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Revista Gaúcha de Enfermagem

versão On-line ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.37 no.1 Porto Alegre  2016  Epub 04-Mar-2016

http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2016.01.50759 

Artigos Originais

Danos à saúde dos trabalhadores de enfermagem em um serviço de hemodiálise

Daños a la salud de los trabajadores de enfermería en un servicio de hemodiálisis

Francine Cassol Prestesa 

Carmem Lúcia Colomé Beckb 

Tânia Solange Bosi de Souza Magnagob 

Rosângela Marion da Silvab 

Alexa Pupiara Flores Coelhoc 

a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Departamento de Enfermagem. Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil.

b Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Departamento de Enfermagem. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil.

c Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil.


RESUMO

Objetivo

Mensurar os danos à saúde relacionados ao trabalho e associá-los com as características sociolaborais de trabalhadores de enfermagem de um serviço de hemodiálise do Sul do Brasil.

Método

Pesquisa quantitativa, realizada com 46 trabalhadores. Utilizou-se um questionário autopreenchível com dados sociolaborais e a Escala de Danos Relacionados ao Trabalho. Realizou-se a análise descritiva, bivariada e correlacional, com níveis de significância de 5%, usando os programas Epi-info® e Predictive Analytics Software.

Resultados

Os danos físicos, psicológicos e sociais foram avaliados como suportáveis, sendo identificada associação com a satisfação com a remuneração atual e afastamento do trabalho para tratamento de saúde (p< 0,05). As dores nas costas (3,74±2,04) e nas pernas (3,48±2,10) foram consideradas graves. Houve correlação direta entre os danos à saúde (r> 0,31, p< 0,05).

Conclusão

Apesar da avaliação positiva dos danos à saúde na população estudada, reitera-se a necessidade de medidas que favoreçam a saúde dos trabalhadores.

Palavras-Chave: Enfermagem; Saúde do trabalhador; Diálise renal; Enfermagem em nefrologia; Trabalho

RESUMEN

Objetivo

Se objetivó medir los daños a la salud relacionados al trabajo y asociarlos con las características sociolaborales de trabajadores de enfermería de un servicio de hemodiálisis en el Sur de Brasil.

Método

Investigación cuantitativa, realizada con 46 trabajadores. Se utilizó un cuestionario autorrellenable con datos sociolabolares y la Escola de Danos Relacionados ao Trabalho. Se realizó el análisis descriptivo, bivariado y correlacional, con niveles de significación de 5%, utilizándose los programas Epi-info® y Predictive Analytics Software.

Resultados

Los daños físicos, psicológicos y sociales fueron considerados soportables, siendo identificada asociación con la satisfacción con la remuneración actual y licencia del trabajo para tratamiento de salud (p< 0,05). Hubo correlación directa entre los daños a la salud (r> 0,31, p< 0,05).

Conclusión

A pesar de la valoración positiva de los daños a la salud en esta población, se confirma la necesidad de medidas para promover la salud de los trabajadores.

Palabras-clave: Enfermería; Salud laboral; Diálisis renal; Enfermería en nefrología; Trabajo

ABSTRACT

Objective

The aim was to measure work-related health problems among nursing workers at a haemodialysis unit in southern Brazil and associate these issues with the socio-occupational characteristics of the workers.

Method

This is a qualitative study conducted with 46 nursing workers. Data were collected using a general health questionnaire with socio-occupational information and a work-related health assessment scale. The data were subjected to descriptive, correlational, bivariate analysis with significance levels of 5% using Epi-info® and Predictive Analytics Software.

Results

Physical, psychological, and social problems were considered bearable, and job satisfaction was associated with current income and work absenteeism for health treatment (p< 0.05). Back pain (3.74 ± 2.04) and leg pain (3.48 ± 2.10) were considered severe. There was a direct correlation between the health issues (r> 0.31, p <0.05).

Conclusion

In spite of the positive results of the work-related health assessment among the studied population, the results confirm the need to promote the health of nursing workers.

