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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.8 no.16 São Paulo Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1983-682120158162 

ARTIGOS

Implicações do pensamento machadiano para o campo educacional: um estudo do elemento trágico no conto "Terpsícore"

Rogério de Almeida1 

Anna Carolina Ferreira Lima2 

1Universidade de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil

2Universidade de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil

Resumo

É objetivo deste estudo analisar elementos do pensamento trágico (Nietzsche, Rosset) presentes no conto "Terpsícore" de Machado de Assis e dimensionar suas implicações para o campo educacional. Conquanto o conto emerja do cotidiano de um casal dos baixos estratos sociais do fim do século XIX, resvala na tradução mítica da musa da dança e resgata uma orientação pedagógica de aprovação incondicional da vida, expressa pela afirmação do acaso, do espetáculo, da estética, da festa e do amor fati.

Palavras-Chave: filosofia trágica; pedagogia da escolha; amor fati

O que se pode pedir ao escritor é que seja responsável; e mesmo assim, é preciso entender: que o escritor seja responsável por suas opiniões é insignificante; que ele assuma mais ou menos inteligentemente as implicações ideológicas de sua obra, mesmo isso é secundário; para o escritor, a verdadeira responsabilidade é a de suportar a literatura como um engajamento fracassado, como um olhar mosaico sobre a Terra Prometida do real (é a responsabilidade de Kafka, por exemplo).

Roland Barthes

Bem no início de seu livrinho sobre o estudo do poema hesiódicoTeogonia, diante da tarefa de circunscrever a ambiência do Sagrado, Jaa Torrano se percebe dentro de um "problema metodológico insolúvel".1 Diz ele:

Um discurso que se propõe dizer com rigor a essência do que em seu vigor é indizível (nefando e/ou inefável), não pode cumprir-se a rigor. Se ele se fizer como um discurso rigoroso, ele deverá para isso falsificar a apresentação de seu objeto e, portanto, ele deverá, para ser rigoroso, também ser falso.2

Por nossa vez, conquanto nos pretendamos debater com uma questão bastante terrena, muitas vezes mesmo chã, que é a dos problemas da educação, ou melhor, da educação enquanto questão a ser pensada, partilhamos um problema metodológico, se não insolúvel, de difícil solução.

O que nosso problema tem em comum com o de Torrano também o tem com o de um Nietzsche maduro ao apresentar uma autocrítica, ou crítica ao estilo da obra O nascimento da tragédia: o problema de submeter aos instrumentos da razão aquilo que lhe é alheio, ou mesmo indiferente; em nosso caso, o trágico.3

Seja assim, colocamo-nos a tarefa de testar uma experimentação: buscar perceber algumas formas do mecanismo de ação do elemento trágico em Machado de Assis, a um modo que nos possibilite encontrar, acompanhados, o universo educacional sob a perspectiva de uma Pedagogia da Escolha.

Para tanto, contaremos com a companhia de alguns pensadores que se dedicaram ao estudo do trágico, e isso especificamente em torno do conto "Terpsícore", em que avulta o movimento da afirmação da vida, na medida em que se desenvolve, conforme compreendemos o sentido do trágico enquanto afirmação da vida mesmo em seus problemas mais duros e estranhos.4

O leitor pode indagar-nos sobre o elemento trágico num conto que, já na entrada, contém um diálogo travado de modo nada afirmativo em torno de problemas pontuais da vida moderna nos baixos estratos sociais do fim do século XIX: um homem queixando-se de problemas financeiros, e quase que incontestavelmente sem solução, para sua mulher. Ora, é esse o momento, para nós, que nos convoca a notar a perspectiva do trágico, como apresentada pelos pensadores que se dedicaram a essa concepção de pensamento e vida, que é a de afirmá-la incondicionalmente, não obstante esse conto se inicie de tal maneira, com contas por pagar e um aluguel muitos meses atrasado. Nossa tarefa aqui será matizar nesse conto o movimento de aparente afirmação condicional da vida à sua afirmação incondicional, que se dará ao fim. Assim sendo, comecemos pelo início.

Mas comecemos pelo exato início da história desse conto, pois, deve o leitor recordar, o mesmo se inicia in medias res. Assim, o início dessa história não é a cena da discussão, mas outra, que se dá por um evento do acaso, quando Porfírio caminha pela rua da Imperatriz e vislumbra sua futura esposa dançando graciosamente numa casa onde outros casais dançavam, até os movimentos dela ganharem o espaço da sala e tomarem a atenção de todos e, de forma mais arrebatadora, a de Porfírio.

