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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.35 no.2 Porto Alegre June 2014

https://doi.org/10.1590/1983-1447.2014.02.25736 

Artigos Originais

Discursos sobre os modelos de enfermagem e de enfermeira psiquiátrica nos Annaes de Enfermagem (1933-1951)

Michelle de Macedo Pereira a  

Maria Itayra Padilha b  

Alexandre Barbosa de Oliveira c  

Tânia Cristina Franco Santos d  

Antonio José de Almeida Filho e  

Maria Angélica de Almeida Peres f  

aEnfermeira. Membro do Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira (Nuphebras). Rio de Janeiro/RJ, Brasil

bEnfermeira. Pós-Doutora em Enfermagem. Docente do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Lider do Grupo de Estudos do Conhecimento em Enfermagem e Saúde (GEHCES). Pesquisadora do CNPq. Florianópolis/ SC, Brasil

cEnfermeiro. Doutor em Enfermagem. Professor Adjunto da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EEAN/UFRJ). Membro do Nuphebras. Rio de Janeiro/RJ, Brasil

dEnfermeira. Pós-Doutora em Enfermagem. Professor Associado da EEAN/ UFRJ. Membro do Nuphebras. Pesquisadora do CNPq. Rio de Janeiro/RJ, Brasil

eEnfermeiro. Doutor em Enfermagem. Professor Associado da EEAN/UFRJ. Membro do Nuphebras. Rio de Janeiro/RJ, Brasil

fEnfermeira. Pós-Doutora em Enfermagem. Professor Adjunto da EEAN/UFRJ. Membro do Nuphebras e do GEHCES. Coordenadora Acadêmica do Centro de Documentação da EEAN/UFRJ. Rio de Janeiro/RJ, Brasil


RESUMO

Estudo histórico-social que objetivou discutir os modelos de enfermagem e de enfermeira psiquiátrica, a partir dos discursos publicados nos Annaes de Enfermagem. As fontes históricas foram artigos publicados na revista Annaes de Enfermagem, de 1933 a 1951. Foi utilizada a análise do discurso subsidiada pela genealogia do poder de Michel Foucault. A análise evidenciou que o discurso sobre a enfermagem e a enfermeira psiquiátrica na primeira metade do século XX, se configurou, de um lado, por proposições que foram utilizadas por médicos psiquiatras, que visavam reiterar vocações e estereótipos para a prática da enfermagem, e, de outro lado, pela participação ativa de enfermeiras que buscavam legitimar um saber especializado para a enfermagem psiquiátrica. Concluiu-se que os discursos analisados definiram um modelo de assistência psiquiátrica voltado para a enfermeira e não para os demais trabalhadores de enfermagem à época.

Palavras-Chave: Enfermagem; História da enfermagem; Enfermagem psiquiátrica

ABSTRACT

Social-historical study aimed at discussing the nursing and psychiatric nurse models, from the discourses published in the Annals of Nursing. The historical sources were articles published in the Annals of Nursing journal, from 1933 to 1951. An analysis of the discourse was subsidized by the genealogy of power by Michel Foucault. The analysis showed that the discourse on nursing and the psychiatric nurse, in the first half of the 20th century, is set, on one side, by the propositions used by psychiatrists, who sought to reiterate stereotypes and vocations to practice nursing, and, on the other side, by the active participation of nurses seeking to legitimize expertise for psychiatric nursing. It was concluded that the discourses analyzed defined a psychiatric care focused on the nurse and not the rest of the nursing staff, at that time.

Key words: Nursing; History of Nursing; Psychiatric nurse

RESUMEN

Estudio histórico y social que objetivó discutir el modelo de enfermería y de enfermera psiquiátrica, a partir de los discursos publicados en los Anales de Enfermería. Las fuentes históricas fueron artículos publicados en la revista Annaes de Enfermagem, de 1933 a 1951. Se utilizó el análisis del discurso, subsidiado por la genealogía del poder de Michel Foucault. El análisis evidenció que el discurso sobre la enfermería y la enfermera psiquiátrica en la primera mitad del siglo XX, se configuró, de un lado, por proposiciones que fueron utilizadas por médicos psiquiatras, que visaban reiterar vocaciones y estereotipos para la práctica de la enfermería, y, de otro lado, por la participación activa de enfermeras que buscaban legitimar un saber especializado para la enfermería psiquiátrica. Se concluyó que los discursos analizados definieron un modelo de asistencia de enfermería psiquiátrica direccionado hacia la enfermera y no hacia los demás trabajadores de enfermería a la época.

