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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.39  Porto Alegre  2018  Epub Aug 02, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2018.2017-0107 

ARTIGO ORIGINAL

Classificação de pacientes e dimensionamento de profissionais de enfermagem: contribuições de uma tecnologia de gestão

Clasificación de pacientes y dimensionamiento de profesionales de enfermería: contribuciones para una tecnología de gestión

Lara Vandresena 

Denise Elvira Pires de Piresa 

Jorge Lorenzettia 

Selma Regina de Andradea 

a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Florianópolis, Santa Catarina, Brasil


Resumo

OBJETIVO

Aplicar recursos da tecnologia PRAXIS® para classificação de pacientes e dimensionamento de profissionais de enfermagem em unidade de internação de hospital universitário.

METODO

Pesquisa Convergente Assistencial seguindo as fases de concepção e instrumentação - definidos tema e objetivo da pesquisa, realização em uma unidade hospitalar de clínica médica envolvendo 633 participantes; perscrutação - classificação dos pacientes durante 30 dias de junho de 2016, seguido de dimensionamento; análise e interpretação dos resultados-elaborada com suporte da teorização de gestão em enfermagem hospitalar.

RESULTADOS

Realizadas 633 classificações e encontrados 29,38% pacientes em cuidados mínimos, 35,71% cuidados intermediários, 33,02% alta dependência, 1,42% semi-intensivos e 0,47% cuidados intensivos. Para realização do dimensionamento utilizou-se duas referências; em ambas a equipe disponibilizada mostrou-se deficitária.

CONCLUSÃO

Classificação de pacientes e dimensionamento de profissionais de enfermagem estão diretamente relacionados, são indispensáveis para gestão em enfermagem e de difícil realização cotidiana. Tecnologias informatizadas são úteis para realização destas atividades.

Palavras-chave: Administração hospitalar; Administração de recursos humanos; Qualidade da assistência à saúde; Enfermagem

Resumen

OBJETIVO

aplicar recursos de la tecnología PRAXIS® para la clasificación y dimensionamiento de profesionales de enfermería en una unidad de internación de un hospital universitario.

MÉTODO

investigación convergente asistencial, siguiendo las etapas de concepción e instrumentación - definidos el tema y objetivo de la investigación, realización en una unidad hospitalaria de clínica médica involucrando a 633 participantes; escrutación - clasificación de los pacientes durante 30 días de junio de 2016, seguida de dimensionamiento. Análisis e interpretación de los resultados elaborados con soporte de la teorización de gestión en enfermería hospitalaria.

RESULTADOS

se realizaron 633 puntuaciones y se encontraron 29,38% pacientes en cuidados básicos, 35,71% en cuidados intermedios, 33,02% en alta dependencia, 1,42% en semi-intensivos, y 0,47% en cuidados intensivos. Para realizar el dimensionamiento, se utilizaron dos referencias. En ambos el equipo disponible se mostró deficiente.

CONCLUSIÓN

la clasificación de pacientes y el dimensionamiento de los profesionales de enfermería están directamente vinculados, son indispensables para la gestión en enfermería y de difícil realización cotidiana. Las tecnologías informatizadas son útiles para realizar estas actividades.

Palabras clave: Administración hospitalaria; Administración de Personal; Calidad de la atención de salud; Enfermería

Abstract

OBJECTIVE

Applying PRAXIS® technology resources for patient classification and nursing professional sizing in university hospital inpatient unit.

METHOD

Convergent Care Research following the design and instrumentation phases - defined the research theme and purpose, performed in a medical clinic hospital unit involving 633 participants; scrutiny - classification of patients during 30 days of June 2016, followed by sizing, analysis and interpretation of the results - elaborated with the support of the management theorization in hospital nursing.

RESULTS

Amongst the total of 633 classifications made, 29.38% were patients in minimal care, 35.71% were intermediate care patients, 33.02% were highly dependent, 1.42% were semi-intensive and 0.47% were in intensive care. Two references were used to carry out the sizing; in both the available team showed to be in deficit.

CONCLUSION

The classification of patients and the sizing of nursing professionals are directly related, they are indispensable for management in nursing and difficult to perform daily. Computerized technologies are useful for performing these activities.

