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Machado de Assis em Linha

versão On-line ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.10 no.22 São Paulo dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201710221 

DA TRADIÇÃO CRÍTICA

"DUELOS Y QUEBRANTOS" Ensaio originalmente publicado na Revista do Livro, em setembro de 1958

"DUELOS Y QUEBRANTOS" Essay originally published in Revista do Livro, in September 1958

M. CAVALCANTI PROENÇA1 

1Universidade de São Paulo São Paulo, São Paulo, Brasil

Resumo

Este artigo de Manuel Cavalcanti Proença, aliando conhecimento da obra machadiana, humor, intuição linguística apurada e sensibilidade diante de construções artísticas, é um convite para perceber, sobretudo nos contos de Machado de Assis, a forma como o escritor aproveita lugares-comuns na constituição da força de seu estilo.

Palavras-Chave: lugar-comum; chavão; estilo machadiano; Dom Quixote; "Um homem célebre"

Abstract

This article by Manuel Cavalcanti Proença is a nexus of his knowledge of Machadian work, humor, exquisite linguistic intuition, and sensitivity to artistic constructions; it is also an invitation to notice how the writer uses the commonplace, especially in his short stories, in establishing the force of his style.

Key words: commonplace; stereotype; Machadian style; Don Quixote; "A Famous Man"

Este número da MAEL apresenta aos leitores um ensaio de M. Cavalcanti Proença que, combinando sensibilidade diante de expressões linguísticas e de construções artísticas, conhecimento da obra machadiana e humor, é um convite para ler sobretudo os contos de Machado de Assis e observar o modo como o escritor recolhe lugares-comuns e os aproveita na constituição da força de seu estilo.

Tem razão o crítico em respeitar o lugar-comum, que possui lastro na história, nos usos da língua: se rimos com o temor de Cavalcanti Proença de que algum chavão logo lhe houvesse invadido o texto, acompanhamos igualmente com prazer sua explanação sobre a presença de lugares-comuns na origem de muitas criações literárias, como de José Lins do Rego e, em especial, de Machado.

Sobressaindo o "caráter impositivo do lugar-comum" como pressuposto de Cavalcanti Proença, quem o inspira a expor a questão é o Pestana machadiano, "eterna peteca entre a ambição e a vocação",1 desejoso de compor sonatas mas perseguido pelo corriqueiro das "polcas buliçosas". Em seguida, o crítico evoca Remy de Gourmont, que diferenciou lugares-comuns e clichês, Fernando Sabino, que sublinhou a importância deles para as propagandas, e então Eugênio Gomes, que identificou o gosto de Machado por desenvolver metáforas.

Justamente de "Um homem célebre" Proença depreende uma passagem reveladora da forma como Machado de Assis recorre com frequência ao lugar-comum e o "enfeita". O crítico analisa toda a sequência do conto em que o escritor completa o coloquialismo "As polcas que vão para o inferno" – expressão do enfado de Pestana com sua popularidade –, extraindo do próprio contexto concreto do lugar-comum uma potência irônica de efeito espirituoso:

– As polcas que vão para o inferno fazer dançar o diabo […].

Mas as polcas não quiseram ir tão fundo. Vinham à casa de Pestana, à própria sala dos retratos, irrompiam tão prontas, que ele não tinha mais que o tempo de as compor, imprimi-las depois, gostá-las alguns dias, aborrecê-las, e tornar às velhas fontes, donde lhe não manava nada.2

Com agudez, Cavalcanti Proença reconhece que o recurso empregado por Machado é alterar ou enfeitar o lugar-comum, de maneira a tornar concreta a abstração que tomou conta da metáfora esvaziada pelo uso. Fundamentalmente, a estratégia é evitar a repetição, ou tratá-la com arte, reabitando com alma o automático, o naturalizado, o que vem por força do hábito. Vale aqui recordar o sentido de poesia conforme um ensaio de Franklin Leopoldo e Silva: "Daí também o privilégio da palavra poética, que revela a invenção significativa fazendo brotar a diferença a partir do mesmo, a metáfora como a surpresa que as velhas palavras escondem".3

