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Revista Gaúcha de Enfermagem

versão On-line ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.34 no.2 Porto Alegre jun. 2013

https://doi.org/10.1590/S1983-14472013000200006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Cuidado de enfermagem para enfermeiros docentes na perspectiva da complexidade

 

Cuidado en enfermería para los enfermeros docentes en la perspectiva de la complejidad

 

 

Diéssica Roggia PiexakI; Dirce Stein BackesII; Silvana Sidney Costa SantosIII

IEnfermeira. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande (PPGEnf/FURG). Bolsista CAPES/REUNI. Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil
IIIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Gerontóloga. Docente da Escola de Enfermagem (EEnf) da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil

Endereço do autor

 

 


RESUMO

O cuidado de enfermagem complexo é condição essencial para a compreensão do ser humano como singular e multidimensional. Assim, objetivou-se conhecer o significado do cuidado de enfermagem para enfermeiros docentes, na perspectiva da complexidade. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, realizada com sete enfermeiros docentes de um curso de enfermagem de nível superior da região central do Rio Grande do Sul, Brasil. Os dados foram coletados no mês de novembro de 2011, por meio do grupo focal, a partir de três encontros, sistematizados com temáticas que contemplassem o objetivo deste estudo. Para a análise de dados, foi utilizada a análise textual discursiva. Os resultados evidenciaram o cuidado de enfermagem como construção singular que vai além de um cuidado técnico-prescritivo, pontual e linear. Conclui-se que o cuidado de enfermagem não pode ser concebido como ação reducionista, mas como construção singular, que envolve interações, reflexões e autoconhecimento.

Descritores: Cuidados de enfermagem. Pesquisa em enfermagem. Dinâmica não linear. Enfermagem.


RESUMEN

El cuidado de enfermería complejo es esencial para la comprensión del ser humano como único y multidimensional. Se objetivó conocer el significado del cuidado en enfermería para los enfermeros docentes en la perspectiva de la complejidad. Se trata de una investigación cualitativa, realizada con siete enfermeros docentes de un curso de enfermería de nivel superior en la región central de Rio Grande do Sul, Brasil. Los datos fueron recogidos en el mes de noviembre de 2011, a través de la técnica de grupos focales, a partir de tres encuentros, sistematizados con temáticas que contemplan el objetivo del estudio. Para análisis de los datos fue utilizado el análisis textual discursivo. Los resultados mostraron el cuidado de enfermería como construcción singular que va allende un cuidado técnico-prescriptivo, puntual y lineal. Se concluye, que el cuidado de enfermería no puede ser concebido como acción reduccionista, sino como construcción singular, que abarca interacción, reflexión y autoconocimiento.

Descriptores: Atención de enfermería. Investigación en enfermería. Dinámicas no lineales. Enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

Vive-se uma era de busca do conhecimento, não mais de forma isolada e desconectada do todo, mas a partir das complexas relações com o ambiente ao qual se pertence. Nesse sentido, é imprescindível olhar o ser humano e o ambiente de forma ampliada e complementar, uma vez que um depende do outro. Além disso, é necessário encarar o desafio da complexidade e perceber o ser humano como sendo singular em sua essência. Compreender o humano não é separá-lo do Universo, mas situá-lo nesse espaço, tendo em vista que todo conhecimento só é pertinente quando contextualizado com seu objeto(1).

A respeito dessa questão, cabe expor que a Enfermagem tem como foco/razão da sua existência o cuidado integral ao ser humano, independentemente das condições sociais, econômicas, raciais, de gênero, nos mais diversos espaços do ser e existir humanos(2). Sendo assim, torna-se necessário que os profissionais da Enfermagem compreendam o ser que é cuidado como integral, com múltiplas relações sociais, as quais são potencializadas pelo ambiente natural e social(3).

