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Machado de Assis em Linha

versão On-line ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.10 no.21 São Paulo mai./ago. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201710218 

ARTIGOS

OSCILAÇÕES DO NARRADOR EM "O ALIENISTA", DE MACHADO DE ASSIS

OSCILLATIONS OF THE NARRATOR IN "THE ALIENIST", BY MACHADO DE ASSIS

CARLOS PIRES1 

1Instituto Superior de Ensino Vera Cruz. São Paulo, São Paulo, Brasil

Resumo

O artigo busca fazer uma leitura da novela "O alienista", do livro Papéis avulsos (1882) de Machado de Assis, atenta às relações entre o narrador e a matéria que ele escolhe narrar, com o intuito de buscar compreender diferentes perspectivas que ele assume ao longo do texto. Essa oscilação do narrador, ou a maneira como Machado de Assis a constituiu nessa novela, é bastante reveladora de como o autor precisou reconsiderar sua concepção sobre literatura e sobre o processo social do país nesse livro de contos inaugural da sua maturidade literária.

Palavras-Chave: Narrador; literatura e sociedade; Machado de Assis; literatura brasileira

Abstract

This article aims at performing a close reading of the novella "The Alienist", from his book Papéis avulsos (Loose Papers, 1882), and focuses on the relationship between the narrator and his chosen subject matter in an attempt to understand the various perspectives that he assumes throughout the text. The narrator’s oscillation, or the way that Machado de Assis incorporates this oscillation into the novella is something quite revealing about the way the author had to reconsider his concepts of literature and of the Brazilian social process in this first book of short stories of his literary maturity.

Key words: Narrator; Literature and society; Machado de Assis; Brazilian literature

O alienista" é a conhecida história de Machado de Assis cuja personagem principal é Simão Bacamarte, um ilustre "filho da nobreza da terra" que foi estudar na Europa e se tornou, segundo o narrador, o "maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas".1 Simão volta ao Brasil e fixa residência em Itaguaí, recusando postos importantes na universidade de Lisboa e na administração dos negócios da monarquia. Instalado nessa cidade, "entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência".2 Sua próxima preocupação, alguns anos depois, foi casar-se, com o objetivo específico de ter filhos. Escolheu uma esposa "não bonita nem simpática", que reunia as condições fisiológicas para "dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes". No parágrafo seguinte, no entanto, sabemos da "total extinção da dinastia dos Bacamartes". Com a ilustre árvore genealógica dos Bacamartes tendo Simão como seu galho podre, a prosa acelerada sofre a primeira interrupção abrupta. Essa dinâmica inicial de aceleração – com a informação narrativa bastante concentrada – e interrupção repentina que provoca uma espécie de vertigem no leitor irá de fato orientar a composição. Nada nessa história parece ter um desenvolvimento mais completo, inteiriço, a começar pela "dinastia" do nosso ilustre personagem, que é interrompida de saída. A agilidade engraçada da prosa, com essa concentração narrativa particular, vai deixando para trás uma ruinosa melancolia, como em outros escritos do autor.

O fim de sua dinastia, sintomaticamente, faz com que o médico direcione todas as suas forças para a ciência, mais especificamente para o "recanto psíquico, o exame da patologia cerebral".3 Com a pesquisa nessa direção, acreditava Simão, em um arroubo de intimidade doméstica – externamente era modesto, como convém aos sábios –, poder cobrir "a ciência lusitana, e particularmente a brasileira […] de 'louros imarcescíveis'".4 Essa glória eterna que o personagem busca é, nesse momento de abertura, comicamente contraposta ao fim de fato da sua dinastia, armando uma situação complexa em que Machado parece cifrar o caráter problemático tanto da particularidade brasileira como de chaves "universais" para considerá-la. "O alienista" tem um importante papel na abertura de Papéis avulsos, na constituição de uma unidade particular que o autor estava procurando forjar entre os contos dessa coletânea:

Este título de Papéis avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.5

Voltando ao detalhe da prosa, Bacamarte consegue da Câmara de vereadores, depois de certo mal-estar da opinião pública e dos próprios vereadores, um imposto destinado à construção de um local ideal para o seu propósito, a Casa Verde, onde poderia manter os doidos pobres que não pudessem pagar o tratamento. A Casa Verde – colada ao personagem principal – dará, então, o centro da ação até o momento do seu final, também abrupto, na conclusão da novela, com Simão trancafiando-se nela.

