SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.31 issue3Perceptions of people about hypertension and concepts of Imogene KingMain causes of hospitalization of hemodialysis patients in the city of Guarapuava, Paraná, Brazil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

  • Portuguese (pdf)
  • Portuguese (epdf)
  • Article in xml format
  • Article references
  • How to cite this article
  • SciELO Analytics
  • Curriculum ScienTI
  • Automatic translation

Indicators

Related links

Share


Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. (Online) vol.31 no.3 Porto Alegre Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472010000300014 

ARTIGO ORIGINAL

 

Percepção de risco de adolescentes escolares na relação consumo de álcool e comportamento sexual

 

Percepción de riesgo de adolescentes en escuela relacionados con el alcohol y el comportamiento sexual

 

Perception of risk of school adolescents in relation to alcohol consumption and sexual behavior

 

 

Francisco Jucier Luz Sampaio FilhoI; Pedro Ricardo Mesquita de SousaII; Neiva Francenely Cunha VieiraIII; Maria de Fátima Bastos NóbregaIV; Fabiane do Amaral GubertV; Patrícia Neyva da Costa PinheiroVI

IEnfermeiro graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza, Ceará, Brasil
IIEnfermeiro, Bolsista da Escola de Saúde Pública do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil
IIIPhD em Educação em Saúde, Docente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC, Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) - nível 2, Fortaleza, Ceará, Brasil
IVEnfermeira, Doutoranda em Enfermagem da UFC, Serviço de Educação Continuada em Enfermagem, Hospital Universitário Walter Cantídio, Fortaleza, Ceará, Brasil
VEnfermeira, Doutoranda em Enfermagem da UFC, Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Fortaleza, Ceará, Brasil
VIDoutora em Enfermagem, Docente do Curso de Graduação em Enfermagem da UFC, Fortaleza, Ceará, Brasil

Endereço da autora

 

 


RESUMO

O uso de álcool tem sido uma das principais causas desencadeadoras de situações de vulnerabilidade na adolescência. O estudo tem como objetivo analisar a percepção de risco de adolescentes acerca da relação consumo de álcool/comportamento sexual. Os sujeitos foram dez adolescentes entre 14 e 19 anos, estudantes de escola pública em Fortaleza, Ceará. Estudo exploratório-descritivo, de abordagem qualitativa, fundamentado na técnica de Grupo focal, sistematizado por meio de cinco oficinas. Os adolescentes reconhecem o risco entre o consumo de álcool e comportamento sexual, e destacam que o ato de beber facilita as relações entre os pares e apontam a influência da mídia neste processo. Conhecer a percepção dos adolescentes e sua relação com o abuso de álcool e suas conseqüências é relevante para a implementação de políticas de prevenção e combate ao consumo de bebidas alcoólicas nesta etapa de crescimento e desenvolvimento.

Descritores: Adolescente. Consumo de bebidas alcoólicas. Comportamento sexual.


RESUMEN

El consumo de alcohol ha sido una las principales causas desencadenantes de situaciones de vulnerabilidad en la adolescencia. El estudio tiene como objetivo analizar la percepción de riesgo sobre la relación del consumo de alcohol de los adolescentes y el comportamiento sexual. Los sujetos fueron diez adolescentes de 14 y 19 estudiantes en una escuela pública en Fortaleza, Ceará, Brasil. Estudio exploratorio y descriptivo, basado en la técnica de grupos focales y sistematizada a través de cinco talleres. Los adolescentes reconocen el riesgo entre el consumo de alcohol y el comportamiento sexual y hacer hincapié en que la bebida facilita las relaciones entre parejas sexuales e indicar la influencia de los medios de comunicación en este proceso. La percepción de los adolescentes y su relación con el abuso del alcohol es particularmente relevante para la aplicación de las políticas para prevenir el consumo de alcohol en esta etapa de crecimiento y desarrollo.

Descriptores: Adolescente. Consumo de bebidas alcohólicas. Conducta sexual.


