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Revista Gaúcha de Enfermagem

versão On-line ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. (Online) vol.32 no.2 Porto Alegre jun. 2011

https://doi.org/10.1590/S1983-14472011000200008 

ARTIGO ORIGINAL

 

Do antropocentrismo ao ecologicentrismo: formação para o cuidado ecológico na saúde

 

Del antropocentrismo al ecologicentrismo: formación para el cuidado ecológico en la salud

 

From anthropocentrism to ecologycentrism: training of ecological care in health

 

 

Marli Terezinha Stein BackesI; Dirce Stein BackesII; Lívia Crespo DragoIII; Magda Santos KoerichIV; Alacoque Lorenzini ErdmannV

IDoutora em Enfermagem, Enfermeira do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil
IIDoutora em Enfermagem, Professora do Curso de Enfermagem do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil
IIINaturóloga, Estudante do Curso de Graduação em Enfermagem da UFSC, Bolsista 2008/2009 do Programa Interinstitucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Florianópolis, Santa Catarina, Brasil
IVDoutora em Enfermagem, Professora do Departamento de Patologia da UFSC, Subcoordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da UFSC, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil
VDoutora em Filosofia da Enfermagem, Professora Titular do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC, Coordenadora da Área da Enfermagem na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Pesquisadora PQ1 do CNPq, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.

Endereço do autor

 

 


RESUMO

Buscou-se o significado que estudantes e professores universitários atribuem ao cuidado ecológico e como essa temática é abordada nos cursos da área da saúde de uma instituição pública federal do sul do Brasil. Nosso objetivo é discutir a categoria central. O método foi a Teoria Fundamentada nos Dados, com dez entrevistas, com dois grupos amostrais, entre setembro de 2008 e abril de 2009. Culminou com a formulação da teoria: vislumbrando o cuidado ecológico como um fenômeno amplo e complexo; com a categoria central: o cuidado ecológico resultante das relações, interações e associações com o ambiente global. Concluiu-se que, para a sobrevivência dos diferentes seres no planeta, não basta combater o antropocentrismo, é urgente formar para o ecologicentrismo, para a interatividade e adaptabilidade funcional sistêmica. É preciso ir além dos discursos e congressos mundiais e refazer a teia de interdependências de todos os seres e elementos da natureza.

Descritores: Desenvolvimento sustentável. Ecologia. Formação de recursos humanos. Meio ambiente. Natureza. Relações interpessoais.


RESUMEN

Se buscó el significado que estudiantes y profesores universitarios atribuyen al cuidado ecológico y como esta temática es abordada en los cursos del área de la salud de una institución pública federal del sur del Brasil. Nuestro objetivo es discutir la categoría central. El método fue  la Teoría Fundamentada en los Datos, con diez entrevistas con dos grupos muestrales entre septiembre de 2008 y abril de 2009. Culmino con la formulación de la teoría Vislumbrando el cuidado ecológico como un fenómeno amplio y complejo, con la categoría central: el cuidado ecológico como resultante de las relaciones, interacciones y asociaciones con el ambiente global. Se concluyo que para la sobrevivencia de los diferentes seres en el planeta, no basta combatir el antropocentrismo, es urgente formar para el ecologicentrismo, para la interactividad y adaptabilidad funcional sistémica. Es preciso ir además de los discursos y congresos mundiales y rehacer la tela de interdependencias de todos los seres y elementos de la naturaleza.

Descriptores: Desarrollo sostenible. Ecología. Formación de recursos humanos. Ambiente. Naturaleza. Relaciones interpersonales.


ABSTRACT

The understanding of the meaning of ecological care for health students and educators and how this issue is addressed in health courses in a public institution in southern Brazil. Our goal is to discuss the central category. The methodology adopted was the Grounded Theory. Ten interviews were carried out among two sample groups between September 2008 and April 2009. The results led to the design of the theory in which ecological care is a phenomenon broad and complex. The core category: the eco-care as a result of relationships, interactions and associations within the global environment. To reject anthropocentrism is not enough for the survival of the all forms of life on the planet. It demands training on ecology centrism and on systemic-functional interactivity and adaptability. We must go beyond speeches and world conferences and redo the web of interdependence of all beings and elements of nature.

Descriptors: Sustainable development. Ecology. Human resources formation. Environment. Nature. Interpersonal relations.


