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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.33 no.2 Porto Alegre June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472012000200010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Consumo abusivo de álcool em mulheres

 

Heavy alcohol consumption among women

 

Consumo excesivo de alcohol entre las mujeres

 

 

Graciele Cadahaiane de OliveiraI; Cátia Millene Dell'AgnoloII; Tanimaria da Silva Lira BallaniIII; Maria Dalva de Barros CarvalhoIV; Sandra Marisa PellosoV

IGraduada em Enfermagem. Faculdade Ingá/UNINGÁ, Maringá, Paraná, Brasil
IIDoutoranda em Enfermagem. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Enfermeira Assistencial do Serviço de Nefrologia Intensiva do Hospital Universitário Regional de Maringá (HUM), Maringá, Paraná, Brasil
IIIMestre em Enfermagem. Enfermeira do Centro de Controle de Intoxicações (CCI) do HUM, Maringá, Paraná, Brasil
IVDoutora em Enfermagem. Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UEM, Maringá, Paraná, Brasil
VDoutora em Enfermagem. Diretora do Centro de Ciências da Saúde e Professora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UEM, Maringá, Paraná, Brasil

Endereço do autor

 

 


RESUMO

Este estudo descritivo, exploratório, objetivou caracterizar as mulheres atendidas em um Hospital de Ensino do Noroeste do Paraná, por abuso de álcool, nos anos de 1999 a 2008, segundo variáveis sociodemográficas e dados da intoxicação. Dos 823 atendimentos, a faixa etária mais frequente foi dos 20 aos 49 anos (58,32%). 13 (1,58%) mulheres estavam grávidas; 12,5% apresentavam de 9 a 12 anos de estudo. Os destilados foram a principal bebida utilizada, e a ingestão foi mais prevalente no período noturno. Cerca de 156 (18,96%) mulheres necessitaram de internamento hospitalar. Evasão hospitalar foi observada em 8,5% dos casos. Conclui-se que a população feminina representa um subgrupo da população suscetível ao abuso do álcool, e, com o perfil descrito neste estudo, foi possível descrever as áreas de impacto na saúde da mulher, possibilitando a implementação de medidas preventivas para diminuir a ocorrência, as complicações e a reincidência nessa população.

Descritores: Epidemiologia. Intoxicação alcoólica. Saúde da mulher. Alcoolismo.


ABSTRACT

This descriptive, exploratory study aimed to characterize women attending a Teaching Hospital in Northwest Paraná, for alcohol abuse in the years 1999 to 200, according to sociodemographic data of intoxication and associated with trauma and violence. Among 823 visits, the most frequent age range was from 20 to 49 years (58.32%). 13 (1.58%) were pregnant, 12.5% had 9-12 years of schooling. Liquor was the main beverage used and its intake was more prevalent at night. Approximately 156 (18.96%) women required hospitalization. Hospital avoidance was observed in 8.5% of cases. We conclude that woman are likely to abuse alcohol, and this study enabled a description of the areas in women's health that are impacted, allowing the implementation of preventive measures to decrease occurrence  and recurrence in this population.

Descriptors: Epidemiology. Alcoholic intoxication. Women's health. Alcoholism.


RESUMEN

Este estudio descriptivo, exploratorio tiene por objetivo caracterizar las mujeres que acuden a Hospital Universitario de Paraná en el Noroeste, por abuso de alcohol en los años de 1999 a 2008, según los datos sociodemográficos de la intoxicación y se asocia con trauma y violencia. De los 823 atendimentos la faja de edad más frecuente fue de los 20 a los 49 años (58,32%). 13 (1,58%) mujeres estaban embarazadas; 12,5% presentaban de 9 a 12 años de escolaridad.. fonéticamente  Los destilados fueron la bebida principal y más prevalente en la noche. Cerca de 156 (18,96%) mujeres requirieron hospitalización. La evasión hospitalaria  se observó en el 8,5% de los casos. Se concluye que la población femenina representa un subgrupo de la población susceptible al abuso del alcohol y, con el perfil descrito en este estudio, fue posible describir las áreas de impacto en la salud de la mujer, posibilitando la implementación de medidas preventivas para disminuir el acontecimiento, las complicaciones y reincidencia en esta población.

Descriptores: Epidemiologia. Intoxicación alcohólica. Salud de la mujer. Alcoholismo.


