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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.40 no.spe Porto Alegre  2019  Epub Jan 10, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2019.20180133 

Artigo Original

Cultura de segurança do paciente na atenção primária à saúde: análise por categorias profissionais

Cultura de seguridad del paciente en la atención primaria de salud: análisis por categorias profesionales

Daiane Cortêz Raimondia  b 

Suelen Cristina Zandonadi Bernala 

João Lucas Campos de Oliveirac 

Laura Misue Matsudaa 

a Universidade Estadual de Maringá (UEM), Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Maringá, Paraná, Brasil.

b Universidade Paranaense (UNIPAR), Curso de Graduação em Enfermagem. Umuarama, Paraná, Brasil.

c Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Curso de Graduação em Enfermagem. Cuiabá, Mato Grosso, Brasil.

Resumo

OBJETIVO

Comparar a cultura de segurança do paciente entre as categorias profissionais atuantes na Atenção Primária a Saúde.

MÉTODO

Estudo transversal realizado entre abril e maio de 2017 em um município do sul do Brasil com 144 trabalhadores que responderam ao instrumento “Pesquisa sobre Cultura de Segurança do Paciente para Atenção Primária”. Além da análise descritiva, para comparar a cultura de segurança do paciente entre as categorias profissionais, aplicou-se o teste Kruskal-Wallis, seguido do teste post hoc de comparações múltiplas de Dunn.

RESULTADOS

A maior e menor pontuação geral de respostas positivas à cultura de segurança do paciente foi respectivamente para enfermeiros (67,70%) e agentes comunitários de saúde (46,73%). Nas análises comparativas, os médicos, agentes comunitários de saúde e dentistas apresentaram diferenças significativas em comparação às demais categorias, tendendo à cultura menos positiva.

CONCLUSÃO

Houve diferença na cultura de segurança do paciente entre as categorias profissionais investigadas.

Palavras-chave: Segurança do paciente; Cultura organizacional; Atenção primária à saúde; Equipe de assistência ao paciente; Enfermagem

Resumen

OBJETIVO

Comparar la cultura de seguridad del paciente entre las categorías profesionales actuantes en la Atención Primaria a la Salud.

MÉTODO

Estudio transversal realizado entre abril y mayo de 2017 en un municipio del sur de Brasil con 144 trabajadores que respondieron al instrumento "Investigación sobre Cultura de Seguridad del Paciente para Atención Primaria". Además del análisis descriptivo, para comparar la cultura de seguridad del paciente entre las categorías profesionales, se aplicó la prueba Kruskal-Wallis, seguida de la prueba post hoc de comparaciones múltiples de Dunn.

RESULTADOS

La mayor y menor puntuación general de respuestas positivas a la cultura de seguridad del paciente fue respectivamente para enfermeros (67,70%) y de agentes comunitarios de salud (46,73%). En los análisis comparativos, los médicos, agentes comunitarios de salud y dentistas presentaron diferencias significativas en comparación a las demás categorías, tendiendo a la cultura menos positiva.

CONCLUSIÓN

Hubo diferencias en la cultura de seguridad del paciente entre las categorías profesionales investigadas.

Palabras clave: Seguridad del paciente; Cultura organizacional; Atención primaria de salud; Grupo de atención al paciente; Enfermería

Introdução

A segurança do paciente é um elemento essencial à qualidade da assistência à saúde, pois compreende ações que objetivam gerenciar e prevenir riscos que os pacientes estão expostos1. Deste modo, a segurança se configura como redução estratégica e contínua do potencial danoso no processo assistencial2.

Para o alcance do cuidado dito seguro, as instituições de saúde têm se esforçado em melhorar os processos de cuidado, reconhecendo em primeira instância a importância de se estabelecer a cultura de segurança do paciente no seu modus operandi3. A cultura de segurança é definida como o conjunto de ações, competências e comportamentos que definem o comprometimento com a gestão da segurança, suprindo a punição pela chance de o profissional e a equipe aprender com as falhas e melhorar a assistência à saúde prestada2. Em outras palavras, significa atuar com humanização, habilidade, responsabilidade e comprometimento com a segurança e a saúde do paciente, objetivando ofertar assistência segura, com integralidade, resolutividade e redução de riscos/danos aos pacientes.

