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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.33 no.3 Porto Alegre Sept. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1983-14472012000300023 

ARTIGO ORIGINAL

 

Sistematização da assistência de enfermagem na perspectiva dos enfermeiros: uma abordagem metodológica na teoria fundamentada

 

Sistematización de la asistencia enfermería en vista de las enfermeras: un enfoque metodológico de la teoría fundamentada

 

Nursing care systematization according to the nurses' view: a methodological approach based on grounded theory

 

 

Ana Lúcia de MedeirosI; Sérgio Ribeiro dos SantosII; Rômulo Wanderley de Lima CabralIII

IMestre em Enfermagem, Docente do Departamento de Enfermagem em Saúde da Mulher da Faculdade Santa Emília de Rodat, João Pessoa, Paraíba, Brasil
IIDoutor em Sociologia. Professor Associado do Departamento de Enfermagem Clínica e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFPB, João Pessoa, Paraíba, Brasil
IIIMestre em Saúde Pública. Docente do Departamento de Enfermagem em Saúde da Mulher e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Obstétrica da Faculdade Santa Emília de Rodat, João Pessoa, Paraíba, Brasil

Endereço da autora

 

 


RESUMO

O estudo objetivou compreender, a partir da perspectiva dos enfermeiros, a experiência de vivenciar a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) em um serviço de obstetrícia. Utilizou-se a teoria fundamentada nos dados, como referencial teórico e metodológico. Os sujeitos participantes desse estudo foram constituídos por treze enfermeiros de uma maternidade pública da cidade de João Pessoa, Paraíba. A análise dos dados resultou no fenômeno: "percebendo a SAE como um método de trabalho que organiza, direciona e melhora a qualidade da assistência, trazendo visibilidade e proporcionando segurança para a equipe de enfermagem". Os enfermeiros expressaram a dimensão do conhecimento sobre a SAE vivenciada na prática obstétrica, bem como consideraram o processo de enfermagem como um processo decisório, que norteia o raciocínio do enfermeiro no planejamento da assistência de enfermagem na obstetrícia. Conclui-se que os enfermeiros percebem a SAE como um instrumento de articulação teórico-prática que conduz para uma assistência personalizada.

Descritores: Enfermagem. Processos de enfermagem. Obstetrícia.


RESUMEN

El estudio tiene como objetivo la comprensión, desde la perspectiva de las enfermeras, la experiencia de ir a través de la Sistematización de la Asistencia de Enfermería (SAE) en un servicio de obstetricia. Utilizamos la teoría fundamentada como lo teórico y metodológico. Los sujetos de este estudio son trece enfermeras de un hospital público en la ciudad de João Pessoa, Paraíba. El análisis de los datos dio como resultado el fenómeno: "NCS percibir como un método de trabajo que organiza, dirige y mejora la calidad de la atención por dar visibilidad y proporcionar seguridad para el personal de enfermería." Las enfermeras expresaron el grado de conocimiento acerca de la SAE experimentado en obstetricia, así, consideró que el proceso de enfermería como un proceso de toma de decisiones, que guía el razonamiento de las enfermeras en la planificación de los cuidados de enfermería en obstetricia. Se concluye que las enfermeras perciben el SAE como instrumento de articulación teórico-práctico que conduce a la asistencia personalizada.

Descriptores: Enfermería. Proceso de enfermería. Obstetricia.


ABSTRACT

This study was aimed at understanding, from the nurses' perspective, the experience of going through the Systematization of Nursing Care (SNC) in an obstetric service unit. We used grounded theory as the theoretical and methodological framework. The subjects of this study consisted of thirteen nurses from a public hospital in the city of João Pessoa, in the state of Paraíba. The data analysis resulted in the following phenomenon: "perceiving SNC as a working method that organizes, directs and improves the quality of care by bringing visibility and providing security for the nursing staff." The nurses expressed the extent of knowledge about the SNC experienced in obstetrics as wellas considered the nursing process as a decision-making process, which guides the reasoning of nurses in the planning of nursing care in obstetrics. It was concluded that nurses perceive the SNC as an instrument of theoretical-practical articulation leading to personalized assistance.

Descriptors: Nursing. Nursing process. Obstetrics.