Keywords: Hospital administration; Personnel management; Quality of health care; Nursing

INTRODUÇÃO

A enfermagem é uma profissão da saúde que desempenha papel fundamental no resultado assistencial, tanto no âmbito hospitalar quanto extra-hospitalar. Trata-se de uma prática social complexa, historicamente relevante para a vida humana, e que tem três dimensões básicas que incluem práticas do âmbito da prestação de cuidados a indivíduos, famílias e grupos sociais; as do âmbito do educar e pesquisar; e as administrativo-gerenciais1. Esta última tem relação direta com as outras duas dimensões e compreende parte significativa do trabalho do enfermeiro, estando a seu encargo a realização/coordenação do planejamento e execução eficiente e organizada das atividades da enfermagem. Para que o trabalho da enfermagen possa ser realizado com qualidade é necessário que o enfermeiro disponha de ferramentas que auxiliem na gestão dos espaços assistenciais, assim como na gestão das equipes e dos cuidados prestados aos usuários do serviço. No caso dos hospitais, o domínio pelos enfermeiros dos conhecimentos sobre gestão, assim como de ferramentas que contribuem para a sua realização eficiente e eficaz, contribui para a qualidade dos serviços prestados a população.

Na agenda contemporânea de diversos países observa-se a preocupação crescente com a disponibilização de serviços de saúde que prestem assistência segura e de qualidade2-3. Qualidade e segurança nos serviços de saúde tem relação com a força de trabalho, envolvendo diversos aspectos, dentre eles o seu provimento em quantidade e qualidade.

Estudos internacionais como o realizado em 243 hospitais de 6 países europeus4 e outro realizado em 60 hospitais na Coréia do Sul5, mostram que existe uma correlação direta entre equipe assistencial adequada, em quantidade e qualidade, com os resultados assistenciais envolvendo diretamente a segurança do paciente e a qualidade dos serviços ofertados.

Em relação a quantidade de profissionais de enfermagem requeridos para assistência, destaca-se a expressão “dimensionamento de pessoal de enfermagem” entendida como a etapa inicial do processo de provimento de profissionais, com o intuito de fornecer uma previsão da quantidade de profissionais por categoria de cuidado para suprir as necessidades de assistência de enfermagem realizada direta ou indiretamente aos pacientes6.

O dimensionamento constitui-se em recurso indispensável para o provimento do pessoal de enfermagem em quantidade e qualidade e também base para a organização da equipe necessária para o atendimento das necessidades dos pacientes, respeitando o grau de dependência por eles apresentados. E a classificação do paciente por grau de dependência constitui-se no primeiro passo, subsídio para o cálculo de dimensionamento. A realização da classificação diária e sistemática não só permite uma adequada organização da assistência e a realização do dimensionamento, mas também, significa uma reorientação para a assistência centrada no usuário, articulando melhorias para a criação de ambientes de prática favoráveis e positivos6-7.

O cuidado centrado no usuário, ou como assinalado pela Health Foundation, o “cuidado centrado na pessoa” pode ser definido com base em quatro princípios: garantia de que as pessoas serão tratadas com dignidade e respeito; oferta de cuidado ou apoio e tratamento coordenado; cuidado personalizado e apoio às pessoas; empoderamento das pessoas para uma vida independente e plena8. Para que os profissionais consigam tornar o cuidado de saúde mais centrado no usuário, tanto as instituições de saúde quanto os profissionais que nelas trabalham, precisam adotar diversas iniciativas e abordagens capazes de favorecer e prover o melhor atendimento aos usuários.

A classificação da situação de saúde dos usuários constitui-se em recurso do contexto teórico do cuidado progressivo ao paciente (CPP), desenvolvido a partir dos anos 1950 nos EUA e introduzido no Brasil na década de 1970. Este conhecimento e prática orientou uma reorganização da atenção hospitalar com a criação de unidades apropriadas para cada grau de cuidado9. O legado mais evidente deste processo foi a generalização de unidades de terapia intensiva UTI10-11). Atualmente, ocorre uma renovação desta concepção com a implementação de unidades semi intensivas e de alta dependência.