Já se vê que o ensaio de Cavalcanti Proença é saboroso, e ele justamente nos serve uma metáfora do âmbito da culinária: se repetir o trivial cansa inclusive quanto ao cardápio, cumpre sempre "improvisar a roupa-velha", ou seja, acrescentar temperos ao peixe que sobrou. E aqui se explicita o título do ensaio: Proença destaca que Machado conhecia os "antecedentes ilustres" de sua técnica, por exemplo Dom Quixote, que, embora fidalgo, apreciava os "duelos y quebrantos".4 Ao pé da letra "dores e desalentos", trata-se de uma comida de mesa pobre, comum – mexido de ovos com toucinho –, mas que, feita com improviso inteligente, tem sustância e sabor.5

Baseado em um esboço de classificação e depois entregue a comentários livres, Proença oferece ao leitor diversos exemplos de clichês “enfeitados” artisticamente por Machado de Assis. Acompanhando o olhar machadiano no conto "Evolução", de Relíquias de casa velha, não escapa ao ensaísta a percepção crítica quanto ao vazio dos discursos políticos que se servem de lugares-comuns e de grande aparato verbal. Lá está, esplêndido, o chavão de ser o Brasil uma criança a engatinhar, sempre à espera de progressos como estradas de ferro para começar a andar.

Que os leitores façam bom proveito dos lugares-comuns revigorados pelo estilo machadiano, aperitivos pinçados por Cavalcanti Proença para então se provarem o delicioso, o indigesto e o amargo da literatura de Machado de Assis.

Manuel Cavalcanti Proença (Cuiabá, MT, 1905 - Rio de Janeiro, 1966) formou-se em 1930 na Escola Veterinária do Exército, no Rio de Janeiro, e trabalhou em Manguinhos, no laboratório do zoologista dr. Lauro Travassos. Publicou pesquisas em zoologia, sobre helmintos e morcegos, e trabalhou, por um ano e meio, em missão cultural do Ministério do Exército, no Instituto de Higiene de Assunção, no Paraguai. Ao mesmo tempo, gostava de ler e escrever literatura, havendo publicado em 1944 Ribeira do São Francisco, laureado com o Prêmio Taunay da Biblioteca do Exército. Então, abandonou o trabalho antigo: em 1946, efetivou-se professor do Colégio Militar, com um estudo sobre metrificação.

Destaque-se, com o biógrafo Renard Perez,6 que, desde a publicação de Macunaíma, em 1928, Cavalcanti Proença sempre foi grande admirador do livro. Como em seus estudos de biologia leu naturalistas e cronistas viajantes, pôde encontrar algumas fontes utilizadas por Mário de Andrade em sua obra. Escreveu o Roteiro de Macunaíma e, em 1950, recebeu o primeiro prêmio no concurso de ensaios promovido pela prefeitura de São Paulo. Paulo Duarte editou o livro em 1955, por indicação de Carlos Drummond de Andrade e Augusto Meyer.

O primeiro livro de literatura de Cavalcanti Proença saiu em 1953: o volume de contos Uniforme de gala. De 1955 é Ritmo e poesia, ensaios sobre a estrutura da métrica. Nesse ano, organizou, com Francisco de Assis Barbosa e Antônio Houaiss, o texto e as notas das Obras completas de Lima Barreto, em dezessete volumes, publicados pela editora Brasiliense. Saíram em 1958 No termo de Cuiabá e Trilhas no Grande Sertão e, em 1959, Augusto dos Anjos e outros ensaios, reunião de estudos sobre o poeta paraibano e sobre Castro Alves, Lima Barreto e Guimarães Rosa. No ano seguinte, Proença organizou e prefaciou para a Aguilar a edição das Obras completas de José de Alencar, bem como o volume Mário de Andrade (ficção) da coleção Nossos Clássicos da Agir. Além de ter preparado uma edição comemorativa do centenário de Iracema, em 1965, publicou José de Alencar na literatura brasileira (1966) e Estudos literários (1971), entre outras obras. Quanto à ficção, sobressai, de 1959, o Manuscrito Holandês ou A peleja do caboclo Mitavaí com o monstro Macobeba, romance inspirado em Macunaíma. E O alferes é publicação póstuma, de 1967.

