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Machado de Assis em Linha

versão On-line ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.11 no.24 São Paulo maio/ago. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201811243 

ARTIGOS

MACHADO DE ASSIS E O CORREIO MERCANTIL (A HISTÓRIA DE UM MISTÉRIO BIOGRÁFICO)1

Machado de Assis and the Correio Mercantil (The story of a biographical mystery)

WILTON JOSÉ MARQUES1 

1Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, São Paulo, Brasil

Resumo

O artigo trata da relação de trabalho entre Machado de Assis e o Correio Mercantil. Defende-se aqui a hipótese de que o escritor trabalhou apenas um mês como revisor de provas.

Palavras-Chave: Machado de Assis; Correio Mercantil; revisor de provas

Abstract

The article addresses the working relationship between Machado de Assis and the Correio Mercantil. The hypothesis that the writer worked only one month as proofreader is defended here.

Key words: Machado de Assis, Correio Mercantil; Proofreader

Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles.

João Guimarães Rosa, O espelho

Ainda hoje, como em muitos episódios lacunares de sua juventude literária, a passagem de Joaquim Maria Machado de Assis pela redação do Correio Mercantil, e Instrutivo, Político, Universal (1848-1868),2 como revisor de provas, é cercada por algumas incertezas. Entre outubro de 1858 e janeiro de 1860, o que há de realmente concreto nessa relação é, sem dúvida, o fato inconteste de Machado de Assis ter colaborado de maneira esparsa para o periódico liberal, publicando ao longo do referido período onze poemas e um artigo.3 No entanto, além da evidência material dos textos, alguns estudiosos e biógrafos sugerem que, em algum momento do mesmo período, o então jovem autor teria trabalhado como revisor no jornal. Para ficar em dois exemplos emblemáticos da crítica machadiana, Galante de Sousa (1955, p. 208), por um lado, afirma: "acredita-se que Machado de Assis tenha entrado para este jornal, como revisor de provas, por influência de Francisco Otaviano e Pedro Luís". Jean-Michel Massa, por outro, observa que a suposta "tradição" de que Machado teria sido revisor no Correio Mercantil vinha de Sacramento Blake.4 O crítico francês ainda sugere que "talvez tenha havido uma recomendação pessoal e profissional de [Manuel Antônio] de Almeida a [Francisco] Otaviano" (MASSA, 2009, p, p. 157).

Como se infere pelo tom cauteloso, cheio de condicionais e suposições, que permeia as afirmações de ambos os críticos, a eventual passagem de Machado de Assis pelo Correio Mercantil como revisor de provas é, na verdade, um fato de viés biográfico não de todo resolvido, principalmente no que se refere ao exato momento em que teria acontecido. Dessa forma, para tentar desvendar esse mistério pontual da vida do escritor carioca, será preciso antes levantar alguns indícios que ajudarão tanto a compor um chão histórico como a oferecer os subsídios necessários ao seu esclarecimento. De saída, no entanto, focar-se-á numa primeira (e talvez aparente) "não prova" da suposta relação entre Machado e o jornal liberal.

Em carta, datada de 22 de setembro de 1872, o jornalista José Carlos Rodrigues, que editava em Nova York O Novo Mundo – Periódico Ilustrado do Progresso da Idade (1870-1879),5 dirigiu-se ao "Ilustríssimo Senhor Machado de Assis". Além de comentar o recente sucesso de Ressurreição, que lera "há dias e de que hei de dizer por extenso o que penso", o jornalista explicitou a intenção de publicar "um bom estudo sobre o caráter geral da literatura brasileira contemporânea, criticando suas boas ou más tendências, no aspecto literário e moral", para, em seguida, propor: "Quererá o amigo escrever sobre isso?". Embora Rodrigues tenha afirmado não saber "de antemão quanto lhe pagarei pelo trabalho; mas [...] que hei de retribuir-lhe o melhor que puder" (ASSIS, 2009a, p. 78-79), Machado aceitou prontamente a tarefa.

