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Revista Gaúcha de Enfermagem

versão On-line ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.34 no.3 Porto Alegre set. 2013

https://doi.org/10.1590/S1983-14472013000300012 

ARTIGO ORIGINAL

 

O cotidiano do homem que convive com a úlcera venosa crônica: estudo fenomenológicoª

 

La vida cotidiana de hombre que vive con la úlcera venosa crónica: un estudio fenomenológico

 

 

Marcelo Henrique da SilvaI; Maria Cristina Pinto de JesusII; Miriam Aparecida Barbosa MerighiIII; Deise Moura de OliveiraIV; Priscilla Ribeiro BiscottoV; Greyce Pollyne Santos SilvaVI

IEnfermeiro da Secretaria de Saúde de Juiz de Fora. Doutorando em Ciências pela EEUSP, São Paulo, SP, Brasil
IIProfessora Associada do Departamento de Enfermagem Básica da Universidade Federal de Juiz de Fora. Doutora em Enfermagem pela EEUSP, São Paulo, SP, Brasil
IIIProfessora Titular do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Psiquiátrica da EEUSP. Doutora em Enfermagem, São Paulo, SP, Brasil
IVProfessora do Departamento de Medicina e Enfermagem da Universidade Federal de Viçosa. Doutora em Ciências pela EEUSP, SP, Brasil
VEnfermeira. Membro do Grupo de Pesquisa em Enfermagem com Abordagens Fenomenológicas da EEUSP, São Paulo, SP, Brasil
VIEnfermeira. Mestre em Ciências pela EEUSP. Membro do Grupo de Pesquisa em Enfermagem com Abordagens Fenomenológicas. São Paulo, SP, Brasil

Endereço do autor

 

 


RESUMO

A úlcera venosa crônica constitui o maior problema terapêutico das lesões de membros inferiores, podendo desencadear mudanças na vida diária da pessoa por ela acometida. Objetivou-se compreender o cotidiano do homem que convive com a úlcera venosa crônica. Estudo fenomenológico realizado com oito homens, entrevistados em junho e julho de 2012. As categorias identificadas, "Restrições na vida social" e "Recuperar a integridade da pele e retomar as atividades afetadas pela ferida", revelam que a convivência do homem com a ferida produz repercussões no âmbito produtivo e na sexualidade. Isso o leva a restrições na vida cotidiana, com prejuízo no desempenho de papéis socialmente estabelecidos para o gênero masculino, o que desperta no homem a ansiedade pela retomada das atividades prejudicadas. Os achados sinalizam aspectos vivenciais relevantes que podem orientar os profissionais no planejamento e execução de ações de saúde voltadas para essa clientela.

Descritores: Úlcera varicosa. Enfermagem. Pesquisa qualitativa.


RESUMEN

La úlcera venosa crónica de la pierna es el principal problema terapéutico de lesiones de las extremidades inferiores, lo que puede provocar cambios en la vida cotidiana de la persona afectada por ella. Este estudio tuvo como objetivo comprender la vida cotidiana del hombre que vive con úlceras venosas crónicas. Un estudio fenomenológico se llevó a cabo con ocho hombres, que fueron entrevistados durante junio y julio de 2012. Las categorías de "Restricciones en la vida social" y "Reanudar las actividades afectadas por la herida" revelan que la coexistencia del hombre con la herida produce consecuencias sociales en el contexto de las actividades laborales y la sexualidad. Esto da lugar a restricciones en la vida cotidiana, una pérdida en el rendimiento de los roles socialmente establecidas para los hombres, lo que lleva a diseñar el pleno cumplimiento de su función social. Estos hallazgos sugieren importantes aspectos experienciales que pueden orientar a los profesionales en la planificación y ejecución de acciones de salud dirigidos a tratar a estos pacientes.

Descriptores: Úlcera varicosa. Enfermería. Investigación cualitativa.


ABSTRACT

The chronic venous leg ulcer is the major therapeutic problem of lower limb injuries, which can trigger changes in the daily life of the person affected by it. This study aimed to understand the daily life of men who lives with chronic venous ulcers. A phenomenological study was conducted with eight men, who were interviewed during June and July of 2012. The study asked questions related to: "Restrictions in social life" and "Recovering the skin integrity and restart the activities affected by the wound". The answers revealed that men with these ulcers have social implications in the areas of productivity and sexuality. This leads to restrictions in everyday life with loss in performance of socially established roles for men, leading to anxiety for his return at full performance of his social role. The findings suggest significant experiential aspects that may guide professionals in the planning and implementation of health actions aimed to treat these patients.

