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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.32 no.4 Porto Alegre Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472011000400012 

ARTIGO ORIGINAL

 

Os elementos simbólicos do monumento a Anna Nery no Rio de Janeiro, Brasil1

 

The symbolic elements in the Anna Nery monument in Rio de Janeiro, Brazil

 

Los elementos del monumento simbólico a Anna Nery en Rio de Janeiro, Brasil

 

 

Fernando PortoI; Taka OguissoII

IDoutor em Enfermagem, Professor e Vice-Diretor da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Brasil
IIDoutora em Enfermagem, Professora da EEUSP, São Paulo, Brasil

Endereço do autor

 

 


RESUMO

O objetivo do estudo foi analisar os elementos simbólicos da estátua e placas do monumento em tributo a homenageada, pela Cruz Vermelha Brasileira, como efeito simbólico para a sociedade. A análise foi documental, principalmente, mediante registros da imprensa institucional e imagens, as quais foram interpretadas, por meio das noções de representação objetal e hexis corporal. Os resultados evidenciaram que as representações objetais ostentadas na estátua de Anna Nery careceram de representação de heroína articulada a sua hexis corporal, o que conduziu a interpretação do monumento - estátua e quatro placas narrativas - como homenagem a mulher brasileira.

Descritores: Imagem. História da enfermagem. História.


ABSTRACT

The objective of this study was to examine the symbolic elements of the statue and memorial plaques in honor of Anna Nery offered by the Brazilian Red Cross, as a symbolic effect on society. The documentary analysis was performed mainly through institutional press records and images, which were interpreted by means of the notions of object representation and object bodyly hexis. Results showed that the object representations in the statue of Anna Nery lacked a representation of her articulated to her bodyly hexis, which led to the interpretation of the monument - both the statue and the four narrative plaques - as a tribute to the Brazilian woman.

Descriptors: Image. History of nursing. History.


RESUMEN

El objetivo era examinar los elementos simbólicos de la placa de la estatua y el monumento en honor de la homenajeada, la Cruz Roja Brasileña, como el efecto simbólico en la sociedad. El análisis documental ha sido principalmente a través de los registros institucionales de prensa e imágenes, que fueron interpretadas por medio de las nociones de representación y el cuerpo objeto hexis. Los resultados evidenciaron que las representaciones objetales ostentadas en la estatua de Anna Nery carecían de representación de heroína articulada a sua hexis corporal, lo que condujo a la interpretación del monumento - estatua y cuatro placas narrativas - como homenaje a la mujer brasileña.

Descriptores: Imagen. Historia de la enfermería. Historia.


 

 

INTRODUÇÃO

O objeto de análise do estudo é o monumento em tributo à Anna Nery, Pioneira da Enfermagem no Brasil e Precursora da Cruz Vermelha Brasileira, erguido pelas Sociedades da Cruz Vermelha das Américas, no Rio de Janeiro, em 1956.

Cabe destacar que o estudo é oriundo do relatório de pesquisa referente ao Estágio Pós-Doutoral realizado na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo(1).

A proposta de ereção do monumento em homenagem à Anna Nery ocorreu durante a III Conferência Pan-americana da Cruz Vermelha, no Rio de Janeiro, em 1935. O evento foi de monta, o que possibilitou a Cruz Vermelha Brasileira se projetar internacionalmente. Para se ter uma a idéia, registros na imprensa escrita, ilustrada e radionafada, foi veiculada a sociedade fluminense.

Ademais, à época a Empresa de Correio e Telégrafo Brasileiro emitiu um selo comemorativo no formato retangular de 0,40 x 0,22 cm, tendo ao centro a figura de uma mulher, ostentando elementos simbólicos semelhante aos trajes da Enfermeira da Cruz Vermelha Brasileira, principalmente, no que se refere o véu e o símbolo institucional, com a inscrição em latim In Pace et in bello caritas - Na paz e na guerra(2).

O selo tem a imagem de uma mulher em trajes que se remete à enfermeira da instituição com um ferido nos braços. A postura corporal dos personagens na composição da imagem é a mesma encontrada no alto da torre do Palácio da Cruz Vermelha Brasileira, no Órgão Central, localizado no Rio de Janeiro, que se aproxima da arte plástica veiculada na imprensa ilustrada denominada Mãe do Mundo.

