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Revista Gaúcha de Enfermagem

Print version ISSN 0102-6933On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.40  Porto Alegre  2019  Epub July 29, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2019.20180277 

Artigo Original

O olhar de alunas de escola pública sobre o preservativo feminino

La visión de las alumnas de la escuela pública sobre el preservativo femenino

Alexia Aline da Silva Moraesa 
http://orcid.org/0000-0003-1436-6516

Cleuma Sueli Santos Sutoa 
http://orcid.org/0000-0002-6427-5535

Ester Mascarenhas Oliveirab 
http://orcid.org/0000-0002-6643-6910

Mirian Santos Paivab 
http://orcid.org/0000-0003-4399-321X

Cláudia Suely Barreto Ferreiraa 

Marizete Alves da Silva de Amorim Barretoa 
http://orcid.org/0000-0003-1102-0368

a Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Departamento de Educação-Campus VII. Senhor do Bonfim, Bahia, Brasil.

b Universidade Federal da Bahia (UFBA). Escola de Enfermagem. Salvador, Bahia, Brasil.

Resumo

OBJETIVO

Conhecer as representações sociais de alunas sobre o preservativo feminino.

METODOLOGIA

Estudo exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa, apoiado na Teoria das Representações Sociais. Participaram 94 alunas de Ensino Médio, cursos técnicos e Educação de Jovens e Adultos, de escolas públicas de um município do interior da Bahia-Brasil, que responderam ao teste de associação livre de palavras. As evocações foram submetidas aos softwares EVOC e IRAMUTEQ.

RESULTADOS

As alunas reconhecem que o preservativo feminino é uma tecnologia que proporciona autonomia, protege de infecções sexualmente transmissíveis e evita a gravidez. Em contraposição, relatam que o estranhamento e o desconforto são elementos importantes que justificam o não uso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As representações sociais apontam necessidades de estratégias que promovam trocas de informações e estimulem o conhecimento prático sobre o preservativo feminino entre as estudantes de escolas públicas.

Palavras-chave: Preservativo feminino; Sexualidade; Saúde da mulher

Resumen

OBJETIVO

Conocer las representaciones sociales de alumnas sobre el preservativo femenino.

MÉTODO

Estudio exploratorio y descriptivo, con abordaje cualitativo, apoyado en la Teoría de las Representaciones Sociales. Participaron 94 alumnas de Enseñanza Media, cursos técnicos y Educación de Jóvenes y Adultos, de escuelas públicas de un municipio del

interior de Bahía-Brasil, que respondieron a la prueba de asociación libre de palabras. Las evocaciones fueron sometidas al software EVOC e IRAMUTEQ.

RESULTADOS

Las alumnas reconocen que el preservativo femenino es una tecnología que proporciona autonomía, protege de infecciones sexualmente transmisibles y evita el embarazo. En contraposición, relatan que el extrañamiento y la incomodidad son elementos importantes que justifican el no uso.

CONSIDERACIONES FINALES

Las representaciones sociales apuntan necesidades de estrategias que promuevan intercambios de informaciones

y estimulen el conocimiento práctico sobre el preservativo femenino entre las estudiantes de escuelas públicas.

Palabras clave: Condones femeninos; Sexualidad; Salud de la mujer

Introdução

O início precoce da vida sexual entre as mulheres tem contribuído para o aumento dos riscos relacionados ao abortamento e às infecções sexualmente transmissíveis (IST)1. Os avanços na elaboração das políticas e diretrizes de prevenção das IST/aids entre as mulheres, no Brasil, no ano de 2003, esbarraram em limites na sua implementação. Vale citar que a prevenção de IST por meio da estratégia de uso do preservativo feminino garantia acesso a “certos” grupos de mulheres, como as acolhidas em programas de atendimento às mulheres em situação de violência sexual, doméstica e serviços de assistência especializada, excluindo as demais, também, vulneráveis às IST1.

A forma como ocorreu a distribuição do preservativo feminino provocou estigma e preconceito na população, tanto com o preservativo, como ao público destinado. Tal embaraço faz olhar para as experiências feministas das últimas décadas e podem ajudar a enxergar o desconhecido.