ABSTRACT

Alcohol use has been a major precipitating causes of situations of vulnerability in adolescence. The study aims to analyze the risk perception about the relationship of adolescent alcohol use and sexual behavior. The subjects were ten adolescents between 14 and 19, students at a public school in Fortaleza, Ceará, Brazil. Exploratory and descriptive qualitative approach based on the technique of focus group and systematized by means of five workshops. Teenagers recognize the risk between alcohol consumption and sexual behavior and emphasize that drinking facilitates the relationships between sexual pairs and indicate the influence of media in this process. The perception of adolescents and their relation to alcohol abuse and its consequences is particularly relevant to the implementation of public policies for preventing and combating alcohol consumption at this stage of growth and development.

Descriptors: Adolescent. Alcohol drinking. Sexual behavior.


 

 

INTRODUÇÃO

Adolescência é uma etapa crucial do desenvolvimento do indivíduo, e marca não apenas a aquisição da imagem corporal definitiva como também a estruturação final da personalidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera esta fase como a segunda década da vida, de 10 a 19 anos. Já a lei brasileira considera adolescência, a faixa etária entre 12 e 18 anos; assim, há uma divergência entre a fixação etária do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da OMS, também adotada pelo Ministério da Saúde(1).

Atualmente, 1,7 bilhões de pessoas (mais do que a quarta parte dos habitantes do planeta) são adolescentes e jovens, sendo que 86,0% dos indivíduos deste grupo etário habitam em países em desenvolvimento(2). No Brasil a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do ano de 2008 evidencia que quase metade (49,6%) das famílias brasileiras, conta com, pelo menos, um de seus componentes com idade até 14 anos. Destaca também, crescimento na taxa de adolescentes que freqüentam a escola na última década, atingindo, em 2007, 81,7%(3).

A população escolar destacando adolescentes entre 11 e 19 anos, adoece menos que outros grupos etários e, de fato, tem taxas de morbidade e mortalidade mais baixas que da população em geral. Mas um olhar mais aprofundado aponta para um aumento no número de adolescentes que adoecem pelo abuso de álcool, que associados a fatores socioeconômicos e culturais, têm profundas repercussões na qualidade de vida e saúde(4).

O uso e o abuso de álcool tem sido uma das principais causas desencadeadoras de situações de vulnerabilidade na adolescência e juventude, a exemplo dos acidentes, suicídios, violência, gravidez não planejada e a transmissão de doenças por via sexual(5). De acordo com o V Levantamento Nacional com Estudantes realizado em 2004 pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), 65,2% dos estudantes relataram uso de álcool; 44,3% nos últimos 30 dias; 11,7% uso freqüente, ou seja, seis ou mais vezes no mês; e 6,7% uso pesado, isto é, 20 ou mais vezes no último mês(6).

No que se refere ao comportamento sexual de risco o uso de álcool é considerado um dos principais fatores que incidem negativamente neste contexto influenciando inclusive, o início precoce de atividade sexual, não uso de preservativo, pagamento por sexo e, inclusive, prostituição(7). Portanto, por se tratar de uma droga de fácil acesso e lícita, o álcool se apresenta como um dos principais antagonistas da vivência saudável da sexualidade, o que contribui para um aumento da vulnerabilidade em relação às doenças sexualmente transmissíveis (DST). Desse modo, nota-se que a compreensão dos problemas relacionados ao consumo de álcool entre adolescentes deve se estender para além da prevalência do uso, e considerar também os diversos fatores que influenciam este comportamento.

Conhecer a percepção dos adolescentes acerca dos sentimentos presentes nesta fase e sua relação com o consumo de álcool e suas conseqüências é particularmente relevante para a implementação de políticas públicas de prevenção e combate ao consumo de bebidas alcoólicas, especialmente porque este grupo encontra-se em pleno crescimento e desenvolvimento físico e mental e os danos causados pelo álcool podem ser irreparáveis. Partindo dessas premissas, o presente estudo tem como objetivos analisar a percepção de adolescentes acerca da vulnerabilidade e risco na relação consumo de álcool e comportamento sexual.

 

PERCURSO METODOLÓGICO

Trata-se de um estudo exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa, realizado em uma escola pública de Fortaleza, Ceará. A abordagem qualitativa se justifica por ser a forma mais adequada para responder aos objetivos propostos, na medida em que procura centrar a atenção na especificidade, no individual, almejando sempre a compreensão dos fenômenos estudados(8).