Não será no conto essa a única ocasião em que Porfírio terá os olhos levados pelo que vê: lembremos como foi que ele encontrou a casa onde moraria com Glória. O lar escolhido por ele era predicado de adornos: foi esse o chamamento, mais alto do que se a casa fosse ampla por dentro, que levou Porfírio a aceitar negociação pouco sustentável. Têm em comum esses dois episódios, no gesto de Porfírio, os efeitos próprios a quem é dado às aspirações de um esteta, atento às formas, mas não de um asceta, devido às disposições de se envolver performativamente com elas. Fossem as formas do corpo de Glória, eram-nas enquanto dançava no primeiro instante em que a viu; para além, assim, do seu corpo, o que foi visto foi o seu movimento, o seu pertencimento ao conjunto. Quanto à casa, foi o que ela tinha de aparente a todos, e não só a ele, tal como os movimentos de Glória, que o levou a assumi-la, mesmo com todos os seus outros predicados, os dispendiosos. Além disso, fez questão de uma cerimônia suntuosa e farta para o casamento dos dois, e ainda apegou-se às combinações dos números nos bilhetes de loteria que compraria, por serem bonitas!

Para além da hospitalidade para com as belezas, Porfírio a exerce para com os encontros promovidos pelo acaso. Ora, não é o acaso nada além do que acontece e não possui outro princípio ou fundamento do que a própria falta de princípio ou fundamento, irrupção do irracional e não causal.5 Em outras palavras, a personagem de Porfírio é uma que se deixa afetar por esses encontros, transformando-se deles por diante e não porque estava destinado a eles. Pois assim como, ante a repentina visão de Glória dançando, ele se resolve pela necessidade de aprender a dançar, outrossim, ante a inesperada tentação do vendedor de bilhetes de loteria, ele dá um passo em sua direção, faz de sua escolha uma necessidade.

Tal teor de gestos acaba por dar a tônica do conto, o seu teor de festivo e de agonístico. É a partir deles que a narrativa do conto produz o seu próprio sentido de existir. Não sejamos displicentes com o seu título, que, mais do que qualquer outro momento do conto, é, por direito, o seu legítimo início. Sendo o nome de uma das nove musas da mitologia grega, Terpsícore é o nome da musa da dança, contendo em seu significado, além do substantivo dança, o verbodeleitar-se.

Poderíamos efetivamente remontar o início desse conto aos tempos pré-hesiódicos; mas não iremos tão longe, antes um pouco: pois que o nome do protagonista não nos parece ao acaso, se recordarmos o pensador homônimo da Antiguidade Clássica, reconhecido pelo elogio do paganismo e, enquanto opositor do Cristianismo, autor de uma obra intituladaContra os cristãos. (Antes de continuar, deixemo-nos acompanhar por essa breve apresentação ao longo de nosso trabalho: não se trata de nossa preocupação inventariar as referências utilizadas no conto. Operaremos, o que nos parece um pouco diferente, fazendo valer a breve biografia do filósofo Porfírio nesse mesmo estudo – pois, como se verá em breve, também não o mencionamos desafetadamente.)

Um dos bilhetes de Porfírio saiu premiado. Mas não queiramos que esse seja simplesmente um conto sobre sorte ou esperança retribuída.

Quando Glória é participada do vultoso prêmio, duas condutas fundamentalmente opostas assomam diante do leitor: uma de comedimento e outra de uma extravagância que beira o delírio. Glória, preocupada com um futuro menos árido, insiste mais de uma vez em que a soma restante das quitações pendentes seja depositada na poupança, enquanto Porfírio, imbuído do divino, reacende aquela vontade de festa de estrondo que já se nos fazia familiar através do conto.

O dado trágico que emerge dessa história de amor é justamente o triunfo da segunda conduta em relação à primeira. À iminência de uma vida benzida pela ideia de um futuro mais próspero do que aquele apontado no começo do conto, sem dívidas, aluguéis atrasados ou refeições sumárias, o casal opta – porque Glória se deixa imbuir pelo divino junto ao marido – por um presente próspero, espargindo sua riqueza em um único grande episódio, uma grande festa.

