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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. (Online) vol.31 no.4 Porto Alegre Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472010000400025 

ARTIGOS DE REVISÃO

 

Escalas para medida de comportamento preventivo em meninas adolescentes frente às DST/HIV: revisão integrativa

 

Escalas de medida de la conducta preventiva en niñas adolescentes frente al ETS/VIH: revisión integradora

 

Scales to preventive measure of behavior in adolescent girls to front STD/HIV: integrative review

 

 

Fabiane do Amaral GubertI; Neiva Francenely Cunha VieiraII; Marta Maria Coelho DamascenoIII; Francisca Elisângela Teixeira LimaIV; Lorena Barbosa XimenesV

IMestre em Enfermagem, Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC), Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Nível Superior (CAPES), Fortaleza, Ceará, Brasil
IIPhD em Educação em Saúde, Docente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC, Diretora da Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem da UFC, Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), Fortaleza, Ceará, Brasil
IIIDoutora em Enfermagem, Docente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC, Fortaleza, Ceará, Brasil
IVDoutora em Enfermagem, Docente do Curso de Graduação em Enfermagem da UFC, Fortaleza, Ceará, Brasil
VDoutora em Enfermagem, Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC, Pesquisadora do CNPQ, Fortaleza, Ceará, Brasil

Endereço da autora

 

 


RESUMO

Desde o surgimento da epidemia da aids no cenário epidemiológico mundial, a prevenção da transmissão do HIV entre mulheres e adolescentes tem sido um dos maiores desafios no controle da doença. Por meio da revisão integrativa, este estudo tem por objetivo descrever os estudos que utilizaram escalas validadas a fim de acessar comportamentos de adolescentes do sexo feminino frente à prevenção das doenças sexualmente transmissíveis. Para seleção dos artigos utilizou-se duas bases de dados: PubMed, arquivo digital produzido pela National Library of Medicine, e Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL); a amostra constitui-se de sete artigos. As escalas apontam que o profissional de saúde deve reconhecer as interações entre os pares, parceiros sexuais e pais para avaliar a vulnerabilidade das adolescentes e incentiva o uso de ferramentas confiáveis para a prática de enfermagem no contexto da prevenção a estes agravos.

Descritores: Pesquisa metodológica em enfermagem. Estudos de validação. Adolescente. Doenças sexualmente transmissíveis.


RESUMEN

Desde los albores de la epidemia de SIDA en el escenario internacional epidemiológica, prevención de la transmisión del VIH entre las mujeres y adolescentes ha sido uno de los mayores retos en el control de la enfermedad. A través de revisión integradora, este estudio tiene como objetivo describir los estudios que utilizan escalas validadas para el acceso de los comportamientos adolescentes de sexo femenino frente a la prevención de las enfermedades de transmisión sexual, enfermedades de transmisión sexual. Para la selección de los artículos usados dos bases de datos: PubMed, arquivo digital produzido em la National Library of Medicine e Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL); la muestra está formada por siete artículos. Las escalas indican que los profesionales de la salud deben reconocer las interacciones entre los compañeros, socios y padres para evaluar la vulnerabilidad de los adolescentes y fomentar el uso de herramientas fiables para la práctica de enfermería en la prevención de estas enfermedades.

Descriptores: Investigación metodológica en enfermería. Estudios de validación. Adolescente. Enfermedades de transmisión sexual.


ABSTRACT

Since the dawn of the AIDS epidemic in the international epidemiological scenario, prevention of transmission of HIV among women and adolescents has been one of the biggest challenges in controlling the disease. Through integrative review, this study aims to describe the studies that used validated scales in order to access behaviors of female adolescents facing the prevention of sexually transmitted diseases. For selection of articles used two databases: PubMed, digital file produced by the National Library of Medicine and the Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL); the sample consisted of seven items. The scales indicate that health professionals must recognize the interactions among peers, partners and parents to assess the vulnerability of adolescents and encourage the use of reliable tools for nursing practice in the prevention of these diseases.

Descriptors: Nursing methodology research. Validation studies. Adolescent. Sexually transmitted diseases.