Em 25 de janeiro de 1873, respondendo ao jornalista, Machado de Assis inicialmente agradeceu a resenha sobre Ressurreição, que saíra em dezembro de 1872 (O NOVO MUNDO, 1872, p. 46): "[...] aperto-lhe mui agradecidamente as mãos pelo seu artigo do Novo Mundo a respeito do meu romance. [...]. Vejo que leu o meu livro com olhos de crítico". E ao mesmo tempo se apressou em informar que "o nosso artigo está pronto há um mês. Guardei-me para dar-lhe hoje uma última demão; mas tão complicado e cheio foi o dia para mim, que prefiro demorá-lo para o seguinte vapor" (ASSIS, 2009a, p. 82). Como se sabe, o "nosso artigo" consistia no futuramente famoso e cultuado "Notícia atual da literatura brasileira – Instinto de nacionalidade", que sairia pela primeira vez n'O Novo Mundo, na edição de 24 de março de 1873.6 Entretanto, o que interessa aqui, na verdade, é outro detalhe da carta, bastante revelador: o fato de que, ao seu término, Machado também informou a Rodrigues que "o nosso amigo João de Almeida7 tinha-me pedido em seu nome um retrato, que lhe entrego hoje e lá irá ter às suas mãos" (ASSIS, 2009a, p. 83).

Depois de pouco mais de dois anos, o retrato enviado por Machado de Assis veio finalmente à luz n'O Novo Mundo, na sua edição de 23 de julho de 1875 (p. 249).8 A novidade da história, no entanto, é que na página seguinte à do retrato, e ao lado, entre outros, do perfil do "venerando literato francês" Ferdinand Denis, cuja imagem, aliás, estampava a capa do jornal, também foi publicada uma breve notícia biográfica sobre o sr. Machado de Assis. O aparecimento dessa notícia talvez se explique por aquela sugestão do jornalista, que, em contrapartida ao artigo de 1873, prometera ao autor carioca "retribuir-lhe o melhor que puder". Eventuais trocas de favores à parte, pode-se conjecturar que, se a notícia não foi redigida por Machado, é muito provável que, a exemplo do retrato, ao menos as informações biográficas tenham sido fornecidas por ele, o que, considerando tal possibilidade, daria obviamente maior credibilidade histórica a elas. Veja-se, nesse sentido, os dois parágrafos iniciais da referida notícia:

O Sr. Machado de Assis, um dos mais corretos e elegantes poetas e romancistas do Brasil nasceu no dia 21 de junho de 1839 e está por conseguinte com 36 anos. Eram seus pais Francisco José de Assis e D. Maria Leopoldina Machado de Assis. A convivência que cedo teve com Casimiro de Abreu; Macedo Júnior (poeta que morreu com 17 anos incompletos) e outros rapazes despertou-lhe cedo o desejo de escrever versos, e escreveu-os, com que bom êxito, sabem-no bem todos os amigos da literatura do Brasil.

Em 1859 o Sr. Machado de Assis redigiu com Eleutério de Sousa O Espelho, periódico literário que só durou uns seis meses. Em 1860, tendo então 21 anos, entrou para a redação do Diário do Rio de Janeiro, então propriedade do Dr. J. Saldanha Marinho, seu principal redator também coadjuvado pelos Srs. Quintino Bocaiuva e o Dr. Henrique César Muzzio. Em 1867 foi nomeado um dos redatores do Diário Oficial, e em dezembro de 1873 foi nomeado Primeiro-oficial da Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas (O NOVO MUNDO, 1875, p. 250).

Por fim, a notícia era finalizada por um terceiro e último parágrafo em que se apresentava a relação completa dos até então "escritos que o Sr. Machado de Assis tem publicado em livro e folheto" (O NOVO MUNDO, 1875, p. 250).

De todo modo, para voltar ao fragmento citado, depreende-se de sua leitura que, além do precoce "desejo de escrever versos" e das menções à participação em O Espelho em 1859 e à posterior entrada no Diário do Rio de Janeiro em 1860, não há na notícia d'O Novo Mundo qualquer referência ao jornal Correio Mercantil e, por tabela, ao eventual trabalho de revisor. Ainda assim, e mesmo diante de outro beco sem saída, é possível conjecturar mais uma vez: ou Machado de Assis não trabalhou como revisor no jornal liberal, ou talvez o período trabalhado tenha sido tão breve, que o autor carioca poderia ter pensado que o fato em si não seria relevante para constar de sua notícia biográfica.