 

 

INTRODUÇÃO

Na sociedade atual, o uso do álcool possui conotação diferenciada das demais drogas. Possui caráter lícito, de baixo custo e acesso facilitado o que lhe fornece aceitação social, dificultando o seu enfrentamento. O seu uso é estimulado pela indústria do álcool, dificultando o seu entendimento como problema de saúde pública. Ocupa o primeiro lugar mundial em consumo em relação às substâncias psicoativas(1).

Inicialmente, as bebidas tinham conteúdo alcoólico relativamente baixo, como, por exemplo, o vinho e a cerveja, já que dependiam exclusivamente do processo de fermentação. Com o advento do processo de destilação, introduzido na Europa pelos árabes na Idade Média, surgiram novos tipos de bebidas alcoólicas, que passaram a ser utilizadas em sua forma destilada. Nessa época, esse tipo de bebida passou a ser considerada um remédio para todas as doenças, pois "dissipavam as preocupações mais rapidamente que o vinho e a cerveja, além de produzirem um alívio mais eficiente da dor", surgindo, então, a palavra uísque, do gálico usquebaugh, que significa "água da vida"(2).  

A partir da Revolução Industrial, registrou-se grande aumento na oferta desse tipo de bebida, contribuindo para um maior consumo e, conseqüentemente, gerando aumento no número de pessoas que passaram a apresentar algum tipo de problema decorrente do uso excessivo de álcool(2).

O alcoolismo é considerado na atualidade, um dos principais problemas de saúde pública em todo o mundo. No Brasil, seus problemas ultrapassam o âmbito individual, atingindo diversas repercussões sociais. Seu uso está associado à maioria dos acidentes de trânsito no Brasil e no mundo. O uso do álcool está associado a 65-70% dos casos de violência contra a mulher, além de estar relacionado também com muitos acidentes de trabalho. O seu abuso acarreta problemas familiares e profissionais, debilidades no organismo, gera preconceito, que leva ao isolamento e maior consumo de drogas(3).

Uma pesquisa inédita sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira realizada pelo Governo Federal juntamente com pesquisadores de várias universidades, investigou em detalhes como o brasileiro bebe o que ele pensa sobre as políticas de bebidas alcoólicas e quais são os problemas associados com o uso do álcool no Brasil. Pela primeira vez, um estudo brasileiro mediu a intensidade do consumo de bebidas alcoólicas no país. Segundo dados da pesquisa, 48% da população se diz abstêmia, 23% bebem freqüentemente (uma vez ou mais por semana e 5 ou menos doses por ocasião) e pesado (bebem uma vez ou mais por semana e consomem 5 doses por ocasião) e 29% são bebedores pouco freqüentes e não fazem uso pesado de bebida. A pesquisa revelou também que 12% da população têm algum problema com o álcool(4).

Segundo dados de 2004 da Organização Mundial de Saúde, aproximadamente 2 bilhões de pessoas consomem bebidas alcoólicas. Seu uso indevido é um dos principais fatores que contribui para a diminuição da saúde mundial, sendo responsável por 3,2% das mortes e por 4% de todos os anos perdidos de vida útil. Na América Latina, aproximadamente 16% dos anos de vida útil perdidos estão relacionados ao uso indevido dessa substância, índice quatro vezes maior do que a média mundial(4).

Tem sido escrito muito sobre a correlação do alcoolismo como sexo masculino, mas pouco se sabe sobre essa questão em relação ao sexo feminino(5). A prevalência do alcoolismo entre as mulheres ainda é significativamente menor que a encontrada entre os homens(6). Ainda assim, o consumo abusivo e/ou a dependência do álcool traz, reconhecidamente, inúmeras repercussões negativas sobre a saúde física, psíquica e "social" da mulher.

Dados do Ministério da Saúde, baseados na pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL), mostraram que o consumo abusivo de álcool pela população foi de 19% em 2008, contra 17,5% em 2007,e de 16,1% em 2006. Neste estudo foram consideradas mais de 4 doses para as mulheres e mais de 5 doses para os homens como consumo abusivo. Este estudo considerou uma dose como uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de destilados(7).

Esta pesquisa revelou ainda um aumento do número de mulheres com consumo abusivo de álcool no decorrer dos anos. Em 2008 este percentual foi de 10,5%, enquanto que, nos anos anteriores, este valor foi menor, atingindo 9,3% em 2007 e 8,1% em 2006(7).