O desenvolvimento da pesquisa científica do nosso ilustre personagem também se dá dentro dessa dinâmica de aceleração e interrupção repentina: em uma primeira hipótese, Bacamarte considera que toda pessoa que escape a um "padrão racional" específico seja louca, e esse ser é, assim, depositado na Casa Verde. Isso até o momento da viravolta, em que quatro quintos da população estão confinados na instituição e o médico inverte a teoria: agora a manutenção do "padrão racional" é o revelador da loucura. Nessa segunda hipótese, quem está preso é solto e quem está solto fica sob suspeita. A aceleração das prisões do Alienista, na primeira fase da teoria, e o medo da população alcançam o ápice quando ele prende sua esposa, dona Evarista. Com essa prisão, segundo o narrador, o povo se calou às desconfianças que tinha em relação ao médico: Simão realmente é um médico sério – sempre segundo o narrador –, comprometido apenas com os valores científicos, sem nenhum interesse de outra natureza. O capítulo se fecha nessa tensão narrativa que o seguinte irá dissolver com a mudança de rumo da teoria.

O trabalho estranhamente científico do médico não precisa de nenhum tipo de mediação legal para julgar, prender e tratar os suspeitos de desequilíbrio ou equilíbrio mental, o que configura um amálgama bastante interessante entre "a ciência" e uma forma de vontade senhorial que de fato organizava aquela realidade em diversos planos.6 Essa forma particular, enraizada fortemente em um processo social também particular, parece, com efeito, perpassar toda a narrativa. A própria voz narrativa parece apresentar um problema dessa natureza. Essa surge já no início da história em meio a certa indeterminação, apresentando fatos que aconteceram em "tempos remotos", provavelmente em algum momento entre a última década do século XVIII e as primeiras décadas do século seguinte. Essa indeterminação, no entanto, aparece como uma estranha ostentação de objetividade: a história que pretende recompor se passou há muito tempo, as fontes de que dispõe são os cronistas da época, por isso o cuidado de não afirmar nada de forma muito rígida. Essa objetividade científica hesitante proclamada a todo momento pelo narrador, somada à vontade de circunscrever racionalmente um assunto específico, a vida do médico, contrasta com o anedotário que se espalha e nubla aquela mesma tentativa de unificação dos materiais "históricos". O humor bipolar e um tanto abestalhado da novela nasce dessa rápida mudança de registro e auxilia o andamento dos episódios que acelera e interrompe abruptamente, gerando uma estranha sensação de movimento no vazio que se buscará caracterizar.

A maneira como o narrador se aproxima e distancia dos fatos talvez jogue luz à curiosa identificação dele com seu biografado. A falta de capacidade de hierarquizar os dados que levantou e a forma como ele acompanha o desenvolvimento contraditório do personagem, que em diversos momentos organiza os elementos de sua pesquisa de maneira também duvidosa, marcam essa afinidade bastante problemática. Quando Bacamarte concebeu sua primeira teoria sobre a loucura, apanhou muitos exemplos na história e em Itaguaí, mas achou mais confiável expor apenas as loucuras históricas para o boticário. Em um mesmo saco colocou "Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas".7 Quem nessa enumeração é odioso e quem é ridículo? Sócrates é ridículo ou odioso? E Pascal, Maomé, Caracala, Calígula? O narrador anota apenas a reação do boticário, que achou extravagante a ideia toda, mas com a modéstia e a bajulação habitual "não lhe sofreu confessar outra cousa além de um nobre entusiasmo".8

