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Revista Gaúcha de Enfermagem

On-line version ISSN 1983-1447

Rev. Gaúcha Enferm. vol.40 no.spe Porto Alegre  2019  Epub Jan 10, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/1983-1447.2019.20180272 

Artigo Original

Clima de segurança do paciente em um hospital de ensino

Clima de seguridad del paciente en un hospital de enseñanza

Felipe Henrique de Lima Magalhãesa 

Isabelle Christine de Almeida Pereiraa 

Raíssa Bianca Luiza 

Maria Helena Barbosab 

Maria Beatriz Guimarães Ferreirac  d 

a Universidade de Uberaba (UNIUBE), Curso de Graduação em Enfermagem. Uberaba, Minas Gerais, Brasil.

b Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Instituto Ciências da Saúde, Departamento Didático Científico de Enfermagem na Assistência Hospitalar. Uberaba, Minas Gerais, Brasil.

c Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Faculdade de Medicina, Curso de Graduação em Enfermagem. Uberlândia, Minas Gerais, Brasil.

d Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Instituto Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Atenção à Saúde. Uberaba, Minas Gerais, Brasil.

Resumo

OBJETIVO

Avaliar a percepção do clima de segurança do paciente pelos profissionais de saúde a partir do Questionário de Atitudes de Segurança e investigar a associação entre os escores e variáveis sociodemográficas e profissionais.

MÉTODO

Estudo quantitativo realizado com 198 profissionais de saúde de hospital filantrópico de Minas Gerais, entre março e junho de 2017. Utilizou-se instrumento com variáveis sociodemográficas e profissionais e Questionário de Atitudes de Segurança. Realizou-se análise estatística com teste t de Student, correlação de Pearson, Anova e regressão linear múltipla.

RESULTADOS

Profissionais apresentaram percepção negativa quanto ao clima de segurança do paciente (69,5). Domínio Satisfação no Trabalho obteve maior pontuação (81,98), enquanto Percepção da gerência a pior (62,15). Médicos (p=0,005), homens e profissionais de nível superior (p<0,001) apresentaram melhor percepção de segurança.

CONCLUSÃO

Identificação de variáveis preditoras é importante ferramenta para implementação de uma cultura de segurança, favorecendo qualidade da assistência e redução de eventos adversos.

Palavras-chave: Segurança do paciente; Gestão da segurança; Pessoal de saúde

Resumen

OBJETIVO

Evaluar la percepción del clima de seguridad del paciente para profesionales de la salud del cuestionario de actitudes de seguridad e investigar la asociación entre los escores de seguridad y las variables sociodemográficas y profesionales.

MÉTODO

Estudio cuantitativo realizado con 198 profesionales de salud de un hospital filantrópico de Minas Gerais, entre marzo y junio de 2017. Se utilizó un instrumento con variables sociodemográficas y profesionales y Safety Attitudes Questionnaire. Análisis estadístico se realizó con los tests t de Student, correlación de Pearson, Anova y regresión lineal múltiple.

RESULTADOS

Los profesionales presentaron una percepción negativa en cuanto al clima de seguridad del paciente (69,5). El dominio de satisfacción en el trabajo obtuvo mayor puntuación (81,98), mientras que la percepción de la gerencia peor (62,15). Médicos (p = 0,005), hombres y profesionales de nivel superior (p <0,001) presentaron mejor percepción de seguridad.

CONCLUSIÓN

La identificación de variables predictoras es una importante herramienta para la implementación de una cultura de seguridad, favoreciendo calidad de la asistencia y reducción de eventos adversos.

Palabras clave: Seguridad del paciente; Gestión de la seguridad; Personal de salud

Introdução

A questão de segurança do paciente tem se tornado assunto prioritário pelas organizações de saúde por ser considerada fundamental para a qualidade assistencial, a satisfação do cliente e o cuidado livre de danos1.

Contudo, práticas inseguras, que colocam em risco a vida do paciente, ainda são frequentes nas instituições de saúde. Estudo realizado com notificações registradas no Sistema de Notificações para a Vigilância Sanitária (Notivisa), no Brasil, no período de dois anos, encontrou a ocorrência de 63.933 eventos adversos (EA) relacionados com a assistência à saúde, sendo desses, 417 com evolução para óbito do paciente2. A ocorrência de EA remete a implicações negativas que atingem desde o paciente, os profissionais envolvidos e até a sociedade.

