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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.11 no.23 São Paulo Jan./Apr. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201811237 

DOSSIÊ: MACHADO DE ASSIS E A HISTÓRIA

DE BOTAFOGO À TIJUCA: SOBREVIVÊNCIA E AUTONOMIA FEMININA NAS VÁRIAS HISTÓRIAS DE MACHADO DE ASSIS

FROM BOTAFOGO TO TIJUCA: SURVIVAL AND FEMALE AUTONOMY IN VÁRIAS HISTÓRIAS BY MACHADO DE ASSIS

DANIELE MARIA MEGID1 

1Universidade Estadual de Campinas. Campinas, São Paulo, Brasil

Resumo

Buscar uma lógica editorial é tarefa imperiosa para a análise das coletâneas de contos de Machado de Assis, que são compostas por textos publicados em época anterior, formados por outro tipo de materialidade e que posteriormente passaram por um processo de edição realizado pelo literato para reuni-los como uma obra única. Este artigo tem por objetivo refletir sobre a unidade do volume de contos Várias histórias, levando em consideração o modo como pistas deixadas pelo autor na "Advertência" do livro e seus crivos de seleção e organização dos textos possibilitam compreender a obra dentro de um contexto de discussões sobre as várias formas de atuação disponíveis às mulheres frente aos riscos sofridos cotidianamente, em especial em suas relações amorosas.

Palavras-Chave: Machado de Assis; contos; violência de gênero; Várias histórias

Abstract

Seeking an editorial logic is imperative when analyzing the books of short stories by Machado de Assis. These are texts that first appeared in dailies and later underwent an editing process carried out by the author to collect them into a single work. The purpose of this article is to reflect on the unit of the book, Várias histórias, by considering the clues left by Machado de Assis in the book’s "Advertência" (Warning), as well as his scrutiny in selecting and organizing the texts that would be included in this project, which enable us to understand the book within a context of debates about the many possible actions women could resort to when facing the risks they suffered daily, especially in their intimate relationships.

1.

Carlos e Mathilde vieram da Espanha para o Brasil. Primeiro empregaram-se em uma fazenda em Cantagalo, mas logo retornaram ao Rio de Janeiro. Na capital, conheceram o barbeiro José Villa Verde, que ajudou o casal espanhol a se estabelecer: conseguiu que Carlos se tornasse praça no regimento de cavalaria do corpo policial, e tomou Mathilde para ser sua criada. Em pouco tempo, porém, Carlos conseguiu transferir-se para a infantaria, e a esposa de Villa Verde faleceu. Frente à nova configuração dos fatos, o espanhol passou a insistir com a mulher para que saísse da casa do barbeiro, o que ela sempre recusou. Em uma terça-feira de março de 1891, desconfiado de que a relação entre a esposa e o patrão já não era apenas profissional, escreveu à mulher uma carta pedindo resposta definitiva. Como Mathilde se manteve em silêncio, Carlos foi até ela para buscar seu parecer. Encontraram-se, discutiram, e José Villa Verde também se envolveu na contenda. Do suspense passou-se ao horror: Carlos apoderou-se de

[…] um sentimento de súbita indignação, puxou de uma faca e cravou-a no peito de Villa Verde.

Este, ferido, correu para a rua a pedir socorro, e Mathilde, espavorida, tomada de terror, procurou refúgio em um pequeno quarto do segundo andar. Foi aí nesse pequeno aposento, com duas janelas para a rua, que, em vez da vida, encontrou a morte.

Devia ter sido medonha a luta. Com o corpo crivado de facadas, a cabeça inclinada sobre o lado direito, os olhos esbugalhados, o braço direito estendido e o esquerdo com a mão crispada sobre o ventre, a perna direita dobrada sobre a coxa e a esquerda em escorço, jazia a infeliz sem vida no chão, rodeada de um mar de sangue e tendo como a resguardar-lhe a cabeça, já sem vida, uma velha mesa de jacarandá com o tampo de mármore.

Junto à mesa, agitado, com a farda desabotoada, o assassino confessava o crime.1

***

Camilo e Vilela eram amigos de infância. Camilo entrou no funcionalismo e depois arranjou, por intermédio de sua mãe, um emprego público. Vilela mudou-se para a província e se tornou magistrado. Em 1869, porém, retornou ao Rio de Janeiro casado com uma moça chamada Rita e com o propósito de abrir banca de advogado. Camilo ajudou o casal a se estabelecer na cidade, encontrando para eles casa em Botafogo. A reaproximação reatou os laços da antiga amizade e trouxe intimidade entre os três convivas. Aos poucos, porém, Rita e Camilo foram descobrindo afinidades que compartilhavam, e da amizade nasceu a paixão. Entregaram-se ao novo sentimento sem, contudo, abalar a confiança e a estima de Vilela. Esse quadro pacato começa a apresentar os primeiros sinais de turbulência quando Camilo recebe algumas cartas alertando que sua aventura era sabida de todos. Passado algum tempo, o moço recebe outro bilhete, desta vez assinado por Vilela, pedindo que fosse imediatamente à casa do advogado. Camilo dirige-se, tenso, para Botafogo, mas não sem consultar uma cartomante, que garante que o segredo permanecia intocado e lhe restitui a paz. O amante, então, retoma seu percurso:

[…] o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. […]

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

– Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: – ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.2

2.

As duas histórias contadas apresentam um enredo que as aproxima: um triângulo amoroso, favores prestados entre as personagens envolvidas, uma carta que antecede o desfecho trágico, e a tragédia em si, com morte violenta dos amantes provocada pelo marido que se supunha traído. Há ainda outra característica comum às narrativas: ambas foram publicadas na primeira página do periódico Gazeta de Notícias. A primeira, em 19 de março de 1891, sob a manchete "O assassinato de ontem". A segunda, em 28 de novembro de 1884, com título "A cartomante" e ao final assinatura de Machado de Assis.3

A última observação não traz surpresa alguma para os leitores e leitoras mais entusiastas da obra machadiana, que talvez por complacência se tenham deixado levar pela tentativa de suspense, mas que ao se depararem com o trio Vilela-Rita-Camilo já sabiam que tinham à sua frente comentário sobre um dos mais conhecidos contos de Machado de Assis. Ela ajuda, no entanto, a pontuar uma diferença fundamental entre os dois episódios contados: a matéria de que cada um é formado. O primeiro texto retoma exatamente o que seu título expõe: um assassinato real que havia ocorrido no dia anterior no Rio de Janeiro. O segundo, ainda que também falasse de crime, era mais uma peça literária que integrava a vasta obra machadiana. Colocando-os lado a lado, ganha evidência uma questão já muito comentada, mas que continua sendo inescapável quando estudamos literatura e imprensa brasileiras do século XIX: as intensas relações entre realidade e ficção. Essas trocas aparecem numa via de mão dupla, sendo possível perceber tanto os artifícios literários usados pelo colaborador da Gazeta de Notícias para construir o enredo do crime ocorrido no Rio de Janeiro, quanto os elementos do conto de Machado que parecem alimentar-se de casos reais para compor uma história ficcional.4

Gêneros de textos diferentes que se dedicavam a um mesmo problema, de crescente importância nos últimos anos do século XIX brasileiro: a morte de mulheres por seus maridos ou companheiros. Esses casos apresentavam um roteiro comum: um homem ciumento que desconfia da fidelidade da parceira mata-a (podendo também assassinar o amante) e mobiliza uma série de argumentos que sabia serem aceitos naquela sociedade para ser absolvido do crime que cometera.

