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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.32 no.4 Porto Alegre Dec. 2011

https://doi.org/10.1590/S1983-14472011000400002 

ARTIGO ORIGINAL

 

A abordagem da interface saúde e meio ambiente na formação profissional de enfermeiros

 

The approach to the interface betweens health and environment in the training of nurses

 

El enfoque de interfaz de la salud y el medio ambiente en la formación de enfermeras

 

 

Silviamar CamponogaraI; Cibelle Mello VieroII; Vanúzia SariIII; Graciele ErthalIV

IDoutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGEnf) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Pesquisadora do Grupo Trabalho, Saúde, Educação e Enfermagem da UFSM, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil
IIEnfermeira, Membro do Grupo Trabalho, Saúde, Educação e Enfermagem da UFSM, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil
IIIEnfermeira Especialista em Terapia Intensiva, Mestranda do PPGEnf da UFSM, Enfermeira do Grupo Hospitalar Conceição de Porto Alegre, Membro do Grupo de Pesquisa Trabalho, Saúde, Educação e Enfermagem da UFSM, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
IVEnfermeira, Graduanda do Programa Especial de Graduação para Formação de Professores Nível Técnico e da Especialização Gestão em Organização Pública da Saúde pela UFSM, Membro do Grupo Trabalho, Saúde, Educação e Enfermagem da UFSM, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil

Endereço da autora

 

 


RESUMO

O objetivo do estudo foi conhecer a percepção de docentes enfermeiras acerca da interface saúde e meio ambiente. Estudo descritivo com abordagem qualitativa desenvolvido com seis docentes enfermeiras de diferentes áreas de atuação no processo de formação de enfermeiros. Os dados foram coletados por meio de entrevista semi-estruturada, em 2010, e passaram por um processo de análise de conteúdo. A análise dos dados possibilitou a emergência de categorias, sendo elas: Interface saúde e meio ambiente: uma relação de causa e consequência; Discussão sobre a questão saúde e meio ambiente na formação profissional: uma lacuna no processo formativo; saúde e meio ambiente: um conteúdo transversal. As docentes, a partir do entendimento de que há interação entre saúde e meio ambiente, enfatizam que o meio ambiente deve ser uma temática transversal na proposta curricular do Curso de Enfermagem, uma vez que, evidenciam lacunas na abordagem do assunto.

Descritores: Meio ambiente. Educação em enfermagem. Docentes de enfermagem.


ABSTRACT

This study aimed to know how nursing professors perceive the interface between health and environment. This is a descriptive study with a qualitative approach developed with six nursing professors from different areas in the process of training nurses. The data were collected through semi-structured interviews in 2010 and underwent a process of content analysis. The data analysis allowed the emergence of categories, namely: Health and environmental interface: a relation of cause and consequence, Discussion on the issue of health and environment in vocational training: a gap in the educational process, and Health and environment: a cross-sectional content. Based on the understanding that there is interaction between health and environment, the professors emphasize that the environment should be a cross-sectional theme in the curriculum proposal for the Nursing undergraduate major, since they show gaps in addressing the issue.

Descriptors: Environment. Education, nursing. Faculty, nursing.


RESUMEN

El objetivo fue estudiar la percepción de los docentes de enfermería sobre la interfaz de la salud y el medio ambiente. Estudio descriptivo con abordaje cualitativo desarrollado con seis enfermeras docentes. Los datos fueron recolectados a través de entrevistas semi-estructuradas en 2010 y se sometió a un proceso de análisis de contenido que permitió la aparición de las categorías: la interfaz de la salud y el medio ambiente: una relación de causa y consecuencia, discusión sobre el tema de salud y medio ambiente en la formación profesional: una brecha en el proceso educativo y salud y el medio ambiente: un contenido transversal. Se concluye que existe una interacción entre la salud y el medio ambiente percibido por los docentes, y ellos enfatizan que el ambiente debe ser una cuestión transversal en el currículo propuesto para el curso de enfermería, ya que muestran brechas en el tratamiento de la cuestión.

Descriptores: Ambiente. Educación en enfermería. Docentes de enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

Ao se aprofundar o debate acerca da problemática ambiental, têm-se fortes indícios de que o ambiente sofre um processo de degradação agravado pela ação humana; o que tem colocado o planeta em risco de um colapso, diante das inúmeras e profundas agressões que tem sofrido. Faz-se necessário que, as instituições de ensino e pesquisa, reflitam sobre esta realidade no meio acadêmico. Isso, considerando que os impactos negativos da destruição e desequilíbrio ambiental afetam, direta e indiretamente, as condições de saúde e de doença das populações, trazendo novas demandas à prática do cuidado, para as quais os profissionais precisam estar preparados.