Em meio a esse contexto, a Organização Mundial de Saúde (OMS), através do programa Aliança Mundial para a Segurança do Paciente, instituiu diretrizes com a finalidade de incentivar os países ao desenvolvimento de estratégias voltadas para a segurança do paciente. Priorizou-se a realização de pesquisas com base em evidências científicas que tratassem dos problemas de segurança3.

Dentre as estratégias para melhorar a segurança no cuidado prestado estão o gerenciamento de risco, a implantação de protocolos que subsidiem o planejamento da assistência, a comunicação efetiva entre as equipes e a adoção de uma cultura de segurança pelas instituições de saúde1. Ou seja, a segurança do paciente deve ser vista como um compromisso de toda equipe multiprofissional, tornando todos os envolvidos nas relações de trabalho corresponsáveis na promoção de ações seguras aos pacientes.

Ressalta-se que um dos passos primordiais para adoção de uma cultura de segurança é o conhecimento, por parte das organizações, da sua estrutura organizacional e do reconhecimento de seus objetivos e valores, que sejam transmitidos de forma clara e horizontal a todos os membros, estimulando atitudes e comportamentos voltados ao alcance das metas4.

Dessa forma, é necessário verificar se a instituição possui uma cultura de segurança. A partir daí, pode-se identificar os principais fatores que precisam ser aprimorados dentro do serviço, a fim de garantir a segurança ao paciente, ou ainda identificar fatores organizacionais que impeçam a formação de uma cultura de segurança.

Instrumentos têm sido utilizados com objetivo de avaliar a cultura de segurança do paciente a partir da percepção dos profissionais da saúde quanto ao clima de segurança. Entende-se como clima de segurança a parte mensurável da cultura, podendo ser avaliado por meio da percepção dos profissionais5.

O clima de segurança é capaz de reproduzir as percepções dos profissionais em um determinado momento em seu local de trabalho, enquanto a cultura é um conceito produzido ao longo do tempo, de forma longitudinal, refletindo o conjunto de atitudes, valores, individuais e grupais das questões voltadas à segurança do paciente em uma organização de saúde5.

Frente ao exposto, a mensuração do clima de segurança permite identificar fatores associados, que contribuem positiva ou negativamente, à adoção de práticas seguras dentro dos serviços de saúde. Um dos instrumentos capazes de realizar essa medida é o Questionário de Atitudes de Segurança (SAQ), que por meio do seu escore é possível verificar sinais de alerta para os domínios que precisam ser melhorados dentro da instituição em prol da segurança do paciente6-7.

Estudo envolvendo a temática estimula mais pesquisas com a aplicação do SAQ como forma de avaliar e monitorar se as ações das organizações refletem uma percepção positiva quanto ao clima de segurança8.

Outras investigações reforçam que a avaliação do clima de segurança institucional possibilita o desenvolvimento de ações com vistas a diminuição de EA e promoção de uma assistência de maior qualidade. Além disso, os resultados obtidos fornecem subsídios para o planejamento organizacional desde a gestão dos serviços até a execução das práticas assistenciais9-10.

Nesse sentido, a percepção dos membros de uma instituição em relação a diferentes aspectos do clima de segurança é uma importante ferramenta para análise da cultura de segurança da organização.

Assim, o objetivo desse estudo foi avaliar a percepção do clima de segurança do paciente pelos profissionais de saúde de um hospital universitário a partir da aplicação do Questionário de Atitudes de Segurança e investigar associação entre os escores e variáveis sociodemográficas e profissionais.

Método

Trata-se de um estudo de delineamento não experimental, seccional, de abordagem quantitativa desenvolvido em um hospital filantrópico, vinculado à uma instituição de ensino superior privada, que atende média e alta complexidade, localizado no interior de Minas Gerais, Brasil.

Para o cálculo do tamanho amostral, considerou-se um coeficiente de determinação apriorístico R2 = 0,10, em um modelo de regressão linear múltipla com cinco preditores, tendo como nível de significância ou erro do tipo I de a = 0,01 e erro do tipo II de ß = 0,1, resultando, portanto, em um poder estatístico apriorístico de 90%. Utilizando-se o aplicativo Power Analysis and Sample Size (PASS), versão 13, ao introduzir os valores anteriormente descritos, obteve-se um tamanho de amostra mínimo de 206 profissionais de saúde. A variável de desfecho principal foi o domínio clima de segurança.

A coleta de dados ocorreu entre os meses de março a junho de 2017 com profissionais da equipe de saúde que possuíam vínculo empregatício com a instituição há, pelo menos, um mês. Foram excluídos do estudo os profissionais que estavam em licença médica ou em afastamento do trabalho por outros motivos, bem como, aqueles que não foram encontrados após cinco tentativas durante o período de coleta de dados.