Carlos Marchal Puyans, o uxoricida do dia 19 de março de 1891, soube reunir com maestria esses elementos de defesa. A primeira estratégia é procurar macular a honra da esposa – se conseguisse convencer que Mathilde não era mulher honesta, encontrava uma justificativa para o crime. O acusado fez isso em três frentes: primeiro por meio da insinuação, dizendo que havia tempos insistia para que a esposa deixasse a casa de José Villa Verde, "onde não estava como empregada". O passo seguinte foi ser mais enfático na acusação de adultério, dando evidências físicas de que Mathilde de fato devia ser amante do suposto patrão: "ela sempre lhe dizia que Villa Verde era bom homem e bom patrão, e que não tivesse zelos porque ela lhe era fiel, apesar de dormir no mesmo cômodo". E, por fim, com o intuito de completar o quadro da falta de caráter da vítima e acabar com qualquer possibilidade de sentimento de empatia por ela, Carlos Puyans também a acusa de homicídio, afirmando que "a mulher de Villa Verde fora envenenada pelo marido e pela assassinada, cujos desejos eram viver juntos".

Em seguida, era preciso mostrar que o crime não foi premeditado: o acusado havia escrito uma carta à esposa e fora buscar sua resposta, mas não com o propósito inicial de matá-la. Tanto é que a arma do crime, alegava, era um item de trabalho, utilizada para o serviço no quartel. Com isso, procurava justificar o fato de a carta que deu início a todo o episódio fatal ter sido escrita dois dias antes, enquanto a faca "com que feriu Villa Verde e assassinou Mathilde" fora comprada "há quatro dias em uma loja da rua do Evaristo da Veiga, por 600 rs".

A última argumentação parece ser, à primeira vista, a estratégia de defesa menos eficaz: o espanhol enfatizou a violência do crime que praticara. Narrou com detalhes a forma como matou a mulher a facadas, disse que bateu "com o corpo de Mathilde várias vezes de encontro à porta da sala, até que arrebentou uma das tábuas da mesma porta"; conta que a matou "com uma faca, porque não quis desonrar o meu sabre, cravando-o no peito de uma rameira". Todo esse cenário de ódio exacerbado ("saciava o meu ódio naquele corpo já inerte, quando entraram um paisano, a quem entreguei a faca, e uma praça, à qual fiz entrega do meu sabre") contribui para a justificativa de que "foi levado a praticar o crime pelo desespero de que foi dominado".5

Estava concluída, passo a passo, a defesa cabível a um uxoricida no século XIX: reforçar a desonra da mulher, dizer que o crime não foi premeditado e insistir na suspensão temporária do juízo em função do ciúme de que o criminoso fora acometido. Tudo isso para justificar que o assassinato ocorreu em período de loucura temporária do homem e contra mulher merecedora de punição, com vistas a lograr uma absolvição. Não seria necessário que Evaristo de Moraes, no começo do século XX, tornasse essa fórmula de defesa de uxoricidas um clássico.6 Os elementos necessários a uma tal defesa e a possibilidade de ela ser aceita pelo júri eram conhecimento acessível mesmo a pessoas comuns como Carlos Puyans.

Se o praça de origem espanhola sabia como agir para conseguir se livrar da pena, Vilela, de "A cartomante", talvez também contasse com a ausência de punição após matar a esposa e o melhor amigo. Não sabemos o desfecho de sua história, visto que o conto termina com Camilo morto, estirado no chão. Mas, ex-magistrado que era, é possível supor que Vilela conhecia como ninguém as leis com que podia contar. Se o crime da ficção foi cometido em fins de 1869, a Constituição vigente no período era a de 1824, que estabelecia que a lei era igual para todos. Porém, o Código Criminal de 1830 enxergava de formas diferentes o adultério feminino e o masculino. Nele, era prevista uma pena de prisão com trabalho por um a três anos à mulher casada que cometesse adultério, enquanto sofreria a mesma pena "o homem casado, que tiver concubina, teúda e manteúda". Além disso, no artigo 253, ao explicar que a segunda pessoa envolvida no adultério também era passível de criminalização, a redação do Código prevê pena apenas para o adultério feminino: "A acusação por adultério deverá ser intentada conjuntamente contra a mulher, e o homem, com quem ela tiver cometido o crime, se for vivo; e um não poderá ser condenado sem o outro".7 Não havia, entretanto, artigo equivalente para o caso de o adúltero ser o marido.

No mesmo Código, o adultério era tomado apenas como atenuante de um crime, e não como motivo de absolvição.8 Porém, as Ordenações Filipinas ainda estavam bastante enraizadas nos costumes brasileiros, e seu uso permanecia influenciando as deliberações no país no que concerne aos crimes motivados por adultério. Vejamos o que dizia o documento em seu livro V, título XXXVIII – "Do que matou sua mulher, pô-la achar em adultério":

Achando o homem casado sua mulher em adultério, licitamente poderá matar assim a ela, como o adúltero […].

E não somente poderá o marido matar a sua mulher e o adúltero, que achar com ela em adultério, mas ainda os pode licitamente matar, sendo certo que lhe cometeram adultério; e entendendo assim provar, e provando depois o adultério por prova lícita e bastante conforme ao Direito, será livre sem pena alguma […].9

Assim, havia um amplo leque de discursos legais de que Vilela dispunha para empreender sua defesa. E, no contexto em que viveu, a absolvição era algo com que o advogado poderia contar. A perspectiva de liberdade no horizonte de uxoricidas possivelmente contribuiu para a maior frequência desse tipo de crime. Sua intensificação, entretanto, começava a alarmar aqueles que acompanhavam a rotina de casos como esses nos periódicos do Rio de Janeiro de finais do século XIX. Frente a essa situação, começaram a surgir reações bastante variadas.

Uma reação muito comum entre os homens de letras da época era chamar à reflexão sobre o casamento, e como ele deveria ser conduzido de modo a evitar esse desfecho trágico (traição seguida de assassinato). Em 1895 surgia no Rio de Janeiro o Livro de uma sogra, de Aluísio Azevedo, que pretendia justamente debater sobre a melhor forma do matrimônio. Olavo Bilac, sob o pseudônimo Fantasio, comenta o assunto no periódico A Cigarra na mesma coluna em que anuncia a publicação da coletânea machadiana Várias histórias, na qual estava incluído o conto "A cartomante". Em seu texto, Bilac ironiza toda a atenção recebida pelo livro de Azevedo e pelo tema por ele abordado:

[…] O Rio de Janeiro fez-se filósofo. A rua do Ouvidor está atulhada de fisiólogos e de psicólogos. A cada passo, dá-se um pontapé num sistema. A cada esquina, acotovela-se uma teoria. Se virdes cinco ou seis janotas, abancados a uma mesa do Paschoal ou postados à porta do Londres, ficai sabendo que estão com certeza discutindo qualquer destes pontos graves de que, parece, dependem a sorte da Família e o destino da Pátria, e, por consequência, a sorte e o destino da Humanidade. "1º onde pode residir o amor verdadeiro e duradouro? no concubinato ou no casamento? 2º devem os cônjuges dormir juntos?; 3º etc., etc., etc."