Para implementar a cultura de segurança do paciente é necessária a compreensão de crenças, valores e normas sobre o que a instituição cultua como importante, quais ações e comportamentos voltados à segurança do paciente são esperados e estimulados, além de monitorados3. Com isso em vigor, a efetivação da cultura positiva para a segurança do paciente na instituição de saúde tende a favorecer cuidados seguros e de qualidade4.

Em relação à segurança do paciente, parece haver mais incidentes e eventos adversos no contexto hospitalar5; entretanto, estes também podem ocorrer em outros níveis de atenção à saúde, como na Atenção Primária à Saúde (APS)6. Ao exemplo disso, um estudo brasileiro que teve o objetivo de identificar os incidentes ocorridos na assistência a saúde na APS constatou razão de incidentes de 1,11% na APS, no qual 82% ocasionaram danos aos pacientes7.

A fim de colaborar com a identificação de práticas inseguras na APS, a Fundação de Saúde de Londres analisou investigações realizadas entre 2000 a 2011 sobre incidentes e danos decorrentes da assistência na APS e constatou que, além da escassez de estudos sobre o tema, os danos oscilavam entre menos de um a 24% e cerca de 2% das consultas realizadas na APS se relacionavam com incidentes e eventos adversos8.

Diante dos casos de insegurança do paciente e com intuito de promover e incentivar práticas assistenciais seguras, o Brasil tornou-se um dos países integrantes da Aliança Mundial para a Segurança do Paciente. Esta, instituída em 2004 pela Organização Mundial de Saúde, com intuito de incentivar países a se comprometerem com a promoção da assistência segura e de qualidade em todos os níveis assistenciais5.

No sentido de atingir os objetivos propostos pela Aliança Mundial para a Segurança do Paciente, foi instituído no Brasil em 2013, o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP), por meio da Portaria nº 529/20139.

Mesmo diante da implantação do PNSP, o incentivo à segurança do paciente e efetivação da cultura de segurança na APS só foram mencionados na atualização da Política de Atenção Básica do país, publicada pela Portaria no 2.436 de 21 de setembro de 201710. A referida Portaria destaca a necessidade da implantação de ações de segurança do paciente no âmbito da APS, para a promoção de cuidados seguros e ao incentivo da cultura de segurança do paciente entre profissionais atuantes na APS10.

Considerando a clara dualidade de incipiência do conhecimento no Brasil sobre segurança do paciente na APS e a relação entre cultura de segurança do paciente com cuidados seguros, além da possibilidade de se obter diagnósticos situacionais do fenômeno estudado pontualmente por categorias profissionais, este estudo se norteou pelas perguntas: Como se apresenta a cultura de segurança do paciente entre as categorias profissionais atuantes na APS? Existe diferença na cultura de segurança do paciente entre as categorias profissionais atuantes na APS? Portanto, o objetivo consistiu em comparar a cultura de segurança do paciente entre as categorias profissionais atuantes na Atenção Primária a Saúde.

Método

Estudo transversal de abordagem quantitativa realizado com as equipes vinculadas a APS de um município de médio porte da região sul do Brasil, quais sejam: Equipe de Saúde da Família (eSF), Equipe de Atenção Básica (eAB) e Equipe de Saúde Bucal (eSB).

O município possui seis eAB (4 enfermeiros, 8 médicos, 4 auxiliares/técnicos de enfermagem e 10 agentes comunitários de saúde - ACS); 22 eSF (22 enfermeiros, 39 médicos, 61 auxiliares/técnicos de enfermagem e 111 ACS); 17 eSB (21 dentistas e 17 auxiliares/técnicos de saúde bucal). Assim, o município em estudo conta com 26 enfermeiros, 46 médicos, 21 dentistas, 65 auxiliares/técnicos de enfermagem, 17 auxiliares/técnicos de saúde bucal e 122 ACS, que totalizam 297 profissionais atuantes nas equipes de APS.

A população do estudo foi composta por profissionais das equipes referidas, respeitando-se os seguintes critérios de inclusão: ser enfermeiro, auxiliar e/ou técnico de enfermagem, médico, dentista, auxiliar de saúde bucal ou agente comunitário de saúde. Foi utilizado como critério de exclusão: profissionais que atuam há menos de 12 meses nas equipes de APS (eSF, eAB e eSB).