 

 

INTRODUÇÃO

Atualmente estamos vivenciando uma mudança de paradigma civilizacional, com transformações planetárias, bem como na estrutura de valores, isto é, "novos valores, novos sonhos, nova forma de organizar arquitetonicamente os conhecimentos, novo tipo de relação social, nova forma de dialogar com a natureza [...] e nova maneira de entendermo-nos a nós mesmos e de definir nosso lugar no conjunto dos seres"(1).

A era planetária, trás em seu bojo grandes desafios e profundas consequências para a própria existência humana. Em contrapartida, vem aumentando a consciência de que este é o único planeta que temos para habitar, com recursos limitados, o qual precisa de cuidados, a fim de que tenha condições de continuar abrigando todas as formas de vida(1).

O momento histórico atual clama por cuidado, por afeto, compaixão e vida. É o cuidado com as pessoas, com as plantas, com os animais e especialmente o cuidado com a Mãe Natureza e com o Planeta Terra, fonte de vida e esperança para os seres animados e inanimados de modo geral. Mas, qual a razão da crescente preocupação com a conservação do Planeta Terra? A quem cabe este importante papel de preservar, cuidar e revitalizar o planeta?

Esta preocupação não decorre do acaso, pois, "por toda parte apontam sintomas que sinalizam grandes devastações no Planeta Terra e na Humanidade"(2). Esta crise desponta, grosso modo, do fenômeno descuido, ou seja, da falta de cuidado racional. Onde ficam os humanos racionais diante dessa alarmante e crescente crise humana e planetária? Como lidar com este paradoxo cuidado/descuidado numa sociedade marcada pelo individualismo e a indiferença?

O descuidado fica visível diante dos nossos olhos a todo instante, em toda parte e das formas mais diferentes possíveis. Ele se apresenta desde a crise planetária, nas feições desfiguradas dos seres humanos, passando pelos desmatamentos, aquecimento global, efeito estufa, entre outros. Não se trata de achar culpados, mas de provocar uma reflexão acerca da responsabilidade ética relacional que cabe a todos os sujeitos pensantes.

Com essa reflexão emerge o cuidado ecológico, expressão ainda pouco conhecida e difundida, mas que apresenta uma grande abrangência em seu significado, pois envolve dimensões amplas e sistêmicas de relações, interações e associações com o ambiente local e global.

O cuidado ecológico tem sido definido como uma atitude de cuidado e atenção para com o meio ambiente, em toda parte, seja em casa, nas escolas, nas universidades, no local de trabalho, nos espaços públicos ou privados. Ocorre por meio das relações e interações interpessoais e com os demais seres presentes na natureza, num compromisso ético de cuidado consigo, com o outro e com o planeta terra, de forma integradora(3).

A modernidade atribuiu aos humanos um lugar de destaque no universo através do antropocentrismo, da mesma forma, a atuação profissional na saúde permanece centrada no modelo biomédico, com seu enfoque na doença. Em oposição, está a visão ecológica, contemporânea, de que a vida humana encontra-se inserida no meio ambiente, sendo parte integrante da natureza e envolvendo múltiplas relações e inter-relações dos humanos entre si e desses com os demais seres vivos e inanimados.

Torna-se cada vez mais urgente que organizações governamentais e não-governamentais, pesquisadores, profissionais da saúde, outros profissionais e a população em geral, revejam as suas relações com o mundo natural e com o mundo social. Esse rever implica em repensar as bases de sustentação do planeta Terra, desde as práticas mais elementares e aparentemente ingênuas de jogar papel no chão, de poluir águas, passando pelas práticas de consumo e indo até a elaboração e execução de políticas públicas e ambientais, pautadas no processo de viver saudável.

A temática do cuidado, com destaque para o cuidado ecológico, tem pautado muitas das reflexões e discussões do Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração e Gerência do Cuidado em Enfermagem e Saúde (GEPADES) surgindo, a partir daí, a proposta de abordar a formação para o cuidado ecológico junto a universitários de cursos de graduação da área da saúde, concretizado com um projeto contemplado com uma bolsista do Programa Interinstitucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIQ) 2008/2009. Apresentou-se então, a seguinte questão de pesquisa: Como os estudantes de graduação, futuros profissionais da saúde significam o trabalho em saúde quanto às suas interações, conexões e inter-relações com o cuidado ecológico?

