SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.10 número22"DUELOS Y QUEBRANTOS" Ensaio originalmente publicado na Revista do Livro, em setembro de 1958CATÓLICOS INTEGRAIS, CÉTICO ABSOLUTO: DUAS LEITURAS DE MACHADO índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

Compartilhar


Machado de Assis em Linha

versão On-line ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.10 no.22 São Paulo dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201710222 

ARTIGOS

PROGÊNIE EM MACHADO. ALGUMAS QUESTÕES EM MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS E EM ESAÚ E JACÓ

PROGENY IN MACHADO. SOME OBSERVATIONS ABOUT THE POSTHUMOUS MEMOIRS OF BRÁS CUBAS AND ESAU AND JACOB

ÉLIDE VALARINI OLIVER1 

1University of California. Santa Barbara, Califórnia, Estados Unidos

Resumo

Este artigo busca tornar aparentes correntes subterrâneas que formam uma rede consistente de perspectivas teológicas, filosóficas e biológicas, que constantemente reaparecem nos romances e contos de Machado de Assis. Tal rede envolve temas persistentes tais como o da predestinação, o utilitarismo, o gnosticismo, a teoria da evolução e o assim chamado darwinismo social spenceriano. Tais temas estão tão intimamente ligados ao humanitismo que vale a pena perguntar se não seria a filosofia borbiana digna de um exame mais sério.

Palavras-Chave: Progênie; predestinação; Darwin; utilitarismo; gnosticismo

Abstract

This article calls attention to the undercurrents of a close knit web of theological, philosophical, and biological hypotheses appearing in the novels and short stories of Machado de Assis. This web, once made apparent, is consistently displayed throughout the author's works, and blends seamlessly with major targets of the author's irony: Humanitism, Predestination, Utilitarianism, Gnosticism, among others. It is worth asking, when such themes are deeply woven, whether Quincas Borba's Humanitism deserves to be taken more seriously.

Key words: Progeny; predestination; Darwin; utilitarianism; gnosticism

Brás Cubas no capítulo LXXV de suas Memórias, intitulado "Comigo", insiste: "podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capítulo anterior, observo que é preciso lê-lo para entender o que eu disse comigo, logo depois que D. Plácida saiu da sala".1 Mas a reflexão de Brás consigo mesmo mescla-se à história de D. Plácida:

Era filha natural de um sacristão da Sé e de uma mulher que fazia doces para fora. Perdeu o pai aos dez anos. Já então ralava coco e fazia não sei que outros trabalhos de doceira, compatíveis com a idade. Aos quinze ou dezesseis casou com um alfaiate, que morreu tísico algum tempo depois, deixando-lhe uma filha.2

D. Plácida acaba por ter que sustentar a mãe, a filha e a si mesma. A filha, ao crescer, foge com um sujeito. Prossegue sua história, D. Plácida dizendo: "Olhe os meus dedos, olhe estas mãos… E mostrou-me as mãos grossas e gretadas, as pontas dos dedos picadas da agulha. – Não se cria isto à toa, meu senhor […] Felizmente, Iaiá me protegeu, e o senhor doutor também… Eu tinha um medo de acabar na rua, pedindo esmola…".3

Brás, então, no capítulo seguinte, faz esta reflexão:

“Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando à missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de D. Plácida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou D. Plácida. É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse, podia dizer aos autores de seus dias: – Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: – Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.”4

Como já observei anteriormente, em livro,5 o episódio de D. Plácida está intimamente ligado ao diálogo entre Pandora e Brás, e à filosofia humanitista de Quincas Borba, percorrendo as Memórias como o chassis de algodão e franjas –para usarmos uma metáfora diabolicamente machadiana, que enforma e compõe a tessitura de seda da obra. A reflexão posterior de Brás, no capítulo seguinte, "O estrume" (LXXVI), enfatiza o problema de consciência de Brás: corruptor da probidade de D. Plácida, mas agora apaziguada, pelo fato de ter a ela propiciado uma velhice ao abrigo da mendicidade. Sabemos também que, ao reaparecer mais tarde no livro – mais um dos irônicos reaparecimentos que são parte constitutiva das Memórias póstumas de Brás Cubas –, Plácida, depois de ter sido roubada dos cinco contos de réis que Brás lhe havia dado – dinheiro esse que ele achara na praia de Botafogo e não devolvera –, por um namorado que lhe prometera casamento, terminará mesmo seus dias na pobreza. Brás a encontra numa casa no Beco das Escadinhas:

[…] achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fi-la transportar para a Misericórdia, onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida às escondidas, tal qual entrara. Outra vez perguntei, a mim mesmo, como no capítulo LXXV, se era para isto que o sacristão da Sé e a doceira trouxeram D. Plácida à luz, num momento de simpatia específica. Mas adverti logo que, se não fosse D. Plácida, talvez os meus amores com Virgília tivessem sido interrompidos, ou imediatamente quebrados, em plena efervescência; tal foi, portanto, a utilidade da vida de D. Plácida. Utilidade relativa, convenho; mas que diacho há absoluto nesse mundo?6

