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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.11 no.23 São Paulo Jan./Apr. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201811232 

DOSSIÊ: MACHADO DE ASSIS E A HISTÓRIA

DAS BATALHAS LITERÁRIAS E SOCIAIS SURGE O "MÉTODO": ESCRAVIDÃO, TRABALHO LIVRE E IMIGRAÇÃO NAS CRÔNICAS DE MACHADO DE ASSIS (1878-1883)

EMERGING FROM LITERARY AND SOCIAL BATTLES, THE "METHOD": SLAVERY, FREE LABOUR AND IMMIGRATION IN THE CHRONICLES OF MACHADO DE ASSIS (1878-1883)

ANA FLÁVIA CERNIC RAMOS1 

1Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia, Minas Gerais, Brasil

Resumo

Machado de Assis foi cronista entre as décadas de 1860 a 1890 e, ao longo desse percurso, foi mudando sua relação com a crônica. Em centenas de textos publicados em jornais comentou, de diferentes formas, os mais variados assuntos, entre eles trabalho, escravidão e imigração. A partir da leitura das crônicas de "Notas Semanais" (1878) e de "Balas de Estalo" (1883), este artigo pretende mostrar como as estratégias literárias utilizadas pelo autor em cada uma dessas séries, bem como a configuração de seus narradores ficcionais, são elementos fundamentais para se compreender o testemunho deixado pelo literato sobre a transição da escravidão para o chamado "trabalho livre".

Palavras-Chave: Machado de Assis; crônica; trabalho

Abstract

Machado de Assis was a chronicler between the 1860s and 1890s, and his relationship with the chronicle changed over the course of this career. He used hundreds of texts published in newspapers to make comments in a variety of ways on many subjects, such as labour, slavery, and immigration. The aim of this article is to show that the author's literary strategies adopted in the chronicle series entitled "Notas Semanais" (1878) and "Balas de Estado" (1883-1886), as well as the configuration of fictional narrators in these works, are fundamental elements for understanding the testimony of the transition from chattel slavery to "free labour" left by the writer.

Key words: Machado de Assis; chronicle; labour

Em outubro de 1883 chegava ao Rio de Janeiro o mandarim Tong King Sing, rico comerciante de Shangai, diretor da Companhia Chinesa de Navegação.1 Conforme anunciado na imprensa, ele vinha visitar as áreas agrícolas nacionais e averiguar as possibilidades de se efetivar o acordo comercial de trazer ao Brasil 21 mil trabalhadores chineses. Embora o projeto de imigração chinesa fosse antigo, nunca se tinha proposto algo tão ambicioso como em 1883.2 Por essas e outras razões, a chegada do mandarim à cidade reacendia na imprensa e no parlamento antigos e acalorados debates sobre a questão.3 E foi em meio a essas discussões, invariavelmente impregnadas pelo racismo científico, que o tema da imigração chinesa apareceu em duas crônicas famosas de Machado de Assis, ambas publicadas na Gazeta de Notícias sob o título de "Balas de Estalo" e assinadas com o pseudônimo Lélio.4 Uma delas, escrita em 23 de outubro de 1883, pode ser considerada a crônica mais contundente que o literato escreveu tanto sobre "imigração chinesa" quanto sobre as teorias raciais então em voga naquele final de século. Nela, Lélio satirizava explicitamente as ideias do darwinismo social e do evolucionismo ao forjar uma carta supostamente assinada por sr. John Sterling, vice-rei da Índia, na qual se sugeria que, ao invés de chineses, o Brasil importasse "chim-panzés".5 Segundo Sterling, "moralmente superiores" aos "chins", os "chim-panzés" se mostravam mais vantajosos porque, "mais sóbrios", "não usavam roupa, calçado ou chapéu", não viviam com os "olhos na pátria" querendo voltar, se reproduziam em grande velocidade e se sustentavam apenas de "cocos e nozes". "A perfeição do trabalho é a mesma ou maior", argumentava o vice-rei. "A celeridade é dobrada, e a limpeza é tão superior, que sir John Sterling não viu nada melhor na Inglaterra". Dizendo ter conseguido fazer "com que os chim-panzés mortos" fossem "comidos pelos sobreviventes", seus pares, poupando sepultura e resultando em grande "economia", Sterling concluía sobre a lucratividade da experiência.6

A brincadeira feita por Lélio na crônica não era fortuita e parecia dialogar com muitas das expectativas acerca de um determinado tipo de "trabalhador livre", almejado naquele final de século por importantes setores da economia brasileira. Num contexto de tentativas de superação da escravidão, muitos discursos que versavam sobre o "braço" ideal para a lavoura mostravam-se desejosos de um trabalhador ainda profundamente pensado dentro dos moldes do trabalho compulsório. O trabalhador imaginado em discursos parlamentares, estudos econômicos e em várias sessões do Congresso Agrícola de 1878, por exemplo, deveria ser submisso, econômico, aceitar baixos salários, viver com pouco, comer e vestir quase nada e, por fim, trabalhar muito.7Lélio, com ousada pilhéria, contava, ao final da carta, que no princípio houvera certa relutância em "admitir o chim-panzé pelo fato de andar muita vez a quatro pés". Entretanto, Sterling, "naturalista e antropologista emérito", teria feito observar que a "atitude do chim-panzé" era apenas uma "questão de costume". Fulminante com as teorias raciais e evolucionistas, Lélio disparava:

Na Europa e outras partes, há muitos bípedes por simples hábito, educação, uso de família, imitação e outras causas, que não implicam com as faculdades intelectuais. Mas tal é a força do preconceito que, assim como no caso daqueles bípedes se conclui da posição das pernas para a qualidade da pessoa, assim também se faz com o chim-panzé; sendo ambos o mesmíssimo caso: – uma questão de aparência e preconceito.8

Com tal argumento, Lélio dessacralizava as teorias científicas em voga. Ria tanto daqueles que se opunham à imigração chinesa dizendo que o europeu era o único capaz de trazer progresso e civilização ao Brasil, quanto daqueles que ansiavam por um trabalhador quase "não humano" para chamar de "livre". Esgarçando ao extremo seu argumento sobre a lucratividade obtida no uso de "chim-panzés" como trabalhadores rurais, o narrador concluía ainda que os adversários da imigração chinesa, que tanto receavam "o abastardamento da raça", poderiam agora ficar tranquilos, já que era fato que estes não se cruzariam "com as raças do país".9

Falar sobre imigração não era uma novidade na obra de Machado de Assis. Ao longo das décadas de 1860 e 1890, o literato escreveu centenas de crônicas e nelas evidenciou seu interesse por muitos temas importantes para a história do Brasil, tais como eleições, cidadania, ciência e também aquilo a que então chamavam de o "problema da substituição do trabalho escravo". A frequência com que comentou essas temáticas mostra que, para Machado, a literatura publicada em jornais, cotidiana e tida como gênero de entretenimento rápido – a "castanha gelada", "coisa leve" que se come após o "jantar" para "adoçar a boca"10 –, também podia ser vista como um instrumento importante de interpretação do mundo e de intervenção social. No entanto, apesar desse interesse constante, a explícita e debochada crônica de 23 de outubro de 1883 ainda hoje desafia os estudiosos do escritor, visto na maioria das vezes como alguém comedido e reservado em seus comentários. Uma crônica que desafia não pela temática que aborda, mas pelo tom, ou ainda pela forma contundente com que tratou de tais assuntos. Este artigo pretende mostrar como a relação de Machado com o gênero cronístico, alterada profundamente no final da década de 1870, e a configuração de seus narradores ficcionais são elementos cruciais para o entendimento de seu enfático testemunho sobre a imigração chinesa em 1883. Para tanto, serão analisadas algumas crônicas das séries "Notas Semanais" (1878) e "Balas de Estalo" (1883-1886).