Assim, com o objetivo de compreender o significado do cuidado ecológico para estudantes e professores de graduação da área da saúde de uma instituição pública, desenvolvemos esse estudo e apresentamos a categoria central: o cuidado ecológico resultante das relações, interações e associações com o ambiente global. Este tema ou fenômeno central será discutido a partir das concepções de Leonardo Boff, enfocando os aspectos relacionados à necessária mudança do antropocentrismo para o ecologicentrismo, termos que serão apresentados e discutidos mais adiante.

 

MÉTODOS

Estudo qualitativo exploratório que utilizou a Grounded Theory, ou Teoria Fundamentada nos Dados (TFD), como método para análise dos dados(4,5).

Os dados foram coletados por meio da técnica de entrevista semi estruturada, realizada com cinco estudantes e cinco professores dos cursos de graduação em Enfermagem, Farmácia, Medicina, Nutrição e Odontologia de uma Universidade pública do sul do país. Os participantes foram escolhidos de forma aleatória, tendo-se como critério de inclusão a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido. Conforme os procedimentos de coleta e análise orientados pela TFD, formaram-se dois grupos amostrais, o primeiro constituído por estudantes e o segundo por professores.

O questionamento inicial que norteou as entrevistas, dentre outros que emergiram no decorrer do processo e a partir das hipóteses, foi: O que significa para você o cuidado ecológico e quais as suas implicações para o processo saúde doença?

Os dados foram coletados entre setembro de 2008 e abril de 2009, em data e horários previamente agendados. Para facilitar o processo de codificação, as entrevistas foram gravadas e a seguir, transcritas.

A análise foi realizada de acordo com os pressupostos estabelecidos pela TFD, ou seja, os dados foram coletados e analisados simultaneamente e de forma comparativa. Assim, a cada nova entrevista eram estabelecidas novas categorias (hipóteses) ou novas informações que fortaleciam as categorias pré-existentes. A partir da análise aprofundada dos dados do primeiro grupo amostral (estudantes) emergiu a necessidade de buscar o segundo grupo (professores), o que possibilitou que as categorias fossem reagrupadas sob novos conceitos ou se tornassem mais consistentes.

Para atender os critérios éticos, foram seguidas as recomendações da Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(6), que prescreve a ética na pesquisa com seres humanos no Brasil, a fim de validar a proposta de trabalho e poder divulgar as informações. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob o nº 064/08.

Com a finalidade de manter o anonimato dos participantes, os mesmos foram identificados com a letra P (participante), seguida de um algarismo correspondente à ordem da entrevista.

 

RESULTADOS

O processo de coleta e análise dos dados, conforme pressupostos da TFD, culminou com a formulação da teoria formal: Vislumbrando o cuidado ecológico como um fenômeno amplo e complexo. Esta teoria emergiu a partir da inter relação entre as seguintes categorias: Conscientizando os graduandos para o cuidado ecológico como resultante das relações, interações e associações com o ambiente global (categoria central); Desenvolvendo a consciência ambiental (condição causal); Relacionando o cuidado ecológico aos diferentes sistemas (contexto); Percebendo a interação entre ser humano, meio ambiente e saúde (interveniência); Necessitando desenvolver uma consciência ecológica por meio de novos referenciais (estratégia) e, Sentindo (des)motivação para compreender o cuidado ecológico (consequência).

As relações das categorias entre si e com a teoria formal estão representadas pela Figura 1, com a qual se pretende demonstrar que a partir de uma compreensão sistêmica, o cuidado ecológico abrange o meio ambiente e todos os seres que nele habitam e no qual o ser humano assume um espaço singular: "A Humanidade não está apenas sobre a Terra, ela é a própria Terra que, [...] se comove, se volta sobre si mesma, ama, cuida e venera"(1). Somos hóspedes temporários do grande espaço Terra e, se não recuperarmos o sentido profundo da vida e das coisas, a maneira exploratória como nos relacionamos com a terra, tornará inviável a recuperação do equilíbrio ecológico. Em outras palavras, "o ser humano é chamado a ser guardião de cada ser vivo. Ao realizar esta missão, ele alcança o grau maior de sua humanidade"(7).

