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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.34 no.1 Porto Alegre Mar. 2013

https://doi.org/10.1590/S1983-14472013000100022 

ARTIGO ORIGINAL

 

Significado do processo morte/morrer para os acadêmicos ingressantes no curso de enfermagem

 

Significado del  proceso  muerte/ morir por los estudiantes que entran en el programa de enfermería

 

 

Gabriella Michel dos Santos BenedettiI; Kézia de OliveiraII; William Tiago de OliveiraIII; Catarina Aparecida SalesIV; Patrícia Chatalov FerreiraV

IEnfermeira. Especialista em Saúde da Família. Mestranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem (PSE) da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – Paraná – Brasil
IIEnfermeira. Especialista em Saúde da Família e UTI Neonatal. Docente do Centro Universitário de Maringá (CESUMAR). Mestranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem (PSE) da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – Paraná – Brasil
IIIEnfermeiro. Especialista em Gerência de Serviços de Enfermagem pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Docente da Faculdade Ingá - Uningá. Mestrando do Programa de Pós-graduação em Enfermagem (PSE) da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – Paraná – Brasil
IVDoutora em Enfermagem. Docente da Pós Graduação do Departamento de Enfermagem (DEN) da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – Maringá – Paraná – Brasil
VDiscente do 4º ano do Curso de Enfermagem. Bolsista do Programa de Iniciação Científica (PIBIC). Departamento de Enfermagem. Universidade Estadual de Maringá – Paraná – Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, embasada na fenomenologia existencial heideggeriana, com o objetivo de desvelar o significado do processo morte/morrer para acadêmicos ingressantes no curso de enfermagem, realizada numa universidade pública do Noroeste do Paraná, Brasil, entre os meses de agosto e outubro de 2010, quando se entrevistaram 33 graduandos do primeiro ano do curso de enfermagem. Da análise fenomenológica, emergiram as seguintes temáticas existenciais: "Entendendo a morte como um processo difícil de ser compreendido"; "Compreendendo a morte como um processo natural"; "Vislumbrando a morte como uma passagem para outra vida". Por este estudo, compreendeu-se que o saber e a morte estão enredados na temporalidade e historicidade de cada ser, sendo necessária uma compreensão científica, filosófica e ética do fenômeno morte/morrer para que o acadêmico possa se preparar para o cuidado humanizado ao doente e sua família.

Descritores: Morte. Ensino. Estudantes de enfermagem.


RESUMEN 

Se trata de una investigación cualitativa, basada en la fenomenología existencial heideggeriana, con el objetivo de revelar el significado de la muerte / morir por estudiantes de primer año en el programa de enfermería. Realizada en una universidad pública del Noroeste de Paraná, Brasil, entre agosto y octubre de 2010, fueron entrevistados 33 graduandos del 1° año del curso de enfermería. Del análisis fenomenológico emergieron las siguientes temáticas existenciales: "Entendiendo la muerte como un proceso difícil de ser comprendido"; "Comprendiendo la muerte como un proceso natural"; "Percibiendo la muerte como un pasaje a otra vida". A través de este estudio comprendemos que el saber y la muerte están enmarañados en la temporalidad y la historicidad de cada ser, lo que requiere una comprensión científica, ética y filosófica del fenómeno muerte / morir para que el estudiante pueda prepararse para la atención humanizada al paciente y a su familia.

Descriptores: Muerte. Enseñanza. Estudiantes de enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

A morte constitui um dos assuntos mais mistificados, temidos e ignorados pela sociedade e pelos indivíduos. Esse processo natural, que complementa a vida, mas que muitos acreditam ser o oposto a ela, é uma das poucas realidades concretas para todos os seres vivos(1-2).

A ideia que o ser humano cultiva sobre a morte acompanha-o durante toda a sua existência. E ao esforçar-se para enfrentá-la de forma natural, desenvolvem-se crenças que não mais fazem do que negar um fato inegável, levando-o a transpor o tempo cronológico, ou seja, aquele tempo que determina o fim da vida(3), e a vislumbrar outras possibilidades para sua continuidade, muitas vezes conduzido pela espiritualidade.