A forma da crônica e o testemunho histórico

A crônica de Lélio sobre a importação dos "chim-panzés" tornou-se quase "obrigatória" nos estudos sobre a imigração chinesa no Brasil. Em meio às discussões acaloradas sobre o tipo ideal de "trabalhador livre" para o país, debates que versavam sobre raça, formação do povo brasileiro e o costume dos lavradores e empregadores nacionais, Lélio mobilizava em sua "bala de estalo" uma série de falas que haviam caracterizado a questão desde a década de 1870. Talvez por isso seu texto tenha se tornado uma referência importante sobre o tema. Na tentativa de compreender as estratégias narrativas que compunham tal relato, Célia Marinho Azevedo, em sua interpretação da crônica de 23 de outubro, dirá, por exemplo, que Machado, travestido no "grave" Lélio, parecia brincar em torno da teoria do darwinismo social. Destacando o uso de um "humor cáustico" na crônica, a autora argumenta que o narrador conduzia e expunha "até as últimas consequências" a grande questão racista nas posições conflitantes sobre o tema da imigração chinesa.11

Rodrigo Donizete Pereira, por sua vez, observará que o procedimento usado por Lélio nessa crônica remetia-se à ideia desenvolvida por Roberto Schwarz sobre o "sentido histórico da crueldade em Machado de Assis".12 A partir do estudo de Memórias póstumas, especialmente dos capítulos sobre Eugênia, Schwarz argumentara que a estratégia literária do escritor, fundada na extrema crueldade e desfaçatez, era manter a preeminência do "ponto de vista" do narrador, um "membro conspícuo da classe dominante", enfatizando a "parcialidade narrativa" em detrimento do "sentimento moral". Comparando Machado a Baudelaire – poeta descrito como aquele que "gostava de tomar partido do opressor, mas para desmascará-lo através do zelo excessivo" –, o crítico sugeria que tal estratégia consistia na aplicação de um exagero, amoral e até mesmo cruel, para criticar uma determinada ordem e classe social.13 Para Pereira, "guardando as proporções" na comparação com o romance, Machado recorria a uma estratégia parecida em sua crônica de 23 de outubro 1883, tentando, assim, deflagrar a "desumanidade que havia na sociedade escravista".14 Subsidiado pelos estudos de Miriam Bevilacqua Aguiar, Pereira argumenta também que as "balas de estalo" de Lélio sobre a imigração chinesa, especialmente a publicada em 16 de outubro de 1883, evidenciam como Machado, aos poucos, punha em prática um "novo conceito" de crônica, mais literário que jornalístico.15

Tais interpretações das crônicas de Lélio são importantes e tanto Azevedo quanto Pereira nos alertam para os procedimentos literários fundamentais de Machado na construção de seu texto: o humor, o exagero do argumento e a adoção de um ponto de vista bem demarcado e radicalizado para enfatizar as críticas desejadas pelo cronista. Entretanto, é importante tecer algumas considerações. Em primeiro lugar, Lélio não tinha nada de "grave", como aponta Azevedo, e a pilhéria, presente na crônica de 23 de outubro, não era uma exceção, mas uma marca desse narrador em "Balas de Estalo". Reconhecido por seus colegas de série como o "filósofo baleiro",16 Lélio estabelecera como "fio condutor" de seus textos a mania de levar ao extremo as reflexões que fazia sobre os mais diversos acontecimentos cotidianos, colocando em xeque as instituições imperiais, a ciência, a medicina e tantas outras questões. Seu método narrativo, presente em muitas crônicas da série, consistia na utilização de histórias absurdas e fantásticas para encontrar as verdades sobre o mundo. Em segundo lugar, é necessário dizer que o "exagero" do argumento e a ênfase na parcialidade narrativa – oriunda muitas vezes de um ponto de vista classista do narrador – eram questões caras a Machado desde o final dos anos de 1870 e foram centrais não apenas na produção de seus contos e romances, mas nas inovações formais que aplicou em suas crônicas.17 Assim, ao contrário do que foi defendido por Bevilacqua e posteriormente reafirmado por Rodrigo Donizete Pereira, as mudanças na crônica machadiana não ocorreram apenas na década de 1880, mas foram pensadas e gestadas a partir dos muitos embates que Machado de Assis travou desde a década anterior, incluindo as polêmicas sobre o Realismo e o Naturalismo literário.18

Machado de Assis, ao longo de sua carreira como cronista, colaborou em diferentes jornais e neles produziu séries de crônicas muito distintas entre si. Nos anos 1860, escreveu seus “Comentários da Semana” no Diário do Rio de Janeiro. Na década seguinte, produziu sua "História de Quinze Dias" (1876-1878) para Illustração Brasileira e as "Notas Semanais" para o jornal O Cruzeiro.19 Na década de 1880, passaria a integrar a Gazeta de Notícias. Nela publicaria "Balas de Estalo" (1883-1886), "A+B" (1886), "Gazeta de Holanda" (1886-1888) e “Bons Dias” (1888-1889). Nos anos de 1890, já então sob o regime republicano, escreveria para este jornal a sua série mais longa e célebre, "A Semana" (1892-1897). E nesse longo percurso, Machado foi, aos poucos, mudando seu jeito de escrever crônicas e recorrendo cada vez mais a uma série de estratégias literárias distintas para observar e interpretar o mundo do qual fazia parte. Se na década de 1860 seu texto ainda refletia antigos moldes do folhetim estrangeiro, nos anos seguintes ele se tornará cada vez mais literário e subjetivo. Se inicialmente as crônicas surgiam da sua experiência como repórter do Senado e da leitura do jornal, acompanhando quase sempre a mesma ordem dos noticiários,20 nos anos seguintes elas se tornariam muito mais "casuais", cheias de ironia e paródias literárias. Na obstinada tentativa de criar múltiplos significados dentro de suas crônicas, assegurando assim "suas possibilidades de expressão",21 Machado de Assis lentamente se descolava das opiniões fixas dos jornais.

Tais procedimentos literários revelaram-se fundamentais para que o então funcionário da Secretaria do Ministério da Agricultura pudesse manter sua autonomia de pensamento e construir críticas contundentes a algumas das principais instituições do país, entre elas a escravidão. E esses caminhos da crônica machadiana foram se delineando especialmente a partir de séries como "História de Quinze Dias" (1876-1878) e "Notas Semanais" (1878). Através da criação de vozes ficcionais e do uso de narrativas fantásticas e exageradas, o escritor tornava aquele que era considerado um relato imediato dos acontecimentos – entendido como quase jornalístico – em algo mais complexo e subjetivo.22 Um dos pressupostos deste artigo é a defesa de que a compreensão do testemunho deixado por Machado de Assis sobre temas como escravidão, imigração e trabalho livre passa necessariamente pela análise dessas diversas estratégias literárias usadas nas crônicas a partir dos anos de 1870 e 1880.