Descriptors: Varicose ulcer. Nursing. Qualitative research.


 

 

INTRODUÇÃO

A úlcera venosa crônica (UVC) constitui o maior problema terapêutico das lesões de membros inferiores. Estima-se que um por cento das pessoas dos países industrializados sofrerão de uma úlcera de perna em algum momento da vida(1). A ocorrência desse tipo de ferida pode desencadear dificuldades no tocante ao autocuidado e ao convívio social da pessoa que, a partir da doença, tem necessidade de alterar seu dia-a-dia, o que traz reflexos negativos na qualidade de vida(2).

Surge, portanto a necessidade de as pessoas com UVC adaptarem-se a uma nova condição de vida, o que pode comprometer seu bem estar mental, físico e social. Assim, a presença da lesão, ocasiona a necessidade de revisão de valores, de obtenção de conhecimentos científicos e práticos sobre a enfermidade, de adaptação ao tratamento, além do enfrentamento da sociedade(3).

No que diz respeito ao homem, sabe-se que os padrões sociais de construção da imagem masculina estão pautados em um corpo saudável, forte, apto para os papéis socialmente construídos de trabalhador, chefe de família, sexualmente ativo e com uma ideia projetada para seus contemporâneos de um homem que não se deixa abater por doenças(4).

A ferida modifica o padrão da imagem do homem no mundo social, alterando seu modo de viver e de se relacionar. Assim, a imagem corporal projetada pelo social e a percepção que o homem tem de si poderão, quando discordantes do padrão socialmente estabelecido, culminar em sentimentos negativos, tais como, baixa autoestima, depressão e ansiedade, levando-o ao isolamento social(5).

O impacto biopsicossocial decorrente da presença UVC na vida da pessoa exige por parte da equipe de saúde uma visão integral e um cuidado diferenciado, considerando as necessidades de cada sujeito. Isto pode trazer impactos positivos na qualidade de vida, na adesão ao tratamento, no tempo de cicatrização e na redução dos gastos públicos(6).

Uma revisão da literatura que se propôs analisar a produção científica da Enfermagem na temática saúde do homem no contexto da Atenção Primária à Saúde evidenciou que esta se ampara emblematicamente sob a perspectiva coletiva da atenção à saúde, não se atentando para a experiência pessoal do homem no processo saúde-doença(7).

A experiência profissional de um dos autores possibilita uma observação empírica da prática no que tange às pessoas com UVC. Apesar de a ocorrência desta afecção ser prevalente entre as mulheres evidencia-se que a população masculina, quando acometida por este tipo de lesão, não apresenta uma busca expressiva pelos serviços de saúde como o público feminino, repercutindo muitas vezes em um desconhecimento dos profissionais de saúde no que tange ao modo como o homem com UVC convive com a lesão e provê o seu autocuidado. Considerando o comprometimento da qualidade de vida provocado pela presença da UVC, evidencia-se a importância de conhecer como o homem convive com esta afecção. As seguintes questões nortearam a presente pesquisa: como é o cotidiano do homem que convive com a UVC? Quais as expectativas que apresenta, considerando sua convivência com a ferida?

Este estudo objetivou compreender o cotidiano do homem que convive com a úlcera venosa crônica. Tal compreensão desdobrar-se-á no reconhecimento dos aspectos intersubjetivos inscritos na convivência do homem com a UVC, podendo sinalizar ações de saúde que busquem atender integralmente esse grupo social.

Ademais, compreender a realidade singular que permeia o cotidiano do homem com UVC possibilitará a emersão do contexto sociocultural em que se inscreve o seu processo de saúde e adoecimento. Tal compreensão apresenta consonância com a proposta da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, que propõe que as ações de saúde voltadas para essa clientela considerem o contexto de vida no qual este sujeito está inserido(8).

Os estudos atuais publicados sobre essa temática, neste periódico e em outros de abrangência internacional, trazem evidências científicas focadas no tratamento da UVC com ênfase na terapia compressiva(3,9-10). Observa-se uma lacuna no conhecimento acerca das implicações da UVC no cotidiano do homem, revestindo-se este estudo em uma importante contribuição sobre o tema no cenário científico.

