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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. (Online) vol.31 no.4 Porto Alegre Dec. 2010

https://doi.org/10.1590/S1983-14472010000400005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Desenvolvimento de habilidades: estratégia de promoção da saúde e prevenção da gravidez na adolescência

 

Desarrollo de habilidades: estrategia de promoción de la salud y la prevención del embarazo en la adolescencia

 

Skills development: strategy for health promotion and prevention of pregnancy in adolescence

 

 

Maria Glêdes Ibiapina GurgelI; Maria Dalva Santos AlvesII; Escolástica Rejane Ferreira MouraIII; Patrícia Neyva da Costa PinheiroIII; Rita Maria Viana RegoIV

IMestre em Enfermagem, Coordenadora do Núcleo Hospitalar de Epidemiologia do Hospital Distrital Gonzaga Mota de Messejana da Secretaria de Saúde de Fortaleza, Ceará, Brasil
IIDoutora em Enfermagem, Professora Associada do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza, Ceará, Brasil
IIIDoutora em Enfermagem, Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da UFC, Fortaleza, Ceará, Brasil
IVMestre em Enfermagem, Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC, Professora Assistente do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Fortaleza, Ceará, Brasil

Endereço da autora

 

 


RESUMO

Trabalhar com desenvolvimento de habilidades em saúde sexual e reprodutiva do adolescente, na perspectiva da promoção da saúde para a prevenção da gravidez precoce, constitui um desafio para o enfermeiro. Para atender ao grupo em transformação biológica e psicossocial, há que considerar suas particularidades e exige crescimento para os protagonistas enfermeiros e adolescentes. O estudo teve como objetivo analisar as práticas do enfermeiro na prevenção da gravidez precoce na perspectiva do desenvolvimento de habilidades. Pesquisa descritivo-exploratória, com abordagem qualitativa, desenvolvida em Fortaleza, Ceará, tendo como técnica o grupo focal, cuja análise foi realizada por meio das práticas discursivas e mapas de associação de ideias. Os resultados revelaram que a promoção da saúde do adolescente é trabalhada na consulta de enfermagem e grupo de adolescentes, sendo este o espaço criativo, interativo e oportuno para o desenvolvimento de habilidades quanto à sexualidade e à prevenção da gravidez precoce.

Descritores: Enfermagem em saúde pública. Gravidez na adolescência. Promoção da saúde.


RESUMEN

Trabajar con desarrollo de habilidades en la salud sexual y reproductiva de los adolescentes desde la perspectiva de promoción de la salud en la prevención del embarazo se constituye un reto. Para asistir el grupo en transformación biológica y psicosocial, hay que tener en cuenta sus peculiaridades y se requiere madurez de los protagonistas enfermera y adolescentes. El objetivo fue examinar las prácticas de los enfermeros en la prevención del embarazo desde la perspectiva del desarrollo de competencias. Estudio descriptivo-exploratorio, cualitativo realizado en Fortaleza, Ceará, Brasil, con la técnica del grupo focal y análisis en las prácticas discursivas con el mapa de asociación de ideas. Los resultados revelaron que la promoción de la salud ocurre en la consulta de enfermería y en el grupo de adolescentes, cuyo espacio creativo e interactivo es adecuado para el desarrollo de habilidades relacionadas a la sexualidad y a la prevención del embarazo.

Descriptores: Enfermería en salud pública. Embarazo en adolescencia. Promoción de la salud.


ABSTRACT

Work with the development of skills in sexual and reproductive health of adolescents from the perspective of health promotion for the prevention of the precocious pregnancy is a challenge to the nurse. To attend the group on psychosocial and biological transformation, we must consider their particular demands and growth for the protagonists: nurse and adolescent. The study had as objective to analyze the practice of the nurse in the prevention of the precocious pregnancy in view of skills development. Descriptive and exploratory research, with a qualitative approach, developed in Fortaleza, Ceará, Brazil, using the technique of the focal group, whose analysis was performed by means of discursive practices and maps of association of ideas. The results revealed that the promotion of adolescent health is worked out in the nursing consultation and adolescents groups, being this, a creative and interactive space and appropriate for the development of skills regarding sexuality and the prevention of precocious pregnancy.