Para os profissionais de saúde, a morte é uma presença mais constante do que para as demais pessoas, mas eles também não estão preparados para enfrentá-la. É necessário que saibam entendê-la, aceitá-la e desvincular-se da visão de fracasso que este fenômeno pode gerar. Neste contexto, os enfermeiros, por conviverem mais diretamente e por mais tempo com os pacientes, estão mais expostos, o que não significa estarem preparados(1,4).

A experiência da morte é também vivenciada pelos acadêmicos de enfermagem, que se defrontam cotidianamente com a doença, com a dor e com a morte. Essas experiências diárias podem despertar, para os alunos, seus sentimentos latentes de impotência diante do não-solucionável(5). Nessa perspectiva, estudar a morte desde a graduação é algo que pode ajudá-los a trabalhar com sua constante presença, de forma a reduzir o estresse e a ansiedade ao se discutir sobre esse assunto e conviver diariamente com essas situações de sofrimento(6).

Alguns autores afirmam que a discussão sobre sentimento de medo e insegurança, em algumas ocasiões, representa uma lacuna no ensino de graduação, podendo acarretar prejuízo no preparo do profissional para a dura rotina do trabalho hospitalar, pois neste ambiente se convive constantemente com o sofrimento alheio. Nessas situações, o enfermeiro, não devidamente preparado, deixa de assumir uma postura terapêutica, sendo raro encontrar nos hospitais profissionais capazes de dialogar com a família e o moribundo, assistindo-os em suas necessidades psicológicas nos momentos que antecedem a morte(7-8). 

Outros autores expressam ser imprescindível introduzir na formação acadêmica uma visão crítico-reflexiva para o processo morte/morrer, a fim de que estes futuros profissionais sejam capazes de aceitar a morte com naturalidade e com menos sofrimento e sensação de fracasso pessoal e profissional(2).

Destarte, torna-se necessária a inserção desse conteúdo logo no início da graduação, seja em conteúdos teóricos ou em projetos de extensão, pois os acadêmicos precisam ser preparados para assistir os pacientes e familiares que vivenciam a terminalidade da vida. Neste contexto, este estudo teve como objetivo desvelar o significado do processo morte/morrer para os acadêmicos ingressantes no curso de enfermagem.

 

METODOLOGIA

O estudo é de caráter qualitativo e tem como alicerce filosófico a fenomenologia existencial heideggeriana. Na reflexão de Heidegger, compreender o homem em sua facticidade é procurar decifrar o modo de ser por ele revelado em seu discurso, desvelando esse fenômeno que se manifesta a partir do próprio ser, pois o mister do pensar fenomenológico é compreender o ser humano em sua existencialidade, isto é, em sua facticidade(9).

Os participantes da pesquisa foram todos os acadêmicos do primeiro ano do curso de enfermagem de uma universidade pública do Estado do Paraná, Brasil, do ano de 2010, totalizando 33 acadêmicos. Optou-se por trabalhar com os estudantes desta série com o intuito de compreender suas concepções pessoais, antes mesmo de experienciarem situações de morte em sua trajetória acadêmica e/ ou profissional.

Em respeito ao número de palavras estabelecido pelo periódico, apresenta-se neste artigo a linguagem de 16 depoentes dos 33 entrevistados. A escolha das descrições foi realizada aleatoriamente, pois a finalidade não foi desvelar apenas definições, mas também a significação de uma essência existencial da vivência de cada acadêmico.

As entrevistas foram realizadas individualmente, com a utilização de gravador digital, em local privativo na instituição, no período de agosto a outubro de 2010. Os depoentes foram inquiridos com a seguinte questão: "Qual o significado do processo morte/morrer para você?". A fim de manter o anonimato, os acadêmicos foram identificados pela letra A, seguida do número de ordem do entrevistado.

Para captar a plenitude das concepções expressas pelos participantes em suas linguagens, estes foram escolhidos pela análise individual dos respectivos discursos. Assim, primeiramente foram realizadas leituras atentas de cada depoimento, separando os trechos ou unidades de sentido (US) que se mostraram como estruturas fundamentais da existência; em seguida foram analisadas as unidades de sentido de cada depoimento, realizando seleção fenomenológica da linguagem de cada participante, pois uma unidade de sentido é, em geral, constituída de sentimentos revelados pelos depoentes que contemplam a interrogação ontológica(10).