Na formação de enfermeiros, é imprescindível intensificar debates sobre a interface saúde e meio ambiente, já que entre as ações desses profissionais está a atuação em atividades de promoção e reabilitação em saúde; campos que lhes abrem ricas possibilidades para assumirem-se "atores sociais ativos" na produção de uma educação ambiental preocupada com o despertar de sujeitos ecológicos.

Somente através de uma educação ambiental que abarque a interface saúde e meio ambiente, na formação profissional, será possível produzir e/ou resgatar junto à enfermagem um ideário ecológico preocupado com essa teia de conexões dinâmicas entre homem e meio ambiente, seres vivos e nãovivos. Essa se constitui em uma das estratégias necessárias para concretizar o envolvimento da enfermagem em ações sociais ambientalmente apropriadas.

Isso, invariavelmente, significará uma nova compreensão (não unicamente biológica) dos determinantes de saúde e doença, e uma abordagem verdadeiramente holística entre humano e natureza no cuidado; não centrada em lógicas antropocêntricas, mas no interagir de energias e de trocas universais(1). A ideia defendida é a de que o cuidado de enfermagem deve abarcar o ser humano em todas as suas relações e interações, em completa interdependência com o meio.

Ao incorporar a concepção ambiental na prática da docência em enfermagem, o docente poderá ser capaz de disseminar as bases para a formação de um profissional comprometido com os seres humanos, objeto do cuidado de enfermagem, e com o meio ambiente com o qual mantém uma complexa teia de relações.

Diante disso, o estudo apresenta como questão norteadora: qual a percepção de docentes enfermeiras da interface saúde e meio ambiente? Dessa forma, o objetivo do estudo foi conhecer a percepção de docentes enfermeiras acerca da interface saúde e meio ambiente.

 

METODOLOGIA

O estudo caracteriza-se como exploratóriodescritivo, com abordagem qualitativa. A entrevista semi-estruturada foi eleita, como técnica de coleta de dados, por permitir às pesquisadoras, a obtenção do depoimento e por possibilitar aprofundar um diálogo com os sujeitos(2).

A pesquisa foi desenvolvida junto a docentes enfermeiras de um Curso de Enfermagem de uma Universidade Federal do sul do Brasil. A escolha dos sujeitos foi aleatória, por sorteio, tendo como critérios de inclusão: ser docente enfermeiro do quadro permanente da instituição e estar atuando a mais de um ano no curso de graduação.

Os sujeitos foram informalmente convidados a participar do estudo, sendo que as entrevistas somente aconteceram após leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os dados foram coletados entre os meses de agosto a setembro de 2010. Foram entrevistados, no total, seis docentes, e o encerramento amostral se deu por saturação teórica.

A análise dos dados coletados teve início durante o período de coleta e estendeu-se até o mês novembro de 2010, sendo efetivada logo após a transcrição das entrevistas e a organização dos achados. Tendo em vista tratar-se de uma busca com abordagem qualitativa, adotou-se o referencial da Análise de Conteúdo para apreciação do material levantado(3).

Com o intuito de assegurar a privacidade, as falas dos sujeitos foram identificadas por meio de um código (letra D), seguido por um número arábico, que não necessariamente correspondeu a ordem de efetivação das entrevistas.

O projeto foi submetido à aprovação da direção institucional onde foram coletados os dados e do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da instituição, sendo aprovado sob protocolo nº 0129.0.243.000-10, na intenção de assegurar a eticidade da pesquisa e validar a proposta de trabalho. Foram consideradas e atendidas as recomendações da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde que prescreve a ética na pesquisa envolvendo seres humanos(4). Somente após a tramitação legal de todos os requisitos exigidos foi iniciada a coleta de dados.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para melhor compreensão dos resultados, as informações foram agrupadas em categorias de análise; sendo selecionadas para discussão, nesse manuscrito, as seguintes: interface saúde e meio ambiente: uma relação de causa e consequência; saúde e meio ambiente na formação profissional: uma lacuna no processo formativo; saúde e meio ambiente: um conteúdo transversal.