Do ponto de vista biológico, as mulheres são metabolicamente menos tolerantes ao álcool do que os homens. Seu peso e a menor quantidade de água corporal, em detrimento da maior quantidade de gordura, associado à menor quantidade de enzimas metabolizadoras de álcool, implica o fato de que a intoxicação ocorra com o uso de metade da quantidade usada pelo homem. A vulnerabilidade para o desenvolvimento de complicações clínicas é maior entre as mulheres, e as mesmas sofrem mais risco de mortalidade que os homens. Também apresentam maior percentagem para desenvolver doenças hepáticas como cirrose, mesmo tendo consumido álcool por um período menor(5).

A visão da sociedade frente ao alcoolismo feminino é bastante agressiva, a mulher é considerada mais imoral, com comportamento inadequado, sofre com a estigmatização e acaba procurando tratamento com menos freqüência que os homens, o que lhes acarreta mais comprometimentos ao longo do uso(5).

Os dados apresentados sugerem a necessidade de se dar mais ênfase aos estudos epidemiológicos no Brasil relacionados ao detalhamento do perfil do alcoolismo feminino em nossa sociedade, visto que, certamente o álcool contribui na etiologia e manutenção de vários problemas sociais, econômicos e de saúde enfrentados em nosso país, sendo que esta pesquisa objetiva caracterizar o perfil de mulheres atendidas em Hospital Ensino do Noroeste do Paraná, por abuso de álcool, segundo variáveis sociodemográficas, dados da intoxicação, tratamento efetuado e evolução.

 

METODOLOGIA

Estudo de caráter quantitativo, descritivo, exploratório, realizado em um Hospital Ensino do Noroeste do Paraná, no período de 1999 a 2008, com dados secundários, de mulheres atendidas no pronto atendimento com história de uso abusivo de álcool.

Nos 10 anos estudados foram identificadas 823 fichas/atendimentos de mulheres atendidas no Pronto Atendimento por consumo abusivo de álcool.

Foi utilizado um questionário semi-estruturado baseado nas fichas de registros epidemiológicos de ocorrências toxicológicas do centro de Controle de Intoxicações (CCI) do hospital em estudo, contendo dados sociodemográficos, dados referentes à intoxicação (tipo, agente, horário de uso, sinais e sintomas, diagnóstico, tratamento e evolução), traumas ou violências associadas.

O CCI existe no hospital desde 1990 e atua auxiliando os profissionais através do fornecimento de informações relativas a quadros confirmados ou suspeitos de intoxicações,  além de exercer inúmeras outras funções, como acompanhamento dos pacientes no ambulatório de intoxicações.

As informações colhidas foram cadastradas em um banco de dados do sistema Excel e a análise dos dados foi realizada por meio de análise univariada, através do programa Statística 7.0 e cálculo da distribuição de freqüência e porcentagem, apresentadas sob a forma de tabelas.

A pesquisa foi liberada pelo hospital estudado e aprovada pelo Comitê de Ética da Faculdade Ingá, sob parecer n 157/2009, com solicitação de liberação do termo de consentimento livre e esclarecido pelo fato dos dados serem obtidos em fichas do banco de dados.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Abaixo serão apresentados os resultados, iniciando-se pelos dados sócio demográficos das mulheres que fizeram parte desta pesquisa.

No decorrer dos anos nota-se um interesse crescente pelo alcoolismo feminino e a presença destas mulheres nos serviços de saúde tem sido motivo de vários estudos.

No Brasil, numa pesquisa realizada em 2005 nas 108 maiores cidades do país, 6.9% das mulheres brasileiras eram dependentes do álcool(8).

A região Sul se destaca em beber muito freqüente, quando comparada com as outras regiões do Brasil(4).

Em pesquisa sobre o consumo excessivo de álcool realizada pelo Ministério da Saúde, o percentual de abuso desta substância pelas mulheres variou de 4.6% na capital do Estado do Paraná (Curitiba), sendo a de menor percentual; até 15.9% em Salvador (Bahia) (7).

Em estudo de 2311 pessoas em Curitiba sobre a prevalência de consumo atual de bebidas alcoólicas verificou que 1280 (36.8%) foram mulheres, numa proporção encontrada homem/mulher de 1.7(9).