Para uma visão ampliada do cuidado de enfermagem, é necessário superar modelos tradicionais lineares, os quais enfocam principalmente a doença, em detrimento do ser que a abriga. O modelo biomédico, por exemplo, enraizado no processo saúde/doença, visualiza o ser humano como um conjunto de órgãos que pode adoecer e, quando adoece, prevalece uma assistência isolada, com um único propósito, o de tratar o órgão afetado(4), desvalorizando, em muitos casos, o ser humano multidimensional, isto é, físico, biológico, psíquico, social, cultural, espiritual e histórico(1).

Assim, o cuidado de enfermagem vem, crescentemente, adquirindo novos significados, influenciados por diferentes valores, convicções culturais e novas abordagens. Para tanto, o cuidado deve ser entendido como um fenômeno complexo, motivado pelas interações e associações sistêmicas, ou seja, desenvolvido a partir de redes interacionais de vários saberes do agir humano expresso pelo trabalho compartilhado, inter/transdisciplinar. Logo, o cuidado na perspectiva da complexidade permite compreender que, para cuidar de forma integral do ser humano, é indispensável a conectividade dos saberes e ações dos diversos profissionais da saúde, a fim de contemplar e valorizar as múltiplas dimensões de cada ser humano envolvido(5).

Sabe-se que são os profissionais de enfermagem que disponibilizam a maior parte de seu tempo para cuidar do outro, para estar com o outro. Desse modo, uma das atividades essenciais da Enfermagem, no contexto das práticas de saúde, é o cuidado. Tal cuidado compreendido como um sistema complexo, como um fenômeno dinâmico, circular e integrador(2).

Nesse entendimento, o cuidado de enfermagem complexo é condição essencial para a compreensão do ser humano como singular e multidimensional. Este compreendido como sendo aquele cuidado que transcende as ações técnico-prescritivas, pontuais e lineares e alcança as questões que envolvem o cuidar do outro e do ambiente no qual está inserido, ao valorizar a singularidade dos seres humanos, na tentativa de discutir o cuidado de forma ampla e contextualizada, justificando a realização deste estudo.

Nessa direção, questiona-se: Qual o significado do cuidado de enfermagem na perspectiva da complexidade? Como o cuidado vem sendo discutido pelos enfermeiros docentes? Assim, objetivou-se conhecer o significado do cuidado de enfermagem para enfermeiros docentes na perspectiva da complexidade.

 

METODOLOGIA

Pesquisa exploratório-descritiva, de abordagem qualitativa, a qual é empregada como uma possibilidade de aprofundar a compreensão do fenômeno em investigação, com ênfase nos processos vivenciados e nos significados atribuídos pelos sujeitos(6). Realizada em uma instituição de ensino superior da rede particular, Centro Universitário Franciscano (UNIFRA), localizada na região central do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil.

O curso de enfermagem da UNIFRA iniciou suas atividades no ano de 1955. Possui uma carga horária total de 4.811 horas, divididas em oito semestres, funcionando em horário integral. O corpo docente é composto por 34 professores, 95% com dedicação exclusiva. O curso tem por objetivo formar enfermeiros com visão global e sistêmica, pautada em competências e habilidades técnicas-científicas e humanas, para atuarem de forma reflexiva, proativa e empreendedora nos diferentes cenários de atenção à saúde humana(2).

Os critérios de inclusão para a seleção dos participantes restringiram-se a ser docente do curso de graduação em Enfermagem da UNIFRA e ter disponibilidade e interesse em participar dos encontros do grupo focal. Para a seleção dos participantes utilizou-se a modalidade de amostragem não probabilística por conveniência. Assim, os participantes foram selecionados por meio de um sorteio, através do número de matrícula institucional e de acordo com sua presença e disponibilidade nos encontros do grupo focal. Com base nesses critérios, sete enfermeiros docentes do curso de graduação em Enfermagem da UNIFRA aceitaram participar do estudo.