 

MÉTODO

Pesquisa qualitativa com fundamentação teórico-metodológica na fenomenologia social de Alfred Schütz, que tem como cerne a teoria da ação social entendida como precursora das mudanças ocorridas no mundo cotidiano. A ação acontece baseada em motivos existenciais ligadas ao passado e ao presente vivido (motivos porque), bem como às projeções relacionadas à vivência em pauta, que se constituem no cerne da possibilidade da ação propriamente dita (motivos para)(11).

A opção pela fenomenologia social de Alfred Schütz se deu por esta possibilitar a adoção de uma sistemática de investigação que garante melhor compreensão da subjetividade inscrita na ação humana, tomando como perspectiva de análise o contexto social, no qual o homem age, interage e expressa-se na cotidianeidade, revelando neste âmbito as suas experiências vividas no mundo social. Desse modo, a compreensão das diversas práticas interpretativas, por meio das quais a realidade é construída, é expressa por ações socialmente vividas, tanto no nível individual como no coletivo(11). Assim, o significado atribuído às experiências e expectativas dos homens em relação ao convívio com a UVC, embora seja construído individualmente por esses homens – em um contexto subjetivo de significação – se reveste de sentido no universo intersubjetivo, configurando um sentido social.

Este estudo foi realizado em quatro UBSs de um município da Zona da Mata Mineira. Estas se constituem em cenários de prática da instituição de ensino à qual os pesquisadores são vinculados, o que viabilizou o acesso aos depoentes. Para contatar os homens que participaram da pesquisa, recorreu-se, primeiramente, aos enfermeiros e agentes comunitários de saúde, que, por meio do cadastro dos usuários na área de abrangência das UBSs, propiciaram o encontro dos sujeitos com os pesquisadores.

Foram incluídos homens acometidos por UVC, independentemente da idade e da condição social e excluídos aqueles que não apresentaram condições físicas e psíquicas para responder às questões da pesquisa.

A obtenção dos dados foi realizada em junho e julho de 2012, utilizando-se a entrevista gravada com as seguintes questões abertas: fale-me do seu dia a dia após o surgimento da úlcera venosa. Conte-me das suas expectativas em relação a sua vida, considerando que possui uma úlcera de perna.

Participaram do estudo oito homens cujas entrevistas foram realizadas nas dependências das unidades ou no domicílio dos usuários, em dias e horários definidos pelos participantes do estudo. A coleta de dados foi encerrada quando as inquietações foram respondidas e os objetivos alcançados. Os homens que concordaram em participar receberam as informações sobre a pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Para garantir o anonimato foram identificados com a letra "H", seguida de números arábicos de 1 a 8.

A organização e a categorização do material foram realizadas conforme os passos adotados por pesquisadores da fenomenologia social de Alfred Schütz(12): leituras atentas e criteriosas de cada depoimento na íntegra, com vistas à identificação e apreensão do sentido global da experiência do homem no que tange ao seu cotidiano com UVC Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora, sob o Parecer nº. 226/2009.

 

RESULTADOS

As características biográficas dos oito homens do estudo incluíram: idade entre 40 e 81 anos; ensino fundamental incompleto; dois solteiros, um casado e cinco viúvos. Três residiam com familiares, dois com a esposa e os demais sozinhos. Sete eram aposentados e um afastado do trabalho em virtude da UVC. Conviviam com a ferida de seis a 30 anos, apresentando um histórico de, pelo menos, dois ciclos de cicatrização e recidiva da lesão. Três frequentavam assiduamente a unidade de saúde para tratamento da UVC e os demais referiram cuidar da mesma no domicílio.

Os conteúdos significativos dos depoimentos permitiram compor as categorias referentes ao cotidiano do homem com UVC. A categoria "Restrições na vida social" expressa os aspectos vivenciados no presente e passado (motivos porque) e a categoria "Recuperar a integridade da pele e retomar as atividades afetadas pela ferida" evoca suas expectativas (motivos para), tendo em vista a existência da lesão em sua vida.