As "Notas Semanais": da fantasia nasce o comentário

Entre 2 de junho e 1º de setembro de 1878 Machado de Assis, sob a assinatura de Eleazar, publicou crônicas intituladas "Notas Semanais" no jornal O Cruzeiro. Momento de grandes embates literários para o autor, especialmente após a publicação d’ O primo Basílio, de Eça de Queirós, as crônicas de "Notas Semanais" representam um período de reflexão do literato sobre a forma de tratar as relações entre literatura, ficção e realidade. Em 25 de agosto de 1878, por exemplo, na penúltima crônica da série, Eleazar escreveria que "poeira nos olhos" era a "regra máxima" de um tempo que vivia "menos da realidade que da opinião".23 Para John Gledson e Lúcia Granja, a série consolidou-se como um grande espaço de experimentação literária do autor, quando este estava às vésperas da publicação de seu romance mais célebre, Memórias póstumas de Brás Cubas. Nesses pequenos textos, utilizando-se de paródias e histórias fantásticas, Machado teria como uma de suas principais intenções mostrar ao leitor a existência de uma "ficção pactuada" na sociedade, debochando, entre outras coisas, das pretensões científicas – tão em voga naquele final de século – de observar o mundo de forma totalmente neutra e objetiva. Ambição presente não só nas teorias filosóficas e científicas, mas na própria literatura naturalista e, finalmente, nos jornais que se autorrepresentavam como modernos e apartidários. Para executar tal projeto, Machado, nas suas "Notas Semanais", pôs em prática um método de confecção de crônicas que consistia em levar as questões tratadas nos textos – retiradas do noticiário e do senso comum – a graus paradoxais, para então conduzi-las ao absurdo total.24 O exercício tinha como propósito mostrar que a ficção não era privilégio da literatura, mas um dado universal, presente em várias esferas da vida cotidiana. A estratégia da subversão do senso comum e da lógica regularmente aceita revelava que Machado havia adotado um método no qual as "mentiras" eram usadas para ressaltar as verdades. Um procedimento desafiador para a crônica, gênero tão associado ao ato jornalístico, colado à notícia e ao "real" dos fatos. A observação desse método pode nos ajudar a compreender a forma pela qual Machado debateu a questão do "trabalho livre".

Um exemplo do uso desses procedimentos literários é a crônica publicada em 14 de julho de 1878 n’O Cruzeiro, quando Eleazar decidira comentar os resultados do Congresso Agrícola.25 Naquele momento, os participantes do evento e a imprensa discutiam intensamente se deveriam vir para o Brasil imigrantes europeus, chineses ou coolies, bem como debatiam sobre quais seriam as formas de contrato de trabalho mais adequadas para a transição entre a escravidão e o "trabalho livre". Já nos primeiros momentos do Congresso reafirmava-se a necessidade da lavoura de "aquisição de trabalhadores livres mediante salários módicos".26 E, tal como outros jornais, O Cruzeiro não deixou de expressar suas opiniões, demonstrando ter posições pouco "renovadoras" sobre o assunto.27 Isso porque suas ideias, em grande medida, apenas faziam coro aos anseios dos grandes fazendeiros que chegavam à Corte para o evento, dentre eles a defesa de mais capitais (subsídios) para a lavoura e a urgência de um plano de imigração europeia.28 Em editorial, O Cruzeiro argumentava ainda que, embora existissem no Brasil "braços" mais que suficientes para a cultura de terras, a maioria deles era "inútil", uma vez que, marcados pelo passado da escravidão, não estavam habilitados para o trabalho livre.29

Embora publicadas n’O Cruzeiro (1878-1883), periódico de "espírito mais conservador",30 as "Notas Semanais" de Machado não se furtaram a discutir essa espinhosa questão. Através da utilização de estratégias literárias que tanto caracterizavam a série – narrativas inusitadas e absurdas –, o autor conseguiu ampliar suas possibilidades de expressão e de crítica sobre o assunto do momento. Dividida em oitos seções, a crônica de 14 de julho de 1878 tratava dos mais diversos assuntos, tais como o fim do Congresso Agrícola, a morte de d. Vital, bispo de Olinda e pivô da chamada Questão Religiosa, a reforma judiciária e um novo regulamento para a prática de patinação na cidade. Ao repassar a semana, o cronista comentava ainda a venda de vinhos falsificados e, finalmente, o caso da fuga de trabalhadores russos no sul do Brasil e a seca no Ceará. Embora brincasse com o caráter de entretenimento da crônica – "Que sabes tu, frívola dama, dos problemas sociais, das teses políticas, do regímen das coisas deste mundo?" –, Eleazar desafiava a atenção do leitor, sugerindo que "nem sempre" o gênero se restringia a coisas leves. "Os acontecimentos entrelaçam-se, uns fúnebres, outros alegres, outros nem alegres nem fúnebres, mas sensivelmente graves", alertava o cronista.31 Embora a crônica comportasse assuntos variados e aparentemente desconexos, Eleazar construía, silenciosamente, uma lógica interna para o texto, alinhavando aqueles que eram os temas centrais da sua "nota semanal": o Congresso Agrícola, a questão do trabalho livre no Brasil e o caráter dúbio das notícias e do mundo.

Já nos primeiros parágrafos da crônica Eleazar ironizava o Congresso Agrícola (que durou cinco dias) pela agilidade com que tratara das grandes causas da "decadência da lavoura": a formiga "saúva" e a transição para o trabalho livre no Brasil. "Ingleses não andariam mais depressa", concluiria o cronista. Sobre a questão do trabalho, destacava apenas a existência de "uma voz" solitária que se manifestara em favor da "introdução de novos africanos", mas que fora rechaçada por "unanimidade" e pelo "ardor do protesto".32 No Congresso, falava-se nas vantagens e desvantagens da imigração europeia, ora tida como elemento civilizador, ora lembrada como uma mão de obra cara e exigente. A importação de chineses e coolies, por sua vez, seguia dividindo opiniões. Tida como barata e submissa, a imigração de coolies e chins era condenada por motivos raciais.33 Enquanto isso, nos jornais, inclusive n’O Cruzeiro, muitas colunas eram preenchidas com a defesa da vinda em massa de imigrantes europeus, vistos como racialmente superiores e acostumados com o "trabalho livre".34 Cercada por esses debates, a penúltima seção da crônica de Eleazar, logo após discutir os vinhos falsificados e a "dubiedade" das comissões nomeadas para verificar se a água de uma das salas da Secretaria de Agricultura estava ou não contaminada por chumbo,35 trazia "fortuitamente" um tema que tomara conta dos jornais nos últimos dois meses: a fuga de trabalhadores russos, instalados no sul do Brasil, para a Argentina. O cronista comentava:

No meio disto, sabe-se aqui que uns oitenta russos, comprometidos com a província do Rio Grande, por motivos de algumas quantias que lhe devem, trataram de fazer uma retirada honrosa, e sobretudo noturna, para o Estado Oriental. Já pisavam terra nova, quando a autoridade de cá obteve que a autoridade de lá os repassasse – o que prontamente se fez. Segundo estou informado, o que aconteceu foi justamente o contrário daquilo. Estes russos pertencem a uma seita, a qual tem um decálogo, no qual há um mandamento, que diz que as dívidas se devem pagar, ainda à custa de sangue. Cansados de perseguir o presidente da província, para lhes receber o dinheiro, resolveram compeli-lo a isso, armaram-se de rebenques e foram à noite cercar o palácio. O presidente, acordado pelo ajudante de ordens, viu que o mais decoroso era a fuga, e saiu da capital para o Jaguarão, com os russos atrás de si, porque estes o pressentiram e não o deixaram mais. Dali passou à vila de Artigas; mas os russos, a quem o desespero da honra deu forças novas, foram arrancá-lo de lá, e apresentaram-lhe aos peitos um bom par de contos de réis. O presidente rendeu-se e passou recibo; os russos queimaram, em efígie, o pecado do calote. Era tempo.36