Para a coleta de dados, utilizou-se dois instrumentos que foram preenchidos pelos participantes: um que possuía variáveis sociodemográficas (idade, sexo, estado civil) e profissionais (profissão, formação, tempo de formação, tempo de profissão, tempo de atuação na instituição, turno de trabalho, setor que atua na instituição, carga horária semanal, existência de outro vínculo empregatício), bem como o Questionário de Atitudes de Segurança (SAQ)7.

O SAQ contém 41 itens divididos por seis domínios: Clima de Trabalho em Equipe, Clima de Segurança, Satisfação no trabalho, Percepção do Estresse, Percepção da Gerência e Condições de trabalho. Os itens são respondidos através de escala tipo Likert de cinco pontos, com as seguintes opções: A - Discorda totalmente; B - Discorda parcialmente; C - Neutro; D - Concorda parcialmente; E - Concorda totalmente e X - não se aplica. O escore final compreende valores entre 0 (zero), considerado a pior percepção, e 100, a melhor percepção. Os autores do SAQ consideram uma percepção positiva escores igual ou acima de 75.

Ressalta-se que para uso do SAQ, foi solicitado autorização junto ao autor principal, o qual conferiu a permissão para realização da presente pesquisa em resposta via e-mail.

Anteriormente à coleta de dados, foi feito um teste piloto com 10 profissionais no intuito de analisar aplicabilidade e adequabilidade do instrumento, mas não houve necessidade de alterações. Os pesquisadores foram submetidos a um treinamento para consonância na coleta de dados.

Os dados foram analisados por meio do software Statistical Package for the Social Science (SPSS) for Windows, versão 23 e analisados por meio de distribuições de frequências absolutas e percentuais para variáveis categóricas e medidas de tendência central (média e mediana) e medidas de variabilidade (amplitudes e desvio padrão) para variáveis quantitativas. Para verificar o clima de segurança segundo o escore geral do instrumento, foi realizada a inversão dos itens reversos do instrumento (itens 2, 11 e 36). Nos itens reversos, as respostas preenchidas como “concordo totalmente”, por exemplo, passaram a ser “discordo totalmente”. Posteriormente, utilizou-se a fórmula m(q.1,q.2r,q.3,q.4,q.5,q.6,q.7,q.8,q.9,q.10,q.11r,q.12,q.13...q.41))-1) x 25), onde m corresponde à média dos itens do instrumento como um todo.

Para o cálculo dos escores, por domínio, somaram-se as respostas dos itens de cada domínio e dividiu-se o resultado pelo número de itens correspondente a cada domínio, com base na fórmula (m-1)x25, onde m é a média dos itens do domínio em questão, variando no intervalo [0-100].

Para verificar a influência das variáveis sociodemográficas e profissionais sobre os escores dos domínios sobre percepção de segurança do SAQ utilizou-se análise bivariada, a qual incluiu teste t de Student, correlação de Pearson e Anova. Para analisar a influência simultânea de todas as variáveis foi empregada análise de regressão linear múltipla. Ressalta-se que o critério de inserção das variáveis preditoras considerou apenas a relevância conceitual.

As análises inferenciais consideraram um nível de significância de 5% (α=0,05). Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Uberaba, sob o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) 55463616.3.0000.5145, e parecer número 1.569.711. Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

Dos 206 profissionais, oito recusaram em participar do estudo, totalizando 198 participantes. Desses, houve predomínio de mulheres (166; 83,8%), casadas (82; 41,4%), com idade média de 35,13 (s=8,40) anos, mínimo de 20 e máximo de 57 anos.

Houve predomínio de colaboradores da equipe de enfermagem (144; 72,7%), seguido de médicos (12; 6,1%) e outros profissionais (42; 21,1%), compostos pelas demais categorias profissionais, a saber: assistente social (2; 1,0%); biomédico (5; 2,5%); farmacêutico (2; 1,0%); fisioterapeuta (4; 2,0%); fonoaudiólogo (1; 0,5%); técnicos em farmácia (17; 8,6%), em radiologia (1; 0,5%) e de laboratório (8; 4,0%); dentista (1; 0,5%) e biologista (1; 0,5%). Os resultados evidenciaram uma minoria com especialização na modalidade Stricto Sensu (8; 4%), entretanto a maioria tem atuação somente em atividades assistenciais (161; 81,3%) e não possuía outro vínculo empregatício (137; 69,2%).