Para a coleta de dados, realizada no mês de novembro de 2011, foi utilizada a técnica de grupo focal, com base no referencial(7). Optou-se por essa técnica pela sua dinamicidade, a qual proporcionou momentos de reflexão e de discussões acerca do cuidado, conforme o objetivo deste estudo. A pesquisadora atuou como coordenadora (moderadora) e outro enfermeiro, convidado para esta finalidade, como observador. Os discursos dos participantes foram registrados em gravador digital e, posteriormente, foram transcritos com fidedignidade. Consideraram-se, também, os apontamentos registrados pelo observador durante a realização dos grupos. Desenvolveram-se três encontros com o grupo focal com um tempo máximo de 1 h 30 min. em cada encontro.

Nos encontros, inicialmente, foram realizadas dinâmicas interativas, seguidas de leitura, de reflexão, discussão e de fechamentos/acordos conjuntos. Cada encontro do grupo focal foi norteado por um tema específico, fundamentado na Complexidade de Edgar Morin(1). O primeiro encontro teve como objetivos: apresentar de forma breve a biografia de Edgar Morin e discutir um texto intitulado "Complexidade e pensamento complexo"(8), por meio do qual se buscou ampliar a compreensão acerca do cuidado de enfermagem a partir da Complexidade. No segundo encontro, retomou-se a síntese do encontro anterior e discutiram-se os sete princípios da Complexidade de Edgar Morin(1), já apresentados anteriormente. No terceiro encontro, além da retomada da síntese do encontro anterior e ideias do primeiro encontro, discutiu-se amplamente o significado do cuidado de enfermagem na perspectiva da Complexidade(8).

Os dados foram analisados conforme a análise textual discursiva(6) organizada em torno dos seguintes focos: Desmontagem dos textos ou unitarização; Estabelecimento de relações, processo de categorização; Captando o novo emergente; Um processo auto-organizado. Dessa forma, a análise textual discursiva se caracteriza como um ciclo constituído pelos focos descritos acima, que se apresentam como um movimento que possibilita a emergência de novas compreensões com base na auto-organização denominada metaforicamente de "tempestade de luz", já que, emergindo do meio caótico e desordenado, tornam-se "flashes" fugazes de raios de luz, iluminando os fenômenos investigados, possibilitando, por meio de um esforço de comunicação intensa, expressar novas compreensões atingidas ao longo da análise(6). A escolha por esta análise ocorreu pela aproximação de seus focos com a complexidade.

As considerações éticas foram respeitadas, com os participantes sendo informados sobre os objetivos da investigação e sua forma de participação, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foi assegurado ainda o anonimato dos participantes, identificando-os pela letra inicial da palavra "docente" seguida de um algarismo: (D.1), e assim sucessivamente. O Projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa na Área da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande (CEPAS/FURG), pelo Parecer de nº 173/2011 e a Coordenadora do curso de graduação em Enfermagem da UNIFRA assinou um termo de autorização para a realização da pesquisa, de acordo com a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde(9).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A compreensão do cuidado de enfermagem complexo como construção singular vai além de um cuidado técnico e prescrito, pois envolve perceber o ser humano como singular, conhecer o contexto/ambiente, entender a reflexão como potencializadora do cuidado e o autoconhecimento como condição para o cuidado singular, representando a dinamicidade das múltiplas interações e associações desse cuidado.

A seguir apresentam-se as subcategorias que delimitaram a categoria Cuidado de enfermagem complexo como construção singular.

Perceber o ser humano como singular

O cuidado de enfermagem para os docentes se inicia no momento em que o enfermeiro percebe o outro como ser humano singular, como alguém que é diferente. Essa diferença não é entendida como um problema, mas como uma possibilidade de construção de um cuidado com o outro, a partir das necessidades do outro. Nessa perspectiva, compreendiam que não estarão prontos para realizar o melhor cuidado, porque esse cuidado é dinâmico e se constrói no encontro/relação com o outro, conforme os discursos a seguir:

O cuidado começa no momento em que eu percebo o outro e percebo as suas necessidades, nos diversos contextos [...] (D.5). Temos a necessidade de estarmos prontos para desenvolver o cuidado e eu penso que isso não existe, é algo que é muito dinâmico. [...] é no encontro, é no momento, que a gente vai tentar construir o melhor cuidado [...] é uma questão bem singular mesmo [...]. (D.4)