O espetáculo da Humanidade visto do alto da visão de Brás, propiciada por Pandora, mãe e inimiga, é angustiante: "Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa é divertida, mas digere-me".7 No capítulo final, sabemos que o único saldo positivo de um rescaldo de negativas é que Brás não teve filhos. "Não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".8

Frente a esse coro, a idealização que faz Brás do filho que Virgília espera e perde parece dissonante, ao menos à primeira vista:

Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preocupação exclusiva daquele tempo. […] nada me interessava por então, nem conflitos políticos, nem revoluções, nem terremotos, nem nada. Eu só pensava naquele embrião anônimo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia: é teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa voluptuosidade indefinível, e não sei que assomos de orgulho. Sentia-me homem.9

Mas, diante de todo esse zelo paterno, Brás compara sua conversa com o embrião ao diálogo de Adão e Caim, que é aliás o nome do capítulo. Este termina com a seguinte observação: "A verdade é que estava em diálogo com o embrião; era o velho colóquio de Adão e Caim, uma conversa sem palavras entre a vida e a vida, o mistério e o mistério".10

Entretanto, o capítulo seguinte indica uma ironia que sufoca e solapa o discurso de Brás. Ela vem de uma carta de Quincas Borba em que o leitor tem o primeiro vislumbre da filosofia humanitista: "um novo sistema de filosofia, que não só explica e descreve a origem e a consumação das cousas […]".11 Ora, essa nova perspectiva humanitista elimina, como se sabe, a individualidade da pessoa. O ser individual é mero veículo para que Humanitas continue a existir. Nascer e morrer não são atos individuais, mas apenas requerimentos necessários para que Humanitas nasça e renasça enquanto Humanitas.

E não esqueçamos que, depois do diálogo entre Adão e Eva que inaugura o relacionamento amoroso entre Brás e Virgília, segue-se o diálogo entre Adão e Caim, o primogênito, o cultivador do grão, e que matará seu irmão Abel, o pastor.

A "Causa secreta" – título do capítulo XCIV e também do famoso conto12 – propõe o cuidado paternal e idealizado de Brás, que vê agora Virgília como "uma pessoa sagrada, uma âmbula divina", esta não apenas tem "medo do parto e do vexame da gravidez", mas "padecera muito quando lhe nasceu o primeiro filho; e essa hora, feita de minutos de vida e minutos de morte, dava-lhe já imaginariamente os calafrios do patíbulo".13 Virgília também não quer privar-se de sua vida social. O leitor esperto deve recusar-se a ver aí algum sociologismo de gênero. Machado é sempre muito mais interessante do que qualquer modismo literário, sociológico, científico etc.. O que o episódio marca, e Virgília simboliza, é a revolta (até no sentido satânico que lhe dá Milton) da consciência contra a cega biologia, o reproduzir por reproduzir.14

Não é o filho de Brás e Virgília também fruto de uma relação natural como D. Plácida? Não o é também produto de uma conjunção de luxúrias vadias? Interessantemente, Brás, em sua constante labuta em mostrar-se pior do que realmente é, aqui vela pela reprodução do ser humano, ainda que encoberta por sua vaidade de ser pai. Mas é Virgília que, também em sua vaidade, acaba simbolizando a rebeldia contra o cego mandato de Pandora, a reprodução da espécie pura e simplesmente.

Sabemos que, para Pandora, é a espécie, na linguagem de Quincas Borba, o Humanitas, que prepondera. Os indivíduos são apenas veículos para que essa representação da espécie possa continuar existindo. O destino individual nada interessa. Plácida pode ser trazida à luz num momento de simpatia pelas luxúrias vadias, mas se Plácida queima os dedos com os doces ou os pica com as agulhas e morre em molambos, à Pandora e a Humanitas isso nada interessa.

A quem interessa, então? Temos que enfatizar a hipótese fundamental em Memórias póstumas de Brás Cubas: toda a reflexão se faz sob o signo de um defunto autor, verdadeiro autor do livro. Dentro desse paradigma, a perspectiva oferecida é a de uma visada que se dá além da vida e, dali, volta-se para analisá-la. Somente quem chegou ao fim pode voltar e refazer o caminho. Pandora é o fim e é o começo. A filosofia de Quincas Borba é uma paródia impotente dessa lei da natureza. Por isso a coerência da personagem de Quincas. Na impossibilidade humana da Compreensão Total e Absoluta do Universo e de Si Mesmo, o filósofo enlouquece. Mas não há dúvida, em Memórias póstumas de Brás Cubas, de que a chave na mão de Pandora é de inspiração biológica. E biológica já incorporando os pressupostos avançados por Darwin – e que talvez Machado não distinguisse dos de Spencer.15 Como contraexemplo, para tornarmos isso claro, citamos um livro que também trata de progênie e que Machado apreciava: The Life and Opinions of Tristram Shandy. Ali, Laurence Sterne enumera toda uma série de técnicas obstétricas modernas, comenta e ironiza a filosofia mecanicista, usa como pano de fundo a cosmovisão do Deus Relojoeiro, e une sem costuras aparentes Leibniz, Newton, Descartes, La Mettrie, Locke e Hume. O universo filosófico e científico do século XVIII se apresenta na obra, junto e em contraste com as esperanças idealizadas de Walter Shandy, que assim "concebe" o filho ideal primeiro em sua mente, para desapontar-se com o filho real que lhe nasce: nariz quebrado, nome errado etc..16