A Mãe do Mundo é uma representação plástica de uma mulher descrita na Revista da Semana como "mãe que embala nos braços e aconchega ao coração um soldado ferido, deitado na maca... nunca a arte encontrara uma tão comovedora interpretação plástica da humanista associação [Cruz Vermelha]"(3).

Cabe ressaltar que às imagens do selo, da torre do Palácio da Cruz Vermelha Brasileira e da arte plástica de Mãe do Mundo apresentam postura corporal semelhantes entre si, que conduz a obra de Michelangelo denominada de Pietá.

A escultura denominada Pietá, nascida de um bloco de pedra Carrara, de 1,74m encomendada pelo cardeal francês San Diogini, representa a figura isolada da Virgem Maria, que tem nos braços o corpo de Cristo, logo após a retirada da cruz. Possui um incrível planejamento das vestes, com um efeito translúcido, causado pelo efeito da sombra sob a figura.

A análise da obra de Pietá pelos pesquisadores aponta para elementos esclarecedores sobre a postura corporal, a saber: a madona tem tamanho reduzido ao ser cotejado à figura de Cristo acomodado no manto da Virgem, ou seja, caso a figura da Virgem estivesse de pé à madona teria 2,13 m; não se observa na escultura a representação da morte, mas sim a fisionomia de um homem abandonado, mas sereno e; a mão direita da madona sustenta com força o corpo inerte, tem os dedos abertos, dando relevo às costelas do Cristo(4).

Pesquisa afirma que a fisionomia da Virgem Maria é extremamente jovem e calma, representando, possivelmente, a humanidade. Ademais, o mesmo autor desdobrou a assertiva no sentido de Michelangelo ter buscado inspiração na obra intitulada "Divina Comédia" no trecho do Paraíso, XXXIII, I-2: "Virgem Mãe, filha do teu filho"(5).

A imagem da Mãe do Mundo é de uma mulher que embala em seus braços um homem em tamanho menor. Além disso, ela prossegue na análise ao aproximar esta imagem de Pietá, no sentido de decodificá-la, como uma mulher mais do que escrava ou uma Deusa suplicante, pois se trata da imagem de uma enfermeira, por ter a permissão social de manipular o corpo desnudo(6).

Ao se posicionarem em paralelo às imagens da Pietá e Mãe do Mundo, identifica-se que às obras possuem estruturas triangulares, bem como descreveram o tamanho distinto da figura masculina, acomodada nos braços da mulher, em relação à imagem feminina, interpretando como mensagem a ser passada, através da caridade e bondade, como de sentimento, de piedade ao próximo e salvadora do mundo(7).

Desta forma, nada mais emblemático que a imagem da mulher em trajes de enfermeira como amenizadoras dos sofrimentos dos feridos de guerra para sensibilizar a população e reproduzir a crença simbólica dos princípios da Cruz Vermelha.

Mediante o exposto da figura de uma mulherenfermeira, aparando um ferido de guerra, ratifica a marca simbólica na Cruz Vermelha como assinatura imagética da instituição. Neste sentido, acredita-se ter criado certa expectativa no imaginário coletivo da estátua para o monumento à Anna Nery em hexis corporal próxima da Mãe do Mundo, selo e torre.

A assinatura imagética da Cruz Vermelha Brasileira para a estátua do monumento à Anna Nery, segundo sua materialização, careceu de correspondência àquela, provavelmente, idealizada no imaginário coletivo. Para tanto, se teve por objetivo analisar os elementos simbólicos da estátua e placas do monumento em atributo à Anna Nery, pela Cruz Vermelha Brasileira, como efeito simbólico para a sociedade. Desta forma, o estudo se justifica no sentido de contribuir para a construção do mecanismo da imagem da Enfermeira e da formação da identidade profissional, no entendimento que a profissão tem de sua trajetória como prática social.

Ademais, decodificar os elementos simbólicos, por meio de seus códigos, é contribuir na construção da ciência da Enfermagem, ao possibilitar o avanço dos estudos na história da profissão, visando dialogar com as outras áreas de conhecimento, no sentido de se fazer ver e crer, como referencia e referenciada no campo das ciências social e da saúde.