Descriptors: Public health nursing. Pregnancy in adolescence. Health promotion.


 

 

INTRODUÇÃO

As políticas públicas de saúde, desde a década de 1990, elaboram e incorporam na agenda a atenção à saúde do adolescente, não apenas pelos problemas que afligem ou que são gerados por este grupo populacional, ou pelas vulnerabilidades compreendidas como um conjunto de fatores de natureza biológica, epidemiológica, social, cuja interação amplia ou reduz o risco ou proteção de um grupo(1), mas, sobretudo, pela compreensão de ser um grupo que necessita de promoção e proteção, pelo potencial de contribuição para o desenvolvimento pessoal, familiar e comunitário, tendo em vista a energia, o espírito criativo, inovador e construtivo presente nesta fase(1,2).

A proteção necessária ao adolescente, descrita em leis, decretos e portarias, vem sendo ampliada pelo acesso a bens e serviços que promovem a saúde, educação e o bem-estar a esse grupo, e esforço estão sendo enviados para incluir a família, a sociedade e os serviços de saúde de forma que estes entendam o processo de adolescer. Nessa compreensão, as ações devem estar focadas no desenvolvimento de habilidades, para o exercício pleno da cidadania e do protagonismo juvenil(3), que demanda uma atuação construtiva de forma coletiva em busca de transformação.

O desenvolvimento humano é um processo multidimensional, que ocorre durante o curso de vida, contextualizado por fatores biológicos, psicológicos, socioculturais e históricos que determinam as transformações(3). O enfermeiro e os outros profissionais que integram a equipe da Saúde da Família vem desenvolvendo um olhar aprofundado sobre o desenvolvimento humano, na perspectiva do curso de vida, que inclui todos os ciclos e que estes estão além dos aspectos biológicos e de saúde-doença(4). E este trabalho já aponta neste sentido.

Trabalhar na Estratégia Saúde da Família (ESF) com desenvolvimento de habilidades em saúde sexual e reprodutiva do adolescente, na perspectiva da promoção da saúde na prevenção da gravidez precoce, constitui um desafio para os profissionais de saúde, pois, atender um sujeito que se encontra em pleno processo de transformação biopsicossocial e pautar a atuação, levando em consideração as necessidades e singularidades desse grupo, exige um processo de crescimento e de aquisição de novas competências: conhecimentos, habilidades e atitudes para os dois protagonistas do processo: enfermeiro e adolescente(2).

Na Islândia em 2008, foi realizada a Conferência de Galway, culminando com um consenso em relação à colaboração internacional no desenvolvimento de competências essenciais para a promoção da saúde. Compreendendo competência como a capacidade de aplicar adequadamente os conhecimentos, habilidades e atitudes para alcançar um determinado resultado em um contexto concreto(5,6). Na Conferência, reafirmaram o conceito de promoção da saúde descrito na Carta de Ottawa, como processo de capacitar as pessoas para aumentar o controle sobre sua saúde e seus determinantes(3,5).

A Carta de Ottawa estabeleceu as bases para um novo paradigma de saúde, formalizadas nos cincos campos da promoção da saúde, dos quais se destaca a o desenvolvimento de habilidades pessoais, mediante a divulgação de informação e Educação em Saúde, um campo de atuação privilegiado da enfermagem.

O desenvolvimento de habilidades pessoais que construam competências auto-cuidativas aumenta o poder de decisão e negociação do adolescente, para não ceder às pressões, praticando o autocuidado, tendo atitudes positivas para lidar com a sexualidade e a prática de sexo seguro(1).