Palabras-clave: Enfermería; Historia de la enfermería; Enfermería psiquiátrica

INTRODUÇÃO

A criação da Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), em 1923, trouxe para o Brasil a influência do movimento norte-americano de higiene mental, que priorizava a visão preventiva das doenças mentais e, assim, buscava a capacitação profissional, o trabalho em equipe e o tratamento fora do espaço de internação, a fim de se evitar a doença mental( 1 , 2 ). Este movimento, idealizado por Clifford Beers e colaboradores, em 1907, tinha por objetivos iniciais a melhoria do tratamento dos doentes mentais e o combate às causas das doenças mentais. Logo em seguida surgiu um terceiro propósito: a conservação da saúde mental das pessoas ditas "normais", que deveriam receber atendimento através de visitas domiciliares( 1 - 3 ).

Reformulando a psiquiatria na primeira metade do século XX, a LBHM propunha o controle sanitário da população, um dos modos encontrados pelo Estado de garantir a produtividade econômica( 1 ). A assistência psiquiátrica passou a focar o individuo sadio e não o doente. A prevenção fazia-se através da reformulação dos serviços psiquiátricos e do aperfeiçoamento de profissionais de saúde( 1 - 3 ).

O conceito de higiene mental, utilizado em meados do século XX, tinha uma visão preventiva das doenças mentais e assim buscava a capacitação profissional, o trabalho em equipe multiprofissional e o tratamento fora do espaço de internação, a fim de se evitar a doença mental( 3 , 4 ).

A profissão de enfermeira já estava consolidada dentro de padrões educativos estabelecidos por lei, entretanto, a prática e o ensino da enfermagem psiquiátrica eram comprometidos pelo modelo hospitalocêntrico que conduzia a assistência prestada nas instituições de saúde especializadas. Sendo assim, a LBHM apresentou um alternativa de qualificação de assistência, que resultava em um modelo de enfermagem e de enfermeira psiquiátrica que iam ao encontro dos ideais de higiene mental( 5 ).

As transformações na prática da enfermeira psiquiátrica ocorreram paralelamente à evolução da prática médica e às tentativas de incorporação de novas técnicas e políticas de tratamento psiquiátrico( 4 ). A higiene mental passou a integrar as propostas de assistência de enfermagem, direcionando-a para a prevenção da doença mental, através de visita domiciliar e de atendimento ambulatorial, incentivando uma transformação no modelo de enfermagem psiquiátrica, até então direcionado para o tratamento asilar.

Este estudo tem como objeto o modelo de enfermagem e de enfermeira psiquiátrica a partir dos discursos publicados nos Annaes de Enfermagem, no período de 1933 a 1951. O objetivo é discutir o modelo de enfermagem e de enfermeira psiquiátrica, a partir dos discursos publicados nos Annaes de Enfermagem.

METODOLOGIA

Estudo histórico-social produzido pelo Núcleo de Pesquisa de História da Enfermagem Brasileira, cujas fontes históricas foram artigos publicados nos Annaes de Enfermagem, primeiro periódico de enfermagem do Brasil, que circulou de 1932 a 1954, quando então passou a denominação Revista Brasileira de Enfermagem. Foram selecionados dentre toda a coleção dos Annaes de Enfermagem pertencente ao acervo da Escola de Enfermagem Anna Nery, textos que tinham no título alguma referência à psiquiatria e/ou à enfermagem psiquiátrica, no período de agosto a setembro de 2011. A pesquisa encontrou nove artigos, dos quais seis foram apresentados sob a forma de citação direta, uma vez que tratavam especificamente do objeto deste estudo. Os demais artigos não evidenciavam os modelos de enfermagem e de enfermeira psiquiátrica, porém contextualizavam a assistência ao doente mental à época. A utilização desses artigos como fontes primárias atende a proposta de análise de documentos no método histórico, no qual um texto é visto sempre como portador de um discurso e que, assim considerado, representa a enunciação de um grupo( 6 ), no caso em especial, de profissionais da área da saúde envolvidos com a psiquiatria e a higiene mental.