Se, por um lado, os indícios d'O Novo Mundo somente aumentam as dúvidas – ao invés de esclarecimentos – sobre esse mistério pontual da vida de Machado de Assis; por outro, as mesmas dúvidas talvez possam ser aclaradas, sobretudo se se recorrer ao testemunho daquele que talvez tenha sido a fonte inicial da informação sobre o trabalho de Machado de Assis como revisor de provas no Correio Mercantil, o jornalista Artur Barreiros (1856-1885). Inclusive, como se mostrará com maiores detalhes, Barreiros afirmou literal e categoricamente que o jovem autor ficou apenas e tão somente um mês no referido cargo.

Em agosto de 1884, Machado de Assis tornou-se a segunda figura pública a ser homenageada nas páginas do efêmero periódico Galeria Contemporânea do Brasil, que começara a circular no mês anterior por iniciativa do fotógrafo franco-brasileiro Marc Ferrez e do próprio Artur Barreiros. O segundo fascículo, dedicado ao escritor, seria o último, talvez porque as vendas não conseguiram corresponder às expectativas dos autores, ou talvez pelo agravamento do estado de saúde do jornalista, que, em fevereiro do ano seguinte, seria vitimado pela tuberculose. Conjecturas à parte, convém explicar que cada fascículo da Galeria Contemporânea do Brasil era composto por uma fotografia, feita obviamente por Ferrez, seguida de um estudo biográfico-crítico assinado por Barreiros e, por fim, da reprodução do autógrafo de algum trabalho recente do homenageado. No caso de Machado de Assis, o trecho escolhido fora o capítulo CLII – "A moeda de Vespasiano" – das Memórias póstumas de Brás Cubas (BARREIROS, 1884).

Raimundo Magalhães Júnior (1981b, p. 65), comentando sobre a parte biográfica do artigo de Artur Barreiros, observa que esta "era rica de informações, colhidas na melhor das fontes, que era o próprio Machado, e forneceria o roteiro seguido, de modo geral, pelos biógrafos do grande escritor, a partir de Alfredo Pujol". Ainda segundo Magalhães Júnior (1981b, p. 3-4), a primeira versão do artigo de Barreiros teria sido publicada na revista teatral Pena & Lápis (1880) e, no mesmo ano, reproduzida na revista A Estação, em 30 de junho de 1880. Entretanto, é importante esclarecer que a versão inicial do referido artigo não trazia as informações biográficas de Machado de Assis, pois, como escreveu o jornalista na revista A Estação, "a sua biografia ainda não está escrita [...]. Somente se sabe, por ouvir dizer, que estreou na vida como aprendiz de tipógrafo" (BARREIROS, 1880, p, p. 129). Em outras palavras, as informações de Artur Barreiros sobre a vida do escritor carioca somente apareceriam no artigo de 1884 da Galeria Contemporânea do Brasil.

Se se levar em consideração, como sugere Magalhães Júnior, a possibilidade de Machado de Assis ter sido mesmo a principal fonte do jornalista, sobretudo pela notória amizade entre ambos,9 os dados biográficos do artigo de Artur Barreiros ganham, por assim dizer, o particular status de verdade histórica (ou, na pior das hipóteses, de mentira, é certo que chancelada por ambos). No que se refere especificamente ao período de 1858 a 1860, Barreiros (1884, p. 4) escreve:

Em 1858 começou a aprender a arte tipográfica; deixou-a em 1859, indo nos fins desse ano rever provas na casa Paula Brito, à praça da Constituição, e, cumulativamente, em princípios de 1860, no Correio Mercantil, onde foi admitido por intervenção do Dr. Henrique César Muzzio, com que se relacionara no ano anterior.

Não chegou a completar um mês no Correio Mercantil.

Quintino Bocaiuva, conhecimento de igual data, ofereceu-lhe um lugar na redação do Diário do Rio de Janeiro, cuja publicação, interrompida de há muito, ia recomeçar sob a direção do Dr. Joaquim Saldanha Marinho.

No dia 25 de março de 1860 encetou Machado de Assis, com Quintino Bocaiuva e César Muzzio, a sua vida jornalística no Diário do Rio.

