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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.10 no.20 São Paulo Jan./Apr. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201710202 

ARTIGOS DO DOSSIÊ

OS CONTOS DE MACHADO DE ASSIS NAS REVISTAS DE MODA: LEVANTAMENTO, ALGUMAS HIPÓTESES E CONCLUSÕES

SHORT STORIES BY MACHADO DE ASSIS IN FASHION MAGAZINES: SURVEY, SOME HYPOTHESES AND CONCLUSIONS

ANA CLÁUDIA SURIANI DA SILVA1 

1University College London. Londres, Reino Unido

Resumo

As revistas de moda encontram-se entre os principais canais de difusão de ficção no século XIX. Esse segmento da imprensa desenvolveu-se no Brasil para atender à crescente demanda por material de costura e leitura. Em primeiro lugar, este artigo discute a importância do conteúdo visual e textual na consolidação da revista de moda como um dos principais meios jornalísticos de difusão de ficção no século XIX. Em segundo lugar, investiga se a colaboração de Machado de Assis foi determinante na sobrevivência do Jornal das Famílias e de A Estação por mais de uma década. Parte-se, finalmente, de um levantamento de toda a produção contística do escritor para se determinar se o suporte desempenhou algum papel na divisão dos contos em fascículos.

Palavras-Chave: contos; revista de moda; jornal diário; folhetim

Abstract

Fashion magazines are among the most important means for the dissemination of fiction in the nineteenth century. This segment of the press developed in Brazil to meet the growing demand for articles on sewing and reading material in general. First, this article discusses the importance of visual and textual content to the consolidation of the fashion magazine as one of the main journalistic means for diffusing fiction in the nineteenth century. Second, it examines whether the collaboration of Machado de Assis as a short-story writer was a determinant factor for the survival of Jornal das Famílias and of A Estação for more than a decade. Finally, this article bases itself on a survey of all of Machado de Assis’s short stories in order to determine whether the medium played a role in dividing the short stories into installments.

Key words: short story; fashion magazine; newspaper; serial literature

Antes da invenção do cinema no final do século XIX e de sua consolidação como um importante meio de comunicação e entretenimento de massa, a moda era difundida por meio da palavra escrita, da imagem impressa, do teatro e, claro, de viajantes, costureiros e comerciantes, entre os quais aqueles que se estabeleceram na rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, depois da transferência da família real para o Brasil em 1808. A grande quantidade de revistas de moda em circulação em todas as partes do mundo e a longevidade de não poucas dessas publicações demonstram o sucesso da parceria entre a moda e a imprensa. De um lado, consolidou-se um segmento da imprensa, o qual, ao lado do jornal diário, viria a se tornar um dos produtos jornalísticos mais bem-sucedidos até hoje. De outro, um produto cultural europeu encontrou uma forma de difusão que foi capaz de estreitar as relações entre Europa e Brasil e intensificar ao longo do tempo as trocas culturais transatlânticas.

No século XIX, uma revista de moda, ou talvez fosse melhor dizer, revista com conteúdo de moda, era essencialmente um periódico com uma variedade de materiais visuais e textuais, incluindo uma coluna e ilustrações de moda. O texto predominava sobre a imagem nesse veículo que tinha, ou pelo menos aspirava a ter, uma pronunciada tendência comercial, já que se destinava a fazer face a uma demanda de mercado: fornecer material relacionado à leitura e à costura, duas atividades tradicionalmente associadas ao mundo doméstico e às mulheres.1 Na primeira metade do século XIX, não havia em circulação no Brasil um único periódico em língua portuguesa exclusivamente dedicado à moda ou no qual o conteúdo relativo à moda (textual e visual) fosse predominante.2 O primeiro no gênero, até onde sabemos, só apareceria na virada do século: O Brazil Elegante. Jornal de Modas das Famílias Brasileiras, Rio de Janeiro, Tipografia Besnar D. Frères (1898-1904[?]).

