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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.8 no.16 São Paulo Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1983-682120158169 

RESENHAS

Resenha de O Imaginário Trágico De Machado De Assis: elementos para uma pedagogia da escolha, de Rogério de Almeida

Review of O Imaginário Trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha, by Rogério de Almeida

Marcos Namba Beccari1 

1Universidade Federal do Paraná. Curitiba, Paraná, Brasil

ALMEIDA, Rogério de. O imaginário trágico de Machado de Assis, : elementos para uma pedagogia da escolha. 2015. Képos, São Paulo: 216 p.p.

Não é inédita a ideia de que a obra machadiana, em sua configuração literária – portanto no imaginário ali arranjado –, expressa um determinado pensamento filosófico. O problema que acompanha historicamente essa ideia é antecipado por Hélio de Seixas Guimarães1 no prefácio de O imaginário trágico de Machado de Assis: as tentativas de explicar filosoficamente o universo machadiano são "invariavelmente acompanhadas da intuição de que talvez não houvesse fundo nem explicação". Por conseguinte, como atesta Alfredo Bosi,2 "O que se tem até hoje como consenso é a qualificação da perspectiva de Machado de Assis por meio de epítetos negativos: cética, relativista, irônica, sardônica, sarcástica, pessimista, demoníaca".

Rogério de Almeida3 parte da hipótese de que essa negatividade não reside na obra machadiana, mas na recusa de alguns intérpretes ante a visão trágica de Machado: "não se trata de ignorar o trágico, mas de recusá-lo de partida, contornando-o onde se mostra demasiado evidente".4 Tal recusa se dá pela tentativa de acomodar o pensamento de Machado a uma intenção filosófica "maior", como a renúncia de cunho jansenista ou schopenhaueriana, uma crítica aos processos histórico-sociais ou mero "recalque" de uma vida marcada por sofrimento. Ocorre que

Machado, se disseca a moral, não é para corrigir os costumes; se trata da filosofia, não é para buscar a verdade; se aborda política, não é para se posicionar ideologicamente; se traz à tona as estruturas ósseas da sociedade, não é para indignar ou propor mudanças.5

Sendo assim, ou admitimos que não pode haver filosofia machadiana, ou repensamos a própria noção de filosofia. Não obstante, a filosofia trágica pode ser definida, entre outras coisas, como "antifilosofia", como oposto da intenção metafísica de conhecer e intervir numa suposta ordem ou princípio do que existe.

Ora, Machado de Assis zombava justamente de filosofias que, a pretexto de conhecer o que existe, debruçam-se sobre o que não existe: conceitos e sentidos que não se encontram em lugar algum. De modo análogo, a filosofia trágica começa por reconhecer que o mundo é insignificante, isto é, não possui sentido inerente.6 Se não possui sentido, não é interpretável, o que não impede de ser pensado: não cessamos de atribuir sentido a um mundo que é sem sentido. Essa ausência de sentido não implica que o mundo seja incompleto ou insuficiente; pelo contrário, implica que o mundo é completo em sua falta de sentido, não carece de nada – a exigência de sentido ocorre por "efeito" (humano, imaginário) e não como causa/necessidade.

É assim que o trágico da existência é tratado por autores historicamente tão díspares quanto Lucrécio, Montaigne, Hume, Nietzsche, Clément Rosset... e Machado de Assis. Com efeito, a interpretação inaugurada por Rogério de Almeida salienta o caráter trágico do imaginário machadiano. Expressão não de uma filosofia pessimista, niilista, transformadora ou lamentadora, e sim de uma filosofia trágica, que por sua vez não tem propriamente nada de "novo" a dizer, pois aquilo que mostra é o esforço humano de atribuir sentido a uma existência que prescinde de qualquer sentido.

Não se trata de denunciar as ilusões humanas, e sim de tornar visível e exaltar o espetáculo de nossas significações imaginárias. Constatação de que o mundo é privado de sentido, mas também de que a intensidade dos sentidos imaginários engendra nossa maneira de viver no mundo. É essa intensidade que Rogério de Almeida enaltece ao pontuar que "a pior realidade por ele [Machado] imaginada vem sempre acompanhada de uma alegria estética arrebatadora".7 Significa que Machado não apenas constata o trágico, mas principalmente que ele não desaprova o que constata – aprovação esta que constitui, de modo geral, o fio condutor do livro em questão.

O imaginário trágico de Machado de Assis é composto por sete capítulos, os quais são dispostos basicamente em três partes: (1) argumentação da filosofia trágica expressa no imaginário machadiano; (2) análises pontuais de elementos filosóficos presentes em peças selecionadas; (3) desdobramentos da literatura machadiana para a educação. Em constante diálogo com intérpretes da literatura machadiana – como Alfredo Bosi, Antonio Candido, Raymundo Faoro, João Adolfo Hansen, Alcides Villaça, entre outros –, Rogério de Almeida ancora-se na perspectiva nietzschiana de Clément Rosset e nos estudos da antropologia do imaginário de Gilbert Durand para explicitar a filosofia trágica que se expressa nas obras de Machado de Assis.