Parece, em uma primeira leitura, que existe uma exposição deliberada do ridículo dos personagens, o que sugere uma voz narrativa irônica. O narrador sustenta uma estranha imparcialidade que o leitor com atenção maior ao ridículo do médico se esquece muitas vezes de observar. Em alguns momentos-chave, no entanto, o ponto de vista do biógrafo se cola mais assumidamente ao do biografado. A tentativa de apreender os fatos objetivamente – com o vai e vem na anedota quando se aproxima de qualquer dinâmica popular – mostra-se falha: o narrador não consegue entender muitas vezes o que está acontecendo, gerando um efeito cômico bastante particular. Existe, com efeito, uma ironia que acontece no plano da forma, por meio desse movimento do narrador em relação à matéria que procura apresentar. Quando ele se percebe cercado das "anedotas populares", afasta-se com certo azedume, passando inclusive alguns atestados de burrice e, em um segundo movimento, descaracteriza essas fontes problemáticas do ponto de vista da "distância científica". Comentando o caso do Matheus, o albardeiro, classificado pelo médico de "amor das pedras", que consiste em de manhã ficar contemplando a casa e à tarde se colocar como estátua para ser apreciado pelos transeuntes, o narrador observa:

Os vizinhos, embora o cumprimentassem com certo respeito, riam-se por trás dele, que era um gosto. Um desses chegou a dizer que o Matheus seria muito mais econômico, e estaria riquíssimo, se fabricasse as albardas para si mesmo; epigrama ininteligível, mas que fazia rir às bandeiras despregadas.9

Acredita-se de início tratar-se de ironia do narrador, pois a chalaça é evidente. Mas o fato é que ele só percebe o componente picante e mordaz do anedotário, sem conseguir entrar de fato no centro do humor ou mesmo no sentido mais imediato da anedota. Em diversos momentos da história, ligados a situações-chave que revelam um olhar particular para a realidade, o narrador não sabe como julgar os fatos e atribui a culpa disso à insuficiência das fontes de pesquisa; em outros, ele julga e ridiculariza a situação com muita naturalidade tendo como base apenas o anedotário, ou mesmo sua superfície.

No começo da revolta dos canjicas, cerca de trinta pessoas lideradas pelo barbeiro Porfírio queriam a destruição da Casa Verde e redigiram e levaram uma representação à Câmara, que, por sua vez, teve a seguinte atitude:

A Câmara recusou aceitá-la, declarando que a Casa Verde era uma instituição pública, e que a ciência não podia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimentos de rua.

— Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, é o conselho que vos damos.10

A Câmara, órgão público, não podia aceitar uma petição pública de um movimento popular, pois não se podem modificar os assuntos científicos nem a Casa Verde – instituição que funciona com verba pública até aquele momento – por votação administrativa. A equação montada é bastante interessante: estamos com um pé no mundo moderno, pós-Revolução francesa, em que o pensamento governa o mundo, ou em uma modernidade que "tem de extrair de si mesma a sua normatividade";11 e estamos com outro pé em um mundo governado por outra lógica, em que a racionalidade moderna quando comparece justifica uma violência da qual o narrador só nos deixa ver parte – a parte que ele justamente não enxerga como violenta e ridiculariza. Isso não traz apenas a exposição da violência, esse ponto cego, fruto da naturalização da vontade senhorial naquela realidade, apresenta o material do qual aqueles mundos, o ficcional e o não ficcional, são constituídos. A configuração desse problema por meio desse narrador é o que estabelece a tensão central de "O alienista" e, talvez, dos outros contos de Papéis avulsos.

A forma de desprezo da Câmara pelo movimento popular é a mesma de Simão Bacamarte quando o movimento chega a sua porta gritando "Morra o alienista!". Nosso alienista ouve calmamente os manifestantes e diz:12

— Meus senhores, a ciência é cousa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos, nem a rebeldes.13

Essa postura é semelhante à do narrador que elogia a serenidade com que Bacamarte conduz a conversa com os "arruaceiros" e à forma como o personagem a conclui fazendo um gesto de cortesia muito nobre, virando as costas para a multidão e entrando lentamente em casa. E, por fim, a atitude é assumida em moldes semelhantes pelo popular que tomou a frente da rebelião, o barbeiro Porfírio, com o espírito de traição do movimento que o narrador relata, não sem algum prazer, acompanhando a nobreza e a austeridade do médico:

— Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa, engana-se em atribuir ao governo intenções vandálicas. Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doudos ali metidos estão em seu perfeito juízo, mas o governo reconhece que a questão é puramente científica, e não cogita em resolver com posturas as questões científicas. Demais, a Casa Verde é uma instituição pública; tal a aceitamos das mãos da Câmara dissolvida. Há, entretanto, — por força que há de haver um alvitre intermédio que restitua o sossego ao espírito público.14