[...] e ouvir os silêncios impregnados de desejos de rupturas: do conservadorismo sobre sexualidade; do heterossexismo que permeia o feminismo na saúde; do distanciamento entre os movimentos que lutam contra a aids; da conveniente convivência no sistema capitalista, racista e patriarcal (2:136) .

Em uma análise epidemiológica, por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação, entre os anos de 2007-2017, em relação ao Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), o Nordeste ocupa o terceiro lugar em notificações, com 30.297 dos 194.217 casos ocorridos no Brasil. Em relação à faixa etária, 52,5% dos casos nacionais se concentram na população de 20-34 anos, sendo uma população jovem, produtiva e, principalmente, reprodutiva, o que merece atenção quanto ao risco da transmissão vertical. Entre jovens de 13 a 19 anos, o número de casos de aids é maior entre as meninas3.

Ainda com base nas notificações, as mulheres negras ou pardas são mais vulneráveis ao HIV, com 55,9% dos casos. Mulheres negras são a população mais acometida pelo HIV, quando levado em consideração o indicador raça/gênero. Mulheres, jovens, heterossexuais e com renda financeira baixa configuram os indivíduos mais acometidos pelo HIV3.

A articulação de táticas para reduzir casos da Síndrome da Imunodeficiência Humana - aids, em proporção mundial, incluiu a implantação, distribuição de preservativos aos grupos mais vulneráveis e divulgação, por órgãos públicos, sobre a eficácia, utilização e acessibilidade do insumo pela população. Na primeira década do século XXI, o Ministério da Saúde do Brasil (MS) responsabilizou-se pela aquisição e distribuição gratuita desse insumo, porém, só para as mulheres em situação específica de risco.

O preservativo feminino é uma tecnologia que previne contra as IST e tem a pretensão de promover a autonomia feminina nas relações sexuais. Além dessa especificidade, tem a aspiração de ser facilitador na argumentação com o parceiro sobre a prática de “sexo seguro”. No entanto, a opinião negativa do parceiro sobre o método ainda é um entrave em sua utilização, pois, na sociedade, ainda prevalece a assimetria das relações de gênero4.

As relações patriarcais ainda persistem na sociedade brasileira e, principalmente, nos relacionamentos sexuais5. As decisões sobre os aspectos da relação sexual e a prevenção de IST/gravidez, em alguns casos, são atribuições exclusivamente masculinas, demarcam as dificuldades de mulheres negociarem com seus parceiros sobre o uso de método de prevenção e potencializam sua submissão a práticas inseguras e a vulnerabilidades.

Nessa lógica, as relações de gênero nomeiam-se como uma dominância do parceiro sobre a submissão da mulher, sendo maior nas mulheres que possuem algum tipo de dependência, como as mais jovens e com menor instrução educacional6. Abordar a temática da “educação sexual” com a juventude pode contribuir com a diminuição da morbimortalidade desse grupo, por meio da educação e, consequentemente, com a adoção de atitudes preventivas, dentre elas, o uso do preservativo feminino.

Mulheres jovens que coabitam o espaço escolar constituem-se em um determinado grupo social e, portanto, constroem representações sociais. A Teoria das Representações Sociais (TRS) busca a percepção analítica consensual de algo popular do seu convívio, construída pelo grupo social, onde a representação e o objeto são essenciais um para o outro7.

Assim, para essa pesquisa, foi utilizada como questão norteadora: “O que mulheres jovens e estudantes pensam sobre o preservativo feminino?”. Desse modo, esse estudo buscou conhecer as representações sociais de alunas sobre o preservativo feminino.

A fim de descrever fatores que dificultam/facilitam a aceitação do preservativo feminino entre as estudantes, esse artigo tem a pretensão de que, a partir do conhecimento das representações sociais deste grupo, sejam estimulados outros trabalhos científicos que abordem essa temática e tantas outras que circundam a saúde da mulher. Ressalta-se que a escola tem um papel fundamental na formação dos/as jovens, inclusive no tocante às questões de gênero e sexualidade. Para a Enfermagem, essa pesquisa buscará realçar a importância que tem a educação em saúde e, principalmente, a necessidade de orientação adequada sobre a utilização do preservativo feminino.