 

MATERIAL E MÉTODO

Os documentos utilizados foram quatro fotografias, produzidas para o estudo, e a pintura a óleo de autoria de Victor Meirelles, que foram analisadas e interpretadas à luz do referencial teórico do sociólogo francês Pierre Bourdieu, em especial, com base nas noções de representações objetais e hexis corporal(8).

A noção de representação objetal é entendida como uma das maneiras que tem a força da representação, que pode ser exemplificada pelos emblemas, bandeiras, medalhas e outras, como estratégia de manipulação simbólica, que tende a determinar a representação mental(8). Esta noção foi aplicada ao estudo no sentido dos atributos pessoais, as vestes de Anna Nery e adornos ostentados.

A hexis corporal é uma técnica do corpo, que apresenta competência lingüística de dimensão corporal(8). Esta aplicada na análise da estátua em tributo à Anna Nery revelou o simbólico representado pela plástica, como uma das maneiras de representá-la.

Na análise, a foto da estátua de Anna Nery foi cotejada a pintura a óleo da homenageada de autoria de Victor Meirelles. Nesta análise, foram identificados elementos simbólicos, por meio das representações objetais e hexis corporal, que permitiram interpretação e síntese dos resultados.

Os resultados das decodificações dos elementos simbólicos da estátua e das placas, que compõem o monumento à homenageada valorizaram a figura feminina na sociedade, exemplificada, por meio do tributo à Anna Nery, contextualizada à época, e como uma das estratégias da Cruz Vermelha Brasileira na reprodução da crença simbólica Institucional.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O monumento em homenagem à Anna Nery, produzido no contexto da década de 1950, foi composto de um pilar de mármore sustentado por uma base de pedra, apresentando quatro placas em relevo de bronze.

A estátua de Anna Nery é ostentada no ápice do monumento, trajando sobre a cabeça um véu até o pescoço. O corpo encontra-se coberto por um vestido longo de mangas compridas.

A hexis corporal é de uma mulher de pé, com o braço esquerdo estendido para baixo e o braço direito flexionado com a mão na altura do coração, o que faz lembrar a posição que algumas pessoas se utilizam no momento da execução do hino nacional.

Neste sentido, ao posicionar em paralelo a imagem da estátua e da pintura - tela em exposição no Paço Imperial de Salvador, Bahia - da homenageada de autoria de Victor Meirelles (18321903), semelhanças e diferenças se destacaram entre elas (Figuras 1 e 2, a seguir).

 

 

 

 

As semelhanças entre as imagens evidenciam que Luiz Ferrer, criador do monumento, deve ter se inspirado na pintura de Victor Meirelles. Por outro lado, as diferenças traduzem dados sobre os elementos simbólicos que (re)significam algumas assertivas encontradas na possibilidade de ser um monumento a heroína brasileira.

A assertiva do monumento em homenagem à Anna Nery como heroína de guerra, entender-seia como verdadeira, caso fosse identificado os atributos pessoais - coroa de folhetos dourados e a medalha ofertada por Dom Pedro II no seu retorno da Guerra do Paraguai -, presentes na estátua.

A coroa como representação objetal pode ter diversas formas. A coroa imperial de Dom Pedro I, por exemplo, não tinha a forma tradicional de coroa régia. Assemelhava-se, porém, a mitra ou ao barrete usado pelos bispos como insígnia de poder e jurisdição no bispado(9).

Formatos diferentes de coroas relevam (re) significações e o mesmo ocorre sobre o material utilizado. Na Grécia Antiga, em vez dos competidores dos jogos olímpicos receberem medalhas de ouro, prata e bronze, os atletas eram premiados com as coroas de pequenos ramos de oliveira entrelaçados, que representavam a suprema glória para a alma grega.

As coroas, originalmente, eram feitas de folhas de loureiro, porque na mitologia grega, este era um dos símbolos usados por Apolo, deus da Luz, Cura, Poesia, Música e Profecia, protetor dos atletas e dos jovens guerreiros. Em Atenas, a coroa de louros, é símbolo de distinção e glória, que foi substituída pelos ramos de oliveira, considerada a árvore protetora da cidade. Por outro lado, apesar de não ter valor material, a coroa tem significado especial para o atleta e para a cidade de onde provinha, os quais eram recebidos com uma grande festa, ao ponto de se erguer estátua em homenagem ao vencedor.