Quando comparamos Memórias póstumas de Brás Cubas com Esaú e Jacó, para examinarmos um outro contexto ainda, fica ainda mais claro que ali Machado enfrenta um paradigma igualmente profundo, mas diferente.

As circunstâncias de autoria são igualmente complexas. Ambas as obras são a progênie de seus autores. Nem Brás nem Aires tiveram filhos biológicos. Ao morrer, Aires deixa suas Memórias, mas deixa também "esta outra história, escrita com um pensamento interior e único, através das páginas diversas. Nesse caso, era a vaidade do homem que falava, mas a vaidade não fazia parte dos seus defeitos".17 Alguma dessemelhança semelhante com Brás. A razão da publicação da narrativa foi, então, como se lê na "Advertência", a inteireza da narrativa. Cogitou-se chamar-lhe (este "editor" da "Advertência") Ab Ovo,18 mas, como o próprio Aires citou os nomes bíblicos, preferiu-se assim chamar o livro.

As descrições quanto à gravidez de Virgília e Natividade são semelhantes no que toca à ambiguidade de ambas com relação a esse estado e às restrições sociais às quais (sobretudo no século XIX) estariam expostas. Já citamos a situação de Virgília acima, agora escutemos Natividade no capítulo VI, intitulado "Maternidade". A personagem está irritada, reclama que a igreja estava cheia de pulgas, silencia, mas enquanto a sege cavalga, confessa ao marido que está grávida. Tem trinta anos.

Nos primeiros dias, os sintomas desconcertaram a nossa amiga. É duro dizê-lo, mas é verdade. Lá se iam bailes e festas, lá ia a liberdade e a folga. […]

No meio disso, a que vinha agora uma criança deformá-la por meses, obrigá-la a recolher-se, pedir-lhe as noites, adoecer dos dentes e o resto? Tal foi a primeira sensação da mãe, e o primeiro ímpeto foi esmagar o gérmen. Criou raiva ao marido. A segunda sensação foi melhor. A maternidade, chegando ao meio-dia, era como uma aurora nova e fresca.19

Mas, a despeito das aparências, as diferenças são cruciais. Natividade é um nome bastante apropriado, um conceito que, no livro, funciona como um vórtex. Natividade convida o leitor a uma associação diferente de maternidade. Difere também de Conceição (em "Missa do galo"), e também da luta eliminatória de "Pai contra mãe". O ato de nascimento acaba fixado permanentemente nessa possibilidade cheia de promessas. O termo evoca ao mesmo tempo o acontecimento biológico e a cena natal simbólica, teológica. O presépio em inglês conserva este sentido intacto. Chama-se Nativity Scene. O nome do pai é igualmente sugestivo: Agostinho Santos. Santo Agostinho, que, de partidário do maniqueísmo, posteriormente elabora a doutrina da graça e do pecado original, gerando assim a controversa doutrina da predestinação.

Esaú e Jacó praticamente se abre com Natividade e Perpétua, depois do nascimento dos gêmeos, indo ao morro do Castelo visitar a cabocla, apropriadamente chamada Bárbara.20 É extraordinário que o mundo ao revés apresentado a nós em Memórias póstumas de Brás Cubas – as memórias de um defunto – nos pareça, comparado com Esaú e Jacó, mais cientificamente "natural". O sobrenatural e o sobredeterminado, o inexplicável nos incomoda. Não temos sequer Pandora, nossa mãe e inimiga, que nos "console" lembrando-nos que nossa aniquilação individual a ela nada importa, visto que outro indivíduo jovem e vigoroso nos substituirá na longa cadeia da vida, e assim por diante – Pandora é, afinal, a transposição personificada da reprodução da espécie, e enquanto tal, tem sua lógica e sua justiça e equidade no sentido de que não há privilegiados ou danados. O sistema biológico, portanto, acaba fornecendo uma ética de igualdade – bem diferente do darwinismo social proposto por Spencer e repudiado por Darwin. Essa ética, por assim dizer, não determina, no indivíduo, o que ele pode fazer com sua vida. É o que chamo uma ética da neutralidade. Diante da natureza, estamos zerados. Com a carga da espécie em cada indivíduo, cabe a ele, e somente a ele, desenvolver-se a partir da biologia e tornar-se um ser humano em seu pleno desenvolvimento.21