De uma forma geral, este estudo evidenciou entre as docentes uma visão ampla no que se refere ao conceito de meio ambiente como espaço de interação e local para a existência humana; o que demonstra compreensão acerca da ligação entre os diferentes aspectos que integram e fazem interagir o social, o cultural e o natural em uma mesma noção formal de meio ambiente. Da mesma maneira, as entrevistadas sentem-se impactadas pela atual problemática ambiental, manifestando suas inúmeras conseqüências para o planeta, a sociedade e a saúde. E, diante de semelhante entendimento, percebe-se que as depoentes evidenciam um processo reflexivo sobre o tema.

Essa reflexão fez emergir a categoria interface saúde e meio ambiente: uma relação de causa e consequência. A partir das concepções trazidas pelas docentes verifica-se que ligam o ambiente (e os fatores ambientais) à determinação de estados de saúde ou de doença, por entendê-lo como um elemento que, permanentemente, circunda e influencia as relações humanas; o que está exemplificado a seguir:

São extremamente ligadas porque se a saúde, ela é promovida a partir de condições ambientais saudáveis e onde há o desequilíbrio de um, desequilibra a outra também. Várias coisas do ambiente quando não adequadas promovem doenças (D2).

Na medida em que o ambiente for afetado, o homem vai ser afetado também em tudo, no seu bem-estar e na sua saúde. Se a gente tem um ar puro, um meio ambiente aprazível, a qualidade de vida vai ser outra, eu não tenho dúvida (D1).

De fato, através dos fragmentos anteriores lêse uma ideia de ligação entre saúde e meio ambiente; e esse é um dado significativo tendo em vista a importância da abordagem dessa relação no processo de formação profissional, especialmente nos cursos de graduação em saúde, e ainda mais para a construção de cidadanias conscientes.

Convém destacar que a discussão desta relação está centrada em uma lógica que tem o meio ambiente enquanto "causa de", enquanto determinante de condições de saúde ou doença; estando a saúde, portanto, sob o ponto de vista de "uma consequência de". A questão posta é a de que se acolhemos essa mútua interferência e dependência expressa na noção de causa e consequência, então, existem fortes indícios de que o atual comportamento humano, movido pela crença em um progresso quase ilimitado e pela crença em uma ciência que tudo pode explorar e dominar; tem, conjuntamente, operado na direção de um provável colapso planetário, inclusive no que diz respeito à saúde.

Aceitando-se que cada evento, cada ação é influenciada por e, influencia todo o universo, reconhece-se que, muito embora não possamos descrever essa influência em detalhes, existem sim variáveis ocultas, não-locais, conexões instantâneas com o todo que, como a saúde, vibram em consonância com as vibrações de seu ambiente(5). Isso quer dizer que para além das questões objetivas envolvidas no processo de cuidado, as quais têm sido privilegiadas pela racionalidade biomédica, existem aspectos visíveis e invisíveis que interferem, em nível local e global, na saúde ou no processo de adoecimento dos seres humanos.

Em razão dessa nova (mas antiga) visão de "teia", compreende-se porque a obsessão pela expansão econômico-capital trouxe consigo múltiplos riscos à saúde e um meio ambiente no qual a vida humana e do todo se tornou doentia. Porque, para além dos riscos que hoje podemos ver, ouvir e cheirar, existem outras ameaças ao nosso bem-estar muito mais perigosas, porque nos afetarão numa escala maior no espaço e no tempo(5). E nesse ponto há que se parar e refletir: a essência da interface que se defende é a de um meio ambiente que influencia mais do que somente na presença ou ausência de doença, mas que tem relação com um equilíbrio local e global.

A sobrevivência e a saúde da humanidade estão na dependência da denominada alfabetização ecológica(5), ou seja, da capacidade para compreender os princípios básicos da ecologia e viver de acordo com eles. Capacidade para entender os princípios de organização dos ecossistemas: esse é o primeiro passo no caminho da sustentabilidade. O segundo é o projeto ecológico; e isso significa aplicar (no sentido de reconhecer e praticar) os conhecimentos ecológicos na reformulação de nossas instituições sociais, de modo a transpor o abismo que separa as criações do ser humano do ecologicamente sustentável(6).

