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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.32 no.4 Porto Alegre Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472011000400019 

ARTIGO ORIGINAL

 

Sexualidade do idoso: comportamento para a prevenção de DST/AIDS

 

Sexuality of the elderly: behavior for the prevention of STD/AIDS

 

Sexualidad de los ancianos: comportamiento para la prevención de ETS/SIDA

 

 

Mariana Fonseca LaroqueI; Ângela Beatriz AffeldtII; Daniela Habekost CardosoIII; Gabriela Lobato de SouzaIV; Maria da Glória SantanaV; Celmira LangeVI

IEnfermeira Especialista em Atenção Psicossocial no Âmbito do SUS, Docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul Rio-Grandense (IFSul), Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil
IIEspecialista em Saúde da Família, Enfermeira da Prefeitura de São Lourenço do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil
IIIEnfermeira Residente do Programa de Residência Integrada Multiprofissional em Saúde - Área de concentração Atenção à Saúde Oncológica da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil
IVEnfermeira Especialista em Atenção Psicossocial no Âmbito do SUS e Saúde da Família, Docente do IFSul, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil
VDoutora em Filosofia da Enfermagem, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil
VIDoutora em Enfermagem Fundamental, Professora Adjunta da Escola de Enfermagem da UFPel, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil

Endereço da autora

 

 


RESUMO

O presente trabalho trata do tema "idosos frente a doenças sexualmente transmissíveis (DST)" e tem como objetivo identificar o comportamento de idosos na prevenção das DST/AIDS. Estudo qualitativo, exploratório e descritivo, realizado por meio de um questionário semi-estruturado com questões abertas. Os sujeitos do estudo foram seis idosos que participavam de um grupo de uma Unidade Básica de Saúde. Os resultados mostraram que os idosos possuem informações sobre as DST, embora evidencie também pouca adesão ao uso do preservativo. Conclui-se com esse estudo que o processo de envelhecimento requer a conscientização dos profissionais de saúde de que os idosos são sexualmente ativos, portanto expostos às DST, e que se deve tornar a questão do uso do preservativo um assunto natural tanto durante as consultas, como nos grupos e eventos organizados que atinjam esta população.

Descritores: Doenças sexualmente transmissíveis. Saúde do idoso. Enfermagem em saúde pública.


ABSTRACT

This study deals with the theme "elders facing sexually transmitted diseases (STDs)" and it aims to identify the behavior of the elderly in the prevention of STD/AIDS. It is a qualitative, exploratory and descriptive study using a semi-structured questionnaire with open questions. The study subjects were six seniors who participated in a group in a Basic Health Unit. The results showed that older people have information about STDs, but it also evidences a poor observance of condom use. We conclude from this study that the aging process requires awareness of health professionals that the elderly are sexually active and therefore exposed to STDs, and that the issue of condom use should be a natural matter during consultations, group meetings and events that reach this population.

Descriptors: Sexually transmitted diseases. Health of the elderly. Public health nursing.


RESUMEN

El presente trabajo trata sobre el tema "ancianos delante de enfermedades de transmisión sexual (ETS)" y tiene como objetivo identificar el comportamiento de los ancianos en la prevención de las ETS/SIDA. Estudio cualitativo, exploratorio y descriptivo, realizado a través de un cuestionario semiestructurado con preguntas abiertas. Los sujetos del estudio fueron seis ancianos de un grupo de una Unidad Básica de Salud. Los resultados mostraron que los ancianos poseen informaciones sobre las ETS, aunque demuestren también que utilizan poco el preservativo. Se concluye con este estudio que el proceso de envejecimiento requiere la concienciación de los profesionales de la salud de que los ancianos son sexualmente activos y, por lo tanto, están expuestos a las ETS y que hay que tornar la cuestión del uso del preservativo un asunto natural en las consultas, así como en los grupos y eventos que alcancen a esta población.

Descriptores: Enfermedades de transmisión sexual. Salud del anciano. Enfermería en salud pública.


 

 

INTRODUÇÃO

O aumento do número de idosos no Brasil, até bem pouco considerado um país de jovens, começa a dar lugar a outra realidade e traz a consciência de que a velhice existe e é uma questão social. Desta forma, as mudanças nas políticas públicas fazem-se necessárias para a adequação a esta realidade, com o intuito de propiciar uma atenção integral à saúde dos idosos e incluindo ações cujo tema seja sexualidade(1).