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Maringá, sob o Parecer n.° 497/2010. Os dados foram coletados somente após o devido aceite do estudante em participar da pesquisa e ter assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em duas vias, em obediência aos princípios éticos estabelecidos pela Resolução do Conselho Nacional de Saúde n.° 196/96.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na busca por alcançar os objetivos propostos nesta pesquisa, as unidades de significado dos discursos desvelaram a estrutura do fenômeno interrogado, sendo os resultados agrupados em três temas emergentes, os quais foram interpretados à luz de algumas ideias de Heidegger e de outros autores que versam sobre o processo morte/morrer.

Entendendo a morte como um processo difícil de ser compreendido

Ao descobrir-se lançado ao mundo e vivenciando situações não-planejadas, mas concretas, o Ser-aí se abre para o mundo, manifestando-se por meio da afetividade ou disposição, da compreensão e da linguagem. Na analítica heideggeriana, as formas de o homem mostrar-se ao mundo denominam-se de características existenciálias. A disposição é o humor ou a tonalidade afetiva que não representa um simples fenômeno psicológico, colorindo as coisas e as pessoas, mas uma definição constitutiva do nosso ser. "O humor revela ‘como alguém está e se torna'. É nesse como alguém está que a afinação do humor conduz o ser para o seu ‘pré"(9). Neste pensar, o Ser-para-o-fim não se origina primeiro de um acontecimento que por vezes ocorre na vida do homem, mas pertence essencialmente ao factus de ele ter sido lançado, que na disposição do humor se mostra de maneiras diferentes.

Desta forma, foi observada nas falas a dificuldade de compreender e aceitar o sofrimento causado pelo sentido obscuro trazido a cada indivíduo pela morte, sentido que é um processo doloroso. Cada acadêmico descreve a sua percepção sobre a morte, demonstrando formas diversificadas de entendimento e enfrentamento. A6 revela que a morte só pode ser entendida por quem a esteja vivenciando. Talvez esse seja o motivo pelo qual o ser humano encontra dificuldade em lidar com a finitude, o que demonstra a enorme subjetividade sobre o significado real que a morte tem em sua vida.

Acredito que falar da morte é tão complexo como pensar sobre, ou lançar o que significa esse processo que depende da cultura de cada pessoa que influenciará em suas crendices. Os questionamentos se referem ao que acontece depois da morte, onde paramos para pensar e ficamos inconformados que a vida termina ali. Então surgem várias tentativas para tentar desvendar esse conflito interno: Para onde vamos depois da morte? Mas, o interessante é que essa pergunta e outras relacionadas à existência nunca poderão ser respondidas com plena certeza. Então, temos que esperar para nós mesmos experimentar o que é a morte. (A6)

A morte é uma realidade complicada de se lidar. Apesar de nascermos com a certeza de que um dia iremos morrer, preferimos não pensar nessa realidade e por isso nos afetamos tanto com a perda de entes queridos. Penso que não deveríamos sofrer tanto, pois é somente mais uma etapa cumprida, [...] quando chegar a hora de morrer, mesmo que seja feito todo o necessário, não adiantará nada [...]. (A28)

A existência humana pode tornar-se alvo de questionamento, principalmente quando o ser-aí vivencia alguma facticidade em seu cotidiano que ele não consegue enfrentar de imediato, mas que lhe gera sentimentos de temor e padecimento. Nesse momento, o ser humano fecha-se em si mesmo e não consegue entender sua própria condição existencial, negando a si mesmo a verdade que se descortina ao seu redor, isto é, a de ser um ser finito.

Acerca deste pensar, um estudo desenvolvido com acadêmicos de enfermagem assinalou a necessidade de promover a reflexão acerca da presença de sentimentos negativos, pois reconhecê-los torna-se imprescindível para a prestação de serviços de qualidade. É neste momento que o estudante passa a ter os primeiros contatos com situações de perda, fazendo-se, então, necessário trabalhar os aspectos emocionais durante esse processo, para que ele encontre estratégias para lidar com a sua dor e aflição e de seus pacientes(11).

A concepção sobre a finitude desperta no acadêmico a sensação de injustiça, pelo fato de se lutar a vida inteira e em troca receber a morte, provocando-lhe angústia e indignação. Esta percepção manifesta-se como um vazio existencial, revelando o fim como impedimento à continuidade de realizações e causando-lhe frustração.