A maneira como, por um lado, o narrador organiza o relato ostentando objetividade e, por outro, constrói um "relato histórico" esgarçado não deixa de ser um indício bastante significativo da identidade dele com esse mundo organizado em torno da vontade, quase sagrada, senhorial.15 Pouco tempo depois de Simão Bacamarte virar as costas aos manifestantes e entrar em casa, chega um corpo de dragões para dispersar a rebelião. Acontece algo inesperado: os dragões mudam de lado – por motivos que os cronistas não declaram, falta "estranhamente" esse tipo de documentação histórica – e o confronto se resolve sem conflito, apenas alguns feridos são recolhidos às casas próximas. A dificuldade do narrador para entender esses "fatos" históricos, ou para estabelecer quais são as posições em "conflito", é, em certa medida, como Machado parece ironizar, ao fundo, a própria "constituição nacional", que, para usar um exemplo fundante, ganha existência por meio de uma independência realizada pelos próprios elementos dinásticos que estavam no poder, o que gerou um quadro histórico bastante singular.16

Páginas depois, ainda dentro desses "fatos" problemáticos, quando o barbeiro trai o movimento dos canjicas, tentando cooptar o médico para influenciar os "principais da vila" – estranho personagem coletivo que está decidindo quase tudo ao fundo –, Simão pergunta quantos foram os mortos e feridos no conflito. Para a surpresa do leitor, Porfírio responde: "onze mortos e vinte e cinco feridos!".17 O relato da rebelião em todo seu processo, com a omissão de alguns aspectos que provavelmente deixariam explícitos o poder de ações populares, não deu esse saldo final de mortos e feridos. Ou o narrador "esqueceu", ou do seu ponto de vista era um fato de pouca relevância, ou, ainda, omitiu de má-fé. Qualquer dos casos corrobora sua identificação de classe.

As dúvidas, ou falsas dúvidas, que o narrador possuía em relação à postura autoritária do seu biografado vão se desfazer quase totalmente quando Simão abre mão de todo o dinheiro da contribuição pública, momento-chave na estruturação da história. Com essa atitude, aos olhos do narrador, o alienista demonstrou não ter de fato nenhum interesse fora da ciência, demonstrou a pureza, a honra e a nobreza dos seus propósitos. O julgamento do narrador se atrela a valores, digamos assim, não modernos para justificar a "modernidade" da atitude de Simão. Os aspectos modernos – a ciência dentro desses – funcionam como elementos que planam acima do real quase em uma esfera sagrada – do ponto de vista do narrador mais sagrada que a religião encarnada no Padre Lopes –, e quem tem acesso a ela é tratado como uma espécie de sacerdote.

Um elemento-chave para entender o aumento progressivo da identificação do narrador com o personagem principal, a ponto de o primeiro recusar algumas evidências que poderiam denegrir este último, parece ser a relação de Simão com o dinheiro. Nos primeiros capítulos, uma leve desconfiança sobre as reais intenções de Bacamarte permanece – em uma medida possível entre pares – sustentada na ambiguidade da narração. Até uma adjetivação, o terrível Bacamarte, é usada em um misto de fascínio em relação ao personagem e quase adesão ao ponto de vista dos que estavam assustados com as prisões – e, ainda, com um quê de uma ironia mais imediata, difusa. No capítulo III, "Deus sabe o que faz!", d. Evarista, esposa do ilustre médico, cai em profunda melancolia pelo fato de o marido não lhe dar mais atenção; suas preocupações estavam todas voltadas à ciência e aos loucos da Casa Verde. D. Evarista "atreveu-se um pouco", pois respeitava nele o "seu marido e senhor", e disse em um jantar que se sentia "tão viúva como dantes". Para reparar a situação, Simão diz: "— Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro".18 Aqui, como na teoria das janelas nas Memórias póstumas, em que é preciso abrir uma janela quando outra se fecha para arejar a consciência cínica, um desejo frustrado é substituído por outro. Nesse momento, depois de uma comparação da fronte do alienista com a água lisa de Botafogo, o narrador – ao que parece fluminense ou, no mínimo, bom conhecedor do Rio de Janeiro – se apresenta da forma mais direta na novela:

D. Evarista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos pés. Nunca dos nuncas vira o Rio de Janeiro, que posto não fosse sequer uma pálida sombra do que hoje é, todavia era alguma cousa mais do que Itaguaí.19

Ficamos sabendo que o narrador está, teoricamente, afastado do tempo em que a história se passa, o que a invasão das anedotas, a dos diálogos e dos momentos de onisciência parecem desmentir. A "distância científica", abolida e dada a todo momento, funciona em chave semelhante à distância temporal, também dada e suprimida. É como se tudo, no saldo final, acontecesse em um mesmo espaço em que tempo presente e passado, história e mito, se misturam. John Gledson chamou atenção para essa relação na constituição de "O alienista".

