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Revista Gaúcha de Enfermagem

versão On-line ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.37 no.3 Porto Alegre  2016  Epub 03-Out-2016

http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2016.03.67901 

Editorial

Aplicação de software na investigação qualitativa

Dayse Neri de Souzaa 

Francislê Neri de Souzaa 

a Universidade de Aveiro, Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF). Aveiro, Portugal

O processo histórico dos estudos de natureza qualitativa tem revelado que os preconceitos e desafios foram imensos. É ainda constante a luta para obter reconhecimento científico em muitas áreas de estudos1-2; no entanto, a consolidação dos estudos de natureza qualitativa tem encontrado ferramentas e estratégias para enfrentar os desafios e dilemas no sentido de maior reconhecimento, rigor e sistematização.

Um dos grandes desafios relatados foi a resistência dos positivistas à investigação qualitativa ao impor uma distinção entre as hard sciences e soft sciences3. Ou seja, consideravam que os investigadores de estudos qualitativos eram meros jornalistas, relatores e exploradores, em que os estudos não tinham perspetiva científica pelo facto da sua remanescência ter emergido de estudos de antropólogos e etnólogos.

O cenário da década de 60 do século XX foi favorável para a investigação qualitativa, uma vez que os problemas sociais e educacionais fizeram despoletar a realidade dos desfavorecidos e excluídos socialmente. Os métodos qualitativos encontraram um espaço revelador devido ao seu espírito democrático4. Como afirma Chizzotti5, “o século XX foi para a pesquisa em ciências humanas e sociais, o século de grandes descobertas teóricas, expansão da atividade pesquisadora e de difusão dos conhecimentos”. Foi a partir desta década que estudiosos perceberam o clima favorável para o desenvolvimento metodológico da investigação qualitativa. Assim, e diante das lutas constantes, a investigação qualitativa tem angariado seguidores e defensores nas mais diferentes áreas de conhecimento.

Apesar da importante luta para o devido reconhecimento da investigação qualitativa no âmbito científico, há uma outra perspetiva que tem causado alguma inquietação aos estudiosos desta área, uma vez que estão envolvidos pela membrana da resistência às tecnologias.

Apesar desta resistência é notório o crescimento da integração das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) nos métodos e técnicas de estudos qualitativos. As TIC têm contribuído para a sua firmeza e reconhecimento, tendo em conta ser uma forma de viabilizar as investigações de natureza mista, aproximando os principais diferenciadores entre a natureza qualitativa e a quantitativa. No entanto, ainda se encontra resistência por parte de alguns estudiosos quanto a integração de ferramentas tecnológicas para a análise dos dados. São muitos os argumentos que mencionam que o uso das tecnologias enviesa a compreensão dos fenômenos ou condicionam a análise, bem como substituem os investigadores6. Esta visão é desatualizada e mostra pouca familiaridade com as mais modernas ferramentas de apoio a análise de dados na investigação qualitativa.

Não obstante, estas e outras várias considerações e controvérsias têm revelado algumas inquietações e provocado estudos acerca da utilização de ferramentas tecnológicas na análise de dados qualitativos.

Autores7 sublinham que há na atualidade mais de 40 tipos de software para análise qualitativas de dados. Contudo, a pergunta que podemos fazer é: Qual é a real necessidade do uso de programas informáticos na análise dados visando a qualidade e compreensão dos resultados? Há que ter presente que este tipo de pergunta pode legitimar ou não o uso de tecnologias na análise de dados qualitativos.

A evolução histórica e consistência no uso de software para análise de dados qualitativos de 1966 até a atualidade, assevera o seu inevitável avigoramento no âmbito acadêmico8. Um dos software que nos últimos 5 anos tem colaborado no rigor e qualidade das investigações é o WebQDA®. O WebQDA (Web Qualitative Data Analysis) é um software destinado à investigação qualitativa para diversas áreas e métodos e técnicas de análise de dados como textos, áudios, vídeos, imagens. No entanto, os grandes diferenciais desta plataforma online é a sua simplicidade de aprendizagem e utilização e a possibilidade de partilhar projetos com um grupo de pesquisadores (www.webqda.net).

São muitas as vantagens para a utilização de Qualitative Data Analysis Software (QDAS). De entre eles, a capacidade da gestão de dados mais rápida e eficaz, a maior possibilidade de lidar com um volume maior de dados, contextualização da complexidade, a técnica e rigor metodológicos e sistematização, consistência, transparência analítica e, por fim, a possibilidade de trabalhar de modo colaborativo8. Anote-se, ainda, que para além de ferramentas para análise dos dados de forma colaborativa, emerge, concomitantemente, software para a organização e gestão dos projetos de investigação.

Diante das exigências atuais da pesquisa científica, faz-se necessário seja no contexto das pós-graduações como na elaboração de artigos científicos, a crucial estruturação do projeto e gestão do processo de investigação. Ou seja, é necessário pensar em ferramentas e estratégias para assegurar a viabilidade e rigor na investigação, a organização estrutural do projeto, a comunicação e interação entre os cientistas, a gestão do processo e, por fim, a coerência interna numa visão sistêmica, ética e holística dos produtos. Todas estas exigências tornam-se indispensáveis em todas as fases da realização da investigação, desde o seu início até a sua conclusão. Desta forma, emerge como apoio aos investigadores principiantes e séniores ferramentas que ajudam a planejar e gerir o projeto de investigação. Como exemplo, citamos o Isabel Alarcão Research Software (IARS®).