O tempo médio de profissão dos participantes foi de 95,6 (s=76,79) meses, enquanto o tempo médio na instituição foi de 48,22 (s=45,48) meses. O período mínimo de ambas foi de 1 mês, enquanto o máximo para o tempo de profissão foi de 468 meses e 304 para o tempo de admissão. Quanto ao turno de trabalho, houve maior proporção de colaboradores no turno da manhã (64; 32,3%), seguido da noite (51; 25,8%) e manhã/tarde (46; 23,2%).

Os resultados da tabela 1 evidenciam os valores resultantes da análise descritiva do escore geral e por domínios do SAQ.

Tabela 1: Análise descritiva do escore geral e por domínios do SAQ. Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2017 

Domínios Mínimo Máximo Média Mediana Desvio Padrão Αlfa Cronbach
D*1- Clima de trabalho em equipe 0,00 100 71,71 75,00 18,25 0,60
D2 - Clima de segurança 3,57 100 70,12 71,42 18,32 0,72
D3 - Satisfação no trabalho 0,00 100 81,98 90,00 19,62 0,76
D4 - Percepção do estresse 0,00 100 68,03 75,00 25,32 0,70
D5 - Percepção da gerência da unidade e do hospital 0,00 100 62,15 63,63 20,95 0,84
6 - Condições de trabalho 0,00 100 71,14 75,00 26,50 0,75
Geral 8,33 97,37 69,54 70,78 14,98 0,91

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

* D = Domínios

Observou-se que o escore médio geral foi de 69,5 pontos, indicando que a percepção geral do clima de segurança nesta instituição foi negativa. Dentre os seis domínios de segurança avaliados, o domínio Satisfação no Trabalho obteve maior pontuação (81,98), o que indica uma visão positiva do local de trabalho. Em contrapartida, o domínio que se refere a percepção da gerência obteve o pior escore (62,15).

Em relação ao sexo, o escore médio dos Domínio 1 (Trabalho em Equipe) e 2 (Clima de Segurança) foi maior para os homens. Referente ao primeiro domínio, o escore médio para o sexo masculino foi de 78,91 (DP=15,86), enquanto para o feminino foi de 70,30 (DP=18,40). Por sua vez, o escore médio do domínio 2 para os homens foi de 75,53 (DP=16,90), enquanto para as mulheres foi de 69,08 (DP=18,45), com diferenças estatisticamente significativas, respectivamente (p=0,01; p=<0,001). A idade não apresentou diferença estatística significativa em nenhum domínio.

À associação entre o escore geral e dos domínios do SAQ e as variáveis tempo de profissão e tempo na instituição, evidenciou-se que não houve correlação estatisticamente significativa.

Quanto à formação, os profissionais que tinham apenas ensino médio apresentaram menor escore médio (63,43) quando comparado aos que tinham ensino superior (74,54) para o domínio 4 (Percepção do Estresse), com diferença estatisticamente significativa (p=0,001). Esse resultado evidenciou que os profissionais com nível superior apresentaram melhor percepção em relação ao reconhecimento dos fatores estressantes.

As categorias profissionais foram divididas em três grupos, equipe de enfermagem, equipe médica e equipe de outros profissionais. De fato, as comparações múltiplas revelaram que os médicos tiveram maior percepção de segurança quando comparado com profissionais da enfermagem e de outras categorias. Observaram-se associações estatisticamente significativas referente ao escore geral (p=0,003) e aos domínios Clima de trabalho em equipe (p<0,001), Satisfação no trabalho (p=0,02) e Percepção do Estresse (p<0,001) (Tabela 2).

Tabela 2: Comparação das médias dos valores da variável escore geral e domínios do SAQ, considerando a categoria profissional dos trabalhadores de saúde de um hospital universitário, Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2017 

Domínio Enfermeiro Médico Outros
Média DP Média DP Média DP P
D1- Clima de trabalho em equipe 65,15 16,31 90,62 8,35 72,15 18,30 <0,001
D2 - Clima de segurança 66,87 14,66 77,71 14,65 70,49 19,45 0,17
D3 - Satisfação no trabalho 77,84 16,82 95,41 6,20 82,13 20,69 0,02
D4 - Percepção do estresse 78,17 17,76 84,37 19,49 63,51 26,36 <0,001
D5 - Percepção da gerência da unidade e do hospital 61,14 22,04 75,56 18,00 61,34 20,58 0,07
D6 - Condições de trabalho 66,85 26,64 86,11 16,02 71,21 26,84 0,08
Geral 67,34 13,20 82,97 8,87 69,08 14,38 0,003

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

Ajustando-se para potenciais confundidores, por meio da regressão linear múltipla, identificou-se que apenas a categoria profissional médica foi estatisticamente significativa, indicando que esta foi o único preditor que impactou na percepção de segurança (Tabela 3).