Cavalcanti Proença organizou, como professor, o Departamento de Literatura e Língua Portuguesa da Academia Militar de Agulhas Negras. Organizou e dirigiu a publicação do catálogo de Literatura popular em verso, pela Casa de Rui Barbosa, em 1961. Escreveu aparatos (biografia, introdução, notas) para edições da obra de Machado de Assis da Coleção Prestígio, da Ediouro, como A mão e a luva, O alienista e outras histórias, Esaú e Jacó etc.

O professor e ensaísta Ivan Cavalcanti Proença, filho de Manuel, organizou, prefaciou e anotou a Seleta de M. Cavalcanti Proença, publicada em 1976 pela José Olympio. A MAEL agradece a ele a autorização para publicar o ensaio de Manuel Cavalcanti Proença neste número.

*******

Pestana, compositor, enfadado com a admiração de Sinhazinha Mota, inventa uma dor de cabeça para deixar o baile. E vinha, a admiração, de suas polcas. Caíam no goto e chegavam "à consagração do assobio e da cantarola noturna". Mas, deixando a festa, o autor não se livrou das polcas: de uma casa modesta "saíam as notas da composição do dia", em clarineta. E Pestana sofre como deve sofrer um criador de lugares-comuns, passados os primeiros momentos de namoro com a popularidade.

Gente mais ilustre que Pestana tem sofrido da mesma tristeza e houve um Euclides e um Raimundo que se irritavam com a referência fundida em clichê: – o autor de Os Sertões, – o poeta de "As pombas".

É que o artista tem outra face. Autor de polcas buliçosas, capazes de se tornarem chavões, afagava sonhos de compor música séria, da ordem da sonata do Requiem, da Cantata e outras nobrezas. Mas não lhe ocorre combinação nova e os trechos que lhe vêm já estão fabricados, íntegros: são frases prontas, feitas, compassos de Mozart, Chopin, motivos que viviam nos "becos escuros da memória, velha cidade de traições".

É hora de abandonar o Pestana, que já nos prestou o serviço de sugerir o caráter impositivo do lugar-comum, senso lato.

O assunto vem estudado há muito e por muitos autores. Remy de Gourmont distingue lugar-comum de clichê. O nome geral ficaria reservado à vulgaridade de ideia, como aquela do enamorado que suspende nos braços a amada em delíquio e volve os olhos, buscando onde depositar "o precioso fardo". Clichê estaria adstrito à frase, ao aspecto material de vocábulos fundidos, fusão que atinge o ponto máximo no provérbio. Se aqui fosse próprio, tentaríamos uma classificação do clichê, começando pelo adjetivo satélite, tipo "lauta mesa" e chegando até à perífrase "precioso líquido", com passagem obrigatória pelos predicados indissolúveis – "abrilhantar a festa com sua presença".

Diga-se, porém, que não se pretende mostrar desprezo pelo, nem amaldiçoar o lugar-comum. Em primeiro, medo de vingança, pois é bem possível que um deles já se tenha instalado, muito ancho, no desenvolvido até aqui; em segundo, porque deles se tem originado a força de muito escritor. Para não ficar sem prova, José Lins do Rego tem a sua grandeza no aproveitamento de frases da linguagem oral nordestina. A frase feita popular, com a sua inteireza semântica, com a supressão do individualismo vocabular, deu à prosa do romancista aquela efetividade de "contador de histórias", de criador de uma linguagem popular estilizada, isto é, a recriação estética da linguagem oral reproduzida, não fotograficamente imperfeita, mas depurada e artística.

E, hoje, não se pode subestimar o valor do lugar-comum na propaganda de ideologias, de homens, e de produtos comerciais. Fernando Sabino assinalou o fato e exemplificou citando o anúncio de um remédio para bronquite: – Tome o xarope X, o amigo do peito.