Embora para os sujeitos pesquisados se construa uma interface entre saúde e meio ambiente, cumpre-nos questionar sobre como essa concepção se expressa em sua vivência profissional. Ainda persistem lacunas a serem preenchidas nesse processo de evolução que direcione a uma prática concreta das concepções sistêmicas, presentes de modo incipiente nos discursos adotados. A enfermagem, apesar dos inúmeros avanços, carece de uma análise mais contextualizada da problemática ambiental, que valorize toda a complexidade imbricada, bem como, os atores sociais a ela associados.

Percebe-se que os depoimentos dos docentes vão além do permanecer na simples busca da epidemiologia da doença, isso no instante em que se preocupam em tratar, durante e nas atividades de promoção de saúde, sobre epidemiologia e também acerca da importância de ações que englobem as variáveis ambientais.

Esse é um sinal de novas mentalidades, embora, ainda precisemos questionar sobre a base conceitual que ancora parte desse pensar. Tendo em vista que, na atualidade, já não podemos dar lugar a uma ética antropocêntrica, que perpetue a herança de dominação da natureza pelo homem. Devemos encontrar o caminho da ética da revalorização do ambiente natural, em que, ser humano e natureza, sejam parte de um mesmo todo(7).

Em vista de a enfermagem ser uma prática social (bem antes de ter uma abordagem biologicista ou clínica); ela necessita revisitar, constantemente, os pressupostos que norteiam a produção de seu conhecimento, ao que se inclui a manutenção de um processo reflexivo permanente a respeito dessa problemática ambiental. Evidentemente, isso tem o objetivo de verificar e/ou reorientar os rumos a serem tomados, no intento de se atingir o crescimento necessário à grande área da saúde, enquanto área do conhecimento que produz saberes e práticas sociais, capazes de ofertar alternativas para a crise mundial(7).

A ideia, manifestada pelos sujeitos desse estudo, de que há uma interface entre saúde e meio ambiente, pode ser compreendida como o prenúncio de uma concepção mais abrangente, com possibilidades efetivas de alavancar o debate sobre o tema no âmbito da formação profissional. Mesmo que essa concepção se mostre presente, a concretude do debate ainda não parece ser uma realidade.

De todas essas ponderações surgiu uma forte categoria de pesquisa relacionada à discussão da questão saúde e meio ambiente na formação profissional: uma lacuna no processo formativo, revelando ser, este, um assunto nem sempre discutido, ou não discutido de maneira sistemática e frequente nas universidades. Exatamente por configurar-se como uma lacuna, há uma necessidade de que ela seja superada, preenchida, conforme apontam os docentes:

Será que ele é enfocado? Será que às vezes não passa em branco... Passa um semestre e outro, e outro? E será que realmente é enfocado pelos professores, então eu penso que é um tema que tem que ser discutido em todas as disciplinas (D2).

Ainda não é um assunto que está sendo trabalhado, que está sendo priorizado, elencado, acho que não. E a gente trabalha com o ambiente (D4).

É perceptível que, apesar de se justificar e se colocar sobre a importância de abordar a relação saúde-ambiente nos diferentes espaços de formação, incluindo aqueles em saúde, parece que essa ainda não é uma prática de educação consolidada(8).

Nessa perspectiva, o que domina a produção de conhecimento nos cursos de Enfermagem são os aspectos internos, que dizem respeito ao seu trabalho prático, que são tecnologias aplicadas na assistência, elaboração de modelos assistenciais e avaliação dos cuidados prestados à clientela(8). O que é ratificado no seguinte depoimento:

A gente se preocupa muito mais com algumas normas e algumas rotinas das unidades, dos locais de estágio, que estão fundamentadas na vigilância, que estão fundamentadas no controle de infecção, muito mais que na própria preservação ambiental (D5).

É em função de semelhante conjuntura que a formação de enfermeiros precisa passar por micro e macro-revoluções, no sentido de que seja capaz de explorar o potencial de seus discentes para a apreensão e aplicabilidade de saberes que relacionem a saúde ao ambiente, no sentido de ir além da aquisição de conteúdos acerca do corpo biológico.

Para que essa formação se dê em sua forma plena, cabe ao docente mobilizar e ampliar o seu reservatório de saberes, discuti-lo, direcioná-lo às competências necessárias à atuação profissional do aluno de enfermagem. Dessa, forma, para estar docente, nesta condição, é necessário abrir-se para a compreensão das singularidades da unidade formativa, enquanto um espaço social privilegiado para a formação da cidadania, que parta da açãoreflexão-ação acerca de situações problemas, nesse caso situações de saúde-doença, nas quais o meio ambiente afeta e é afetado. Para estar docente, é quase imperativo estudar o seu estudo, praticar a investigação de suas práticas, de seu processo de ensino e aprendizagem, saber problematizar, viver, aprender e ensinar as suas situações de ensino(9).