A classificação de pacientes na enfermagem vem se firmando como um instrumento relevante e indispensável para a organização da assistência com foco no usuário e para a realização do dimensionamento dos profissionais de enfermagem. Se realizada de forma diária e sistemática, a classificação reflete, também, uma estimativa de necessidades de cuidados para cada paciente6-7.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) estabeleceu diretrizes para o dimensionamento de pessoal com utilização da classificação de pacientes. Esta diretriz está presente na Resolução 189/1996, atualizada pela Resolução 293/2004, e substituída atualmente pela 0527/2016 que alterou o número de horas de assistência de enfermagem nas 24 horas, por categoria de cuidado, bem como, introduziu a alta dependência como mais uma das categorias12. O macro desafio que está colocado para a enfermagem é a prática da classificação diária das necessidades assistenciais dos usuários e o consequente dimensionamento adequado de profissionais para cuidados seguros e de qualidade. Cenários complexos e plenos de desafios, como são os ambientes de prática onde a enfermagem atua, constituiem-se em ambientes propícios para o pensar crítico e o uso de tecnologias inovadoras, como instumental para qualificar e facilitar esse trabalho.

No Brasil, uma tecnologia de gestão de unidades de internação hospitalares, denominada PRAXIS®(7 e que está em funcionamento em um Hospital Universitário, permite a utilização de um conjunto de ferramentas indispensáveis ao trabalho do enfermeiro, incluindo a classificação de pacientes. Os componentes estruturais do sistema PRAXIS® envolvem o Planejamento Participativo da Unidade (PPU), a Gestão de Processos Assistenciais (GPAS), a Gestão de Equipe de Enfermagem (GPEN) a Gestão de Materiais (GMAT) e a Gestão da Qualidade Assistencial (GQUALI). Além disso, o software PRAXIS® incorpora um painel eletrônico que disponibiliza, em tempo real, a classificação dos pacientes e outras informações relevantes para o trabalho cotidiano em unidade de internação. O módulo GPAS inclui um instrumento para a classificação dos pacientes. O instrumento de classificação inserido no software foi o elaborado por estudiosas do tema13) que o aplicaram em unidades de Internação de Clínica Médica. O resultado das classificações possibilita o cálculo das horas de assistência de enfermagem requeridas na unidade, base para o dimensionamento dos profissionais necessários7.

Diante de um amplo consenso de que o dimensionamento adequado, e uma gestão coerente, são precondições para ambientes de prática positivos, formulou-se a seguinte questão norteadora do estudo: De que modo as atividades gerenciais dos enfermeiros, de classificação de pacientes e cálculo do dimensionamento de profissioanis de enfermagem, podem ser facilitadas com a utilização de uma tecnologia informatizada? Neste contexto, o objetivo do estudo foi aplicar recursos da tecnologia PRAXIS® para a realização da classificação de pacientes e posterior dimensionamento de profissionais em uma unidade de internação de clínica médica.

MÉTODO

O estudo realizado está no campo das pesquisas de intervenção, e orientou-se pelo preceitos da Pesquisa Convergente Assistencial (PCA)14, a qual é adequada para objetivos de investigação e intervenção no contexto da prática de Enfermagem, a partir da interação do pesquisador com determinada realidade. Trata-se de estudo do âmbito da dimensão gerencial da prática profissional do enfermeiro, no qual foi realizada uma intervenção em uma unidade de internação hospitalar utilizando uma tecnologia de gestão PRAXIS®(7.

O estudo seguiu as quatro fases da PCA: concepção, instrumentação, perscrutação e análise.

Na fase de concepção, procedeu-se a delimitação do tema, bem como a elaboração do objetivo do estudo. O espaço físico/local da pesquisa e os participantes da pesquisa foram definidos na fase de instrumentação. Essa fase é descrita como a fase onde ocorre o delineamento dos aspectos metodológicos14. Considerando o objetivo definido, a pesquisa ocorreu na unidade de internação de clínica médica de um hospital universitário da região Sul do Brasil, onde o software PRAXIS® encontra-se instalado, tendo como participantes a equipe de enfermagem utilizando o instrumento de classificação de pacientes13, disponível no referido software.

Na fase de perscrutação, ocorreu a coleta de dados que envolveu a classificação dos pacientes por grau de dependência da equipe de enfermagem e o cálculo de dimensionamento da equipe. Teve inicío com convite, apresentação dos objetivos da pesquisa e sensibilização dos profissionais e treinamento para utilização do instrumento de classificação do paciente e realização do cálculo de dimensionamento de profissionais de enfermagem. Esse convite foi realizado pela pesquisadora a todas às enfermeiras dos três turnos matutino, vespertino e noturno, totalizando 9 enfermeiras assistenciais mais a chefia da unidade de clínica médica que dispõe de 25 leitos. As 10 enfermeiras aceitaram o convite e participaram da pesquisa que foi realizada durante três meses, de 01 de abril a 30 junho de 2016. Para efeito do cálculo de dimensionamento foram utilizados os dados referentes ao mês de junho de 2016 totalizando 633 classificações. O perfil dos pacientes internados nessa unidade de clínica médica é majoritariamente de pacientes com doenças crônicas, incluindo as especialidades de cardiologia, reumatologia, pneumologia, endocrinologia, acrescidos de 8 leitos da hematologia.