Atualmente vivem no Brasil, cerca de 20 milhões de pessoas com idade acima de 60 anos, representando no mínimo 10% da população brasileira, sendo que as projeções estatísticas da Organização Mundial da Saúde apontam para o fato de que em 2025 o Brasil estará em sexto lugar quanto ao contingente de idosos no mundo. Os avanços sociais e as melhorias nas condições gerais de vida da população repercutem na média de vida do brasileiro (expectativa de vida ao nascer) de 45,5 anos de idade, em 1940, para 72,7 anos, em 2008(1,2).

Essa longevidade se deve ao arsenal tecnológico que a ciência dispõe devido ao seu crescente progresso, contribuindo, dessa maneira, como um dos fatores para o aumento significativo da população idosa. Neste contexto, tem-se observado nas relações que a sociedade estabelece com o idoso, não apenas um aumento da esperança de vida, mas uma mudança de valores, passando o idoso a ser merecedor de cuidado e atenção especiais(3).

Em decorrência do aumento da longevidade e das facilidades da vida moderna, que incluem a reposição hormonal e as medicações para impotência, o idoso vem redescobrindo experiências, sendo uma delas o sexo, tornando sua vida mais agradável. Contudo, as práticas sexuais inseguras tornam os idosos mais vulneráveis a contaminar-se pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV)(4) e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST).

No Brasil ano de 2009 foram notificados por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação 918 casos de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) em pessoas com 60 anos ou mais. Tal afirmação realça a necessidade de sensibilização sobre a realidade da vida sexual deste segmento populacional, que continua ativo, embora sem proteção, o que vulnerabiliza seus membros para a infecção pelo HIV. Dessa maneira, julga-se que a discussão da educação preventiva, durante consultas com os idosos seja de fundamental importância para a divulgação de informações e para mudanças de comportamento dessa população(5,6).

Embora seja evidente o aumento do número de casos de HIV/AIDS na população idosa, ainda são poucas as informações sobre o conhecimento desses indivíduos a respeito dos aspectos relacionados à infecção, prevenção e tratamento. Isso provavelmente contribui para o reduzido investimento em estratégias de prevenção nesta faixa de população em franco crescimento(7).

Um dos desafios para a consolidação de um cuidado qualificado na prevenção em DST/AIDS no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS) está na sustentação do comprometimento entre as esferas políticas e governamentais em prover recursos materiais e profissionais capacitados e motivados para trabalhar com as questões que envolvem este tema(8).

Frente o aumento da população idosa no Brasil e o número elevado de notificações de novos casos de contaminação pelo HIV na terceira idade, torna-se importante aprofundar o conhecimento acerca desta temática. E ainda faz-se necessário conscientizar os profissionais da saúde de que os idosos também fazem sexo, e igualmente as outras faixas etárias estão vulneráveis às infecções por DST.

Sexualidade e idoso, a princípio, para muitos são duas áreas distintas, pois o idoso é visto por muitos como assexuado. Diante do exposto, justifica-se a necessidade de se investigar a prevenção de DST na terceira idade, gerando, assim, a seguinte questão norteadora: Qual o comportamento de idosos na prevenção de DST/AIDS?

Deste modo, para responder a esta questão, definiu-se como objetivo do estudo identificar o comportamento de idosos na prevenção de DST/ AIDS.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório e descritivo(9), desenvolvido em um grupo de idosos de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) numa cidade de médio porte do sul do Rio Grande do Sul, no período de outubro a novembro de 2007.

Os sujeitos do estudo foram seis idosos participantes deste grupo, sendo identificados por nomes próprios fictícios escolhidos pelos mesmos. Os critérios para seleção dos sujeitos foram: ter idade acima de 60 anos; participar do grupo; ter capacidade de comunicar-se verbalmente; concordar em participar da pesquisa; permitir a gravação da entrevista e a divulgação dos resultados nos meios científicos.

O grupo era composto por 11 idosos, os quais foram convidados verbalmente a participar do estudo, sendo que somente seis concordaram. Depois do aceite, foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e realizada uma entrevista semiestruturada contendo quatro questões abertas que se referiam à sexualidade, ao acesso às informações preventivas e ao uso de preservativo, além dos dados de identificação.

Os dados coletados por meio de gravações foram transcritos na íntegra e posteriormente submetidos a repetidas leituras. A análise dos dados constituiu-se em três etapas, a ordenação, a classificação e embasamento teórico e por último a interpretação dos dados coletados(9).