Estas voltinhas de rio de planície nos foram trazendo, pouco a pouco, aos lugares-comuns em Machado de Assis. Já o gosto de ir desenvolvendo metáforas foi anotado por Eugênio Gomes que relacionou vários contos baseados nesse processo. Entre eles, o "Ideias de canário", o "Anel de Polícrates", a "Igreja do Diabo".

Homem de muito escrever, o lugar-comum é assíduo na prosa de Machado de Assis. Assíduo, mas enfeitado.

Explico. Está escrevendo a própria história de Pestana, que deu início a estas linhas. O homem deseja compor música séria, abrir mão das melodias fáceis… Desabafa: – "As polcas que vão para o inferno". O lugar-comum compareceu; substituí-lo é difícil e até perigoso; o jeito será disfarçá-lo, amarrar fitinhas, rosetas de papel de cor, revestir de crochê o tubo de lança-perfume, pregando-lhe asinhas de avião. Pois, "as polcas que vão para o inferno"? Acrescenta: "fazer dançar o diabo". É pouco ornamento? Continua: "Mas as polcas não quiseram ir tão fundo. Vinham à casa de Pestana, à própria sala dos retratos, irrompiam tão prontas, que ele não tinha mais que o tempo de as compor, imprimi-las depois, gostá-las alguns dias…".

Em essência, reformar ou adornar o clichê é recurso para tornar concreta a abstração que, pouco a pouco, invadiu a metáfora vazia, diluída pelo uso. Desse modo se evita a repetição. Repetir é o que cansa, em tudo, até na culinária. Os cozinheiros de trivial se sentem a caminho do forno e fogão, quando exercitam a fantasia, desfiando carne assada para improvisar a roupa-velha, acrescentando temperos no peixe sobrado para fazer o escabeche. É de supor que Machado, se ouvido, havia de mostrar que a técnica possuía antecedentes ilustres: Dom Quixote, com ser fidalgo, não desdenhava saborear os "duelos y quebrantos"…

Para seguir a ordem sugerida no esboço de classificação, comecemos pelos adjetivos satélites: "… o riso derramado pela boca fora, como um vinho generoso de pipa que se rompe" ("O lapso", Histórias sem data). O moço de "A parasita azul" (Histórias da meia-noite), quando chega: "Não abonava muito os seus sentimentos patrióticos o rosto com que entrou a barra da capital brasileira. Trazia-o fechado e merencório".

De predicado indissolúvel: Rufina, "bocejando o espírito, matando o tempo, uma hidra de cem cabeças que não morria nunca" ("Último capítulo", Histórias sem data). "Os minutos voavam como se fossem impérios" (Ibidem). "Deixou cair os olhos no chão. Não caíram no chão, mas nos sapatos. Mirou-os bem" ("Pobre Finoca", Contos fluminenses, II).

De perífrases: "… drogas várias que encheram a esta senhora a taça das paixões. Dona Paula esgotou-a inteira e emborcou-a depois, para não mais beber" ("Dona Paula", Várias histórias). "Margarida e ele […] beberiam ali, gota a gota, a taça da felicidade" ("Miss Dólar", Contos fluminenses, I).

Cumprida a obrigação de respeito à sistemática, eis-nos libertos para comentários sem rigidez, pois o próprio Machado de Assis não a tem no seu processo. Muitas vezes, brinca com as palavras: Matias Deodato de Castro e Melo vê um homem que passa contemplando os sapatos novos. Pergunta: — "A felicidade será um par de botas?" ("Último capítulo"). E desenvolve o tema por um longo parágrafo, até concluir: "Sim, a felicidade é um par de botas". Mendonça, desiludido dos homens, "achou de boa guerra adorar os cães" ("Miss Dólar"). Para explicar a estima recíproca de duas pessoas, esclarece: "Não se dizia de dois amigos: são unha e carne; dizia-se: Aires com Vergueiro" ("Aires com Vergueiro", Contos fluminenses, II). E Dona Paula tinha o costume de não ler às carreiras, como quem vai salvar o pai da forca, mas, devagar"… ("Dona Paula"). A senhora de Garcia, muito interessante, é quase verbo: "Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos" ("A causa secreta", Várias histórias).