Método

Artigo baseado em monografia defendida na UNEB, em 20178. Trata-se de um estudo exploratório e descritivo, aportado na Teoria das Representações Sociais, com abordagem qualitativa. As representações sociais têm uma grande relevância enquanto teoria por buscar atribuir sentido aos elementos conhecidos7. Dentre as suas quatro abordagens, utilizou-se a estrutural, por propiciar o aprofundamento necessário ao objeto em estudo - preservativo feminino.

Na abordagem estrutural, as representações sociais possuem um núcleo central e os sistemas periféricos. O núcleo central é construído coletivamente com poucas alterações e os sistemas periféricos estão mais sujeitos a modificações e podem se diferenciar do conteúdo explicitado no núcleo central7.

Participaram deste estudo alunas de escolas públicas, do município de Senhor do Bonfim - Bahia, com oferta de Ensino Médio, curso técnico e Educação de Jovens e Adultos (EJA). A inclusão em cada uma das escolas correspondeu aos seguintes critérios: estar regulamente matriculada no terceiro ano do nível médio, no turno noturno, frequentar a escola e ter idade entre 18 e 30 anos. Foram excluídas da pesquisa pessoas que se autodeclararam pertencer ao sexo masculino por serem declaradamente transgêneros. Foi preservada a autonomia das instituições e as mesmas autorizaram a realização do estudo no estabelecimento. Com idade entre 18 e 29 anos, 94 estudantes compuseram o estudo.

Para a realização da coleta de dados, foi utilizado um questionário composto por elementos biopsicossociais e por um espaço destinado à Técnica de Associação Livre de Palavras (TALP). Sua aplicação ocorreu entre os meses de outubro e dezembro de 2017. Em sua execução, foram solicitadas cinco palavras ou expressões que chegassem à lembrança a partir do termo indutor “preservativo feminino” e, em seguida, que justificassem o termo que foi considerado como o mais importante.

O questionário impresso contendo o TALP foi aplicado coletivamente, considerando o grupo de pertença, no entanto, as respostas de cada aluna foram escritas pelas mesmas, de maneira individual e sigilosa. Os dados advindos desta coleta foram transferidos para o Microsoft Word e procedeu-se à Lematização. A Lematização é o processo de deflexionar uma palavra para todas as formas como uma palavra possa ser encontrada no corpus/texto, e esse momento é importante por propiciar, ao pesquisador, na análise e discussão desses dados, resultados mais encorpados e consistentes. Assim, palavras diferentes, porém, com o mesmo sentido semântico, foram padronizadas, priorizando-se a palavra mais evocada, acionando ao corpus que foi inserindo no EVOC, versão 20059.

Na organização dos dados, foram utilizados: a ferramenta Word para a elaboração da frequência simples dos elementos biopsicossociais, o software Ensemble de programme spermettanti’ analyse des evocationse - EVOC, versão 2005, e o interface de R Pourles Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires - IRAMUTEQ para dados do TALP10. O software EVOC é caracterizado por múltiplos sistemas que atuam em conjunto por meio das estatísticas das evocações. Como resultado desse processamento, desenvolve o quadro de quatro casas organizado pela frequência e ordem pelas quais foram mencionadas as palavras evocadas pelas participantes9.

O quadro de quatro casas se configura em quatro quadrantes que amparam grupos de palavras conforme a frequência em que foram mencionadas. No quadrante esquerdo superior, se encontram os termos mais frequentes e prontamente evocados, tendo uma maior chance de encontrar o termo central ou principal das representações sociais, devido à presença dos termos com maior frequência se encontrar nesse local. Nos quadrantes superior direito e inferior esquerdo, são os termos que tiveram uma evocação média, que pode realçar os termos centrais ou não. E os termos do quadrante direito inferior foram os menos evocados em relação aos demais quadrantes.

Dentre as possibilidades de análise do IRAMUTEQ, optou-se pela nuvem de palavras, que possibilita uma interpretação visual mais ampla e expressiva na qual os termos que foram mais evocados têm um dimensionamento maior em comparação aos outros termos. A utilização dos dois softwares mencionados auxiliou na análise dos dados coletados. Além disso, estudos embasados na TRS envolvendo o uso dos recursos informáticos supracitados garantem maior robustez no tocante à discussão dos resultados provenientes da aplicação do TALP(7, 9,11).