Das mulheres atendidas em Hospital Ensino, neste trabalho, a faixa etária mais prevalente foi a de 20 a 49 anos (58.3%), e a segunda foi menos de 20 anos (27.8%), similar a descrita em Curitiba, de 25 a 49 anos, seguida pela de 15 a 24 anos e foi encontrada maior escolaridade 54.9% (ensino fundamental completo e mais)(9).

De 2006 a 2008, segundo dados do Ministério da Saúde, 38.8% das mulheres com história de abuso de álcool estavam na faixa etária dos 18 aos 44 anos de idade e cerca de 12% tinham de 9 a 11 anos de escolaridade(7).

Em Taubaté, a faixa etária predominante foi a dos 31 aos 40 anos, entre homens e mulheres estudados, atendidos num pronto socorro por abuso de álcool. Quando analisadas apenas as mulheres, a maior prevalência foi dos 21 aos 30 anos de idade(10).

 

Tabela 1

 

Fatores culturais e sociais reprimem mais o beber incompulsivo nas mulheres do que nos homens. Existe não só uma pressão social menor para que ela inicie a ingestão do álcool, mas também uma pressão maior para que ela interrompa o seu uso quando excessivo. A mulher é repreendida, porém a sociedade é conivente com a ingestão masculina. Isto ocorre desde a Idade Média, já naquela época, as mulheres que faziam uso abusivo do álcool eram consideradas promíscuas e liberais(11).

Em conseqüência da maior absorção do álcool, a maior proporção de gordura corpórea e a menor quantidade de água no organismo, as mulheres tem maior biodisponibilidade do álcool no organismo, ou seja, apresentam concentrações maiores de etanol no organismo do que os homens para uma mesma quantidade de ingestão(11).

Apenas 4.9% das mulheres estudadas neste trabalho, estavam descritas como sem ocupação. Porém, o elevado índice de ignorado, atrapalha uma melhor interpretação destes dados.

Estudo realizado com mulheres em tratamento para alcoolismo revelou que 46.1% delas tinham ocupação e que possuíam uma média de idade de 43 anos. A participação de mulheres em atividades sociais e de trabalho é considerada como fator de menor contribuição para o consumo do álcool. Porém, este mesmo autor coloca que as mulheres entrevistadas afirmaram que, apesar de ter as suas atividades de lazer e sociais preservadas, não foram suficientes para impedir o consumo do álcool(5).

Por tratar-se de um hospital referencia de atendimento de emergência para os 23 municípios da 15ª Regional de Saúde de Maringá, a grande maioria dos pacientes (94%) foi de alguma destas localidades.

Um levantamento populacional norte-americano apontou que 30.3% de 4088 mulheres grávidas referiram ter bebido durante a gestação(12), neste estudo segundo descrição do prontuário (1,6%) das mulheres estavam grávidas. Ainda não se conhece a dosagem de álcool necessária para ocasionar danos à gestação(13).

A Teratogenia do álcool está amplamente comprovada na literatura em diversos estudos. A placenta, nas mulheres grávidas é totalmente permeável à passagem do álcool para o feto, ocasionando uma alcoolemia fetal similar à da mãe. O etanol, por metabolização no fígado do feto, transforma-se em aldeído acético, o qual inibe o crescimento e migração neuronal, resultando em microcefalia, entre outras alterações(11).

No primeiro trimestre da gestação, ocorre risco de malformações e dismorfismo facial; no segundo, há um aumento na incidência de abortos espontâneos e no terceiro trimestre, ocorre lesão de outros tecidos do sistema nervoso, como o cerebelo, o hipocampo e o córtex frontal, além de ocasionar retardo do crescimento intra-uterino e comprometer o parto, com o aumento do índice de infecções, descolamento prematuro de placenta, hipertonia uterina, trabalho de parto prematuro e presença de mecônio no líquido amniótico, o que indica sofrimento fetal(11).

Entretanto, numa Unidade de Tratamento de Alcoolistas no Rio de Janeiro, 40% das mulheres, afirmaram a possibilidade de ter controle sobre o beber, atribuídas, principalmente ao período de gravidez e amamentação(14).

Na tabela 2, observam-se dados relacionados à intoxicação, sendo que os destilados foram a bebida alcoólica com maior ocorrência e no período noturno (noite e madrugada) foram registrados a maior parte dos casos; exames laboratoriais não foram solicitados na maior parte dos atendimentos.