A revista de moda brasileira nasceu, portanto, em decorrência de uma oportunidade de negócios e de uma demanda local por periódicos na língua nacional dirigidos especificamente a mulheres. Com a vinda da Corte portuguesa para o Brasil em 1808, o Rio de Janeiro cresceu em tamanho e importância política, tornando-se um importante centro urbano. A cidade passou a ser mais cosmopolita e, graças ao seu novo estatuto como sede da monarquia, sofreu o impacto direto das mudanças econômicas, sociais e culturais que o país atravessava. Tais mudanças incluíram o desenvolvimento de um centro aglutinador do comércio e da imprensa em torno da rua do Ouvidor, onde homens de negócios, alfaiates, costureiros, cabeleireiros, editores e livreiros – na maioria, emigrados da Europa por razões econômicas – se estabeleceram, fazendo da nova capital do Império um espaço privilegiado para a difusão da moda parisiense.3 A demanda crescente por mercadorias importadas abrangia artigos de luxo – como tecidos finos, sombrinhas, chapéus – e material impresso da moda parisiense. Moldes e revistas de moda chegados de navio constituíam fonte valiosa para alfaiates e costureiros ocupados em atender à crescente demanda das famílias abastadas e da Corte por usar trajes que eram a última moda em Paris.

O comércio de vestuário e a imprensa começaram a se expandir assim que a Corte portuguesa chegou ao Brasil, não só em decorrência do aumento da demanda, mas também como resultado da abertura dos portos, de novos acordos comerciais – como a reciprocidade para pessoas de nacionalidade francesa fixarem residência no Brasil – e da decretação de leis que desobstruíram as importações, o comércio e a produção de roupas (a partir de matéria-prima importada) e material impresso.

Foi apenas em fins da década de 1820 e começo da de 1830 que um número significativo de revistas femininas começou a aparecer, tanto na Corte como nas províncias, entre elas O Mentor das Brasileiras de São João Del Rey (1829), O Espelho das Brasileiras (1831), no Recife, e no Rio de Janeiro O Espelho Diamantino (1827-1828), A Mulher do Simplício ou A Fluminense Exaltada (1832-1846) e Correio das Modas (1839-1840).4 É nestes três primeiros periódicos com conteúdo de moda publicados no Rio de Janeiro (O Espelho Diamantino, A Mulher do Simplício e em especial Correio das Modas) que encontramos uma discussão mais sistemática sobre moda e, pela primeira vez, no Correio das Modas, gravuras vindas da Europa.

Tabela 1 : Periódicos com conteúdo de moda em língua portuguesa disponíveis no catálogo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro ou mencionados em estudos sobre revistas femininas do século XIX5 

Título Editor/Tipografia Período de circulação
O Espelho Diamantino: Periódico de política, teatro e modas. Dedicado às senhoras brasileiras P. Plancher-Seignot 1827-1828
A Mulher do Simplício ou A Fluminense Exaltada Tipografia de Tomás B. Hunt & C., Tipografia de Lessa & Pereira, Tipografia Imparcial de F. P. Brito 1832-1846
Correio das Modas: Jornal Crítico e Literário das Modas, Bailes, Teatros Tipografia Universal de Laemmert 1839-1840
O Gosto: Jornal de Teatros, Literatura, Modas, Música e Pintura. Tipografia Imparcial de F. de P. Brito, Tipografia de Cremiere 1843
O Espelho Fluminense. Novo Gabinete de Leitura: Modas, Poesias, Charadas e etc. Livraria Universal de E. e H. Laemmert 1843
O Martinho: Jornal de Recreio que Trata dos Vivos e dos Mortos Tipografia Universal de Laemmert 1851
Novo Correio de Modas: Novelas, Poesias, Viagens, Recordações, Histórias, Anedotas e Charadas Tipografia Universal de Laemmert 1852-1854
O Jornal das Senhoras. Modas, Literatura, Belas-Artes e Crítica Tipografia Pariense 1852-1855
Recreio do Bello Sexo. Moda, Literatura, Belas-Artes e Teatro. ? 1856
A Marmota Tipografia de Paula Brito 1857-1861
O Espelho: Revista de Literatura, Modas, Indústria e Artes Tipografia Imparcial de Paula Brito; Tipografia Comercial de F. O. Queiroz Regadas; Tipografia Americana de José Soares de Pinho 1859-1860
Revista Popular B. L. Garnier 1859-1862
A Primavera: Revista Semanal de Literatura, Modas, Indústria e Artes Tipografia Popular de Azeredo Leite 1861
Semana Familiar: Jornal Poético, Literário, Noticioso, Industrial, Científico, Crítico, Anedótico, etc., para Recreio das Famílias Residentes no Brasil Rio de Janeiro: Tipografia de Fontes Irmão 1862
Jornal das Famílias B. L. Garnier 1863-1878
O Pantheon: Importante Jornal do Importantíssimo Estabelecimento de Fazendas e Modas Au Pantheon, Sito à Rua Sete de Setembro n. 78 Tipografia Acadêmica 1872-1873
Illustração da Moda ? (Paris e Rio de Janeiro) Edição em português de Les Modes Parisiennes 1876
A Estação. Jornal Ilustrado para a Família Lombaerts 1879-1904
Archivo das Famílias: Publicação Semanal Consagrada ao Recreio e Interesses Domésticos. Rio de Janeiro: Tipografia e Litografia de J. D. de Olivier Tipografia e Litografia de J. D. de Olivier 1881-1882
O Brazil Elegante: Jornal de Modas das Famílias Brasileiras Tipografia Besnard Frères 1898-1904