A classificação dos pacientes foi realizada pelas 10 enfermeiras lotadas na unidade, após capacitação feita pela pesquisadora, e ocorreu após a visita/ronda de enfermagem. Os pacientes internados foram classificados pelo menos uma vez no dia, na categoria que melhor identificasse o seu grau de dependência, podendo ser alterado dependendo da oscilação do mesmo. Após treinamento para a utilização do instrumento de classificação de pacientes13) estes foram classificados em uma das categorias que melhor identificava o seu grau de dependência, sendo elas: cuidados mínimos, intermediários, alta dependência, semi intensivo e intensivos. O total de classificações foi de 633. A dinâmica da classificação de paciente está articulada com a realização da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE). Após a realização da SAE, a enfermeira era convidada a realizar a classificação dos pacientes. Esse fluxo é possível, pois o sistema PRAXIS® se integra com o sistema de administração hospitalar.

O ideal é que os pacientes sejam classificados a cada 24 horas, podendo inclusive serem reclassificados dentro deste período, se a situação clínica do mesmo modificar-se significativamente. Para fins do dimensionamento é importante que todos os pacientes sejam classificados pelo menos durante 30 dias, e em um mês considerado típico6. O instrumento de classificação de pacientes utilizado13 possui nove áreas de cuidado, incluindo estado mental, oxigenação, sinais vitais, motilidade, deambulação, alimentação, cuidado corporal, eliminação e terapêutica. A figura 1 mostra uma das telas do software PRAXIS®(7, com as áreas do instrumento de classificação de pacientes adotado13).

Fonte:Imagem adaptada do instrumento utilizado7,13

Figura 1 Tela do Instrumento de Classificação de Pacientes 

As categorias de cuidados adotadas no PRAXIS® estão descritas em estudo brasileiro6 incluindo Cuidados Intensivos (CIn), Semi-Intensivos (CSI), Alta Dependência (CAD), Cuidados Intermediários (CI), Cuidados Mínimos (CM). Essas categorias também estão referendadas nas resoluções do Cofen 293/2004 e 0527/201612.

Após a realização da classificação do paciente no sistema PRAXIS®, a cor que caracteriza o grau de dependência desse paciente fica disponível para visualização da equipe em um painel eletrônico. O paciente recebe cor verde se estiver em cuidados mínimos, azul se estiver em cuidados intermediários, amarelo se estiver em alta dependência e vermelho se estiver em semi-intensivo ou em cuidados intensivos.

Finalmente, na última fase da PCA, análise14, os dados foram sintetizados e teorizados. Nesta fase, o quadro teórico conceitual de referência foi utilizado para a análise dos dados, articulando teorias e conceitos sobre gestão em saúde e enfermagem e gestão de unidades de internação, assim como sobre classificação do paciente por grau de dependência da equipe e cálculo de dimensionamento dos profissionais de enfermagem. Para o dimensionamento utilizou-se os parâmetros estabelecidos na Resolução Cofen 0527/201612 e os disponíveis em publicação de 20166.

Em relação aos aspectos éticos foram respeitadas todas as recomendações das resoluções 466/2012 e 510/2016, do Conselho Nacional de Saúde. Os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido e os dados foram coletados após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH) da Universidade Federal de Santa Catarina, sob nº 1.475.623.

RESULTADOS

A Pesquisa Convergente Assistencial (PCA), em todas as suas fases, mostrou-se útil ao estudo de intervenção proposto, orientou o processo de pesquisa desde a concepção até a interpretação dos resultados. Os enfermeiros atuantes na unidade participaram da coleta de dados e da discussão acerca dos dados obtidos, assim como da utilidade dos recursos da tecnologia PRAXIS®, instalada na unidade de clínica médica onde o estudo foi realizado.

A seguir estão descitos os resultados relativos a classificação diária dos pacientes e ao dimensionamento dos profissionais de enfermagem, tendo por base uma referência normativa e outra teórica.

