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Revista Gaúcha de Enfermagem

versión On-line ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.32 no.4 Porto Alegre dic. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472011000400026 

RELATO DE EXPERIÊNCIA

 

Laboratório de estudos semióticos nas interações de cuidado

 

Semiotic studies lab for patient care interactions

 

Laboratorio de estudios semióticos en las interacciones de cuidado

 

 

Dulce Maria NunesI; Jean Cristtus PortellaII; Laura Bianchi e SilvaIII

IPós-Doutora em Semiótica, Professora Associada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Líder do Laboratório de Estudos Semióticos nas Interações de Cuidado (LESIC/UFRGS), Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
IIDoutor em Lingüística e Língua Portuguesa, Professor Assistente da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Membro do LESIC/UFRGS, São Paulo, Brasil
IIIAcadêmica de Enfermagem da Escola de Enfermagem da UFRGS, Bolsista do LESIC/UFRGS, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Endereço da autora

 

 


RESUMO

Este relato de experiência apresenta o Laboratório de Estudos Semióticos nas Interações de Cuidado (LESIC), implementado na Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2010, com o propósito de produzir atualizações didático-pedagógicas, embasadas na Teoria Semiótica da Escola de Paris, as quais possibilitam ampliar o conhecimento e as competências perceptivas, observacionais e interativas acerca da natureza e do domínio do cuidado humano.

Descritores: Cuidados de enfermagem. Linguagem. Comunicação.


ABSTRACT

The aim of this experience report is to present the Semiotic Studies Lab for Patient Care Interactions (Laboratório de Estudos Semióticos nas Interações de Cuidado - LESIC). The lab was set up at the Nursing School of the Federal University of Rio Grande do Sul (UFRGS), Brazil, in 2010. It has the purpose of providing didactic and pedagogical updates, based on the Theory developed by the Paris School of Semiotics, that enable the increase of knowledge and interactive/observational skills regarding the nature and mastery of human care.

Descriptors: Nursing care. Language. Communication.


RESUMEN

Este informe de experiencia tiene como objetivo presentar el Laboratorio de Estudios Semióticos en las Interacciones de Cuidado (LESIC), implementado en la Escuela de Enfermería de la Universidad Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil, en el año de 2010, con el fin de proporcionar actualizaciones didácticas y pedagógicas, basadas en la Teoría Semiótica de la Escuela de París, que posibiliten ampliar el conocimiento y las competencias perceptiva observacionales/interactivas acerca de la naturaleza y dominio del cuidado humano.

Descriptores: Atención de enfermería. Lenguaje. Comunicación.


 

 

INTRODUÇÃO

Este relato de experiência apresenta o Laboratório de Estudos Semióticos nas Interações de Cuidado (LESIC) como laboratório* de estudos teórico-práticos em semiótica aplicada ao cuidado no ensino, na pesquisa e na extensão.

O LESIC originou-se de um dos objetivos do estágio pós-doutoral em Semiótica da Escola de Paris. A Semiótica da Escola de Paris, fundada na década de 60 por Algirdas Julien Greimas, procura compreender as condições de produção e apreensão da significação, as relações e as operações que permitem a uma prática ou a um produto da atividade humana "significar" qualquer coisa, independente da comunicação e da intenção, sem consideração preliminar das unidades que os compõem(3).