 

 

INTRODUÇÃO

Os precursores da enfermagem moderna eram pessoas religiosas que prestavam assistência por caridade aos doentes e pessoas carentes. Naquele período, os cuidados prestados aos pacientes eram de cunho totalmente religioso, não tendo nenhum embasamento científico. No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, a enfermagem vem se desenvolvendo, passando por várias fases, até os tempos atuais. Como resultado dessa evolução, o cuidado passou a direcionar-se à recuperação e bem-estar do indivíduo, com base num consistente conhecimento científico e na autonomia profissional(1).

A organização desse conhecimento científico ocorreu a partir de 1950, em consequência de um considerável avanço na construção e na organização dos modelos conceituais de enfermagem. Esses modelos foram desenvolvidos por diferentes caminhos, com conceitos comuns essenciais à prática profissional. Serviram como referencial para a elaboração das teorias de enfermagem, objetivando estabelecer uma relação entre diferentes conceitos, bem como melhor direcionar a assistência prestada ao ser humano(2-3).

Portanto, essas teorias subsidiaram a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), de modo que sua aplicabilidade é feita por meio do processo de enfermagem. Esse é considerado um instrumento metodológico que possibilita a equipe de enfermagem identificar, compreender, descrever, explicar e até predizer como a clientela responde aos problemas de saúde ou aos processos vitais. Além disso, possibilita determinar que aspectos dessas respostas exijam uma intervenção profissional de enfermagem(4).

Sua implantação constitui uma exigência para as instituições de saúde, tanto públicas como privadas, de todo o Brasil(5). Apesar disso, a prática profissional cotidiana tem demonstrado que o processo de enfermagem ainda não se encontra totalmente implantado nos serviços de saúde, como também muitas dificuldades são encontradas na implementação desse processo.

Diante dessa realidade, surgiu o interesse de estudar essa temática. A escolha se deu em decorrência das experiências profissionais vivenciadas por dois dos autores na área de obstetrícia. Vivência essa, presente desde a formação acadêmica, fortalecida com o programa de pós-graduação lato sensu através da residência de enfermagem em obstetrícia e do programa de pós-graduação stricto sensu através do mestrado, complementada durante a docência experienciada na disciplina de Enfermagem na Assistência Integral à Saúde da Mulher, na qual encontram-se esses autores atuando até o momento. Assim sendo, emergiu o seguinte questionamento: Como os enfermeiros do serviço de obstetrícia percebem a SAE?

Essa questão reforça a importância da presente pesquisa, em face da necessidade de mudanças na assistência de enfermagem e do cumprimento das competências profissionais, das atribuições legais, dos fundamentos científicos e dos princípios que regem a profissão. Partindo dessas questões, o estudo tem como objetivo compreender, a partir da perspectiva dos enfermeiros, a experiência de vivenciar a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) em um serviço de obstetrícia. Na expectativa de alcançar esse objetivo, adotou-se a abordagem metodológica da teoria fundamentada nos dados.

 

CAMINHO METODOLÓGICO

Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa na perspectiva da teoria fundamentada nos dados. Essa metodologia consiste numa abordagem de pesquisa qualitativa com o objetivo de descobrir teorias, conceitos e hipóteses, baseados nos dados coletados, ao invés de utilizar aqueles predeterminados(6). Possui raízes no Interacionismo Simbólico e compreende a realidade a partir do conhecimento da percepção ou significado que certo contexto ou objeto tem para a pessoa(7). Esse referencial foi desenvolvido por Barney Glaser e Anselm Strauss, no início da década de 1960(8).

A pesquisa foi realizada em uma maternidade pública localizada na cidade de João Pessoa - PB. A escolha do local se justifica, em virtude de ser uma instituição reconhecida como centro de referência na formação de profissionais de enfermagem no Estado da Paraíba, na área de obstetrícia e por desenvolver o processo de enfermagem em seu serviço. Outro motivo para a seleção foi à vivência dos pesquisadores com a realidade a ser investigada por estarem inseridos no processo ensino-aprendizagem e assistência.

O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Lauro Wanderley da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que aprovou o parecer do relator e emitiu a Certidão nº 083/2010, autorizando a pesquisa. Quanto ao posicionamento ético na pesquisa, norteou-se pelos critérios estabelecidos nas Diretrizes e Normas Regulamentadoras da Pesquisa Envolvendo Seres Humanos, constantes na Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, especialmente no que se refere ao consentimento livre e esclarecido dos participantes e aos princípios da autonomia, anonimato e confidencialidade dos dados(9).