 

 

Chama a atenção neste levantamento o elevado índice de intoxicações por destilados (91.5%) dos casos, diferente do encontrado no restante do país.

O tipo de bebida mais consumido pelo brasileiro foi a cerveja (61%), seguida pelo vinho (25%), destilados (12%) e, por último as bebidas "ice"(destilados misturados com refrigerantes) (2%) em levantamento realizado. A região Sul mantém estes mesmos padrões, tendo a cerveja (61%) como bebida mais consumida; também seguida pelo vinho (29%), destilados (9%) e bebidas "ice (1%)(4).

Entre adolescentes femininas, 50% delas ingeriam cerveja, 38%, vinho, as bebidas "ice", foram relatadas em terceiro lugar com 8% e, por último os destilados 4%(4).

Uma possibilidade diante do elevado índice de abuso de destilados na população deste estudo pode ser o fato de que por tratar-se de hospital de referência em atendimento de emergência, a intoxicação por destilados possa oferecer maior gravidade, devendo ser mais amplamente estudada.

A análise toxicológica foi solicitada em somente 2.2% dos casos, acompanhando a baixa descrição de abusos desta origem (2.2%), sempre associada com álcool.

Muitas vezes o álcool é consumido em associação com outras substâncias psicotrópicas, como por exemplo o tabaco e a maconha, embora também seja descrita a associação álcool-medicamentos, principalmente entre adolescentes e estudantes universitários(15).

Apesar do índice maior de acidentes envolvendo estas mulheres estudadas (4.3%), da violência associada a ingestão alcoólica (7.1%), a dosagem de etanol foi realizada em somente 1.9% das pacientes.

O horário de maior registro de ocorrências neste estudo foi o período da madrugada (51.6%), seguido do período da noite (27.7%); juntos totalizaram 79.3%.

Em Taubaté, de acordo com o horário de entrada no Pronto Socorro, predominou o período noturno, das 18 às 24 h (29.3%). Isto pode evidenciar maior consumo após a jornada de trabalho(10).

A evolução das mulheres atendidas no hospital estudado por abuso do álcool está descrito a seguir, bem como o tratamento a que foram submetidas.

Em relação à ocorrência relacionada à intoxicação alcoólica, em 7.1% (59 casos) foi relatado violência, 4.3% (35) acidentes, e em 78.8% (648) dos casos não houve nenhum relato. Quando estudado o tipo de veículo, em 10 casos (1.2%) havia o envolvimento de carro, em 12 (1.5%), moto e bicicleta igualmente (1.5%).

Via pública/ambiente externo foi relatada em 4% dos casos (33), mesmo número encontrado para ambiente privado/residência.

O beber em locais privados pode ser uma particularidade das mulheres que consomem abusivamente álcool.

Em estudo realizado no Rio de Janeiro, 90% delas declararam consumir bebida alcoólica na esfera privada e diferenciam este comportamento de beber na esfera pública(14).

Quanto ao lugar de ingestão, mulheres adultas brasileiras alegaram beber mais em casa, e na balada/bar. Interessante ressaltar que quanto mais jovens, iniciando pela faixa etária dos 18 aos 24 anos, a balada foi a mais citada, diminuindo gradativamente até a faixa etária acima dos 60 anos que apresentou índices inversamente proporcionais, ou seja, bebiam mais em casa(4).

 

 

 

 

O que se percebe é que não há um conceito no Brasil sobre o que é consumo moderado de álcool, embora seja amplamente difundido nas propagandas sobre sua venda(15).

Em estudo realizado em La Paz na Bolívia, os indivíduos acidentados eram na sua maioria homens (71%) e em 38.7% dos casos, o condutor havia consumido álcool. Noite e madrugada foram os períodos de maior ocorrência (59.6%); entre as mulheres, o intervalo de idade que sofreu mais acidentes foi a de 16 a 20 anos (12.9%) e a maior parte era estudante (16.1%)(16).

Em estudo realizado no Rio de Janeiro em 2005, 73% das vítimas fatais envolvidas em acidentes de transito não realizaram o exame de alcoolemia. Entre os que realizaram o exame (27%), 11.7% tiveram alcoolemia negativa. Dos que apresentaram índices de alcoolemia, 39.8% apresentaram níveis menores do que os limites legais estabelecimentos pelo Código de Trânsito Brasileiro, indicando elevados índices de mortalidade com níveis baixos de alcoolemia (abaixo do nível de tolerância). Por sua vez, 60.2% das vítimas estavam com índices acima dos níveis legais(17).