É um espaço de criação, reflexão e estudos à luz da Semiótica da Escola de Paris, que se propõe a produzir atualizações didático-pedagógicas e estimular o desenvolvimento de habilidades perceptivas, observacionais e interativas nas práticas de cuidado e ensino-aprendizagem. Essas habilidades qualificam o cuidado, motivam a formação de novas atitudes e valores que se evidenciam em ações e reações oriundas da prestação e do recebimento de cuidado. Seu principal objeto, portanto, são os textos verbais e não-verbais (gestuais) gerados a partir das circunstâncias do cuidado**. Já a característica de experiência investigativa da Semiótica da Escola de Paris possibilitará incentivar o desenvolvimento de iniciativas próprias, de autonomia e adequação de oportunidades, ampliando, assim, modos de aprender, ensinar, aplicar, registrar, argumentar e reproduzir(1). O objeto da Semiótica de Greimas é explicitar as estruturas significantes que modelam o discurso social e individual. Um dos postulados é definir o mundo do sentido humano como inteligível, ou seja, que pode ser apreendido de maneira organizada e racional; que existe uma significação e esta pode ser interpretada; que essa interpretação obedece a regras explícitas e reprodutivas. A Semiótica, portanto, contempla o método que permite transpor a si mesmo a significação de maneira explícita e (re) produtível(1,5).

 

OBJETIVO

O objetivo deste relato de experiência é apresentar o LESIC que tem por objetivos despertar o espírito crítico e a investigação; produzir e implementar inovações, visando ao conhecimento acerca da natureza e do domínio do cuidado e ao respeito à natureza relacional do ser humano; congregar recursos teóricos, tecnológicos e humanos para qualificar o cuidado e o ensino-aprendizagem.

 

PROJETO E DESENVOLVIMENTO DO LESIC

O laboratório foi proposto, em 2005, a partir das seguintes etapas de organização e desenvolvimento: aquisição de bibliografia específica de semiótica da Semiótica de A. J. Greimas; desenvolvimento de estudos teóricos sobre linguística e semiótica greimasiana; geração e seleção de ideias; elaboração dos objetivos; definição das especificações; consultas a especialistas; elaboração de instrumentos/testes para aplicação em atividades de aplicação e de ensino; elaboração final da redação do projeto; organização de atividades teórico-práticas e de extensão para acadêmicos professores; desdobramentos do LESIC: atividades de ensino, pesquisa e extensão; organização da atividade de ensino; elaboração do plano de necessidades: espaço físico, instalações, recursos humanos; encaminhamentos: Departamento de Enfermagem Materno Infantil, Comissão de Pesquisa (Compesq), Comissão de Graduação (Congrad); organização e implementação do site; organização das atividades de ensino para o primeiro semestre de 2011; criação de instrumentos de avaliação; desenvolvimento de programas de instrumentação; implementação do projeto completo e orçamento.

 

ATIVIDADES PROJETADAS E DESENVOLVIDAS

O desenvolvimento das atividades projetadas para o LESIC encontra-se a seguir.

Aplicação da metodologia semiótica no Ensino de Graduação em Enfermagem

A primeira etapa iniciou, em 2007, com a aplicação de alguns conceitos semióticos no ensino de graduação em enfermagem de forma a apreciar o conjunto do instrumental analítico da teoria semiótica e o cuidado. Esse modo é considerado a partir dos aspectos componentes do discurso social e individual, ou seja, "ação do homem que transforma o mundo" - a cena da ação do cuidado. Esta cena, passada em espaço e tempo específicos, envolve personagens que desenvolvem papéis. Para examinar a interação elaborou-se um instrumento cuja finalidade é registrar aspectos básicos da narrativa de uma cena através das expressões verbais e não-verbais entre acadêmico, paciente/família, originadas na aproximação entre eles.

A problematização dos conceitos de percepção, observação, interação; a discussão do modo como eles são; a caracterização da linguagem verbal e não-verbal da forma como se expressam na linguagem do cuidado são fundamentais no processo dessa transformação. Igualmente importante é investigar o protagonista do processo de cuidado e sua capacidade linguageira de expressão da subjetividade, refletir amplamente sobre as estratégias de cuidado e estimular o desenvolvimento de competências perceptivas e observacionais.

Conhecendo minuciosamente seus pacientes e as circunstâncias de cuidado envolvidas, sempre do ponto de vista do observável pela linguagem, sem especulações apriorísticas, o acadêmico pode realizar seu trabalho dentro do processo de cuidado, otimizando o tempo, o uso racional de materiais, a organização das práticas e, mais importante, a oportunidade do contato humano.