Se a discussão ambiental é uma lacuna no processo formativo, conforme o posicionamento dos docentes, há que se pensar em estratégias que motivem a sua inclusão na formação dos futuros enfermeiros. Afinal, se o educar/formar é que dá sentido à promoção e produção de uma cultura da sustentabilidade sócio-ambiental e de paz; então, a educação e o processo formativo em uma sociedade se traduzem como verdadeiros instrumentos de transformação social(10).

Urge que o tema seja ampla e exaustivamente discutido entre os professores, no intuito de buscar-se a consolidação de uma concepção de meio ambiente como evidência da inter-relação entre os mundos social e natural, e a expressão dessa visão nos diferentes cenários em que se dá a formação em enfermagem. Destaca-se a necessidade de pautar esse debate em uma concepção de meio ambiente mais abrangente que traduza, além da dimensão natural (relacionada à natureza em si), os múltiplos aspectos envolvidos: social, econômico, cultural, dentre outros.

Em certo sentido, tal necessidade já é experimentada pelas depoentes, o que está mais bem debatido na categoria saúde e meio ambiente: um conteúdo transversal.

Os temas transversais apresentam-se como um conjunto de conteúdos educativos e eixos condutores da atividade escolar e formativa que, não fazem parte de nenhuma matéria particular, podendo ser considerados comuns a todas elas. E na especificidade da questão ambiental, o que se pretende com a transversalidade é o estabelecer de um novo diálogo permanente entre os docentes e os discentes sobre a relação saúde e meio ambiente e a necessidade de preservação e respeito a todas as formas de vida(11).

A inserção das questões ambientais de forma transversal na estrutura curricular e no processo formativo contribuirá para a mudança de padrões comportamentais e da própria relação profissionais/meio ambiente, isso no sentido de os acadêmicos (futuros profissionais) reverem seus modos de agir e de pensar em relação à natureza, assumindo uma nova postura, individual e coletiva, condizente e harmoniosa com o meio ambiente em que vivem(12).

Na particularidade desta pesquisa, as depoentes demonstraram consonância com essa concepção, ao manifestarem a necessidade dessa abordagem transversal da temática na enfermagem; o que é visível nos depoimentos:

O meio ambiente é um conteúdo transversal. E é de extrema importância pra formação do profissional de enfermagem porque ele, aluno, é que vai estar no mercado de trabalho daqui a algum tempo e vai ser um formador também, de saúde ambiental ou não, ou de doença, então é extremamente importante que seja bem discutido esta questão na formação (D2).

Acho que é uma temática transversal e tem que fazer parte de todos os conteúdos, todas as disciplinas. E as pessoas vão se dando conta, aos poucos, de ter amadurecimento de seu sentido de vida, o quanto isso é importante e de que forma isso pode acontecer (D3).

Uma criticidade maior sobre meio ambiente deve estar em todos os semestres também porque faz parte, está ali, está aqui, está em todos os lugares, e afeta a saúde de todas as pessoas (D1).

Desses fragmentos percebe-se que as docentes demonstram a compreensão exata da importância do referido tema no processo de formação em enfermagem, havendo a preocupação com o estabelecimento de uma discussão dentro do curso em questão. Observa-se ainda, o desejo de que o meio ambiente seja parte integrante de todas as disciplinas que compõem a estrutura curricular, na medida em que não há como exercer a profissão de enfermagem, sem a inserção do debate, durante a graduação, em torno do meio ambiente; na medida em que esse conhecimento está, de todo, relacionado à saúde das pessoas, foco do cuidado em enfermagem.

Destaque-se que semelhante abordagem deve voltar-se a um enfoque multicausal dos problemas socioambientais e à busca de soluções alternativas para eles, e não somente aos diagnósticos e à análise de efeitos e situações presentes(8).

Torna-se fundamental preparar os docentes para trabalharem essa interface saúde-ambiente pautados num cuidado ecológico, buscando uma prática interdisciplinar; já que é imprescindível aos alunos estarem cientes da importância do equilíbrio dinâmico das relações e inter-relações entre os seres humanos e a natureza, com ética, amor e respeito à vida(12). Neste particular, entende-se cuidado ecológico como aquele que valoriza o meio ambiente como aspecto indispensável para a promoção da saúde e qualidade de vida dos seres humanos.