A construção do cuidado de enfermagem a partir do encontro/relação com o outro suscitou questionamentos em um dos docentes, os quais foram compartilhados com os demais integrantes do grupo:

Essa questão do pronto, como é que você pode chegar para uma aula hoje com um conceito pronto? Como é que você vai dar uma resposta pronta para o aluno? [...] Se cuidado é algo muito dinâmico, como é que você consegue trabalhar com algum conceito de cuidado pronto? (D.6)

Evidenciou-se, no discurso dos docentes, que o cuidado de enfermagem a partir de novos referenciais transcende o cuidado pontual como ato em si mesmo, perpassando, a todo momento, pela formação profissional e educação continuada. Ainda, vislumbraram que reflexões e discussões realizadas com os estudantes podem ser estratégias para se apreender o cuidado singular, devendo se iniciar nos primeiros semestres do curso de graduação. Os estudantes necessitam compreender que o cuidado de enfermagem complexo é um processo de construção singular, possibilitado por encontros/relações de troca com o outro.

É preciso, nessa perspectiva, ultrapassar as práticas tradicionais assistencialistas de cuidado de enfermagem e compreendê-lo como um fenômeno complexo(2). Entende-se, aqui, por complexo a união entre a unidade e a multiplicidade, "do que foi tecido junto", isto é, quando elementos "diferentes são inseparáveis constitutivos do todo e há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto de conhecimento e seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes e as partes entre si"(10). Assim, o cuidado passa a caracterizar-se como atitude, modo de ser, e de perceber o ser humano como um ser singular e multidimensional(11).

Nesse sentido, ao se estabelecer uma relação entre ser cuidado e ser cuidador, tanto o conhecimento, quanto o cuidar em enfermagem ampliam-se, isso porque o cuidado será constantemente (re)construído em seu processo dinâmico e transformador(12).

Um dos docentes atentou para um fato ocorrido em campo teórico-prático de estágio curricular, o qual foi percebido como sendo um cuidado de enfermagem singular centrado na realidade complexa, como se segue:

Eu estava com os alunos em uma Unidade de Terapia Intensiva e nós estávamos com uma paciente acordada, lúcida, que estava deambulando [...]. Aí um aluno me questionou: "- Nossa, ficar 24 h dentro de uma UTI olhando para o teto, por que ela não está lendo uma revista, um livro?" Então fomos conversar com a paciente e ela disse que tinha o desejo de ler e, resumindo, no outro dia, ela estava lendo um livro. (D.3)

Os docentes reconheciam que muito já se mudou em relação a algumas ações da enfermagem percebidas como lineares, as quais eram apenas reproduzidas e pouco reflexivas, mas corroboraram que estamos em um mundo de transformações e que é indispensável a constante mudança, condizente com as necessidades emergentes. Revelaram que essa mudança é um processo desafiador, mas que é imperativo o repensar de novas metodologias e estratégias de ensino/aprendizagem, atentando para o fato de que os estudantes de enfermagem são pessoas singulares e que também precisam ser cuidadas para terem a possibilidade de transcender a linearidade do cuidado.

Percebiam que o cuidado de enfermagem desenvolvido requer não somente acolher o outro como singular, mas poder perceber também o estudante como ser singular e ambos se perceberem como seres singulares, buscando acolher a unicidade na diversidade, o que demanda pensar também no contexto/ambiente dos seres humanos.

O ensino do cuidar em enfermagem deverá caminhar na perspectiva do pensamento complexo, vislumbrando o estudante como um ser singular que necessita ser cuidado para transcender o cuidado linear. Devendo ficar claro que se precisa conhecer a humanidade, o mais próximo possível da realidade, para educar e educar-nos(13). A educação deve preparar cada ser humano para compreender a si mesmo e ao outro, mediante um melhor conhecimento do mundo(14).