Key words: Nursing; Occupational health; Renal dialysis; Nephrology nursing; Work

INTRODUÇÃO

A atividade laboral, que ocupa uma posição de centralidade na vida do homem, jamais é neutra em relação à saúde do trabalhador. Suas repercussões tendem a ser positivas e equilibrantes quando existe liberdade de criação e expressão com relativo controle do trabalhador sobre seu processo laboral. Por outro lado, podem resultar na desestabilização e fragilização da saúde, quando não há possibilidade de negociação entre as expectativas e necessidades do sujeito e as exigências da organização do trabalho(1-2).

Os danos relacionados ao trabalho representam a manifestação dos efeitos nocivos da atividade laboral para a saúde, considerando-se as consequências das exigências e vivências em termos de danos físicos e psicossociais. Os danos físicos são definidos pela presença de manifestações como dores no corpo e distúrbios biológicos. Os danos psicológicos são caracterizados pela vivência de sentimentos negativos em relação a si mesmo e à vida no geral, já os danos sociais compreendem o isolamento e dificuldades nas relações sociais e familiares(2).

Nessa perspectiva, apesar dos avanços da produção do conhecimento voltada à saúde dos trabalhadores, ainda é crescente o adoecimento relacionado à atividade laboral. Paradoxalmente, os trabalhadores da área da saúde, especialmente os da enfermagem, muitas vezes, em meio à realização do cuidado do outro, esquecem de cuidar de si mesmos e do espaço em que trabalham(3). Essa realidade pode possuir relação com a configuração atual das atividades laborais nos serviços de saúde, que tem exigido a intensificação do trabalho, a qual tende a refletir negativamente na saúde dos trabalhadores(4).

Dentre os diferentes cenários de atuação da enfermagem, destaca-se o trabalho em serviços de hemodiálise. Este possui especificidades, como o desenvolvimento das atividades junto a pacientes em situação de adoecimento crônico e a necessidade de conhecimentos específicos para monitorar um procedimento com elevada complexidade técnica(5).

Estudo realizado na Alemanha aponta que a redução de pessoal, os cortes orçamentários, o aumento do número de pacientes em hemodiálise com múltiplas doenças, bem como a necessidade de manuseio técnico de equipamentos complexos são demandas emergentes que podem repercutir negativamente no bem-estar dos trabalhadores que atuam em serviços de hemodiálise(6).

Seguindo uma tendência mundial, também se observa no Brasil um aumento gradual da taxa de prevalência de pacientes em terapia dialítica crônica. No ano de 2012, a estimativa era de que houvesse 97.586 pacientes nessa modalidade de tratamento no país. Nas unidades de diálise pesquisadas no ano de 2012, mais de 90% dos pacientes faziam o tratamento por hemodiálise(7).

Nessa perspectiva, apesar da crescente demanda de serviços de hemodiálise em nível mundial (6), ainda são poucos os estudos que enfocam aspectos relacionados à saúde dos trabalhadores de enfermagem neste contexto laboral(5-6,8). Frente ao exposto, questiona-se como os trabalhadores de enfermagem avaliam os danos à saúde relacionados ao trabalho em um serviço de hemodiálise e se existe associação entre os danos à saúde e as características sociolaborais dos trabalhadores?

Acredita-se que pesquisar os danos à saúde dos trabalhadores de enfermagem em serviços de hemodiálise e relacioná-los a características sociolaborais seja relevante no sentido de se identificar a possibilidade de adoecimento destes trabalhadores. Da mesma forma, a proposição deste estudo justifica-se por dar visibilidade à temática da saúde do trabalhador de enfermagem em um contexto de atuação específico e ainda pouco explorado em estudos brasileiros.

Este estudo objetivou mensurar os danos à saúde relacionados ao trabalho e associá-los com as características sociolaborais dos trabalhadores de enfermagem de um serviço de hemodiálise do sul do Brasil.