Os sujeitos do estudo foram dez adolescentes na faixa etária entre 14 e 19 anos. Os critérios de seleção dos participantes foram: estar regularmente matriculados na instituição, ter disponibilidade para participar das atividades, interesse pela temática, assiduidade nas aulas e autorização dos pais.

A coleta de informações ocorreu entre os meses de março e maio de 2009. A técnica de grupo focal foi utilizada a fim de desvelar as opiniões e percepções dos adolescentes, por meio de cinco oficinas com duração de uma hora e trinta minutos. O grupo focal pode ser entendido como uma entrevista de grupo, embora não no sentido de ser um processo onde se alternam perguntas do pesquisador e resposta dos participantes. Diferentemente, a essência dessa técnica reside justamente na relação de interação entre seus participantes, no processo de coleta de dados. A coleta de informações se desenvolve a partir de tópicos que são fornecidos pelo pesquisador ou moderador do grupo(9).

Para conduzir o grupo focal há um moderador, o qual assegura por meio de uma intervenção discreta e firme, que o grupo cubra os tópicos de interesse do estudo da maneira menos diretiva possível(9). No estudo os moderadores foram dois pesquisadores treinados para a coleta de informações com proficiência na temática, os quais observaram a conduta do grupo, auxiliando na anotação dos acontecimentos-chave.

Com vistas a aprofundar o processo de coleta de informações e interação entre pesquisadores e adolescentes utilizou-se consoante a técnica de grupo focal a metodologia de oficinas em dinâmica de grupo, prática de intervenção psicossocial adaptável a diversos contextos. A oficina tem suas bases e forma de organização originárias da pesquisa-ação, grupos operativos e pedagogia da autonomia(10). Desta forma, as oficinas educativas tiveram as seguintes etapas:

a) levantamento necessidades dos adolescentes, tendo em vista as prioridades, detectadas no momento de apresentação dos objetivos do estudo;

b) planejamento ciclo de cinco oficinas, nas quais utilizamos técnicas de sensibilização, dinamização, comunicação e reflexão, a fim de propiciar a formação de vínculo grupal e estimular o debate nos grupos focais;

c) execução implementação das oficinas e grupo focal, divididas em temas centrais: características do adolescer; DST e Vírus da Imunodeficiência Adquirida (HIV); efeitos do álcool sobre o comportamento sexual; mídia e sua influência na sexualidade do adolescente. Esta etapa baseou-se em exposição dialogada e uso de materiais educativos preconizados pelo Ministério da Saúde;

d) avaliação encontro final com adolescentes a fim de validar os achados do estudo, resgatando todas as oficinas realizadas e depoimentos registrados.

As informações submeteram-se à técnica de categorização dos discursos, que é um processo do tipo estruturalista que comporta duas etapas: o inventário, que é o ato de isolar os elementos, e a classificação, que é a divisão de forma organizada dos elementos da mensagem(8). Em síntese podemos ordenar as idéias e os fatos segundo as semelhanças. Emergiram do estudo três categorias: Características da adolescência; Ingestão de Álcool e Comportamentos de Risco Sexual e A mídia como fator de risco para o consumo de álcool.

O estudo respeitou os aspectos legais e éticos que envolvem pesquisas com seres humanos, conforme a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(11). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará (COMEPE), sob protocolo n° 118/08.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Características da adolescência

O conteúdo presente nessa categoria refere-se à compreensão dos participantes sobre a adolescência, caracterizando-a como uma etapa de dificuldades e barreiras que seriam intrínsecas a essa fase do desenvolvimento.

É importante ressaltar que os adolescentes eram provenientes de famílias com renda familiar variando entre um e dois salários mínimos, seis adolescentes eram do sexo masculino e quatro do sexo feminino. Todos eram residentes próximos a escola selecionada, ou seja, um bairro da periferia da capital. Em relação à procedência dos jovens, três eram do interior do estado. A seguir, depoimento acerca do sentimento de vivenciar esta fase da vida:

Ser adolescente é muito difícil (Cebolinha).