Nesse contexto, considerando a relevância da promoção da saúde do adolescente, decidiu-se pela realização do presente estudo, que teve por objetivo analisar as práticas de enfermeiras da ESF voltadas à prevenção da gravidez na adolescência na perspectiva do desenvolvimento de habilidades.

 

METODOLOGIA

Pesquisa descritiva-exploratória, com abordagem qualitativa, envolvendo enfermeiras de oito Centros de Saúde da Família (CSF) de Fortaleza, Ceará. Os enfermeiros foram selecionadas por sorteio, atendendo aos critérios de inclusão de estarem desenvolvendo ações voltadas à saúde ao adolescente e ter pelo menos um ano de atuação no CSF, no período da pesquisa. Ressalta-se que este estudo é um recorte da dissertação de mestrado intitulada "Prevenção da Gravidez na adolescência: atuação do enfermeiro na perspectiva da promoção da saúde"(4).

Os dados foram coletados pela técnica do grupo focal, em março e abril de 2008. Foi planejado para seis participantes, mas por medida de segurança, foram convidadas oito enfermeiras. Foram realizados dois encontros, com duração média de duas horas, cada. As discussões foram gravadas e coordenadas pela pesquisadora principal, com apoio de uma relatora e duas observadoras, com experiência em grupo focal(7).

A condução do grupo focal ocorreu com roteiro, com perguntas norteadoras, pautadas na atuação do enfermeiro no campo da reorientação dos serviços de saúde. As falas dos enfermeiros foram codificadas pela letra E seguida de um número, que variou de 1 a 8.

Na análise dos dados, foram utilizadas as práticas discursivas a produção de sentido no cotidiano, tendo como recurso os mapas de associação de ideias. A técnica de análise é definida como linguagem em ação, uma maneira a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais cotidianas e tem como elementos construtivos a dinâmica, ou seja, os enunciados orientados por vozes, e os conteúdos, que são os próprios repertórios interpretativos(8).

Os mapas de ideias são formas criativas e constituem a apresentação das entrevistas em tabelas, onde as colunas estão definidas por temáticas, sempre respeitando os objetivos propostos(8). Iniciamos a formulação do mapa pela definição da categoria, que reflete, sobretudo, o objetivo da pesquisa.

A pesquisa atendeu aos critérios éticos da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, que trata de pesquisas envolvendo seres humanos(9). Foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará, conforme protocolo nº 282/07. Depois de esclarecidos os objetivos da pesquisa, cada participante assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADO E DISCUSSÃO

As discussões em torno do desenvolvimento de habilidades do adolescente na prevenção da gravidez na adolescência suscitaram o destaque para a atuação do enfermeiro na formação de grupos de adolescentes e para as estratégias de Educação em Saúde adotadas em suas práticas.

Grupos de adolescentes

A educação sexual abordada em grupo de adolescente possibilita um resultado positivo, pela participação, reflexão e capacidade de entender a importância de uma vida sexual com responsabilidade e pela autodeterminação de proteção entre os pares(10). O trabalho com grupo de adolescentes é uma realidade de alguns enfermeiros que relatam:

[...] temos dois grupos de planejamento familiar e que chamamos de grupo de adolescente, ai responde a pergunta, o que a gente faz pra prevenir? é o grupo de adolescente. O grupo de planejamento familiar ficou tão grande, que dividir em dois, o grupo do sol e o grupo da lua, a cada 15dias tem um grupo (E4).

[...] a gente trabalha gravidez na adolescência dentro do grupo de gestante e no planejamento familiar (E3).

No dia-a-dia de outros enfermeiros a realidade é bem diferente, enfrentam dificuldades organizacionais e estruturais, dentre elas a equipe incompleta, e não conseguem desenvolver essa atividade grupal e enfatizaram:

[...] tínhamos 2 equipes, mas agora, funcionando só tem uma, o médico saiu, a enfermeira está de licença maternidade, tem uma equipe que praticamente cobre toda a área, a gente não conseguiu formar grupo de adolescente, o que é que faço? Aproveito todas as oportunidades que tiver (E1).