Acho simplesmente o fim para quem lutou uma vida inteira ou para quem/outros que viram a vida passar por uma vitrine. (A3)

As pessoas fixam o seu olhar apenas na facticidade da morte e na transitoriedade da vida, esquecendo-se de contemplar os acontecimentos do seu passado, seus projetos concretizados, suas alegrias, seus atos criativos, bem como o sofrimento enfrentado com bravura(12)

Embora a grande maioria admita que a morte faz parte da existência humana, alguns dos depoimentos expressam o sentimento de negação. Percebe-se, então, que esses sentimentos de temor expressos pelos acadêmicos desvendam a preocupação de assimilar a morte. Teme-se esse acontecimento natural, que se denomina morte, valorizando a juventude, a saúde e a imortalidade e ocultando e por vezes negando essa realidade inelutável(13). Em outro estudo, constatou-se também que enfermeiros reagem negando a morte, o que pode interferir na forma como cuidam do paciente em processo de morte e seus familiares(7).

A morte é um processo natural a que estamos sujeitos, não tem como mudar isto; mas mesmo que todas as pessoas saibam, ninguém vive pensando na morte. As pessoas sempre temem esse processo e acredito que seja difícil alguém não ter medo da morte. (A18)

Em sua cotidianidade inicial, na maioria das vezes o Ser-aí encobre para si mesmo sua condição de um Ser para a morte, fugindo desta única certeza absoluta de seu existir; entretanto, é existindo que o Ser-no-mundo morre de fato, mesmo que na maioria das vezes o faça de modo decadente. "Nesse decadente ser-junto-a, anuncia-se a fuga da estranheza, isto significa, do ser-para-a-morte mais próprio"(10). Este pensar desperta o refletir acerca das palavras de A18 de que se descobrir como um ser finito faz com que a pessoa mergulhe em um estado de decadência, vivendo imersos nas banalidades cotidianas e negligenciando sua verdadeira condição existencial, ou seja, a de ser um-ser-para-a-morte.

Compreendendo a morte como um processo natural

A explanação do Ser-para-a-morte na cotidianidade do ser humano surge na publicidade do mundo, pois no teor público da convivência o Ser-para-a-morte vislumbra a morte como anunciada em sua distancialidade e sempre como um fato natural. Ela vem ao encontro do homem como um acontecimento corriqueiro conhecido dentro do mundo(10).

Na literatura, evidencia-se que, ao experienciarem situações de morte, estudantes e profissionais de enfermagem vivenciam sensações de fracasso e impotência(1,2,4,12,14), porém o presente estudo revela que alguns discentes contemplam o fenômeno como um evento próprio do ser humano, algo natural.

Significa para mim o envelhecimento, que é de forma natural, ou o desenrolar de uma doença. (A1)

A morte pode se dar pelo envelhecimento natural do ser vivo ou por uma eventualidade como um acidente, uma doença, entre outros fatores. (A17)

Apreendem-se das falas que alguns acadêmicos compreendem a morte como algo concreto, considerando o envelhecimento, a doença e o acidente como possibilidades do cotidiano do homem. Essa visão talvez possa estar relacionada ao fato de que a morte e os sentimentos suscitados por ela são para eles algo tão distante de sua realidade que eles são levados a encará-la de maneira objetiva. No entanto, esse pensamento pode favorecê-los no sentido de um melhor enfrentamento da finitude ao depararem-se com as mais diversas situações de morte inerentes à sua futura atividade profissional. 

Outro aspecto desse contexto é que, o significado de morte possa estar relacionado a um processo natural, sendo comumente compreendida como consequência da vida quando envolve pacientes idosos ou doenças crônicas, e ainda quem não se tenha vínculo afetivo. Mas, quando se trata de um ente querido a ideia de finitude do ser como processo natural é substituída por dolorosa perda. Assim, tratar da finitude do ser humano envolve não apenas aspectos técnicos da morte, mas também aspectos afetivos/emocionais(14).