Tabela 3: Regressão linear múltipla dos fatores associados ao escore geral do SAQ dos profissionais participantes do estudo. Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2017 

Variáveis Escore Geral
β p
Médicos 0,207 0,005
Enfermeiros -0,058 0,417
Sexo 0,124 0,08
Tempo na instituição 0,014 0,851
Tempo de profissão -0,047 0,538

Fonte: Dados da pesquisa, 2017.

β: coeficiente de regressão; p: probabilidade

Discussão

No presente estudo houve predomínio de profissionais do sexo feminino (83,8%) e da equipe de enfermagem (72,7%), o que corrobora com outros achados9-11. A equipe de enfermagem é em sua maioria do sexo feminino, além disso, constitui a maior parte da força de trabalho nas instituições de saúde12, o que justifica ser a categoria que mais respondeu ao questionário.

A maioria (69,2%) dos profissionais não possuía outro vínculo empregatício, concordando com resultados de outros estudos11,13-14. Contudo, estudo realizado em hospital privado, em Minas Gerais, encontrou que 53,66% dos profissionais participantes apresentavam outro vínculo laboral, entretanto não houve relação significativa entre presença de outros vínculos empregatícios e o escore do clima de segurança10. A presença de um único vínculo de trabalho pode ser considerada um fator contribuinte à segurança do paciente, uma vez que, a sobrecarga de trabalho interfere negativamente na assistência prestada, favorecendo a ocorrência de eventos adversos15.

A pontuação geral média obtida foi de 69,5 pontos, isso significa uma percepção baixa quanto ao clima de segurança, visto que, na literatura, apenas escores acima de 75 pontos são considerados uma visão positiva. Este dado não é diferente dos encontrados em outras investigações6,10-11,14,16.

Por domínios, o melhor escore foi o da satisfação no trabalho, enquanto o domínio percepção da gerência da unidade e hospital apresentou a pior pontuação, demonstrando uma visão negativa dos profissionais quanto às ações da gerência frente às questões de segurança do paciente. Obtiveram resultados semelhantes pesquisas brasileiras6,10-11,14 bem como estudo internacional realizado na Austrália17. Em contrapartida, outras investigações demonstraram que o domínio trabalho em equipe apresentou melhor escore e o domínio percepção do estresse a pior pontuação9,16.

Ressalta-se que a gerência de uma instituição é a principal responsável por planejar, elaborar e monitorar ações e estratégias da cultura organizacional voltadas para a segurança ao paciente, devendo ser capaz de sensibilizar os profissionais a favor dessas medidas. Assim como, a satisfação no trabalho é um fator contribuinte para uma visão confiante e positiva do ambiente de trabalho associada a qualidade da assistência prestada10.

Nesse trabalho, as variáveis consideradas preditoras, para o clima de segurança do paciente, foram: sexo (masculino e feminino), nível de escolaridade (nível médio e superior) e categoria profissional (equipe médica, de enfermagem e outros profissionais).

A variável sexo demonstrou que para os domínios trabalho em equipe e clima de segurança, os homens obtiveram melhor percepção. Pesquisa realizada em um município de Curitiba, utilizando o SAQ, observou resultados semelhantes, onde o sexo masculino apresentou melhor percepção do clima de trabalho em equipe18.

Outros estudos também encontraram diferenças significativas entre a variável sexo, porém, para o domínio percepção do estresse. Os resultados foram divergentes. No primeiro trabalho as mulheres obtiveram melhor escore, já no segundo, os homens apresentaram melhor percepção do estresse11,19. Entretanto investigação realizada em um hospital privado em Minas Gerais, que associou essas variáveis, não encontrou diferença significativa10.

Concernente ao nível de escolaridade, para o domínio percepção do estresse, os profissionais com ensino superior obtiveram melhor escore comparados aos de nível médio, demonstrando que quanto maior o nível de escolaridade melhor o reconhecimento dos fatores estressantes que interferem na execução da assistência prestada. Resultados semelhantes foram encontrados em outras pesquisas6,11.