Antes porém, em 1859, publicara uma pequena folha literária semanal com F. Eleutério de Sousa, que foi depois nomeado Inspetor da Alfândega de Corumbá (Mato Grosso), e morreu prisioneiro dos paraguaios. Chamava-se O Espelho e durou cinco meses.

[...] Permaneceu Machado de Assis na redação do Diário do Rio até o começo de 1867.

De imediato, a leitura do fragmento biográfico apresenta ao menos três fatos interessantes sobre a vida do jovem Machado de Assis, que merecem ser comentados com mais vagar. O primeiro é a informação de que o escritor começou a aprender arte tipográfica em 1858, deixando essa atividade em fins de 1859 – o texto não precisa o mês. Magalhães Júnior (1981a, p. 40) discorda do jornalista, argumentando que, em fins de 1858, "já era Machado de Assis um dos poetas que colaboravam no Correio Mercantil, o que não parece coadunar-se com a sua condição de aprendiz da Tipografia Nacional". A despeito dessas considerações, a afirmação de Barreiros reforça (e muito) a possibilidade de o jovem Machado ter trabalhado na Tipografia Nacional, sob as ordens do então diretor Manuel Antônio de Almeida – o autor de Memórias de um sargento de milícias fora nomeado para o cargo em 28 de outubro de 1857,10 tendo permanecido nele até o dia 30 de setembro de 1859, quando foi nomeado segundo-oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda.11

Nesse sentido, e levando-se em conta tanto o período em que Maneco de Almeida esteve à frente da Tipografia Nacional como a sua notória relação com o Correio Mercantil, é curioso perceber que o período de outubro de 1858 a julho de 1859 foi aquele em que Machado de Assis mais publicou no jornal liberal, ou seja, nove dos doze textos.12 Com singular destaque para o longo artigo "O jornal e o livro", publicado em duas partes no Correio Mercantil, a primeira, no dia 10 de janeiro de 1859, e a segunda, dois dias depois (ASSIS, 1859a, p. 1). O texto machadiano, em sua evidente sobrevalorização do papel da imprensa, foi dedicado ao próprio Manuel Antônio de Almeida, que, coincidentemente ou não, também publicara, quase um mês antes, no jornal O Paraíba, em 12 de dezembro de 1858, um artigo sobre a imprensa. Ao refletir sobre os fundamentos éticos da imprensa, Maneco de Almeida (1858, p, p. 1) destacou em seu texto, entre outros aspectos, a necessidade imperiosa de maior independência crítica para os jornais e, por tabela, para os jornalistas.

Assim, o célebre episódio narrado por Alfredo Pujol – "Contou-me um amigo desse tempo que o chefe das oficinas queixava-se frequentemente de Machado de Assis" e que o então diretor Maneco de Almeida, em vez de repreendê-lo, acabou por tomá-lo como protegido – ganha, por assim dizer, o singular aspecto de verdade histórica, notadamente se, além da provável ajuda para Machado publicar no Correio Mercantil, levar-se em conta o período que vai de 1858 a setembro de 1859, e não o que vai de 1856 a 1858, como foi disseminado pela anedota do crítico (PUJOL, 2007, p, p. 11-15).

Quanto ao segundo fato, inclusive corroborado pela notícia biográfica d'O Novo Mundo, além da informação de que, a partir de 1859, Machado de Assis colaborou na revista semanal O Espelho – que, aliás, circulou entre os dias 4 de setembro de 1859 e 8 de janeiro de 1860 e na qual o autor publicou poemas, crônicas e críticas teatrais em todos os dezenove números da revista (ASSIS, 2009b, p. 11) –, Artur Barreiros sugere nas entrelinhas que Machado foi muito mais do que um mero colaborador na revista, já que, em suas palavras, ele "em 1859, publicara uma pequena folha literária semanal com F. Eleutério de Sousa, [...]. Chamava-se O Espelho e durou cinco meses" (BARREIROS, 1884, p, p. 4, grifos nossos). Nessa mesma direção, e sem citar a fonte de pesquisa, Lucia Miguel Pereira também afirma que Machado de Assis, "em [18]59, fundou com Eleutério de Sousa [...] uma revista que teve vida efêmera, O Espelho" (PEREIRA, 1949, p, p. 48, grifos nossos). É igualmente curioso perceber que a partir do aparecimento da revista, em setembro de 1859, Machado de Assis publicaria, ao longo do segundo semestre daquele ano, apenas dois poemas no Correio Mercantil – "Ofélia", em 21 de outubro (ASSIS, 1859i, p. 2), e "A Mme.de La Grange", em 16 de novembro (ASSIS, 1859j, p. 2) – e, por fim, em 9 de janeiro de 1860, o poema "Ícaro" (ASSIS, 1860b, p. 2) que, inclusive, saíra no dia anterior no último número d'O Espelho (ASSIS, 1860a, p. 11-12).