Foi utilizado o procedimento de análise do discurso de Michel Foucault( 6 ), a partir da leitura dos textos e determinação de unidades de discurso, que foram agrupadas por semelhanças, construindo assim categorias. Como referencial teórico utilizamos a análise genealógica foucaultiana( 7 ) que ao considerar o discurso como determinado por uma regularidade permite que algo apareça como verdadeiro e busca compreender o discurso pela análise do saber, pois "não há saber sem uma prática discursiva definida, e toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela forma"( 6 ). Também considera que os grupos humanos, em suas relações sociais, desenvolvem um cotidiano repleto de relações de poder que pretendemos desvelar nos discursos analisados( 7 ).

Da análise dos discursos contidos nas fontes selecionadas emergiram as seguintes categorias: 1) Modelo de enfermagem psiquiátrica; 2) Modelo de enfermeira psiquiátrica.

Este artigo resulta do projeto de pesquisa "Ensino de Enfermagem Psiquiátrica na Escola Anna Nery em meados do século XX", aprovado pelo Comitê de Ética com Seres Humanos da Escola de Enfermagem Anna Nery/Hospital Escola São Francisco de Assis/Universidade Federal do Rio de Janeiro sob o Parecer do Protocolo N° 064/2010 e se justifica pela constatação de dificuldades de (re)produção de discursos sobre a prática da enfermagem psiquiátrica nesse período.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Discursos sobre Enfermagem Psiquiátrica publicados nos Annaes de Enfermagem

No período de circulação dos Annaes de Enfermagem foram publicados cinquenta números da revista, dos quais nove continham artigos sobre enfermagem psiquiátrica. O primeiro artigo foi publicado em 1933 e durante treze anos não houve publicação sobre esta temática, que só voltou a ser abordada com um artigo anual em 1946, 1947, 1948 e 1950. Em 1951, foram publicados quatro artigos, não havendo publicação em 1949 nem de 1952 a 1954.

Podemos afirmar que a temática enfermagem psiquiátrica passou a ser mais explorada a partir de 1946, evidenciando que as questões inerentes à doença mental se configuraram como objeto de preocupação das enfermeiras, que passaram a divulgá-las em seu periódico. Algumas razões justificam essa preocupação: primeiro em decorrência do elevado número de pessoas hospitalizadas em instituições psiquiátricas, depois, pela falta de pessoal competente e de boas instalações nos hospitais e, finalmente, devido à falta de medidas adequadas para prevenir e tratar as moléstias mentais( 8 ).

Tal situação relaciona-se com o fim da 2º Guerra Mundial, em 1945, quando as necessidades do doente mental passam a ser priorizadas pela ciência médica. O término da Guerra despertou preocupação com os aspectos mentais da população somando-se a outras questões referentes à saúde que surgiram na ocasião, como a fundação da Organização Mundial de Saúde, que incluiu na definição de saúde o bem estar psíquico, que ficou atrelado ao bem estar físico e social( 3 , 9 ).

Em relação à autoria dos artigos, identificamos três categorias profissionais formadas por: médicos, enfermeiras e alunas do curso de enfermeiras.

Os autores médicos foram os psiquiatras Plínio Olinto, um dos fundadores da LBHM, e Joy Arruda, professor de Psiquiatria e Higiene Mental da Escola Anna Nery; o doutor em Saúde Publica, Howard Lundy e o sanitarista Malta Santos. Estes autores trataram da assistência de enfermagem psiquiátrica e das características da enfermeira psiquiátrica. Howard Lundy e Malta Santos relacionaram a assistência de enfermagem psiquiátrica com a saúde pública.

Dessa forma, observa-se o interesse de médicos em melhorar o preparo da enfermagem para uma assistência especifica, além de um movimento em prol da atuação da enfermeira nas questões da higiene mental que visavam, principalmente, a profilaxia das doenças mentais na comunidade. Tal fato evidencia uma relação direta com o trabalho da enfermeira de saúde pública no qual o cuidado de enfermagem e a educação sanitária estão interligados, sendo o primeiro considerado mais um trunfo para a efetividade das ações educativas( 8 , 10 ).

