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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.10 no.20 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2017

http://dx.doi.org/10.1519/1983-68212017102011 

ARTIGOS GERAIS

MACHADO DE ASSIS, TRADUTOR DE LONGFELLOW

MACHADO DE ASSIS, TRANSLATOR OF LONGFELLOW

DIEGO DO NASCIMENTO RODRIGUES FLORES1 

1Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória, Espírito Santo, Brasil

Resumo

O presente artigo analisa a tradução que Machado de Assis fez do poema "Serenade", do poeta norte-americano Henry Wadsworth Longfellow, que não está listado nos levantamentos feitos tanto por Jean-Michel Massa quanto por Eliane Ferreira. Com base no texto-fonte encontrado, realizamos um estudo crítico do poema, cujo título foi traduzido como "Lua da estiva noite", analisando os procedimentos tradutórios de Machado e estabelecendo vínculos com sua produção autoral.

Palavras-Chave: Longfellow; tradução; Machado de Assis; poesia

Abstract

This article aims at analyzing the translation, by Machado de Assis, of the poem "Serenade", by the American poet Henry Wadsworth Longfellow, which is not listed in the previous surveys conducted by either Jean-Michel Massa or Eliane Ferreira. Based on the source text identified, a critical study of the poem, whose title was translated as "Lua da estiva noite", was carried out by analyzing the translation process adopted by Machado and by establishing connections between his translation and his authorial production.

Key words: Longfellow; translation; Machado de Assis; poetry

Apesar das pesquisas e publicações recentes, pouco ainda se sabe sobre o tradutor Machado de Assis, principalmente quanto ao que um estudo comparativo de suas traduções com os textos-fonte poderia ensinar. Além disso, não conhecemos nenhum documento que tenha sido escrito pelo próprio Machado de Assis e que nos fale sobre o modo como fazia suas traduções, nem há texto dedicado exclusivamente a refletir sobre sua prática tradutória, salvo uma ou outra nota de rodapé com informações meramente circunstanciais. Sobre as crenças e posicionamento de Machado de Assis a respeito da tradução, sabe-se pouco também. Não há nenhum texto em que Machado se dedique exclusivamente à reflexão da prática tradutória, sua ou de outrem. Existem, todavia, breves comentários, geralmente com críticas incisivas à má qualidade das traduções praticadas no Brasil no século XIX, além de alguns pareceres emitidos por ele enquanto atuava no Conservatório Dramático.

Em alguns de seus ensaios, como "O passado, o presente e o futuro da literatura", de 1858, "Ideias sobre o teatro", de 1859, ou "Notícia da atual literatura brasileira: Instinto de nacionalidade", de 1873, Machado externa pontualmente sua opinião, severa e contundente, a respeito da maioria dos tradutores, a quem culpabiliza pelo atraso na formação de uma literatura nacional, apontando os equívocos de tradução e os galicismos que ferem a língua pátria. Reconhecendo na tradução o elemento dominante na literatura de então, particularmente no teatro, critica a mercantilização da arte e a falta de critério na escolha de quem ficará incumbido das tarefas tradutórias. Nos pareceres emitidos enquanto membro do Conservatório Dramático despontam as mesmas críticas: excesso de galicismos, escolha de obras de valor estético duvidoso, a supressão de trechos que o tradutor não consegue transpor ou a utilização de linguagem que beira o ininteligível.

Quando elogia os tradutores, o motivo é também quase sempre o mesmo: o cuidado com a língua portuguesa, algo que desponta como de grande importância para Machado. Na última das notas que acompanham os poemas de Falenas, por exemplo, Machado atribui a Feliciano de Castilho a tradução da ode a partir da qual compõe seu texto. A respeito dessa tradução, afirma que fora tão "portuguesmente saída das mãos do sr. Castilho que mais parece original que tradução",1comentário que aponta para duas possíveis leituras: por um lado, que Machado preza o cuidado com o vernáculo; e, por outro, que aprecia traduções passíveis de, por si próprias, serem lidas como uma obra, e não somente um pálido reflexo do original desprovido de valor estético.