O número de enfermeiros que iriam participar do estudo não foi estabelecido, a priori, uma vez que o método de abordagem da teoria fundamentada nos dados não adota uma amostragem estatística. Assim, à medida que os dados iam sendo coletados, eram submetidos à análise concomitante, visando à saturação teórica, isso acontece quando nenhuma outra informação acrescenta ou modifica as já existentes(10). A saturação da amostragem foi atingida após a realização da 13ª entrevista.

Para a coleta dos dados, foram utilizadas as técnicas de observação participante e a entrevista semiestruturada, com questões norteadoras inerentes ao objetivo proposto na investigação. A coleta dos dados foi iniciada por meio da observação. Essa fase permitiu uma maior interação entre os pesquisadores e os enfermeiros. Através dela, sentiu-se a necessidade de realizar uma oficina de sensibilização para preparar o cenário social do estudo. A oficina possibilitou presenciar situações de interação ou falas que contribuíram para a compreensão do fenômeno investigado.

A análise dos dados foi feita em três etapas interdependentes, a saber: codificação aberta, codificação axial e codificação seletiva(8).

A codificação aberta foi realizada manualmente, mediante leitura das entrevistas. Para cada fragmento da entrevista, foram atribuídas palavras ou expressões, formando os códigos preliminares. Na fase seguinte, atribuiu-se um nome conceitual ou abstrato para cada agrupamento de dados, código por código, que tinha alguma semelhança entre si ou mesmo características distintas.

Em seguida passou-se à etapa da codificação axial, em que os dados foram agrupados em novas formas, estabelecendo as conexões entre as categorias, buscando expandir e densificar a teoria emergente. Após, passou-se para a etapa de codificação seletiva em que as categorias foram trabalhadas em profundidade e densidade de consistência. Esse processo de integração resultou no fenômeno estudado.

Após essa etapa, buscou-se inter-relacionar as categorias representativas que traduzissem o significado da experiência dos enfermeiros, e a partir daí, buscou-se desenvolver um modelo teórico representativo dessa experiência. O fenômeno foi examinado na perspectiva do paradigma de análise de Strauss e Corbin(8), como uma forma de agrupar as categorias e facilitar a análise dos dados.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As análises dos dados possibilitaram realizar vários agrupamentos os quais resultou no fenômeno "percebendo a SAE como um método de trabalho que organiza, direciona e melhora a qualidade da assistência, trazendo visibilidade e proporcionando segurança para a equipe de enfermagem", o qual reúne diversas categorias.

Esse fenômeno oferece uma compreensão da transformação do conhecimento tácito em conhecimento explícito da prática do trabalho diário vivenciada pelos enfermeiros, dentro de um contexto que possui suas particularidades. Portanto, a apresentação dos resultados deste estudo foi feita de modo a permitir uma compreensão das experiências desses profissionais, a partir da identificação do fenômeno analisado com base no modelo de paradigma de Strauss e Corbin(8), conforme se mostra abaixo.

Destacando as condições causais

As categorias abaixo mostram as causas que desencadeiam o fenômeno estudado.

Categoria 1: Reconhecendo que o processo de enfermagem proporciona uma assistência de enfermagem organizada, individual e resolutiva

Os enfermeiros reconhecem que a utilização da SAE direciona uma assistência voltada para as necessidades individuais, assim como, documenta suas ações de forma organizada, direcionando os cuidados prestados, conforme expressam nos depoimentos abaixo:

[...] quando utilizamos o processo de enfermagem, estamos prestando assistência ao cliente como um ser único com necessidades individuais (Diamante).

[...] realizar a SAE é documentar uma assistência que nós prestamos cotidianamente, porém de forma organizada (Pérola).

Nesse cenário, percebe-se que o cliente é um ser autônomo, que interage com suas particularidades, devendo estas ser avaliadas no contexto da individualidade, considerando que ele está, a todo o momento, interagindo com o meio. Portanto, o enfermeiro deve aplicar o processo de enfermagem em um ciclo contínuo, dinâmico e individualizado, abrangendo a coleta de dados, o diagnóstico, o planejamento, a implementação e a avaliação na assistência de enfermagem(11).