Essas graves questões começaram por preocupar um romancista; depois preocuparam a crítica; depois a crônica; depois os artigos de fundo. Agora, até a mesma grave Revista Brasileira acaba de entrar na discussão.

É a questão do dia, repito. E não me queixo disso, porque a mania é inofensiva. Antes agitar discussões psicológicas que não atam nem desatam casamentos, do que agitar discussões políticas que atam e desatam estados de sítio. E, se assim é, minhas senhoras, também em [sic] vou dizer a minha opinião sobre o casamento!10

A opinião do autor da coluna era que as teorias dedicadas a estabelecer a melhor forma de conduzir o casamento não valiam o tempo gasto sobre elas. Para Olavo Bilac, tudo poderia resolver-se de forma simples: experimentar o amor sem raciocinar e viver o casamento conforme a tradição em que tiver sido criado. Sobre as preocupações em torno do adultério e dos crimes por ele motivados, Bilac sintetiza:

[…] O segredo da felicidade é não procurar ser mais feliz do que os outros. Se te aborreceres de tua mulher, lembra-te de que há milhões de homens que, à mesma hora, estão também profundamente aborrecidos das suas. Se ela te for infiel, lembra-te de que não és tu o primeiro desgraçado a quem sucede tal cousa. Ama-a enquanto puderes amá-la; quando não puderes mais amá-la, estima-a; quando não puderes mais estimá-la, atura-a; e, quando não puderes mais aturá-la… continua assim mesmo a aturá-la.11

A fórmula era simples: mantendo uma dose de paciência e resignação, o casamento não teria um desfecho trágico. Porém, a construção do trecho já demonstra a consciência de que a tragédia era um risco real que rondava as relações do período. Quando o autor insere em seu texto as reticências e suspende por um momento a leitura, logo antes de sugerir o que deveria fazer um homem quando já não mais aturasse sua mulher, ele joga com essa possibilidade de fim. Quem soubesse o que era viver em uma relação sob constante ameaça de violência poderia, mesmo que por uma fração de segundo, imaginar que a conclusão óbvia para o homem que não mais aturasse a esposa seria matá-la. Olavo Bilac subverte essa expectativa quando conclui que o certo a se fazer é continuar "assim mesmo a aturá-la".

Conselho óbvio, mas talvez de pequena eficácia imediata. Se a tradição legitimava as ações violentas dos maridos, e o Código Criminal não parecia afugentar de modo contundente esses ímpetos, por que o autor abordaria esse tema de modo tão descompromissado? Aparentemente (e conforme ele comenta por duas vezes em sua coluna), ele acreditava que "filósofos, poetas e romancistas não endireitam o mundo". Talvez esperasse que outras instâncias assumissem a tarefa de endireitá-lo, aquelas mais importantes, das "discussões políticas que atam e desatam estados de sítio".

Machado de Assis, ao se posicionar a respeito desse panorama de discussões, parecia adotar uma postura quase inversa. Em crônica de 21 de outubro de 1894, que se inicia fazendo menção a casos de mulheres que foram mortas, Machado constrói a seguinte reflexão:

Amor! assunto eterno e fecundo! Primeiro vagido da terra, último estertor da criação! Quem, falando de amor, não sentir agitar-se-lhe a alma e reverdecer a natureza, pode crer que desconhece a mais profunda sensação da vida e o mais belo espetáculo do universo. Mas, por isso mesmo que o amor é assim, cumpre que não seja de outro modo, não permitir que se corrompa, que se desvirtue, que se acanalhe. Onde e quando não for possível tolher o mal, é necessário acudir-lhe com a lei, e obstar à inundação pela canalização. Creio ser esta a tese do discurso do sr. Capelli. Não a pode haver mais alta nem mais oportuna.12

O discurso do sr. Capelli foi apresentado pelo cronista como uma reunião de referências históricas e literárias as mais variadas possíveis, fazendo o argumento da autoridade soar estapafúrdio. Ao final, o que pretendia o intendente municipal era justificar um projeto de lei que previa "a educação da mulher, a proibição legal da mancebia, o divórcio e a regulamentação da prostituição pública"; com esse conjunto seria possível remediar situações como as anunciadas no início da crônica. Machado de Assis, porém, não se mostra convencido disso: "Será aprovado [o projeto]? Pode ser. Será cumprido?".13 E com essa interrogação desacreditada conclui seu texto.

Na crônica, ao contrário de Olavo Bilac em A Cigarra, é a postura oficial que é questionada por Machado. Frente à gravidade da situação que observava no que diz respeito à violência de gênero que rondava os casamentos, o cronista parecia não confiar na eficácia da lei. Era preciso apostar em estratégias políticas cotidianas para tentar controlar a situação. Em outros momentos de sua trajetória literária Machado já demonstrara a postura de assumir a literatura como veículo de debate e de intervenção social. Se em 1895 Bilac falava aos homens para não matarem suas mulheres, Machado de Assis, à mesma época, talvez tenha se dirigido a elas para alertar sobre a importância de se protegerem. Os conselhos podem ter vindo em forma da coletânea de contos Várias histórias.

3.

Várias histórias é a quinta coletânea de contos de Machado de Assis, e saiu com a data da primeira edição como 1896. Porém, a partir da metade de outubro de 1895 começaram a surgir na imprensa do Rio de Janeiro resenhas críticas ou notícias da chegada do livro. Os dezesseis contos que integram a coletânea tiveram sua primeira versão publicada na Gazeta de Notícias, entre 1884 e 1891, sendo que catorze deles apareceram no periódico de 1884 a 1886. Ou seja, Machado levou quase uma década para reuni-los em livro. Esse procedimento chama a atenção porque difere em muito do que vinha adotando, principalmente nos dois volumes anteriores de contos que organizou. Papéis avulsos e Histórias sem data são lançados em período muito próximo ao da publicação original dos contos. Especialmente no caso de Histórias sem data, a observação do aparecimento de seus contos na imprensa dá a impressão de que, a partir de certo momento, em 1883, Machado começou a publicar contos de maneira sistemática, como se já imaginasse a reunião pouco adiante – os dezoito contos do volume foram publicados originalmente entre fevereiro de 1883 e junho de 1884, e neste mesmo ano coletados para compor o livro.14

Dessas constatações, fica a dúvida sobre por que Machado teria levado quase uma década entre o momento de escrita e publicação na imprensa dos contos que integram Várias histórias e o ano de reunião do volume. Em outras palavras, compreender o processo de composição do livro pode passar, nesse caso, por buscar um sentido que confira unidade a ele. Isso porque, reunidos lado a lado em um novo suporte,

[…] nosso literato poderia rearranjar os significados de cada história, tentar direcionar seus leitores e criar novos sentidos, sempre partindo de narrativas já conhecidas. Claro que o resultado disso tudo, quando chegava às mãos de seus leitores, poderia receber interpretações não imaginadas pelo organizador do livro.15

O próprio autor dá indícios, em sua correspondência, sobre a possibilidade de construção de novos sentidos a partir de matéria antiga. Em carta que escreve a Magalhães de Azeredo agradecendo os elogios feitos pelo amigo ao recém-publicado Várias histórias, Machado comenta que "o que me agradou nesse livro foi ver que, embora composto, parte dele, há dez anos, não pareceu velho aos que o leram; concluo que há nele alguma coisa que prescinde do momento da concepção".16 Qual seria essa "coisa", esse tema que prescindiria do momento da concepção dos contos e tornaria a aflorar em 1895, quando por força de trabalho editorial aqueles textos fossem obrigados a dialogar entre si?