A fórmula mais bem-sucedida de revista de moda para um público consumidor foi obtida no Brasil com o Correio das Modas e mantida no Novo Correio de Modas, Jornal das Famílias e A Estação. Tal fórmula exibia as seguintes características:

  1. A revista era um "espaço feminizado", em contraste com o mundo masculino da política e da economia;6

  2. Era publicada regularmente: semanal, quinzenal ou mensalmente;

  3. Todas (ou quase todas) as edições eram acompanhadas por uma gravura de moda;

  4. Incluía uma coluna de moda, que com frequência ocupava a primeira página;

  5. O texto prevalecia sobre a imagem;

  6. Incluía uma diversidade de textos de diferentes gêneros, entre eles o romance-folhetim e o conto.

A presença da coluna de moda, da ilustração e de textos ficcionais foi determinante para a consolidação da revista de moda, já que sua sobrevivência dependeu exclusivamente das assinaturas pelo menos até a década de 1850. Na segunda metade do século, os editores começaram a cobrar por anúncios, fossem eles de particulares, casas comerciais ou pela divulgação de eventos culturais. A inter-relação entre a gravura, a coluna de moda e o texto de ficção está diretamente ligada à longevidade das primeiras revistas de moda no Brasil.

Concentrando-nos agora no conteúdo textual, como ficou escrito acima, uma revista de moda brasileira do século XIX sempre tinha uma gama de textos mais ampla que o vestuário-escrito, isto é, as legendas que descreviam o vestuário-imagem.7 Continha:

  1. O editorial de moda;

  2. Outros artigos sobre moda, beleza, decoração e etiqueta, traduzidos ou escritos por colaboradores brasileiros;

  3. Crônicas sobre a alta sociedade e a vida cultural local, nesse caso o Rio de Janeiro;

  4. Poemas, contos e romances traduzidos ou escritos por colaboradores brasileiros.

Por último, mas não menos importante, publicava adivinhas, quebra-cabeças e anúncios. Estes últimos se tornaram parte intrínseca da revista de moda da segunda metade do século XIX em diante, fornecendo a nós, pesquisadores, muitas informações sobre a circulação de mercadorias, seus canais mediadores (representantes, importadores, livreiros, editores, lojas) e o gosto das consumidoras de moda e leitoras de literatura.

Embora tratem de moda apenas de modo tangencial, os textos literários fornecem dados muito mais interessantes do que o vestuário-escrito, porque não estão diretamente relacionados com o vestuário-imagem, isto é, não "determinam uma certitude única".8 Desempenham funções alheias ao vestuário-imagem e ao vestuário-escrito, segundo Barthes, e fornecem evidências maiores sobre trocas culturais e processos de apropriação e recriação dos quais o periódico resulta conceitual e materialmente. Também podem sugerir como a moda tal como veiculada na revista era recebida localmente, de modo mais evidente na correspondência e nas seções literárias, por exemplo na descrição de vestidos usados por personagens ficcionais. Tais textos não têm o efeito de limitar possibilidades que de outro modo seriam infinitas, como faz o vestuário-imagem, tampouco eles determinam uma certeza única, como faz o vestuário-escrito. Eles de fato abrem todo um campo de possibilidades em que a roupa interage com outros elementos da cultura.

O vestuário pode ser mediado por uma voz narrativa e ganhar forma e movimento em textos ficcionais. Por exemplo, o conto "O anjo das donzelas", de Machado de Assis, foi publicado em meio a gravuras de moda e descrições de vestidos e outras peças de vestuário, como vemos na figura 1, e trata do tipo de leitura a que as mulheres estavam expostas e seus efeitos sobre o desenvolvimento moral e o comportamento.9

© Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro

Figura 1 “O anjo das donzelas", Jornal das Famílias, setembro de 1864. 

