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Machado de Assis em Linha

versão On-line ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.10 no.22 São Paulo dez. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1983-68212017102210 

RESENHA

RESENHA DE O ROMANCE QUE NUNCA FOI LIDO: HELENA , DE MACHADO DE ASSIS , DE EDUARDO LUZ

REVIEW OF O ROMANCE QUE NUNCA FOI LIDO: HELENA , DE MACHADO DE ASSIS , BY EDUARDO LUZ

MARTA DE SENNA1 

1Fundação Casa de Rui Barbosa / CNPq. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil

LUZ, Eduardo. O romance que nunca foi lido: Helena , de Machado de Assis. Fortaleza: Edições UFC, 2017. 231p.

No capítulo 19 do Livro Segundo de Tristram Shandy , o narrador diz a certa altura: "É da natureza das hipóteses que, uma vez tenha alguém concebido uma, ela assimila tudo para nutrir-se". 1

Esta passagem me ocorreu ao acabar de ler, com muito prazer e proveito, o recente livro de Eduardo Luz, O romance que nunca foi lido: Helena , de Machado de Assis. Isto porque, o autor, cuja dedicação a Machado de Assis em geral e a Helena em particular é consistente e longeva, formula uma original hipótese hermenêutica com relação ao terceiro romance machadiano, e, a partir dessa formulação, a hipótese foi assimilando tudo, nutrindo-se de tudo. E isto, segundo o narrador sterniano, é de grande serventia. Para Eduardo Luz, parece ter sido.

Vejamos a hipótese: ciente da centralidade do jogo intertextual na urdidura da narrativa machadiana, o autor empreende uma leitura de Helena como uma espécie de bricolage construído por Machado, que incorporaria no seu romance as três tragédias gregas conhecidas que tratam do mito de Electra, a saber: As Coéforas , de Ésquilo (segunda peça da trilogia Orestia ), a Electra de Sófocles e a Electra de Eurípedes. Ao contrário do que tem lido a crítica desde o lançamento do livro em 1876, Luz vê, como questão fundamental de Helena , o desejo de vingança levado a efeito pela protagonista, que, apaixonada pelo pai sanguíneo (Salvador), decide destruir em Estácio o conselheiro Vale, que, na sua visão, "matara" Salvador ao unir-se a Ângela e "adotar" Helena como filha. Ou seja, Helena é a Electra machadiana, que, para vingar a "morte" do pai (Agamemnon/Salvador), obstina-se em destruir-lhe o "assassino" (Egisto/Conselheiro Vale). Este já morto, a vingança recairá sobre seu filho, Estácio. O autor é taxativo: "A presença de Electra em Helena deve ser acolhida como centro de uma dupla moldura: a da vingança e a do incesto." (p. 27).

O livro se articula em três partes: uma introdução (p. 13-37), as notas de leitura, que são a essência do volume (p. 39-213) e uma conclusão (p. 215-224). Na primeira parte, intitulada "O que Machado de Assis fez", o autor apresenta os três textos que o inspiraram: Para ler como um escritor , de Francine Prose (2008); o segundo, A geração superficial , de Nicholas Carr (2011); e o terceiro, Machado de Assis: por uma poética da emulação, de João Cezar de Castro Rocha (2013). O primeiro lhe aponta para a necessidade de uma desaceleração da leitura, na esteira do New Cristicism e sua prática do close reading . O livro de Carr o instigou, por discutir o fenômeno contemporâneo do que ele chama de "nova mente", aquela que "exige receber e compartilhar informações em surtos breves e desconexos" (p. 14); o terceiro texto inspirador lhe serviu, entre outras coisas, para apreciar o resgate empreendido por Machado de Assis de uma técnica compositiva antiga, a aemulatio , que remonta aos clássicos gregos e latinos.

Ainda na primeira parte Luz aponta para alguns leitores anteriores de Helena, que, segundo ele, teriam intuído a natureza trágica do romance, como José Aderaldo Castelo, que teria percebido que ele bordeja a tragédia, ao tratar de "heróis marcados pela culpa dos ascendentes" (p. 26); ou Regina Zilberman, que afirma que "Machado percebeu a proximidade com o mito clássico" (p. 26); ou ainda Helen Caldwell, que chegou a aproximá-lo da Orestia (p. 31). Mas, segundo o autor do livro aqui discutido, todos esses autores como que recuaram dessas intuições e, de certo modo, acabaram por atribuir ao suposto romantismo machadiano esse flerte com o trágico. Eduardo Luz não recua e, nutrido pela sua hipótese, tenta levá-la às últimas consequências.