Ao fim da festa e do conto, ficamos sem saber se eles voltariam à vida de outrora, untada com a manteiga das preocupações. Algum indício dessa possibilidade aparece sutilmente na cena em que, caminhando na rua com os problemas lhe habitando as ideias, Porfírio dá com as casas grandes, sem ódio, por ainda não possuir ódio às riquezas.6 O que nos importa aqui é que, ante a possibilidade de um rico presente, de um possível faustoso aqui e agora, os problemas já vividos emergem, ou submergem, como elementos em meio a outros tantos elementos que deverão constituir a experiência de uma vida. Não é mais um problema que os problemas ressurjam, pois eles devem fazer parte da vida, bem como o gozo. Voltamos ao princípio da hospitalidade no gesto de Porfírio, bem como nos aproximamos da ideia nietzschiana (ou dionisíaca) do eterno retorno.

Nesse caso, a indiferença em colocar o dinheiro na Caixa Econômica é a mesma indiferença com o fato de haver problemas; em outras palavras, não há nesse conto recusa aos sofrimentos da vida: vive-se, simplesmente, com e apesar deles. É tal dado que torna de grande importância a primeira cena do conto para nosso estudo: em não fazer questão de poupar dinheiro, o casal acaba por não fazer questão de evitar o infortúnio, sendo para com ele hospitaleiro, bem como com o seu antípoda, a fortuna. Notemos que, em nenhum momento, há remorso ou culpa pela situação em que o casal se encontrava quando da iminência do despejo – não há uma ética cristã na conduta de Glória ou de Porfírio, isto é, o trágico não é justificado através do pecado, para que este justifique o sofrimento.7 Não há um gosto pelo sofrimento, mas uma conduta afirmativa mesmo diante do pior sofrimento.

Ora, o casal que protagoniza o conto é dado às celebrações em e com o público: são figuras do espetáculo. Quando Porfírio chega em casa com um palpite auspicioso, sem contá-lo à esposa, diz-lhe que ela fica retirada em casa, nunca se diverte, como se isso não combinasse com eles, com ela. Que dizer de Glória, cujo nome é o da fama e do brilho? Conquanto dotada de indícios da educação normal (que não é obrigatoriamente escolar: a sociedade educa) para os valores da previdência, valores eminentemente cristãos, como o serão quaisquer valores educados, ao menos no Ocidente, valores que norteiam a perspectiva do olhar em relação à vida, a qual sempre será considerada na chave da falta e da culpa, e, no limite, da negação da vida, Glória deita esses mesmos valores de lado quando a vida irrompe nela: ela entra no ritmo de todas as festas, numa aprovação integral da vida como escolha trágica.8

Tanto em Dionísio como em Cristo, o mártir é o mesmo, a paixão é a mesma. É o mesmo fenômeno, mas dois sentidos opostos. Por um lado, a vida que justifica o sofrimento, que afirma o sofrimento; por outro lado, o sofrimento que acusa a vida, que testemunha contra ela, que faz da vida algo que deve ser justificado. O fato de haver sofrimento na vida significa para o cristianismo que a vida não é justa, que é mesmo essencialmente injusta, que paga pelo sofrimento uma injustiça essencial: é culpada na medida em que sofre. Significa também que deve ser justificada, quer dizer, resgatada da sua injustiça ou salva, salva pelo sofrimento que ela acusava: deve sofrer, na medida em que é culpada.9

Na batalha travada no conto entre os deuses do paganismo e o Deus cristão, quem ganha são os primeiros, aqueles sobre cujo interesse no homem em algum momento adquirimos o direito de pensar.10 E que maneira de viver aguçaria mais os ânimos divinos do que aquela que se coloca numa condição agonística?

Não em vão, no conto, quando Porfírio se seduz com a dança de Glória, crava nela uns "olhos de sátiro",11 os quais remetem tanto à fixação de Machado pelo olhar, como notou Bosi12 – olhar que guarda isomorfia simbólica com as imagens espetaculares que o obsedam, na perspectiva da teoria do imaginário13 –, quanto aos seres, os sátiros, ligados diretamente ao culto dionisíaco.