MÉTODO

Estudo quantitativo, correlacional, realizado em um serviço de hemodiálise localizado no sul do Brasil. A pesquisa é oriunda de uma dissertação de mestrado(9) e foi desenvolvida uma instituição privada intra-hospitalar, conveniada ao Sistema Único de Saúde (SUS), que realiza atendimento a cerca de 300 pacientes em programa regular de hemodiálise.

A população se constituiu dos 51 trabalhadores de enfermagem (seis enfermeiros, 33 técnicos e 12 auxiliares de enfermagem). O critério de inclusão foi ser membro da equipe de enfermagem do serviço há pelo menos seis meses, sendo excluídos aqueles trabalhadores em férias ou qualquer outro tipo de afastamento do trabalho no período de coleta de dados, que ocorreu de março a abril de 2011.

Os trabalhadores foram abordados individualmente, no local de trabalho, informados sobre os objetivos e convidados a participar do estudo. Mediante a resposta afirmativa, disponibilizou-se ao participante o questionário de pesquisa em um envelope codificado, sendo orientado, posteriormente, sobre como respondê-lo. Os participantes puderam optar em responder ou não a pesquisa durante o turno de trabalho.

Dos 51 trabalhadores de enfermagem que atuavam no serviço, 46 participaram do estudo. Três não atenderam aos critérios estabelecidos. Dois trabalhadores não devolveram os instrumentos preenchidos, após três contatos do pesquisador, e foram considerados perdas.

O questionário de pesquisa continha informações referentes aos dados sociolaborais (sexo, idade, situação conjugal, função, turno de trabalho, tempo de trabalho, presença de outro emprego, ocorrência de acidente de trabalho, necessidade de afastamento do trabalho para tratamento de saúde no último ano e satisfação com a remuneração atual) e a Escala de Avaliação dos Danos Relacionados ao Trabalho (EADRT). Esta é uma das quatro escalas que compõem o Inventário sobre o Trabalho e Riscos de Adoecimento (ITRA), um instrumento criado e validado no Brasil no ano de 2003(10), autoaplicável, que avalia algumas dimensões da inter-relação entre o trabalho e risco de adoecimento. Neste estudo, foi utilizada a terceira versão do instrumento, revalidada e publicada no ano de 2007(2).

A EADRT possui 29 itens e é composta por três fatores: danos físicos (item 1 ao12); psicológicos (item 13 ao 22) e sociais (item 23 ao 29). É uma escala de sete pontos que tem por objetivo avaliar os danos provocados pelo trabalho nos últimos seis meses. Assim, 0 = nenhuma vez, 1 = uma vez, 2 = duas vezes, 3 = três vezes, 4 = quatro vezes, 5 = cinco vezes e 6 = seis ou mais vezes(2).

Os dados foram submetidos a dupla digitação independente no programa Epi-info®, versão 6.04. Após correção de erros, a análise foi feita no programa PASW Statistic® (PredictiveAnalytics Software) versão 18.0 para Windows . Realizou-se a análise descritiva das variáveis, sendo as qualitativas descritas por meio da frequência absoluta e relativa, enquanto que as quantitativas, com distribuição normal, pela média e desvio padrão.

Na análise da EADRT, os resultados foram classificados em quatro níveis: acima de 4,0 = avaliação negativa, presença de doenças ocupacionais; entre 4 e 3,1 = avaliação moderada para frequente, grave; entre 3 e 2 = avaliação moderada, grave; abaixo de 1,99 = avaliação positiva, suportável.

Posteriormente, realizaram-se análises bivariadas. Para associações entre os fatores da EADRT e as variáveis sociodemográficas e laborais (categóricas) utilizou-se o teste Qui-Quadrado ou Exato de Fisher, com níveis de significância de 5%.

A confiabilidade da EADRT foi avaliada, estimando-se a consistência interna por meio do coeficiente Alpha de Cronbach; identificaram-se valores superiores a 0,80 nos três fatores que compõem a escala (danos psicológicos α= 0,91; danos sociais α= 0,83 e danos físicos α= 0,83).