Se o leitor põe-se a perguntar em que período da história estamos, qual a data desses acontecimentos, evidentemente responderia: no período colonial, e claro, com razão – é o vice-rei que manda as tropas do Rio. Contudo devemos estar depois de 1789 (a Bastilha); Martim Brito já compôs uma ode à queda de Pombal, que deve ser um pouco tardia, já que o Marquês caiu em 1777. E tudo isso "em tempos remotos", ou seja, não o tempo da história, porém do mito. Mais ainda, há uma atmosfera de século XIX que envolve alguns dos eventos – a revolta dos canjicas lembra as revoluções ocorridas durante a regência, como a balaiada, no Maranhão (1839-40) , que teve como líder Manuel Francisco dos Anjos Ferreiro, "o Balaio". Não tenho certeza até que ponto isso é deliberado. Certamente Machado não incorre em nenhuma contradição factual, mas o ponto fundamental parece-me ser que ele pretende fazer-nos sentir que estamos num mundo que é ao mesmo tempo colonial e moderno; o que não deixa de ser uma intuição profundamente verdadeira acerca do Brasil ou até da América Latina como um todo.20

D. Evarista diz, então, não querer ir ao Rio de Janeiro sem o marido. O que faz Simão "propor": "– Irá com sua tia". O narrador, penetrando, em um momento de onisciência, nas intenções da esposa, diz que ela havia pensado nisso mesmo, mas tinha considerado mais metódico e racional que a "proposta" viesse dele. O engraçado é que Machado usa termos caros à constituição da modernidade para caracterizar a velha finta dos dominados brasileiros em que o agregado, com o fim de conseguir algo, insinua seu desejo para que ele apareça como o do patriarca.21 Nesse momento, sem muita convicção, dona Evarista pergunta sobre o dinheiro que se gastaria com isso. Simão leva-a até as arcas e mostra a fortuna que ganhou até ali com a Casa Verde:

E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via-láctea de algarismos. E depois levou-a às arcas, onde estava o dinheiro. Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulência. Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida das alusões:

— Quem diria que meia dúzia de lunáticos…

D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:

— Deus sabe o que faz!22

O tipo de ironia que Bacamarte faz em relação à observação anterior da esposa, "— Quem diria que meia dúzia de lunáticos…", e, consequentemente, em relação ao dinheiro, não condiz com a sua caracterização, por mais desigual que ela seja, ao longo da novela. O dinheiro, central na dinâmica do romance realista europeu, aparece aqui sem as mediações que a matéria histórica pede. Ele não entra em acordo, nem em desacordo significativo, com a devoção científica do médico, nem com a sacralização da ciência. Aparece como uma espécie de erro estético que forçará, e mesmo potencializará, uma unificação bastante particular dos materiais da novela, que se sustentará, principalmente, na figura do narrador.

No começo já citado da revolta dos Canjicas outros fatores, além do desprezo da Câmara, desorientam os manifestantes. Quando o barbeiro Porfírio afirma para os vereadores "que o despotismo científico do alienista complica-se do espírito de ganância"23 pelo fato de os loucos receberem dinheiro público para o tratamento, o presidente da Câmara o interrompe e diz ser isso falso:

— Há cerca de duas semanas recebemos um ofício do ilustre médico, em que nos declara que, tratando de fazer experiências de alto valor psicológico, desiste do estipêndio votado pela Câmara, bem como nada receberá das famílias dos enfermos.24

Essa resposta não apenas "suspendeu um pouco a alma dos rebeldes",25 suspendeu, também, a do narrador, que ainda anota o quão nobre e puro foi esse ato, para fora de toda sorte de desconfiança e, ainda, a do leitor que, acompanhando o andamento da história, não esperava esse travamento do interesse financeiro do médico. Essa interrupção parece um ajuste de rumo, fundamental para o tipo de complexidade formal da novela que o autor procurava naquele momento. Se Machado desenvolvesse o andamento do interesse financeiro até o fim, a unificação dos materiais ficaria provavelmente "frouxa": o eixo seria a crítica da ideologia no molde europeu26 e não a vontade senhorial, um tanto bipolar, determinante ainda naquela realidade.