Classificação diária dos pacientes por grau de dependência

No mês de junho de 2016, todos os pacientes da unidade foram classificados pelo sistema informatizado PRAXIS®, totalizando 633 classificações por grau de dependência. Os resultados mostraram: 186 (29,38%) pacientes em cuidados mínimos, 226 (35,71%) em cuidados intermediários, 209 (33,02%) em alta dependência, 9 (1,42%) em cuidados semi intensivos e 3 (0,47%) em cuidados itensivos.

Outros indicadores da unidade no mês de junho foram: a média de pacientes dia 21,16 pacientes/dia; média de permanência 12,12 dias e a taxa de ocupação 86,4%.

As classificações por grau de dependência oscilaram durante os 30 dias do mês de junho. Inicialmente predominaram pacientes em cuidados mínimos, seguidos dos em cuidados intermediários. Ao longo do mês ocorreu um aumento de pacientes em alta dependência e, até o final do mês, predominaram as categorias de cuidados intermediários e alta dependência. As categorias de cuidados semi-intensivo e intensivo apresentaram pequena oscilação ao longo do mês. Vale destacar que por ser uma unidade de internação de clínica médica esperava-se que não houvesse muitos pacientes classificados nessas categorias. Evidenciou-se, ainda, forte presença de pacientes em alta dependência e uma média de permanência de 12,12 dias.

Dimensionamento dos profissionais de Enfermagem

A partir das classificações dos pacientes por grau de dependência, utilizando a ferramenta inserida no sistema PRAXIS®, foi possível apreciar a carga de trabalho da unidade (horas de enfermagem necessárias)6, no mês de Junho de 2016 (considerado como mês típico para o referido cálculo), e assim realizar o levantamento estimado da equipe necessária para atender aos pacientes. O que pode ser visualizado na Tabela 1.

Tabela 1 Carga de trabalho da unidade. Junho de 2016 

Grau de cuidado MP* HR** THE***
Mínimo 6,22 4 24,88
Intermediário 7,56 6 45,36
Alta dependência 6,99 10 69,9
Semi intensivo 0,30 10 3
Intensivo 0,09 18 1,62
Total 21,16 144,76

Fonte:Dados da pesquisa, 2016.

* MP:Média de Pacientes (número de pacientes por categoria de cuidado).

** HR:Horas requeridas (total em horas de enfermagem para cada categoria de cuidado).

*** THE:Total de Horas de Enfermagem (total de horas de enfermagem requeridas).

O estudo mostrou que a unidade pesquisada, no mês de junho de 2016, teve uma carga de trabalho média diária requerida de 144 horas e 76 minutos. A oscilação do número de horas de enfermagem requeridas, diariamente, apresentou correlação direta com o maior número de pacientes internados.

A carga de trabalho de enfermagem, no mês de junho de 2016, foi identificada utilizando o instrumento disponível na tecnologia PRAXIS®, e para o cálculo do dimensionamento dos profissionais de enfermagem, necessários para atender os usuários da unidade, foram utilizados dois critérios: o estabelecido na resolução 0527 do COFEN de 201612 e as orientações das autoras usadas como referência6. A Tabela 2 identifica o número de profissionais disponibilizados na unidade no mês de junho de 2016 e a equipe requerida.

Tabela 2 Número de profissionais requeridos e disponibilizados com base no cálculo de dimensionamento da equipe de enfermagem em unidade de internação de clínica médica. Junho de 2016 

Equipe requerida Equipe disponibilizada
Profissionais Referência normativa* Referência teórica**
Enfermeiros 14 17 9
Técnico de enfermagem 25 30 24
Total 39 47 33

Fonte:Dados da pesquisa, 2016.

*Utilizou-se a Resolução Cofen12, considerando proporção entre enfermeiros e técnicos, pelo grupo de pacientes com maior carga de trabalho na unidade.

**Utilizou-se o modelo para dimensinamento de pessoal6, considerando 85% de tempo efetivo de trabalho e 65% de índice de segurança técnica.

DISCUSSÃO

A classificação de pacientes por grau de dependência tanto fornece ferramentas para os cálculos de dimensionamento de profissionais de Enfermagem, quanto estimula a prática de enfermagem usuário centrado. Cálculos de dimensionamento são fundamentais para o planejamento e organização da assistência, e a utilização de recursos de informática e programas computacionais contribuem para facilitar a realização desta atividade. Programas computacionais podem disponibilizar “informações quali-quantitativas eficazes para um adequado dimensionamento do quadro de profissionais, agilizando o processo de tomada de decisão com economia de custos, tempo e energia”6.