Uma exceção ao silêncio que cerca as traduções de Machado está no comentário do tradutor que acompanhou a publicação da tradução Canto XXV da Divina Comédia quando reeditada em A Instrução Pública. Em 28 de fevereiro de 1875, a tradução veio introduzida pelo seguinte texto:

Destaco dos meus papéis a seguinte tradução do canto XXV do “Inferno”, tão justamente admirado como um dos melhores quadros saídos da imaginação daquele homem extraordinário que Florença deu ao mundo. Rivarol, que aliás não poupa censuras ao poeta, dá livre expansão ao entusiasmo que lhe causa o canto que se vai ler. “Dante (diz ele) mostra neste quadro aquele magnífico horror que fazia pasmar Tasso. Atrevimentos de estilo, grandeza de desenho, severidade de expressão, tudo aqui se acha. Os três versos com que a descrição termina fazem estremecer de admiração, porquanto já não é italiano, non mortale sonans; é o mens divinor; é o inferno em toda a sua majestade:

Cosi vid’io la settima zavorra

Mutar e transmuttare; e que me scusi

La novità, si fior la penna aborra.

Comecei esta tradução por curiosidade, e concluí-a creio que por aposta comigo mesmo. Pus todo o escrúpulo em que a reprodução me saísse fiel; mas se as descrições, as imagens e as ideias passaram à nossa língua, não passou, nem poderia passar o estilo do poeta, estilo ao qual dizia Macaulay que os mais nobres modelos da arte grega deveriam ceder o passo. Esse não se traduz: soletra-se ou lê-se, conforme se conhece pouco ou muito a língua original.2

Nesse breve comentário Machado explicita o que o motivou a realizar a tradução: teria lido ou ao menos tomado conhecimento da tradução em prosa que Antoine de Rivarol fez do "Inferno" e, ao citar o tradutor francês, Machado insinua as qualidades do texto que lhe atraíram o olhar: "atrevimento de estilo, grandeza de desenho, severidade de expressão". A curiosidade, mote inicial da tradução, dá lugar à aposta consigo mesmo, como se testasse seus limites criativos. Sincero quanto ao empenho e objetivos, modesto quanto aos resultados, o que nos ficou é, de fato, uma tradução colocada por Augusto de Campos3 entre as melhores que já se fez de um canto de Dante.

O apreço e a importância que Machado de Assis conferia ao trabalho do tradutor, entretanto, ficam ainda mais patentes na carta de 10 de junho de 1899, enviada ao seu editor francês Garnier, em que reporta pedido de autorização de tradução de suas obras para o alemão. Machado acata prontamente, abrindo mão dos proventos oriundos dos direitos autorais para ver sua obra traduzida, considerando-se pago pelo benefício de ter sua obra em outro idioma. Diz Machado: "Pour moi, Monsieur, je ne lui exigerait (sic) aucun autre bénéfice, trouvant que c’est déjà un avantage de me faire connaître dans une langue étrangère, qui a son marché si différent et si éloigné du nôtre".4 O pedido, infelizmente, é negado pelo editor, com o argumento de que os alemães sempre cobram e que, de sua parte, a autorização dependeria do pagamento de cem francos por obra, o que põe fim ao projeto. A troca de cartas, no entanto, explicita o empenho de Machado em levar a termo o projeto, atestando sua crença de que a tradução seria o melhor meio de se tornar visto no exterior e, por conseguinte, o reconhecimento do papel da obra traduzida no diálogo entre culturas e sistemas literários.

Dessa forma, considerando os motivos pelos quais Machado criticava ou elogiava os tradutores, é de se esperar que procurasse conferir às suas traduções as qualidades que nem sempre encontrava nas que lia. O estudo dos textos traduzidos por Machado pode, então, mostrar facetas do escritor ainda pouco conhecidas entre nós. John Gledson, em Por um novo Machado de Assis, afirma que "para se ter uma visão mais abrangente e profunda da obra de Machado, se faz necessário um exame de trabalhos (supostamente) menores".5 O que se pretende com este trabalho é contribuir para a construção do retrato do tradutor Machado de Assis estudando um desses trabalhos supostamente menores e, consequentemente, de sua poética, trabalho que vem se desenvolvendo desde a defesa da dissertação Machado de Assis, tradutor de Hugo, na qual é estudada a tradução que o escritor carioca fez do romance Les travailleurs de la mer de Victor Hugo, e que continua em nossa pesquisa de doutorado, voltada para os poemas traduzidos por Machado.