Os resultados advindos do quadro de quatro casas e da nuvem de palavras foram confrontados e analisados à luz do referencial teórico/metodológico da TRS e da literatura atual sobre a temática do preservativo feminino.

Este estudo seguiu o que preconiza os aspectos bioéticos, que são: não maleficência, beneficência, autonomia, justiça e equidade, primando sempre pela dignidade humana sobre a pesquisa científica. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade do Estado da Bahia - UNEB sob o CAAE número 65439317.3.0000.0057.

Resultados e Discussão

Os resultados da caracterização biopsicossocial das 94 alunas que contribuíram com o estudo apontam que 57 delas têm idade entre 18 a 24 anos e as demais têm idade entre 25 e 29 anos. As participantes cursavam diferentes modalidades de ensino, sendo 12 pertencentes ao Ensino Médio, 11 pertencentes à Educação de Jovens e Adultos e 71, ao curso técnico conjugado com o Ensino Médio. Em relação à religião, 55 eram católicas e 24, evangélicas, sendo que 11 negaram ter religião. Em relação à autodeclaração da cor/raça, 80 participantes autodeclaram-se negras.

As participantes declararam-se, quanto ao estado civil, ser solteiras (66) e casadas (24). Quanto à prática sexual, 52 afirmam ter iniciado a vida sexual após completar 16 anos; 26, antes dos 16 anos e 11 asseguram não ter vivido a primeira experiência sexual. Em relação ao parceiro sexual, 60 afirmaram ter parceiro fixo, porém, 66 afirmaram que, em um ano, tiveram de um a dois parceiros.

Com relação aos dados provenientes do TALP e processados pelo software EVOC, o corpus inicial foi constituído por 450 palavras ou termos e, após a lematização, estas foram condensadas em 57 termos diferentes. Na análise, a ordem média de evocação (OME) foi de 2,9 em uma escala de um a cinco. Como critério adotado pelas pesquisadoras, as evocações com frequência menor ou igual a quatro foram descartadas. O software EVOC delimitou uma frequência intermediária de 13 e o corpus teve um aproveitamento de 89,6%. Como resultado da análise, o software forneceu o quadro de quatro casas, representado na figura 1.

Fonte: Dados da pesquisa, 2018.

Figura 1: Quadro de Quatro Casas ao termo indutor “preservativo feminino”. Senhor do Bonfim-Bahia-Brasil, 2018. 

No quadro de quatro casas, situam-se no primeiro quadrante esquerdo os termos que foram evocados com maior frequência e acessados de imediato na memória das participantes. O conteúdo desse quadrante apresenta uma probabilidade maior de concentrar o núcleo central da representação, devido às características próprias desse quadrante, pois, habitualmente, os termos são precursores e se comunicam. Os dados constituintes do núcleo central são os principais e possibilitam dar significado aos outros quadrantes7.

Ao observar o quadro de quatro casas na figura 1, percebe-se que, na composição do núcleo central, os termos são interligados e hegemônicos. O termo ‘prevenção’ teve uma evocação muito superior, em comparação aos demais termos, sendo evocado 66 vezes pelas alunas, representando 91,6% do total das participantes. O termo ‘proteção’ foi evocado 24 vezes e, na concepção das participantes, pode indicar certa semelhança com ‘prevenção’, realçando uma similaridade em relação à semântica entre as duas palavras. Ao agrupar os referidos termos, com o intuito de dar maior visibilidade e destacar a ideia de continuidade/prolongamento ‘prevenção/proteção’, perfazem os termos que foram evocados 90 vezes, entre as 94 participantes desta pesquisa, completando um total de 95,7%, que o caracteriza como elemento central desta representação.

Ao ativar, na memória, as palavras prevenção/proteção, às alunas participantes do estudo, conotam uma representação ancorada em um conhecimento reificado e difundido pelo governo brasileiro, por meio de políticas públicas. Desde o ano de 2000, a oferta do preservativo feminino foi adotada como uma estratégia de prevenção e proteção para a redução de casos de aids na população feminina, por meio do Ministério da Saúde e impulsionada pelas políticas públicas de prevenção ao HIV/aids e pela indústria farmacêutica12.