Em pacientes que foram a óbito no Rio de Janeiro, por causas relacionadas a acidentes de trânsito, 13.3% eram do sexo feminino. Destas, 54.5% possuíam índices de alcoolemia acima do preconizado e aceito legalmente para a direção de veículos. A faixa etária dos 20 aos 29 anos apresentou índice ainda mais elevado (66.7%). A via pública foi o local de maior ocorrências dos óbitos (65%). Moto esteve envolvida em 6% dos casos, colisão (35%), atropelamento (59%)(17).

No decorrer dos anos, houve um decréscimo no atendimento a estas pacientes, sendo mais visível a partir do ano de 2004. Nesta época, houve a inauguração no município estudado, da Ala de Emergências Psiquiátricas do Hospital Municipal de Maringá, em setembro de 2004 o qual atende 3 Regionais de Saúde, totalizando aproximadamente 66 municípios. Desde esta data o hospital Universitário de onde foram levantados os dados deste trabalho passou a atender somente os casos de maior complexidade.

O elevado índice de dados ignorados (não consta), descritos nos resultados/discussão do presente estudo possivelmente ocorre em decorrência da intoxicação alcoólica ter seu diagnóstico e tratamento amplamente difundidos, pois nestes casos, os plantonistas do CCI não são chamados ou comunicados, já que o profissional não necessita de maiores informações sobre a condução destes pacientes.

Deste modo, o registro das intoxicações fica limitado a realização de busca ativa diária pelos plantonistas sendo que, muitas vezes, o paciente não se encontra mais no setor, bem como os profissionais responsáveis pelo atendimento do mesmo.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante muito tempo o alcoolismo esteve identificado com a população masculina, porém nunca esteve restrito a este gênero. No entanto, nota-se a quase inexistência de estudos sobre a dependência de álcool pelas mulheres.

Os índices estudados, embora já preocupantes, podem ser ainda maiores, pois sabe-se que a maioria dos casos de intoxicação não leva a pessoa ao hospital. Esta população estudada geralmente restringe-se a intoxicações agudas pronunciadas, apresentando alterações do comportamento, tentativas de suicídio ou com sinais e sintomas mais graves.

Este estudo demonstrou uma população feminina jovem, ativa, com intermediária escolaridade, com conseqüências relacionadas ao uso do álcool necessitando de atendimento médico hospitalar.

O elevado índice de ingestão de destilados, não observado em outros estudos, merece pesquisa mais aprofundada em nosso município.

Ações públicas voltadas ao controle do consumo do álcool em situações especiais, como a direção automobilística e envolvimento em situações de violência devem ser implementadas.

Óbitos foram descritos em decorrência da intoxicação, bem como seqüelas em 14.5% das mulheres. Tendo em vista as conseqüências do uso/abuso do álcool, não apenas admitido, mas muitas vezes incentivado pela sociedade, com impacto em questões físicas e emocionais na saúde da mulher, influenciando, muitas vezes na família e no trabalho, estudos mais aprofundados nesta população em especial tornam-se de extrema necessidade.

A ação diferenciada do álcool no corpo da mulher e a sua ingestão durante o período gestacional descreve a necessidade dos profissionais envolvidos nesta área de atendimento fiquem alertas para a sua ocorrência, visto que a mulher geralmente "demonstra" o seu vício por meio de outros sinais, como desgosto, depressão, pelo medo da discriminação de si mesma diante do consumo do álcool.

Apoio às políticas públicas do álcool, voltadas à redução do consumo, prevenção, educação, restrição por idade e, melhoria no tratamento das pessoas que possuem dependência ao seu uso devem ser implementadas.

 

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Endereço do autor:
Cátia Millene Dell'Agnolo
Rua Nossa Senhora da Glória, 56, casa A, Jardim São Jorge
87080-620, Maringá, PR
E-mail: cmdagnolo@uem.br
Telefone: 55 44 3267-9789 | 9124-4266

 

 

Trabalho de conclusão de curso de Graduação em Enfermagem da Faculdade Ingá, ano de 2010, sob o título Consumo Abusivo de álcool em Mulheres18.