Parte dessa seara é o poema "Lua da estiva noite". Esse poema não foi coligido nas edições das poesias reunidas de Machado de Assis consultadas para este artigo,6 embora não seja desconhecido da crítica machadiana. Trata-se de uma pequena composição, em três estrofes, com versos hexassílabos dos quais o último de cada estrofe está desdobrado em dois, um de quatro e outro de duas sílabas. A serenata foi composta para ser cantada ao som de flauta e piano, com música de um dos amigos mais próximos a Machado de Assis, o pianista Artur Napoleão, que acompanhara a futura esposa de Machado, Carolina Xavier de Novais, em sua vinda para o Brasil, e que mais tarde seria seu padrinho de casamento. Eis o texto:

Lua da estiva noite,

Que surges no horizonte:

Vai por além do monte

Cair! Cair! Cair!

A virgem dos meus sonhos

Não vês dormir!

Dormir!

Vento da estiva noite,

Que andas soprando as vagas,

Vai nas remotas plagas

Rugir! Rugir! Rugir!

A virgem dos meus sonhos

Não vês dormir!

Dormir!

Sonho da estiva noite,

Visão suave e bela,

Vem sobre a fronte dela

Sorrir! Sorrir! Sorrir!

A virgem dos meus sonhos

Não vês dormir!

Dormir!7

Na Correspondência de Machado de Assis: tomo II, 1870-1889, na nota biográfica dedicada ao músico Artur Napoleão, encontramos somente uma menção à parceria entre Machado e o músico: "Da obra publicada, faz parte a serenata 'Lua da estiva noite', para canto, flauta e piano, com versos de Machado de Assis. A música, a viva inteligência e a paixão pelo xadrez ligaram, por cinco décadas, o pianista amigo de Carolina e o autor de Dom Casmurro".8 A partir dessa nota, particularmente da frase "com versos de Machado de Assis", fomos levados a acreditar que o texto é uma composição de autoria exclusiva de Machado, o que ocorre também em outros textos que consultamos. O que se pretende demonstrar aqui é que, embora os versos sejam de Machado, também são tradução de um poema do poeta norte-americano Henry Wadsworth Longfellow.

No ensaio "Machado de Assis, a música, a ópera", do professor de Literaturas Portuguesa e Brasileira da Università di Roma Tor Vergata Aniello Angelo Avella, que aborda a relação de Machado de Assis com a música, a referência feita à composição de que nos ocupamos aqui aponta para este caminho. Não há menção de que se trata de uma tradução de Machado de Assis, sendo listada entre outras de suas poesias, como "Lágrimas de cera" ou "Coração triste falando ao sol", de Falenas, que também foram musicadas:

Temos ainda uma serenata (canto, piano e flauta) que nasce da união de dois grandes talentos: Machado, autor dos versos, e Arthur Napoleão, um pianista português que chegou ao Rio de Janeiro em 1866 e em sociedade com Leopoldo Miguez fundou uma editora especializada em música. A serenata intitula-se "Lua da estiva noite".9

O mesmo tratamento é dado na tese de doutorado Machado de Assis em contos: uma constelação de partituras, em que Auristela Crisanto da Cunha observa a manifestação da musicalidade em contos de Machado, sem mencionar que constitui uma tradução, além do equívoco cometido com a datação do texto:

Sua prosa teria muito bem canalizado as diversas modalidades artísticas de que se mostrava conhecedor. Em 1865 compusera para ser musicada a letra da "Cantata da Arcádia", ouvida de pé pelo imperador Pedro II, de cujo conteúdo restam apenas cinco versos esparsos.

Antes disso, em 1863, havia composto um "Hino Patriótico", visando angariar fundos para a subscrição nacional em favor do armamento; e mais tarde, 1880, uma serenata para piano e flauta, "Lua da estiva noite".10

É na biografia de Raimundo Magalhães Júnior que encontramos as primeiras sementes de dúvidas a respeito dessa composição. Segundo o biógrafo, "Não era um trabalho original, mas uma adaptação de poesia inglesa. Letra e música com o título 'Lua da estiva noite' – serenata para canto, flauta e piano – foram incluídas no álbum Ecos do passado, lançado em junho de 1867 [...]".11 Após reproduzir a letra da canção, o biógrafo afirma que essa parece ter sido a única colaboração entre Machado de Assis e o músico Artur Napoleão.12 Em nota a essa passagem, ele corrige José Galante de Sousa, que afirmara ser a composição de 1880, conclusão a que deve ter chegado após receber a notícia da seção "Bibliografia" da Revista Ilustrada, no número 214 de 3 de julho daquele ano. Visto que o mesmo erro de datação aparece na tese de Auristela Cunha, é de se supor que ela também tenha consultado somente a obra de José Galante de Sousa. Magalhães Júnior acrescenta ainda que Melo Moraes Filho a transcrevera no terceiro volume das Serenatas e saraus, publicada pela Garnier em 1902, como "tradução de Machado de Assis".13