O grupo mesmo formado, no momento não tem, eu já tentei, mas existem empecilhos. A agente de saúde conversa com os adolescentes da sua área, para fazer um grupo, mas é difícil, eles estudam de manhã, outros à tarde, e não quererem outro horário [...] (E5).

O Grupo de adolescente favorece, também, o trabalho de orientação e de educação, ante as vulnerabilidades e prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis/Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (IST/AIDS), uso de substâncias psicoativas, gravidez na adolescência, violência, abandono escolar e autocuidado. Esse trabalho, ainda, facilita a integração no serviço e auxilia os adolescentes nas dificuldades do cotidiano, desde a troca de experiências, de apoio e segurança, em compartilhar com outros adolescentes as mesmas dificuldades(11,12).

O trabalho de orientação e de educação na promoção da saúde dos adolescentes nos centros de Saúde da Família foi destacado nos discursos a seguir:

[...] eles mesmos foram elencando os temas, pediram para falar sobre DST/AIDS e prevenção e vendo a necessidade. Com relação às oficinas, têm que ser dinâmica e participativa, se for só falando, eles não prestam atenção. Se levar o preservativo e um lanchinho eles adoram (E2).

[...] a gente faz esse trabalho a cada 15 dias com o tema que eles elencam, eles falam muito do social (E3).

A estratégia de trabalhar com grupos de adolescente facilita a abordagem de temas, e favorece reflexão em relação ao projeto de vida, relações familiares e sociais, questões de gênero e desenvolvimento da autoestima e maturidade emocional; esta flexibilidade de escolha foi destacada:

[...] então como acontece, a cada 15 dias é escolhido previamente o tema, na primeira eles elencaram os assuntos, o primeiro assunto que saiu foi justamente a gravidez na adolescência, porque eles tinham no grupo uma adolescente de 15 anos, que estava grávida (E3).

Promover grupos de adolescentes é um caminho para o desenvolvimento de atitudes e habilidades, por constituir um espaço acolhedor, uma forma privilegiada de convivência com outros adolescentes; por propiciar o desenvolvimento de atitudes de respeito, solidariedade, desinibição; além de favorecer maior reflexão sobre os assuntos discutidos, facilitando o entendimento, troca de experiências, mudanças comportamentais, comunicação, negociação e promoção de saúde.

Educação em saúde

A Educação em Saúde é um campo abrangente, para o qual convergem várias concepções, tanto das áreas da educação, quanto da saúde. Na área da saúde, durante muito tempo, a Educação em Saúde foi associada a procedimentos didáticos de transmissão de conhecimento, produzida e veiculada nos serviços de saúde, inspiradas em manuais que continham diretrizes governamentais, como expressam:

[...] quando a gente vai fazer educação em saúde, se for uma coisa formal, com aqueles álbuns seriados, pode ter certeza da evasão, então como eu faço, fica todo mundo sentado, começo logo com as orientações da prevenção, entra anticoncepcional de emergência, vão fazendo pergunta, é assim (E1).

[...] esse ano e meio que a gente passou trabalhando foi com DST/AIDS e educação sexual, quando você trabalha com palestra esse método não é tão eficaz, ele não permite uma discussão, ele só joga informação, e a gente trabalha dessa forma, esse feedback fica um pouco prejudicado (E6).

A estratégia educativa está associada à transmissão de conhecimento, que envolvem ações para o controle e tratamento das doenças preveníveis, com orientações e recomendações pontuais e descontextualizadas em relação à realidade do indivíduo(4,13,14), ainda é adotada. Durante o grupo focal, os enfermeiros consideraram essa metodologia ultrapassada e ineficaz, apesar de ainda ser utilizada por alguns profissionais da saúde:

[...] a gente fala das DST, mostra os órgãos genitais com as doenças, é muito bom como eles chocam, aquelas figuras são chocantes, até para um adulto que diria para um adolescente [...] (E4).