A medalha, como representação objetal, é mais ligada aos feitos militares, trata-se de uma insígnia decodificada pela distinção. Esta distinção pode ser em virtude de feito social, político, bélico, entre outras, que muitos militares renomados, historicamente, ostentam no peito, como, no caso de Dom Pedro I, Duque de Caxias, Marechal Floriano Peixoto e outros que se poderia escrever aqui.

As representações objetais, como medalhas e outras honrarias consideradas como emblemas, identifica o agente social como portador de alguma distinção, que justifica os mandados em seu nome(10).

Desta forma, as ausências das representações objetais - medalha e coroa de folhetos dourados - na estátua de Anna Nery, evidenciam uma imagem de mulher brasileira e patriota. Ademais, sua hexis corporal em posição ereta com o braço direito flexionado com a mão sobre o peito, pode ser entendida como um ato de civismo, que requer certa deferência.

O monumento é uma obra de arte, logo bem simbólico. Como bem simbólico, ela só existe para quem detêm os meios para decodificá-la(11). Depreende-se aí que, a estátua de Anna Nery, representa também o poder da mulher brasileira, por encontrar-se em pedestal de pedra em certa altura. Por outro lado, a estátua não é o monumento e sim parte de sua composição, o que ainda requer análise das placas escritas e narrativas imagéticas.

As placas de relevo, em bronze, totalizam quatro. Elas são narrativas de representação da atuação de Anna Nery em Corrientes e Humaitá, tendo como pano de fundo cenários de guerra(2).

A Figura 3 narra a possível situação em que uma mulher apara um soldado ferido em combate, em seus braços. A mulher representada ostenta trajes - véu com o símbolo da cruz e um vestido de mangas longas - que se faz reportar aos uniformes das Enfermeiras da Cruz Vermelha Brasileira(7). Pelo traje da mulher, na placa em bronze mais a sua hexis corporal, é necessário sua articulação com a representação da Mãe do Mundo e outras que a Cruz Vermelha veiculava.

 

 

Outra cena narrada é da placa da Figura 4, composta de cinco homens e uma mulher. Os homens, pelos trajes, transparecem serem militares, sendo dois padioleiros, que transportam um ferido em combate. A mulher na narrativa parece ter seu olhar direcionado para àquele ferido com provável sentimento de piedade.

 

 

As duas placas narrativas, ao serem visualizadas, remetem às cenas de cuidados com os feridos durante uma guerra, que articulada à estátua de Anna Nery ativa o pensamento para representação da Guerra do Paraguai. A leitura, porém, transmite ao leitor dados não reais, por exemplo, o traje e a representação objetal da cruz - elementos simbólicos - da mulher na narrativa.

Estes elementos simbólicos ostentado pela mulher na narrativa transmitem anacronismo, pois eles de fato compõem a assinatura imagética da instituição publicada na imprensa ilustrada, por meio de imagens, a partir da década de 1910, no Brasil, sobre a Cruz Vermelha.

A presença dos elementos simbólicos para o leitor, leigo, ativa o gatilho da representação mental, que se poderia ter à época de Anna Nery, bem como outras mulheres, ostentavam em seus corpos representações objetais, que marcariam como assinatura imagética da Cruz Vermelha, na Guerra do Paraguai. Entende-se que, Luiz Ferrer no conjunto da obra teve a intencionalidade de produzir sentido com os dados históricos da Guerra do Paraguai e a atuação de Anna Nery no conflito.

Esta intencionalidade, por meio de códigos, representa o sistema de princípios de divisões possíveis no universo das representações oferecidas a determinada sociedade, em especial, de um tempo desejado. Isso faz com que o sistema histórico, seja constituído em certa realidade, a partir do conjunto de percepções que constitui os modos de apropriação dos bens artísticos, fazendo com que sejam impostas vontades, inconscientes e até mesmo sem o conhecimento daqueles que admiram a obra, no devaneio pela distinção no sentido de interesse para o sistema institucional(12).