Após a aplicação do questionário foram orientados sobre métodos preventivos e dúvidas existentes, que não puderam ser revelados antes da aplicação do mesmo para que não houvesse interferência nos dados coletados.

Previamente à coleta de dados o projeto foi submetido à apreciação e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas, parecer nº140/07, de acordo com as normas estabelecidas pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(10).

 

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Apresentação dos sujeitos do estudo

A faixa etária dos entrevistados variou entre 60 e 73 anos. Quatro sujeitos eram do sexo feminino e dois do sexo masculino. Em relação à escolaridade, quatro possuíam o ensino fundamental incompleto, constituindo assim a maioria, um era analfabeto e um tinha segundo grau completo.

Ao serem questionados a respeito do estado civil, quatro entrevistados afirmaram serem casados, sendo que um destes relatou ter tido relações extraconjugais no passado, momento em que contraiu uma DST.

Com relação à atividade profissional, apenas uma das entrevistadas não era aposentada, considerando sua profissão do lar.

O comportamento dos idosos na prevenção de DST/AIDS

Para tornar possível compreender o comportamento dos idosos é necessário identificar as fontes de informação para prevenção das DST/AIDS a que os sujeitos têm acesso. Os meios de comunicação social como a televisão, o rádio e jornais são suas principais referências, porém, nenhum dos entrevistados mencionou que recebeu orientações diretas ou dialogou sobre o tema com profissionais de saúde da UBS. Estas informações foram transmitidas apenas por meio de material impresso, e não nas consultas e palestras, o que demonstra as fragilidades na atenção à saúde do idoso, no que se refere a sua sexualidade.

Ao serem questionados sobre as fontes de informações a respeito de doenças sexualmente transmissíveis as respostas foram as seguintes:

Eu gosto muito de vê estes programas que apresentam nos domingos onde os doutores falam [...] nunca vi nada aqui no posto (Conceição, 73 anos).

Na televisão, tem programas e tudo que falam sobre isso, pelas novelas eles também abrangem, também leio, muitas vezes eu pego esses folhetos, eu vejo aqui no posto também (Ana, 60 anos).

Eu sempre leio. Desde 80 que eu via programa e os médicos falavam muito. E também no jornal, no rádio (Sonia, 66 anos).

Resultados semelhantes também foram encontrados em um estudo realizado no ano de 2009 com adolescentes, em que 75% das meninas e 52% dos meninos recorriam aos meios de comunicação em massa, especialmente à televisão, para manterem-se informados sobre DST/AIDS, revelando que a deficiência do acesso a orientações nos serviços de saúde estão presentes em todas as faixas etárias(11).

A dificuldade dos profissionais de saúde em falar sobre a sexualidade do idoso é evidente, pois conhecimento e comportamento em relação às DST/AIDS são, em geral, tratados apenas para alguns grupos específicos, que excluem os idosos. Os assuntos sobre a sexualidade nessa população, que já não tem preocupação com anticoncepção, são tratados com menor atenção. É necessária, pois, a conscientização pela própria equipe de saúde em considerar a vida sexual do idoso como realidade, bem como sua orientação sobre medidas preventivas as DST/AIDS(12).

O uso do preservativo apenas com finalidade de contracepção também foi manifestado pelos entrevistados, ocorrendo o entendimento errôneo de que o preservativo é algo dispensável para mulheres que estão na menopausa.

Não uso, na nossa idade não tem necessidade, porque a minha esposa está na menopausa, até para ter relação é mais difícil com camisinha (Tadeu, 60 anos).

Mulheres no período pós-menopausa, que já não possuem preocupação com anticoncepção são pouco incentivadas a aderirem ao uso do preservativo, embora em sua grande maioria mantenhamse sexualmente ativas. São diversos os fatores que dificultam o uso de preservativos pelo casal cuja mulher está no período pós-reprodutivo, como a dificuldade de negociação entre os parceiros para adoção de práticas sexuais mais seguras, reduzido conhecimento sobre as vias de transmissão do HIV, e reduzida percepção de risco para a infecção pelo HIV motivada pela confiança da mulher no relacionamento estável, revelando a necessidade de educação para os riscos e prevenção de DTS voltadas a essa clientela(13,14).

Identificando a utilização de algum método de prevenção contra as DST no grupo investigado, verificou-se que, embora sendo sabedores da importância da camisinha nas relações sexuais e a existência das DST, o uso do preservativo com o cônjuge não constitui um hábito, apresentando desta forma um comportamento de risco.

Nunca usei (Conceição, 73 anos).