Essa fala pode ser atribuída ao fato de o adolescente se perceber como alguém que está deixando a infância e está prestes a ingressar na vida adulta, sentindo-se, portanto, inseguro pela dificuldade de definir-se como criança ou adulto(12). Outra característica oriunda dos discursos foi acerca do desejo de experimentar o novo.

Adolescente gosta de se divertir, de conhecer coisas novas (Magali.)

Vivenciar situações novas e diferentes não é somente um grande desafio, mas pode ser o determinante da situação de adolescente. Isso porque essas situações abrem a possibilidade de testar os próprios limites e de experimentar "emoções inusitadas". A falta de maturidade do(a) adolescente, somada à curiosidade de experimentar o novo, consumir álcool, por exemplo, e à perspectiva do desafio resulta, quase que invariavelmente, em um dano, advindo daí uma situação de vulnerabilidade(13).

O aumento da vaidade é perceptível na adolescência, sendo o sexo feminino, o gênero que mantém uma relação mais íntima com essa característica, segundo os depoimentos:

[...] a gente é ligada na moda, tenta andar arrumada, perfumada e tal. A gente começa a se preocupar com a aparência (Rosinha).

A vaidade se apresenta como um fator construtor da identidade do jovem, pois o corpo pode ser considerado a tela em que ele vai representar as suas subjetividades, valores criados em nossa sociedade, como a moda, e a inserção em determinado grupo social, além de ser uma forte manifestação da sexualidade no que diz respeito ao jogo de sedução entre os sexos. Por vaidade, os adolescentes muitas vezes consomem bebidas alcoólicas, o que faz com que se sintam diferentes, mais alegres, descontraídos e corajosos(13).

A adolescência também é caracterizada por ser uma fase de conflitos, principalmente no campo do relacionamento interpessoal. Os conflitos presentes são ocasionados pelas grandes alterações de humores que sofrem nesta fase. Até certo ponto, eles se fazem necessários para a aquisição da identidade adulta.

[...] nós tivemos dificuldade de entrar em acordo com as meninas (Rolo).

Na adolescência os relacionamentos são caracterizados por mudanças, tendo picos de instabilidade, muitas vezes por não aceitar as normas e imposições dos pares. Esse comportamento é típico deste período, pois o adolescente deseja a sua almejada independência, procurando por novos valores e padrões de comportamento a partir do relacionamento e comunicação com novos grupos.

Ingestão de álcool e comportamentos sexual de risco

Nessa categoria, percebe-se que os participantes sentem-se expostos a riscos quando ingerem álcool:

Muitas vezes quando a gente bebe e pega a moto do pai escondida [...] pode acabar sofrendo um acidente. A gente sabe que é errado, mas a vontade é maior (Penadinho).

O pensamento abstrato, ainda imaturo nos participantes, faz com que se sintam invulneráveis, se expondo a riscos sem prever suas consequências. Instáveis e susceptíveis a influências grupais, têm acrescido a isso o consumo de álcool como fator potencializador de comportamentos de risco devido ao sentimento de onipotência(14).

O adolescente, no plano cognitivo, tem a dificuldade no acesso ao raciocínio formal, a dificuldade em fazer escolhas racionais em longo prazo e a dificuldade em refletir sobre todas as consequências dos seus atos, fazendo com que, muitas vezes, tenha uma percepção distorcida do risco real da infecção pelo HIV nas relações sexuais, pensando que este é um perigo impossível ou altamente improvável. Essa percepção de risco, que já é distorcida normalmente na adolescência, é agravada com o consumo de bebidas alcoólicas.

A fala dos adolescentes merece destaque ao apontar uma situação de risco relacionado ao consumo de álcool:

[...] pra não ficar de fora, tem que beber mesmo às vezes e até pra dar coragem pra chegar em uma menina, numa festa (Cebolinha).

Estudo realizado pelo Núcleo de Prevenção à Aids (NUPAIDS) observou que o consumo de bebidas alcoólicas estimula a atividade sexual, uma vez que logo após o uso do álcool a impressão dos adolescentes é de que a conquista do sexo oposto fica mais fácil, a libido é maior e o desempenho na relação sexual melhora(15).