Dias antes da publicação da crônica, o Jornal do Commercio transcrevera uma notícia saída na Ordem, de Jaguarão, informando que oitenta colonos russos, em 23 de junho, tiveram viagem embargada pelo chefe de polícia da província do Rio Grande do Sul. Segundo o jornal, apesar do embargo, os colonos, na madrugada e sem serem "pressentidos", dirigiram-se à balsa que fazia a travessia para o Estado Oriental (Uruguai),37 para onde seguiriam em “fuga”. Na notícia, condenavam-se os colonos russos por quererem escapar para a Argentina sem terem saldado suas dívidas com os cofres públicos da província do Paraná.38 Entretanto, a história envolvendo os colonos russos era longa e controversa. Os imigrantes russos vieram ao Brasil com destino à província do Paraná para lá formarem nove núcleos de colonização, localizados na região de Ponta Grossa. Em tese, essa localidade havia sido escolhida por onze comissários russos, representantes de um grupo de 1.432 pessoas. Uma vez que pagariam pelas terras, os colonos exigiam a liberdade de escolher os terrenos e pediam ainda que as famílias permanecessem juntas para realizarem trabalho coletivo.39 Nos primeiros meses da história, O Cruzeiro se apressou em apoiar a iniciativa, chamando-a de "esperançoso ensaio de colonização". Em artigo elogioso, dizia que aos russos haviam sido oferecidos "aprazíveis campos" que circundavam a cidade de Ponta Grossa e que a iniciativa só tinha chances de sucesso.40 Contudo, meses depois, explodia nos jornais uma grande polêmica sobre o que foi chamado de "Questão russa".41 Em maio de 1878, começavam a aparecer os primeiros sinais de que os colonos "russos-alemães" estavam insatisfeitos com o negócio. Tomando a iniciativa de mandar uma petição ao presidente da província, eles reclamavam da forma como a venda dos terrenos estava sendo realizada pelos agentes públicos. Protestavam contra os altos preços cobrados e alegavam que os terrenos oferecidos não correspondiam aos que tinham sido escolhidos por eles. Finalmente, recusavam-se a pagar por terras que consideravam "imprestáveis" para a agricultura.42 Se, de um lado, reclamavam os colonos russos, de outro dizia o correspondente d’O Cruzeiro que tais reclamações eram "infundadas".43 Em junho de 1878, O Cruzeiro argumentará que um dos motivos desses problemas estava na incompatibilidade de interesses entre as partes, sendo muito difícil satisfazer o ideal que os colonos traziam no espírito. O artigo dizia que o apego excessivo dos russos à sua raça, língua e costumes, exagerado até o "exclusivismo absoluto e intolerante", tornava-os impossíveis de "assimilação".44 Culpando os próprios colonos pelo impasse, O Cruzeiro alegava que os russos eram "pouco acomodatícios" e que não se satisfaziam nem com o Brasil, nem com o rio da Prata.45

Por outro lado, a Gazeta de Notícias, ao comentar o caso, dava visibilidade a outros pontos de vista sobre a questão. Denunciava em seus artigos o modo pelo qual os contratos e acordos feitos com os russos haviam sido explicitamente desrespeitados pelas autoridades públicas da província do Paraná. Segundo a Gazeta, os russos estavam sendo obrigados a comprar terras que não haviam escolhido, por preços abusivos.46Ameaçados de completo abandono, os colonos decidiram, então, protestar. Diante de tal impasse, o jornal informava que Ferreira de Menezes, naquele momento colaborador da Gazeta de Notícias, seria o advogado dos 2 mil russos envolvidos na disputa.47 Dias depois, na coluna "Assuntos do Dia", o jornal comunicava a chegada à Corte da comissão de russos-alemães que foram reivindicar seus direitos junto ao governo imperial. Segundo a Gazeta, o desentendimento, que no mês seguinte desencadearia a fuga para a Argentina, desmoralizava a colonização no Brasil. "Não consinta o sr. conselheiro Sinimbu que os súditos do czar da Rússia tenham direito de dizer que foram constrangidos em sua liberdade em terras da América", concluía o artigo. Diante disso, a "fuga" tornava-se legítima para a Gazeta.48 Dias depois dessa notícia, o jornal publicava uma carta escrita por Ferreira de Menezes, na qual o advogado dizia estar aguardando uma reunião com o ministro da Agricultura e denunciava o estado de pobreza e fome dos colonos. Em franco debate com O Cruzeiro, que em artigo do dia 23 de maio negava as acusações contra o governo do Paraná, Menezes provocava indagando: "os russos estão ou não com aquele direito garantido a todo e qualquer comprador, seja russo ou preto?".49

Diante das polêmicas nos jornais, podemos observar a movimentação de Eleazar nas suas crônicas d’O Cruzeiro. Se atentarmos para as notícias publicadas dias antes das suas "Notas Semanais", veremos que a informação mais constante nos periódicos cariocas era: russos, supostamente em dívida com a província do Paraná,50 tentaram fugir para a Argentina e foram resgatados pela polícia na cidade de Jaguarão no momento em que pretendiam embarcar para a vila de Artigas, no Uruguai. O procedimento do cronista, entretanto, é subverter completamente o conteúdo das notícias que circulavam. Ficcionalmente ele corrompe a informação, o dado objetivo, dizendo que o que aconteceu foi "justamente o contrário". Na crônica, "cansados de perseguir o presidente da província", os russos desesperadamente tentavam pagar suas dívidas com ele. Para isso, "cercaram o palácio", mas ele, o presidente Rodrigo Octávio, saiu em fuga para a vila de Artigas. Alcançando-o, forçaram-no a receber o dinheiro, queimando, "em efígie", o "pecado do calote". Ironia pura de Eleazar, que na crônica desenhava uma cena para lá de absurda.

Se a crônica era entendida como um gênero que tinha como função comentar as notícias do jornal, o estranhamento por parte do leitor certamente era uma reação esperada por Eleazar: quem fugira não fora o presidente da província, mas os russos, diziam os jornais. Não descartando o fundo humorístico da estratégia, o que vemos aqui é a necessidade de ler a contrapelo o argumento do cronista. A estratégia consistia em levar a situação ao nível do ridículo e subverter a notícia, instalando na narrativa o inusitado, o absurdo e a ficção. Fato é que a pilhéria certamente era um dos objetivos de Eleazar. No entanto, quando colocamos a crônica em interlocução com os debates sobre os colonos russos, presentes nos jornais havia meses, podemos observar que Machado de Assis, apesar de estar alocado n’O Cruzeiro, se alinhava muito mais às críticas feitas na Gazeta de Notícias sobre o caso. Se as notícias levavam o leitor a acreditar que os russos, de fato, deviam à província o preço de suas passagens, também não se podia negar que as autoridades do Paraná estivessem em dívida com os colonos, já que estes reclamavam da quebra do contrato desde abril de 1878. Procurados pelos colonos, tanto o presidente da província, Rodrigo Octavio, quanto o ministro da Agricultura, Sinimbu, fugiram ao diálogo e se negaram a enfrentar a questão. De onde se conclui que a fuga para a Argentina também podia ser entendida como os russos "queimando em efígie" o pecado do calote das autoridades. "Era tempo", concluía Eleazar.