[...] tem uma colega que diz, eu gosto é do tratamento de choque, ele dá certo, mostrar as figuras e apavorar logo todo mundo, para que eles tenham cuidado consigo mesmo (E4).

A metodologia denominada tratamento de choque referida por E4 deve ser descartada, considerando ser anti-educativa, não contribuir para a aprendizagem, além de proporcionar o distanciamento dos adolescentes do Centro de Saúde.

Na atualidade, a Educação em Saúde, passa a ser vista, como um dos pilares da idéia da promoção humana. Essa nova perspectiva, associada à da promoção da saúde, torna-se mais ampla, quando se consideram a capacitação e a qualificação de pessoas, tendo como resposta a ampliação do conhecimento, o desenvolvimento de habilidades e a formação de uma consciência crítica(15).

Essa visão vem se ampliando, com a inclusão de aspectos e fatores determinantes e condicionantes, relacionados à qualidade de vida, e voltados para a coletividade e para o ecossistema(6,16). Nesse contexto, a Educação em Saúde expressa o encontro entre serviço e clientela, na superação da fragmentação, e integra novamente o ser humano em toda a sua dimensão. As ações educativas devem ampliar o debate transpondo o campo biomédico, tentando compreender as subjetividades, as múltiplas implicações e o processo vivenciado na adolescência, ante essa prevenção(11,17). É nesse sentido que a E4 fala da sua atuação:

[...] a gente esclarece tanto sobre o próprio planejamento, o direito que ela tem em planejar a gravidez, planejar a família, de praticar o sexo com liberdade mais também com proteção é escolha (E4).

Nesse aspecto, o enfermeiro deve promover Educação em Saúde para adolescentes, com um olhar diferenciado, pela ampliação das vulnerabilidades e pelos riscos socioeconômicos e culturais destes jovens, considerando que a maioria pertence às famílias com nível de escolaridade baixo e com dificuldades de acesso à informação(13,17). Considerando o contexto, o Município de Fortaleza adotou a estratégia de lotar as equipes do PSF em áreas com o índice de desenvolvimento humano baixo, denominadas áreas de risco.

O processo educativo na promoção da saúde do adolescente deve ser sistemático e pode colaborar para a tomada de decisão, tanto individual quanto coletivamente, na perspectiva de uma vida saudável. Significa dizer que a Educação em Saúde deve promover, por um lado, o senso de identidade individual, a dignidade e a responsabilidade e, por outro, a solidariedade e a responsabilidade comunitária(2,12).

As ações de Educação em Saúde devem ser instigantes, criativas, motivadoras e inovadoras, capazes de estimular o adolescente a participar do processo educativo. Devem contar com todas as opções e recursos disponíveis na comunidade. A respeito desta asserção, uma das participantes relatou que usa os diferentes recursos disponíveis, conforme descrito no discurso a seguir:

[...] eles tem uma rádio na escola, tem um jornalzinho, a gente faz entrevista para o jornalzinho, conseguimos cd com jingle, eles colocam para rodar nessa rádio (E4).

Na atenção ao adolescente, é imprescindível considerar a família como fonte de informação acerca da sexualidade. Estimular a abordagem desse tema com os pais e membros familiares amplia o diálogo entre pessoas que conversam sobre sexo, com implicações favoráveis de desmistificações, quebra de tabus e juízo de valor. Quanto mais o adolescente participar de programas de orientação sexual e tiver oportunidade de conversar sobre esse assunto, melhores são os resultados, em termos de adesão às medidas de proteção, ante uma gravidez precoce(14,17). Portanto, os enfermeiros reafirmaram que aproveitam todas as oportunidades para tratar sobre este tema, como percebemos nas seguintes falas:

Como eu havia falado antes, a gente aproveita todas as oportunidades na unidade [...] (E1).