Para compreender o risco existente em relação ao uso de álcool e possível atividade sexual dos adolescentes, deve-se levar em conta também o ambiente no qual a bebida é utilizada, ou seja, em festas, bares, lugares de grande aglomeração de jovens, o que favorece o encontro de um possível parceiro sexual.

O álcool e/ou drogas ilusoriamente supre tudo o que desejam, dando a idéia de que são invulneráveis a quaisquer riscos e sofrimentos. Imunes ao perigo, eles não ponderam muito antes de se exporem a situações de perigo, nem se previnem em relação às DST:

Se estiver muito bêbado, você nem lembra se está com camisinha ou não, vai de qualquer jeito, vai bem desistir na hora lá (Penadinho).

[...] às vezes esquece de usar a camisinha, porque esta muito bêbado (Cascão).

Adolescentes que usam álcool, são sexualmente mais ativos, têm maior número de parceiros e iniciam a atividade sexual precocemente(16). O álcool causa um efeito desinibitório que facilita a relação sexual e, ao mesmo tempo, diminui a intenção de uso do preservativo, configurando-se assim, como um fator comprometedor da vivência saudável da sexualidade destes jovens.

É relevante destacar também que diante deste cenário a influência do ambiente familiar e social é fator condicionante para o uso de álcool, já que o adolescente começa a observar o comportamento dos pais desde muito cedo, e com isso percebe que situações de alegria e prazer estão relacionadas ao consumo de álcool. No decorrer de sua vida, repetirá esse comportamento, relacionando-o sempre às situações de descontração, desafio e coragem, nunca a um vício devastador(14).

A mídia como fator de risco para o consumo de álcool

Durante a realização das oficinas, o tópico que discutiu a influência da mídia no início e fortalecimento da prática de consumo de álcool, foi um dos mais debatidos entre os alunos. Essa categoria mostra-se relevante no sentido de auxiliar o entendimento dos fatores que levam o adolescente a ingerir bebidas alcoólicas.

Além da veiculação de propagandas de bebidas alcoólicas acontecerem em qualquer horário, há ainda a associação direta entre o consumo de bebidas e o sucesso, a sexualidade e participação de artistas nacionalmente conhecidos e identificados com o público jovem. O seguinte depoimento revela esta realidade:

Na propaganda de cerveja, sempre tem mulher de biquíni, mulheres gatas, perto do cara que tá bebendo [...] e quando a gente bebe [...] a gente pensa nisso (Cebolinha).

É nítida a influência que a mídia exerce sobre a população e o indivíduo quando exposto às propagandas, tenderá a associar o consumo do álcool com prazer sempre que se colocar em uma situação ou ambiente que recorde as cenas vivenciadas nas propagandas(17). O álcool passa a fazer parte da própria auto-imagem, a constituir um estilo, um jeito de ser, reforçando ainda mais positivamente a escolha pelo produto.

Características como quão atraentes as propagandas são para os jovens (principalmente as de cerveja) e sua exposição a elas estão relacionadas com uma maior expectativa de consumo futuro e possivelmente com um consumo maior e mais precoce por adolescentes.

Nesse sentido, as imagens são criadas com o objetivo de "seduzir o sujeito" nas mais diversas faixas etárias. Os meios de comunicação em massa "retocam" a realidade de maneira a torná-la mais atraente, existe um culto à imagem. Isso é resultado do sistema capitalista dessa nova era, o qual transformou o consumo em uma instituição que determina um conjunto de valores com função de integralização e controle social. O sentido de "ter" passa a substituir o sentido de "ser", para ser alguém socializado e inserido em um grupo social você precisa ter certas coisas, no caso dos adolescentes, para eles estarem inseridos em seu grupo eles precisam beber, ou ter a bebida alcoólica no seu cotidiano(18).

O Ministério da Saúde posiciona-se em relação às propagandas de bebidas alcoólicas no sentido de controlar sua veiculação, enfatiza a urgência de adoção de medidas visto que reconhece que o consumo de álcool entre jovens contribui decisivamente para situações de sexo desprotegido(19).