No presente estudo utilizou-se o instrumento de classificação de pacientes elaborado pelas referidas autoras13 e disponibilizado na tecnologia PRAXIS®(7). Essa tecnologia esta instalada em uma unidade de internação de clínica médica, mostrou-se útil como ferramenta que favorece o fazer de enfermagem mais qualificado e focado nas necessidades dos usuários. Os resultados da classificação por grau de dependência de cuidado, sendo 33,02% para alta dependência e 35,71% para intermediário (correspondendo a mais de 2/3 dos pacientes) corroboram com estudos prévios realizados na mesma unidade de internação7 e também em outros estudos13,15-16. Esses estudos destacam o aumento crescente de pacientes em cuidados de alta dependência nas unidades de internação e o aumento no grau de complexidade/dependência, instabilidade clínica e gravidade dos pacientes, o que resulta maior carga de trabalho dos profissionais de enfermagem15-16.

No Brasil, no final do ano de 2016, o Conselho Federal de Enfermagem publicou a Resolução 0527/201612 que atualizou o disposto anteriormente, estabelecendo parâmetros para o dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem nos serviços/locais em que são realizadas atividades de enfermagem. A resolução apresenta pontos positivos e pontos questionáveis e que carecem revisão. Entre os positivos, destaca- se a introdução de conceitos e metodologia de cálculo de pessoal de enfermagem para unidades assistenciais, de apoio diagnóstico e terapêutica, centro cirúrgico, área de saúde mental, unidades assistenciais especiais (UAE) e parâmetros para dimensionar os profissionais na Atenção Primária à Saúde (APS). Ainda sobre os pontos inovadores e positivos relativos a conceitos e metodologia de cálculo de pessoal de enfermagem em unidades de internação, salienta-se a inclusão da categoria de cuidados de alta dependência; a atualização das horas de assistência de enfermagem, por paciente, nas 24 horas e a distribuição percentual do total de profissionais de enfermagem. Essa distribuição considera que para cuidado mínimo e intermediário: 33% deve ser de enfermeiros (mínimo de seis) e os demais auxiliares e/ou técnicos de enfermagem; para cuidados de alta dependência: 36% deve ser de enfermeiros e os demais técnicos e/ou auxiliares de enfermagem; para cuidado semi- intensivo: 42% de enfermeiros e os demais técnicos de enfermagem; e para cuidados intensivos: 52% de enfermeiros e os demais técnicos de enfermagem12.

Permanece como uma perspectiva a ser alcançada, o aspecto relacionado ao índice de segurança técnica IST que, conforme disposto nos artigos 10, 13 e 14 da Resolução 0527/201612, consideram o IST de 15% do total do quantitativo de profissionais, referente a férias e ausências não previstas; 5% do quadro geral de profissionais de enfermagem da instituição para cobertura de situações relacionadas à rotatividade de pessoal e participação em programas de educação permanente. E, mais 10% ao quadro de profissionais de enfermagem de unidades assistenciais, composto por 50% ou mais de pessoas com idade superior a 50 anos ou 20% ou mais profissionais com limitação/restrição para o exercício das atividades. Ou seja, o IST considerado pela resolução 0527/2016 é de no máximo 30%. Estudo6 indica um IST de 65% para jornada de 30 horas semanais, incluindo 40% para folgas semanais remuneradas, 3,6% para folgas com feriados não coincidentes com domingo, 9% para 30 dias de férias, 3% para faltas e licenças e 1,5 para treinamento e desenvolvimento. Esse aspecto divergente entre a resolução e a literatura, indica a necessidade e a importância de mais estudos sobre o tema.

Os resultados desta pesquisa, mostram que, considerando os dois referenciais escolhidos, teórico6 e Resolução Cofen 0527/201612, existe sobrecarga de trabalho e subdimensionamento da equipe na unidade estudada. Esses fatores de sobrecarga e subdimensionamento prejudicam a qualidade da assistência e a segurança do paciente.