A participação de alunas do curso de enfermagem se deu através de uma tradução feita em 1946 por Amália Corrêa de Carvalho e um estudo de caso escrito em 1950 por Mery Aidar, ambas alunas da Escola de Enfermagem de São Paulo. Os dois textos tratavam da assistência de enfermagem psiquiátrica.

Quanto aos artigos de autoria de enfermeiras, tivemos outro artigo assinado por Amália Corrêa de Carvalho (1947), dessa vez na condição de professora da Escola de Enfermagem de São Paulo; um artigo de Elisabeth Barcellos (1951), também professora da Escola de Enfermagem de São Paulo; um artigo de Ermengarda Faria Alvim (1951), enfermeira da Escola Anna Nery e assistente da Divisão de Enfermagem do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). Estes artigos tratavam a assistência de enfermagem psiquiátrica, sendo que o de Ermengarda Faria Alvim relacionava a assistência de enfermagem psiquiátrica com a de Saúde Pública.

No recorte do estudo, o discurso das enfermeiras acompanhava o discurso médico e ambos trouxeram como tema a assistência de enfermagem psiquiátrica pautada em um saber científico e a relação da enfermeira de saúde pública com as ações de higiene mental, justificadas pela abordagem preventiva e tratamento ambulatorial, conforme os preceitos da LBHM.

Todo saber (científico ou não) só é possível em determinado momento histórico, porque há um espaço de ordem que o possibilita( 6 ). Portanto, as publicações das enfermeiras se relacionam com o momento histórico em que foram produzidas, quando se buscava melhorar a situação da assistência de enfermagem psiquiátrica, visando o ensino da especialidade e a diferenciação, a partir da formação, do cuidado prestado por enfermeiras diplomadas.

Modelo de enfermagem psiquiátrica segundo os discursos publicados nos Annaes de Enfermagem

No início do século XX, o cuidado psiquiátrico era cercado de preconceitos que envolviam a superlotação e precárias condições das instituições, dos estereótipos sobre o doente mental, além dos baixos salários, o que levava à desvalorização do profissional de enfermagem que trabalhava na área( 9 , 11 ).

Na década de 1930, o discurso sobre a enfermagem psiquiátrica a colocava em três cenários distintos com ações diferenciadas: "no consultório, a enfermeira começa seu trabalho fazendo uma ficha resumida, mas verdadeira e completa, que serve de base ao exame médico, [...]. Na prática domiciliar a enfermeira se transforma em visitadora, nesta etapa, visita seu doente, fornece instruções sobre o tratamento. Sua visita deve ser curta, sem intimidade, conservando-se de pé e não aceitando nenhum favor. No hospital, a enfermeira é companheira do doente em todos os seus momentos, administra-lhe o medicamento, alimenta-o, dar o banho, faz o dormir, sofre com ele se preciso for"( 11 ).

Na concepção da LBHM se considerava também a assistência de enfermagem psiquiátrica fora do hospital. O espaço fora do hospital era considerado como de atualização e desenvolvimento da enfermagem, ao divulgar ideias modernas à época sobre o papel da enfermeira psiquiátrica, incluindo sua atuação em consultórios e visitas domiciliares, o que daria suporte ao Programa de Higiene Mental, que focava a prevenção, a eugenia e a educação dos indivíduos( 12 ).

O processo disciplinar tem princípios que determinam as funções de cada um e coloca cada indivíduo no seu lugar, ao dispor os corpos no espaço e no tempo, fazendo circular uma rede de relações, que funciona ao mesmo tempo como uma técnica de poder e um processo de saber( 6 , 7 ).

A partir de 1944 o Serviço Nacional de Doenças Mentais, pressionado pelas crescentes despesas com os hospitais psiquiátricos, começou a difundir as ideias de tratamento ambulatorial. Assim, foram criados os chamados ambulatórios de higiene mental, que surgem aos poucos nas capitais dos estados, inspirados nas concepções da LBHM( 2 , 3 ).