Um estudo realizado com o objetivo de refletir acerca do desafio no processo de ensinar-aprender o cuidado de enfermagem destacou como um caminho possível, para transcender a hiper-racionalidade hegemônica no ensino, o resgate da sensibilidade, propondo estratégias que favoreçam o reconhecimento da multidimensionalidade do ser humano, resgatando a complexidade da existência humana dos sujeitos do cuidado, assim como dos próprios estudantes, o que corrobora com o presente estudo. (15)

A compreensão humana é atingida, quando se sentem e concebem-se os humanos como sujeitos. Esse sujeito humano é complexo por natureza e definição, constituindo um cosmo em si, pois contém multiplicidade interior, ainda que o sujeito individual seja singular, este não está sozinho porque o outro e o nós moram nele(16).

Conhecer o contexto/ambiente

Os docentes compreendiam que além de perceber o ser humano como singular é imprescindível conhecer o contexto/ambiente do mesmo, buscando contextualizá-lo:

Eu não tinha essa visão que eu tenho hoje, da questão do ambiente, de interligar o paciente e o ambiente [...] muitas vezes, eu percebo assim, não adianta perceber só o paciente, porque os problemas vêm também desse ambiente. (D.1)

Além disso, acreditavam que para desenvolver um cuidado de enfermagem é necessário:

Conhecer que paisagem é essa que o sujeito que está diante de mim tem sobre a vida, sobre saúde, sobre adoecimento, sobre morte, enfim, o que ele traz sobre essas questões, porque eu também tenho a minha representação sobre essas questões. É um momento de encontro entre esse meu mundo e o mundo desse sujeito, a partir disso vamos tentar construir junto com ele o melhor cuidado, que seja para ele e não para mim. (D.4)

Compreendiam que:

O cuidado deve se basear no contexto biopsicossocial do ser humano para ser pensado, desenvolvido, repensado e reavaliado a fim de ser efetivo [...](D.3). Se tu consegues ver o contexto, a condição socioeconômica, o ambiente, as partes que são essas, tu vai conseguir ver melhor o indivíduo e isso também faz parte do nosso cuidado, considerar esses determinantes de saúde. (D.2)

Ao destacarem a necessidade de conhecer o contexto/ambiente do ser humano, os docentes entenderam que a partir dessa situação conseguem compreender melhor esse ser humano, abrangendo as suas múltiplas dimensões e, dessa forma, promover um cuidado dinâmico, circular e reflexivo.

A complexidade tem a tarefa de ligar tudo o que está disjunto, é a construção de um conhecimento multidimensional, que valoriza o pensamento complexo do religar em detrimento do pensamento simplista e reducionista. É um pensamento capaz de considerar todas as influências: interna e externas(1).

O conhecimento pertinente é aquele capaz de situar qualquer informação em seu contexto e, se possível, no conjunto em que está inscrita. Pode-se dizer que o conhecimento progride pela capacidade de contextualizar e englobar(1). Portanto, o cuidado de enfermagem, ao perceber o ser humano como singular e ao buscar contextualizá-lo em seu ambiente, amplia o seu conhecimento, oportunizando um cuidado singular e multidimensional, conforme as necessidades do outro no seu contexto real e complexo.

Entender a reflexão como potencializadora do cuidado

Os docentes acreditavam que a reflexão potencializa o cuidado, assim como o cuidado retroalimenta a reflexão, a partir de um movimento circular e dinâmico. Nessa perspectiva, faz-se mister discutir sobre as questões que permeiam o ensino/aprendizagem, visto que os docentes não desvinculam o cuidado de enfermagem do processo de formação.

Entendiam que o ensino/aprendizagem é um processo inacabado, é uma construção que envolve desconstrução e reconstrução, e que já conseguem visualizar mudanças de atitudes e de comportamentos em alguns estudantes ao realizarem comparativos do "ontem" e do "hoje":

Hoje nós estamos conseguindo fazer com que o aluno pense e repense a prática [...] Os alunos estão questionando e muitos deles já não estão aceitando conceitos prontos, eles já estão criando os próprios conceitos a partir da realidade que eles têm. O que é escrito no livro de modo só biologicista já não está sendo tão bem aceito quanto a alguns anos atrás. (D.3)

No entanto, os docentes revelaram que ainda hoje o aluno "aprende" a pensar de forma fragmentada, "aprende" a cuidar de maneira descontextualizada, provocando ações e reproduções de cuidados desprovidos de reflexão, o que acaba por desconsiderar a singularidade e a pluralidade humanas.