 

 

INTRODUÇÃO

Desde o surgimento dos primeiros casos de aids no cenário epidemiológico mundial, há mais de 25 anos, a prevenção da transmissão do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) entre mulheres e adolescentes é um dos maiores desafios no controle da doença. Em todo o mundo, 17,3 milhões de mulheres com 15 anos ou mais, estão vivendo com HIV. Isso representa cerca de 50% do total das pessoas infectadas(1).

No Brasil, a proporção de infecções entre os sexos vem diminuindo sistematicamente ao longo dos anos, passando de 15,1 homens por mulher, em 1986, para 1,5 homens por mulher em 2007(2). Chama atenção a análise da razão de sexo em jovens entre 13 e 19 anos, nesta faixa etária o número de casos é maior entre as meninas. A inversão vem desde 1998, com oito casos em meninos para cada dez em meninas(3).

A vulnerabilidade feminina envolve além dos determinantes biológicos como a imaturidade do epitélio cervical e sistema imunológico, aspectos psicológicos caracterizados pela percepção de invulnerabilidade, imortalidade e influência das relações de gênero, fatores que podem incidir diretamente sobre o comportamento sexual nesta fase da vida(4).

A prevenção das doenças sexualmente transmissíveis (DST) entre adolescentes tem sido um tema de investigação crescente em estudos de saúde em todo o mundo, incluindo a área de Enfermagem, a qual tem produzindo tecnologias e métodos que buscam uma leitura mais fidedigna desta realidade. Dentre os instrumentos, aqueles voltados para a compreensão do comportamento sexual e crenças relacionadas à saúde na dinâmica do HIV, são os que mais despertam os interesses dos profissionais, a fim de incidir sobre os determinantes sociais da saúde(5,6).

Nesse contexto é urgente a adoção de medidas que minimizem o distanciamento entre os avanços científicos e o cuidado de enfermagem, e por isso justificam o interesse em desenvolver uma revisão integrativa da literatura acerca dos estudos que utilizaram como estratégia de coleta de informações, escalas já validadas para acessar conhecimentos, atitudes e práticas de adolescentes do sexo feminino.

A revisão integrativa da literatura é um dos métodos de pesquisa utilizados na Prática Baseada em Evidência na Enfermagem e permite a incorporação das evidências da prática assistencial. Este método pode ser direcionado para definição de conceitos, revisão de teorias ou a análise metodológica de estudos acerca de um terminado objeto, contribuindo para o aprofundamento do conhecimento do tema investigado(7).

Em relação à análise metodológica de estudos, destaca-se a medição de fenômenos de enfermagem por meio da utilização de escalas(8). A validade e a fidedignidade são medidas que refletem a qualidade deste tipo de instrumento, as quais interferem na credibilidade dos resultados da pesquisa em sua utilidade prática. Estudos dessa natureza, visando o desenvolvimento de estratégias de coletas de dados com evidências garantidas de validade e fidedignidade, são escassos na literatura de enfermagem(9).

Na busca por melhorias na pesquisa e competências de enfermagem para promoção da saúde do adolescente, este estudo tem como objetivos: descrever os estudos que utilizaram escalas a fim de acessar comportamentos, atitudes e práticas de adolescentes frente à prevenção das DST/HIV.

 

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Na operacionalização dessa revisão, utilizamos as seguintes etapas: identificação do tema e seleção da questão norteadora; estabelecimento dos critérios para a seleção da amostra; definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados e categorização dos estudos; avaliação dos estudos incluídos na revisão integrativa e finalmente a interpretação dos resultados e apresentação da revisão(10). O estudo tem a seguinte questão norteadora: Quais escalas já validadas vem sendo utilizadas por enfermeiros a fim de desvelar comportamentos de adolescentes do sexo feminino no contexto das DST/HIV?

O levantamento bibliográfico foi realizado no período de setembro e outubro de 2009 em quatro bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS); PubMed, arquivo digital produzido pela National Library of Medicine nos Estados Unidos da América (EUA); Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL); e Cochrane. Destacamos que nenhum artigo foi localizado nas bases LILACS e Cochane. Em virtude das características específicas para o acesso das bases de dados selecionadas, as estratégias utilizadas para localizar os artigos foram adaptadas.