Os problemas apresentados pelas instituições foram considerados empecilhos a uma boa assistência de enfermagem psiquiátrica: "o número cada vez maior de doentes deu em resultado instituições grandes demais para uma administração eficiente e assistência apropriada às necessidades de pacientes. [...] Seus edifícios assemelham-se a prisões e carecem de acomodações necessárias ao tratamento e conforto do doente"( 8 ), ou seja, são instituições cuja planta física limita o convívio entre doentes mentais e a sociedade, além de dificultar a assistência de enfermagem. Outro problema também para a assistência foi o nível de saber sobre a psiquiatria das enfermeiras e atendentes, que era considerado baixo e com remuneração pouco atraente( 8 ). Isto pode ser evidenciado pelo discurso de uma enfermeira: "Os doentes mentais não são bem tratados, porque não há, ainda, pessoas habilitadas para deles se ocuparem racionalmente. Vemos os hospitais repletos, mas quem realmente trata dos pacientes? Pessoas simples, de pouca educação, sem cultura, mal remuneradas, com excesso de horas de trabalho, verdadeiros heróis, cheios de boa vontade"( 13 ).

Este discurso apresenta, por um lado, as características da equipe de enfermagem presente nos hospitais psiquiátricos, composta em maioria por atendentes, sem preparo formal. E, por outro lado, mostra às consequências do ensino de enfermagem padronizado pelo Governo Federal desde 1931, tendo como modelo a Escola Anna Nery, que não privilegiava a enfermagem psiquiátrica em seu currículo, não oferecendo estágio na área, o que afastava as enfermeiras diplomadas dos serviços psiquiátricos( 9 ).

No discurso médico foi destacado como objetivos da enfermagem psiquiátrica: execução das ordens do médico, manutenção da rotina do pavilhão, preparo do paciente para os tratamentos e auxílio em suas necessidades. E ainda, promover um ambiente hospitalar sadio, calmo e harmonioso, com atividades práticas, facilitando em tudo o trabalho do médico( 14 ). Nessas ideias, sobressalta a submissão das ações da enfermagem às ações médicas, o que se relaciona com as relações de poder através de uma técnica específica de poder que foi chamada de disciplina ou poder disciplinador( 7 ).

Dois dos artigos analisados apresentaram a definição de enfermagem psiquiátrica. No primeiro, foi assim descrita: "Enfermagem psiquiátrica significa o cuidado de pacientes portadores de perturbações mentais, manifestadas quer pelo comportamento anômalo, quer pelos pensamentos patológicos, quer pelos afetos e sentimentos transviados"( 14 ). No segundo, temos que a enfermagem psiquiátrica "é uma arte através da qual a enfermeira auxilia seu paciente, por todos os meios possíveis, a tornar-se socialmente ajustado. Ela não se limita a nenhum órgão especifico ou aparelho do corpo humano, pois trata do indivíduo como um todo. Em outras palavras, a enfermeira psiquiátrica é interessada no bem estar físico de seus pacientes, em suas ideias sobre si mesmo, em suas reações com as pessoas que tentam ajudá-lo e no seu ajustamento às rotinas do hospital, aos outros pacientes, à sua família e amigos"( 15 ).

Analisando as definições supracitadas observamos que a primeira, oriunda do discurso médico, orienta para os aspectos inerentes à doença, como questões ligadas a comportamentos e sintomas. Já, a segunda, oriunda do discurso de uma enfermeira, destaca as necessidades do paciente, sendo este entendido como um todo, em que todas as suas necessidades precisam ser compreendidas e atendidas. A definição apresentada pela enfermeira traz a tona o conhecimento da sua área de atuação naquele contexto, que seria reiterado com o passar do tempo como uma profissão que se ocupa com o cuidar da saúde do outro, enfatizando questões que envolvem o ser humano em sua totalidade( 16 ).