Os profissionais farmacêuticos, trabalhadores de serviços gerais, auxiliares administrativos, estagiários do curso de graduação, estagiários do ensino médio, não participaram do estudo devido a escassez e alta rotatividade destes entre as unidades, além de muitos apresentarem atuação inferior a 12 meses na equipe, conforme conhecimento prévio.

Não houve procedimento de amostragem, pois a totalidade de trabalhadores das categorias em estudo foi convidada à participação, verificando-se previamente os critérios de elegibilidade.

A coleta de dados foi realizada entre abril a maio de 2017 por meio da aplicação do instrumento “Medical Office Survey on Patient Safety Culture” (MOSPSC), o qual foi traduzido e adaptado para o Brasil em 2016, intitulando-se “Pesquisa sobre Cultura de Segurança do Paciente para Atenção Primária” (11. Este questionário identifica se a cultura de segurança do paciente na APS é positiva/favorável ao cuidado seguro, quando o percentual de respostas positivas for acima de 50%, além de apontar as áreas que necessitam de melhorias11.

O referido instrumento é composto por nove Seções, a saber: Seção A: possui 10 questões relacionadas à segurança do paciente e à qualidade da assistência; Seção B: 4 questões sobre troca de informações entre a equipe e outras instituições de serviços de saúde; Seção C: 15 questões relacionadas a temática “trabalhando neste serviço de saúde”; Seção D: 12 questões sobre a comunicação entre os profissionais e o acompanhamento do paciente; Seção E: 4 questões relacionadas ao apoio dos profissionais pelos gestores/administradores/líderes; Seção F: 7 questões sobre a temática “seu serviço de saúde”; Seção G: 2 questões referentes a avaliação global sobre o serviços de saúde prestado; Seção H: 3 questões sobre a prática profissional; Seção I: 1 questão discursiva sobre comentários dos participantes11.

Ressalta-se que nas Seções A até a seção G as questões são dispostas em escalas tipo Likert, na Seção H as questões proporcionam respostas do tipo múltipla escolha e na Seção I, há uma questão aberta, cuja resposta deve ser enunciada na forma discursiva11, da qual os seus resultados não foram apresentados neste estudo, respeitando-se seu desenho de investigação e objetivo.

É válido mencionar que para utilização do referido questionário, foi solicitado autorização para as autoras que realizaram a tradução, adaptação e validação para o contexto brasileiro por e-mail em julho de 2016, no qual ambas autorizaram a aplicação do instrumento.

Para a coleta de dados, após autorização do início da pesquisa pela Coordenadora da Atenção Primária do município investigado, os enfermeiros responsáveis de cada equipe foram contatados para agendamento da data e horário do início desta fase da pesquisa. No dia e hora agendados, a pesquisadora se dirigiu ao espaço assistencial das APS e informou os membros de cada equipe sobre os objetivos do estudo, procedimentos de coleta de dados e questões éticas.

Mediante o aceite selado pela leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), foi entregue a cada participante o instrumento de coleta de dados o qual foi recolhido no final do turno pelo enfermeiro de cada equipe. Para garantir o sigilo das respostas, os profissionais foram orientados para colocar o instrumento preenchido em um envelope fornecido pela pesquisadora e, caso preferissem, poderiam lacrar o mesmo.

O tratamento e a análise dos dados do instrumento MOSPSC cumpriram as recomendações da Agency for Health Care Research and Quality (AHRQ), utilizando à porcentagem de respostas positivas a cultura de segurança do paciente12.

O referido instrumento permite identificar se a cultura de segurança do paciente na APS é positiva, mas para isso, em média, o percentual de respostas positivas deve atingir 50% ou mais, além de identificar as áreas que necessitam de melhorias12.

Para obtenção do percentual de respostas positivas, foi realizado o agrupamento das respostas, no qual para as perguntas de teor positivo foram consideradas as respostas: várias vezes em 12 meses; uma ou duas vezes em 12 meses ou não aconteceu; concordo totalmente ou concordo; quase sempre ou sempre; bom, muito bom e excelente. Consta no Quadro 1 um exemplo do cálculo da porcentagem de respostas positivas, em questão positiva.