A correlação entre os fatores da EADRT foi analisada por meio do Coeficiente de Correlação de Spearman. A força de associação foi classificada conforme a intensidade de sua correlação, que varia de +1 a -1, sendo considerada da seguinte forma: r = 1 correlação perfeita; 0,80 < r < 1 muito alta; 0,60 < r < 0,80 alta; 0,40 < r < 0, 60 moderada; 0,20 < r < 0,40 baixa; 0 < r < 0,20 muito baixa; r = 0 nula(11).

A pesquisa obedeceu às diretrizes éticas para pesquisas com seres humanos estabelecidas na Resolução 466/12, do Conselho Nacional de Saúde, e obteve parecer favorável para sua realização emitido pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria, com Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) número 0364.0.243.000-10. Todos os participantes receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em duas vias, leram e assinaram.

RESULTADOS

Dentre os participantes, observou-se a predominância do sexo feminino (80,4%, n=37), com idade média de 39,9 anos (DP=10,02), casados (65,2%, n=30), técnicos de enfermagem (67,4%, n=31), com tempo médio de atuação no serviço de 10,28 anos (DP=6,64) e sem outro emprego (73,9%, n=34). A maior parcela dos trabalhadores (56,5%, n=26) afirmou estar 75% satisfeita com a remuneração atual, não sofreu acidente de trabalho (82,6%; n= 38) e não esteve afastada do trabalho por motivo de saúde no último ano (67,4%; n=31).

A Tabela 1 mostra a estatística descritiva dos fatores que avaliam os danos à saúde relacionados ao trabalho e os dois itens que apresentaram as maiores médias em cada fator.

Tabela 1 – Estatística descritiva e itens com maiores médias da Escala de Avaliação de Avaliação dos Danos Relacionados ao Trabalho (EADRT). Santa Maria/RS, Brasil, 2011. (N=46) 

Fatores da EADRT Itens com maiores médias por fator Média e desvio padrão Classificação
Danos físicos µ=1,77 (DP=1,08) Suportável
Dores nas costas µ=3,74 (DP=2,04) Grave
Dores nas pernas µ=3,48 (DP=2,10) Grave

Danos psicológicos µ=1,22 (DP=1,77) Suportável
Tristeza µ=1,96 (DP=1,86) Suportável
Mau humor µ=1,87 (DP=1,57) Suportável

Danos sociais µ=1,12 (DP=0,85) Suportável
Vontade de ficar sozinho µ=1,67 (DP=1,92) Suportável
Impaciência com as pessoas µ=1,65 (DP=1,32) Suportável

Fonte: Dados da pesquisa, 2011.

Os danos relacionados ao trabalho foram classificados como suportáveis pelos trabalhadores de enfermagem do serviço de hemodiálise, sendo observada a maior média no fator danos físicos (µ=1,77; DP=1,08).

No fator danos físicos, avaliado como suportável como um todo, os itens “dores nas costas” e “dores nas pernas” apresentaram as maiores médias e foram considerados como graves pelos trabalhadores. No que tange à associação do fator com os dados sociolaborais, os danos físicos associaram-se significativamente a insatisfação com a remuneração atual (p= 0,004) e a necessidade de afastamento do trabalho para tratamento de saúde no último ano (p= 0,008). Nas demais variáveis não foram identificadas associações estatisticamente significativas (p>0,05).

No fator danos psicológicos todos os itens foram avaliados como suportáveis. Os que apresentaram a pior avaliação foram os itens “tristeza” e “mau humor”, com um valor limítrofe na classificação como suportáveis. No que se refere à associação do fator com os dados sociolaborais, evidenciou-se associação entre o fator danos psicológicos e a satisfação com a remuneração atual (p=0,045). Nas demais variáveis não houve diferença entre os grupos (p> 0,05).