Para o levantamento dos artigos, utilizamos os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subjetc Headings (MeSH) nas línguas portuguesa, "Validação de Estudos como Assunto" and "HIV" and "Adolescente", e inglesa, "Validation Studies as a Topic" and "HIV" and "Adolescent" tendo como limites o gênero "feminino".

A opção pelo uso dos descritores controlados ocorreu devido à quantidade exorbitante de artigos que surgiram quando cruzadas as palavras chaves: escalas, prevenção, HIV, validação de escalas, adolescentes, feminino, fato que impossibilitou a delimitação do material a ser analisado. Após inúmeras tentativas observamos que os autores que abordavam esta temática não utilizavam descritores similares, fato que dificultou a coleta de informações.

Os critérios utilizados para a seleção da amostra foram: artigos completos disponíveis eletronicamente nas referidas bases de dados, nos idiomas português, inglês ou espanhol; artigos que abordem o uso de escalas já validadas sobre o tema HIV/DST com adolescentes do sexo feminino e que tenham no elenco de autores ao menos um pesquisador enfermeiro. Como critérios de exclusão não foram incluídos na análise do estudo os artigos repetidos e os que não apresentavam propriedades psicométricas, de confiabilidade ou validade.

Na busca inicial, 277 artigos foram encontrados, sendo que 67 na base PubMed e 210 na CINAHL. Por meio da leitura dos resumos disponíveis, excluiu-se 198 publicações do CINAHL e 58 do PubMed. Destes, restaram 21 artigos, os quais foram lidos na íntegra, no entanto, apenas sete responderam a questão norteadora e definiram a amostra final da presente revisão.

A coleta de informações se deu a partir de um instrumento adaptado ao tema estudo, o qual foi preenchido para cada artigo da amostra final da revisão(11). O instrumento utilizado apresentou as seguintes informações: identificação do artigo e autores, fonte de localização, objetivos, delineamento, metodologia, população/amostra, resultados e conclusões, bem como os níveis de evidência dos artigos.

Os artigos foram numerados conforme a ordem de localização, e os dados organizados a partir da definição das informações a serem extraídas das publicações selecionadas. A avaliação crítica dos artigos consistiu na leitura do estudo na íntegra e, em seguida, na elaboração de dois quadros sinópticos. De forma auxiliar, utilizou-se a técnica de análise temática de conteúdo por meio da leitura e re-leitura dos resultados dos estudos, procurando identificar aspectos relevantes que se repetiam ou se destacavam.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Caracterização dos estudos analisados

Em relação à caracterização dos sete artigos, estes foram publicados após o ano de 2002, sendo seis provenientes de pesquisas americanas e uma asiática. O delineamento das pesquisas foi: uma experimental (randomizado controlado) e seis não-experimentais (três transversais, três longitudinais). A pesquisa tipo não-experimental foi a de maior incidência.

É necessário considerar que os estudos não-experimentais são utilizados quando há conhecimento limitado sobre determinado fenômeno. Portanto, justifica-se a maioria dos estudos desta revisão pertencer a esta categoria, pois, a multicausalidade na prevenção às DST e medidas de comportamentos e atitudes na adolescência ainda é um tema relativamente novo(12). Este tipo de estudo permite formar um corpo de conhecimentos que dará início a outros tipos de pesquisas.

A seguir, apresenta-se o Quadro 1 representativo dos artigos selecionados na presente revisão.

 

 

No estudo, foi possível avaliar a qualidade das evidências, fornecendo subsídios para a tomada de decisão e desenvolvimento de competências para a prática de enfermagem. Segundo a classificação dos níveis de evidências(20), apenas uma publicação foi classificada com nível de evidência II, sendo caracterizado com ensaio clínico randomizado e seis tiveram nível de evidência III, provenientes de estudos não-experimentais com grupo único pré e pós-teste.

Quanto aos cenários de prática, três contemplaram as adolescentes que frequentavam programas de prevenção às DST em comunidades pobres, com alto risco de infecções, enquanto os demais focalizaram participantes de programas de planejamento familiar em clínicas de enfermagem ou médicas. Das escalas analisadas, as amostras de estudo contaram exclusivamente com jovens heterossexuais. Neste item, duas pesquisas abordaram as jovens que se encontravam em relação estável; quatro entre jovens solteiras que tiveram o primeiro intercurso sexual há pelo menos seis meses e apenas uma é recomendada sua aplicação entre adolescentes virgens.