Quadro 1: Exemplo de cálculo de respostas positivas 

Seção C - Trabalhando neste serviço de saúde. Questão 4: Este serviço treina a equipe sempre que novos processos são implantados?
Ponto e Resposta Frequência de Respostas Porcentagem de Resposta Porcentagem combinada
1 - Discordo totalmente 1 10% 20% Negativa
2 - Discordo 1 10%
3 - Não concordo, não discordo 2 20% 20% Neutra
4 - Concordo 4 40% 60% Positiva
5 - Concordo Totalmente 2 20%
Total 10 100% 100%
9 - Não se aplica ou não sei 2 -
Número total de respostas 12 -

Fonte: Agency for Health Care Research and Quality, 2015.

Já nas questões de teor negativo, consideraram-se as respostas discordo totalmente ou discordo como respostas positivas para a cultura de segurança do paciente. A inversão dos pontos de cada resposta para cálculo da porcentagem de respostas positivas em questões negativas está exemplificada no Quadro 2.

Quadro 2: Exemplo de inversão dos pontos das respostas para cálculo da porcentagem de respostas positivas em questões negativas 

Seção C - Trabalhando neste serviço de saúde. Questão 8: Neste serviço a desorganização é maior que o aceitável?
Resposta Pontos das respostas Inversão dos pontos das respostas
Discordo totalmente 1 5
Discordo 2 4
Não concordo, não discordo 3 3
Concordo 4 2
Concordo totalmente 5 1

Fonte: Agency for Health Care Research and Quality, 2015.

É válido destacar que o instrumento utilizado permite a identificação das dimensões consideradas “pontos fortes” da cultura de segurança do paciente, quando em média, o percentual de respostas positivas for igual ou superior a 75% e como “pontos fracos” quando os percentuais de respostas positivas forem inferiores a 60%12. De acordo com a Agency for Health Care Research and Quality, resultados de dimensões inferiores a 60% de respostas positivas necessitam de melhorias12.

Os dados foram analisados no Programa Statistical Analysis Software (SAS), versão 9.4, a partir de uma base de dados mediante tabulação no Microsoft Office Excel de 2010. Para comparar a diferença entre os escores totais atribuídos às diferentes dimensões, que compõem a cultura de segurança do paciente nas diversas categorias profissionais atuantes na APS, foi aplicado o teste de Kruskal-Wallis, seguido do teste post hoc de comparações múltiplas de Dunn. Considerou-se o nível de confiança de 95% (α=0,05) e p-valor <0,05.

Este estudo foi desenvolvido conforme os preceitos éticos estabelecidos na Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde13, sendo aprovado pelo Comitê Permanente de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da Universidade Estadual de Maringá através do parecer n.º 1.963.656/2017. Trata-se de recorte da dissertação intitulada “Cultura de Segurança do Paciente: Análise na Atenção Primária à Saúde”14.

Resultados

Apresenta-se na Figura 1 o esquema que demonstra a seleção dos participantes. No qual pode-se verificar que participaram da pesquisa 144 profissionais atuantes nas equipes de atenção primária, sendo estes enfermeiros (n=16), médicos (n=8), auxiliares e/ou técnicos de enfermagem (n=31), agentes comunitários de saúde (n=63), dentistas (n=15) e técnicos de saúde bucal (n=11). No momento da coleta de dados, 54 profissionais não participaram porque se encontravam em férias, licença prêmio ou afastados por problema de saúde, 18 profissionais foram excluídos por atuarem na equipe há menos de 12 meses e 22 por não responderam ao questionário na íntegra, sendo um médico, dois auxiliares/técnicos de enfermagem e 19 ACS.

Identificou-se que os profissionais que não responderam o questionário na íntegra, deixaram de responder as dimensões referente ao apoio dos gestores e sobre seu serviço de saúde, o que pode estar relacionado com o fato de que o município estava realizando uma avaliação de qualidade das equipes durante o processo de coleta de dados do presente estudo, isto pode ter proporcionado um receio dos profissionais de responder as questões e serem prejudicados na avaliação, mesmo sendo orientados sobre os objetivos do estudo e o sigilo da pesquisa. Acredita-se ainda que essa avaliação realizada pelo município prejudicou a aceitação dos profissionais em participar do presente estudo, visto que a avaliação municipal reflete nas gratificações salariais dos profissionais.

Em relação ao perfil profissional e sociodemográfico dos participantes do presente estudo constatou-se que: 132 (91,6%) profissionais eram do sexo feminino; 82 (56,93%) possuíam 30 a 49 anos de idade; 94 (65,27%) profissionais eram casados e 78 (54,16%) atuavam entre um a cinco anos na equipe.