Ao reconstruirmos as possíveis redes de interlocução das crônicas de Eleazar, observamos ainda outros sentidos fundamentais do testemunho histórico dado por Machado de Assis sobre a questão da transição para o chamado "trabalho livre" em julho de 1878. Como já apontado pela historiografia sobre o tema, as fronteiras ao sul do Brasil passaram a delimitar, no século XIX, "não apenas os espaços dos Estados e das nações que então se formavam", mas também as "demarcações entre a escravidão e a liberdade".51 No contexto das emancipações políticas das primeiras décadas do século XIX, os países vizinhos ao Brasil, especialmente Uruguai e Argentina, conforme foram abolindo a escravidão em seus territórios, se transformaram em verdadeiras ameaças às autoridades brasileiras. Isso porque, partindo do conceito de "solo livre",52 escravizados brasileiros, conscientes desse processo de emancipação política e individual vivida nesses países, passaram a fugir rumo à fronteira sul, tentando alcançar a liberdade. Cidades como Jaguarão (Brasil) e Artigas (Uruguai), separadas pelo rio Jaguarão, se transformaram em sinônimo dessas rotas de fuga dos escravizados brasileiros.53 Ou seja, para os contemporâneos da crônica de Eleazar, seria impossível ler a notícia da "fuga" (termo usado pelo jornal de Jaguarão e reproduzido pelo Jornal do Commercio) dos russos para a Banda Oriental sem, de alguma forma, associar a condição desses colonos à dos próprios escravos, que também atravessaram a fronteira sul em busca de um território livre da escravidão. Em 8 de julho de 1878, poucos dias antes da crônica escrita por Eleazar, o Jornal do Commercio publicara na seção "Interior" uma carta na qual se fazia a associação da condição dos colonos a escravos. O missivista, retrucando as declarações publicadas n’O Cruzeiro de que a petição dos russos era um "amontoado de falsidades", argumentava:

O sr. dr. Rodrigo Octavio está sempre a dizer que os colonos russos não prestam. Não prestam. Sem dúvida porque não servem para escravos brancos, porque são homens que querem ganhar a vida pelo trabalho, e por isso recusam os areais que lhes foram distribuídos.54

As notícias que se seguem ao embargo da viagem dos colonos em Jaguarão informam que de lá eles iriam para a cadeia, sendo separados de suas mulheres e filhos, que supostamente teriam conseguido atravessar o rio.55 Em meio a esse cenário, as páginas de jornais ofereciam aos leitores os debates do Congresso Agrícola que versavam tanto sobre a necessidade de colonizar o Brasil com trabalhadores europeus, para civilizar o país, quanto sobre a urgência de criar uma lei de locação de serviços mais severa, que previsse, entre outras coisas, a coação ao trabalho, as garantias ao empregador em receber pelo serviço pago e a prisão para os que não cumprissem seus contratos de trabalho.56 As discussões sobre as leis de locação de serviços (para imigrantes e trabalhadores nacionais) atravessaram o século XIX e sempre foram marcadas pelas disputas do que seria o "trabalho livre", nem sempre "experimentado como categoria apartada da escravidão" ou divergente dela, tampouco "incompatível" com as relações de trabalho escravista.57 Impossível imaginar que Machado de Assis – através de Eleazar – não estivesse conectando essas questões em 14 de julho de 1878. Ele mesmo anuncia que os assuntos "entrelaçavam-se" e que os temas "leves" andavam de mãos dadas com as coisas "graves".58 Ou seja, o Congresso Agrícola das primeiras linhas só podia ser pensado em conexão profunda com a fuga dos colonos russos. Estava posta a questão do que seria, de fato, o trabalho chamado "livre" no Brasil. Desde o início da crônica Eleazar não se esquece de alertar seu leitor de que nem sempre a crônica tratava apenas de coisas frívolas.

Ao observarmos as estratégias literárias usadas nas "Notas Semanais", podemos, de alguma maneira, nos aproximar do olhar de Machado de Assis sobre a questão do trabalho livre e as "ficções" criadas sobre ele nas falas de fazendeiros e de grandes jornais do império. Tal como os vinhos falsificados, era preciso ter cuidado ao ler os jornais para não tomar "pau de campeche" no lugar de uva. Sob o reino da "dubiedade", presente não apenas no relatório sobre a água contaminada com chumbo, era preciso cautela e atenção para ler os debates do Congresso Agrícola e as notícias de jornal. Muitos outros artigos que circulavam nos periódicos naquele momento falavam da privação da liberdade dos colonos russos, assim como de seu abandono e miséria, e certamente não passavam despercebidos para o cronista. Se no Congresso Agrícola discutia-se sobre o trabalhador ideal e as vantagens da imigração europeia, bastava circular pelos jornais do mesmo período – incluindo o próprio O Cruzeiro – para ver que o tratamento oferecido aos colonos que já estavam no país mostrava-se longe daquilo que diziam as promessas sobre o mundo do trabalho livre. Inúmeras eram as notícias que versavam sobre salários atrasados,59 revoltas e insatisfações com as condições de trabalho,60 ou ainda sobre o abandono das colônias.61 Condições que aproximavam as formas de trabalho dos imigrantes das dos escravos, já que por vezes eles acabavam ficando sem salários. No cenário para o qual Machado olha, havia uma "miríade de arranjos de trabalho" que "combinavam graus de liberdade e elementos de coerção", tais como tutela, trabalho compulsório e contratado, servidão por dívida, entre outros.62 Tudo ao redor da crônica de Eleazar despertava para a evidente precariedade tanto da liberdade quanto do trabalho livre nas últimas décadas do império.63

O narrador "mentiroso" e a imigração chinesa: o método

Em julho de 1883, Machado de Assis estreava na série de crônicas intitulada "Balas de Estalo" (1883-1886) da Gazeta de Notícias. Desde setembro de 1878, quando encerrou suas "Notas Semanais" n’O Cruzeiro, o autor abandonara esse gênero literário e, de certa forma, se afastara dos jornais de grande circulação, mantendo neles apenas uma produção dispersa e irregular.64 Nessa nova empreitada literária, Machado de Assis não estava sozinho. Além de Lélio, também integravam a coluna Mercutio, Lulu Sênior, Zig-Zag, Décio, Publicola e José do Egito, pseudônimos de algumas das penas mais célebres do jornalismo e da literatura naquele final de século. Entre seus colegas de série estavam Ferreira de Araújo, dono da Gazeta, Henrique Chaves, Capistrano de Abreu, Valentim Magalhães, Manoel da Rocha e Dermeval da Fonseca.65 Nessa nova série Machado de Assis será Lélio, um inventor de dissimulações, que se propunha a investigar a fundo o princípio de todas as coisas. Inspirado em uma das mais tradicionais personagens cômicas da literatura ocidental,66 o literato decide, com Lélio, radicalizar seu método na confecção de crônicas, dando agora ênfase à construção de uma voz ficcional mais delimitada, destacando assim a questão do ponto de vista dentro desses pequenos textos. Utilizando-se da experiência prévia em "Notas Semanais" (1878) e retomando a estratégia de utilizar narrativas fantásticas e absurdas para revelar verdades, Machado se apropriava de uma personagem que em peças como Le Menteur, de Carlo Goldoni (1707-1793), era um jovem, rico, galanteador e mentiroso convicto.67 Em um tributo a Molière e Goldoni, em suas crônicas assinadas Lélio o autor trazia à tona críticas aos costumes e hábitos sociais de seu tempo através do humor. Com Lélio, Machado passaria a discutir as fronteiras entre ficção e verdade, presentes nos discursos médicos, na ciência, na literatura, na política e – por que não? – na condução da chamada transição entre o trabalho escravo para o livre. Mais uma vez a estratégia de expor verdades através da mentira/ficção seria utilizada nas crônicas. Tal programa aparecerá já na primeira crônica da série, publicada em 2 de julho de 1883, na qual o narrador, ao falar da medicina dosimétrica, comparará ciência e religião: "crê ou morre".68