Acerca da etnia das participantes, quatro instrumentos abordaram descendentes afro-americanas e três não tiveram critérios de inclusão baseados neste quesito e contemplaram jovens brancas, negras e hispânicas. No que se refere às adolescentes latinas, apesar do grande número de jovens desta origem nos EUA, os estudos referem que a língua portuguesa é grande barreira. Recomenda-se a partir desta realidade a adaptação transcultural das escalas utilizadas para outros cenários, com vistas maior generalização dos resultados. Esta restrição é inclusive ressaltada por estudiosos na área, enfatizando a necessidade de estudos junto a diferentes grupos culturais e situações específicas: adolescentes em situação de rua ou privação de liberdade e profissionais do sexo(15).

O interesse pela população afro-americana reside no fato de que hoje nos EUA as minorias raciais e étnicas são as mais afetadas pelo HIV. Os afro-americanos e hispânicos constituem 14% e 18% da população total dos EUA e foram responsáveis, por 48% e 18% dos novos diagnósticos de HIV ou aids em 2006(21).

Quanto à formação dos autores, dois estudos contaram apenas com pesquisadores enfermeiros, enquanto cinco foram realizados por médicos, enfermeiros, educadores e assistentes sociais. A diversidade de formação dos profissionais, correspondente a várias áreas de atuação, evidencia a complexidade da infecção pelo HIV, requerendo o desenvolvimento de pesquisas que se complementem pela multiplicidade de abordagens o que facilita na compreensão deste fenômeno entre adolescentes do sexo feminino(15).

Ao se referir à instituição de origem, cinco foram conduzidas por universidades e duas subsidiadas por hospitais. Na universidade os departamentos de pediatria foram responsáveis por três estudos e os demais por setores de Saúde Mental. Em relação às publicações dois artigos foram divulgados em periódicos de enfermagem, quatro em revistas de Educação em Saúde e uma especializada em Saúde do Adolescente.

Quanto aos objetivos dos estudos, quatro verificaram a relação entre comportamento, práticas sexuais e atitude frente à prevenção às DST/HIV, enquanto o restante enfatizou a relação entre as relações heterossexuais, autoestima e comunicação familiar, como agentes que favorecem ou não atitudes preventivas. Em relação à representação dos domínios mais acessados nas escalas, apresenta-se o Quadro 2 representativo a seguir.

 

 

Esses dados evidenciam que para desvelarmos os comportamentos das adolescentes e promover estratégias adequadas, é preciso conhecer as relações entre os parceiros sexuais, visto que apenas incidir sobre os conhecimentos da adolescente acerca das DST/HIV e gravidez precoce, não necessariamente promove novos comportamentos salutares. Outro ponto foi à auto-eficácia no uso do preservativo masculino, contemplando as barreiras no uso e aquisição e a partir daí ultrapassá-las.

Um ponto interessante diz respeito ao uso do preservativo feminino(13,15), e que os estudos abordam pouco, fato que deveria ser mais estimulado pelos profissionais de saúde. Verificou-se que as adolescentes não conhecem este método por não recebem esclarecimentos suficientes nos serviços de saúde, visto que na atenção básica, por exemplo, este insumo é direcionado às mulheres em situação de vulnerabilidade, profissionais do sexo e infectadas pelo HIV.

Acerca dos referenciais teóricos que fundamentaram a elaboração dos instrumentos, cinco utilizaram um ou mais referenciais, sendo eles provenientes de modelos de Educação em Saúde, dentre eles, um estudo utilizou a Theory of Reasoned Action, Health Belief Model(17) e, três utilizaram a Empowerment Theory(14,15,17) e um baseou-se na Learning Theory e Family Process Theory(19).