Modelo de enfermeira psiquiátrica segundo os discursos publicados nos Annaes de Enfermagem

Ao tratar do perfil da enfermeira psiquiátrica, o discurso médico destacava que: "A enfermeira psiquiátrica precisa possuir algumas peculiaridades que a torna diferente das outras enfermeiras [...]"( 12 ). Também foram considerados importantes os seguintes atributos intelectuais: "percepção clara, capacidade de atenção e fixação nítida, associação de ideias fácil, juízos e raciocínios prontos, coragem, piedade, paciência, sentimentos ponderados, emoções controladas e nada de paixões"( 12 ). Assim, concordamos que "o discurso médico modela o comportamento esperado e estereotipado das enfermeiras, contribuindo para explicar a representação deste comportamento submisso e silencioso no cotidiano das enfermeiras"( 17 ).

Além disto, era solicitado da enfermeira, em uma enfermaria psiquiátrica, uma postura que deveria mostrar-se alegre, ativa e bem disposta, procurando sempre ajudar os seus doentes, falando-lhes com carinho, "porque assim eles se esquecerão um pouco do seu sofrimento, e confiarão na enfermeira"( 11 ). Percebe-se que as qualidades atribuídas à enfermeira psiquiátrica foram bem definidas pelo médico, no que tange aos aspectos intelectuais, morais, afetivos e físicos, descrevendo uma pessoa virtuosa, que se aproxima mais da figura de um anjo, do que de uma profissional. O investimento político do corpo se relaciona, de forma complexa e recíproca, à sua utilização econômica. Para se constituir como força de trabalho, o corpo deve ser inserido em um sistema de sujeição: "o corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso"( 18 ).

Também foi destacado que a enfermagem psiquiátrica possuía características especiais que a distinguiam da enfermagem geral e seus principais objetivos precisavam se dirigir "a conquista do bem estar do paciente e seu restabelecimento"( 14 ). Ainda, que a enfermeira psiquiátrica necessitaria ter conhecimento seguro sobre a natureza do seu trabalho, assim como possuir uma série de características de personalidade para poder desempenhar corretamente suas funções( 14 ). E, dentre as qualidades gerais caberia à enfermeira psiquiátrica: discrição, simpatia, paciência, bondade, sinceridade, personalidade agradável. As atitudes das enfermeiras deveriam ser sempre moderadas, recatadas, cheias de bondade e paciência( 14 ).

Ao falar especificamente das ações da enfermeira de higiene mental, o discurso médico exaltava a sua submissão ao saber do médico, ao afirmar que "deste provém as instruções que derivam de seus conhecimentos de fisiologia, psicologia, patologia, psiquiatria e sociologia, cabe somente a enfermeira aplicar as indicações, na hora e local adequado, o médico apenas registra o proveito de sua indicação. A enfermeira deve ser obediente, cumprindo todas as regras e acatando sem discutir as ordens dadas"( 12 ). O discurso médico reforçava que o seu saber era superior e que cabia a enfermeira obedecer e cooperar com ele, caracterizando uma técnica de poder disciplinar para tornar uma classe dominante.

No discurso das enfermeiras, a profissional destinada à assistência psiquiátrica precisaria ter preparo especializado não só no aspecto científico, mas também no aspecto psicológico: "A pessoa que cuida do doente mental, além do preparo cientifico indispensável, com bons conhecimentos de psicologia e psiquiatria, deverá ainda possuir: 1- razoável equilíbrio emocional; 2- boa saúde; 3- capacidade de observação bastante desenvolvida. Isso para não se dar muita ênfase a qualidades também importantes, e que geralmente decorrem das 3 primeiras, tais sejam: atitude digna e calma, movimentos suaves, mas firmes, aparência agradável, tom de voz moderado"( 13 ). Todas essas qualidades são importantes, principalmente quando o paciente encontrava-se agitado, pois, por meio dessas, a enfermeira teria capacidade para compreendê-lo e conseguiria conduzi-lo para uma atividade construtiva, em vez de destrutiva( 13 ).

A prática da enfermagem psiquiátrica apareceu justificada pelo embasamento científico que se esperava de uma profissional diplomada: em primeiro lugar, a enfermeira observa comportamentos que diferenciem seu cliente dos indivíduos bem ajustados; em segundo lugar, deverá ter habilidade para compreender os sinais, sintomas e reações que observou e em terceiro lugar, deverá ter capacidade de anotar suas observações com tal precisão, que outras pessoas possam beneficiar-se com elas; e, por ultimo, deverá fazer um plano de enfermagem psiquiátrica que siga os objetivos terapêuticos para que cada paciente encontre neles aquilo que necessita individualmente( 15 ).