A pergunta é complexa e certamente aceita mais de uma solução. Um caminho para iniciar a investigação pode ser partir da advertência, essa sim escrita especificamente para a versão em livro, talvez com o intuito de começar a colher pistas a respeito das possibilidades de leitura daqueles contos em conjunto. Nela, Machado insinua que a escolha dos textos que compõem o volume foi ocasional, e que eles não têm outra intenção senão a de ocupar as horas de ócio do leitor, como uma forma de passar o tempo. Porém, logo em seguida ele menciona o autor Prosper Mérimée, dizendo que seus textos "Não são feitos daquela matéria, nem daquele estilo que dão aos de Mérimée o caráter de obras-primas".17 Estava aberta uma janela: por que, entre tantas referências disponíveis, Machado escolheu citar o escritor francês na abertura de seu novo livro? Quais chaves de leitura essa indicação poderia oferecer, ainda que o literato brasileiro a tenha usado para se colocar em posição inferior ao autor citado?

Prosper Mérimée viveu na França, entre 1803 e 1870, e se tornou um escritor conhecido. Sua obra de maior sucesso foi a novela Carmen, publicada pela primeira vez em 1845 na Revue des Deux Mondes e depois como livro em 1847. O sucesso do texto foi tal que, em 1875, Georges Bizet a transformou em ópera. A história ficou muito conhecida no Brasil, especialmente por meio das diversas encenações de Carmen nos teatros do Rio de Janeiro. A ópera foi representada na Corte inclusive em 1883, um ano antes da publicação do conto "A cartomante" (que abre o volume Várias histórias) na Gazeta de Notícias. É também desse ano o exemplar da novela que Machado tinha em sua biblioteca.18

Carmen19 conta a história de dom José, famoso salteador espanhol que em uma circunstância de sua vida conhece o autor suposto da novela e decide, pouco antes de se cumprir a sentença de morte que havia recebido, compartilhar sua trajetória com esse quase desconhecido. Era um homem de origem basca que desde cedo se engajou na profissão militar. Tudo corria bem em sua carreira, ele inclusive conseguira se promover rapidamente, até que conhece Carmen, uma cigana que trabalhava na fábrica de tabaco em que dom José servia de guarda.20 Num episódio em que a cigana golpeia com uma faca o rosto de uma companheira de serviço, o narrador das memórias é incumbido de conduzi-la à prisão. No percurso, Carmen seduz o guarda e convence-o a deixá-la fugir. Por esse ato, d. José é preso.

Depois de libertado, vai atrás da mulher que o havia enfeitiçado, e começa a se relacionar com ela. Daí em diante a vida de dom José ruma cada vez mais para a decadência. O amor que sentia por Carmen fez com que ele abandonasse a correta carreira militar e entrasse na ilegalidade. Não bastasse isso, a desenvoltura da mulher a todo momento despertava no basco o que de pior havia nele: ciúmes, ímpetos violentos (contra Carmen e contra os homens com quem ela se envolvia), tudo foi se intensificando até conduzi-lo ao primeiro homicídio que cometeu – matou um tenente com quem a cigana se envolvera para conseguir uma vantagem particular. A próxima vítima seria o marido de Carmen (apenas tardiamente dom José descobriu que sua amada era casada). A terceira e última pessoa morta pelo espanhol foi a própria cigana, mas não sem antes a novela distribuir um sem-número de ameaças proferidas pelo homem à amante.

Logo antes do primeiro encontro íntimo que Dom José teria com Carmen, eles discutem e o homem confessa que teve "que fazer um esforço muito grande para não bater nela".21 Mais adiante, sem conseguir compreender que o estilo de vida da cigana dependia dos jogos de sedução que ela criava junto a outros homens, o basco diz à mulher que ela "parece uma vagabunda sem-vergonha e eu tenho muita vontade de retalhar seu rosto na frente de seu namorado".22 Das injúrias, dom José parte para a agressão física: "tivemos uma discussão violenta e eu bati nela".23 Não tendo muito mais para onde deixar crescer seu ciúme e seu ódio, o protagonista confessa: "Estou cansado de matar seus amantes. A você é que matarei".24

A ameaça logo se cumpriria: percebendo que não poderia ter a mulher confinada em limites estabelecidos por ele, dom José decide enfim matá-la:

O furor tomou conta de mim. Puxei a faca. Desejaria que ela tivesse medo e me suplicasse misericórdia, mas aquela mulher era um demônio.

– Pela última vez – gritei –, você quer ficar comigo?

– Não! Não! Não! – disse ela, batendo com o pé.

Tirou do dedo um anel que eu lhe tinha dado e jogou nos espinhos.

Eu a feri duas vezes. Era a faca do Zarolho [marido de Carmen morto por dom José] que eu tinha apanhado, já que havia quebrado a minha.

Ela caiu com o segundo golpe, sem gritar. Parece que ainda vejo seus grandes olhos negros me olharem fixamente. Depois, eles ficaram turvos e se fecharam.25

Finalmente se cumpria o epigrama do poeta grego Palladas, tomado de empréstimo por Mérimée para servir de epígrafe à sua novela: "Toda mulher é um veneno que tem apenas dois momentos bons: um na cama, outro na morte".26

A lembrança de Mérimée na página de apresentação de Várias histórias pode ter a intenção de influenciar a leitura dos contos que se seguiriam. Se Machado se compara ao escritor francês no que tange ao estilo, talvez deixasse brecha para os leitores e leitoras pensarem que o tema da tragédia estrangeira também pudesse fazer parte da composição do livro de contos que agora traziam nas mãos. Se lembrarmos, ainda, que a obra que inaugura Várias histórias é "A cartomante" e considerarmos que o conto de abertura ocupa uma posição de destaque, servindo como fio condutor para a interpretação dos outros que a ele se seguem, podemos ter encontrado uma pista para acompanhar no que diz respeito à tentativa de compreender um possível mote de relevo no livro.

4.

Machado de Assis escolheu inaugurar Várias histórias com uma das narrativas mais trágicas que criou. A memória de Carmen deixada pela "Advertência" pode ter intensificado essa atmosfera de perigo e feito com que os leitores já de início temessem pelo destino de Rita, tão logo descobrissem que ela estava enamorada do melhor amigo de seu marido.