Restrições na vida social

O cotidiano do homem que convive com a UVC é demarcado por características que exteriorizam a sua condição de saúde. Sua imagem corporal altera-se em decorrência da lesão, afetando a autoimagem e a percepção que o outro tem em relação a ele. Somado a isso se evidencia a ocorrência da dor e do odor provenientes da ferida, que trazem reflexos na socialização do homem:

[...] na minha vida, eu não coloco um short, uma bermuda. Você vai ter que explicar o que tem na perna e, muitas vezes, a pessoa não entende [...] uma vez, fui a uma loja e me falaram que parecia que tinha algo morto lá. O odor estava muito forte [...] foi muito difícil (H8).

Essa ferida dói muito. Minha irmã me chama para almoçar na casa dela aos domingos, mas nem dá vontade de ir. Para sair, tem que tomar comprimido para dor (H3).

Tendo em vista os sinais e sintomas decorrentes da lesão, o homem se vê limitado para realizar atividades cotidianas. Nesse sentido, apresenta restrições na sua vida social referentes ao trabalho, ao lazer e aos estudos:

Acho ruim ficar parado, mas não posso trabalhar por causa da poeira, que prejudica a ferida (H6).

Não posso fazer uma viagem, me divertir. Se um colega me chamar para pescar, como vou? Não tenho condições. Essa ferida atrapalha muito (H3).

Eu ia fazer o curso de Direito [...] gosto de estudar. Parei porque essa ferida me atrapalhou [...] (H8).

Antes eu participava da associação de bairro [...]. Organizava jogos para arrecadar fundos para a comunidade. Por conta da ferida, eu tive que parar [...] (H7).

Outro aspecto ressaltado pelo homem no que diz respeito às limitações vivenciadas refere-se à sua sexualidade, cujo exercício é afetado em decorrência da presença da UVC:

Essa ferida atrapalha até para eu arrumar uma companheira. Quantas eu já trouxe aqui em casa, mas, depois que veem a perna, não voltam mais. Elas me convidam para tomar um banho. Eu falo que não [...] tenho que tomar banho escondido. Faço o curativo sem elas verem. É muito triste [...] a gente é obrigado a ficar sozinho (H3).

É difícil ser homem e ter essa ferida. Mulher nenhuma quer assumir uma responsabilidade dessas. É só trabalho que dou. Tenho que ficar sozinho mesmo, é melhor para mim e para os outros (H4).

Casar eu não quis. Já estou casado com a minha perna. Meu dinheiro vai todo para cuidar dela [perna]. Quase 30 anos de casado (H5).

Recuperar a integridade da pele e retomar as atividades

Ao refletir sobre os limites impostos ao seu cotidiano pela presença da UVC, o homem tem como expectativa recuperar a integridade da sua pele, o que lhe possibilitará a retomada de suas atividades no âmbito social:

Eu espero ficar bom para voltar às minhas atividades. Gosto de participar do trabalho na igreja. Se Deus quiser, eu vou participar agora da festa de Nossa Senhora da Glória, a padroeira do meu bairro (H1).

Ah![...] tenho vontade de ver a ferida fechada. [...] de conseguir arrumar uma namorada. De voltar a trabalhar, de tomar uma cervejinha com meus amigos (H2).

Essa ferida vai sarar e ano que vem eu vou tentar fazer o curso de Direito. Pode levar tempo, mas eu vou tentar fazer [...] (H8).

 

DISCUSSÃO

O cuidado a saúde de pessoas com feridas é um problema de grandes dimensões que representa um desafio a ser enfrentado cotidianamente por aqueles que as assistem(13). Em se tratando de homens com UVC, os profissionais de saúde devem considerar as especificidades do dia-a-dia masculino ao propor a assistência a essa clientela.

Tal atenção diferenciada é sinalizada pela política de saúde vigente voltada para o homem, que versa sobre a necessidade de os profissionais de saúde se coresponsabilizarem pelo cuidado à população masculina, em especial diante das enfermidades que acometem o homem em seu cotidiano pessoal, familiar e comunitário(8).

A presença da UVC é percebida pelo homem como algo capaz de alterar o seu cotidiano, provocando interferências na sua vida pessoal, relacional e profissional. As limitações percebidas nas atividades da vida diária remetem à perda de liberdade, que implica restrição na vida social, incluindo a não participação em eventos sociais, viagens, e a imposição do uso de determinadas peças do vestuário. Isso produz repercussões na esfera psicoemocional, refletindo na autoimagem e autoestima do sujeito com UVC e impactando no modo de se relacionar com os outros(14).