O alto percentual de evocações dos termos prevenção/proteção, quando se fala em preservativo feminino, aponta que as alunas acessaram imediatamente aspectos relacionados à funcionalidade do preservativo feminino enquanto tecnologia de proteção e prevenção. Estudo revelou que, principalmente, quando se fala em IST, realçando o HIV/aids, e sobre a gravidez não planejada, o preservativo feminino é um método (tecnologia) que favorece a autonomia da mulher, principalmente nas situações em que o parceiro se nega a utilizar outros métodos13.

Achados de um estudo apontaram que utilizar o preservativo feminino enquanto método anticoncepcional aumenta os riscos provenientes da implicação em seu abandono após a estabilidade no relacionamento ou o uso de outro método contraceptivo. As autoras mencionam que o uso do preservativo pelas participantes da pesquisa apenas era feito nos relacionamentos casuais e que algumas mulheres optaram pelo uso desse dispositivo devido a dificuldades na utilização de outros métodos contraceptivos. Essa mesma pesquisa apontou que uma porcentagem de mulheres, participantes do referido estudo e com uma idade maior, mantinha a preocupação de recomendar o preservativo para os filhos devido ao risco do HIV e da gravidez não planejada14.

O termo prevenção como cognição imediatamente acessada pelas alunas pode estar relacionado à prevenção de uma gravidez. Histórica e culturalmente, as mulheres são encarregadas da prevenção de uma futura gestação, por ser atrelada às pessoas desse gênero a responsabilidade sobre o controle da natalidade. Com o surgimento da gestação, ocorrem diversas mudanças biopsicossociais na vida da mulher15. As mulheres, quando mencionaram os termos prevenção/proteção, em relação ao preservativo feminino, também o referenciaram como um dispositivo para a prevenção de IST.

Ainda no quadrante do núcleo central da representação, o termo ‘DIU’ (Dispositivo Intrauterino) sinaliza um pensamento ligado à contracepção. As participantes refletem sobre o preservativo feminino e acessam imediatamente termos que remetem a uma ideia de “autonomia” quanto à questão de evitar uma gestação. O termo DIU salienta a responsabilidade que é atribuída à mulher pela sociedade e adotada por ela na prevenção da gravidez em suas relações sexuais15. A configuração do núcleo central expõe ainda os termos ‘saúde e cuidado’ que, embora apresentem uma frequência menor de evocação, demonstram a vinculação do preservativo feminino a uma consciência quanto à importância de seu uso.

As participantes deste estudo apontam, no núcleo central das representações sociais, termos hegemônicos e interligados, reconhecendo o preservativo como um dispositivo para se precaver diante dos riscos (aquisição de uma gravidez não planejada e IST) e para assegurar equilíbrio da saúde e do bem-estar. Os termos ‘evita gravidez e DST’, que aparecem na primeira periferia, reforçam a ideia da necessidade do poder de decisão sobre o seu corpo.

A primeira periferia agrega termos com alta frequência e com menor saliência. Neste estudo, os termos ‘evita gravidez’ (34) e ‘DST’ (15) sustentam a ideia do preservativo feminino enquanto tecnologia de proteção/prevenção. No entanto, ao analisar os termos e a frequência com a qual foram citados, corroboram-se estudos que afirmam que as jovens estão mais preocupadas com a gravidez não planejada do que com a aquisição de uma IST, o que eventualmente as leva a dispensar o uso do preservativo e utilizar o anticoncepcional hormonal16. O termo DST, evocado pelas alunas, denuncia a ausência ou o deficit nas discussões sobre essa temática por esse grupo, uma vez que o termo foi alterado para IST e as mesmas continuam a utilizá-lo como DST.

Os termos ‘desconfortável’ (27) e ‘estranho’ (15), também presentes na primeira periferia, apontam para algumas das dificuldades que as mulheres enfrentam no uso do preservativo. Para a utilização desse dispositivo, se faz necessário manusear a região íntima, bem como conhecê-la. Outra dificuldade apontada foi a modificação na aparência da genitália feminina com o uso do instrumento, e tal ‘estranheza’ pode provocar a perda ou redução de libido do parceiro, o que foge ao papel feminino construído historicamente de ser objeto de desejo e prazer. Outro aspecto pode ser a necessidade de posicionamento frente à oposição do parceiro quanto ao uso do método que, por vezes, provoca a necessidade de negociação entre o casal, fato que pode acarretar desconfiança relacionada à fidelidade feminina/masculina4.