Depois de convidar a leitora a adentrar o quarto de dormir da protagonista, o narrador seleciona um detalhe do traje de Cecília e passa a descrevê-lo, como o faz o vestuário-escrito para as peças da prancha à direita, publicada no mesmo número da revista. Ele deixa que o leitor imagine o resto:

Ao pé do leito, sobre a palhinha que forra o soalho, estende-se um pequeno tapete, cuja estampa representa duas rolas, de asas abertas, afagando-se com os biquinhos. Sobre esse tapete estão duas chinelinhas, de forma turca, forradas de seda cor-de-rosa, que o leitor jurará serem um despojo de Cendrillon. São as chinelas de Cecília. Avalia-se já que o pé de Cecília deve ser um pé fantástico, imperceptível, impossível; e examinando bem pode-se até descobrir, entre duas pontas do lençol mal estendido, a ponta de um pé capaz de entusiasmar o meu amigo Ernesto C..., o maior admirador dos pés pequenos, depois de mim... e do leitor.

Espelhando (ou não) as assinantes do periódico e consumidoras de moda, as personagens dos contos e romances publicados em revistas de moda dão corpo e movimento às roupas dos moldes e ilustrações. No século XIX, o sucesso das revistas de moda deveu-se muito ao fato de que as assinantes eram também leitoras de folhetins, o gênero literário mais popular na época. A moda, pela sua natureza sazonal, e o folhetim eram bastante adequados à publicação em fascículos. Assim, não é de surpreender que muitos editores com tino comercial combinassem esses dois polos culturais em um único veículo.

Com efeito, ao lado dos jornais diários, as revistas de moda estavam entre os principais meios de publicação de ficção no século XIX, pelo menos no Brasil. Eu me deterei neste artigo na colaboração contística de Machado de Assis para as revistas com conteúdo de moda, segunda a definição estabelecida acima. Machado de Assis se apresenta como um excelente estudo de caso do papel da ficção na consolidação da revista de moda como um dos empreendimentos jornalísticos mais bem-sucedidos do século do XIX, porque colaborou com as principais revistas de moda brasileiras, entre as quais as duas que tiverem maior longevidade no século XIX: Jornal das Famílias (Garnier, 1863-1878) e A Estação. Jornal Ilustrado para a Família (Lombaerts, 1879-1904).

Machado escreveu contos ao longo de toda a sua carreira literária e para um grande número de periódicos: no total, 183 contos para nove periódicos diferentes (ou dez, a depender do levantamento, como discutiremos adiante). Publicou-os com seu próprio nome ou sob pseudônimo, não somente em revistas de moda, mas também em revistas ilustradas, literárias, jornais diários e suplementos de jornais. Embora Machado de Assis seja considerado um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos e suas obras estejam entre as mais estudadas da literatura brasileira, até hoje não há consenso entre os pesquisadores sobre a atribuição a ele de vinte contos publicados sob pseudônimo. A atribuição a Machado de 183 contos publicados na Obra completa e por Marta de Senna em machadodeassis.net é endossada pelo levantamento feito por Galante de Sousa (1955), mas o mesmo não ocorre com os vinte contos coligidos por Raimundo Magalhães Jr. e publicados nos volumes Contos esparsos, Contos avulsos, Contos recolhidos, Contos esquecidos e Contos sem data.10

Para compreender a relação da produção contística de Machado com a revista de moda foi necessário realizar o levantamento completo dos contos de Machado de Assis, classificando-os segundo o tipo de periódico: revistas com conteúdo de moda, revistas ilutradas, revistas literárias, revistas semanais de notícias e literatura, e jornais diários ou suplementos de jornais diários.