Nesse artigo será aprofundada e discutida a categoria, ou fenômeno central, denominada: O cuidado ecológico resultante das relações, interações e associações com o ambiente global. Como fenômeno central, ela evidenciou, sobretudo, o momento histórico atual marcado pela travessia do antropocentrismo ao ecologicentrismo, a partir da percepção sistêmica de que somos seres de interações e associações e que mantemos uma relação de dependência e influência com todos os demais seres e o meio ambiente, o que pode ser percebido nos depoimentos:

Então, nós estamos pensando só em nós. Nossa visão é hipocêntrica e altamente egoísta. Eu quero preservar o planeta pra mim, para meus netos, que loucura! É assim que o ser humano pensa! Os alunos hoje estão nessa visão! [...] Mas não é assim, tem que proteger o ser humano para a vida (P6).

O cuidado ecológico que hoje já existe é fruto da ampliação da consciência de cada um! Isso está envolvido no processo de a gente poder ser feliz, [...] cuidar, estar envolvido no processo, porque sem cuidar não vamos chegar onde a gente quer (P8).

Ficou muito gravado o ritmo de distanciamento das pessoas e que as plantas e os animais e até mesmo minerais devem ser considerados como recursos [...], como parte de mim mesmo, como parte de uma família dos seres existentes! Eu acho que o mercado exacerbou o antropocentrismo, radicalizou o antropocentrismo, tudo é feito para servir o ser humano e isso é muito ruim porque criou um distanciamento (P7).

Os participantes evidenciaram que o cuidado ecológico é resultado e somente se realiza por meio das interações e associações com o ambiente global. Na capacidade do indivíduo transpor o seu mundo singular para alcançar uma dimensão mais abrangente e sistêmica.

Este processo dinâmico, interativo e associativo, motivado e integrado pelo ser humano, como ser de cuidado, se expressa e se torna pleno com as demais realidades cósmicas, conforme refletem as falas a seguir:

Eu falo muito da relação, do conjunto de relações do ser humano como parte do cuidado. Você não cuida de uma pessoa sozinho, sempre que cuida de uma pessoa, suas ações estão interferindo em outras pessoas, ou seja, na família, na comunidade, no ambiente (P7).

Primeiro você tem a consciência só do seu próprio senso, o seu eu. Depois o seu eu abraça a percepção de si e do outro. Daqui a pouco, você, o outro, as árvores e os pássaros e tudo que vive, se relaciona com esse meio! Cuidando dele tal como você cuida de você mesma, a tua consciência se amplia e o outro vai fazer parte de ti [...] daqui a pouco o mundo inteiro é você, e aí você cuida de tudo, você cuida do outro, dos animais, você cuida do sol, da água, porque tudo é você! (P8).

Os participantes reconhecem, de outro modo, que o mundo singular é carregado e influenciado por fatores externos ou do meio e que levam ou induzem a determinados comportamentos ou atitudes, muitas vezes, contraditórias e reducionistas, como por exemplo, os princípios moralistas, a religião, dentre outros.

A consciência do teu eu tem muito a ver com a moral, que nos ensinou que cuidar de nós mesmos era egoísmo. Quando você amplia a sua consciência, vê que não existe outro. [...] Existe a consciência de ti e a tua consciência amplia o outro, passa a ser você! E aí você vai cuidar da natureza como de você mesmo, dos pássaros, de todos os outros animais, do outro como de você mesmo! Para tudo que você olha você se vê, e se você cuida bem de si, vai cuidar bem do outro! (P8).

[...] é aquela coisa do cristianismo, de pensar que a natureza está aí para servir o ser humano (P7).

Alguns participantes evidenciaram ainda, que o processo de cuidado pode e deve ser ampliado por meio de metodologias reflexivas, que levem o indivíduo a pensar e repensar a sua própria postura e responsabilidade em relação ao futuro. Metodologias capazes de confrontar o mundo real e existencial, pela valorização do uno no múltiplo e do múltiplo no uno e principalmente, pelo exercício da cidadania.

Já parou para pensar o que você deseja? Eu faço eles planejarem daqui a 5 anos, 10 anos, 15 anos. E a discussão muda. Aí a ecologia também muda. Aí eles começam achar que precisam fazer a parte deles para que o mundo ainda exista até lá. Aí tem cabimento o descarte do lixo, o uso controlado. Aí eles passam a ter razões, esse tipo de pensar!Mas é muito complicado, porque é uma coisa que eles não têm. E daí o que eu acho que entra na parte da universidade, que é a formação do indivíduo como cidadão (P4).