O termo ‘segurança’ (26) pode estar relacionado à eficácia a que se propõe o preservativo feminino17. As alunas deste estudo, ao evocarem o termo segurança, dão sustentação à ideia de que o uso do preservativo feminino está relacionado à prevenção de gravidez não planejada e de IST, que também pode estar ligado a uma sensação de tranquilidade no ato sexual e maior autonomia sobre o seu corpo.

A zona de contraste, ou quadrante inferior esquerdo, pode ser composta por termos que sustentam as ideias anteriormente expostas no núcleo central e na periferia próxima ou ser composta pelo surgimento de um subgrupo que se distancia dos demais por apresentar uma representação diferenciada7. Na figura 1, a zona de contraste é composta pelos termos camisinha (10), sexo (10) e indispensável (7), o que realça a importância de um ato sexual seguro e protegido.

Entretanto, a zona de contraste com termos com menor ordem média (OME) também revela a rejeição de algumas mulheres frente às características do método como: ‘grande’ (9) e ‘chato’ (6) e os termos ‘nunca usei’ (6) e ‘não sei usar’ (4), evidenciando a ausência de familiaridade com o dispositivo. A ausência de familiaridade e o estranhamento com o método podem indicar uma falha na educação em saúde sexual trabalhada nas escolas e na atenção básica, mas também uma lacuna quanto à abordagem desse tema dentro do núcleo familiar. Outro aspecto que deve ser ressaltado é a dificuldade na disponibilidade do método, o que acaba impedindo ou reduzindo a divulgação e a oferta deste.

Dialogar sobre aspectos relacionados à dimensão da sexualidade no ambiente familiar ainda é considerada uma tarefa árdua para os pais. E, quando acontecem, esses momentos são envolvidos por poucas informações, sendo a escola e a Unidade Básica de Saúde (UBS) as principais responsáveis por proporcionar momentos de debates e esclarecimentos de dúvidas entre estudantes e usuárias do serviço18.

A educação sexual em saúde é compreendida como a abordagem de diversos temas que envolvem a sexualidade, com a inserção de questões biológicas, afetivas, preventivas, relação de prazer e respeito17. A estimulação à adesão do preservativo feminino tem sido desenvolvida em unidades de saúde, necessitando apresentar informações claras e precisas, além de considerar a abordagem específica, a partir das características e singularidades de cada mulher.

Socialmente, acredita-se que as mulheres são o grupo mais interessado na utilização do preservativo feminino. Devido aos riscos imediatos a que estão expostas, tenderiam a preocupar-se mais com a prevenção em comparação aos homens. Estudo recente revelou que as mesmas não se sentem confortáveis em possuir ou transitar com o método e, caso necessitem do preservativo no momento da relação, admitiram ser esta uma atribuição do parceiro19.

As mulheres reconhecem a importância de utilizar o preservativo feminino, mas a característica do método e o desconhecimento sobre o mesmo ocasionam a rejeição na utilização. Dessa forma, a atuação dos profissionais de saúde se faz necessária, com informações pertinentes, a fim de possibilitar o conhecimento e a oportunidade de escolha da mulher pelo método a ser adotado.

Embora o preservativo feminino seja ofertado no Brasil pela atenção básica, é comum observar que a não familiaridade das mulheres com o método gera estranhamento quanto ao manuseio e ao uso dessa tecnologia. A ausência de familiaridade com as técnicas contraceptivas acarreta efeitos indesejáveis devido à ausência de conhecimentos sobre o método, a conhecimentos incoerentes ou insatisfatórios, à ausência na utilização do instrumento na prevenção, à utilização errônea, bem como à redução da eficácia do insumo. Tais questões dão pistas acerca do desconhecimento e do preconceito que circulam sobre a temática da sexualidade e direitos reprodutivos da mulher, implicando em questões explícitas de gênero, em um país onde mulheres jovens e de baixa renda são as mais vulneráveis ao HIV3.