De fato, encontramos no terceiro volume Serenatas e saraus a composição "Lua da estiva noite", digitalizada pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, que vem acompanhada da seguinte informação: "Tradução de Machado de Assis".14 Poder-se-ia argumentar, talvez, que se trata de um equívoco da edição ao publicar o texto da composição como uma "tradução". Depois de consultarmos os três volumes, no entanto, verificamos que somente "Lua da estiva noite" é publicada com a informação de que constitui uma "tradução" e não uma composição "original". Em todos os outros casos, nos três volumes, ou não há indicação de autoria, ou a canção é seguida da indicação "poesia de" e do nome do seu autor, alguns bastante conhecidos até hoje como Gonçalves Dias e Fagundes Varela.

Desconhecemos, contudo, o motivo que possa ter levado Raimundo Magalhães Júnior a considerá-la uma adaptação de poesia inglesa ao invés de tradução, que é como o texto se apresenta, mas podemos atribuir isso ao fato de que o crítico e biógrafo não parecia estar particularmente preocupado com questões pertinentes aos estudos de tradução. Seria porque, conhecendo o texto inglês, o crítico pôde perceber as alterações impostas pela necessidade de se recriar o texto em português, adaptando metro, verso e rimas ao nosso idioma de forma que pudessem ser cantados? Ou simplesmente porque não havia, para o crítico, muito rigor no sentido de distinguir uma "tradução" de "paráfrase" ou "adaptação"? Supomos ainda que ele também não conhecesse a fonte de Machado de Assis; do contrário, teria informado.

Essa tradução não consta do levantamento minucioso feito por Jean-Michel Massa seja em A juventude de Machado de Assis ou nos Dispersos de Machado de Assis coligidos e anotados pelo pesquisador francês. Nenhuma menção é feita à composição, nem está relacionada entre as traduções de Machado na sua tese complementar Machado de Assis, tradutor,15 o que nos leva a acreditar que o pesquisador desconhecia o texto ou que o excluiu propositadamente, hipótese que não se pode descartar. Massa afirma ter excluído do seu estudo "os casos em que a versão estrangeira é muito nitidamente alterada pelo acento do tradutor, que se torna adaptador ou coautor".16 Não é difícil imaginar que diante da dificuldade de encontrar a fonte de "Lua da estiva noite" Massa decidisse por deixá-lo de fora, uma vez que não seria possível comprovar tratar-se de uma tradução stricto sensu, uma adaptação ou um trabalho de coautoria. Eliane Fernanda Cunha Ferreira, que também se debruçou sobre as traduções de Machado de Assis em sua tese Para traduzir o século XIX: Machado de Assis, adotando um conceito mais amplo de tradução e acrescentando alguns títulos à lista de traduções compiladas por Massa,17 não incluiu este em sua lista. Nesse caso, porém, e considerando que a pesquisadora adota uma postura mais abrangente do que a de Massa ao incorporar os textos recusados pelo pesquisador francês, supomos que a pesquisadora desconhecesse esse texto.

De posse desses dados, tentamos encontrar a fonte que Machado de Assis pudesse ter utilizado para compor os versos de "Lua da estiva noite". Supondo, com base nos dados fornecidos na biografia de Magalhães Júnior, que se tratava de um poeta de língua inglesa, o próximo passo seria procurar o texto entre os poetas de língua inglesa por quem Machado se interessara. Sabíamos que Machado mostrara interesse pelo poeta inglês William Cowper quando jovem, chegando a publicar uma "imitação", o poema "Minha mãe". Outros poetas de língua inglesa também se destacam, como William Shakespeare, ou Edgar Allan Poe, sabidamente traduzidos por Machado. As primeiras investigações nesse sentido, contudo, foram absolutamente infrutíferas.