Essa interrupção forçada do andamento fratura a já bastante fraturada superfície da obra. A solução para isso foi um achado.27 A ganância de Bacamarte continua, mesmo desacreditada, na boca dos revoltosos. Na conversa já citada em que, como a Câmara, Bacamarte despreza os manifestantes, o barbeiro diz: "[…] queremos dar liberdade às vítimas do vosso ódio, capricho, ganância…".28 E depois, mais desacreditada ainda, a ganância aparece na boca do segundo barbeiro, João Pina, que ao criticar seu rival na navalha diz que este está "vendido ao ouro de Simão Bacamarte", palavra de ordem que congregou os descontentes com o governo de Porfírio e possibilitou o curto golpe que derrubou este último. O segundo barbeiro, monarquista,29 rapidamente é derrubado, de forma abrupta também, por esta simples frase que acaba com toda a "arruaça" promovida pelos populares até ali: "Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei, e restabeleceu a ordem".30

O achado do autor para "consertar" o rumo da novela se dá neste trecho que acontece após o fim da revolta, beirando a desconexão excessiva ou mesmo a pura gratuidade, no momento das prisões promovidas por Bacamarte – momento que será também interrompido abruptamente pouco depois com o encarceramento da própria esposa:

Alguns cronistas creem que Simão Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato de ter alcançado da Câmara uma postura autorizando o uso de um anel de prata no dedo polegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradicional, declarasse ter nas veias duas ou três onças de sangue godo. Dizem esses cronistas que o fim secreto da insinuação à Câmara foi enriquecer um ourives, amigo e compadre dele; mas, conquanto seja certo que o ouvires viu prosperar o negócio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu à Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se pode definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do ilustre médico. Quanto à razão determinativa da captura e aposentação da Casa Verde de todos quantos usaram do anel, é um dos pontos mais obscuros da história de Itaguaí; a opinião mais verossímil é que eles foram recolhidos por andarem a gesticular, à toa, nas ruas, em casa, na igreja. Ninguém ignora que os doudos gesticulam muito. Em todo caso, é uma simples conjetura; de positivo nada há.31

A identificação do narrador com Bacamarte chega aqui ao ponto máximo e se mantém aí até o final com ele discordando das fontes pelo fato de elas colocarem em xeque o procedimento honrado, puro e nobre do médico. No fundo da discreta indignação do narrador reverbera a frase do presidente da Câmara comunicando a desistência da ajuda pública e dos familiares dos enfermos, o que na prática significa qualquer ajuda financeira que não saia do próprio bolso de Simão – que, entretanto, aparentemente não precisa mesmo do dinheiro, pois é um filho da nobreza da terra. Mas o que se segue é algo que perde qualquer sentido sem o andamento da ganância, interrompido pelo narrador. O autor, com essa estratégia, reintroduz negativamente a cobiça presente sim do lado de cá do Atlântico, retomando-a na exposição das limitações do narrador. O leitor é forçado, para dar algum sentido a esse trecho e não cair na indeterminação em que cai o narrador, a colocar a "lisura" do alienista também em xeque; e, por extensão, a do próprio narrador. O vácuo que esse vai criando em torno dos interesses puramente científicos de Bacamarte, que o elevam a uma esfera sagrada, começa a ganhar um tom de insistência. Alguns capítulos à frente, o narrador faz questão de apresentar um ofício que o médico mandou à Câmara quando mudou o rumo da teoria. No sexto parágrafo consta, radicalizando o movimento anterior de recusa a qualquer ajuda financeira e completando o gesto rumo à canonização do personagem, que Simão:

[…] restituía à Câmara e aos particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.; o que a Câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.32