 

DISCUSSÃO

Ao ampliar a consciência do eu singular, do outro e do meio em que vivemos, passamos a nos integrar entre nós e ao que está à nossa volta. Dessa maneira, o antropocentrismo - incorporado em nossa civilização a partir da Idade Média, com início em torno do século V - predominou sob a influência judaico cristã, em que o ser humano assumiu centralidade e passou a ser visto como o centro do universo. Tal característica vai perdendo seu lugar de destaque na atualidade(8).

O momento histórico atual rompe com o silêncio cósmico. O ser humano é convocado a transcender o mundo singular e desenvolver uma atitude interdependente com tudo que o rodeia. Em outras palavras, advém o chamamento de que é impossível viver e sobreviver desconectados com a realidade cósmica e ecológica, energia e garantia da própria existência(1,2,7,9).

Nessa direção, o antropocentrismo vem cedendo lugar ao ecologicentrismo, através do qual surgem novos valores, novas maneiras de pensar e de se relacionar com os seres humanos e com o meio ambiente, do qual todos os seres fazem parte, animais, vegetais, ambiente natural, seres inanimados e, no qual o ser humano vem resgatando o sentimento de pertença à natureza, ao invés de seu senhor e possuidor. E assim, nos damos conta de que temos muito a aprender com a própria natureza.

Torna-se necessário, crescentemente, passar de uma sociedade de exploração para uma sociedade de cooperação. De uma sociedade excludente e de auto-afirmação para uma sociedade integrada na sua totalidade. De um modelo de produção à custa da natureza para um modelo de convivência e sinergia com a natureza. É preciso formar uma totalidade complexa e um sistema aberto a novas incorporações, na qual todos os seres se entrelaçam em redes de inter-retro-conexões, pela interação cósmica, terrenal, biológica, antropológica e espiritual(1,7,9).

O movimento ecológico é um dos movimentos populares que atua, atualmente, em prol da mudança social, na defesa das transformações profundas de valores, redefinindo as relações entre os seres humanos e a natureza. Esse movimento estimula a alfabetização ecológica e o pensamento sistêmico que se estrutura através das relações, contextos, padrões e processos. Essa mudança profunda do pensamento e dos valores está relacionada com a passagem "dos sistemas lineares de extração de recursos e acumulação de produtos e resíduos para os fluxos cíclicos de matéria e energia; da fixação nos objetos e nos recursos naturais para a fixação nos serviços e nos recursos humanos"(10).

A aptidão para contextualizar produz a emergência de um pensamento ecologizante, uma vez que aponta para a inseparabilidade de todo acontecimento, informação ou conhecimento, a partir de sua relação com o ambiente natural, cultural, social, econômico e político(11).

Para passarmos à fase da história humana planetária, é fundamental o aprendizado da convivência, do respeito e da tolerância frente às adversidades e diferenças, em função da interdependência entre tudo e todos, como também, é indispensável que sejamos cuidadosos conosco mesmos, com os outros seres que habitam essa terra e com o meio ambiente que nos abriga, conforme segue a reflexão a seguir: "ou vivemos o respeito incondicional a todo ser, especialmente ao ser vivo e em particular ao ser humano, ou então perderemos a base que sustenta o empenho pela dignidade e pelos direitos humanos. Se não respeitarmos todo ser, acabaremos não respeitando o ser humano, homem e mulher, o ser mais complexo e misterioso da criação"(7).

Parte daí a necessidade de que os espaços da educação formal nas instituições de ensino superior propiciem o trabalho interdisciplinar, "com ética, solidariedade, diálogo, cooperação, cidadania, a fim de que seus atores sejam transformadores críticos dessa realidade com que ainda hoje nos deparamos, ou seja, de degradação ambiental, que por sua vez afeta a sociedade como um todo"(11).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo constatou que a Universidade não é ou não foi relevante para despertar ou desenvolver o cuidado ecológico nos acadêmicos, em seu sentido amplo, que leva em consideração algumas questões fundamentais, como as múltiplas relações entre os seres vivos, a interação e a inter relação entre eles, bem como as associações entre os seres humanos e demais seres que integram a natureza, num compromisso ético de responsabilidade consigo, com o outro e com o universo cósmico, de forma ampla e integradora.