Algumas participantes entendem que o preservativo feminino oferece prevenção e proteção, mas se percebe que a teoria ou definição iniciada no surgimento da epidemia da aids está enraizada nos discursos e nas representações dessas mulheres, em que elas não se consideram como “grupo de risco ou comportamento de risco” e se configuram como pouco provável que venha a adquirir uma IST4. Atitudes como esta podem gerar desconhecimento ou afastamento do método de barreira feminino como, também, a construção de pré-julgamentos negativos ou até mesmo o preconceito6.

A segunda periferia é construída por aspectos positivos e negativos em relação ao uso do preservativo feminino. Como positivos, destacam-se: importante (F:9); responsabilidade (F:7); amor (F:6); confiança (F:6); prático (F:6); prazer (F:6); independência feminina (F:5). E como negativos: não-prático (F:7); complicado-usar (F:6); ficar-dentro (F:6); intimidade (F:5); não-vontade-usar (F:5); tira-prazer (F:5).

Enquanto existem mulheres que encontram barreiras na utilização do preservativo feminino, outras relatam habilidade no uso e até uma relação prazerosa com o método. A descoberta de uma sensação nova, por ter que tocar a região íntima, ao utilizar o preservativo feminino, que, em alguns casos, não havia sido tocada, e relatos de melhora na relação sexual são apontados devido ao conhecimento do próprio corpo e ao empoderamento feminino6-7.

Os dados do TALP processados pelo software IRAMUTEQ apresentam-se na figura 2.

Fonte: Dados da pesquisa, 2018.

Figura 2: Quadro de nuvem de palavras proveniente do termo indutor “preservativo feminino” com substituição. Senhor do Bonfim-Bahia-Brasil, 2018. 

A nuvem de palavras, na figura 2, apresenta, como termo central, por sua maior frequência, a palavra ‘prevenção’ seguida dos termos: evita-gravidez, proteção, desconfortável, segurança, saúde, DST, cuidado e estranho.

A configuração da nuvem de palavras confirma a centralidade do termo ‘prevenção’ presente no núcleo central da figura 1, além de reforçar a ideia do preservativo feminino como tecnologia de prevenção que protege contra doenças e evita gravidez. Os termos negativos em relação ao preservativo feminino (desconfortável, chato, tira-prazer) podem estar associados à ausência de familiaridade e estranhamento com o método, assim como à dificuldade que a mulher tem em tocar seu próprio corpo e à ausência ou deficit de comunicação entre profissionais de saúde e jovens na Atenção Básica na qual a educação em saúde, voltada sem hierarquização de saber do profissional de saúde como detentor de toda a informação sobre o usuário, pode ser uma solução viável. A educação em saúde pode ser construída com o usuário de forma horizontal, crítica e reflexiva em busca da cessação de dúvidas de ambas as partes20.

Assim sendo, observou-se que as alunas utilizam adjetivos referentes ao preservativo masculino para qualificar o preservativo feminino, o que aponta para a cristalização de opiniões referentes ao dispositivo preservativo, independentemente de este ser direcionado para mulheres ou para homens.

Considerações Finais

As participantes do estudo, mulheres jovens e estudantes, apresentam representações sociais sobre o preservativo feminino objetivadas em dois parâmetros centrais: prevenção de doenças e proteção contra a gravidez. Compartilham valores socialmente construídos, disseminados e relacionados, embora as características entre o preservativo masculino e o preservativo feminino sejam bastante diferenciadas.

Esses elementos realçam as relações de gênero enraizadas em ideias patriarcais sobre a sexualidade de mulheres, evidenciadas pelo estranhamento, desconforto e não uso da tecnologia - preservativo feminino, o que se relaciona ao cerceamento da liberdade sexual e da autonomia reprodutiva das mulheres.

Esta pesquisa, a partir dos termos evocados, demonstra incipiência no conhecimento sobre o uso do preservativo feminino entre as alunas e salienta uma lacuna quanto à realização de ações de educação em saúde no ambiente escolar pelos (as) integrantes da Estratégia Saúde da Família, além de apontar para a importância do debate sobre o preservativo feminino como uma temática relevante a ser abordada em grupos e rodas de conversa sobre saúde e sexualidades que envolvem homens e mulheres.

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Recebido: 18 de Agosto de 2018; Aceito: 25 de Fevereiro de 2019

Autor correspondente: Cleuma Sueli Santos Suto. cleuma.suto@gmail.com

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