Mas frente a esta situação, em geral a teologia busca criticar essa neutralidade biológica, essa igualdade vazia, por assim dizer, apontando que, sem motivação ou finalidade, o ser humano não pode constituir-se em pessoa. Teria o indivíduo motivo ou causa para desenvolver-se? Quando Brás põe na boca de Plácida ao nascer a pergunta fundamental quanto à responsabilidade (ou falta de) paterna e materna, indica uma finalidade. Plácida não pergunta "por que" me chamastes, mas "para quê".22 A isso podemos contrapor que as proposições de finalidade, sejam éticas ou ético-religiosas, podem encobrir um limitante utilitarismo. Onde está determinada a deontologia do para que finalidade nasce um ser humano?

A noção de acaso trazida pela Teoria Evolucionária23 foi o que realmente incomodou os religiosos. Se não há um criador, e a vida se cria, se transforma, ou se extingue segundo mutações favoráveis ou desfavoráveis, adaptação ou desadaptação que ocorre ao acaso, na potencialidade aleatória que se dá entre espécie e ambiente, então, não pode haver um freio ao mal, nem uma compensação futura aos bons. Fica-se sem a causa primeira e sem a finalidade última. É esse o núcleo duro do delírio de Brás – ainda mais irônico, pois é no delírio que essa plena consciência ocorre.

Não há um para quê e nem um por quê. Em Memórias póstumas de Brás Cubas e Esaú e Jacó, Machado, de duas maneiras diferentes e complementares, reflete sobre tais temas.

Em Esaú e Jacó, a aposta está no inexplicado e inexplicável. Na inimizade suprema, desde a concepção, entre os dois irmãos Pedro e Paulo. Todas as explicações falham. A despeito da religiosidade de Perpétua que "quando rez[ou] estes dous nomes, senti[u] uma cousa no coração",24 do Espiritismo, da Numerologia, dos trechos cuidadosamente selecionados, que incluem o que se quer e excluem o que não se presta à explicação que se quer obter, como, por exemplo, a ilustração selecionada da inimizade entre São Paulo e São Pedro. Bárbara, vidente, pode detectar o problema, como um fato, mas também não pode explicá-lo. "Todos os oráculos têm o falar dobrado, mas entendem-se."25

Em sua conversa secreta com Plácido (e não Plácida), Agostinho busca dele explicações. Plácido lhe diz que "os nomes podem ter sido predestinados, tanto mais que a escolha dos nomes veio, como o senhor me disse, por inspiração à tia dos meninos".26 Agostinho encontra na Epístola de São Paulo aos Gálatas que São Pedro havia resistido a São Paulo "na cara", e interpreta o capítulo (II) e o versículo 11 como uma indicação do "próprio número dos irmãos gêmeos".27

A transferência do inexplicável do livro para Flora, numa mise en abyme sutil, demonstra a situação de rixa dos gêmeos vista do lado de cá do mundo, isto é, no mundo sublunar, material e humano, onde vemos tudo mal, de forma escura como através de espelho não nítido, para repetir São Paulo, ou compreendemos tudo imperfeitamente, como na alegoria da caverna de Platão.28 Não é que os gêmeos não possam dar-se mal. É que, pelo visto, isto foi predestinado, e pôde ser visto, talvez através de um espelho mais nítido, pela sibila do morro do Castelo. É ela quem medeia entre os dois mundos. O espiritismo de Plácido busca essa comunicação, através também dos médiuns. Flora, portanto, não pode explicar. Flora reflete a inexplicabilidade da situação e reage a ela buscando uma completude, que vai acontecer na fusão dos dois em uma só imago – aqui no sentido platônico. Flora é a única que consegue conceber a unidade complementar primeira desse ser que se dividiu ao encarnar-se. No mundo platônico, gnóstico, Aquiles e Ulisses são dois opostos complementares. Num momento em que Aires a observa, etérea e distraída, Flora diz: "toda alma livre é imperatriz".29

Porém, como Flora é inexplicável, no mundo do lado de cá, a fusão do ser primordial, a complementariedade dos dois irmãos em um, que no mundo de lá existe, e que ela intui, mas não consegue compreender, é vista como alucinação e confusão: "Afinal, a imaginação fez dos dous moços uma pessoa única".30 "Era um espetáculo misterioso, vago, obscuro, em que as figuras visíveis se faziam impalpáveis, o dobrado ficava único, o único desdobrado, uma fusão, uma confusão, uma difusão…".31 O desenho de Flora, que une os dois irmãos em um, é secreto, e, quando Aires o vê, discretamente o pica em pedacinhos. Assim, a imagem do Uno se fragmenta não apenas em dois mas em muitos pedaços divididos. Flora não se liberta desse elo que a une a esse outro mundo ideal, e morre. Flora morre com a janela aberta, encarando a luz (Pleroma) e suas últimas palavras são: "ambos quais?".32