Categoria 2: Percebendo que o processo de enfermagem proporciona segurança para o cliente e para a equipe, através do registro no prontuário

A pesquisa evidenciou que o processo de enfermagem proporciona ao cliente segurança em relação à assistência prestada, resultando numa melhor comunicação e entendimento do seu estado clínico, favorecendo a recuperação e o relacionamento interpessoal. Nesse sentido, os enfermeiros percebem que o processo de enfermagem é capaz de proporcionar segurança para a equipe de enfermagem, porque suas etapas são registradas no prontuário do cliente, sendo esse considerado um documento legal. Este fato está evidenciado nos relatos abaixo:

[...] o processo de enfermagem melhora nossa prática profissional, trazendo mais segurança para a assistência que está sendo prestada ao nosso cliente (Esmeralda).

[...] o uso do processo de enfermagem traz segurança para o enfermeiro e para o cliente, pois a assistência é registrada no prontuário do cliente (Ametista).

A aplicação do processo de enfermagem busca identificar e tratar os problemas do cliente, de forma segura e eficaz. Como resultado, os enfermeiros fazem julgamentos críticos e diagnósticos de enfermagem, planejando, implementando e avaliando suas ações realizadas, isso, proporcionada segurança ao cliente. Quanto à segurança para os enfermeiros, ele torna-se um instrumento adequado para o desenvolvimento de suas atividades, norteando a assistência em todo o âmbito de ação dos profissionais de enfermagem(12).

Enfatizando o contexto

As categorias a seguir, mostram o contexto onde a prática de enfermagem ocorre.

Categoria 1: Percebendo a SAE como um método de trabalho que organiza e direciona a assistência, através do processo de enfermagem

Nesse contexto, os enfermeiros percebem que a SAE é um método de trabalho que tem sustentação nos modelos teóricos aplicados à prática, através do processo de enfermagem, dando origem a uma metodologia de trabalho que sistematiza as ações e organiza o trabalho. Além disso, proporciona ao enfermeiro a execução de medidas padronizadas que otimizam o processo de trabalho. Os relatos abaixo expressam essa constatação:

[...] ela facilita o trabalho do enfermeiro, direcionando a assistência de enfermagem de acordo com as necessidades de cada cliente (Rubi).

[...] eu percebo a SAE como um método de trabalho que organiza a assistência de enfermagem, favorecendo o seu planejamento (Topázio).

Os enfermeiros reconhecem que o foco da assistência deve ser o cliente. Reconhecem também que a aplicação do processo de enfermagem permite a identificação de necessidades, promove o planejamento e a organização do cuidado, bem como facilita a prática assistencial do enfermeiro.

Como método de trabalho, a SAE exige pensamento crítico, elaboração individualizada e dimensionamento adequado de pessoal(13). Em seu enfoque holístico, ajuda a assegurar que as intervenções sejam feitas para o indivíduo e não para a doença. Nesse sentido, é necessário um olhar para além da patologia do paciente, visando atendê-lo em suas necessidades totais para alcançar a qualidade na assistência de enfermagem(14).

Categoria 2: Percebendo o processo de enfermagem como um método que identifica problemas através das suas fases

Os enfermeiros percebem a SAE como um método de abordagem sistemático e dinâmico, capaz de identificar problemas potenciais ou reais, a partir das fases do processo de enfermagem. Ele fornece subsídios para criar um plano de cuidados individualizado, com orientações de acordo com as necessidades de cada indivíduo. Essa situação é percebida no discurso abaixo:

[...] utilizamos a SAE através do processo de enfermagem. Preenchemos o histórico e, através dele, identificamos os diagnósticos e as necessidades de cada cliente. Ao mesmo tempo, identificamos a conduta a ser tomada para cada cliente. Desta forma, conhecemos melhor a nossa clientela (Turquesa).

Os enfermeiros percebem que a SAE é um método conciso que identifica problemas do cliente e os torna passíveis de serem tratados por intervenções de enfermagem. Ele realiza-se através de ações sistematizadas e inter-relacionadas, de forma a assegurar a individualidade do cliente. Possui fases interdependentes e complementares, que variam de acordo com cada autor no que diz respeito ao número e à terminologia utilizada(13).