Assim como em 1878, por conta do Congresso Agrícola, em outubro de 1883 os temas da abolição da escravidão e do trabalho livre tomaram conta novamente das páginas dos jornais e dos debates parlamentares, especialmente devido à proposta de trazer trabalhadores chineses para o Brasil. Tal como fizera nas "Notas Semanais", Machado retomaria o tema, comentando-o com histórias fantásticas e inusitadas, mas agora com uma voz ficcional mais explicitamente desenhada. Através de Lélio, o mentiroso, debochará de forma contundente do tipo de trabalhador "livre" almejado pela elite brasileira. Desde "História de Quinze Dias" (1876-1878), com Manassés, Machado investigava as possibilidades de criação de narradores ficcionais em crônicas69 e a partir de "Balas de Estalo" se reinventará a cada nova série. Com personagens que mantinham maior ou menor alteridade em relação ao autor, continuará explorando os procedimentos literários que lhe garantissem autonomia de pensamento e de expressão.

As crônicas sobre imigração chinesa constituem um bom exemplo de como ele arregimentou esses procedimentos literários para construir críticas contundentes sobre o horizonte político da superação do trabalho escravo no Brasil. Em 16 de outubro de 1883, Lélio, como um bom inventor de mentiras, forjava uma carta que teria sido escrita pelo próprio Tong King Sing. Nela, o mandarim comentava suas impressões sobre o Brasil em crônica escrita em "puro idioma chinês" – mais uma empulhação do cronista –, "tão espirituosa quanto apócrifa". Invertendo o olhar sobre a questão e instaurando novo ponto de vista, o narrador dava a palavra ao próprio mandarim. Ao contrário do que diziam os periódicos sobre os efeitos nefastos sobre o Brasil da presença de uma raça e cultura tidas como inferiores,70 a crônica mostrava, na verdade, a ameaça que o Brasil representava para os chineses.71 Ou seja, a partir de uma situação forjada e absurda – uma carta escrita em chinês pelo próprio mandarim –, Lélio se contrapunha a uma série de artigos que defendiam que os chineses não traziam "uma civilização, nem um sangue mais forte que o nosso, nem os melhores costumes".72 Em tempos de denúncias internacionais sobre as intenções duvidosas dos negociantes brasileiros que desejavam contratar trabalhadores chineses,73 a crônica de Lélio adquiria muitos sentidos políticos. No último parágrafo da carta, por exemplo, estavam concentradas palavras de origem africana – tais como "calunga", "dengué" e "tatá" –, reforçando que o narrador de Machado de Assis, através do humor, denunciava a ameaça à liberdade dos chineses quando estes desembarcassem no Brasil. Ao encerrar a carta, escrevia o mandarim:

Xulica Brasil pará; aba lingú retórica, palração, tempo perdido, pari mamma; xulica Kurimantú. Iva nenê, iva tatá. Brasil gamelatika moka, inglês ver. Veriman? Calunga, mussunga, monau denguê. Vala-vala. Dara dara bastonara. Malan drice pakú. Ocuôoo; momoréo-diarê. Ite, missa est.74

Com a explícita referência a palavras de origem africana, associadas à típica expressão "inglês ver" (no século XIX a expressão tornara-se uma referência clara à lei de 1831, que proibiu o tráfico negreiro), Lélio ressaltava o perigo da servidão ou da escravidão imposta aos trabalhadores. A exemplo dos africanos entrados no país após a proibição do tráfico atlântico em 1831, a crônica sugere que os imigrantes chineses poderiam vir a ser ilegalmente escravizados em território brasileiro. Mais uma vez, Machado de Assis, através de suas crônicas, punha em pauta a precariedade não só das condições do trabalho chamado livre, mas da própria liberdade naquele final de século.75

O método aplicado na crônica do dia 16 de outubro se repetiria dias depois, na "bala de estalo" de 23 de outubro de 1883, sobre os "chim-panzés" (citada no início deste artigo). Em nova empulhação, o narrador dizia agora reproduzir a carta de um vice-rei da Índia e sintetizava em sua crônica as ideias que marcaram as discussões sobre imigração para o Brasil desde a década de 1870. Agora sob um novo ponto de vista, o do empregador, Machado, através de Lélio, mais uma vez esgarçava e radicalizava seu argumento, com o fim de explicitar as incoerências e as arbitrariedades do debate. Forjando um documento, impregnado de uma retórica exagerada, "científica" e cheia de jargões economicistas, a crônica seguia um roteiro muito parecido com a conferência pronunciada por A. L. Blacklaw, súdito inglês, no Congresso Agrícola em 12 de julho de 1878.76 Nessa conferência, o inglês tentava demonstrar as vantagens dos coolies e desenhava o tipo ideal de trabalhador para o momento de transição entre a escravidão e o trabalho livre.77 Partindo da experiência com os chamados coolies nas Índias Britânicas, recomendava esse tipo de trabalhador por ser "inteiramente servil", embora fossem homens "livres". Dentre as suas "vantagens", destacava que eles se sujeitavam a salários muito mais baixos, eram dedicados inteiramente à lavoura, moravam “sem gastar quase nada” (com simplicidade extrema), usavam pouca roupa, comiam "somente arroz", gostavam muito de dinheiro e, por isso, "poucos mil réis" eram para eles uma fortuna78. Em 1883, Lélio seguia à risca a estrutura da fala de Blacklaw, com a diferença de levar seus argumentos ao extremo. Dessa forma, ficavam explicitadas, na fala do irreverente Lélio, as faces do trabalho livre almejado por fazendeiros e políticos brasileiros.

Além de ridicularizar as expectativas em relação ao trabalho livre no Brasil, Lélio, na crônica de 23 de outubro, colocava em xeque as teorias raciais em voga naquele final de século. Em muitas de suas "Balas de Estalo" o narrador criado por Machado de Assis satirizava as pretensões de verdade absoluta das teorias científicas em circulação.79 A carta de John Sterling, na verdade, se mostrava mais uma ótima oportunidade de deflagrar as lacunas dos discursos racistas e evolucionistas que chegavam da Europa. Desde a década de 1870, os debates sobre a imigração no Brasil foram marcados por um mote racista. Homens como o médico Domingos Jaguaribe, em 1878, vão dizer que era preciso combater a imigração chinesa já que "chins" eram como os africanos, "raças decrépitas no espírito, disformes no corpo, condenadas a desaparecer".80 No Congresso Agrícola, Eduardo Pereira de Abreu afirmava que essa imigração seria uma "calamidade", pois abastardaria a "nossa população jornaleira" inoculando "sangue pobre e degenerado, tóxico e nocivo às grandes leis do cruzamento de raças".81 Já nos debates da Assembleia provincial de São Paulo, em 1880, o chinês era retratado como "poltrão, venal, traiçoeiro, vingativo, amante de Baco". Descritos como "agricultores primitivos, polígamos, gente repugnante que comia insetos, gatos e até ovos com pintinhos por nascer",82 eles serão desprezados como potenciais trabalhadores. Joaquim Nabuco, em 1883, em seu livro O Abolicionismo, dizia que o chinês "viciaria ainda mais a nossa raça", mongolizando a população. Dias antes da publicação da crônica de Lélio, também na Gazeta de Notícias foi publicado o discurso de Alfredo Taunay, no qual o orador condenava o uso daquela "gente fraca" e de "natureza corrupta e débil" como força de trabalho e colonização.83