Os docentes corroboraram que para desenvolver ensino/aprendizagem é essencial a criação de estratégias conforme as demandas dos estudantes envolvidos, e que, além disso, é imperativo que os docentes tenham um referencial teórico que possibilite ampliar sua maneira de ser e fazer. A busca por esses referenciais deve ser instigada também nos estudantes, para que percebam que a reflexão é necessária para potencializar o cuidado de enfermagem.

Assim, criam-se possibilidades não só de reflexões, mas de mudanças nos campos teórico-práticos da enfermagem, destacando que a função da Universidade é complexa e exige constante reflexão, e, por vezes, o desenvolvimento de mudanças dentro dos cenários de estágio curricular, local de atuação dos estudantes e dos docentes.

Nós, como docentes responsáveis pelo ensino do cuidado, por estimular esse processo de alguma forma, por trazer estratégias, e aí eu me questiono, será que estamos efetivando algumas estratégias? Porque seria bom chegar até esse enfermeiro [responsável pelo local onde se realizam estágios curriculares] e tentar envolvê-lo nas ações de ensino. Sei que é muito desafiador, mas penso que chegou um momento que não temos mais como irmos até o campo [teórico-prático de estágio curricular], levarmos o aluno para atuar, observar e não se envolver com esse enfermeiro que está lá, e que como a gente também participa do ensino. (D.7)

Os docentes compreendiam que pouco adianta estarem em campos teórico-práticos de estágios curriculares apenas como um grupo de estudantes universitários desarticulados dos demais profissionais atuantes no local, entendendo como indispensável a articulação desses, para possíveis mudanças.

É imprescindível desenvolver um pensamento complexo capaz de ampliar a autonomia pensante e a reflexão consciente dos seres humanos, no sentido de construírem-se e terem a possibilidade de vislumbrar os próprios buracos negros por meio da dialógica entre teoria e prática(10). Nessa perspectiva, é indispensável propiciar uma ambiência de reflexão para ampliar tanto o cuidar, como o ensino deste, pautado na atenção singular a cada ser humano, visando sua autonomia e seu bem-estar(16).

A constante reflexão da prática deve ser estimulada durante todo o curso de graduação em enfermagem, no intuito de graduar enfermeiros críticos e reflexivos, capazes de cuidar de forma contextualizada, valorizando dimensões objetivas e subjetivas(17). Assim, a autonomia e a responsabilidade de um profissional dependem de uma grande capacidade de refletir em e sobre sua ação. (18)

Como demonstrado nos resultados deste estudo, além da reflexão são importantes a articulação e interação dos estudantes de enfermagem e dos docentes em campos de estágio curricular com os demais profissionais atuantes nesses cenários de cuidados de enfermagem e saúde, para que se processem possíveis mudanças. Um exemplo dessa articulação é o desenvolvimento de ações de saúde conjuntamente com as Unidades Básicas de Saúde (UBS), nas quais os estudantes de enfermagem e os docentes da UNIFRA acompanham as famílias da comunidade e retornam com as informações de saúde para as UBS, conversando e buscando criar estratégias com a equipe de saúde para resolver os problemas encontrados.

Nesse sentido, um estudo realizado com o intuito de compreender a vivência dos docentes de enfermagem junto aos estudantes de enfermagem, nos campos de prática clínica, demonstrou que a integração docente/assistencial é elemento construtivo e facilitador do processo ensino/aprendizagem, buscando a formação de profissionais da enfermagem que incorporem, na sua atuação, as bases de cuidado autêntico(19).

A integração docente/assistencial pode ser compreendida como o desenvolvimento de um trabalho conjunto, no qual o docente não permanece isolado com o grupo de estágio curricular em uma determinada unidade. É preciso que esse docente articule o trabalho da equipe de saúde do local com o trabalho dos estudantes de enfermagem, promovendo o diálogo e a realização de mudanças conforme as necessidades vivenciadas.