Tal impacto reveste-se de grande sentido para o homem, entendido como um ser que se constrói com o outro, alocando-se no universo intersubjetivo o cerne dos significados e sentidos que atribui às experiências vivenciadas. Assim, a vinculação das pessoas em diferentes relações sociais, por meio da qual se compreendem e são compreendidas pressupõe a intersubjetividade(11). Para Schütz, o mundo social é cultural e intersubjetivo, uma vez os homens convivem e coexistem entre si, não só de maneira corporal e entre objetos, mas também como seres dotados de uma consciência que é essencialmente similar(11).

Ao colocar em pauta o gênero masculino, percebe-se que as evidências da presente investigação, no tocante às alterações cotidianas desencadeadas pela presença da UVC, são congruentes ao que se constata em outras pesquisas que envolvem a temática(15-16). Estudo realizado em Natal com 50 pessoas com UVC apontou que 82% destas apresentavam dor e alteração na locomoção, dificultando a realização de atividades no campo social, de lazer e escolar(3).

Em se tratando do público masculino, os resultados do presente estudo chamam a atenção para os aspectos relacionados ao ambiente produtivo do homem, que extrapolam o domicílio e ganham legitimidade nas atividades laborais/relacionais, onde desempenha o seu papel social.

As limitações impostas ao cotidiano do homem com UVC permeiam o seu mundo cultural – que o orienta para o desempenho do seu papel social – e intersubjetivo – no qual se inscreve o seu contexto de relações significativas. Isso implica dizer que padrões culturalmente concebidos pela sociedade denotam uma consciência similar de adequação ou inadequação do papel social do homem, construído e retroalimentado cotidianamente na intersubjetividade das relações.

Desse modo, a restrição no âmbito do lazer, do trabalho e do estudo, evidenciada pelo homem com UVC, é percebida como um prejuízo significativo, dada a importância que a preservação de tais atividades assume na vida desse homem.

Estudo que analisou a percepção do homem no cuidado com a sua própria saúde apontou que este tem receio ou medo de relatar no trabalho sua situação de enfermidade, em especial se de natureza crônica. Tal fato atrelou-se à possibilidade de a doença vir a retirá-lo do mercado de trabalho, o que implicaria em destituí-lo do papel produtivo e de provedor que assume na sociedade(17).

Um estudo realizado em Bandeirantes, Paraná mostrou que o trabalho interfere diretamente na qualidade de vida das pessoas que convivem com a úlcera venosa de perna(13). Desse modo, a restrição nas atividades profissionais apontada pelos depoentes deste estudo merece ser destacada, uma vez que pode provocar uma mudança na sua inserção na sociedade, rompendo uma situação biográfica até então estabelecida(18).

Isso é relevante para o homem, uma vez tal rompimento prediz uma necessidade de se reestruturar-se, considerando o reconhecimento da sua própria situação atual no mundo social, constituída de uma história sedimentada por todas as suas experiências subjetivas prévias que não são anônimas, mas sim exclusivas e subjetivamente pertencentes a ele(11).

O reconhecimento e a respeitabilidade social do homem são construídos por meio do trabalho, o que o faz ter condutas e atitudes no mundo social(4). A esse respeito reitera-se que o acervo de conhecimentos e o modo como o sujeito está situado no contexto das relações sociais define o motivo da ação, entendida como a conduta humana por ele projetada de modo consciente e intencional(11).

O modo como o homem se volta para o mundo produtivo (do trabalho e do estudo), do lazer e o relacional traduz a sua intencionalidade, isto é, como a sua consciência reage frente ao que lhe é apresentado como realidade social.

Nesse sentido, emerge a sexualidade, uma questão considerada pelo homem como importante e que se encontra afetada em decorrência da UVC. Este resultado é corroborado em outros estudos, que apontam ser a ferida crônica causadora da diminuição da atividade sexual, culminando em baixa autoestima, falta de autoaceitação, bem como a aceitação da parceira(15,19). As mudanças na vida sexual das pessoas com feridas crônicas não se limitam à ausência de sexo, estendendo-se à rejeição e ao abandono por parte do parceiro, o que pode levar ao isolamento afetivo, por não mais acreditarem no sucesso de uma relação conjugal(15).