Foi o professor José Américo Miranda que, após nosso pedido de ajuda, conseguiu identificar "Serenade", de Longfellow, como o texto do qual partiu Machado de Assis para compor "Lua da estiva noite", depois de se lembrar da insistência de Machado para que Quintino Bocaiuva, que estava então nos Estados Unidos, não se esquecesse dos exemplares da poesia de Longfellow.18 Verificada a fonte de Machado, conseguimos correlacioná-la com outros dados biográficos: há na sua biblioteca, de fato, exemplares em inglês das poesias de Longfellow, os quatro volumes de The Poetical Works, de 1866 – mesmo ano, portanto, da correspondência de Machado e Bocaiuva –, dos quais o primeiro foi bastante manuseado,19 conforme levantamento feito por Glória Vianna em Revendo a biblioteca de Machado de Assis. Talvez seja mera coincidência, mas o primeiro volume de The Poetical Works é o que contém a peça The Spanish Student, e é na cena III dessa peça que está o texto de "Serenade".

Tínhamos assim a coerência adequada entre os fatos: em 1866 Machado, por duas vezes, pede a Quintino Bocaiuva exemplares de Longfellow; supomos que o pedido foi atendido, uma vez que há na biblioteca de Machado de Assis os tais exemplares de Longfellow daquele mesmo ano; no ano seguinte, 1867, "Lua da estiva noite" é publicada em Ecos do Passado. Longfellow ainda apareceria mais duas vezes na produção de Machado em momentos muito próximos entre si e do período da escrita de "Lua da estiva noite": a primeira é no conto "Miss Dollar",20 recolhido no volume Contos fluminenses de 1870, e como epígrafe do "Prelúdio"21em Falenas, do mesmo ano. Quase duas décadas mais tarde, outra referência a Longfellow aparecerá no conto "O espelho"22 em Papéis avulsos, de 1882.

Observando o texto de "Serenade" e as correspondências entre este e "Lua da estiva noite" não restam dúvidas de que se trata da fonte em que Machado se baseou. Ignoramos, ainda, os motivos que levaram o escritor a não traduzir a primeira estrofe. Talvez a canção ficasse desnecessariamente longa, ou o tradutor tenha percebido que os versos não acrescentariam nada de imprescindível ao texto, ou, mais simplesmente, não tenha ficado satisfeito com o resultado, mas não saberemos.23 Comparando-os lado a lado, nota-se imediatamente que, além da primeira estrofe não traduzida, as estrofes de Machado possuem um verso a mais:

O primeiro verso de cada estrofe de "Lua da estiva noite" traduz perfeitamente os versos 7, 13 e 19 correspondentes ao texto de Longfellow. Embora a versificação inglesa siga outro sistema de contagem, por pés ao invés de sílabas poéticas como em português, a correspondência métrica também é evidente: os versos hexassílabos de um, com acentos na 1ª, 4ª e 6ª sílabas, são igualmente encontrados no outro: MOON/ of/ the/ SUM/ mer/ NIGHT; LU/ a/ da es/ TI/ va/ NOI /te. No texto de Machado, somente o verso "A virgem dos meus sonhos", parte do estribilho da canção, não contém os mesmos acentos dos demais, sendo acentuado na 2ª e 6ª sílabas. Nenhum pecado há nisso se considerarmos que o verso hexassílabo admite tal acentuação. Devemos considerar também que na produção poética de Machado, anterior a essa tradução, encontramos hexassílabos acentuados na 2ª sílaba com certa facilidade: "Stella" e "O dilúvio", de Crisálidas, apresentam tais versos, enquanto em "Fé" encontramos hexassílabos com acento na 4ª sílaba.

O procedimento de desdobrar o hexassílabo em dois versos, de 4 e 2 sílabas, também é observado nos dois textos:

Mesmo esse procedimento não é inédito na produção de Machado. Em Crisálidas é encontrado nos poemas "Horas vivas" e "As rosas", por exemplo. Em ambos os casos, no entanto, temos um decassílabo decomposto em dois versos que, analisados separadamente, seriam versos de seis e três sílabas, mas, se lidos juntos, contamos decassílabos heroicos: em "As rosas" encontramos versos como "Aos suaves resplendores/ matinais"25 e, em "Horas vivas", "Noite: abrem-se as flores/ Que esplendores".26

Notamos ainda que Machado se afasta, às vezes, do sentido literal do texto, mas fica claro que o afastamento tem a função de manter o seu caráter poético, priorizando a reconfiguração dos aspectos formais sem, contudo, se submeter ao que o texto-fonte estipula. Longfellow, por sua vez, termina quase todos os seus versos com as mesmas palavras, que rimam entre si: o par night/light, que se repete nas quatro estrofes, sempre no primeiro e terceiro versos, enquanto sleeps termina os três últimos versos de cada estrofe. A exceção ocorre nos segundos versos de cada estrofe, que rimam entre si: deeps/steeps/creeps/keeps e com sleeps nos três últimos de cada estrofe. Assim, Longfellow segue o esquema de rimas ABABBB, com estrofes de seis versos.