A Semiótica parte do princípio de que tomar consciência de nossos comportamentos cotidianos é o primeiro passo para entendê-los. Em uma área tão sensível como a do cuidado humano em enfermagem, esse preceito é útil. Por isso, as estratégias de ensino e aprendizagem, relativas ao ensino teórico-prático do cuidado, fundamentar-se-ão em estudos da Teoria Semiótica da Escola de Paris, utilizando instrumentos, modelos para apreensão dos fenômenos revelados nesse processo interativo.

Estudos da Observação como Processo e Metodologia: construção de modelos

Na segunda etapa, estudo e exercício da observação, como primeiro instrumento (modelo), começaram a ser introduzidos para acadêmicos no 4º Semestre da Graduação, da Escola de Enfermagem da UFRGS.

A observação é um instrumento que permite ao indivíduo contatar, compreender o que o rodeia e se compreender; o início da elaboração de um saber a serviço de finalidades múltiplas, inserindo-se no projeto global humano para descrever, compreender seu ambiente/meio e os acontecimentos nele ocorridos(6).

O processo de observação é multiforme, se desenrola no tempo, em vários lugares e com participação de numerosas variáveis, portanto interações entre tempo, espaço e pessoas variam continuamente, segundo as circunstâncias(7).

Investir no processo de observação, como meio de formação, objetivou pôr à disposição um trabalho rigoroso, cujo método visa a compor e decompor elementos de um problema, uma situação. Tal investimento possibilita construir a formação, de maneira que acadêmicos efetuem um trabalho pessoal no terreno cotidiano, sendo este, então, material básico das discussões na construção metodológica.

A transição gradativa da observação ampla (do cenário) para a pontual (da cena) pretendeu capacitar o acadêmico a direcionar os sentidos para o foco.

Ao se construir modelos através da observação, discutem-se formas de como os saberes científicos são construídos; investe-se no processo de observação como meio de formação; há exercício pessoal e de iniciativa própria, atitudes, competências de observação e registro; favorece-se desempenho e aprimoramento do instrumento de observação proposto.

Estudos das Interações de Cuidado como Prática Social

A terceira etapa do projeto incluiu estudo sobre interações de cuidado. A interação, essencial ao cuidado humano, é um fazer orientado para a inter-relação dos personagens desse cuidado. A enfermeira, protagonista, individualiza sua intervenção a partir da circunstância que se mostra. Seu status na relação de saber e poder favorece o início do processo de cuidado através de sua presença e do exercício interativo. Implementando o estudo das interações de cuidado como prática social, sugeriu-se a introdução de atividade integradora de semiótica, como disciplina a ser iniciada com novo currículo da Graduação em Enfermagem, em 2012.

Atividades de Extensão

A quarta etapa constituiu-se de atividades de extensão. Para atualizar os atores do cuidado, acadêmicos, enfermeiros assistenciais e docentes sobre pressupostos teóricos da teoria greimasiana e outros conhecimentos que a embasam, desenvolveram-se três cursos de extensão, ministrados por especialistas em semiótica.

Seu objetivo foi oferecer uma visão linguística e linguageira (relativa ao uso e aos costumes da linguagem), sobre cuidado humano em enfermagem, situando-o como prática social que pode ser descrita, analisada e aperfeiçoada.

Aplicação à Pesquisa

A quinta etapa refere-se às atividades de pesquisa. Planeja-se que as interações relativas às práticas de cuidado sejam colhidas pelo acadêmico através de instrumentos oriundos de: observação, narrativa, apreensão de imagens, entrevistas, explicitadas e semi-estruturadas para apreensão de dados. Estes serão posteriormente analisados e interpretados à luz da semiótica greimasiana, buscando novos sentidos a serem apreendidos, analisados e interpretados, revelando o sentido da linguagem do cuidado. Portanto, esse corpus poderá ser submetido à metodologia semiótica/fenomenológica e outras pertinentes.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A proposta inicial desse laboratório contemplou várias considerações sobre as competências do enfermeiro na atuação de cuidar, propondo novos modelos didático-pedagódicos no curso de graduação, a fim de atualizá-los, refletindo sobre o sentido da linguagem do cuidado, traduzida no comportamento profissional e na qualidade das interações reconhecidas pelo imaginário social.