Em outras muitas vezes, o que se nota é a fuga à forma cristalizada, entretanto reconhecível, sob o disfarce. "O bom velho não era homem que pudesse ver por entre as linhas desta lacrimosa epístola" ("A parasita azul") — "O amigo entrou a rir despregadamente" ("Miss Dólar"). O cansado remar contra a maré remoça: "É difícil subir a corrente, disse ele, mas sobe-se" ("Luís Soares", Contos fluminenses, I). O chover se desdobra: "Desabou um aguaceiro de motes e dichotes" ("Entre santos", Várias histórias). O encontro de olhos namorados se torna cerimonioso: "Os olhos de Joaninha enviesavam-se em direção de Queirós e os deste vinham esperá-los a meio caminho" ("O diplomático", Várias histórias).

E não para, aí, o aproveitamento do lugar-comum. Cristiana se inquieta: "O que ela temia é que a felicidade de Eulália se anuviasse" ("Casada e viúva", Contos fluminenses, II). Luísa, que perdera o marido, não guardava "um túmulo no coração, possuía um ninho, e um ninho vazio é a coisa mais triste deste mundo" ("Aires e Vergueiro", Contos fluminenses, II). O amor cheio de sustos entre Rita e Camilo acaba em costume: "Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos" ("A cartomante", Várias histórias).

Há variedade e fantasia nos enfeites: "Eles casaram-se e foram ver, do alto da Tijuca, a ascensão da lua de mel" ("Último capítulo"). "O Major voltou-se para Luís da Costa, cujos olhos, tendo já contado as tábuas do teto, que eram vinte e duas, começaram a examinar…" ("Quem conta um conto", Contos fluminenses, II). Dona Severina desconfia que é amada pelo adolescente: "Esta outra ideia não foi rejeitada, mas antes afagada e beijada" ("Uns braços", Várias histórias). O conselheiro tem ciúmes de Quintília: "Todo argueiro me parecia um cavaleiro e todo cavaleiro, o diabo" ("A Desejada das Gentes", Várias histórias). Deus se dirige a Satanás, aplicando o chavão, de modo literal: — "Que queres tu, meu pobre diabo?" ("A Igreja do Diabo", Histórias sem data).

Machado de Assis utilizou o recurso conscientemente e, entre as suas personagens, há críticas ao lugar-comum: O apaixonado de Quintília diz que, nele, a amizade era "a sentinela do amor; não podendo mais contê-lo, deixou que ele saísse. Quintília sorriu da metáfora, o que lhe doeu, e sem razão". Matias Deodato, o caipora, reconhece ter realizado um provérbio: Caiu de costas e quebrou o nariz. Quando Mendonça faz retórica sobre olhos verdes, tempestuosos como o oceano, Machado adverte: "Eu deixo ao critério do leitor esta singularidade de Mendonça que, de mais a mais, é preciosa, no sentido de Molière". E reforça a opinião, com um lugar-comum: "Mendonça era homem inteligente, instruído e dotado de bom senso […] tinha calcanhar o nosso Aquiles. Era homem como os outros; outros Aquiles andam por aí, que são, da cabeça aos pés, um imenso calcanhar. O ponto vulnerável de Mendonça era esse; o amor de uma frase era capaz de violentar-lhe afetos, sacrificava uma situação a um período arredondado". Se um tipo como o sedutor Meneses empola a frase, Machado de Assis não assume a autoria: "Estas palavras foram ditas em um tom sentimental, como que estudado para a ocasião". Se refere que Margarida escrevia o seu diário de impressões, ressalva: "À imitação de não sei quantas heroínas de romance".