Deste modo, ao se articular as cenas narrativas à estátua, a intencionalidade do escultor salta aos olhos. Erguer um monumento, em praça pública, é materializar um marco histórico nas páginas da história do Brasil. Marco histórico que pode ser visto por muitos, às vezes, desapercebidamente como mero ponto turístico ou até mesmo como ponto de encontro, mas para os historiadores trata-se de documento ao ar livre repleto de significados e intencionalidades no sentido institucional de capitalizar poder e prestígio.

Poder e prestígio (re)produzidos para interiorizar um determinado código social assentado no habitus e memória, que passam a funcionar no plano das representações mentais, que para ser substituído por outro é necessário um longo tempo(12).

As outras duas placas remetem-se aos registros escritos em relevo, sendo uma considerada a placa inaugural, com data do descerramento e autoridades pertinentes (Figura 5) e a outra possui a inscrição de que o monumento foi erguido em virtude da Resolução da III Conferência Internacional, realizada no Rio de Janeiro, 1935, mediante contribuição das Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha dos seguintes países: Argentina, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, Estados Unidos da América, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Salvador, Uruguai e Venezuela.

 

 

Estas placas podem ser entendidas como magia da assinatura, que funciona como efeito de dar autenticidade à obra em praça pública e ratificála como peça única e rara, sendo a raridade que ela ocupa no campo(11).

As placas são mais que meras peças de ornamentação no monumento. Elas também têm por finalidade narrarem fatos, como contexto histórico ligado à homenagem. Ademais, as placas narrativas possuem caráter pedagógico entre efeitos e causas, para informação e conhecimento como forma de garantir a condução do conjunto do monumento(2).

Desta forma, o monumento por ser constituído de estátuas e placas - descritivas e narrativas, produzindo pelo menos dois sentidos. O primeiro sentido é entendido como de tempo evocado, que tem por função memorial motivar sua existência e o segundo é sobre a estrutura física em si, com seus materiais e formas.

Nesta lógica, o monumento tem função de tornar uma necessidade social, quando a consciência do rompimento com o passado é acompanhada pela percepção da memória, que precisa se enraizar no concreto(2).

Ao se enraizar no concreto o monumento à Anna Nery produz alguns sentidos, dentre eles, a convergência de dados veiculados na Revista da Cruz Vermelha Brasileira sobre as decisões das conferências institucionais.

Cabe recordar que o periódico Institucional da Cruz Vermelha Brasileira, em 1951, publicou a matéria intitulada "Monumento à precursora da Cruz Vermelha Brasileira" e em outra matéria, em 1952, "A estátua à Anna Nery", os editores ratificam-na como precursora institucional(13,14).

A ratificação nas matérias do título de Precursora da Cruz Vermelha Brasileira, anunciado desde 1919, quando Anna Nery foi considerada a Pioneira da Enfermagem no Brasil e a Percussora da Cruz Vermelha, pode ser entendida como uma forma de expressão do senso cívico e de patriotismo. Este senso faz despertar na comunidade que circula pelo espaço físico à sua volta, como exemplo a ser seguido(2). O senso emanado pelo monumento foi verbalizado em discurso pelo Dr. Ivolino de Vasconcelos ao afirmar que o monumento era um altar cívico(15).

O monumento à Anna Nery era para homenageá-la sim, mas como primeira enfermeira voluntária da América Latina, bem como de incorporar à Cruz Vermelha a herança do assistencialismo e abnegação de sua trajetória durante a Guerra do Paraguai(2).

Outro ponto foi sobre a resignificação do monumento. Em outras palavras, a homenagem feita pela Cruz Vermelha Brasileira à Anna Nery, foi no sentido de dar relevo a ela, como Precursora da Cruz Vermelha Brasileira por seguir os princípios da Instituição - Humanidade, Imparcialidade, Neutralidade, Independência, Voluntariado, Unidade e Universalidade, antes de serem amplamente divulgados e difundidos pelo movimento internacional.

Além disso, ela era portadora de capital simbólico e seu nome representava poder e prestígio, não só pela sua trajetória na Guerra do Paraguai, mas pelo reconhecimento de Dom Pedro II, por ter concedido a honraria e das diversas homenagens em vida recebidas.