Por outro lado, aqueles que eram favoráveis ao projeto de imigração chinesa irão também partir de argumentos raciais, defendendo o "chim" como um elemento "intermediário" na escala evolutiva, sendo mais inteligente que os africanos. Porém, o que certamente chamava a atenção de Lélio – e do próprio Machado desde os anos de 1860 e 1870 – eram as falas sobre as expectativas em torno do que seria o trabalhador livre ideal para aquele momento de "transição". Quintino Bocaiuva, por exemplo, em seu livro A crise da lavoura, de 1868, dirá que os chineses, apesar de sua natureza moral "pervertida", tinham "aptidão e energia para o trabalho", além de se sujeitarem a "salários mais baixos".84 J. C. Galvão, em 1870, defendia que os chineses eram "elementos temporários de trabalho", com a qualidade de serem "laboriosos, econômicos, sóbrios, pacientes e subalternos com satisfação".85 Em 1879, o próprio Sinimbu explicitará os termos em que se dava o debate: "Digamos a verdade, sejamos sinceros. A educação e o zelo que recebemos de nossos antepassados, assim como o hábito que temos de mandar sobre os escravos, nos tornarão bem difícil a adaptação de trabalhadores livres e no gozo dos mesmos direitos que nós".86 Para esses homens, os trabalhadores europeus seriam caros, ambiciosos e "impossíveis de regrar".87

Mais uma vez, ao analisarmos as crônicas sobre a imigração chinesa, podemos observar como o método e o tipo de narrador-personagem elaborados pacientemente nas "Balas de Estalo" ajudaram Machado de Assis na construção de um texto tão contundente sobre a questão. Afinal, o tipo de fala visto na crônica do dia 23 de outubro não era novidade para o leitor que estava acompanhando as "Balas de Estalo" de Lélio desde julho daquele ano. O leitor da Gazeta de Notícias provavelmente já se familiarizara com o "jeito" do narrador de "filosofar" sobre política, ciência e sobre os limites entre retórica, ficção e verdade. Nesse sentido, para os que relutavam em aceitar a presença de trabalhadores tidos como "inferiores" racial e culturalmente, Lélio daria uma resposta emblemática. Aproveitando-se certamente dos resultados das acaloradas discussões sobre O primo Basílio em 1878, embalado pelos ecos de seu texto sobre "A nova geração" – no qual o autor criticava uma parte da intelectualidade brasileira que cada vez mais se filiava a teorias estrangeiras como o darwinismo social e o evolucionismo – e, principalmente, no ençalço do deboche feito a tais teorias no romance Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado, através de Lélio, faria da crônica mais uma trincheira dessas muitas batalhas.

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1 Uma versão preliminar deste texto foi discutida no 8º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, ocorrido em Porto Alegre – maio de 2017. Agradeço a todos os participantes do debate que, com seus apontamentos, em muito colaboraram para a versão final deste artigo. Agradeço também aos pareceristas da revista Machado de Assis em Linha a leitura atenta e as importantes sugestões.

2 Segundo Célia Maria Marinho de Azevedo, a despeito de uma "campanha vociferante antichin", tais projetos se iniciaram na década de 1850 e continuaram até meados dos anos 1880. Cf. AZEVEDO, Dois estudos sobre imigração e racismo, p. 60-71.

3 A historiografia destaca que se por um lado havia consenso entre os lavradores sobre a necessidade da vinda de trabalhadores estrangeiros para o Brasil, especialmente se estes fossem europeus, por outro eles divergiam sobre a importação de trabalhadores asiáticos. Cf. EISENBERG, Homens esquecidos: escravos e trabalhadores livres no Brasil. Séculos XVIII e XIX; AZEVEDO, cit., p. 57.

4 RAMOS, As máscaras de Lélio: política e humor nas crônicas de Machado de Assis.

5 O trocadilho feito por Lélio refere-se ao uso da palavra "chim", ou ainda "chin", usadas no século XIX com o sentido de trabalhadores chineses.

6 LÉLIO, Balas de Estalo, Gazeta de Notícias, 23 out. 1883.

7 Sobre esses discursos, cf. AZEVEDO, Dois estudos sobre imigração e racismo.

8 LÉLIO, cit., p. 2.

9 Ibidem.

10 ELEAZAR, Notas Semanais, O Cruzeiro, 14 jul. 1878, p. 1.

11 AZEVEDO, cit., p. 59.

12 PEREIRA, Controvérsia sem tédio: as polêmicas em torno da imigração na crônica de Machado de Assis, p. 36.

13 SCHWARZ, Uma desfaçatez de classe, p. 103-104. Parte deste capítulo de Um mestre na periferia do capitalismo foi publicada com o título "O sentido histórico da crueldade em Machado de Assis" na revista Novos Estudos, em maio de 1987.

14 PEREIRA, Controvérsia sem tédio, p. 38.

15 BEVILACQUA, As últimas crônicas de Machado de Assis, p. 47; PEREIRA, Controvérsia sem tédio, p. 38.

16 RAMOS, As máscaras de Lélio, p. 53.

17 PEREIRA, Introdução.

18 Sobre esse tema, cf. PEREIRA, Introdução; GLEDSON & GRANJA, Introdução; RAMOS, As máscaras de Lélio; FRANCHETTI, Estudos de literatura brasileira e portuguesa; PEREIRA, A realidade como vocação. PEREIRA, A realidade como vocação, 2009.

19 GLEDSON & GRANJA, Introdução, 2008.

20 GRANJA, Machado de Assis: Escritor em formação (à roda dos jornais), p. 34.

21 Idem, p. 75-77.

22 PEREIRA, Introdução; GLEDSON & GRANJA, Introdução.

23 ELEAZAR, Notas Semanais, O Cruzeiro, 25 ago. 1878.

24 GLEDSON & GRANJA, cit., p. 34-35.

25 Evento convocado pelo Visconde de Sinimbu, então ministro da Agricultura, para debater os problemas da "grande lavoura", especialmente no que se referia à "substituição do trabalho escravo", à queda do preço da saca de café, à grande seca que assolava o biênio (1877 a 1878), aos altos preços dos escravos e aos sete anos da aprovação da Lei do Ventre Livre, em 1871. Cf., por exemplo, O Cruzeiro, 8 a 14 jul. 1878. Cf. também EISENBERG, Homens esquecidos.

26 Discurso de Monteiro de Barros apud GLEDSON & GRANJA, cit., p. 163.

27 GLEDSON & GRANJA, cit., p. 26.

28O CRUZEIRO, 8 jul. 1878, p. 1.

29 Ibidem.

30 GLEDSON & GRANJA, cit., p. 26-27.

31 ELEAZAR, Notas Semanais, O Cruzeiro, 14 jul. 1878, p. 1.

32 Ibidem.

33 AZEVEDO, op. cit.; EISENBERG, cit.

34O CRUZEIRO, 8 a 14 jul. 1878.