Dessa forma, nota-se que o nível de escolaridade pode ser considerado um fator positivo para a segurança do paciente. A maior qualificação profissional contribui para uma assistência mais coordenada, articulada e de qualidade com vistas a minimizar riscos decorrentes de fatores estressores que interferem no cuidado prestado20.

Por fim, a categoria profissional foi considerada preditora para o clima de segurança. Foi observado que os médicos obtiveram melhor percepção de segurança para o escore geral. O oposto foi encontrado em pesquisa realizada em três hospitais públicos brasileiros, no Ceará, onde a equipe de enfermagem apresentou maior escore da cultura de segurança quando comparado aos demais6.

Para os domínios clima de trabalho em equipe, percepção do estresse e satisfação no trabalho, na presente investigação, os profissionais médicos também obtiveram maiores pontuações, o que corrobora com outros estudos6,14.

Estudo conduzido na Holanda, mostra resultados semelhantes, no qual a equipe médica obteve melhor percepção quanto aos domínios condições de trabalho, clima de trabalho em equipe, clima de segurança e satisfação no trabalho8.

A diferença na percepção da segurança do paciente, dentro das categorias profissionais, de uma mesma instituição, é um fator que merece atenção. A existência de profissionais com melhor percepção de segurança comparados a outros, pode influenciar comportamentos positiva ou negativamente para a prestação de um cuidado seguro. Ressalta-se ainda que, para a promoção de uma cultura de segurança, todos os membros pertencentes a um serviço devem transmitir a mesma fala e convergir suas atitudes, valores e competências em prol de uma assistência segura5.

Dessa forma, é válido que as instituições de saúde planejem as ações voltadas à segurança do paciente a fim de sensibilizar todos os profissionais envolvidos.

Espera-se que os resultados do presente estudo possam contribuir para o aprimoramento do serviço de saúde prestado. A aplicabilidade do SAQ na prática clínica se configura como uma ferramenta gerencial do enfermeiro para tomada de decisão com vistas a favorecer a qualidade da assistência e a redução de possíveis eventos adversos. Assim, destaca-se a necessidade de novas pesquisas que identifiquem fatores que possam ser aprimorados para garantir a segurança do paciente.

Conclusão

Os profissionais deste estudo obtiveram uma percepção negativa em relação ao clima de segurança do paciente. O domínio satisfação no trabalho apresentou o melhor escore, demonstrando um fator positivo entre os trabalhadores e favorável a segurança do paciente. Já o domínio percepção da gerência da unidade e do hospital obteve a pior pontuação, sendo considerado um achado que precisa ser aprimorado.

Quanto à identificação de preditores sobre os escores de segurança do paciente identificou-se que o sexo masculino apresentou melhores percepções quantos aos domínios clima de trabalho em equipe e clima de segurança.

O nível de escolaridade demonstrou que quanto maior a formação profissional melhor a percepção do estresse, ou seja, melhor o reconhecimento de fatores que podem prejudicar a prestação de uma assistência segura.

Pode-se notar que a categoria profissional também exerceu influência sobre os escores de segurança do paciente, onde os médicos apresentaram melhores percepções quanto ao escore geral do instrumento e aos domínios clima de trabalho em equipe, percepção do estresse e satisfação no trabalho quando comparados a outros profissionais.

Não houveram relações estatisticamente significativas entre o escore geral e os domínios do SAQ e as variáveis idade, tempo de profissão e tempo na instituição.

Como limitação deste estudo, pode destacar o espectro de análise por se tratar de um estudo de coorte transversal, sugerindo acompanhamentos longitudinais. Além disso, o local campo de estudo, por se tratar de um hospital privado, pode ter influenciado o número de profissionais interessados a participar da pesquisa.

Os resultados obtidos demonstram que a identificação de fatores que precisam ser aprimorados e de fatores considerados positivos para a segurança do paciente é uma importante ferramenta gerencial para o planejamento de ações em prol da implementação de uma cultura de segurança dentro das instituições. Além disso, compete aos diferentes atores, educadores da área da saúde e profissionais de saúde, atuar na promoção da segurança do paciente em todas as suas dimensões, devido ao impacto da ocorrência de eventos adversos na qualidade da assistência.

Conclui-se que os resultados contribuíram com evidências que proporcionarão reflexão da prática clínica atual, bem como estratégias para implantar uma cultura de aprendizagem para a segurança do paciente nos cenários de atenção à saúde.

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Recebido: 28 de Agosto de 2018; Aceito: 22 de Outubro de 2018

Autor correspondente: Maria Beatriz Guimarães Ferreira. mariabgfo@gmail.com

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