A epígrafe do livro – que, entretanto, não aparece como tal – vem no fim do capítulo XII, que apresenta em terceira pessoa o autor do livro, Aires. Ali, citando Dante, o conselheiro escreve: "Dico, che quando l’anima mal nata…", e em seguida escreve no capítulo XIII, "A epígrafe": "Ora, aí está justamente a epígrafe do livro, se eu lhe quisesse pôr alguma".33 Mais importante ainda é a justificativa que apresenta a seguir: "Não é somente um meio de completar as pessoas da narração com as ideias que deixarem, mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou totalmente escuro". Em seguida, compara seu texto com uma interação entre autor e leitor jogando xadrez, para concluir: "Fora com diagramas! Tudo irá como se realmente visses jogar a partida entre pessoa e pessoa, ou mais claramente, entre Deus e o Diabo".34

Ora, as pistas que dá Machado aqui levam a caminhos interessantíssimos. Primeiro a citação de Dante, que traz à baila a noção das almas malnascidas.35 O problema do pecado original, como se sabe, dividirá o cristianismo. Com ele, a questão da predestinação e do livre-arbítrio, a partir de Pelágio, Irineu e Agostinho na Idade Média, e da querela entre puritanismo e catolicismo a partir do século XVI e o adensamento da questão entre jansenistas e jesuítas no século XVIII indicam uma história cheia de enfrentamentos.36 O jogo de xadrez entre Deus e o Diabo – inclusive com ambos escritos em maiúsculas, sugere uma igualdade de forças, outro grande problema teológico: a questão do Mal. Se Deus é bom e justo, como pode permitir o mal? Ou Deus o permite, ou não tem jurisdição sobre ele e as duas forças combatem-se, como propõe o maniqueísmo, doutrina cara a Agostinho, durante sua juventude.

Mas a estória de Esaú e Jacó, tal como o solidéu de Bárbara, vem da Torah, do assim chamado Antigo Testamento, e trata de direitos de nascimento e primogenitura. Em Gênesis, lê-se que Isaac e Rebeca preferiam diferentes filhos, Isaac protegia Esaú e Rebeca, Jacó. Desde a concepção, assim como Natividade, Rebeca sentia a luta dos irmãos em seu ventre. Deus, em vez de Bárbara, lhe diz que dentro dela havia duas nações e que um povo seria mais forte que o outro e que o velho deveria servir ao novo (Gênesis, 25:22-23). No momento do nascimento, Jacó parece segurar o calcanhar de Esaú, como se quisesse empurrá-lo de volta para o útero da mãe para ser o primeiro a nascer. Esaú é também enganado por Jacó, a passar-lhe seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas. Mas, a despeito das desventuras, há uma reconciliação entre os irmãos.

Aires, sabendo que não pode explicar o inexplicável, pondera com Santos:

Esaú e Jacó brigaram no seio materno, isso é verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado que briguem também, tudo está em saber a causa do conflito, e não a sabendo, porque a Providência a esconde da notícia humana… Se fosse uma causa espiritual, por exemplo…37

E desconversa, porque não pode saber o que a Providência esconde. Nesse contexto, vale a pena explorar o tema da paixão que têm os dois por Flora. Mesmo que haja paixão, ela acaba sendo subsumida pelo conflito entre os dois irmãos. Trágico, porque tal paixão é verdadeira em ambos, mas irresolvível. Não se pode perder a ironia machadiana aqui, que, diferentemente do Gênesis, não termina sua estória com final feliz. Assim como Brás nota que a diferença entre suas Memórias e o Pentateuco era que as tinha começado pelo fim, sendo assim diferente de Moisés,38 também a narrativa de Esaú e Jacó, no mundo ficcional de Machado, se apresenta competitivamente diferente. Flora, sem poder reunir as duas almas em uma, morre. Natividade morre com a promessa de harmonia entre os filhos. Por algum tempo, de Esaú e Jacó, Pedro e Paulo passam, a quem os vê, a Castor e Pólux, os gêmeos inseparáveis da mitologia grega, mas a rivalidade retorna. "Aires […] não quis repetir que eles eram os mesmos, desde o útero. Preferiu aceitar a hipótese [de que brigavam pela herança], para evitar debate, e saiu apalpando a botoeira, onde viçava a mesma flor eterna."39

Mas a questão levantada permanece. O para que finalidade de Plácida se dissolve em Esaú e Jacó diante de um mundo onde Pandora ou a natureza, ou a Providência, não se mostram. Estamos praticamente diante do deus absconsus, o divino arquiteto que, depois de conceber e construir o mundo, afasta-se dele. Não é Flora a inexplicável, mas nossas perguntas. Se os irmãos foram predestinados à rixa, como poderiam, pela simples vontade, superá-la?