Significa que acabou um ciclo, que pode ter sido por causas naturais ou provocado; é um processo que vai acontecer com todo mundo; e mesmo que seja triste perder alguém de quem gostamos, a morte é algo que acontecerá independente da nossa vontade. (A15)

Processo pelo qual todos passamos um dia. Para quem perde um parente, amigo próximo, é muito difícil passar por esse processo e se habituar à vida sem aquela pessoa. Muitas pessoas não aceitam e sofrem muito. É um processo delicado e difícil de lidar. (A20)

Evidencia-se que, apesar de a morte ser entendida como um evento aceitável, algo que acontecerá com todos e que deve ser assim compreendido, os acadêmicos reconhecem o sofrimento causado pela perda de um ente querido, demonstrando que a morte não é algo fácil de ser concebido, confrontando-se razão e emoção na busca por compreender seu significado.  "A morte se revela como perda, uma perda sentida pelos entes que ficam, mas uma perda física, pois a morte existencial somente pode ser sofrida por quem morre"(9).

Não obstante, alguns alunos compreendem a morte como algo de que o ser não pode fugir e que será vivenciado por todos nós, sem exceção. Só ao despir-se dos preconceitos que cercam esta característica existencial é que o ser pode se libertar dos medos e do sofrimento desencadeados pela morte.

Significa que todos vamos passar por esse processo; a morte é inevitável, todos vamos morrer um dia. Não precisamos nos assustar, é uma coisa natural que acontece na vida de cada um. (A25)

Penso que não deveríamos sofrer tanto, pois essa é somente mais uma etapa cumprida [...] quando chegar a hora de morrer, mesmo que seja feito todo o necessário não adiantará em nada [...].(A 28)

A morte pode ser caracterizada como o fim da condição humana e das funções vitais, sociais e psíquicas do ser e como um dado essencial da existência humana. A morte é justamente esse fim que não tem mais começo, esse término definitivo. É a possibilidade humana que finda todas as outras(15).

A morte é a ausência de sinais vitais, em que a pessoa encerra uma fase da vida. Muitas religiões acreditam que a vida pode continuar após a morte, mas para mim se encerra uma fase em que a pessoa não viverá, não sonhará e não poderá conquistar mais nada. (A11)

O fim das relações sociais, das funções biológicas e psicológicas. (A7)

Pelos discursos apresentados, percebe-se uma tendência do ser a enfrentar a terminalidade racionalmente, numa tentativa de conviver com esta certeza de forma harmônica. Assim, conceber a morte como um acontecimento natural e inevitável é admitir que a vida tem um começo, um meio e um fim. Com ela finda um universo de possibilidades, desejos e sonhos, assim como o próprio corpo do indivíduo, que deixa de existir, de modo que nenhuma experiência lhe será acrescentada a não ser a própria morte.

Enfim, entre todas as coisas que nos são dadas, a mais real e absoluta é a morte. Tal realidade concretiza uma apropriação de nossa existência, que nos leva a assumir a nossa singularidade a nos dar conta de que, afinal, somos seres-para-a-morte e de que nenhuma experiência existe, por mais intrínseca que nos seja ou nos constitua, do que a da finitude(15). 

Vislumbrando a morte como uma passagem para outra vida

A religiosidade é considerada por diversos autores como uma importante aliada no processo de aceitação e enfrentamento da morte, pois conforta, dá esperança e ajuda a suportar melhor esse momento tão difícil. A religião não só oferece conforto nos tempos de sofrimento, mas também, pelo menos em algumas crenças, oferece uma promessa de vida após a morte e de reunião com a família perdida(16).

Ao serem questionados sobre o significado da morte, alguns alunos opinaram que a morte é uma etapa da vida que conduz a um "outro nível", ou seja, um momento de passagem para algo melhor, de uma vida finita para a vida eterna. Observa-se que essa visão, baseada em crenças religiosas, influencia a maneira como esses sujeitos aceitam a morte:

Morrer é passar dessa vida terrena para uma vida espiritual, é deixar de viver com as pessoas terrenas e passar a reinar com Cristo em um lugar bem melhor do que este que vivemos aqui. (A2)

A morte é considerada como o fim da vida, mas para os que acreditam em Deus e na vida eterna é apenas o início. (A5)