Essa tarefa é levada a cabo mais detidamente na análise cuidadosa (distribuída nos cinco capítulos que sucedem o primeiro) de contos como "Singular ocorrência", "O espelho", "A causa secreta" e "A cartomante", além do capítulo "O delírio" das Memórias póstumas de Brás Cubas. Uma vez delineada a expressão estética machadiana (como conjunção entre uma existência insignificante e a alegria de viver), Rogério de Almeida abre caminho, no último capítulo, a uma pedagogia da escolha, cujos elementos dizem respeito às escolhas possíveis em relação ao dado trágico da existência: sua aprovação incondicional (escolha trágica), sua recusa (suicídio) ou a imposição de condicionantes (ilusão).

Creio que é nesse peculiar direcionamento que reside a principal contribuição desse livro: uma educação machadiana como forma de aprender a desaprender. Se a educação está condicionada à crença em uma ou mais verdades – não é possível educar sem transmitir valores, conhecimentos, visões de mundo etc. –, a suspensão da crença derivada do imaginário machadiano pode ser vista como "antieducativa". No entanto, há algo aí sendo ensinado: "Aprende-se a ver e a considerar o que existe (aparência). Desaprende-se o que, desalojado da existência concreta, vai buscar uma ideia qualquer de totalidade e universalidade para explicar em conjunto o que sempre é singular e plural".8 Mais do que isso, esse horizonte trágico convoca à escolha da aprovação, isto é, a uma adesão incondicional da existência em todos os seus aspectos.

Donde a alegria machadiana "não se confunde com uma visão otimista, cândida ou serena de mundo. Pelo contrário, aparece justamente no que há de pior: no caráter insignificante da vida, eivada de dor e sofrimento".9 Eis o aspecto formativo que Rogério de Almeida destaca na literatura machadiana: nenhuma intenção pedagógica de transformação, mas de aprovação do momento vivido, das contradições, das mazelas, das convenções, das circunstâncias ao acaso e, enfim, de uma existência sem sentido.

Referências

ALMEIDA, Rogério de. Considerações sobre as bases de uma filosofia trágica. Diálogos Interdisciplinares, UBC, Mogi das Cruzes, v. 2, p. 52-63, 2013. Disponível em: http://www3.brazcubas.br/ojs2/index.php/dialogos/article/view/37. Acesso em: 8 set. 2015. [ Links ]

ALMEIDA, Rogério de. O imaginário trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha. São Paulo: Képos, 2015. [ Links ]

BOSI, Alfredo. Machado de Assis: o enigma do olhar. São Paulo: Martins Fontes, 2007. [ Links ]

GUIMARÃES, Hélio de Seixas. Prefácio: Uma leitura radical de Machado de Assis. In: ALMEIDA, Rogério de. O imaginário trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha. São Paulo: Képos, 2015, p. 13-20. [ Links ]

HIERRO, Rafael Del. El saber trágico: de Nietzsche a Rosset. Madrid: Ediciones del Laberinto, 2001. [ Links ]

ROSSET, Clément. Lógica do pior. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989. [ Links ]

1 GUIMARÃES, Prefácio: uma leitura radical de Machado de Assis, p. 14.

2 BOSI, Machado de Assis: o enigma do olhar, p. 11.

3 Professor livre-docente na Faculdade de Educação da USP. Trabalha com temas ligados à Antropologia do Imaginário, à Pedagogia da Escolha e à Filosofia Trágica. Escreveu, entre outros, O criador de mitos: imaginário e educação em Fernando Pessoa (São Paulo: Educ, 2011).

4 ALMEIDA, O imaginário trágico de Machado de Assis: elementos para uma pedagogia da escolha, p. 26.

5Idem, p. 24.

6 Cf. ALMEIDA, Considerações sobre as bases de uma filosofia trágica; ROSSET, Lógica do pior; HIERRO, El saber trágico: de Nietzsche a Rosset.

7 ALMEIDA, cit., p. 79.

8Idem, p. 197.

9Idem, p. 204.

Recebido: 09 de Setembro de 2015; Aceito: 19 de Outubro de 2015

MARCOS BECCARI é doutor em Educação pela USP, graduado em Design Gráfico e Mestre em Design, ambos pela UFPR. Atua como professor do Departamento de Design da UFPR e como pesquisador nos grupos: Navis – Núcleo de Artes Visuais (Unespar), Design Colaborativo e Cocriação (UFPR), Geifec – Grupo de Estudos sobre Itinerários de Formação em Educação e Cultura (FE-USP). Coautor do livro Existe design? Indagações filosóficas em três vozes (2AB, 2013). E-mail: contato@marcosbeccari.com.

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