35 Na seção VI da crônica, Eleazar satirizava o fato de que se bebia na cidade "pau campeche" no lugar de vinho, e comentava os trabalhos da comissão responsável por analisar se os canos da Secretaria da Agricultura estavam contaminando a água com chumbo. Destacando a "dubiedade da solução", o cronista dizia: "a comissão […] terminou os seus trabalhos esta semana e ficou decidido que os canos não envenenam a água, mas os reservatórios de chumbo envenenam e não envenenam". Cf. ELEAZAR, Notas Semanais, O Cruzeiro, 14 jul. 1878, p. 1.

36 Idem, p. 1, grifos meus.

37 A balsa atravessava o rio Jaguarão, rumo à vila de Artigas, no Uruguai.

38JORNAL DO COMMERCIO, 7 jul. 1878, p. 1.

39 Idem, 5 e 8 mar. 1878, p. 2 e p. 3 respectivamente.

40 Os colonos russos no Paraná, O Cruzeiro, 24 fev. 1878, p. 3.

41 Questão russa, Jornal do Commercio, 24 maio 1878, p. 2.

42 Boletim, O Cruzeiro, 23 maio 1878, p. 1; Ineditoriaes, O Cruzeiro, 25 maio 1878, p. 3.

43 O artigo destacava que as terras contestadas pelos russos haviam sido escolhidas pelos próprios colonos. Boletim – Imigrantes russos, O Cruzeiro, 15 jun. 1878, p. 2.

44 A propósito dos colonos russos, O Cruzeiro, 30 jun. 1878, p. 1.

45 Idem, 26 jun. 1878, p. 1.

46 GAZETA DE NOTÍCIAS, 15 e 17 maio 1878, p. 1.

47 Idem, 18 maio 1878, p. 1.

48 Assuntos do Dia, Gazeta de Notícias, 17 maio 1878, p. 1.

49 MENEZES, Os imigrantes russos, p. 2.

50 Alguns artigos falavam em colonização "espontânea" e negavam que governo do Paraná tivesse subsidiado as passagens dos colonos russos. Cf. Jornal do Commercio, 24 maio 1878, p. 2; Gazeta de Notícias, 7 jul. 1878, p. 1.

51 GRINBERG, Fronteiras, escravidão e liberdade no sul da América, p. 9.

52 Idem, p. 15.

53 Sobre o tema cf. GRINBERG & CAE, Escravidão, fronteira e relações diplomáticas Brasil-Uruguai, 1840-1860; ARAÚJO, Desafiando a escravidão: fugitivos e insurgentes negros e a política das liberdades nas fronteiras do Rio da Prata (Uruguai e Brasil, 1842-1865); CARATTI, O solo da liberdade: as trajetórias da preta Faustina e do pardo Anacleto pela fronteira rio-grandense no contexto das leis abolicionistas uruguaias (1842-1862).

54 Interior, Jornal do Commercio, 8 jul. 1878, p. 2, grifos originais.

55 Revistas do Interior, O Cruzeiro, 15 jul. 1878, p. 1.

56O Cruzeiro, 10 jul. 1878, p. 1.

57 MENDONÇA. Liberdade em tempos de escravidão, p. 5.

58 ELEAZAR, Notas Semanais, O Cruzeiro, 25 ago. 1878.

59O Cruzeiro, 15 abr. 1878, p. 3.

60 Idem, 16 abr. 1878, p. 3.

61 Idem, 18 jun. 1878, p. 2.

62 LIMA, Sobre o domínio da precariedade, p. 295.

63 Henrique Espada Lima mostra que o trabalho livre em sua definição "ideal" – que em teoria significaria liberdade de escolha, ausência de coerção para o trabalho, capacidade de mobilidade dos trabalhadores, impessoalidade na relação entre patrão e empregado – era "irreal" no século XIX. O autor argumenta sobre as fronteiras embaçadas entre práticas de trabalho livre e trabalho escravo naquele século. Cf. LIMA, Sobre o domínio da precariedade, p. 290. Sobre a precariedade da liberdade, cf. também CHALHOUB, A força da escravidão.

64 Segundo Magalhães Júnior, Machado de Assis se afastou em setembro de 1878 d’O Cruzeiro quando Henrique Corrêa Moreira fez "pacto" com Martinho Campos, o "escravocrata da gema", para orientar editorialmente O Cruzeiro na defesa desta instituição. Cf. MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo, Vida e obra de Machado de Assis: Ascensão, p. 251-252.

65 RAMOS, Política e humor nos últimos anos da monarquia.

66 Tal como Pantaleão, Colombina e Arlequim, Lélio pertence ao grupo de personagens fixos da Commedia dell’Arte. Cf. RAMOS. As máscaras de Lélio.

67 RAMOS, As máscaras de Lélio.

68 LÉLIO, Balas de Estalo, Gazeta de Notícias, 2 jul. 1883, p. 2.

69 PEREIRA, Introdução.

70 Em artigos inflamados, intelectuais como Taunay e Valentim Magalhães diziam que o uso "daquela gente fraca", de "natureza corrupta e ignóbil", filhos "decrépitos" do Celeste Império, corromperiam o sangue e a sociedade brasileira. Cf., por exemplo, Gazeta de Notícias, 17 e 18 out. 1883.

71 LÉLIO, Balas de Estalo, Gazeta de Notícias, 16 out. 1883, p. 2.

72 Cousas Políticas, Gazeta de Notícias, 15 out. 1883, p. 1.

73 O sr. Tong King SIng (Da Anti-Slavery Reporter), Gazeta de Notícias, 17 out. 1883, p. 1.

74 LÉLIO, Balas de Estalo, Gazeta de Notícias, 16 out. 1883, p. 2.

75 Sobre a precariedade da liberdade e a escravização ilegal no Brasil, cf. CHALHOUB, A força da escravidão; MAMIGONIAN, Africanos livres: a abolição do tráfico de escravos no Brasil.

76 CONGRESSO AGRÍCOLA, p. 256.

77 Blacklaw vai dizer que foram necessários 32 anos para fazer-se nas colônias inglesas a transição do trabalho escravo para o livre, porque antes disso a lavoura não tinha trabalhadores "seguros". Idem, p. 257.

78 Idem, p. 258.

79 Cf. LÉLIO, Balas de Estalo, Gazeta de Notícias, 2 jul. 1883; 23 ago. 1883 e 24 out. 1883.

80 AZEVEDO, cit., p. 40-41.

81 CONGRESSO AGRÍCOLA, p. 39.

82 AZEVEDO, cit., p. 44-46.

83 GAZETA DE NOTÍCIAS, 14, 15 e 16 jul. 1883.

84 AZEVEDO, cit., p. 26-27.

85 Idem, p. 29-30.

86 AZEVEDO, cit., p. 31.

87 Ibidem.

Recebido: 30 de Junho de 2017; Aceito: 12 de Dezembro de 2017

ANA FLÁVIA CERNIC RAMOS possui graduação em História pela Universidade Estadual de Campinas, mestrado e doutorado em História Social da Cultura pela mesma instituição. Concluiu pós-doutorado em Teoria Literária no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp. Professora Adjunta de Teoria e Metodologia da História no Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia – UFU (MG) desde setembro de 2011. Tem experiência na área de História, com ênfase em Literatura e História e História do Brasil Império, atuando principalmente em temas como imprensa, império, crônica, política e ficção e história. E-mail: afcramos@yahoo.com.br.

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