Convenhamos que, engenhosa e nova, a hipótese traz uma lufada de ar fresco à interpretação do terceiro romance machadiano, lido desde sempre como um livro de enredo intricado, a maior das concessões de Machado ao Romantismo. A hipótese, repito, é engenhosa, nova e bem defendida, a partir de uma leitura minuciosa do texto do romance, de um exame microscópico de todos os capítulos, escrupulosamente anotados um a um pelo crítico, empenhado em provar seu ponto.

Contudo, não partilhando dessa obcecação, o leitor de Machado e do teatro grego se pergunta: onde fica Clitemnestra/Ângela? Sabemos que Ângela, a mãe de Helena, já morreu quando a história tem início, o famoso dia 25 de abril de 1850, quando morre o Conselheiro Vale, transformado por Luz como um Egisto já viúvo e catalizador, sozinho, da sanha vingativa da protagonista e de seu pai. Mas a importância da figura na tragédia clássica é tal, que sua ausência (ou sua desimportância) na construção do argumento do autor causa certo incômodo ao leitor. Além disso, a sanha vingativa, se já soa um pouco forçada na protagonista, em Salvador (que, na interpretação de Luz, acaba por fundir Agamemnon e Orestes) parece inconsistente com a caracterização da personagem criada por Machado como pai da protagonista. Luz vê no comportamento de Salvador uma falsidade que não me parece autorizada pelo texto machadiano. Este, a meu ver, faz de Salvador um dos veículos por meio do qual Machado de Assis destila, veladamente, a sua crítica social. Lembremos a cena em que Estácio, ainda sem saber que ele é o pai de Helena, o visita, movido pela curiosidade de descobrir quem é aquele homem e qual a sua relação com Helena. Diz Estácio: "[…] eu creio que um homem forte, moço e inteligente não tem o direito de cair na penúria." Ao que responde, cortante, Salvador: "Sua observação – disse o dono da casa sorrindo – traz o sabor do chocolate que o senhor bebeu naturalmente esta manhã antes de sair para a caça". A frase revela uma personagem lúcida quanto ao lugar de fala da elite terra-tenente carioca, da qual Estácio é figura exemplar, e não soa, penso, como a fala de um impostor que ostenta a sua pobreza.

insights muito interessantes, como a detecção, na tessitura do romance, de um sistema de imposturas (a expressão me parece particularmente feliz, embora o conceito em si não seja novo nos estudos machadianos), criado por um narrador hábil, que constrói personagens que nunca são o que parecem ser. Na interpretação de Eduardo Luz, Helena e seu pai biológico, Salvador, são os campeões dessa impostura e, se o leitor do estudo de Luz encampar essa interpretação, será compensado por uma extensa e minudente demonstração da impostura perpetrada pela dupla.

Para o leitor por assim dizer "tradicional" de Helena , imaginar a protagonista como a maquiavélica artífice de uma vingança que se lhe afigura incontornável, a partir de uma paixão incestuosa pelo pai, parece uma liberdade interpretativa bastante forçada. Por outro lado, é interessante e renovadora a releitura que faz da personagem Camargo, o pai de Eugênia, lido desde sempre como o vilão frio e calculista e aqui apresentado como irrepreensivelmente leal ao amigo morto, o conselheiro Vale, "mesmo sendo parte prejudicada numa trama fraudulenta que ele, facilmente, poderia desmascarar." (p. 42); e a paralela reavaliação da figura do Padre Melchior, guia espiritual da família Vale, aqui desmascarado como o "grande egoísta" do romance.

Como se pode facilmente perceber, O romance que nunca foi lido: Helena, de Machado de Assis é uma obra que enriquece a fortuna crítica do romance e, apesar de eventualmente não concordarmos com as premissas de seu autor, vale a pena lê-lo, não apenas pelo caráter inovador da leitura de Eduardo Luz, mas pela seriedade e paixão com que demonstra a sua hipótese.

1STERNE, Laurence. A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy . Tradução de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 174-175.

Recebido: 04 de Outubro de 2017; Aceito: 04 de Novembro de 2017

MARTA DE SENNA é pesquisadora do CNPq, Editora Sênior da Machado de Assis em linha e atualmente presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

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