Como o pano de fundo do conto já foi comentado, podemos passar à análise de elementos mais específicos da narrativa. A maior parte do enredo é focada na relação adúltera de Camilo e Rita, preocupando-se em contar como essa relação começou e como cada uma das personagens se comportou frente aos percalços que foram surgindo. Ainda que Camilo compare Rita a uma criança (diz que seus sustos pareciam de criança), é ele quem a todo momento no conto é mostrado de forma algo infantilizada, especialmente no que tange à sua postura frente às mulheres com as quais se relaciona. Assim, trabalha apenas porque a mãe lhe arranjou um emprego público; não compreende como a amizade sua e de Rita transformou-se em amor ("Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca"27); era, como mostra o narrador, "um ingênuo na vida moral e prática. […] [Não tinha] Nem experiência, nem intuição".28

Rita, por seu turno, apresenta uma postura mais protagonista: seus "olhos teimosos"29 procuravam muita vez os de Camilo, tendo empreendido com maestria a conquista do moço: "como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado".30 Mas, talvez o mais importante, Rita parece contar com um olhar mais perspicaz, capaz de analisar os riscos envolvidos naquela nova configuração de relações e criar estratégias para lidar com eles. Ao primeiro sinal de possibilidade de ter a relação adúltera desvendada, Camilo diminui as visitas à casa de Vilela, o que apenas contribui para suscitar desconfianças no advogado, obrigando Camilo a dar uma desculpa que não é convincente. Rita, ao contrário, traça um plano sobre como agir frente àquela ameaça: pega a carta de denúncia recebida por Camilo ("que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos"31) com o intuito de comparar as letras dos subescritos que chegassem à sua casa. Se encontrasse caligrafia semelhante à da mensagem anônima, interceptaria a correspondência.

O plano era bom, mas, como sabemos, não funcionou. Certo dia Camilo recebe um bilhete de Vilela, que dizia: "– Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora".32 Imediatamente Camilo estremeceu: lembrou-se da carta anônima; da preocupação de Rita na véspera, dizendo que o marido andava sombrio; achou a letra trêmula; desconfiou do tom imperativo do recado do amigo e do fato de haver-lhe chamado para ir à casa dele, enquanto o mais natural seria que pedisse uma visita ao escritório. Enfim, havia motivos de sobra para o amante desconfiar do pior e procurar se proteger. Mesmo assim, tudo o que ele faz é rumar para a casa de Vilela e, no caminho, parar para se consultar com a cartomante que já havia recebido uma visita de Rita num passado recente.

Ainda que nesse ponto pareça que tanto Rita quanto Camilo compartilham de uma mesma credulidade (os dois entregam suas dúvidas para serem solucionadas por uma cartomante e ambos são igualmente enganados por ela), essa é apenas uma falsa simetria. Rita confia à cartomante uma questão de menor monta: estava preocupada que Camilo não mais a amasse. Mas, no momento em que algo de maior gravidade surge no horizonte, como a carta anônima que indicava a possibilidade de o marido descobrir sua traição, a sugestão da mulher não é consultar uma cartomante para que fosse definido o destino de suas vidas. Antes, Rita toma uma atitude concreta com vistas a evitar uma tragédia (no caso, atentar para a correspondência que chegasse à sua casa). Com Camilo é diferente: mesmo munido de uma série de informações e de suspeitas, não toma todas as precauções que estavam ao seu alcance (poderia ter ido ao encontro de Vilela armado, por exemplo, ideia que o próprio moço chega a cogitar mas logo abandona, achando-se exagerado). A falta de vivência de uma situação de opressão e ameaça, aliada à infantilidade e à ingenuidade de Camilo, faz com que ele não seja tão cauteloso quanto Rita. Assim, o sopro de otimismo proferido pela cartomante instantaneamente lhe restitui a paz e o conduz à casa de seu futuro algoz, onde se juntaria à Rita na cena do canapé ensanguentado.

O conto reúne uma série de elementos que serão retomados nos demais textos que compõem as Várias histórias: a ideia de que as mulheres têm uma percepção mais apurada acerca do que as rodeia; a consciência de que há ameaças reais e riscos constantes a que elas são submetidas; a necessidade de estarem atentas e criarem estratégias para se resguardarem.

Apesar de tudo isso, "A cartomante" traz um erro de cálculo por parte de Rita, que acaba engrossando os números da época referentes a mulheres assassinadas por seus companheiros. Mas o tom que Machado procura imprimir à sua coletânea não é o de vitimização das mulheres. O livro é aberto com a narrativa de uma tragédia, o que poderia ser recebido pelas leitoras como um sinal de alerta. A partir daí, era preciso discutir como, então, nesse ambiente violento e opressor, era possível que as mulheres mantivessem sua liberdade e criassem espaços de autonomia sem colocar em perigo a própria vida. Outros contos de Várias histórias talvez auxiliassem a encontrar soluções para essa situação.

5.

O conto que se segue é "Entre santos". Nele, novamente é retomada a esfera do incrível: em "A cartomante" há a presença da mulher que contava com a superstição alheia para desvendar os corações aflitos; em "Entre santos” são os santos da igreja que têm acesso à alma dos fiéis que buscam perdão. No conto, um capelão, ao verificar se a igreja estava bem fechada, escuta vozes vindas do templo. Vai verificar e descobre que eram os santos que haviam descido de seus altares e entabulavam conversações. O tema dos diálogos eram os pedidos dos fiéis que por lá passaram durante aquele dia. O primeiro a narrar sua história foi S. José. Era a reza de uma adúltera, que talvez o tenha escolhido para santo de confissão confiando que ele poderia ser complacente com ela (afinal, S. José foi aquele que, segundo a Bíblia, recebeu a mensagem de um anjo informando que sua esposa, Maria, virgem, encontrava-se grávida, porém não de outro homem, senão do próprio Deus). Assim o santo conta a história de sua devota:

[…] Vinha pedir-me que lhe limpasse o coração da lepra da luxúria. Brigara ontem mesmo com o namorado, que a injuriou torpemente, e passou a noite em lágrimas. De manhã, determinou abandoná-lo e veio buscar aqui a força precisa para sair das garras do demônio. Começou rezando bem, cordialmente; mas pouco a pouco vi que o pensamento a ia deixando para remontar aos primeiros deleites. As palavras, paralelamente, iam ficando sem vida. Já a oração era morna, depois fria, depois inconsciente; os lábios afeitos à reza, iam rezando; mas a alma, que eu espiava cá de cima, essa já não estava aqui, estava com o outro. Afinal persignou-se, levantou-se e saiu sem pedir nada.33

Em "A cartomante" já estava dito: 1) que mulheres poderiam se envolver em relações adúlteras; 2) que havia a possibilidade de isso ser descoberto, seja por meio de cartas de denúncia anônimas, seja a partir da observação de indícios deixados escapar pelos amantes e captados por alguém treinado para ser sensível a essas pequenas pistas, como a cartomante; 3) que se nada fosse feito a esse respeito o desfecho da história poderia ser trágico (no caso de “A cartomante", uxoricídio seguido de homicídio). Em "Entre santos", os dois primeiros itens, que correspondem à constatação e à denúncia do adultério, são abordados: há a mulher adúltera que vai à igreja rezar e o santo que acessa o transtorno em sua alma. Mas a paixão da mulher era maior do que qualquer vontade de regeneração, o que a levou a deixar a igreja sem concluir seu pedido de perdão e transformação. Ficamos sem saber o que aconteceu com essa moça, porque sua história é interrompida pela narração de outro santo, que quer contar como um homem avaro havia ido aquele dia pedir-lhe a cura da esposa doente. O terceiro elemento constituinte do conto de abertura de Várias histórias (a tragédia ou a indicação sobre a necessidade de evitá-la) ficava faltando. Mas isso não era motivo de angústia: bastava virar a página que no conto seguinte, "Uns braços”, conheceríamos d. Severina e a história de como ela lidou com uma paixão de ocasião e um marido violento dentro de sua própria casa.