Por isso não nos esqueceremos de que o próprio termo trágico pode ser interpretado como o "canto dos bodes", em referência aos sátiros, que "são a configuração das forças do crescimento e do devir e, como tal, são de suma imporância para o homem. Imitá-los na dança mímica, usar suas máscaras, equivale a garantir-se as forças benéficas que em si encerram".14

Machado de Assis é um tradutor. Como notou Alcides Villaça,15 opera buscando equivalências que relativizam o valor do sublime e do vulgar. Em sua análise do conto "A cartomante", a precisão do gesto tradutor:

Esse processo de eliminação das diferenças ganha expressiva ilustração na referência à "velha caleça de praça" que, para os namoradinhos que lá dentro se apertem, "vale o carro de Apolo". Portanto: Rita "vale" Hamlet, um vulgar cumprimento "vale" uma mensagem sublime, a mesma explicação "vale" em diferentes palavras. De valor em valor, de tradução em tradução, as vulgatas valem o original, o prosaico vale o mitológico, a curiosidade vale a metafísica, a cartomancia vale o conhecimento.16

A gramática das traduções empreendida por Machado faz com que o marceneiro Porfírio equivalha ao filósofo de Contra os Cristãos na defesa do paganismo; Glória é a encarnação da própria musa Terpsícore; e a vida é a própria festa ante a morte:

A aprovação propriamente dita não é riso da morte, mas festa ante a morte. A filosofia trágica não começa quando os homens aprenderam a rir de seus cadáveres, mas antes no dia misterioso, tardiamente reconhecido por Nietzsche em A origem da tragédia, onde os Gregos confundiram numa única festa o culto dos mortos, do qual tinha nascido a tragédia, e o culto do deus que simbolizava o vinho e a embriaguez: as Grandes Dionisíacas, que no mesmo dia celebravam simultaneamente os jogos da vida, da morte e do acaso.17

O reverso do prudente, ajuizado, parcimonioso não é o precipitado, desajustado, dispendioso, como no imaginário da previdência, imaginário prometeico que antecipa, prevê, planeja e projeta, em busca de um alargamento do tempo, ainda que com o sacrifício do presente. No conto, o reverso da previdência é a afirmação, a adesão intensa ao presente, a tudo o que tem de infortúnio e alegria. A festa não écombate à finitude, mas intensificação da vida perante a morte.

Tendo esse cenário como horizonte, é possível problematizar os caminhos da educação na vertente de uma pedagogia da escolha. Acreditamos que, imbuídos do imaginário trágico que o conto figura, podemos formular um problema dentro do campo educacional nos termos a seguir.

Todo saber escolar emerge de modo que, em nome dele, sejamos postos à prova enquanto sujeitos da educação, e é a tal ponto, que tais saberes são amalgamados com a vida, orientando nossos projetos de vida; por sua vez, os saberes mesmos se encontram salvaguardados de serem postos à prova na qualidade de convenções que são, pelo sujeito escolar. E ainda convivemos com o dado de que esses mesmos saberes se orientam por uma matriz fundamentalmente antitrágica, uma vez que seu aprendizado mesmo se encontra alicerçado sobre a base da necessidade, ou melhor, de necessidades dadas de véspera: precisamos deles para arrumar um emprego, ler um letreiro de ônibus, fazermos as contas dos gastos da vida, planejar nosso futuro, conquistar melhores condições de vida para desejarmos uma boa velhice etc.

Em mão divergente, vemos Porfírio preencher uma "lacuna da sua educação" dedicando-se voluntariamente ao mais inútil dos aprendizados, o de uma modalidade estética, e não a um aperfeiçoamento para o mundo do trabalho. Tampouco ele nos parece preocupado com noções como a de previdência – caríssima à nossa formação escolar, que prima por uma vida para depois, depois da aula, depois do fechamento dos boletins, depois de terminar o Ensino Médio –, dado que não se preocupa em salvar dinheiro na incontornável Caixa.

Em resumo, o posto privilegiado da educação é o de pressuposto básico para se viver uma vida. Longe de esse ser o ponto que nos toca, o que consideramos como um problema é quando acontece a internalização do projeto escolar, não deixando fresta para que se faça na vida o que fosse realmente fruto de uma responsabilização individual pelo próprio caminho escolhido.