 

CONCLUSÕES

Destarte, apesar do contexto social da mulher no século XIX carecer de ser favorável à esfera pública, Anna Nery se destacou, saindo do anonimato e foi reconhecida socialmente. Assim, a Cruz Vermelha Brasileira anos após seu passamento toma para si sua representação simbólica como exemplo de mulher para o século XX.

Ademais, a figura de Anna Nery possuía os atributos que se referem à construção de uma imagem de mulher abnegada e humanitária pela sua atuação na Guerra do Paraguai, de interesse para Instituição. Por outro lado, não se pode esquecer que, ela era uma mulher de carne e osso, que com o passar dos anos, pelos atributos simbólicos recebidos, transformaram-na em heroína e, consequentemente, mitificaram-na, como em uma metamorfose, ao criarem a personagem Anna Nery.

Essa mulher é dotada de significados simbólicos, utilizados conforme as circunstâncias, articuladas aos interesses institucionais. A Cruz Vermelha, por deter o poder de nomear e (re)nomear, pela tradição inventada, acumula capital simbólico e por reproduzir a crença simbólica na obtenção de mais poder e prestigio, tendo Anna Nery, como exemplo de mulher pública a ser seguida por outras.

Anna Nery, ao ser exemplo de mulher exposta em monumento em praça pública, materializase como agente social, mensageira dos princípios da Cruz Vermelha Brasileira. A troca simbólica, para tanto, foi reconhecê-la socialmente para que a instituição acumula-se mais prestígio e poder no sentido humanitário, reforçando a produção da crença simbólica, como estratégia de manutenção em ser depositária dos valores humanitários, como instituição civil de fins filantrópicos, prestando serviços ao Estado.

 

REFERÊNCIAS

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2 Várzea MPN. As mulheres de bronze [dissertação]. Rio de Janeiro: Departamento de História, Pontifica Universidade Católica do Rio de Janeiro; 1995.         [ Links ]

3 O altruísmo da mulher brasileira. Rev Semana. 1918;39(19):6.         [ Links ]

4 Barreto G, Oliveira, MG. A arte secreta de Michelangelo: uma lição de anatomia na Capela Sistina. São Paulo: Arx; 2004.         [ Links ]

5 Alighieri D. Divina comédia. São Paulo: Martin Claret; 2004.         [ Links ]

6 Perrot M. A mulheres ou os silêncios da história. Bauru: EDUSC; 2005.         [ Links ]

7 Porto F, Santos TCF. A enfermeira brasileira na mira do clik fotográfico (1919-1925). In: Porto F, Amorim W, organizadores. História da enfermagem brasileira: lutas, ritos e emblemas. Rio de Janeiro: Águia Dourada; 2008. p. 25-188.         [ Links ]

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9 Oliveira ER. A idéia de império e a fundação da monarquia constitucional no Brasil (Portugal-Brasil, 1772-1824). Tempo [Internet]. 2005 [citado 2008 jan 03];9(18):44-63. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/tem/v9n18/v9n18a03.pdf.         [ Links ]

10 Bourdieu P. Razões práticas: sobre a teoria da ação. São Paulo: Papirus; 1996.         [ Links ]

11 Bourdieu P. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense; 2004.         [ Links ]

12 Bourdieu P, Darbel A. O amor pela arte: os museus de arte na Europa e seu público. São Paulo: Zouk; 2003.         [ Links ]

13 Cruz Vermelha Brasileira. A estátua à Ana Nery. Rev Cruz Vermelha Bras. 1952;51:14.         [ Links ]

14 Cruz Vermelha Brasileira. Monumento à precursora da Cruz Vermelha Brasileira. Rev Cruz Vermelha Bras. 1951;50:37.         [ Links ]

15 Cruz Vermelha Brasileira. O monumento a Ana Néri. Rev Cruz Vermelha Bras. 1956;71:37-44.         [ Links ]

 

 

Endereço do autor:
Fernando Porto
Rua Dona Mariana, 176, ap. 304
22280-020, Botafogo, RJ
E-mail: ramosporto@openlink.com.br

Recebido em: 27/07/2011
Aprovado em: 31/10/2011

 

 

1 Estudo originado do relatório de pesquisa referente ao Estágio Pós-Doutoral realizado em 2009 na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP).

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