Com fim da Segunda Guerra Mundial iniciou-se um forte apelo ao estudo das moléstias mentais, "porque é de observação de todos que, mesmo nas moléstias físicas, os doentes sofrem também psiquicamente, seu espírito está abatido ou mostra-se irritado"( 14 ). Evidencia-se neste discurso médico, a inexistência de nítida delimitação entre moléstia física e mental e sim, uma estreita inter-relação físico-psíquica.

Também, aparece no discurso da enfermeira acerca da importância do saber especializado na área psiquiátrica: "[...] moléstia física e moléstia mental formam uma distinção artificial, pois devido a intima relação que existe entre corpo e espírito, dificilmente, algo que afete uma parte deixará de afetar a outra. A teoria e prática da enfermagem psiquiátrica esclarecem a enfermeira sobre o que ela está fazendo por seu paciente psicologicamente. Em seu curso ela aprende a observar seus pacientes e a adquirir habilidade para manter contato psicológico com ele"( 15 ). Com a implantação do Programa de Higiene Mental, a psiquiatria tornou-se um campo de atuação das enfermeiras de saúde pública, devido à sua influência na comunidade. A posição das enfermeiras de saúde pública foi considerada estratégica por terem acesso aos lares a qualquer hora, no entanto o curso não dava a elas o preparo necessário: "Embora as enfermeiras de saúde pública possuam estas vantagens, elas não são preparadas. Durante o curso, muito de sua eficiência é avaliada pela rotina dos métodos hospitalares"( 19 ).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante os vinte e dois anos de existência da revista Annaes de Enfermagem, foram publicados apenas nove artigos acerca da enfermagem psiquiátrica. Nesses artigos, o discurso sobre a enfermagem e a enfermeira psiquiátrica se configurou, de um lado, por proposições que foram utilizadas por médicos psiquiatras, que visavam reiterar vocações e estereótipos para a prática da enfermagem, e, de outro lado, pela participação ativa de enfermeiras que buscavam legitimar um saber especializado para a enfermagem psiquiátrica, que se coadunava com as transformações requeridas na prática da psiquiatria à época.

Os autores trataram de definir a enfermagem psiquiátrica, bem como as qualidades da enfermeira e as características da assistência de enfermagem psiquiátrica, que, aos poucos, foi alcançando uma melhor definição no corpo dos discursos das próprias enfermeiras, quando afastaram-se das características de subordinação presentes no discurso médico.

Por se tratar de discursos produzidos nas décadas de 1930-1950, era destacado o trabalho da enfermeira dentro da proposta da higiene mental, onde o atendimento em consultórios, ambulatórios e em domicílio era direcionado para a manutenção e prevenção da doença mental, sendo por isso mencionada a enfermeira de saúde pública como agente de atenção psiquiátrica. Também ficou evidenciado o entendimento, por parte dos médicos e das enfermeiras, da complexidade do cuidado em psiquiatria, indicando a necessidade de preparo formal qualificado, reconhecendo um saber especializado para a enfermeira psiquiátrica.

Dessa forma, caracterizou-se um modelo de enfermagem e de enfermeira psiquiátrica, voltado para o modelo de enfermeira diplomada, e não para os demais exercentes de enfermagem à época, que estavam empenhados, em maioria, no atendimento psiquiátrico hospitalar.

Outrossim, destacamos que as publicações são elementos fundamentais para a preservação da memória da prática da enfermagem, e a existência da revista Annaes de Enfermagem, certamente, é valiosa para a profissão no momento presente, quando registrou circunstâncias pretéritas possíveis de serem resgatadas, refletidas e recontadas neste estudo.

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Recebido: 02 de Fevereiro de 2012; Aceito: 12 de Março de 2013

Endereço do autor: Maria Angélica de Almeida Peres Rua Afonso Cavalcanti, 275, Cidade Nova 20211-110, Rio de Janeiro, RJ E-mail: angelica.ufrj@uol.com.br

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