As crenças religiosas e espirituais proporcionam possibilidades de significação e respostas às perguntas existenciais que se colocam diante da possibilidade de morrer(16). Nota-se que, para os acadêmicos que acreditam nesta concepção como o início de uma nova existência, a morte soa como algo positivo. Deste modo, verifica-se que o fato de acreditar que este fenômeno não é o fim faz com que o ser humano mantenha viva a esperança de um dia se re-encontrar com seus entes queridos, o que lhe dá forças para suportar as vicissitudes causadas pela morte e supre suas necessidades emocionais de ter uma expectativa para o futuro. Conforme se apresenta na fala de A27:

Quando a pessoa é conhecida e amada dói bastante por saber que nesta vida o contato com ela acabou. Eu creio na salvação e vida eterna, por isso é menos dolorosa essa perda, pois sei que depois possivelmente verei essa pessoa. (A27)

Esta visão da morte como uma passagem para outra vida foi corroborada por resultados obtidos em um estudo realizado junto a profissionais de enfermagem, o qual apontou que estes tendem a associar a morte ao significado de transcendência, ou seja, tendem a vê-la como uma passagem e não como o fim(6).

Outro fenômeno importante observado nos depoimentos refere-se ao fato de estes citarem a morte como perda das funções do corpo, mas não da alma:

Um processo pelo qual todos passamos um dia, onde o nosso corpo perde as funções biológicas e a nossa alma passa para outra dimensão.(A24)

Biologicamente, seria a perda de todas as funções, seria a parada dos sinais vitais. Espiritualmente, seria a perca do fôlego de vida que voltaria a Deus e deixaríamos de ser alma vivente passando apenas a ser corpo que voltaria ao pó do qual veio. (A26)

Distingue-se que na percepção dos discentes a vida é composta de uma alma imortal que possui um corpo físico mortal. Isso é reforçado pela maioria das religiões e escolas espiritualistas que creem no conceito de imortalidade e indestrutibilidade da alma(17).

Não obstante, alguns autores acreditam que o romantismo produzido pelas religiões nada mais é do que uma forma desesperada de negligenciar a própria finitude, pela dificuldade do homem em lidar com seus próprios temores da morte, sobressaindo, então, as defesas. O homem sofre porque passa a perceber a sua finitude, mesmo sabendo que o morrer é parte inerente à condição humana. A existência de toda uma propulsão social de negação da morte é prática comum(18).

Diante da subjetividade do significado da morte, é possível compreendê-la como uma passagem ou início de uma nova vida, o que pode ser entendido como algo positivo, pois muitos indivíduos encontram na fé e na religião subsídios para torná-la aceitável e compreensível; mas outros entendem esse pensar como uma negativa, já que a literatura especializada nesta temática traz que o fato de negar a morte é uma das formas de não entrar em contato com as experiências dolorosas, permitindo que se viva num mundo de fantasia onde há ilusão da imortalidade(19).

 

CONCLUSÕES

As concepções dos acadêmicos permitem a reflexão sobre sua insipiência ao adentrarem no curso de enfermagem, no que tange o enfrentamento do processo morte/morrer. Tal desvelamento vai ao encontro de estudos apresentados no artigo que enfatizam a importância de a temática ser abordada logo no início da graduação, pois os acadêmicos precisam ser preparados para vivenciar o processo morte/morrer de seus futuros clientes.

Para os acadêmicos deste estudo, a morte, apesar de ser considerada como algo natural, vem acompanhada de experiências dolorosas, pois os separa de entes queridos; por isso muitos não se conformam e relutam em aceitá-la, vendo-a como um mistério, que só poderá ser desvendado pela própria morte.    

Por meio deste estudo, compreende-se também que o saber e a morte estão enredados na temporalidade e historicidade de cada ser, tornando-se essencial a compreensão científica, filosófica e ética do fenômeno morte/morrer, possibilitando ao acadêmico se preparar para o cuidado humanizado ao doente e sua família. E, dessa forma, prestar assistência integral e de qualidade em situações de finitude, tendo em vista as necessidades biopsicossociais e espirituais destes seres, atuando efetivamente no cuidado.

Considera-se oportuno apontar algumas limitações do estudo, decorrentes de ele ter sido contextualizado no tempo e espaço das vivências dos participantes envolvidos, podendo não permitir generalizações. Mas acredita-se que podem ser utilizados em situações similares, contribuindo para aprofundar o conhecimento e a reflexão acerca da temática.

 

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Recebido em: 12.06.2012
Aprovado em: 04.02.2013

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