Além de acrescentar um verso a cada estrofe, o esquema que Machado escolhe seguir é levemente diferente: ABBCDCC. No texto de Machado, a repetição ocorre com o substantivo noite e nos três últimos versos que constituem o estribilho do poema. O tradutor Machado demonstra ter plena ciência do modo de significar do poema, mas também toma para si liberdades que lhe permitem reconfigurar o texto-fonte, afastando-se de alguns aspectos formais, mas adotando outros que possam substituí-los a contento.

Sob o aspecto fonético-sonoro, o tradutor Machado parece igualmente atento ao que ocorre no poema de Longfellow, ou pelo menos preocupado com a percepção sonora de seu poema: as aliterações dos versos 13 e 14 em Wind/ where/ woodbine tornaram-se, no texto de Machado, as aliterações em "v" de Vento/ estiva/ vagas/ vai, cujo som reforça a ideia do vento a soprar.

Semanticamente, o poema de Machado também se mantém bastante próximo do texto de Longfellow, embora escolha imagens diversas para alcançar resultados análogos, a exemplo do segundo e terceiro versos da segunda estrofe, nos quais fala de ondas e praias, enquanto Longfellow fala de woodbine e pinions – trepadeiras e pinhões em português, embora pinion possa estar associado também a penas das asas de pássaros. As imagens são diferentes, mas ambas remetem à natureza. Julgamos as imagens de Machado até mais interessantes, uma vez que o "vento", presente no primeiro verso, associa-se mais convenientemente a praias e formação de ondas – para sugerir a atmosfera de paz e tranquilidade – do que a trepadeiras e pinhões.

Procedimento similar ocorre também nos versos 20 e 21: Longfellow utiliza a imagem de um amante que observa e cuida da amada enquanto ela dorme. Machado parece desfazer-se da imagem do amante, enquanto mantém a imagem da amada que dorme pacificamente.

A breve análise que fizemos aqui se propôs a contribuir para a reversão do quadro exposto no início deste ensaio: ainda há muito a se descobrir a partir do cotejo das traduções de Machado com os seus textos-fonte. Construir o retrato desta faceta do escritor oitocentista é contribuir também para melhor entender a sua poética, entender como estas obras dialogam com a sua produção mais conhecida. O diálogo que Machado manteve com outros escritores contemporâneos e passados é mais do que evidente, é uma marca indelével de sua produção. Não se pode, nem se deve ler Machado sem estar atento ao diálogo aberto que ele manteve com a tradição literária.

Observando a tradução de Longfellow, o tradutor que se nos desvela é um tradutor consciente dos elementos que compõem um objeto poético. Um tradutor que demonstra preocupar-se com os aspectos formais do texto que lhe servira de fonte, mas sem sacrificar o modo de significar da obra. Este tradutor não se posiciona servilmente diante do texto, nem dá maior atenção à informação conteudística do que à informação estética. É exatamente o oposto que ocorre: Machado parece saber que traduzir um poema significa, sobretudo, recriar um poema em sua própria língua, lançando mão do repertório que tem à disposição. O tratamento ao conteúdo e à forma parece equilibrado na tradução.

Sob o lema "Make it new", Ezra Pound buscou dar vida nova ao passado literário via tradução, segundo Haroldo de Campos.27Neste caso em particular, Machado trabalhava com um autor que era seu contemporâneo, mas na sua produção como tradutor não é difícil encontrar exemplos da tradução sendo utilizada ora como uma maneira de dialogar com poetas contemporâneos, buscando novas formas de expressão dentro de seu próprio sistema literário, ora como meio de dar vida nova à tradição literária, caso em que podemos mencionar suas traduções de Shakespeare e Dante Alighieri, por exemplo.

O nosso poeta-tradutor soube transpor e recuperar os valores formais do poema de Longfellow assim como soube conferir poeticidade ao texto de sua lavra de forma que fosse possível musicá-lo. Foi sensível o bastante para perceber que a mensagem exata do poema não era essencial para o seu modo de significar e assim, quando necessário, soube afastar-se para manter-se próximo. Vai ainda mais longe, e consegue criar um poema mais interessante, menos repetitivo do que o de Longfellow. A posição que Machado assume quando traduz é a de um escritor, sobretudo, que entende estar criando não um texto de segunda ordem, de qualidade inferior, mas uma outra obra, um outro original, um poema.