Como depreendemos do levantamento que segue, a vasta maioria dos contos de Machado foi publicada em revistas de moda: 111, no total, ou 130 contos, se consideramos aqueles atribuídos ao autor por Magalhães Jr.: A Marmota (1), Jornal das Famílias (71 ou 86, respectivamente) e A Estação (41 ou 39, respectivamente). Os contos publicados nos conhecidos jornais diários O Cruzeiro e Gazeta de Notícias vêm em segundo lugar, totalizando 59 títulos: cinco e 54 títulos respectivamente. Os outros três tipos de periódico (revistas ilustradas, revistas literárias, periódicos semanais de notícias e literatura) respondem por seis contos: O Futuro (1), A Semana (1), A Quinzena (1), A Gazeta Literária (3). Finalmente, segundo o levantamento de Magalhães Jr., um último conto atribuído a Machado, "O Teles e o Tobias (Quadro de costumes políticos)", foi publicado na Semana Ilustrada, uma revista ilustrada sem conteúdos ligados a moda que circulou por quinze anos (1860-75). Sete dos contos de Machado foram publicados somente em livro.

Na categoria de revistas ilustradas encontra-se apenas a Semana Ilustrada, a qual apesar de ter circulado por quinze anos (1860-1875) publicou somente um conto de Machado. Segundo Teodoro Koracakis:

"Revistas ilustradas" é uma classificação que designa uma série de publicações que tiveram relativo sucesso, principalmente durante o século XIX, em vários países. No Brasil, as revistas ilustradas se concentraram no período de 1860 a 1910, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Eram publicações pequenas, dificilmente superando as 16 páginas, que incluíam textos relativamente curtos – humor, ficção, poesia, crítica literária e teatral, e muitos comentários políticos –, mas dava ênfase às ilustrações, quase sempre humorísticas, de boa qualidade artística, com excelente técnica de produção e impressão para os padrões da época.11

Duas foram as revistas literárias em que Machado publicou contos. O primeiro periódico desse grupo é O Futuro. Tinha como editor-chefe o poeta português Faustino Xavier de Novais e contava com a colaboração de escritores brasileiros e portugueses. Como se lê no editorial de lançamento endereçado "ao público brasileiro e português":

Este periódico vai tentar a realização de um pensamento há muito conhecido por todos os que prezam as literaturas dos dois países em que se fala a língua portuguesa. Estabelecer um campo comum, em que livremente, sem preocupações mesquinhas de opinião ou nacionalidade, viessem discursar os escritores de ambas as nações, levar a estas o conhecimento mútuo do movimento literário de cada uma, e dar impulso, com o exemplo recíproco, ao progresso literário de países tão férteis em imaginações ricas e pensamentos elevados. (O Futuro, 15 nov. 1862).

O Futuro teve vida curta, como muitas outras folhas brasileiras do século XIX, inclusive as de moda que não publicavam gravuras, e outras revistas literárias, como veremos a seguir.12 Circulou de 15 de setembro de 1862 a 1º de julho de 1863. No vigésimo número a publicação foi interrompida por razões financeiras, não completando portanto um ano de assinatura.

O segundo foi a Gazeta Literária, que publicou ao todo três contos de Machado. Era uma publicação quinzenal que sobreviveu somente quatro números a mais do que O Futuro: 24 números publicados entre 1º de outubro de 1883 e 31 de dezembro de 1884. A apresentação do primeiro número informa que a Gazeta Literária se ocuparia com "as boas letras, órfãs presentemente de um órgão puramente seu na imprensa local" e que publicaria "crítica literária, alguns inéditos de verdadeira importância para a história pátria, pequenos romances e contos originais, impressões de viagem, poesias seletas e artigos científicos e literários de interesse real para o país" (Gazeta Literária, 1º out. 1883). Teixeira Mello e Vale Cabral, seus editores, seguiam os passos de Joaquim Nabuco, que, apesar de ser um intelectual bem mais conhecido no universo das letras e da política brasileira, obteve muito menos sucesso na sua empreitada literário-jornalística do que os editores de O Futuro e A Gazeta Literária. Sua folha literária, A Época (1875), sobreviveu apenas por quatro números. O caso mais interessante é o da revista semanal de notícias, entretenimento e literatura, A Semana, que, embora tenha circulado por dez anos (1885-1895), só publicou um conto de Machado.