Os danos sociais, também considerados suportáveis, apresentaram a menor média entre os fatores pesquisados (µ=1,12; DP=0,85), conforme mostra a Tabela 1. Apesar de apresentarem as maiores médias dos itens que compõem o fator, os itens “vontade de ficar sozinho” e “impaciência com as pessoas em geral” não se caracterizaram como danos à saúde dos trabalhadores, uma vez que foram considerados suportáveis. Neste fator, não foram identificadas associações significativas com as variáveis de interesse (p>0,05).

A Tabela 2 apresenta os coeficientes de correlação de Spearman entre os fatores da EADRT.

Tabela 2 – Coeficientes de correlação de Spearman entre os fatores da EADRT. Santa Maria/RS, Brasil, 2011. (N=46) 

Fatores da EADRT DF DP DS
Danos físicos (DF) 1
Danos psicológicos (DP) 0,26 1
Danos sociais (DS) 0,31* 0,61** 1

Fonte: Dados da pesquisa, 2011.

Coeficiente de correlação de Spearman; *Correlação significativa a nível de p ≤ 0,05;

**Correlação significativa a nível de p ≤ 0,01.

Os danos sociais apresentaram correlação significativa, alta e direta com os danos psicológicos (r= 0,61, p < 0,01) e correlação baixa e direta com danos físicos (r= 0,31, p < 0,05). Não se identificou correlação entre danos físicos e psicológicos (p> 0,05), como mostra a Tabela 2.

DISCUSSÃO

Assim como em outras pesquisas com trabalhadores que atuam em serviços de saúde(12-14), evidenciou-se boa consistência interna dos fatores que compõem a EADRT na população investigada, com valores de Alpha de Crombach superiores a 0,80.

A população pesquisada foi de trabalhadores predominantemente do sexo feminino, com relativa experiência de vida e de trabalho no serviço de hemodiálise e sem outro emprego, o que remete a resultados de outros estudos com trabalhadores de enfermagem(12,14).

Além disso, a maioria dos trabalhadores afirmou estar satisfeita com a remuneração atual, não sofreu acidentes de trabalho e não teve afastamento das atividades laborais por motivos de saúde no último ano. Essa descrição pode caracterizar condições favoráveis à saúde dos trabalhadores de enfermagem no serviço pesquisado.

Os danos à saúde relacionados ao trabalho foram considerados suportáveis pelos participantes deste estudo. Esse resultado diverge do encontrado em investigação com enfermeiros intensivistas que identificou danos à saúde com avaliação crítica nos três fatores(12). Já outras pesquisas identificaram danos físicos críticos e danos psicológicos e sociais suportáveis em profissionais que atuavam em serviços de Atenção Básica à saúde em um município do Sul do Brasil(13) e com trabalhadores de enfermagem que atuavam em unidades de clínica cirúrgica em hospitais universitários do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil(14).

No fator danos físicos, a presença de dores nas costas e nas pernas foi avaliada como grave pelos trabalhadores de enfermagem do serviço de hemodiálise. Este resultado converge com os encontrados em outros estudos(12,14) com trabalhadores de enfermagem que atuavam em ambiente hospitalar e denota uma manifestação de possíveis repercussões da atividade laboral na saúde dos trabalhadores.

Pesquisa com a equipe de enfermagem de uma unidade dialítica identificou a ocorrência de dores na coluna, principalmente na região lombar, na maioria dos participantes. O estudo também menciona a inexistência de cuidado em relação à postura ergonômica adequada por parte dos trabalhadores ao movimentar os pacientes ou realizar os procedimentos, o que pode contribuir para o desconforto osteomuscular(15).

Estudo(5) descreve algumas características do processo de trabalho da enfermagem em serviços de hemodiálise, como repetição de tarefas, pressão por desenvolver as atividades em um determinado espaço de tempo, pressão por acertar e necessidade de vigilância constante dos pacientes e equipamentos durante o procedimento. Essas características podem favorecer a sobrecarga e manifestação de danos à saúde dos trabalhadores.