Ao considerar que a Terra é a nossa casa comum, o destino dessa está interligado ao destino de todos os seres que a habitam. Logo, tudo o que fere a terra e sua dimensão ecossistêmica, fere também os seres que a habitam.

A crise ambiental é fundamentalmente a crise de um modelo de produção desenvolvimentista, considerado antiecológico. O desespero desenfreado pelo ter sempre mais, por lucros imediatos e competitivos, trouxe o desmatamento, a poluição, o aquecimento global, com possibilidades de uma devastação catastrófica do planeta terra. O consumo a todo custo e o comportamento descartável provocam desequilíbrios crescentes e irrecuperáveis, tais como as enchentes, as secas, os tornados, o superaquecimento, entre outros. Dito de outro modo, o sistema produtivo, em seu ciclo que vai da extração da matéria prima ao consumo, vem deixando marcas profundas no meio ambiente, com efeitos catastróficos refletidos na própria sustentabilidade do planeta.

Onde estão e ficam os humanos, os hóspedes temporários, os chamados cuidadores? Qual é nossa visão de futuro? Que esperança transmitimos aos nossos jovens?

Com facilidade diagnostica-se, trata-se, e até cura-se doenças agudas ou crônicas, mas há uma grande dificuldade em se diagnosticar a "doença" crônica devastadora, que circula em nossas veias ecossistêmicas. Provavelmente isto se deve ao fato de que ainda não estamos dispostos a querer mudar nossos hábitos de vida e de consumo.

Necessitamos urgentemente de uma mudança de valores para revertermos os estragos, já causados pelo descuidado à dimensão planetária. Precisamos valorizar as relações e reconquistar o respeito pelo diferente e pelo essencial. Precisamos reconquistar a sensibilidade, a hospitalidade e a referência cósmica.

Para a sobrevivência dos diferentes seres no planeta, não basta combater o antropocentrismo, é urgente formar para o ecologicentrismo. Faz-se necessário, em suma, a interatividade e adaptabilidade funcional sistêmica, de modo que se mantenha e recupere a harmonia e o equilíbrio dinâmico do conjunto dos sistemas. É preciso ir além dos discursos e congressos mundiais e refazer a teia de interdependências de todos os seres e elementos da natureza.

No aspecto formativo, nos ambientes da educação formal, em especial nos cursos de graduação em enfermagem e da área da saúde é fundamental incorporar nos currículos, a visão sistêmica de cuidado ecológico. Trazer para os ambientes de formação as oportunidades de discussão e reflexão das questões ambientais e ecológicas, fazer com que os futuros profissionais da saúde atentem para a saúde global, o que implica em manter-se em atitude reflexiva e, portanto, ecologicêntrica.

 

REFERÊNCIAS

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2. Boff L. Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela terra. 11ª ed. Petrópolis: Vozes; 2004.         [ Links ]

3. Backes MTS, Erdmann AL, Backes DS. Cuidado ecológico: o significado para os profissionais de um hospital geral. Acta Paul Enferm. 2009;22(2):183-91.         [ Links ]

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5. Strauss A, Corbin J. Pesquisa qualitativa: técnicas e procedimentos para o desenvolvimento de teoria fundamentada. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2008.         [ Links ]

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7. Boff L. Virtudes para um outro mundo possível: convivência, respeito & tolerância. Petrópolis: Vozes; 2006.         [ Links ]

8. Galimberti U. Técnica e natureza: a inversão de uma relação [Internet]. Florianópolis; 2005 [citado 2009 jul 16]. Disponível em: http://www.socitec.pro.br/e-prints_vol.1_n.1_tecnica_e_natureza.pdf.         [ Links ]

9. Boff L. O despertar da águia: o diabólico e o simbólico na construção da realidade. 21ª ed. Petrópolis: Vozes; 2009.         [ Links ]

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Endereço da autora / Dirección del autor / Author's address:
Magda Santos Koerich
Rua Dona Leopoldina, 40, Ponta de Baixo
88104-022, São José, SC
E-mail: mskoerich@ccs.ufsc.br

Recebido em: 02/06/2010
Aprovado em: 15/02/2011

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