A primeira informação que temos ao ler esse conto é justamente sobre o caráter explosivo de um tal "solicitador" que, pouco mais adiante, descobriríamos se tratar do marido de d. Severina. Assim começa "Uns braços”:

Inácio estremeceu, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.

– Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!34

Inácio era um menino de quinze anos que estava havia cinco semanas vivendo na casa de Borges, o solicitador, a pedido do pai, que sonhava em ver o filho no foro. Sobre a pergunta retórica que lhe havia sido feita, se o menino pudesse ser honesto com o solicitador sem colocar em risco a própria integridade física, responderia que andava com a imaginação nos braços da esposa do patrão, d. Severina. Borges, no entanto, continuava a ralhar com o garoto por problemas ocorridos com os serviços prestados na rua, sem imaginar que poderia haver questões domésticas mais graves com as quais se preocupar.

D. Severina, ao contrário, parecia mais atenta à cena que acabara de presenciar:

Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha ali outra cama), d. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma cousa. Rejeitou a ideia logo, uma criança! Mas há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra ideia não foi rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim.35

Enquanto refletia sobre tudo isso, foi interrompida pelo marido que, ao reparar em seu ar pensativo, deflagrou a seguinte sentença: "Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos…".36 A ameaça estava feita. A leitora ou o leitor que tinham há pouco sido lembrados de Mérimée (e, com algum esforço extra, de sua Carmen) e apresentados à saga de Rita, talvez começassem a temer pela sorte de d. Severina.

Mas a esposa de Borges sabia com quem estava lidando: nos surtos de raiva do marido, "D. Severina apaziguava-o com desculpas, […] fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais".37 Sentindo-se segura com Borges dormindo, ela volta a refletir sobre a descoberta que acabara de fazer. Pensou em denunciar Inácio ao solicitador; depois retrocedeu da decisão, ponderando que não possuía dados sobre o amor do menino, podia ser tudo ilusão dela; em seguida nega essa última hipótese, convencendo-se de que as distrações do mocinho não eram devidas a outra razão que não a paixão pela esposa do patrão. "Daí a pouco (capciosa natureza!) refletindo que seria mau acusá-lo sem fundamento, admitiu que se iludisse, para o único fim de observá-lo melhor e averiguar bem a realidade das cousas."38 Nessa passagem em que encontramos d. Severina travando com ela mesma um debate no âmbito das ideias, vemos uma mulher que a todo momento está tomando decisões – denunciar ou não o menino, de acordo com o privilégio que dava ora à sua curiosidade/paixão, ora à sua segurança/autopreservação. Em todo caso, a mulher trazia uma postura ativa, que em momento algum supunha submeter-se pura e simplesmente à autoridade e aos rasgos de violência do marido. Antes, o que ela calculava era a melhor forma de combinar suas vontades com a cautela necessária àquela situação.

A mulher se percebe cada vez mais enlevada por Inácio, até o dia em que, estando o menino dormindo e o marido na rua, ela se aproxima do aprendiz e deixa-lhe um beijo na boca. O menino, por sua vez, crê que tudo não passou de um sonho. Depois dessa investida, d. Severina passa a viver tensa, com uma constante sensação de insegurança e, com isso, volta a tratar Inácio com frieza e severidade. Poucos dias depois, sem nenhuma explicação mais detida por parte do narrador, Borges "mandou dizer ao pai [do menino] que não podia ficar com ele; e não o fez zangado, porque o tratou relativamente bem e ainda lhe disse à saída: – Quando precisar de mim para alguma cousa, procure-me".39

A falta de justificativa na decisão do solicitador leva a crer que d. Severina teve papel determinante na atitude do marido. Ela parece ser a única que compreendia tudo o que estava acontecendo na casa, e achou por bem se proteger afastando a tentação. O leitor não tem acesso a como teria sido a conversa do casal, mas é de se supor que aquela mulher, sempre tão perspicaz, tenha sabido conduzir o solicitador a agir conforme ela pretendia, mas com ele tendo a impressão de que fazia sua própria vontade. Estratégia feminina que, de tão comum, já virara até chiste na revista A Estação:

O dono da casa queria que o quadro ficasse dependurado à direita; a dona empenhava-se para que ficasse antes à esquerda. Finalmente manda quem pode que se coloque onde ele disse. Chega o José e enterra um prego à direita, porém logo em seguida enterra outro à esquerda.

– Para que serve este segundo prego, José? – diz o amo.

– É para não ter que voltar com a escada… amanhã… quando o patrão for da opinião da patroa.40

D. Severina mostra que era possível encontrar espaços de autonomia dentro do casamento, mas reforça ao mesmo tempo a necessidade de, para agir em segurança, estar constantemente fazendo cálculos sobre a melhor forma de proceder e criando espaços de negociação. Pouco mais adiante Várias histórias traria a trajetória de uma mulher que optou por não fazer parte dessa arena complexa de estratégias políticas femininas demandadas pelo casamento.

"A desejada das gentes" conta a história de Quintília, moça bonita e rica que atraía olhares de muitos homens da região, mas que sistematicamente recusava a corte de todos. Os galanteadores rejeitados faziam chalaça das negativas da mulher: "um dizia que era promessa até ver se engordava primeiro; outro que estava esperando a segunda mocidade do tio para casar com ele; outro que provavelmente encomendara algum anjo ao porteiro do céu".41 Mesmo o narrador, apesar de haver sido o homem que mais conseguiu se aproximar do coração de Quintília, não interpreta a amiga de forma mais profunda, e conclui com a fórmula simplista segundo a qual "aquela moça tinha ao casamento uma aversão puramente física".42

Que Quintília tinha aversão ao casamento é algo com que se pode concordar. Ela chega mesmo a jurar que nunca se casaria. Os motivos que a fazem tomar essa decisão, contudo, merecem maior atenção. No que diz respeito às questões sentimentais, o narrador conta que a moça não era ignorante, conhecia histórias de amor reais e ficcionais: sobre os livros, “se as paixões aí eram violentas, largava-os com tédio"; na esfera da realidade, "tinha notícia vaga das paixões, e assistira a algumas alheias".43 Talvez essas narrativas conhecidas por Quintília não inspirassem na moça vontade de experimentar vida semelhante. A literatura e os jornais da época traziam elementos de sobra para ela acreditar que nem sempre romances terminavam em finais felizes. O caráter do próprio narrador confirma que a prudência da mulher era acertada: ele confessa que se incomodava com toda atenção que a amada recebia de outros corações apaixonados – "Tive ciúmes amargos e, às vezes, terríveis. Todo argueiro me parecia um cavaleiro, e todo cavaleiro um diabo".44 O ciúme provocava no conselheiro reações exageradas, levando ao extremo o ditado "fazer de um argueiro um cavaleiro": ele não só transformava um cisco num cavaleiro, como o cavaleiro logo era convertido em ameaça máxima, num diabo. Isso não deve ter ficado imperceptível a Quintília, que ao recusar a proposta de casamento do conviva nota a convulsão provocada nele, e o observa "como se olha para uma pessoa cujas faculdades parecem transtornadas".45 A moça, que conhecia histórias de paixões violentas, poderia também conhecer os estragos praticados em nome do ciúme, e ter consciência de que sua alegação muitas vezes valia uma absolvição.