Talvez fosse mesmo apropriado enfatizar que isto também se passa com a concepção mesma do livro. Afinal, Aires é o autor ausente de toda a trama, mas ao aparecer, no mundo interior a essa, o mundo real onde vive, não pode oferecer resposta ou explicação. No gnosticismo, a alma, quando reencarna, esquece-se de tudo e, se quiser galgar os degraus até a luz, o Pleroma, deve procurar iluminar-se através do conhecimento (Sofia). Buscando explicações, Agostinho Santos, na conversa com Plácido, chega mesmo a achar que seus filhos pudessem ser a reencarnação dos apóstolos: "A fé transfigura; Santos tinha um ar quase divino […]. Pai de apóstolos! e que apóstolos!".40 Plácido lembra a ele que "os espíritos de S. Pedro e S. Paulo tinham chegado à perfeição; não tornariam cá". Ao sair, Santos, entretanto, ainda se convence de que "a rixa dos meninos, fato raro ou único, era uma distinção divina".41 Mas, ao longo do livro, fica claro que os irmãos se opõem por princípios universais e não por situações tópicas. O monarquismo de um e o republicanismo de outro são escolhas predeterminadas. Aires observa que "a razão [da rixa] parece-me ser que o espírito de inquietação reside em Paulo, e o da conservação em Pedro. […] Em suma, não lhes importam formas de governo, contanto que a sociedade fique firme ou se atire para diante".42

É interessante comparar a situação ficcional desses gêmeos com estudos científicos. O interesse vem da Antiguidade, aliás, com Hipócrates. Posidônio atribuía a semelhança aos astros. Estudos científicos atuais tendem a medir o componente genético e ambiental tanto em gêmeos monozigóticos como dizigóticos. Alguns estudos apontam a preponderância do fator genético em gêmeos criados separadamente, com afinidades surpreendentes com relação a modo de vida, hábitos, gostos etc.,43 indicando o contrário da situação analisada por Machado.

A questão da progênie, então, nessas duas obras de Machado, como se viu neste breve esboço, nos impõe algumas reflexões que, articuladas pela literatura, e pelo prisma machadiano, adquirem um recorte que une ideia e palavra, reflexão e ironia, e, assim reinventadas, geram, em nós, leitores, assombro pela profundidade e sutileza com que Machado tratou desses temas. Na hipótese pandoriana-humanitista – a natureza apenas se interessa pela reprodução da espécie, valendo a vida individual apenas como veículo dessa finalidade. Se, entretanto, a espécie por algum acaso deixa de existir, Pandora preenche o vácuo gerando outra. A progênie, então, é preenchimento da continuidade da vida. Para os que possam reclamar contra esse "pessimismo" ateu (crítica frequente e inconsequente, aliás), Machado, provocadoramente, propõe um outro paradigma igualmente incômodo: pode haver um deus, mas, nesse caso, há que considerar a possibilidade de que entre outras coisas ele possa também predestinar a vida individual de suas criaturas, preferindo umas e preterindo outras. Consequentemente sobredeterminando-lhes o destino – a despeito da tentativa de Santo Agostinho de conciliar esta posição com o livre-arbítrio. Se rotularmos as duas posições como "pessimistas", perdemos a ironia. E perdemos também uma outra reflexão sutil por parte de Machado, e que diz respeito à responsabilidade individual, às ações, pensamentos e comportamentos individuais. Sob esse prisma temos que encarar o sacristão e a sacristã que em suas luxúrias vadias, num momento de simpatia, chamaram a Plácida para este mundo; Brás e Virgília numa união adúltera concebendo um filho; o filho de Cândido Neves e Clara (pensemos nestes nomes!) em "Pai contra mãe" que, destinado à roda dos enjeitados por não terem como alimentá-lo e criá-lo, acaba, num lance do acaso, graças à captura e ao consequente aborto da escrava Arminda, permanecendo com os pais; a crise desencadeada por Ezequiel em Dom Casmurro. Tais tramas, boas tramas literárias, sem dúvida, também revelam hipóteses, e comentam, ao exporem suas consequências, as posições, escolhas, comportamentos e ações de indivíduos, quer delas se responsabilizem ou não.