Essencial na atividade cotidiana de enfermagem, a interação e sua produção de sentido revelaram-se carentes de estudos sobre os textos verbais e não-verbais que permeiam as relações entre a pessoa e a enfermeira no processo de cuidado. Em vista disso, buscou-se, na teoria Semiótica da Escola de Paris, possibilidades de aplicação dessa teoria ao ensino de enfermagem. Definiu-se, então, que as especificações iniciais do Laboratório seriam dedicadas a ampliar o conhecimento e as competências perceptivas, observacionais e interativas.

Essa definição determinou consulta a especialistas em semiótica greimasiana, bem como elaboração de um instrumento para realizar testes de aplicação em atividades teórico-práticas do ensino de graduação. Durante essa fase, esse instrumento sofreu ajustes, novos testes e aplicação no primeiro semestre de 2010.

Uma etapa de três semestres de atividades teórico-práticas para professores e acadêmicos tem sido realizada por professores da área específica de semiótica. O espaço físico, por sua vez, foi adequado às necessidades do laboratório e aos desdobramentos das atividades de pesquisa e extensão já projetadas.

O Laboratório se encontra atualmente inscrito no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) também como grupo de pesquisa, tendo efetivamente iniciado suas atividades no primeiro semestre de 2010.

 

REFERÊNCIAS

1 Rosa CW. Concepções teórico-metodológicas no laboratório didático de física na Universidade de Passo Fundo. Ensaio [Internet]. 2003 [citado 2010 set 21];5(2):13-27. Disponível em: http://www.portal.fae.ufmg.br/seer/index.php/ensaio/article/viewFile/62/100.         [ Links ]

2 Brodin G. The role of the laboratory in the education of industrial physicists and electrical engineers. [S.l.: S.n.]; 1978.         [ Links ]

3 Fontanille J, Barrier G. Métiers de la sémiotique. Limoges: Pulim; 1999.         [ Links ]

4 Freitas KSS. O vôo da arte e da educação no cuidado do ser. Erechim: EdiFAPES; 2001.         [ Links ]

5 Bertrand D. Caminhos da semiótica literária. Bauru: EDUSC; 2003.         [ Links ]

6 Scouarnec A. L'observation des métiers: définition, méthodologie et "actionnabilité" en GHR [Intenet]. Dauphine: Management & Avenir; 2004 [cited 2009 set 15]. Available from: http://www.cairn.info/resume.php?ID_ARTICLE=MAV_001_0023.         [ Links ]

7 Kohn RC. Les enjeux de l'observation. Paris: Anthropos; 1998.         [ Links ]

8 Rey A. Le Robert micro poche dictionnaire de la langue française. Paris: Le Robert; 1993.         [ Links ]

 

 

Endereço da autora:
Dulce Maria Nunes
Rua São Manoel, 963, sala 215, Rio Branco
90620-110, Porto Alegre, RS
E-mail: dulce.nunes@globo.com

Recebido em: 16/11/2010
Aprovado em: 18/11/2011

 

 

* "Compreende-se laboratório como o elo que falta entre o mundo abstrato dos pensamentos e idéias e o concreto, das realidades físicas. O papel do laboratório é, portanto, o de conectar dois mundos, o da teoria e o da prática"(1,2).
** Considera-se o cuidado ao ser humano como prática social. "O ser humano manifesta-se tanto como sujeito único, concreto e integral, como coletivo, inserido em seu ambiente sociocultural. Ele interage com o ambiente, modifica a si próprio, constrói a sociedade e, em sua relação com o mundo, produz cultura"(4).