Não se trata de apontar a vida do casal do conto "Terpsícore" como um modelo a ser seguido. Não é escopo de uma pedagogia da escolha a defesa de um modo de vida, seja o do espetáculo festivo ou da discrição prudente, no registro das políticas morais. A ênfase está na escolha, nas sendas cuja condição de possibilidade é também um pouco de retiro. No mais, apontar qualquer modo de vida como um modelo, por si só, vai de encontro à concepção trágica, que não possui modelos de antemão, mas apenas a simples fórmula do contentamento com o vivido, sob qualquer forma: "Trágico designa a forma estética da alegria, não uma forma medicinal, nem uma solução moral da dor, do medo ou da piedade. O que é trágico é a alegria".18

Há na escolha de Porfírio menos uma crítica à previdência, com a qual assente, do que afirmação da existência e do que nela é transitório, efêmero e perecível. "Aprovar a existência é aprovar o trágico: consentir em uma intangibilidade da existência em geral, que as noções de acaso, artifício, facticidade, não duração descrevem, cada uma em seu nível conceitual."19

Escolher a afirmação incondicional da existência equivale a "não querer nada de outro modo, nem para diante, nem para trás, nem em toda a eternidade. Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo [...], mas amá-lo...".20 Trata-se de uma alegria plena, que não quer nada diferente do que é. Não tem a ver com o desejo de permanência, pêndulo do lado da prudência, mas com o amor pelo eterno: "não uma permanência do mundo, mas uma insistência do amor",21 que Nietzsche evoca no amor fati, aprovação do destino, do fatum, do fado, do que vem, do que ocorre, da existência integral, com o que tem de dor e alegria.

No âmbito escolar, o problema dessa perspectiva é a ausência de receituários que ensinem a viver com alegria. Pois não se trata efetivamente de um conhecimento científico, mas de uma sabedoria trágica. A alegria é um complemento ao exercício da vida semelhante às noções de graça, dom, dádiva, algo impenetrável

aos próprios olhos daquele que sente seu efeito benéfico. Pois no fundo nada mudou para ele e ele não sabe mais do que antes: não tem argumento algum para invocar em favor da existência, continua perfeitamente incapaz de dizer por que e em vista de que ele vive – e no entanto acha, doravante, a vida indiscutível e eternamente desejável.22

Entretanto, se é impossível o ensino da alegria, faz-se viável questionar a carga de crença que acompanha a esperança de progresso, tal qual confabulada pelo Iluminismo setecentista e difundida na modernidade, pela qual o vetor infinito do avanço científico exterminaria os males humanos, numa versão pedagógica que faz a felicidade transcender o acaso da existência.

A pedagogia escolar dominante é ainda hoje tributária do projeto educativo das Luzes: "O desenvolvimento dos conhecimentos pode, segundo se crê, resolver os males de que sofre a humanidade, senão mesmo erradicá-los. É o próprio espírito da Enciclopédia: a esperança numa mudança radical da condição humana".23

Já a pedagogia da escolha defenderia uma

educação que não esquecesse o caráter efêmero de todas as coisas, o fato de nada ser durável, o fato de a própria realidade parecer despida de toda significação e de toda finalidade. Uma tal concepção foi defendida pelo humanismo da Renascença [...]. Não se trata de viver melhor, o que implica o projeto louco de uma mudança radical da vida, mas pelo contrário, viver o melhor possível.24

Importa para a pedagogia da escolha a alegria de viver aliada ao conhecimento trágico do mundo, por meio da suspensão da crença e do exercício estético. Como esperar da escola atual uma atuação estimulante para o aprendizado da conduta da escolha, se ela tem por programa produzir justamente "mentalidades conformadas aos objetivos desse mesmo mundo no qual os educandos se inserirão"?25Por outro lado, como seriam as coisas se o programa escolar fosse efetivamente outro, se à escola coubesse e ela efetuasse a simples e elegante tarefa de desestabilizar a unilateralidade dos saberes, mostrar sua falibilidade, transitoriedade, seus mecanismos de aparição e funcionamento, enfim, a contingência dos saberes apresentados por ela mesma, sem, contudo, negá-los e, finalmente, desmascarando a sua própria contingência, dado que, também ela, é fruto da produção desses saberes?