Destacando as condições intervenientes

A categoria seguinte mostra os aspectos que corroboram com impacto das condições que intervêm no fenômeno em estudo.

Categoria: Considerando que a SAE confere autonomia, melhora a autoestima e traz visibilidade à profissão

Os enfermeiros consideram que a SAE confere autonomia profissional, desde que toda a equipe de enfermagem passe a utilizar essa metodologia de trabalho em suas ações, através da aplicação sistemática do processo de enfermagem. É ele que oferece suporte teórico e segurança na tomada de decisões frente ao cliente, trazendo como consequência maior visibilidade à profissão. Para tanto, é importante que a enfermagem possua conhecimentos e atitudes que possam resguardar sua autonomia, seu caráter e sua competência na realização de uma assistência de enfermagem organizada. Portanto, a SAE representa a base dessa organização(15).

Diante desse contexto, os enfermeiros veem a SAE como uma ferramenta para aprofundar os conhecimentos, tanto formais quanto informais, trazendo mais autonomia na prática do enfermeiro, conforme se constata no relato abaixo:

[...] a SAE traz mais autonomia ao profissional enfermeiro. Ela é responsável por planejar, executar e avaliar a assistência prestada, sem haver necessidade de se estar somente executando o que foi prescrito por outros profissionais (Safira).

Em presença dos relatos dos enfermeiros, é bom lembrar que a autonomia profissional da enfermagem só será alcançada, através de conhecimentos técnico-científicos, de atividades legais e, primordialmente, do desenvolvimento de uma prática humanizada. A elevação da autoestima dos profissionais de enfermagem, obtida através da utilização da SAE, expressa a confiança no próprio potencial, a certeza da capacidade de enfrentar os desafios da profissão e a consciência do próprio valor da busca do sucesso profissional.

Desenvolvendo estratégias de ação

Para que a SAE se apresente como um método de trabalho que organiza e direciona as ações da enfermagem, melhorando a qualidade da assistência prestada, trazendo autonomia e visibilidade à profissão, os enfermeiros desenvolvem as seguintes estratégias de ação:

Categoria 1: Buscando implementar a SAE em todas as etapas do processo de enfermagem

As fases do processo de enfermagem quando realizadas concomitantemente, resultam em intervenções satisfatórias para o cliente. Para que o enfermeiro possa garantir excelência no desempenho de suas funções, ele utiliza o processo de enfermagem no dia-a-dia, contribuindo para a construção de competências, condição imprescindível para a produção, evolução e inovação do conhecimento. Dessa forma, observa-se, nos discursos dos enfermeiros que eles buscam na SAE utilizar as etapas do processo de enfermagem como estratégia de ação para explicar o fenômeno, conforme mostra o depoimento:

[...] nesta instituição é realizada todas as etapas do processo de enfermagem, pois temos impressos que constam dessas etapas (Ágata).

No contexto desse serviço, os enfermeiros têm buscado aplicar a SAE no cotidiano do cuidar obstétrico. Esse processo caracteriza-se pela cientificidade dos profissionais envolvidos, uma vez que requer conhecimento para sua implantação na prática, possibilitando a assistência individualizada e humanizada. Para tanto, é necessária a presença de profissionais qualificados e comprometidos de forma pessoal e profissional, que assistam a mulher com respeito, ética e dignidade.

Em relação à política de atenção a saúde das mulheres, nas últimas décadas, vem emergindo vários movimentos governamentais e não-governamentais em prol de uma de política destinada a assistência humanizada e holística. No entanto, sabe-se que além das políticas públicas propostas ao atendimento à mulher, a SAE, através da aplicação do processo de enfermagem, tem se mostrado como uma das alternativas para essa assistência, no momento em que as mulheres se encontram mais vulneráveis e carentes de apoio emocional, que é durante a maternidade(16).