Machado de Assis, em uma espécie de correção constante do rumo do enredo, refina a desorientação do narrador à medida que promove uma limpeza nos aspectos que poderiam manchar a pureza dos interesses científicos do médico. As desconfianças do biógrafo em relação ao biografado vão diminuindo, enquanto um elogio, ligado à dedicação, honra, pureza etc., cresce até o gesto máximo de serenidade científica final quando o próprio Bacamarte decide trancar-se na Casa Verde. A anedota novamente aparece contrastando o tom elevado, mas a atitude do narrador em relação a ela é a mesma da novela toda:

Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegaram ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco, além dele, em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade.33

Esse último parágrafo da novela tem em dose concentrada seu princípio formal: a seriedade elevada demais quebrada pelo boato, ou pelo anedotário, que comparece só para ser descartado – e a grande ruína final do personagem e da Casa Verde, dada pela interrupção abrupta do desenvolvimento narrativo.

O engraçado, e trágico ao mesmo tempo, é que Machado de Assis acaba por revelar na constituição desse narrador, com um humor terrível, o funcionamento de um mundo que tem como esteio a vontade senhorial, algo que parece ter ficado mais claro para o autor nesse momento da sua produção. O saldo final é que esse humor é tão sem graça quanto o mundo violento e ruinoso que ele revela. Essa consciência expressa nessa escolha formal parece ser a responsável pela retirada do trecho que finalizava a novela em A Estação em 15 de março de 1882:

O cadáver foi sepultado na capela da Casa Verde, infelizmente sem epitáfio. Em 1817, desapareceram os ossos, e segundo as mais prováveis induções, foram roubados e transportados para Santiago do Chile, cuja academia supõe que são os restos de um cozinheiro do ilustre Pizarro. Alas! poor Iorick! – Sic transit gloria mundi.

Ou, em outras palavras, retirar esse trecho parece indicar a negociação que Machado de Assis precisou fazer no plano da forma entre certo humor mais imediato, ou certa chalaça, e a ironia ácida que estrutura essa voz narrativa.

Referências

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CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis, historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. [ Links ]

CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, [1990] 2011. [ Links ]

GLEDSON, John. O machete e o violoncelo. In: Por um novo Machado de Assis: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. [ Links ]

HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Martins Fontes, 2002. [ Links ]

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2000. [ Links ]

1ASSIS, Obra completa, vol. II, p. 253.

2 Ibidem.

3 Idem, p. 254.

4 Ibidem.

5 ASSIS, cit., vol. II, p. 252.

6 Sidney Chalhoub demonstra, por meio da análise de processos das últimas décadas do século XIX relacionados com a liberdade de escravos, o papel determinante da vontade senhorial, ou como os dois lados da disputa buscavam argumentar juridicamente com vistas a tentar fazer prevalecer justamente essa vontade, ou, em outras palavras, como esse era o ponto determinante do ponto de vista jurídico para o desdobramento do processo e do cativo (CHALHOUB, Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte).

7 ASSIS, cit., vol. II, p. 260-261.

8 Idem, p. 261.

9 Idem, p. 264.

10 Idem, p. 269.

11HABERMAS, O discurso filosófico da modernidade, p. 12.

12 Os assuntos científicos são do campo da ciência – o que confere autonomia a ela – ao mesmo tempo em que essa autonomia é absoluta, já que só mestres, que não existiam em Itaguaí, e Deus podem dar a devida seriedade a ela.

13 ASSIS, cit., vol. II, p. 272.

14 Idem, p. 276.

15 Sidney Chalhoub mostra como essa vontade senhorial sofreu uma década antes aproximadamente, sobretudo a partir da Lei do Ventre Livre (1871), abalos que, ao que tudo indica, abriram caminhos para que Machado de Assis a considerasse como material para sua elaboração literária – o que, de qualquer maneira, indica que essa vontade senhorial já não era tão sagrada no momento de escrita da novela como antes, embora ainda sagrada o suficiente a ponto de alimentar muito da tensão literária dos textos do autor desse momento (CHALHOUB, cit.).

16 Benedict Anderson comenta esse fato no seu conhecido livro Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo, 2008.