Isso merece ser destacado no presente estudo, uma vez que para que este aspecto da vida seja vivenciado de modo livre e pleno o homem tem de se colocar em interação com o outro, emanando nesta relação a dimensão da sexualidade. Isso pressupõe que se encontra no universo cultural e intersubjetivo o bojo de tal dimensão, estando estes universos passando por um processo de ressignificação pelo homem, devido à UVC. Nesse contexto, cabe-lhe voltar-se intencionalmente para a projeção de ações, as quais são incompatíveis de serem concretizadas no presente, considerando a sua atual situação biográfica (estar acometido por uma UVC).

Schütz afirma que o sujeito ao projetar a ação (expectativas), antecipa o ato como se tivesse sido cumprido, sendo que as possibilidades de realizá-los estão diretamente ligadas aos elementos do tempo presente, ou seja, a situação biográfica e o acervo de conhecimentos disponíveis no momento da projeção(11).

Em se tratando das expectativas que o homem com UVC possui, evidencia-se que essas se ancoram nos limites inscritos na sua vida cotidiana. O processo de cura da lesão é traduzido no presente estudo como possibilidade de vencer as restrições vivenciadas em decorrência da ferida, com vistas à retomada das atividades até então prejudicadas (motivos para).

Uma revisão sistemática reitera tal achado, ao afirmar que a cura da úlcera de perna é percebida como precursora da melhoria da qualidade de vida da pessoa, permitindo o resgate das atividades interrompidas pelo acometimento da lesão e o almejado convívio social(16).

Desse modo, a necessidade de uma melhor qualidade de vida leva o indivíduo a buscar estratégias de enfrentamento a fim de resgatar a sua integridade física e mental, construída ao longo da vida. Associada à qualidade de vida destaca-se o papel da imagem corporal, que sinaliza a situação de equilíbrio ou desequilíbrio interno na interação do homem com o mundo, influenciando sobremaneira no desenvolvimento de suas habilidades e na sua identidade social (20).

Evidencia-se que a experiência do homem com UVC evoca aspectos singulares de gênero e saúde que merecem ser considerados pelos profissionais, com destaque para o enfermeiro, que tem se debruçado expressivamente sob o cuidado às pessoas com feridas.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A convivência do homem com a UVC produz implicações sociais no âmbito produtivo e na sexualidade, o que o leva a restrições na vida cotidiana, com prejuízo no desempenho de papéis socialmente estabelecidos para o homem. Tal situação lhe causa ansiedade para retomar as atividades prejudicadas.

As abordagens referentes ao trabalho e a sexualidade precisam ser contempladas pela equipe multiprofissional que atua no cuidado ao homem com UVC, dada a valorização destes aspectos pelos sujeitos deste estudo.

A complexidade da vida do homem que convive com uma ferida crônica requer do profissional de enfermagem um maior envolvimento no processo terapêutico, o que lhe permitirá acessar os sentimentos evocados pelo sujeito e consequentemente o seu espectro de ação ao assisti-lo, considerando os aspectos biopsicossociais inscritos no processo saúde-doença.

Esta investigação propôs estudar a vivência de um determinado grupo de homens, situado em um dado contexto sócio-histórico-cultural, o que impede a generalização dos resultados. No entanto, os achados supracitados sinalizam aspectos vivenciais relevantes circunscritos ao cotidiano do homem com UVC, os quais devem ser considerados pelos profissionais no planejamento e execução das ações de saúde voltadas para essa clientela. Espera-se que os achados do presente estudo se desdobrem em iniciativas no âmbito da micropolítica do processo de trabalho em saúde, com vistas ao acolhimento e melhoria de acesso do homem às ações de saúde voltadas ao cuidado da UVC, bem como às orientações relacionadas à promoção do autocuidado dessa clientela, a fim de que a convivência com a lesão não se prolongue por muito tempo e que, desse modo, não traga tantas implicações à sua vida.

Sugerem-se novas investigações que possam apresentar outras perspectivas do fenômeno estudado, a fim de melhor elucidá-lo.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço do autor
Marcelo Henrique da Silva
Unidade de Atenção Primária à Saúde de Jardim Esperança
Rua Padre João Micheleto, 35, Jardim Esperança
36072-270, Juiz de Fora, MG
E-mail: marcelohenfermar@gmail.com

Recebido em: 22.04.2013
Aprovado em: 11.09.2013

 

 

a Estudo realizado no Grupo de Pesquisa em Enfermagem com Abordagens Fenomenológicas, da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP).

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