Em todo caso, o temor pela própria integridade física não parece ser o único motivo que levou a protagonista do conto a decidir manter-se solteira. Como já mencionado, não era apenas a beleza que fazia dela "a desejada das gentes": Quintília também era rica, e esse fato não passou despercebido entre seus pretendentes. Se o casamento era considerado um caminho possível para as mulheres ascenderem socialmente, a personagem não precisava percorrê-lo. Por outro lado, como mostra Lafayette Rodrigues Pereira, em seu Direitos de família publicado em 1869, dentro do matrimônio pertencia ao marido o direito de administrar os bens do casal, podendo ele dispor dos bens móveis como bem entendesse, e dos imóveis conforme as restrições previstas pela lei.46 Assim, o casamento também poderia significar para Quintília uma perda da autonomia e do controle sobre sua propriedade.

Cercada de motivos que a convenciam de que a recusa ao casamento era a melhor opção, restava ainda transpor outra barreira: fazer sua decisão ser respeitada. Ciente das tentativas da sociedade de expurgar a voz e ignorar as vontades femininas (lembremos as explicações pífias que os namorados rejeitados davam para as constantes negativas da moça), Quintília fez o melhor uso que pôde das regras do jogo: buscou uma voz masculina que ratificasse aquilo que ela mesma queria proferir. Então, a cada proposta recebida declarava que tomaria a decisão indicada pelo tio, com quem morava. Porém, o próprio narrador expõe que ela de antemão já sabia que o tio aconselharia a recusa. Fica ainda mais perceptível que tudo se tratava de uma estratégia quando Quintília permanece declinando propostas de casamento mesmo após a morte do tio.

A solteirice da moça é mantida até os últimos momentos de sua história. Quintília adoece e, depois de confirmar com o médico que estava de fato perdida, finalmente aceita casar com o conselheiro que narrava toda aquela saga. Foi noiva moribunda e abraçada pela primeira vez "feita cadáver", quando o matrimônio não mais colocava em risco nem sua vida, nem sua independência.

O mesmo não se pode dizer de Maria Luísa, personagem de "A causa secreta". Casada com Gouvêa, homem que obtinha prazer observando o sofrimento alheio, Maria Luísa sempre demonstrou perante o marido "uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor".47 Porém, conforme o conto se desenrola, a situação de Maria Luísa vai se tornando mais precária: o marido passa de dar bengalada em cão que dormia na rua a rasgar e envenenar gatos e cães em casa; paralelamente, o estado de saúde da mulher também se agravava: o que começou com uma tosse descobriu-se ser "a tísica", que em pouco tempo lhe deu cabo à vida.

Maria Luísa parece ser a única pessoa plenamente confiável na história. Se Fortunato sem dúvida assume o papel máximo do sadismo, Garcia não é uma personagem que pode ser bem aceita sem ressalvas. Quando, por exemplo, Fortunato convida Garcia a montarem em sociedade uma clínica de saúde, o médico já havia percebido questões dúbias no comportamento de Fortunato (vira-o maltratando o cachorro na rua; estranhou a forma como ele mofava do homem que ajudara a salvar após embate com capoeiras). Mesmo assim, "Garcia recusou [a proposta] nesse e no dia seguinte"; mas ao final "era uma boa estreia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos". A única que nunca se convencera de que o empreendimento poderia trazer algo de positivo foi Maria Luísa: o aceite de Garcia foi para ela uma desilusão, "mas não ousou opor-se-lhe [ao marido], e curvou a cabeça".48

Em outro episódio, Fortunato tortura um rato cortando uma a uma suas patas e queimando levemente o animal, de modo a provocar-lhe sofrimento mas sem matá-lo, o que colocaria um fim à sua diversão. O contato com a cena fez com que Maria Luísa quase desmaiasse, tendo que se afastar do escritório do marido, angustiada e sufocada. Garcia, por seu turno, pede de forma imperativa que o colega mate logo o bicho. Não tendo sido atendido, tenciona "estende[r] a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo, porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. " Ao fim e ao cabo, a cena incomodava Garcia, mas não o suficiente para fazê-lo enfrentar o sócio e interromper a tortura do animal. Antes, "defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem [Fortunato]".49

Tudo isso foi demais para Maria Luísa. A convivência com o marido enfraqueceu-a e a levou à morte. Mesmo assim ainda foi possível proporcionar um último momento de prazer a Fortunato, quando este observa o sofrimento de Garcia, que amava Maria Luísa em segredo, ao deixar um beijo na testa da defunta. Segundo o narrador, o marido considerava que aquele poderia ser "o epílogo de um livro adúltero",50 e assim estendia as desventuras da mulher para além da vida, ao lhe macular a honra.

Se "A causa secreta" termina com a suspeita de um epílogo de livro adúltero, "D. Paula" narra a história de Venancinha, que "não era um livro, não era sequer um capítulo de adultério, mas um prólogo, – interessante e violento".51 Na verdade, o conto combina duas histórias: à medida que Venancinha compartilha com a tia sua aventura, ainda em forma de embrião, nada mais que um prólogo de adultério, d. Paula rememora sua própria biografia, essa sim uma história de amor fora do casamento, com todas as delícias, lágrimas e saudades de seu começo, meio e fim. Depois de esgotada a taça das paixões, d. Paula a emborca para nunca mais de lá beber, mas também sem deixar escorrer dela qualquer gota de acusação que lhe ameaçasse o posto de viúva austera e pia.

Tão sóbria era a figura de d. Paula que o sobrinho confia nela para ajudar a incutir algum juízo na cabeça da esposa. Conrado estava desconfiado de que Venancinha andava de namoros com um sujeito que frequentava os mesmos ambientes sociais que o casal. Mesmo sem ter prova da infidelidade feminina, "a cólera [do marido] estourou, e ele disse-lhe cousas duras e amargas",52 chegando a afirmar que o casamento estava acabado. É nesse ponto da história que entra d. Paula, intercedendo em favor da sobrinha e apresentando a existência de uma espécie de rede de proteção entre mulheres. Ela sugere que, antes de Conrado tomar uma decisão definitiva, deixasse Venancinha uma temporada sob os cuidados dela, para lhe colocar ordem ao espírito.

O marido aceita a oferta e Venancinha vai passar um tempo na Tijuca com d. Paula. O primeiro esforço da tia é procurar conhecer a versão da moça, mostrando-se uma confidente a quem a sobrinha podia entregar seus sentimentos mais íntimos. Com o progresso das conversas, d. Paula entende que nenhum mal havia ocorrido ainda, mas que Venancinha encontrava-se enlevada pelo galanteador do teatro. Então, a senhora experiente esforça-se por mostrar "à sobrinha a superioridade do marido, as suas virtudes e assim também as paixões, que podiam dar um mau desfecho ao casamento, pior que trágico, o repúdio".53 O conselho pode parecer contraditório, vindo de mulher que viveu sua cota de adultério no passado. Mas, talvez d. Paula tivesse memória do esforço que precisou empregar para manter seu prestígio e consideração, e pensasse que Venancinha, descrita como "cabeça de vento", "leviana", "amiga de cortesias",54 poderia não conseguir colocar em prática a dose necessária de astúcia e dissimulação. Daí enxergar no horizonte da sobrinha o "repúdio" ou um "desfecho […] trágico".