Se pensarmos que "Lua da estiva noite" está entre as primeiras traduções poéticas de Machado, no início de sua vida como escritor e poeta, posicionando-se entre a publicação de Crisálidas e a de Falenas e Contos Fluminenses, devemos nos perguntar o quanto o tradutor terá amadurecido e aperfeiçoado sua prática no decorrer dos anos até a publicação de suas últimas traduções poéticas reunidas em volume, como as de Ocidentais. Assim, entendemos que o estudo das obras traduzidas por Machado pode, como neste caso, nos ajudar a compreender melhor quem foi o tradutor Machado de Assis e, consequentemente, conhecer mais detalhadamente sua poética e sua relação com o texto literário.

Referências

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1 ASSIS, A poesia completa, p. 275.

2 ASSIS, "Dante: o Canto XXV do Inferno". A Instrução Pública, 28 fev. 1875, p. 3. Disponível em: http://memoria.bn.br/. Acesso em: 2 jan. 2017.

3 CAMPOS, Invenção, p. 181.

4 ROUANET; MOUTINHO; ELEUTÉRIO, Correspondência de Machado de Assis, tomo III, 1890-1900, p. 378.

5 GLEDSON, Por um novo Machado de Assis, p. 19.

6 Foram consultadas duas edições das poesias de Machado: o vol. III da Obra completa, organizada por Afrânio Coutinho e publicada pela Nova Aguilar, na reimpressão de 1997; e A poesia completa, organizada por Rutzkaya Queiroz dos Reis e publicada em 2009 pela Nankin/Edusp.

7 MORAES FILHO, Serenatas e saraus, p. 110-111.

8 ROUANET; MOUTINHO; ELEUTÉRIO, Correspondência de Machado de Assis, tomo II, 1870 1889, p. 476.

9 AVELLA, Machado de Assis, a música, a ópera, p. 58.

10 CUNHA, Machado de Assis em contos: uma constelação de partituras, p. 44.

11 MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e obra de Machado de Assis, v. 2: Ascensão, p. 55, grifo nosso.

12 Idem, p. 56.

13 Idem, p. 59-60.

14 MORAES FILHO, Serenatas e saraus, p. 110.

15 MASSA, Machado de Assis tradutor, p. 115-117.

16 Idem, p. 17.

17 FERREIRA, Para traduzir o século XIX: Machado de Assis, p. 202-207.

18 Os pedidos de Machado aparecem nas cartas de 29 de outubro e 24 de dezembro de 1866. Período anterior, portanto, à composição de "Lua da estiva noite". Cf. ROUANET; MOUTINHO; ELEUTÉRIO, Correspondência de Machado de Assis, tomo I, 1860-1869, p. 171; 203.

19 VIANNA, Revendo a biblioteca de Machado de Assis, p. 225.

20 ASSIS, Obra completa, vol. 2, p. 28.

21 ASSIS, A poesia completa, p. 335.

22 ASSIS, Obra completa, vol. 2, p. 349.

23 Na tentativa de entender a dificuldade do exercício, tentamos uma tradução da primeira estrofe. Foi perceptível o desafio de encontrar rimas adequadas em versos que respeitassem a métrica dos demais. De todo modo, eis o resultado a que chegamos ao traduzi-la: ‘Strela da estiva noite Ao fundo de um céu anil Não deixe esta luz vil Luzir! Luzir! Luzir! A virgem dos meus sonhos Não vês dormir! Dormir!

24 LONGFELLOW, The Poetical Works, v. 1, p. 110.

25 ASSIS, A poesia completa, p. 316.

26 Idem, p. 48.

27 CAMPOS, Metalinguagem e outras metas, p. 36.

Recebido: 06 de Novembro de 2016; Aceito: 11 de Janeiro de 2017

DIEGO DO NASCIMENTO RODRIGUES FLORES é formado em Letras, com habilitação em língua inglesa e literaturas de língua inglesa, e mestre em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo – Ufes. No momento, é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Letras pela mesma universidade. Desde 2005 dedica-se ao estudo da obra traduzida por Machado de Assis. E-mail: dgnrflrs@gmail.com.

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