Entre os profissionais, 11 (68,65%) enfermeiros, oito (100%) médicos e 35 (55,55%) ACS atuavam na equipe de um a menos de três anos; 16 (51,61%) auxiliares/técnicos de enfermagem, 10 (66,66%) dentistas e oito (72,72) auxiliares/técnicos de saúde bucal atuavam de seis a menos de 11 anos na equipe.

Em relação à escolaridade, todos os enfermeiros, médicos e dentistas possuíam pós-graduação. Os auxiliares/técnicos de enfermagem e saúde bucal possuem ensino técnico completo, no qual ainda cinco (45,45%) dos auxiliars/técnicos de saúde bucal e sete (22,58%) auxiliares/técnicos de enfermagem contam com ensino superior completo. Já em relação aos ACS, seis (9,52%) possuem ensino fundamental, 38 (60,31%) ensino médio, três (4,79%) ensino técnico e 16 (25,39%) poussuíam ensino superior completo.

Fonte: Autora, 2018.

Figura 1: Esquema do processo de seleção dos participantes. Paraná, Brasil, 2017 

No Gráfico 1 consta a análise descritiva das respostas positivas por dimensão da cultura de segurança do paciente, segundo a categoria profissional.

Respeitando o ponto de corte do instrumento empregado, no que se refere à média geral de respostas positivas, pode-se constatar que os enfermeiros (67,70%), auxiliares/técnicos de enfermagem (62,84%), auxiliares/técnicos de saúde bucal (59,46%), dentistas (58,06%) e médicos (51,79%) apresentaram cultura positiva de segurança do paciente. No entanto, os profissionais ACS apresentaram 46,73% de respostas positivas, indicando cultura de segurança do paciente desfavorável.

Pode-se observar que a “avaliação global” foi a única dimensão que se apresentou negativamente entre todos os profissionais da APS. Por outro lado, as dimensões “serviço de saúde” e “comunicação e acompanhamento” apresentaram-se positivamente entre todas as categorias profissionais.

Fonte: Autora, 2018.

Gráfico 1: Porcentagem das respostas positivas às dimensões da cultura de segurança do paciente segundo a categoria profissional atuante na APS. Paraná, Brasil, 2017. 

Ilustra-se na Tabela 1 as diferenças, na comparação das dimensões da cultura de segurança, entre as categorias profissionais. Verifica-se que as dimensões “troca de informações” (0,0001) e “apoio dos gestores” (0,0390) apresentaram diferenças significativas negativas, entre médicos, dentistas e ACS, em relação a enfermeiros, auxiliares/técnicos de enfermagem e auxiliares/técnicos de saúde bucal.

Nas dimensões “trabalho no serviço” (0,0001) e “serviço de saúde” (0,0008), os médicos e ACS apresentaram percentuais menores, resultando em diferença significativa quando comparados aos enfermeiros, dentistas, auxiliares/técnicos de enfermagem e auxiliares/técnicos de saúde bucal.

Tabela 1: Comparação das dimensões da cultura de segurança do paciente segundo a categoria profissional atuante na APS. Paraná, Brasil, 2017 

Dimensões Enfermeiro Médico Aux/ téc enferm ACS Dentista Aux/téc saúde bucal p-valor
Segurança do paciente e qualidade 0,0428*
Troca de informações a b a b b a 0,0001
Trabalhando neste no serviço a b a b a a 0,0001
Comunicação e acompanhamento 0,1237
Apoio dos gestores a b a b b a 0,0390
Serviço de saúde a b a b a a 0,0008
Avaliação Global 0,0600

Fonte: Autora, 2018.

* Não detectada a diferença entre as categorias profissionais pelo teste post hoc de Dunn.

Nota: Letras diferentes indicam diferenças significativas (α= 0,05 e p<0,05).

Discussão

Constatou-se que as categorias profissionais participantes do estudo apresentaram cultura positiva de segurança do paciente, exceto os agentes comunitários de saúde (ACS). Os dados apresentados se diferenciam de um estudo que utilizou um questionário sobre a cultura de segurança do paciente no âmbito hospitalar realizado na Turquia com médicos, enfermeiros, parteiras e ACS atuantes nos espaços assistenciais da APS15, no qual se identificou cultura positiva de segurança do paciente em apenas 46% dos profissionais, com percentual baixo e negativo, ao contrário do presente estudo que constatou cultura positiva na maioria das categorias profissionais investigadas. Já o estudo que utilizou uma versão modificada de um questionário da área hospitalar sobre cultura de segurança do paciente no Irã16) com profissionais médicos, dentistas, parteiras, coordenador das unidades entre outros profissionais dos centros de saúde da APS, identificaram que a cultura de segurança se apresentava positiva em 57% dos profissionais.