Mas o ponto que deve ser mais enfatizado é relativo ao papel da família no combate a influência da mídia, a qual é referencial comportamental básico para o jovem, e ela pode influenciar o consumo tanto no plano da experimentação quanto no regular. A atitude mais ou menos crítica dos pais, bem como suas próprias pautas e parâmetros de consumo, podem atenuar ou reforçar a influência de instituições como agentes desencadeadores do processo de experimentação, além de influenciar na legitimidade conferida ao uso dessas bebidas(20).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os adolescentes participantes percebem a adolescência como um período conflituoso e difícil, onde a própria comunicação com outros sofre influência das modificações biopsicossociais características deste período. A possibilidade de vivenciar novas experiências também foi apontada pelos jovens, independente do gênero, e foi possível compreender que experimentar o novo faz parte do processo de adaptação da transição entre a infância e a idade adulta.

Por meio da troca de conhecimentos entre adolescentes seus pares e pesquisadores, foi possível resignificar conhecimentos, o que pode vir a facilitar a aquisição de novas habilidades e atitudes para os participantes, frente a situações futuras que envolvam o uso de álcool. Assim haverá o fortalecimento da autonomia e empoderamento dos adolescentes frente às suas vidas.

Em relação à percepção dos adolescentes acerca da associação entre o consumo de álcool e comportamento sexual, apontaram situações que evidenciam os riscos dessa díade, sendo o gênero masculino predominante em seus relatos. Salientam que beber facilita as relações interpessoais, nomeadamente com o par sexual, ficam mais descontraídos e sentem-se mais corajosos, o que pode facilitar o abuso desta substância provocando situações de risco e vulnerabilidade que influenciam negativamente na qualidade de vida.

As falas apontam que a mídia exerce influência importante, e é condutora ao consumo, influenciando o comportamento dos jovens. Neste contexto, ela exerce papel preponderante por ser mediadora de informações, que muitas vezes pode ser inconsistentes e persuasivas a população juvenil, a qual muitas vezes despreparada, absorve as informações sem refletir sobre a real mensagem e conteúdo.

A família neste quesito deve ser reconhecida, valorizada e fortalecida com vistas à influenciar positivamente a vida de seus membros adolescentes, pois é no seio familiar que o jovem recebe os primeiros ensinamentos para o viver saudável. É preciso juntar esforços, entre profissionais de saúde, educação, políticas de saúde, gestores e sociedade civil para o empoderamento da família, escola e comunidade para rompermos com o uso abusivo de álcool e suas consequências na vida de adolescentes no Brasil.

Ressaltamos que os achados aqui descritos não podem ser generalizados para toda a população adolescente, já que este estudo empregou um processo de amostragem por conveniência, ou seja, eles se referem ao grupo específico de jovens que participaram da pesquisa. Nessa perspectiva os resultados contribuem para o entendimento da questão do comportamento sexual de risco associado ao consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes, servindo, também, como ferramenta de construção de estratégias educativas em trabalhos posteriores que visem à promoção da saúde desse grupo.

 

REFERÊNCIAS

1 Ministério da Justiça (BR). Estatuto da Criança e do Adolescente: 12 anos. Brasília (DF); 2002.         [ Links ]

2 Espinosa MA, Jourdan GAM, Landmann SC. Padrão de comportamento relacionado às práticas sexuais e ao uso de drogas de adolescentes do sexo feminino residentes em Vitória, Espírito Santo, Brasil, 2002. Cad Saúde Pública [Internet]. 2005 [citado 2009 jan 13];21(1):207-16. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csp/v21n1/23.pdf.         [ Links ]

3 Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (BR), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa nacional por amostra de domicílios: síntese de indicadores 2008. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1455&id_pagina=1.         [ Links ]

4 Camargo BV, Bertoldo RB. Comparação da vulnerabilidade de estudantes da escola pública e particular em relação ao HIV. Estud Psicol [Internet]. 2006 [citado 2010 mar 16];23(4). Disponível em: http://pepsic.bvs-psi.org.br/pdf/epc/v23n4/v23n4a05.pdf.         [ Links ]