O IARS® (www.ia-rs.com) é uma aplicação web de apoio à investigação desde a construção do projeto de investigação até à escrita das versões finais do trabalho9. O IARS® é um gestor de projeto seja de natureza qualitativa, quantitativa ou mista num trabalho tutorial e colaborativo num ambiente imersivo e distribuído como a internet pode oferecer. Isto é, proporciona ao investigador: i) a organização conceptual de um projeto de investigação; ii) identificação das questões conceptuais, organizadoras e estimuladoras para a elaboração de um projeto de investigação; iii) maior e melhor interação entre orientando e orientador, e/ou membros de um grupo alargado de cientistas; iv) estímulo à organização sistemática do projeto e dos resultados da investigação; v) desenvolvimento de capacidades e atitudes de investigação que facilitem a elaboração de trabalhos científicos; vi) contribuição para uma maior coerência interna das etapas de elaboração do projeto de investigação; e v) o conhecimento da estrutura funcional de diferentes abordagens metodológicas. Embora exista outras ferramentas de gestão de projeto, nenhum delas é pensada e estruturada para atender as necessidades das áreas de pesquisa das ciências humanas e sociais, como a educação, enfermagem, sociologia, psicologia etc.

Corroboramos com muitos estudiosos que afirmam que o uso de ferramentas tecnológicas na investigação qualitativa e/ou quantitativa devem servir apenas como apoio para um melhor registro, visualização, organização e sistematização dos dados10-13. De maneira algum descarta o escrutínio do investigador e a sua perceção do fenômeno e compreensão dos resultados. Principalmente quando autores4 assinalam que numa investigação qualitativa além do processo da investigação ser o fundamental, o investigador é o instrumento chave.

REFERÊNCIAS

1. Lüdke M. Educação e pesquisa qualitativa no Brasil. In: Neri de Souza D, Costa AP, Neri de Souza F, editores. Investigação qualitativa: inovação, dilemas e desafios. Aveiro: Ludomedia; 2016. v. 3, p. 77-104. [ Links ]

2. Minayo C. Fundamentos, percalços e expansão das aborgadens qualitativas. In: Neri de Souza D, Costa AP, Neri de Souza F, editores. Investigação qualitativa: inovação, dilemas e desafios. Aveiro: Ludomedia; 2016. v. 3, p. 17-48. [ Links ]

3. Denzin NK, Lincoln YS. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias e abordagens. Porto Alegre: Artmed; 2006. [ Links ]

4. Bogdan R, Biklen S. Investigação qualitativa em educação. Porto: Porto Editora;1994. [ Links ]

5. Chizzotti A. Pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais. Petrópolis: Vozes; 2006. [ Links ]

6. Lage MC, Godoy AS. O uso do computador na análise de dados qualitativos: questões emergentes. Rev Adm Mackenzie. 2008;9(4):75-98. [ Links ]

7. Reis LP, Costa AP, Neri de Souza F. Análise comparativa de pacotes de software de análise de dados qualitativos. In: Conferência Ibérica de Sistemas e Tecnologias de Informação (CISTI); 2016 Jun 15-18; Gran Canaria, Ilhas Canárias, ES. [ Links ]

8. Costa AP, Neri de Souza D, Neri de Souza F. Trabalho colaborativo na investigação qualitativa através das tecnologias. In: Neri de Souza D, Costa AP, Neri de Souza F, editores. Investigação qualitativa: inovação, dilemas e desafios. Aveiro: Ludomedia; 2016. v. 3, p. 105-27. [ Links ]

9. Neri de Souza D, Neri de Souza F, Alarcão I. Quatro dimensões para a qualidade da investigação: o caso do software IARS®. In: Vieira F, Silva JLC, Flores MA, Oliveira CC, Ferreira FI, Caires S, et al. (Eds.). Inovação pedagógica no ensino superior: ideias (e) práticas. Santo Tirso: De Facto Editores; 2016. [ Links ]

10. Neri de Souza D, Costa AP, Neri de Souza F, editores. Investigação qualitativa: inovação, dilemas e desafios. Aveiro: Ludomedia; 2015. v. 2. [ Links ]

11. Kaefer F, Roper J, Sinha PA Software-assisted qualitative content analysis of news articles: example and reflections. Forum: Qual Soc Res. 2015;16(2):art. 8. [ Links ]

12. Neri de Souza F, Costa AP, Moreira A. WebQDA: software de apoio à análise qualitativa. In: 5ª Conferência Ibérica de Sistemas e Tecnologias de Informação, (CISTI’2010); 2010 Jun 16-19; Santiago de Compostela, ES. [ Links ]

13. Dolan A, Ayland C. Analysis on trial. Int J Market Res. 2001;43(4):377-89. [ Links ]

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