Tabela 2 : Periódicos em que Machado publicou contos, incluindo a Semana Ilustrada 

Editor
1 A Marmota Paula Brito 1857-1861
2 Semana Ilustrada Henrique Fleiuss 1860-1875
3 O Futuro Faustino Xavier de Novais 1862-1863
4 Jornal das Famílias B. L. Garnier 1863-1878
5 A Estação. Jornal Ilustrado para a Família Lombaerts 1879-1904
6 Gazeta Literária Teixeira Mello e Vale Cabral 1883-1884
7 A Semana Valentim Magalhães e Max Fleiuss 1885-1895
8 O Cruzeiro Henrique Correa Moreira 1878-1883
9 Gazeta de Notícias Henrique Chaves e Emanuel Carneiro (fundadores) 1875-???13
10 A Quinzena, Vassouras Jorge Pinto e Alfredo Pujol 1886

Podemos classificar esses periódicos em dois grupos principais, de acordo com a frequência de publicação: jornais diários e revistas semanais, quinzenais ou mensais. Os periódicos do segundo grupo são muito diferentes entre si. A característica mais distintiva é a presença de conteúdos ligados à moda, o que garante uma posição de destaque a A Marmota, Jornal das Famílias e A Estação, que, aliás, publicaram a maior porcentagem dos contos de Machado.

Gráfico 2 : Contos por periódico incluindo os atribuídos a Machado de Assis por Magalhães Jr. 

Gráfico 3 : Contos por tipo de periódico excluindo os atribuídos a Machado por Magalhães Jr. 

Gráfico 4 : Contos por tipo de periódico incluindo os atribuídos a Machado por Magalhães Jr. 

Com base nos gráficos 1 a 4, podemos concluir que os principais veículos de publicação dos contos de Machado eram a revista de moda e o jornal diário. A primeira sobressai entre todos os periódicos e foi essencial, especialmente a colaboração com o Jornal das Famílias, para a consolidação de Machado como contista no início de sua carreira. A revista de moda e o jornal diário estão entre os periódicos mais bem-sucedidos no século XIX. Periódicos muito especializados, como as revistas literárias, não conseguiam sobreviver por (muito) mais que uma assinatura. É bem pouco provável que estes jornais diários e revistas de moda dependessem exclusivamente da colaboração de Machado em particular e da publicação de ficção em geral para sua sobrevivência ao longo de muitos anos. Seu sucesso se deveu antes ao fato de que forneciam uma variedade de materiais para contemplar a ampla gama de interesses de um mesmo grupo ou de diferentes grupos de leitoras, como já discutido, em mais detalhes, no que se refere à revista de moda. Em consequência, especialmente no começo da carreira e antes de passar a reunir seus contos em livro, Machado se utilizou desses dois veículos para ganhar experiência e se certificar de sua posição como autor de contos, para se familiarizar com seu público leitor e ao mesmo tempo para garantir uma renda regular vinda de sua ficção.

Gráfico 1 : Contos por periódico excluindo os atribuídos a Machado de Assis por Magalhães Jr. 

Com efeito, o conto como gênero literário se beneficiou desses dois veículos aos quais correspondiam dois formatos – a coluna vertical ou o rodapé no jornal diário e as colunas na revista de moda – para desenvolver dois modelos coexistentes: aquele dividido em capítulos e o conto composto por um único fascículo. O primeiro tipo predomina na revista de moda e representa 44% da produção machadiana de contos, e o segundo é o único tipo publicado no jornal diário.

Tabela 3 : Contos divididos em fascículos por periódico 

Com apenas um fascículo Com dois ou mais fascículos
inc. Magalhães (203) exc. Magalhães (183) inc. Magalhães (203) exc. Magalhães (183)
1 A Marmota 1 1 0 0
2 Semana Ilustrada 0 0 1 0
3 O Futuro 1 1 0 0
4 Jornal das Famílias 21 16 65 55
5 A Estação 16 14 27 25
6 Gazeta Literária 3 3 0 0
7 A Semana 1 1 0 0
8 O Cruzeiro 5 5 0 0
9 Gazeta de Notícias 55 55 0 0
10 A Quinzena 1 1 0 0

Gráfico 5 : Contos segundo o número de fascículos, excluindo os atribuídos a Machado por Magalhães Jr. 

Gráfico 6 : Contos de acordo com o número de fascículos. incluindo os atribuídos a Machado por Magalhães Jr. 

Podemos concluir que a organização externa dos contos de Machado em fascículos é condicionada pelo tipo de periódico, a frequência com que era publicado e seu formato. O conto dividido em fascículos é exclusivo do periódico de moda, com uma única exceção se consideramos o levantamento de Magalhães Jr., e o conto em um único fascículo é mais característico do jornal diário.