São, portanto, dois os objetivos principais de uma pedagogia da escolha:

1) pôr em evidência o real (sua condição trágica, insignificante, o acaso da existência), isto é, fazê-lo falar, dar expressividade poética, filosófica, tautológica, literária, simbólica, imaginária, estética etc. e 2) gozar a alegria da aprovação incondicional do real, ou seja, celebrar a existência inclusive em seus aspectos mais dolorosos, desagradáveis e indigestos, não porque haja algum tipo de prazer na dor, mas pela condição mesma de uma aprovação incondicional, que é, ao afirmar a vida, afirmá-la integralmente, com sua crueldade, efemeridade e mortalidade.26

Para concluir, o conto "Terpsícore" traz à tona uma alternativa trágica ao imaginário da previdência, que é, sem negá-lo, fazer o pêndulo oscilar para a escolha do acaso, da superfície, do espetáculo, da estética e da festa, elementos que reforçam a aprovação incondicional da existência. A vida é então intensificada pela beleza da Glória (a mulher e o esplendor), do vestido de seda, da beleza dos números no bilhete de loteria, elementos narrativos que remetem a uma dimensão estética que pode justificar a existência, mas que é em si injustificável, pois da ordem do inefável. Retomando o problema metodológico de Torrano27 que nos guiou na abertura deste artigo, esperamos não ter faltado ao rigor discursivo ao dizer do vigor do vivido, embora concedamos quanto aos riscos de falsificação (como na epistemologia popperiana), pois a essência da vida, ainda que narrada, perdura indizível.

Referências

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1 TORRANO, Discurso sobre uma canção numinosa, p. 11.

2Ibidem.

3 MACHADO, Assim falou Zaratustra e o pensamento trágico.

4 NIETZSCHE, Ecce homo: como alguém se torna o que é, p. 63-64.

5 ALMEIDA, O trágico em Machado de Assis: análise do conto "Singular ocorrência", p. 277.

6 ASSIS, Terpsícore, p. 404.

7 ROSSET, La filosofía trágica, p. 29.

8 ALMEIDA, Educação contemporânea: a sociedade autolimpante, o sujeito obsoleto e a aposta na escolha.

9 DELEUZE, O trágico, p. 24-25.

10 NIETZSCHE, Genealogia da moral: uma polêmica.

11 ASSIS, Terpsícore, p. 403.

12 BOSI, Machado de Assis: o enigma do olhar.

13 DURAND, As estruturas antropológicas do imaginário.

14 LESKY, A tragédia grega, p. 66.

15 VILLAÇA, Machado de Assis, tradutor de si mesmo, p. 14.

16Idem, p. 6.

17 ROSSET, Lógica do pior, p. 198.

18 DELEUZE, O trágico, p. 29.

19 ROSSET, A antinatureza: elementos para uma filosofia trágica, p. 299.

20 NIETZSCHE, Obras incompletas, p. 374.

21 ROSSET, Alegria: a força maior, p. 90.

22Idem, p. 27.

23 ROSSET apud KECHIKIAN, Os filósofos e a educação, p. 64.

24Idem, p. 63.

25 ALMEIDA, Educação contemporânea: a sociedade autolimpante, o sujeito obsoleto e a aposta na escolha, p. 58.

26Idem, O imaginário trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha, p. 203.

27 TORRANO, Discurso sobre uma canção numinosa.

Recebido: 04 de Setembro de 2015; Aceito: 03 de Novembro de 2015

ROGÉRIO DE ALMEIDA

é professor associado da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP). Lidera o GEIFEC (Grupo de Estudos sobre Itinerários de Formação em Educação e Cultura) e é um dos coordenadores do Lab_Arte (Laboratório Experimental de Arte-Educação & Cultura). Bacharel em Letras (1997), doutor em Educação (2005) e livre-docente em Cultura e Educação, todos os títulos pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalha com temas ligados à Filosofia Trágica, à Antropologia do Imaginário, ao Cinema e à Literatura como processo de formação. É autor de O imaginário trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha, pela editora Képos. Site: www.rogerioa.com. E-mail: rogerioa@usp.br.

ANNA CAROLINA FERREIRA LIMA

cursou Bacharelado em Letras (Português e Chinês) pela Universidade de São Paulo (2011). Atualmente é aluna de pós-graduação em nível de Mestrado, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Integra o grupo de pesquisa do CNPq denominado CoPERP – Coletivo de Pesquisadores em Educação e Relações de Poder, na linha de pesquisa Pensamento, modos de subjetivação e educação. E-mail: anna.lima@usp.br.

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