A prática pedagógica do docente de enfermagem necessita propiciar atividades que possibilitem aos discentes o desenvolvimento de atitudes e ações crítico-reflexivas, tendo como objetivo a formação do aluno/pessoa/cidadão ambientalmente consciente(13). Isso significa superar a lacuna existente no processo formativo em relação à discussão da temática saúde e meio ambiente, passando a abordá-la transversalmente, como as próprias docentes relataram em seus depoimentos. Já que se trata de:

Uma temática transversal e tem que fazer parte de todos os conteúdos, todas as disciplinas (D3).

Considerando que tais discussões permitem a consolidação da criticidade do educando, auxiliando-os no despertar de sua autonomia para a formulação de pressupostos baseados numa consciência ambiental que ajude a resolver os problemas da sociedade, então, entende-se nesse ponto, o importante papel social da universidade no fomento aos saberes ambientais(13).

No que se refere ao analisado nessa categoria, não restam dúvidas de que é imperativo preparar os alunos, futuros profissionais, para influenciarem nas decisões sócio-político-ambientais do meio em que atuam e no contexto onde estão inseridos com sensibilidade para compreender a condição planetária e humana. Situação possível, se, para além de abordagens pontuais e meramente técnicas sobre o tema, houver o seu verdadeiro introjetar no processo formativo, constituindo-se em base para o pensar e o fazer profissional, em direção ao cuidado multidimensional e integral há muito pretendido pela profissão. Esse cuidado deve ser direcionado ao indivíduo, famílias e comunidades e ao meio ambiente, do qual todos somos parte, de forma a valorizar as múltiplas dimensões que fazem parte do processo de viver humano.

 

CONCLUSÕES

O estudo evidenciou que, apesar de as docentes terem uma concepção ampliada sobre o meio ambiente, com clareza dos efeitos prejudiciais da atual problemática ambiental sobre a humanidade e de que existe uma interface entre saúde e ambiente; persiste ainda a necessidade da inserção de discussões formais e transversais sobre essa relação estabelecida entre saúde e meio ambiente no processo formativo em enfermagem. A pesquisa revelou que, a maioria das docentes entrevistadas, referiu pouca ou ausência desta abordagem no Curso em estudo. Em função disso, relataram que esta discussão deve ser compreendida e efetivada como um tema transversal e ampliada no interior da graduação.

Ao que se acrescenta a necessidade de que o tema receba atenção interdisciplinar, capaz de valorizar e dar compreensão a verdadeira relação existente entre o ser humano, a saúde e o ambiente, uma vez que, sem dúvida, a sobrevivência e a saúde da humanidade estão na dependência de uma mudança no modo de se relacionar e interagir com esse meio ambiente.

Sugere-se o desenvolvimento de pesquisas futuras que viabilizem a obtenção de novas ferramentas para a contínua construção de saberes ambientais na enfermagem, na intenção de melhorar a práxis da profissão.

 

REFERÊNCIAS

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5 Capra F. O ponto de mutação. 29ª ed. São Paulo: Cultrix; 2010.         [ Links ]

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9 Zabalza MA. O ensino universitário: seus cenários e seus protagonistas. Porto Alegre: Artmed; 2004.         [ Links ]

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11 Bernardes MBJ, Pietro EC. Educação ambiental: disciplina versus tema transversal. Rev Eletrônica Mestr Educ Ambient. 2010;24:173-85.         [ Links ]

12 Koerich MS, Backes DS, Drago LC, Backes MS, Erdmann AL. O significado do cuidado ecológico para estudantes e professores da área da saúde: estudo qualitativo. Online Braz J Nurs. 2010;9(1):20-30.         [ Links ]

13 Silva AL, Camillo SO. A educação em enfermagem à luz do paradigma da complexidade. Rev Esc Enferm USP. 2007;41(3):403-10.         [ Links ]

 

 

Endereço da autora:
Silviamar Camponogara
Rua Visconde de Pelotas, 1230, ap. 201
97015-140, Santa Maria, RS
E-mail: silviaufsm@yahoo.com.br

Recebido em: 05/04/2011
Aprovado em: 27/10/2011

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