Em tudo isso, vale comentar, à guisa de conclusão, uma associação interessante: Conceição, em "Missa do galo", nos aparece quase como uma figura ausente, um fantasma, uma "visão romântica"44 em seu peignoir branco e chinelos negros. Mas faz nascer em Nogueira, como apropriadamente nos lembra seu nome, uma atração da qual este jamais se esquecerá. Como ele mesmo observa, Conceição também, ao lhe morrer o infiel marido, casar-se-á com o escrevente do finado. O conto acaba aí. Conceição não é Natividade. Mas diante da perplexidade do inexplicável, vale lembrar que, como Zeus, cuja cabeça concebeu Atena – depois de ter engolido a Mnemósine (Memória) –, também a teia de tramas, concebida por Machado, tece a sorte de suas personagens, a geração da ação e suas consequências dentro do mundo ficcional. Mas esta mimesis está intimamente ligada a ordens nocionais que vão além do mero realismo e exigem uma hermenêutica da anagogia– aqui, no sentido de uma visada última, coesa e em perspectiva, que envolve a totalidade da obra do escritor – para dar conta dos dilemas éticos, biológicos, filosóficos e teológicos que não podemos facilmente penetrar.

Referências

ALIGHIERI, Dante. Inferno. La Divina Commedia. Milão: Mondadori, 2005. [ Links ]

ASSIS, Machado de. A causa secreta. Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, vol. II. [ Links ]

ASSIS, Machado de. A Chapter of Hats and other stories. Translated by John Gledson. London: Bloomsbury, 2008. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Epitaph of a Small Winner. Translated by William Grossman. New York: Farrar, Strausand Giroux, [1952]. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, vol. I. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, vol. I. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Missa do galo. Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, vol. II. [ Links ]

ASSIS, Machado de. Pai contra mãe. Obras completas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006, vol. II. [ Links ]

ASSIS, Machado de. The Posthumous Memoirs of Brás Cubas. Translated by Gregory Rabassa. Oxford Press, 1996. [ Links ]

CHADWIK, Henry. The Early Church. In: The Penguin History of the Church. Londres: Penguin, 1967, vol. I. [ Links ]

CHADWIK, Owen. The Reformation. In: The Penguin History of the Church. Londres: Penguin, 1964, vol. III. [ Links ]

GLEDSON, John. A Chapter of Hats and Other Stories. Londres: Bloomsbury, 2008. [ Links ]

OLIVER, Élide Valarini. Variações sob a mesma luz. Machado de Assis repensado. São Paulo: Nankin/Edusp, 2012. [ Links ]

PAULO, Coríntios. Bíblia católica on-line. Disponível em http://www.pr.gonet.biz/biblia.phpLinks ]

PLATO, Republic. Livro VII. Cambridge: Harvard, Loeb Classical Library, 1935. [ Links ]

STEPHANSON, Raymond. Tristram Shandy and the Art of Conception. In: The Life and Opinions of Tristram Shandy. Ed. Ian Watt. Cambridge: Riverside, 1965. [ Links ]

STERNE, Laurence. The Life and Opinions of Tristram Shandy. Ed. Ian Watt. Cambridge: Riverside, 1965. [ Links ]

TERRALL, Mary. Material Impressions: Conception, Sensibility and Inheritance. In: Vital Matters. Eighteenth Century Views of Conception, Life and Death. Ed. Helen Deutsch e Mary Terrall. Toronto: Toronto University Press, 2012. [ Links ]

TWIN Research and Human Genetics, http://journals.cambridge.org./action/displayJournal?jid=THG. [ Links ]

1 ASSIS, Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 586.

2 Idem, p. 585.

3 Idem, p. 586.

4 Ibidem.

5 OLIVER, Variações sob a mesma luz. Machado de Assis repensado, 2012.

6ASSIS, cit., p. 631.

7 Idem, p. 523.

8 Idem, p. 639.

9 Idem, p. 598.

10 Idem, p. 599.

11 Ibidem, grifo nosso.

12 John Gledson relata na Introdução ao seu livro de traduções de contos de Machado, A Chapter of Hats and other stories (London, Bloomsbury, 2008), que a BBC, em um de seus programas de rádio que normalmente promove a leitura de obras literárias, mostrou-se relutante em divulgar o referido conto, temendo reações de ouvintes. (V. p. 13).

13 ASSIS, cit., p. 601.

14 A ironia no episódio alcança também Brás, em sua idealização tola da figura maternal. Há, neste e em outros episódios similares na obra de Machado, uma crítica constante e incisiva à recepção de ideias feitas e lugares-comuns relativos a símbolos e papéis sociais (mãe, pai, filhos), bem como às instituições por eles sustentadas.

15 Quanto a esse difícil problema, ver: OLIVER, cit., capítulo 3: "Meros fantoches no drama da harmonia universal".

16 STERNE,The Life and Opinions of Tristram Shandy, 1965. Ver também: STEPHANSON, Tristram Shandy and the Art of Conception; e TERRALL, Material Impressions: Conception, Sensibility and Inheritance.