Uma pesquisa realizada em 60 hospitais por pesquisadores5, na Coréia do Sul, verificou uma relação direta entre o inadequado dimensionamento de profissionais de enfermagem e realização de horas extras com o aumento dos eventos adversos. Esse estudo faz uma correlação direta de que quanto maior o número de pacientes por enfermeiro, maiores as chances de falhas relacionadas a segurança do paciente, má qualidade nos cuidados e cuidados deixados de lado devido à falta de tempo. Encontra- se na literatura o registro de que há relação entre número e qualificação profissional com a qualidade e segurança dos cuidados realizados4,17. O quantitativo de profissionais adequados e o melhor nível educacional do profissional são uma precondição para realização de cuidados seguros e de qualidade, e proporcionam ambientes de prática mais favoráveis aos usuários e aos profissionais. Há uma relação entre quantitativo e formação profissional, com a taxa de mortalidade e qualidade dos cuidados17. O referido estudo foi realizado em 243 hospitais em 6 países: Bélgica, Inglaterra, Finlândia, Irlanda, Espanha e Suíça, e mostrou que uma maior proporção de enfermeiros na equipe está associada a melhores resultados para os pacientes. Existe uma combinação positiva entre a maior proporção de profissionais enfermeiros qualificados com a redução da taxa de mortalidade, melhor avaliação do paciente com relação aos seus cuidados e também menor taxa de eventos adversos. O referido estudo relata que a redução de 10% na proporção de enfermeiros profissionais está associada com um aumento de 12% na probabilidade de morte dos pacientes.

Os enfermeiros possuem papel indispensável na construção de ambientes de prática positivos e favoráveis, o que implica, além do quantitativo e qualitativo adequado de profissionais, uma gestão coerente, que proporcione o alcance de ambientes agradáveis, seguros e com profissionais eficientes e satisfeitos7. A mudança dos ambientes de prática, para ambientes mais favoráveis e positivos, inclui fatores organizacionais, estruturais e assistenciais. E essa mudança tem relação com a cultura do ambiente de trabalho, que envolve os diferentes fatores acima mencionados18.

O software PRAXIS® é uma ferramenta que vai ao encontro da proposta de melhoria dos ambientes de prática, todavia o grande desafio é a garantia de utilização dessas ferramentas de forma sistemática e contínua no fazer profissional do enfermeiro. Neste sentido o presente artigo foi resultado de uma dissetação de mestrado19 que buscou demonstrar a utilidade de tecnologias deste tipo para a qualificicação da gestão em enfermagem em ambientes hospitalares. A importância da informática na saúde e na prática de enfermagem, também é mencionada em outros estudos20) como necessária para a qualidade e segurança deste trabalho profissional.

CONCLUSÃO

A classificação de pacientes e o dimensionamento dos profissionais de enfermagem são indispensáveis para identificação do quadro de pessoal necessário para atender os usuários em seus graus de dependência. A utilização de uma tecnologia de gestão para realizar a classificação de pacientes contribuiu para a agilidade e segurança no cálculo de dimensionamento de profissionais de enfermagem. Ambos estão diretamente relacionados, são indispensáveis para a gestão em enfermagem e de difícil realização cotidiana, no entanto, a utilização de recursos do software PRAXIS® demostrou que tecnologias informatizadas constituem-se em um recurso promissor.

Estudos como este reforçam a importância da aplicação cotidiana da classificação e dimensionamento e destacam que um grande desafio para a uma prática assistencial adequada e segura é a realização desses processos, de forma sistemática e contínua pela enfermagem. Tecnologias como o software PRAXIS® contribuem para a gestão em enfermagem e para qualificar as práticas assistenciais, no sentido de prover melhoria de ambientes de prática para usuários e profissionais. Além disso, a tecnologia PRAXIS® constitui-se em recurso para o ensino e a pesquisa em enfermagem. No caso do ensino, o software também pode ser utilizado no âmbito das práticas de simulação e no caso da pesquisa, o banco de dados armazenado permite analisar diferentes dados sobre gestão em unidades de internação hospitalares.

Como limitação deste estudo pode-se mencionar que, apesar da tecnologia PRAXIS® integrar diversas ferramentas do trabalho do enfermeiro, a mesma ainda não é aplicada cotidianamente, em todos os seus recursos, pela equipe de enfermagem e, até hoje, está implantada, apenas em uma unidade de internação piloto. No entanto, encontra-se em desenvolvimento a versão 2.0 que possibilitará a sua utilização em outros tipos de unidades que integram o ambiente hospitalar.

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Recebido: 08 de Junho de 2017; Aceito: 06 de Outubro de 2017

Autor correspondente: Lara Vandresen. laravandresen@hotmail.com

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