coletivo, valorizando o desenvolvimento de atividades que privilegiem a prevenção de todos os tipos de acidentes, tanto com a família quanto com as crianças e os adolescentes. O papel das equipes de saúde vai muito além de buscar culpados para os acidentes, diagnosticar, registrar e notificar os casos, mas também acolher, aconselhar e assistir essas vítimas(5).

Torna-se fundamental conhecer as lesões de menor gravidade, as quais não levam à morte ou internação, mas são responsáveis por uma alta demanda nas unidades de emergência, fazendo com que o planejamento do cuidado individual e coletivo, bem como as micro e as macropolíticas públicas tenham uma maior efetividade e aplicabilidade no cotidiano da atenção à saúde da criança e do adolescente(16). O papel do enfermeiro implica em uma visão integral da criança, do adolescente e de sua família, relacionada aos fatores individuais, programáticos e sociais que interferem na ocorrência e possibilidade de prevenção dos acidentes e violências.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo mostra que a maioria dos atendimentos por causas externas ocorreram entre adolescentes de 15 a 19 anos, no sexo masculino, entre sábado e segunda-feira e das 19 à zero hora. Os principais diagnósticos de causa externa foram os acidentes de transporte, seguidos das agressões.

O perfil dos atendimentos de crianças e adolescentes vítimas de causas externas de morbimortalidade aqui apresentado constitui um dado relevante para ampliar a visibilidade desse tipo de agravo. Apesar de limitados a dois cenários de uma mesma instituição, os resultados evidenciam importantes espaços de atuação de gestores e profissionais de saúde, em especial do enfermeiro, e são disparadores de oportunidades para sensibilizá-los para esta temática. É fundamental que se considere um cuidado focado na prevenção e articulado com os diversos níveis de atenção, com vistas à promoção de saúde de crianças, adolescentes e suas famílias.

Os resultados obtidos, bem como algumas questões levantadas na discussão, sugerem a necessidade de condução de novas pesquisas na área, aprofundando estudos acerca das causas da reincidência dos atendimentos às vitimas de causas externas. Ademais, faz-se necessário apontar as limitações deste estudo, por exemplo, a restrição dos dados a uma única instituição e a um período limitado. Novas pesquisas poderão explorar os atendimentos a crianças e adolescentes vítimas de causas externas de morbimortalidade de modo mais amplo, incrementando a compreensão do objeto de estudo em questão, inclusive, por meio de outras abordagens metodológicas.

 

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Endereço da autora:
Marta Angélica Iossi Silva
Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública
Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto
Universidade de São Paulo
Av. Bandeirantes, 3900
14040-902 - Ribeirão Preto/SP
E-mail: maiossi@eerp.usp.br

Recebido em: 04/03/2010
Aprovado em: 05/05/2010

 

 

a Projeto inserido no Grupo de Pesquisa em Enfermagem no Cuidado da Criança e do Adolescente (GPECCA) da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP), Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem, Capítulo Rho Upsilon, Signa Theta Tau International, Honor Society of Nursing