A gente aproveita quando vão para atendimento, prevenção, planejamento familiar, às vezes lá na unidade chega uma adolescente que já conversou com a gente diz, que trouxe uma amiga para conversar, ele está precisando, seja por um motivo de DST, seja por um motivo de planejamento familiar [...] (E5).

A concepção de saúde e promoção da saúde, como um novo paradigma fundamenta a estratégia de educação em saúde, propiciando melhor reflexão, planejamento, implementação e avaliação das atividades educativas, não só das enfermeiras, como também de toda a equipe da ESF e demais profissionais, que utilizam a Educação em Saúde como ferramenta de trabalho(16).

É fundamental intensificar as ações educativas, em particular, sobre a sexualidade e a prevenção da gravidez na adolescência, por meio de grupos de adolescentes e de conversações diretas com os jovens e a comunidade, a fim de reduzir este fenômeno e, consequentemente, contribuir para a promoção da saúde sexual e reprodutiva do adolescente.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A concepção que o profissional tem de saúde e promoção da saúde influencia significativamente a sua prática. O conceito de saúde e de promoção da saúde mais amplo, como qualidade de vida, direciona a atuação do enfermeiro possibilita desenvolver uma visão aprimorada do contexto socioeconômico e cultural do adolescente. Também favorece o conhecer, compreender e considerar os fatores determinantes e condicionantes como indicadores que ampliam ou reduzem as vulnerabilidades deste grupo.

Todos esses aspectos possibilitam a aproximação dos saberes com sua prática na saúde da família, voltadas às perspectivas do desenvolvimento de habilidades do adolescente para promoção da saúde.

O enfermeiro desempenha relevante papel na equipe e deve promover ações interdisciplinares de educação sexual que integrem família, escola, e comunidade, despertando no adolescente o interesse de ampliar o conhecimento e desenvolver habilidades e atitudes, contribuindo para o exercício de uma sexualidade mais responsável e segura.

No tocante à promoção da saúde do adolescente, esta é trabalhada de forma individual, na consulta de Enfermagem, e coletivamente nos grupos de adolescentes. Alguns enfermeiros, todavia, acreditam ser o grupo de adolescente, um espaço criativo, interativo e oportuno para tratar de vários aspectos sobre a sexualidade, a prevenção das IST/AIDS e da gravidez precoce.

Nas ações de promoção da saúde é importante considerar e valorizar os saberes dos adolescentes no desenvolvimento de habilidade, identificar qual o conhecimento e atitude que já dispõe no campo sexual e reprodutivo e a partir de então, promover as intervenções de potencialidade e complementaridade.

Nesse sentido, o trabalho grupal deve ser a modalidade de escolha na promoção da saúde, por caracterizar como uma importante estratégia para trabalhar com adolescentes, podendo torná-los mais reflexivos, competentes e confiantes em sua capacidade de gestão do seu processo de saúde-doença.

O enfoque de desenvolvimento do adolescente deve ser visto além de uma ascensão ou passagem da fase de criança à adulta, mas como promoção do desenvolvimento de atitudes e habilidades, por meio do protagonismo juvenil e "empoderamento". Quando as suas potencialidades são estimuladas, há um fortalecimento da auto-estima, da assertividade e da construção do projeto de vida, possibilitando escolhas e decisões de forma consciente.

Esperamos que os resultados instiguem reflexões da prática do enfermeiro na ESF para novas descobertas e aprimorar o cuidar/cuidado do adolescente, na perspectiva da promoção da saúde.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço da autora:
Maria Glêdes Ibiapina Gurgel
Rua Chico Lemos, 1470, Cidade dos Funcionários
60822-780, Fortaleza, CE
E-mail: gledesgurgel@yahoo.com.br

Recebido em: 20/07/2010
Aprovado em: 25/11/2010

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