Não uso, já é difícil, imagina, uma criatura conseguir manter uma relação sexual, [...] é muito difícil mesmo, manter uma relação, imagina daí botar uma camisinha! (Ana, 60 anos).

Conforme expressado acima nas falas de Ana, existe dificuldade por parte do idoso em se adaptar ao uso do preservativo, é possível entender esta problemática devido ao fato destes terem iniciado sua vida sexual em uma época em que a prática do uso da camisinha não existia. Isso é associado ao fato de que o envelhecimento traz algumas limitações especialmente na destreza, que não é a mesma do adulto jovem, e causa lentidão o que pode atrapalhar o momento da intimidade, por isso abrem mão do seu uso(15).

Em contrapartida um dos participantes do estudo afirmou aderir ao uso do preservativo masculino em todas as suas relações sexuais.

Camisinha, eu uso sempre para evitar as doenças, para não pegar (Sonia, 66 anos).

Sobre a pouca adesão ao uso do preservativo, um estudo realizado em 2008 evidencia que a maioria dos idosos da amostra analisada sabia que o uso do preservativo impede a transmissão do HIV, porém, mais de 80% não o utilizavam durante as relações sexuais(16).

Em outras falas podemos perceber a dificuldade manifestada pelos entrevistados em falar sobre a sexualidade, referindo-se como sendo "bobagem", revelando o preconceito ainda existente, especialmente sobre o uso do preservativo. Assim, alguns dos sujeitos dizem evitar o assunto, possivelmente pelo constrangimento que este traz. Essas concepções, socialmente construídas, tornam mais difícil o acesso dessa população a meios de informação e prevenção.

Em alguns dos relatos podemos notar a reserva dos entrevistados em falar sobre DST, demonstrando que o diálogo sobre o tema ainda é velado, sendo que para alguns dos participantes deve ser confiado apenas a pessoas do mesmo sexo e em sigilo.

A gente nem sabia que existia isso, daí eu conversei com um amigo, um irmão mais velho. Não costumo conversar sobre essas coisas, quando falam bobagem eu já saio de perto (Felipe, 68 anos).

Eu sei muito pouco sobre essas doenças, estou sabendo agora por causa dos livros, aqui mesmo pelo postinho [...] quando eu era gurizote o pai me disse e ai eu soube da camisinha, que eu nunca tinha ouvido falar [...] ai meu irmão me veio falar que quando eu tivesse dúvida eu fosse na farmácia e pedisse uma camisinha de canto, que ninguém ouvisse (Tadeu, 60 anos).

Neste modo de pensar a desinformação destas pessoas é resultante dos sentimentos de culpa e vergonha em falar e questionar o assunto, devido ao preconceito ainda presente em nossa sociedade(17).

Este fato está presente em um estudo com mulheres em que as entrevistadas relatam o preconceito e a dificuldade em falar sobre prevenção também com seus parceiros. As participantes relataram que estes são resistentes em aderirem ao preservativo nas relações sexuais, e, desse modo, sentem-se constrangidas a solicitarem o uso, tornando-se ainda mais vulneráveis ao contágio(18).

Muitos entrevistados consideram, ainda, a relação monogâmica como forma de prevenção de DST/AIDS.

[...] e tem outras prevenções, tem que anda só com parceiras que se conhece, mas a minha idade não permite mais isso. Eu respeito muito a minha esposa, imagina eu com 60 anos pegar uma doença e levar para dentro de casa (Tadeu, 60 anos).

Uma pesquisa realizada com homens e mulheres sobre o uso do preservativo masculino em suas relações encontrou informações semelhantes, no que se refere às relações conjugais. Os autores relatam que os sujeitos consideraram que o sexo seguro e a prevenção de doenças não estão diretamente ligados ao uso do preservativo, mas à confiança e a fidelidade em seus parceiros, sendo este desnecessário em uma relação em que haja esses sentimentos(19).

Nesse contexto, Felipe, o único participante que afirmou ter mantido relacionamentos extraconjugais, informa que nestes episódios fazia o uso da camisinha, reforçando a ideia de ser necessário este método preventivo pelos idosos apenas com pessoas desconhecidas.

Não uso porque não estou tendo relação, um tempo atrás eu usava camisinha, não ia com mulher nenhuma sem colocar camisinha, porque eu sabia que era perigoso, sempre fui cuidadoso por esse lado. Para evitar todas essas doenças, eu usava (Felipe, 68 anos).