Ao utilizar teorias/modelos de educação em saúde, os estudos favorecem a promoção humana na medida em que fortalece a base para mudança no estilo de vida, encorajamento, acesso aos serviços e envolvimento nas decisões de questões de saúde das adolescentes do sexo feminino. Os modelos de educação em saúde buscam contribuir na compreensão dos comportamentos dos indivíduos e grupos em relação às respostas entre o problema e ações a serem tomadas, articulando as mudanças no contexto mais amplo tornando-as mais significativas, principalmente em termos de suporte social de apoio(22).

É importante ressaltar que das sete escalas avaliadas, seis tiveram como base outros instrumentos já validados para população adulta, as quais foram readequadas para as adolescentes e validados novamente, tais como: Partner Communication Scale e Sexual Communication Self-Efficacy(17,19); 45 item HIV Knowledge e 18 item HIV Knowledge(13,18); Rosemberg's 10 item Scale (depressão), Phinney Scale ("atitude de ser negra"), Bentovim Walber Body Attitudes(15) e Female Condom Attitude Scale, Sexual Comfort Scale e Male Condom Attitude Scale(16).

Em vistas das escalas incorporarem outros instrumentos em sua construção, denota a importância dos estudos de validação, os quais podem além de criar algo novo, readaptar determinado instrumento a fim de alcançar uma população específica, no caso desta revisão integrativa, as adolescentes do sexo feminino. Esse fato justifica a necessidade de estudos de validade e precisão, pois seu uso envolve situações nas quais o enfermeiro, neste caso, irá avaliar determinados aspectos que podem vir a interferir na qualidade de vida das adolescentes. Desta forma, a utilização de uma escala que não forneça parâmetros psicométricos adequados poderá prejudicar a avaliação das adolescentes em diferentes contextos(19).

Implicações dos estudos analisados para ações preventivas junto às adolescentes

Com base nos estudos analisados, é possível apontar questões importantes a serem abordadas em instrumentos, com vistas a nortear ações preventivas às DST/HIV.

Em relação à aplicação das escalas, o nível de instrução das adolescentes é um ponto que deve ser considerado durante a condução de algum teste. É importante utilizar algum método confiável para garantir a compreensão da escala pela população a ser estudada. Como método destaca-se o índice de legibilidade de Flesch Kincaid, que propõe um numero adequado de palavras para cada sentença a ser respondida pela adolescente e que atualmente é muito utilizado para avaliar a compreensão em termos de consentimento informado, ou ainda, caso não seja possível sua utilização, deve-se proceder a outras formas de validação de conteúdo, junto a especialistas ou juízes proficientes na temática ou realização de pré-teste ou grupo focal junto a população de estudo a fim de determinar a clareza e objetividade das perguntas(23).

Ainda sobre este quesito, a aplicação de escalas via computador é algo muito promissor, pois o respondente sente-se mais confortável no ato do preenchimento(13). Neste sentido, o enfermeiro pode utilizar este recurso em seus diversos níveis de cuidado, facilitando além da coleta de informações a interação com a adolescente. Para isso é preciso desenvolver competências de enfermagem a fim de utilizar corretamente este recurso.

Fortalecer os conhecimentos sobre DST/HIV, gravidez e auto-eficácia no uso do preservativo é essencial para o empoderamento da adolescente. Reconhecer as situações em que as jovens negociam ou não o uso do preservativo com os parceiros, incluindo as relações entre autoestima, imagem corporal, questões de gênero e identidade étnica ou cultural, são imprescindíveis para agir sobre o processo saúde-doença. Neste quesito, conhecer como se processam a comunicação entre a adolescente, família e parceiros sexuais é essencial para promover a vivência saudável da sexualidade.

A abordagem da orientação e práticas sexuais deve ser encorajada para o processo de mudanças frente às DST. Nos estudos, apenas adolescentes heterossexuais participaram das estratégias aplicadas, sendo recomendado ampliar este escopo para adolescentes lésbicas e bissexuais, incluindo diferentes contextos de vulnerabilidade.

Neste contexto as atividades de prevenção às DST/aids independente do cenário de prática, devem romper com a visão heterossexista e normativa, visto que como citado anteriormente, ainda há um foco em estratégias preventivas e programas voltados a saúde sexual e reprodutiva para as mulheres heterossexual e que se encontram em um relacionamento estável. No que se refere ao Brasil, há necessidade de que o Sistema Único de Saúde (SUS) garanta em suas diretrizes, escolhas preventivas para as distintas formas de relacionamento afetivo-sexual entre os adolescentes em diferentes contextos de relações de gênero e não somente na perspectiva de evitar a concepção.