5 Reboussin BA, Song EY, Shrestha A, Lohman KK, Wolfson M. A latent class analysis of underage problem drinking: evidence from a community sample of 16-20 year olds. Drug Alcohol Depend. 2006;83(3):199-209.         [ Links ]

6 Galduroz JCF, Noto AR, Fonseca AM, Carlini EA. V levantamento nacional sobre o consumo de drogas psicotrópicas entre estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino nas 27 capitais brasileiras: 2004. São Paulo: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas/UNIFESP; 2005.         [ Links ]

7 Vilelas Janeiro JMS. Educar sexualmente os adolescentes: uma finalidade da família e da escola? Rev Gaúcha Enferm. 2008;29(3):382-90.         [ Links ]

8 Polit DF, Beck CT, Hungler BT. Fundamentos da pesquisa em enfermagem: método, avaliação e utilização. Porto Alegre: Artmed; 2004.         [ Links ]

9 Morgan DL. Focus group as qualitative research. Newbury Park: Sage; 1988.         [ Links ]

10 Afonso L. Oficinas em dinâmica de grupo: um método de intervenção psicossocial. Belo Horizonte: Campo Social; 2000.         [ Links ]

11 Ministério da Saúde (BR), Conselho Nacional de Saúde. Resolução 196, de 10 de outubro de 1996: diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos. Brasília (DF); 1996.         [ Links ]

12 Gubert FA, Santos ACL, Aragão KA, Pereira DCR, Vieira NFC, Pinheiro PNC. Tecnologias educativas no contexto escolar: estratégia de educação em saúde em escola pública de Fortaleza-CE. Rev Eletrônica Enferm [Internet]. 2009 [citado 2010 mar 16];11(1):165-72. Disponível em: http://www.fen.ufg.br/revista/v11/n1/v11n1a21.htm.         [ Links ]

13 Folle E, Geib LTC. Representações sociais das primíparas adolescentes sobre o cuidado materno ao recém-nascido. Rev Latino-Am Enfermagem [Internet]. 2004 [citado 2010 mar 14];12(2):183-90. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v12n2/v12n2a06.pdf.         [ Links ]

14 Brêtas JRS, et al. Os rituais de passagem segundo adolescentes. Acta Paul Enferm [Internet]. 2008 [citado 2009 jul 14];21(3):404-11. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ape/v21n3/04.pdf.         [ Links ]

15 Núcleo de Apoio e Prevenção a Aids (SP). Dados estatísticos do estudo na FEBEM Feminina e Masculina. São Paulo; 1992.         [ Links ]

16 Dalen WE, van Kuunders MMAP. Alcohol marketing and young people: an analysis of the current debate on regulation. Nordic Stud Alcohol Drugs. 2006;23(6):415-26.         [ Links ]

17 Pinsky I, Jundi S. O impacto da publicidade de bebidas alcoólicas sobre o consumo entre jovens: revisão da literatura internacional. Rev Bras Psiquiatr [Internet]. 2008 [citado 2009 jul 14];30(4):362-74. Disponível em: http://www.abead.com.br/artigos/arquivos/Artigo_O_impacto_publicidade_bebidas_alcoolicas_sobre_o_jovens.pdf.         [ Links ]

18 Hastings G, Anderson S, Cooke E, Gordon R. Alcohol marketing and young people's drinking: a review of the research. J Public Health Policy. 2005;26(3):292-5.         [ Links ]

19 Ministério da Saúde (BR). Diretrizes e recomendações para o cuidado integral de doenças crônicas não-transmissíveis: promoção da saúde, vigilância, prevenção e assistência. Brasília (DF); 2008.         [ Links ]

20 Abramovay M. Drogas nas escolas: versão resumida. Brasília (DF): UNESCO/Rede Pitágoras; 2005.         [ Links ]

 

 

Endereço da autora:
Fabiane do Amaral Gubert
Rua Alexandre Baraúna, 1115, Rodolfo Teófilo
60430-160, Fortaleza, Ceará
E-mail: fabianegubert@hotmail.com

Recebido em: 14/04/2010
Aprovado em: 24/08/2010

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License