Reconhecer o autoconhecimento como condição para o cuidado singular

No entendimento dos docentes o autoconhecimento é um elemento necessário para a construção do cuidado singular:

Não podemos esquecer que para eu conhecer o outro eu preciso me conhecer. Na área da saúde, em especial na enfermagem, deveria ser trabalhado de alguma forma o autoconhecimento, se eu não buscar me conhecer, eu não vou ter possibilidades de conhecer o outro [...] só posso cuidar do outro a partir do momento que conheço o outro e para isso está implícito que primeiro eu tenho que me conhecer. (D.5)

Um dos participantes questionou o grupo:

Como é que eu vou conhecer alguém da minha equipe ou algum estudante se eu não me conheço? (D.6).

Esse questionamento fez com que o grupo refletisse e revelasse que o autoconhecimento é emergente, mas que se constituiu em um grande desafio, visto que não estão preparados para perceber e enfrentar suas limitações e dificuldades frente à vida. Destacaram que como docentes precisam do autoconhecimento para criar possibilidades de ensinar/aprender esse autoconhecimento aos estudantes a fim de propiciarem o cuidado singular.

Faz-se premente, cada vez mais, repensar o ser humano articulado ao mundo. Mais do que isso, é imperativo que profissionais de saúde, especialmente os enfermeiros, repensem sua compreensão de mundo, de ser humano, de cuidado ao ser humano e das questões que envolvem seu autoconhecimento como potencializador de novos saberes(2). Contudo, esses aspectos precisam ser discutidos no decorrer do processo de formação do enfermeiro, pois os estudantes de enfermagem, ao serem compreendidos como seres humanos, nas suas múltiplas dimensões, poderão adquirir habilidades e competências para o cuidado de si e do outro(17).

Ao reconhecer o estudante de enfermagem como ser humano singular, possibilitando a ele reconhecer-se a si mesmo para oportunizar o conhecer o outro, no intuito de desenvolver com o outro um cuidado singular e efetivo, é necessário criar estratégias para o desenvolvimento desses futuros enfermeiros, para que sejam capazes de investir no seu autoconhecimento, sendo criativos e com conhecimentos diversificados frente ao ser humano e ao mundo(20).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta pesquisa foi possível conhecer o significado do cuidado de enfermagem para enfermeiros docentes, na perspectiva da complexidade, o qual se caracterizou como construção singular que vai além de um cuidado técnico-prescritivo, pontual e linear. Assim, o cuidado de enfermagem não pode ser concebido como ação reducionista, mas como construção singular, que envolve interações, reflexões e autoconhecimento.

Os participantes revelaram que é possível e necessário ampliar o cuidado de enfermagem, revelando que práticas anteriormente carentes de reflexão estão se modificando na medida em que a reflexão torna-se cada vez mais presente.

Além disso, destacaram como estratégias sinalizadoras para a construção de um cuidado de enfermagem ampliado a relação docente/estudante, já que entendem que para ensinar/aprender o cuidado é imprescindível cuidar também do estudante e que a constante ação-reflexão-ação é fundamental nos diversos cenários de atenção à saúde humana.

Esta pesquisa apresenta limitações no que diz respeito ao número de participantes. Como contribuição desta pesquisa à Enfermagem, espera-se sensibilizar e mobilizar os enfermeiros docentes e os estudantes de enfermagem para a importância de se (re)pensar as questões que envolvem o cuidado a partir da complexidade, fortalecendo o ser e fazer Enfermagem numa perspectiva ampliada, interdependente e complementar. Sugere-se que outras investigações continuem abordando esta temática.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço do autor:
Diéssica Roggia Piexak
Rua Vinte e Quatro de Maio, 264, ap. 05, Centro
96200-003, Rio Grande, RS
E-mail: diessicap@yahoo.com.br

Recebido em: 26.07.2012
Aprovado em: 25.04.2013

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