O idoso acredita que suas práticas de prevenção e cuidado são suficientes para manutenção da saúde, agindo de acordo com os conhecimentos e informações de que dispõem, que muitas vezes são incorretos ou insuficientes. Assim, alguns dos entrevistados referem que cuidados como a higiene corporal servem como prática de prevenção às DST/AIDS, como percebemos nas falas a seguir.

Se pega por falta de higiene (Tadeu, 60 anos).

A AIDS também, às vezes as pessoas que não tomam banho também transmite a doença, eu li isso no jornal.

Eu sei como pega. Eu sei que não pega usando camisinha (Sonia, 66 anos).

O entendimento destes idosos sobre a prevenção encontra-se distorcido, havendo, para isso, a contribuição de fatores socioculturais, atrelados a sua história e concepções, exigindo que os profissionais ampliem seus olhares para o indivíduo como um todo, valorizando seu contexto de vida e adequando suas orientações.

Embora as pessoas afirmem possuir informações sobre a AIDS, é comum relatos sobre formas incorretas de transmissão e prevenção produzidas pelo imaginário popular, sendo o desconhecimento explícito, em que se acredita que todo adoecimento é provocado por contágio com micro-organismos facilmente elimináveis pelo processo de higienização(20).

A análise dos resultados evidenciou que os idosos possuem um relativo conhecimento sobre as DST, e que estes buscam se interar do assunto, o que reforça o papel dos profissionais de saúde como educadores e a necessidade de implementar ações específicas e contínuas voltadas à saúde do idoso.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O envelhecimento populacional é um processo natural e, com a transição demográfica vivenciada na sociedade atual, cada vez mais pessoas estão chegando à terceira idade, sendo um privilégio destes e um desafio aos profissionais de saúde.

Diante do avanço da ciência voltada para a sexualidade do idoso, ampliou-se a oportunidade de encontros e relacionamentos entre essa população. Estas novas formas de vivenciar o envelhecimento parecem repercutir no aumento dos casos de algumas doenças relacionadas ao sexo. Nesse sentido faz-se necessário que os profissionais de saúde e autoridades criem mais espaços de discussão e mais programas de prevenção relacionados ao tema.

No decorrer deste estudo, que objetivou identificar o comportamento dos idosos na prevenção de DST/AIDS, verificamos a magnitude da problemática e percebemos as dimensões que permeiam a realidade e a vivência social dessas pessoas em todos os seus aspectos. Entendemos que o processo de envelhecimento requer articulação e preparo dos profissionais de saúde, viabilizado, por meio de intervenções como campanhas, políticas públicas, pesquisas científicas, consultas com profissionais de saúde, educação em saúde divulgada nos meios e comunicação, entre outros, que possibilitem ao idoso viver mais e ter melhor qualidade de vida. Devemos compreender que estes são sujeitos sexualmente ativos, portanto expostos às DST/ AIDS, e tornar a questão do uso do preservativo um assunto natural.

É possível assegurar que os entrevistados são conhecedores da importância do preservativo como método preventivo das DST/AIDS, no entanto existe grande resistência ao seu uso, em parte decorrente das concepções errôneas acerca da transmissão e contágio.

Fica evidente que os idosos buscam se informar a respeito das questões relacionadas à sexualidade e às DST, sendo a televisão citada por todos como o principal veículo para obtenção de conhecimento acerca do tema, seguido por revistas, folderes e conversas com familiares.

Outro aspecto observado nos resultados é que nenhum sujeito relata diálogo com os profissionais de saúde sobre sua sexualidade durante as consultas, levando a acreditar que existem barreiras por parte dos profissionais, que possivelmente consideram que o sexo é uma atividade exclusiva da juventude ou que o avançar da idade encerra as atividades sexuais.

Espera-se com esse estudo e os resultados apontados, contribuir com os profissionais para que vejam a saúde do idoso de uma forma mais ampla, atentando às necessidades desta parcela da população.

As limitações deste estudo relacionam-se ao número de sujeitos e ao local do estudo (um grupo de idosos) o que impede a generalização dos achados, porém estes são considerados válidos, pois refletem condições semelhantes verificadas em pesquisas de maior abrangência, realizadas em outras regiões, assim destaca-se a necessidade de estudos complementares que envolva o tema.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço da autora:
Mariana Fonseca Laroque
Av. Duque de Caxias, 698, b1, ap. 102, Fragata
96030-002, Pelotas, RS
E-mail: marianalaroque@yahoo.com.br

Recebido em: 11/08/2011
Aprovado em: 08/11/2011

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