17 ASSIS, Esaú e Jacó, p. 946.

18 Tristram também se propõe a contar a história de sua concepção e nascimento ab ovo.

19 ASSIS, Esaú e Jacó, p. 956.

20 A sibila e vidente usualmente pertence a um mundo "entre dois mundos", entre o mundo natural e o sobrenatural. Aqui também a referência bíblica é reforçada por Machado, que escreve que "os cabelos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita enxovalhada, faziam-lhe um solidéu natural, cuja borla era suprida por um raminho de arruda." ASSIS, Esaú e Jacó, p. 948.

21 Um breve exemplo em Dom Casmurro nos lembra o desencadear do drama entre Bentinho e Capitu a partir da semelhança entre Ezequiel e Escobar. Em particular, a cena do falhado envenenamento. Teria Bento Santiago, ali, se tornado mais humano? Ou teria finalmente se lembrado do quão humano já era? Não lhe foi necessária a fé religiosa para tomar tal decisão.

22 Diferenças importantes como esta (e muitas outras, infelizmente) desapareceram completamente das duas traduções para o inglês desta obra. Tanto a edição da Oxford Press, The Posthumous Memoirs of Brás Cubas, feita por Gregory Rabassa, quanto a edição americana (Farrar, Strausand Giroux) bizarramente intitulada Epitaph of a Small Winner, feita por William L. Grossman, confundem causa com finalidade. Em ambas, D. Plácida pergunta aos autores de seus dias por quê em vez de para quê. Muito interessante essa observação; na disciplina religiosa do Grossman (não sei do Rabassa) devia ser absurdo não ter um porquê.

23 Prefiro o termo evolucionária. Os sufixos ismo e ista denotam ideologia, interpretação, partidarismo. No caso específico dessa teoria, atacada pelo fundamentalismo e fanatismo religiosos, cabe, ainda mais, ressaltar as diferenças. A teoria evolucionária consiste numa robusta acumulação paulatina e comprovada de fatos substanciados.

24 ASSIS, Esaú e Jacó, p. 959.

25 Idem, p. 950. A notar a ironia com que Machado trata a explicação simbólica de Santos. Este, buscando justificar a rixa, veicula, com seu arranjo ad hoc e a posteriori, uma ironia que desestabiliza não apenas sua tentativa de explicação, mas toda e qualquer tentativa de qualquer sistema simbólico ou doutrina que busca justificar-se através de estratagemas semelhantes.

26 Idem, p. 968.

27 Ibidem.

28 Paulo, Coríntios, 13:12. Platão, República (514-520).

29 ASSIS, Esaú e Jacó, p. 1009.

30 Idem, p. 1048.

31 Idem, p. 1049.

32 Idem, p. 1079.

33 Idem, p. 966.

34 Ibidem.

35 ALIGHIERI, Inferno, V: "Dico che quando l’anima mal nata/li vien dinanzi, tutta si confessa;/ e quel conoscitor de le peccata" etc. Dante está no segundo círculo do Inferno, o da luxúria, e Minos é o juiz que condena as almas.

36 Apoio-me aqui principalmente em: Henry Chadwik, The Early Church, 1967. Também em: Owen Chadwik, The Reformation, 1964.

37 ASSIS, Esaú e Jacó, p. 967.

38 "Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco." (ASSIS, Memórias póstumas de Brás Cubas, p. 513).

39 ASSIS, Esaú e Jacó, p. 1093.

40 Idem, p. 969.

41 Ibidem.

42 Idem, p. 1086.

43 Destaca-se, nesse campo, o periódico Twin Research and Human Genetics, publicação da International Society for Twin Studies. O estudo genético em questão foi feito por Thomas Bouchard e equipe, entre 1979 e 1999, analisando 81 pares de gêmeos idênticos e 56 pares de gêmeos fraternos, e gerou mais de 170 estudos individuais. Em alguns desses estudos, fica demonstrado que gêmeos, sobretudo os tipos assim chamados "em espelho", com cem por cento de similaridade genética, criam uma interdependência tão profunda que parecem até mesmo poder entender-se sem mesmo ter que trocar palavras. Outros estudos demonstram que há mais cooperação do que competição entre pares de gêmeos, e, quando há competição, ela tende a ser positiva, e não negativa, como no caso de Esaú e Jacó.

44 ASSIS, Obras completas, vol. II, p. 607.

Recebido: 24 de Outubro de 2016; Aceito: 17 de Março de 2017

ÉLIDE VALARINI OLIVER é professora titular de Literatura Brasileira e Comparada na Universidade da Califórnia, Santa Barbara. Seus mais recentes livros são Variações sob a mesma luz. Machado de Assis repensado (Edusp/Nankin), a tradução comentada e anotada do Quarto Livro dos fatos e ditos heroicos do bom Pantagruel (Ateliê Editorial/Unicamp) – parte de seu projeto de tradução integral da obra de François Rabelais – e, a ser lançado, o livro bilíngue de poesias Essa Quintessência do Pó/This Quintessence of Dust (7Letras). E-mail: elideoliver@spanport.ucsb.edu.

Creative Commons License  This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.