Benedito, de "Evolução" (Relíquias de casa velha), idolatra o lugar-comum. "Podemos compará-lo a uma hospedaria bem afreguesada, aonde iam ter ideias de toda parte e de toda sorte, que se sentavam à mesa com a família da casa". Numa viagem de trem, a conversa recai sobre o progresso que trazem ferrovias. "Quem nunca viajou não sabe o valor que tem uma dessas banalidades graves e sólidas para dissipar o tédio do caminho".

O companheiro de viagem diz: – O Brasil é "uma criança que está engatinhando; só começará a andar, quando tiver muitas estradas de ferro". Benedito se extasia, a frase é "afagada e beijada", posta na vitrina das preciosidades; mais tarde, vai à Europa e aumenta a coleção, recolhendo, encantadamente, "anexins políticos e fórmulas parlamentares". Mais carinhosamente, se são inglesas. Encantou-se de tal maneira que permitia supor que não aceitaria a liberdade sem um grande aparato verbal. "Se tivesse de optar, optaria por essas formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas, que não forçam a reflexão, preenchem os vazios e deixam a gente em paz com Deus e os homens." Finalmente, preparando o discurso de estreia, ao entrar para a Câmara, adona-se da frase ouvida no trem: "Dizia eu a um amigo, em viagem pelo interior: O Brasil é uma criança"…

Chego ao fim destes apontamentos, meio adversário de Remy de Gourmont que mandou o lugar-comum para o inferno. Pois, se eles voltam, como as polcas do Pestana, o melhor é engravatá-los e oferecer-lhes um talher à mesa, com a família da casa.

Referências

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CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. Dom Quixote [recurso eletrônico]: volumes 1 e 2. 2. ed. Tradução de Almir de Andrade e Milton Amado. Edição ilustrada por Gustave Doré. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017. [ Links ]

CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de. O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha. Primeiro Livro. Tradução de Sérgio Molina; gravuras de Gustave Doré. São Paulo: Editora 34, 2002. [ Links ]

LEOPOLDO E SILVA, "A dimensão ética da palavra". Tempo Social: Revista de Sociologia da USP. São Paulo, v. 8, n. 2, 1996, p. 53-66. [ Links ]

PEREZ, Renard. M. Cavalcanti Proença. In: PEREZ, Renard. Escritores brasileiros contemporâneos, 2ª série. 20 biografias seguidas de antologia. Edição ilustrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964, p. 211-225. [ Links ]

PROENÇA, M. Cavalcanti. Duelos y quebrantos. Revista do Livro, Rio de Janeiro, ano 3, n. 11, p. 111-114, set. 1958. [ Links ]

1 ASSIS, "Um homem célebre", p. 423.

2 Idem, p. 421-2, grifos meus.

3 Cf. LEOPOLDO E SILVA, "A dimensão ética da palavra", p. 56.

4 Confira-se o primeiro parágrafo do capítulo I de O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha, de Cervantes: "Num lugarejo em La Mancha, cujo nome ora me escapa, não há muito que viveu um fidalgo desses com lança guardada, adarga antiga, rocim magro e cão bom caçador. Um cozido com mais vaca do que carneiro, salpicão no mais das noites, duelos y quebrantos aos sábados, lentilhas às sextas-feiras e algum pombinho por luxo aos domingos consumiam três quartos de sua renda". CERVANTES SAAVEDRA, O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha, p. 55.

5 Idem, nota 4, p. 61. Confira-se também a nota 1 de CERVANTES SAAVEDRA, Dom Quixote [recurso eletrônico]. Tradução de Almir de Andrade e Milton Amado.

6 PEREZ, Renard. M. Cavalcanti Proença, p. 217.

Referências

ASSIS, Machado de. Obras completas. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1944.

GOMES, Eugênio. Prata de casa (Ensaios de literatura brasileira). Rio de Janeiro: Editora A Noite, s.d.

GOURMONT, Remy de. Esthétique de la langue française. 8 ed. Paris: Mercure de France, s.d.

SABINO, Fernando. Lugares comuns. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, Serviço de Documentação, 1952. Coleção Os Cadernos de Cultura.

APRESENTAÇÃO DE IEDA LEBENSZTAYN

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