Categoria 2: Utilizando formulários que contemplem as fases do processo de enfermagem e as necessidades da clientela

Os enfermeiros têm lançado mão de muitos procedimentos como estratégias de ação para explicar o fenômeno estudado. Nesse sentido, reconhecem que os formulários utilizados no serviço são satisfatórios na execução das fases de investigação, de diagnóstico, de planejamento, de implementação e de avaliação da assistência de enfermagem. No entanto, necessitam ser ajustados para suprir as necessidades da clientela atendida no serviço, objetivando qualificar o atendimento prestado nos setores de pré-parto, parto e puerpério. Essas necessidades estão expressas no relato abaixo:

[...] alguns instrumentos do processo de enfermagem necessitam ser ajustados para suprir as necessidades de nossa clientela (Jade).

Os formulários contemplando as fases do processo de enfermagem são importantes para que os enfermeiros tenham conhecimento teórico e prático, de modo a executarem as ações. Esse conhecimento é necessário como base para a tomada de decisão e na escolha das intervenções para assistir a cliente, subsidiando o raciocínio crítico e clínico em enfermagem.

Identificando as consequências do fenômeno

A categoria abaixo mostra as consequências do fenômeno em estudo identificadas pelos enfermeiros da maternidade estudada.

Categoria: Reconhecendo que o processo de enfermagem melhora a qualidade da assistência, a satisfação profissional e aumenta o vínculo enfermeiro-usuária

Com a utilização da SAE, são assegurados não apenas os benefícios diretos ao cliente, como qualidade no atendimento, mas também os benefícios voltados à instituição, como diminuição de gastos e desperdício de tempo por conta de um trabalho desorganizado. Além desses benefícios, destacam-se aqueles direcionados aos profissionais, como a continuidade da assistência, resultando em um maior reconhecimento da profissão e gerando satisfação profissional, conforme se observa no relato abaixo:

[...] quando utilizamos corretamente a SAE, ou seja, quando conhecemos como funciona, nossos clientes ficam bastante satisfeitos, pois melhora a qualidade da assistência e ao mesmo tempo aumento o vínculo com nosso cliente (Ametista).

A SAE não só proporciona uma melhoria na qualidade da assistência, mas também gera o aumento da satisfação e o crescimento da profissão de enfermagem. A utilização da SAE permite aplicar os conhecimentos teóricos de enfermagem na prática cotidiana do cuidado, contribuindo para o fortalecimento da enfermagem enquanto ciência e atendendo com mais precisão e eficiência as necessidades humanas do cliente(17).

Portanto, ela é uma estratégia que possibilita o desenvolvimento de relações humanizadas por meio do vínculo criado entre enfermeiros e usuários. O significado da humanização compreende o olhar ampliado para as necessidades de saúde dos usuários, considerando os aspectos biopsicossociais e o contexto de vida das pessoas. Abrange também o respeito aos princípios éticos, tais como o respeito pelo outro, a dignidade e a autonomia, facilitando, com isso, o acesso aos serviços de saúde(18).

Após a discussão das categorias que geraram o fenômeno, apresenta-se a Figura 1, expressando graficamente esse fenômeno.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os enfermeiros reconhecem o processo de enfermagem como um método de articulação teórico-prático, que direciona uma assistência voltada para as necessidades individuais, auxiliando a sua resolução; documenta as ações de enfermagem de forma organizada, direcionando os cuidados prestados; proporciona segurança ao cliente em relação à assistência prestada, bem como à equipe de enfermagem, porque as orientações são registradas no prontuário; facilita a continuidade da assistência, gerando satisfação e reconhecimento profissional, aumentando o vínculo enfermeiro-usuário. Desta forma, eles consideram o processo de enfermagem como um processo decisório, que norteia o raciocínio do enfermeiro no planejamento da assistência de enfermagem.

Os enfermeiros veem a SAE como uma proposta para melhorar a qualidade da assistência prestada à clientela, através de um método que organiza, sistematiza e direciona todas as etapas do processo de cuidar, específico da enfermagem. Eles percebem como uma forma de aprofundar os conhecimentos, tanto formais quanto informais, conferindo autonomia na prática do enfermeiro, determinando sua importância dentro da profissão ou na ação conjunta com outros profissionais, trazendo mais visibilidade à profissão.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço da autora
Ana Lúcia de Medeiros

Rua Juíz Arnaldo Ferreira Alves, 126, Jardim Cidade Universitária
58052-315, João Pessoa, PB
E-mail: aninhapits@gmail.com

Recebido em: 22.05.2011
Aprovado em: 13.07.2012

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