17 ASSIS, cit., p. 277.

18 Idem, p. 258.

19 Ibidem.

20 GLEDSON, O machete e o violoncelo, p. 34-35. O começo desse mesmo parágrafo é bastante interessante em relação ao que se está tentando discutir: "O maior exemplo da extraordinária força adquirida em Papéis avulsos é o conto inicial, 'O alienista'. Continua sendo um dos trabalhos mais fascinantes de Machado, que nele combina toda a sensação de vertigem de histórias como 'O espelho' com uma variedade maior de assuntos, permitida por sua extensão. Contém o mais completo relato de Machado – e, é preciso constatá-lo, suas conclusões mais negativas – sobre o progresso da revolução política. Itaguaí é um reflexo local do modelo de todas elas no século XIX: a Revolução Francesa, com seu terror, sua Restauração, suas revoltas locais, ambições, vaidades, sua crença em slogans e metáforas cintilantes ('essa Bastilha da razão humana'), e até com sua 'saraivada de balas' (quando os dragões chegam do Rio para reprimir a revolta dos Canjicas). Aqui também, um cenário ambíguo tem um papel subjacente bastante importante".

21 Chalhoub faz uma boa descrição de como esse mecanismo de dominação patriarcal aparece em Machado de Assis: CHALHOUB, Machado de Assis, historiador, p. 63 (e em outros momentos do livro).

22 ASSIS, cit., vol. II, p. 259.

23 Idem, p. 270.

24 Ibidem.

25 Ibidem.

26 "[…] adotadas as ideias e razões europeias, elas podiam servir e muitas vezes serviram de justificação, nominalmente "objetiva", para o momento de arbítrio que é da natureza do favor. Sem prejuízo de existir, o antagonismo se desfaz em fumaça e os incompatíveis saem de mãos dadas. […] Neste contexto, portanto, as ideologias não descrevem sequer falsamente a realidade, e não gravitam segundo uma lei que lhes seja própria – por isso as chamamos de segundo grau. Sua regra é outra, diversa da que denominam; é da ordem do relevo social, em detrimento de sua intenção cognitiva e de sistema. Deriva sossegadamente do óbvio, sabido de todos – da inevitável 'superioridade' da Europa – e liga-se ao momento expressivo, de autoestima e fantasia, que existe no favor. Neste sentido dizíamos que o teste da realidade e da coerência não parecia, aqui, decisivo, sem prejuízo de estar sempre presente como exigência reconhecida, evocada ou suspensa conforme a circunstância. Assim, com método, atribui-se independência à dependência, utilidade ao capricho, universalidade às exceções, mérito ao parentesco, igualdade ao privilégio etc." SCHWARZ, Ao vencedor as batatas, p. 18-19.

27 Achado em parte fruto da necessidade por conta da maneira como a novela foi publicada em A Estação de 15 de outubro de 1881 a 15 de março de 1882. A versão que saiu em Papéis avulsos teve algumas modificações significativas em relação à publicada em A Estação, principalmente no último capítulo, “Plus ultra!”, mas, provavelmente, Machado escreveu a novela ao longo do processo de publicação no periódico e precisou fazer os ajustes de rumo no meio desse processo – e depois os incorporou na versão para o livro.

28 ASSIS, cit., vol. II, p. 272.

29 "João Pina mostrou claramente, com grandes frases, que o ato de Porfírio era um simples aparato, um engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois caía Porfírio ignominiosamente, e João Pina assumia a difícil tarefa do governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros atos inaugurais do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir; acrescentam os cronistas, e aliás subentende-se, que ele lhes mudou os nomes, e onde o outro barbeiro falara de uma câmara corrupta, falou este de 'um intruso eivado das más doutrinas francesas, e contrário aos sacrossantos interesses de Sua Majestade', etc." Idem, p. 278.

30 Ibidem.

31 Idem, p. 279.

32 Idem, p. 281.

33 Idem, p. 288.

Recebido: 27 de Outubro de 2016; Aceito: 21 de Março de 2017

CARLOS PIRES é mestre e doutor em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo e professor do Instituto Superior de Ensino Vera Cruz. Na área de Letras, atua principalmente nos seguintes temas: Modernismo, ensino de literatura, Literatura e Sociedade. Autor dos livros Frio tropical: tropicalismo e canção popular (no prelo) e Apuros modernos: o jovem João Cabral de Melo Neto. E-mail: pirescarlos@gmail.com.

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