A organização externa em fascículos decerto se reflete na estrutura interna da narrativa, embora não seja o objetivo deste artigo desenvolver essa investigação. Pela apresentação do levantamento dos contos de Machado de Assis, tentei mostrar a importância da ficção, particularmente dos contos de Machado, para a consolidação da revista de moda, ao lado do jornal diário, como o principal meio jornalístico para a difusão de ficção no século XIX.

Os 111 (ou 130 contos) que Machado de Assis publicou em revistas com conteúdo de moda, ao longo das quatro últimas décadas do século XIX, atravessam e conectam as duas fases da produção literária do escritor. É portanto de se esperar, além de casos interessantes de reaproveitamento de núcleos temáticos, personagens ou mesmo de reescrita, um caráter desigual no que diz respeito à qualidade dos contos, sobretudo quando comparamos os contos longos – alguns quase novelas – das décadas de 1860 e 1870 com obras-primas dos anos 1880 e 1890, como "Noite de almirante", "A causa secreta" e "O caso da vara". Machado de Assis certamente estava consciente disso e optou por não republicar a grande maioria desses contos em formato de livro, tornando o acesso a eles quase impossível por muitos anos. Depois da morte do escritor, essas narrativas que haviam sido relegadas às páginas de jornais velhos foram pouco a pouco recuperadas e republicadas em coletâneas, primeiro em papel – como as das editoras Jackson e Aguilar – e mais recentemente em edições eletrônicas, em sites como www2.uol.com.br/machadodeassis/ e machadodeassis.net. O leitor do século XXI tem, pois, acesso à totalidade dos contos atribuídos ao escritor.

Por muitos anos defendeu-se que a leitura dessas narrativas só se justificava pelo seu valor documental, por fazerem parte, como escreve Raimundo Magalhães Júnior, da "história do escritor, mostrando a evolução do seu estilo".14 É certo que esses contos prenunciam procedimentos narrativos, temas e personagens presentes nas obras consagradas, sejam elas contos ou romances. A tendência metaficcional está presente desde o primeiro conto, "Frei Simão", assim como em "Confissões de uma viúva moça".15 No que diz respeito à temática, como a grande maioria dos contos foi escrita para ser originalmente publicada em revistas de moda, muitos deles traçam perfis de mulheres, como "O carro no 13", "O segredo de Augusta" e "Confissões de uma viúva moça", e se debruçam sobre questões que giram em torno do casamento – a infidelidade conjugal, o casamento por cálculo ou de conveniência –, da vida em sociedade, da aparência e da vaidade.16 Temos também o caso do amor entre um jovem rico e uma agregada em "Frei Simão", tema que se imortalizou com Bento e Capitu, de Dom Casmurro.

Talvez o leitor acostumado com a concisão e a unidade de efeito dos contos canônicos estranhe que muitas dessas narrativas se alonguem por mais de um fascículo, tenham um tom edificante e terminem com uma leve lição de moral. Essas características revelam que Machado de Assis se preocupou em adequar seus textos à linha editorial do Jornal das Famílias e ao formato de publicação em folhetins, sem no entanto reduzi-los a uma exemplificação das normas de conduta, dos valores defendidos pelo periódico. Na verdade, ele aproveitou uma característica intrínseca ao folhetim, ou seja, a construção do suspense com a interrupção da leitura no final de cada fascículo, deixando portanto o julgamento moral para o final.17 Esse procedimento é melhor apreendido quando comparamos contos publicados em periódicos diferentes entre si: por exemplo, "Confissões de uma viúva moça", que saiu em fascículos no Jornal das Famílias, com "Só!", publicado em um único número do jornal diário Gazeta de Notícias. De fato, podemos dividir a maioria dos contos Machado em dois grandes grupos, segundo o número de fascículos e o tipo de periódico em que foram originalmente publicados: de um lado, os que saíram em folhetins em revistas de moda e, do outro, os contos publicados em apenas um número de um jornal diário. Não se trata necessariamente de uma questão de evolução do conto em fascículos, em que o suspense intermediário é a mola mestra do enredo, para o conto em apenas um fascículo, estruturado em torno da unidade de efeito. São talvez dois paradigmas de conto diferentes, gerados devido às incontornáveis restrições do formato de cada suporte.

Vemos, portanto, que os contos menos conhecidos de Machado de Assis, publicados em revistas de moda, têm muito mais do que um valor documental. Além de apresentarem outro paradigma para a forma do conto, alguns exploram de maneira singular a relação do escritor com o seu público leitor, que buscava ao mesmo tempo as últimas modas de Paris e algumas páginas de leitura prazerosa.