Em relação ao empoderamento, capacitar às jovens para o uso do preservativo feminino é algo que deve ser estimulado pelo enfermeiro. Segundo os resultados, as adolescentes não o usam por falta de esclarecimento. O preservativo feminino é amplamente divulgado pelos serviços de saúde, na maioria dos casos, entre profissionais do sexo, mulheres infectadas pelo HIV e alérgicas ao látex. Neste sentido verificam-se contradições entre teoria e prática, pois reconhecemos a adolescente como vulnerável às infecções por DST, mais do que qualquer outro grupo etário na atualidade, mas não encorajamos este método como estratégia de empoderamento, mesmo reconhecendo a dificuldade de barganha entre os parceiros sexuais no uso do preservativo masculino.

Portanto, a partir dos resultados deste estudo, preconiza-se que o enfrentamento da epidemia da aids requer uma visão coletiva e que as práticas de enfermagem busquem a construção de um processo de cuidar alicerçado nas significações das necessidades das adolescentes, e desta forma contribua para a redução das distâncias entre práticas, representações e o conhecimento científico disponível, utilizando instrumentos confiáveis como o uso de escalas validadas para adentrarmos no universo imaginário e real em que as adolescentes vivem.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio da presente revisão integrativa foi possível suscitar resultados mais precisos provenientes da utilização de escalas validadas, o que incentiva a exploração de métodos alternativos de observação e o uso de ferramentas confiáveis e válidas na prática de enfermagem por meio do uso de escalas.

Entretanto, a maior limitação do estudo, pode estar relacionada ao fato de utilizamos na busca somente os descritores DeCS e MeSH para recuperar os artigos nas bases de dados eletrônicas, pois constatou-se um descompasso entre estes termos e as palavras-chave utilizadas pelos autores dos artigos analisados, o que pode ter contribuído para que muitos trabalhos, inclusive nacionais, não tenham sido acessados.

Apesar das publicações estarem aumentando nos últimos anos no que se refere aos estudos de validação, faz-se necessário a realização de pesquisas na enfermagem que visem à construção de novos instrumentos, resignificando a produção científica já produzida, adequando-os aos inúmeros cenários de cuidado de enfermagem, visto que segundo esta revisão integrativa, há poucos estudos específicos na área com alto nível de evidência.

Nos artigos analisados, verificou-se a ausência de estudos que comparassem estratégias realizadas na comunidade, escola, atenção secundária e ambiente hospitalar, bem como entre intervenções individuais e coletivas. Nesse sentido emerge a necessidade de fomentarmos uma prática de enfermagem científica, crítica e reflexiva sob o enfoque de atenção integral às adolescentes incluindo a promoção da saúde e prevenção de DST/HIV em diferentes cenários.

Das populações estudadas, com destaque para as jovens afro-americanas, focalizaram-se adolescentes com alto risco para o HIV. Uma crítica proveniente de estudos na área é acerca da restrição da aplicação de escalas as populações de alto risco. É pertinente o emprego destes instrumentos junto a outros grupos nesta faixa etária, evitando a disseminação de "novas populações de risco".

Frente às lacunas apresentadas e as implicações para a enfermagem apontada nos artigos, consideramos necessário intensificar esforços para o desenvolvimento de estudos que fomentem evidências fortes relativas à relação entre a adolescência, a vulnerabilidade feminina e prevenção ao HIV. Ao final, consideramos que a aplicação das escalas analisadas contribui para a prática e pesquisa em enfermagem na medida em que suscita abordagens que facilitem a implementação de cuidados de enfermagem para a promoção da saúde e prevenção de DST/HIV em adolescentes do sexo feminino.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço da autora:
Fabiane do Amaral Gubert
Rua Alexandre Baraúna, 1115, Rodolfo Teófilo
60430-160, Fortaleza, CE
E-mail: fabianegubert@hotmail.com

Recebido em: 08/04/2010
Aprovado em: 11/08/2010

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