Pode-se verificar que mesmo diante da cultura positiva de segurança do paciente entre a maioria das categorias profissionais, nenhuma dimensão apresentou média geral de respostas positivas consideradas como “pontos fortes” da cultura de segurança, ou seja, média de respostas positiva acima de 75%. Já a cultura de segurança do paciente entre os profissionais ACS, médicos, dentistas e auxiliares/técnicos de saúde bucal apresentaram médias de respostas positivas inferiores a 60%, e por isso, considerados como “pontos fracos” da cultura de segurança do paciente, os quais necessitam de melhorias.

Os profissionais ACS apresentaram cultura de segurança do paciente negativa à luz do instrumento de coleta de dados. Esta percepção diferente pode ter relação com o fato de os mesmos desenvolverem o trabalho diretamente na comunidade, permanecendo mais próximos da população e menos tempo com a equipe de saúde na unidade, além disso, pode-se destacar a escolaridade que pode ter relação com a percepção da cultura de segurança do paciente, visto que 69,83% dos ACS possuem até o ensino médio completo, diferentemente dos outros profissionais. Estes dados coadunam com uma pesquisa realizada no Brasil6, a qual evidenciou cultura positiva de segurança entre os participantes, porém, os ACS avaliaram de forma diferente as atitudes de segurança do paciente, com percentuais menores que as outras categorias profissionais.

Por outro lado, a cultura negativa de segurança do paciente apresentada pelos ACS deve ser investigada, pois como os mesmos permanecem mais tempo na comunidade, fora da unidade de saúde, podem representar a visão dos usuários em relação ao serviço de saúde o que pode sugerir falhas de comunicação e integração entre a equipe de saúde, prejudicando a qualidade e segurança de assistência prestada.

Ainda que na análise por categorias profissionais os resultados, de forma geral, refletem positividade na cultura de segurança do paciente, verificou-se que todas as categorias profissionais apresentaram respostas negativas na dimensão “avaliação global”. Considerando que essa dimensão se relaciona com a assistência centrada no paciente; na eficiência e na imparcialidade dos cuidados prestados; no conhecimento científico dos profissionais da saúde e; nos processos para prevenir, detectar e solucionar problemas que podem afetar os pacientes11, esse resultado pode indicar que os profissionais consideram que os cuidados prestados pela equipe carecem de segurança. Isto indica a necessidade da implantação e efetivação da educação permanente aos profissionais para prestarem assistência singular, humanizada, acolhedora e de qualidade pautada nos conhecimentos técnicos científicos.

Ante o exposto, dado semelhante foi constatado em Al-Mukala17, no Iêmen, no qual utilizou o mesmo instrumento do presente estudo, adaptado e validado em árabe e constatou que 47,5% dos profissionais atuantes na APS avaliaram de modo positivo a segurança do paciente e a qualidade do serviço prestado; e na Turquia, o percentual foi ainda menor (42%)15. Pode-se identificar a necessidade de sensibilizar e incentivar os profissionais para a realização de cuidados seguros e de qualidade, por meio de capacitações permanentes e adoção de medidas proativas que identifiquem riscos e reduzam a incidência de eventos adversos. Outra interpretação cabível é que, ainda que o comportamento individual e coletivo seja impulsionador da segurança do paciente vislumbrada pela cultura dos profissionais, as organizações não podem se eximir de prover os recursos e meios necessários para que a segurança de fato aconteça, o que possivelmente refletirá na cultura organizacional em prol a este bem.

Ao realizar a comparação da cultura de segurança do paciente entre as categorias profissionais, observou-se diferenças significativas em duas dimensões (troca de informações e apoio dos gestores), entre médicos, dentistas e ACS, em relação a enfermeiros, auxiliares/técnicos de enfermagem e auxiliares/técnicos de saúde bucal, refletindo resultados mais negativos nas primeiras categorias citadas. Assim, pode-se identificar que os médicos, dentistas e ACS apresentaram médias de respostas positivas inferiores as demais categorias profissionais, evidenciando falhas no processo de troca de informações entre os trabalhadores, mas também, na rede de atenção.