Referências

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Assis, Machado de. Contos esparsos. Organização e prefácio de R. Magalhães Júnior. Rio de Janeiro: Tecnoprint, s. d. [ Links ]

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1 BEETHAN, A Magazine of Her Own?: Domesticity and Desire in the Woman’s Magazine, p. 10; WATT, The Rise of the Novel.

2 Segundo Marian Wolbers, nas revistas de moda inglesas do século XIX o texto também predominava sobre a imagem. Ver WOLBERS, Uncovering Fashion: Fashion Communications Across the Media, p. 172.

3 Sobre costureiros franceses radicados no Rio de Janeiro, ver MENEZES, "Francesas no Rio de Janeiro: trabalho, sonhos e ousadia (1816-1822)", p. 73. Ver também RAINHO, A cidade e a moda: novas pretensões, novas distinções: Rio de Janeiro, século XIX; e SILVA, Machado de Assis: do folhetim ao livro, p. 148-62.

4 Dulcília Schroeder Buitoni também cita o Jornal das Variedades (1835) em BUITONI, Imprensa feminina. Entretanto, não encontramos registros desse periódico no catálogo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. De modo semelhante, até a conclusão desta pesquisa não conseguimos identificar seu lugar de publicação.

5 BUITONI, Imprensa feminina; BUITONI, Mulher de papel; RAINHO, A cidade e a moda: novas pretensões, novas distinções: Rio de Janeiro, século XIX; SILVA, Machado de Assis: do folhetim ao livro.

6 BEETHAN, A Magazine of Her Own?: Domesticity and Desire in the Woman’s Magazine, p. 3.

7 BARTHES, The Fashion System.

8 Idem, p. 40.

9 Ver TELES, "Viver e morrer de amor em 'O anjo das donzelas'". Acesso em: 11 mar. 2014.

10 Assis, Contos avulsos, Contos esparsos, Contos esquecidos, Contos recolhidos, Contos sem data, organização e prefácio de R. Magalhães Júnior; Senna, "Nota desta edição eletrônica": ASSIS, Contos avulsos; Galante de SouSa, Bibliografia de Machado de Assis.

11 KOTACAKIS, "Machado de Assis, colaborador da Semana Ilustrada (1860-1875)". Acesso em: 25 set. 2014.

12 Ver SILVA, "Fashion, Cultural Transfers and History of the Book".

13 Segundo o verbete "Gazeta de Notícias", do CPDOC, a Gazeta de Notícias ainda circulava diariamente na década de 1960, porém com tiragens muito baixas. Ver LEAL, "Gazeta de Notícias". Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/gazeta-de-noticias. Acesso em: 15 jan. 2017.

14 Magalhães Júnior, "Prefácio", p. 2.

15 "Frei Simão", publicado originalmente no Jornal das Famílias, junho de 1864, assinado "M. A.", e posteriormente em Assis, Contos fluminenses (Rio de Janeiro: Garnier, 1869); "Confissões de uma viúva moça", publicado originalmente no Jornal das Famílias, de abril a junho de 1865, assinado "J.", e em Contos fluminenses.

16 ASSIS, "O carro n. 13", Jornal das Famílias, março de 1868, assinado "Victor de Paula"; "O segredo de Augusta", Jornal das Famílias, julho e agosto de 1868, assinado "Machado de Assis", e em Contos fluminenses.

17 Ver, por exemplo, Bellin, "Machado de Assis e a imprensa periódica: uma análise de 'Confissões de uma viúva moça'". Acesso em: 21 abr. 2016.

Recebido: 09 de Novembro de 2016; Aceito: 23 de Janeiro de 2017

ANA CLÁUDIA SURIANI DA SILVA é Senior Lecturer in Brazilian Studies no University College London (UCL). É doutora em Letras Modernas e mestre em Literatura Europeia pela Universidade de Oxford e mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp. Publicou artigos e livros sobre a obra de Machado de Assis, Artur Azevedo, Joseph Conrad e sobre a relação entre literatura, moda e imprensa, entre os quais Machado de Assis: do folhetim ao livro (2015), "Fashion, Cultural Transfers and History of the Book" (2016) e "The Role of the Press in the Incorporation of Brazil into the Paris Fashion System" (2014). E-mail: a.surianidasilva@ucl.ac.uk.

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