Neste estudo, os trabalhadores menos satisfeitos com a remuneração avaliaram de forma mais crítica o fator danos físicos. A remuneração condizente com as atividades realizadas possui um significado importante para o trabalhador, pois, além de prover suas necessidades básicas, possui um papel de reconhecimento pelo trabalho realizado(16). Esta contradição entre as expectativas do trabalhador e a realidade concreta necessita de mediação a fim de se evitar a instalação ou agravamento de processos patológicos relacionados à atividade laboral.

Os danos físicos também se associaram à necessidade de afastamento do trabalho para tratamento de saúde no último ano. Esse resultado remete ao encontrado em pesquisa que classificou como rotineiro o afastamento do trabalho entre trabalhadores de enfermagem, principalmente técnicos e auxiliares de enfermagem de um setor de hemodiálise, por lesões ao nível de coluna vertebral(17).

Os distúrbios musculoesqueléticos foram as causas predominantes do absenteísmo por doença em trabalhadores de enfermagem de um serviço de hemodiálise(18), o que ratifica a associação entre danos físicos e a necessidade de afastamento das atividades laborais para tratamento de saúde no último ano, evidenciada neste estudo.

No que tange aos danos psicológicos, a avaliação satisfatória realizada pelos participantes deste estudo vai de encontro aos resultados identificados em outros estudos com trabalhadores área da saúde que atuavam junto a pacientes em hemodiálise(6,19). Nessa direção, pesquisa em centros de diálise na Alemanha identificou que 25% dos profissionais de saúde estavam sob estresse por lidarem com o sofrimento ou a morte dos pacientes(6). Investigação com enfermeiros de unidades de assistência a pacientes críticos e potencialmente críticos de um hospital universitário do Sul do Brasil identificou o maior índice de estresse na equipe do serviço de nefrologia(19).

Assim como em outra pesquisa, apesar da avaliação satisfatória nos danos psicológicos, os itens “tristeza” e “mau humor” obtiveram as maiores médias, com valores limítrofes na avaliação como suportáveis(14).

Autores mencionam que a vivência cotidiana por longos períodos com os mesmos pacientes se constitui no principal diferencial no trabalho em hemodiálise que repercute tanto nas vivências de prazer quanto nas de sofrimento. O estabelecimento de vínculo desperta sentimentos ambíguos nos trabalhadores, que se sentem reconhecidos e valorizados diante das demonstrações de afeto e carinho, mas também sobrecarregados frente às carências afetivas, familiares e financeiras de alguns pacientes(8).

Estudo em uma unidade dialítica identificou que os riscos ocupacionais percebidos pela equipe de enfermagem foram, respectivamente, biológicos, químicos, físicos, ergonômicos e, com menor frequência, o risco psicossocial. Apesar disso, alguns participantes afirmaram que o trabalho produz sofrimento mental. O sofrimento foi atribuído à atuação em ambiente fechado, junto a pacientes depressivos e à tensão gerada pela responsabilidade com vidas humanas(15).

Dessa forma, os resultados encontrados no fator danos psicológicos podem remeter à utilização adequada de vias de ressignificação do sofrimento e vivências de prazer no trabalho pelos trabalhadores de enfermagem em hemodiálise. Por outro lado, menciona-se a possibilidade de o resultado satisfatório encontrado neste estudo estar relacionado à dificuldade de se caracterizar as doenças relacionadas ao trabalho, especialmente os agravos de ordem psíquica.

Evidenciou-se a associação entre a ausência de danos psicológicos e a satisfação com a remuneração atual. Assim, ratifica-se que a satisfação com a remuneração repercute positivamente na valorização do trabalhador e reconhecimento profissional, o que se reflete de positivamente no funcionamento psíquico e, consequentemente, na saúde dos trabalhadores(2).

Esse resultado pode ser considerado positivo, uma vez que a existência de condições desencadeadoras de sofrimento e sobrecarga, como baixas remunerações e duplo emprego, é uma realidade não mais contestada nos contextos laborais da enfermagem. Apesar disso, a exposição a essas condições possui repercussões ainda pouco conhecidas sobre a saúde dos trabalhadores(20).