Os médicos e ACS apresentaram porcentual de respostas positivas inferiores as outras categorias em mais duas dimensões (trabalho no serviço e serviço de saúde) constatando assim diferenças significativas quando comparados com as outras categorias profissionais estudadas. Isso indica que as categorias profissionais em pauta refletem necessidade de melhorias, o que pode ter relação com o distanciamento ou pouco tempo de permanência destes profissionais com outros membros da equipe e/ou com a alta demanda de atendimento. Salienta-se que tal fato pode prejudicar a integração entre as categorias profissionais, o processo de comunicação, a discussão de casos, processo de trabalho e; consequentemente, na implantação de melhorias no serviço e na garantia da assistência integral, resolutiva, segura e de qualidade à população11.

Constatou-se então, que existem diferenças significativas na cultura de segurança do paciente entre as categorias profissionais da APS investigada. Acerca disso, um estudo realizado em 2011, no contexto da APS holandesa18, o qual comparou a cultura de segurança do paciente entre as diferentes categorias profissionais, salienta que, apesar de baixas, houve diferenças nas percepções das categorias profissionais. Diferente do resultado do presente estudo, pesquisas realizadas nos espaços assistenciais da APS na Turquia15 e no Irã16) não identificaram diferenças na cultura de segurança do paciente entre as categorias profissionais atuantes na atenção primária.

Em virtude das diferenças identificadas em quatro dimensões da cultura de segurança do paciente entre as categorias profissionais, ressalta-se a importância de intervenções junto à equipe, seja por meio de treinamentos, reuniões periódicas que objetivam a integração dos profissionais, revisão e discussão de casos clínicos e fluxos assistenciais, dentre outros19-20. Isso porque, promover espaços de debate conjunto para construção de ações rumo à melhoria da qualidade do cuidado e sua segurança talvez possa ser uma estratégia profícua ao avanço assistencial, além de constituir um baixo custo.

Conjectura-se que nos espaços onde a cultura de segurança é baixa ou desigual entre os trabalhadores há necessidade de valorização e motivação profissional; discussões periódicas sobre o processo de trabalho; práticas incentivadoras do cuidado seguro; inserção de protocolos assistenciais de gestão de riscos e prevenção de incidentes. No contexto investigado, isso se salienta a respeito de médicos e ACS.

Como limitações deste estudo destacam-se a participação de profissionais que compõe a equipe mínima da eSF, eSB e eAB; a análise da APS de apenas um município; a necessidade de respostas ao instrumento de coleta de dados, com base no processo recordatório do profissional; a amostra do estudo, pois havia muitos profissionais de licença, férias, profissionais que atuavam na equipe há menos de 12 equipe, além daqueles que não aceitaram participar da pesquisa. Diante disso, sugere-se investigações com outras abordagens como pesquisas de métodos mistos, a fim de se obter compreensão mais profunda da cultura de segurança do paciente no âmbito da APS, e que a diferença constatada entre categorias profissionais possa ser, possivelmente, desvelada.

Conclusões

Conclui-se que a cultura de segurança do paciente apresenta-se positiva entre a maioria das categorias profissionais atuantes na APS e que existe diferença na cultura de segurança dos trabalhadores investigados, em especial no que se refere aos médicos e ACS. Com isso, para promover/alavancar a cultura de segurança na APS, a implementação de ações de educação permanente a todas as equipes, com foco na assistência segura e de qualidade tende a ser uma das principais estratégias.

Os resultados deste estudo podem subsidiar discussões entre gestores e profissionais da saúde a fim de identificar as necessidades e limitações para o fomento da cultura de segurança positivo em todas as equipes e categorias profissionais da APS. Ademais, é válido salientar o ineditismo deste estudo, visto que até o momento, esta é uma das primeiras pesquisas sobre a cultura de segurança do paciente na APS com utilização do questionário “Pesquisa sobre Cultura de Segurança do Paciente para Atenção Primária”.

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Recebido: 06 de Junho de 2018; Aceito: 03 de Setembro de 2018

Autor correspondente: Daiane Cortêz Raimondi. daianetcortez@gmail.com

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