De toda forma, é significativo que o último conto de Várias histórias que comenta de maneira explícita a questão do adultério feminino aborda-o numa variedade tão grande de tons que parece retomar toda a paleta antes apresentada. Em "D. Paula" há exemplo de mulher que experimenta o adultério e de mulher que apenas sonha com ele; há o alerta sobre os ímpetos violentos masculinos e sobre o perigo do ciúme; fala-se sobre a perspicácia do olhar feminino e sobre a necessidade de as mulheres desenvolverem estratégias políticas em vistas de resguardar sua integridade moral ou física. Enfim, de tudo o que havia em termos de temas femininos ocupando as páginas anteriores, aparentemente o único elemento ausente em "D. Paula" é a tragédia apresentada logo na história de abertura do livro: o assassinato da mulher por seu companheiro. Talvez o autor deixasse, ao final, um sopro de esperança para as leitoras que tivessem acompanhado atentas o conjunto das trajetórias daquelas mulheres de papel: era preciso estarem vigilantes aos riscos e opressões a que podiam ser submetidas, mas havia possibilidades diversas para manterem, ao mesmo tempo, a desenvoltura e a vida.

Referências

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1 GAZETA DE NOTÍCIAS, 19 mar. 1891.

2 ASSIS, A cartomante, Várias histórias, p. 65-6.

3 GAZETA DE NOTÍCIAS, 28 nov. 1884.

4 Isso porque, apesar de este caso específico trazer um relato da imprensa posterior à escrita original de "A cartomante", narrativas de crimes de paixão eram frequentes nos jornais naquele período mais estendido. A recorrência desse tipo de crime também pode ser atestada observando-se processos de homicídio ou tentativa de homicídio do final do Oitocentos. Um levantamento dos processos depositados no Arquivo do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro mostra uma estatística significativa: entre o acervo do Arquivo, há 141 processos organizados sob a chave "homicídio" ou "tentativa de homicídio" ocorridos entre os anos de 1896 e 1899. Desses, aproximadamente um terço é de casos do que era chamado "crime de paixão". Nota-se, portanto, que esse era um tema relevante para o período, havendo matéria real em abundância com a qual a literatura poderia estabelecer seus diálogos.

5 Todas as citações do crime, com trechos do depoimento do réu e da defesa empreendida por seu advogado, foram retiradas de: GAZETA DE NOTÍCIAS, 19 mar. 1891.

6 Evaristo de Moraes foi um advogado que ficou conhecido por conseguir absolver no tribunal muitos uxoricidas utilizando o padrão de argumentação apresentado acima. Para mais informações sobre sua forma de proceder, ver: MENDONÇA, Evaristo de Moraes, tribuno da República. Era um tipo de discurso em muito devido às teorias de Cesare Lombroso que, ao criar espaço para a medicalização do crime, inspirou a criminologia a se ocupar menos do crime do que do criminoso. Para entender como a alienação teve seus limites alargados e passou a ser considerada justificativa para a prática de crimes, ver: DARMON, Médicos e assassinos na Belle Époque: a medicalização do crime.

7 BRASIL. Código Criminal de 1830. Seção III.

8 O atenuante do artigo 18, §4º é o seguinte: "Ter o delinquente cometido o crime em desafronta de alguma injúria, ou desonra, que lhe fosse feita, ou a seus ascendentes, descendentes, cônjuge ou irmãos".

9 ORDENAÇÕES FILIPINAS.

10 A CIGARRA, 24 out. 1895, p. 2.

11 Ibidem.

12 ASSIS, A Semana, p. 1112 (crônica de 21 de outubro de 1894).

13 Idem, p. 1114.

14 Para compreender melhor a organização dessas duas séries de contos (Papéis avulsos e Histórias sem data) e a lógica existente na reunião desses textos, ver: SILVEIRA, Fábrica de contos: ciência e literatura em Machado de Assis.

15 Idem, p. 26.

16 A carta, datada de 9 de dezembro de 1895, foi recolhida em: ASSIS, Correspondência de Machado de Assis: tomo III, 1890-1908, p. 129. Os cinco volumes da correspondência de Machado integram a Coleção Afrânio Peixoto da Academia Brasileira de Letras, estando os três primeiros disponíveis no site da Academia.

17 ASSIS, Várias histórias, p. 55.

18 Além desse, Machado de Assis possuía outros sete livros de Mérimée. No que diz respeito a Carmen, seu exemplar correspondia à 12ª edição, em francês, publicada em 1883. Essas informações sobre o acervo de Machado estão presentes em JOBIM (org.). A biblioteca de Machado de Assis, p. 83.

19 O exemplar utilizado neste artigo é a edição traduzida por Francisco Balthar Peixoto e publicada pela FTD: MÉRIMÉE, Carmen: texto integral.

20 Carmen é mostrada, logo no início da narrativa, como sendo uma cigana cujos “olhos eram oblíquos, mas admiravelmente rasgados” (MERIMÉE, cit., p. 26). Ao ler a forma como Carmen é apresentada é quase impossível não lembrar uma das descrições mais consagradas produzidas por Machado de Assis: Capitu e seus “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”.

21 MÉRIMÉE, cit., p. 53.

22 Idem, p. 67.

23 Idem, p. 77.

24 Idem, p. 78.

25 Idem, p. 82-83.

26A epígrafe não está presente na versão consultada, de 1989. Porém, em outras traduções e na publicação original na Revue des Deux Mondes, a abertura da novela conta com a citação.

27 ASSIS, A cartomante, Várias histórias, p. 59.

28 Ibidem.

29 Ibidem.

30 Idem, p. 60.

31 Ibidem.

32 Idem, p. 61.

33 ASSIS, Entre santos, Várias histórias, p. 70.

34 ASSIS, Uns braços, Várias histórias, p. 75.

35 Idem, p. 78.

36 Ibidem.

37 Idem, p. 79.

38 Ibidem.

39 Idem, p. 83.

40 A ESTAÇÃO, 15 nov. 1890.

41 ASSIS, A desejada das gentes, Várias histórias, p. 97.

42 Idem, p. 103.

43 Idem, p. 102.

44 Idem, p. 98.

45 Idem, p. 101.

46 Indicações sobre a obra de Lafayette Rodrigues Pereira foram consultadas em: VASCONCELLOS, Não as matem.

47 ASSIS, A causa secreta, Várias histórias, p. 108.

48 Idem, p. 109.

49 Idem, p. 111.

50 Idem, p. 113.

51 ASSIS, D. Paula, Várias histórias, p. 181.

52 Idem, p. 174.

53 Idem, p. 178.

54 Idem, p. 175.

Recebido: 01 de Outubro de 2017; Aceito: 08 de Janeiro de 2018

DANIELE MARIA MEGID é mestra em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora de À roda de Brás Cubas: literatura, ciência e personagens femininas em Machado de Assis (Nankin/Fapesp, 2014). Atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Unicamp, sob a orientação do Prof. Dr. Sidney Chalhoub, e estuda violência e política de gênero a partir da interlocução do romance Dom Casmurro com outras fontes (literárias, periódicas e processuais) do período. E-mail: danielemegid@gmail.com.

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