No fator danos sociais, avaliado como suportável em todos os itens, a vontade de ficar sozinho e a impaciência com as pessoas em geral apresentaram as maiores médias, o que ratifica os resultados de pesquisa(14). Estes resultados podem ser considerados positivos se comparados aos encontrados em outras investigações em que estes também foram os itens com maiores médias, porém com classificação crítica(12-14).

Neste estudo, não foi identificada a presença de danos sociais relacionados ao trabalho. Investigação que comparou trabalhadores de unidade de diálise com os de unidades de internação identificou que é mais fácil para a equipe de diálise conciliar o trabalho com a vida privada do que para os enfermeiros do hospital(6).

Ao analisar esse resultado, considera-se pertinente elencar algumas características do serviço pesquisado, como encerramento das atividades do turno da noite às 22 h e o não funcionamento aos domingos. Além disso, a maioria dos participantes não possuía outro emprego, o que pode favorecer a prática de atividades de lazer e repercutir positivamente nos aspectos sociais da vida do trabalhador.

Os danos sociais se correlacionaram diretamente com os danos físicos e psicológicos, ou seja, os trabalhadores com avaliação mais positiva em relação aos danos sociais também apresentaram menores médias nos fatores danos físicos e danos psicológicos. Essa correlação pode ser explicada ao se considerar que o trabalho é uma atividade que envolve o homem em todas suas dimensões. Assim, as relações que o homem estabelece com a atividade laboral operam como um elemento fundamental na construção da subjetividade humana, com repercussões em sua saúde física e mental(1-2).

CONCLUSÃO

Os danos à saúde dos trabalhadores de enfermagem do serviço de hemodiálise pesquisado foram avaliados como suportáveis. No fator danos físicos, que apresentou as maiores médias, a presença de dores nas costas e nas pernas foi considerada grave.

Os danos físicos apresentaram associação com a satisfação com a remuneração atual e a necessidade de afastamento do trabalho para tratamento de saúde no último ano. O fator danos psicológicos relacionou-se com a satisfação com a remuneração atual.

Apesar da avaliação positiva dos danos à saúde na população estudada, não se descarta a necessidade de manutenção, avaliação constante e promoção de condições de trabalho que favoreçam a saúde dos trabalhadores, uma vez que foram identificados indícios de adoecimento manifestado pela ocorrência de dores musculoesqueléticas e associação do fator danos físicos com o absenteísmo por doença.

Frente a esses indícios, recomenda-se a criação de espaços institucionais de escuta, discussão e avaliação no âmbito individual e coletivo em que os trabalhadores possam ser instrumentalizados quanto à identificação e prevenção de riscos em sua atividade laboral. Assim, os próprios trabalhadores poderão apontar situações que necessitam de intervenção a fim de evitar possíveis danos à saúde relacionados ao trabalho da enfermagem em serviços de hemodiálise.

Além disso, é preciso considerar que os resultados podem ter sido subestimados pelo fato de terem sido pesquisados trabalhadores ativos e pela possível dificuldade dos respondentes em lembrarem-se do número de vezes em que apresentaram as manifestações que compõem a EADRT nos últimos seis meses. Também se menciona como limitação do estudo o tamanho da população estudada, que pode limitar a realização de generalizações e de análises estatísticas mais complexas.

Apesar de a EADRT não ser um instrumento específico para trabalhadores de enfermagem, se mostrou internamente consistente ao ser aplicada nesta população. A utilização do instrumento mostrou-se útil por possibilitar a realização de um diagnóstico inicial dos danos à saúde, que poderá ser aprofundado com técnicas qualitativas e aplicação de outros instrumentos em investigações que abordem a saúde dos trabalhadores de enfermagem em serviços de hemodiálise.

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Recebido: 03 de Outubro de 2014; Aceito: 16 de Dezembro de 2015

Autor correspondente: Francine Cassol Prestes. E-mail: francinecassol@gmail.com

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