Em outras palavras, a comprovada colaboração em todos os números, com textos assinados e provavelmente com outros sem identificação, revela que, na verdade, Machado de Assis participou ativamente do dia a dia da revista, tendo sido, ao lado do próprio Eleutério e, mais tarde, de Laurindo Rabello, um dos redatores permanentes d'O Espelho. É o que pode ser comprovado, adicionalmente, pela leitura do seguinte comunicado, publicado no próprio Correio Mercantil, na edição de 9 e 10 de dezembro de 1859, isto é, praticamente a um mês do encerramento das atividades da revista em 8 de janeiro de 1860. O comunicado, datado de "Rio, 9 de dezembro de 1859" e assinado pelo "único proprietário e diretor" F. Eleutério de Sousa, denunciava que "alguém" estava se passando por proprietário d'O Espelho. Ao final da nota, Eleutério de Sousa afirma com todas as letras que Machado de Assis fazia parte da redação da revista:

Constando ao abaixo assinado que alguém se tem inculcado proprietário desta revista semanal de literatura, modas, indústria e artes, o abaixo assinado vê-se na necessidade de declarar que é o único proprietário e diretor, bem como o chefe da redação de que tomam também principal parte os Srs. Dr. Laurindo José da Silva Rabello e Machado de Assis (CORREIO MERCANTIL, 1859b, p. 2).

Por fim, o terceiro (e último) fato é, sem dúvida, a explicação dada por Artur Barreiros para a entrada de Machado de Assis no Correio Mercantil como revisor de provas. Segundo o jornalista, a entrada do jovem autor na folha liberal deu-se somente "em princípios de 1860" e por intervenção direta do dr. Henrique César Muzzio, "com que se relacionara no ano anterior". Além dessa primeira afirmação de Barreiros, o encerramento da revista O Espelho no início de janeiro de 1860 talvez ajude a corroborar a outra afirmação do jornalista, bastante reveladora, de que Machado de Assis "não chegou a completar um mês no Correio Mercantil". Ou seja, ao que tudo indica, foi provavelmente após sua saída da Tipografia Nacional e do encerramento d'O Espelho, que, por indicação de César Muzzio, Machado de Assis, entre meados de janeiro e/ou início de fevereiro, ingressou no Correio Mercantil como revisor de provas, cargo que, no entanto, logo deixou, já que, a partir de 25 março de 1860, "encetou [...], com Quintino Bocaiuva e [o mesmo] César Muzzio, a sua vida jornalística no Diário do Rio". Como, aliás, mais tarde o escritor faria questão de rememorar em famosa crônica: "Nesse ano [1860] entrara eu para a imprensa. [...] Tratava-se do Diário do Rio de Janeiro, que ia reaparecer, sob a direção política de Saldanha Marinho. Vinha dar-me um lugar na redação com ele [Quintino Bocaiuva] e Henrique César Muzzio" (ASSIS, 1994b, p. 636).

Apesar das ressalvas de Magalhães Júnior, a sua sugestão de que o artigo de Artur Barreiros "forneceria o roteiro seguido, de modo geral, pelos biógrafos do grande escritor, a partir de Alfredo Pujol", tem um fundo de verdade. No entanto, a sugestão do biógrafo ainda pode ser complementada, pois, antes mesmo que Pujol publicasse, em 1917, as sete conferências sobre Machado de Assis, proferidas na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo, o referido artigo de Barreiros já havia sido republicado, ao menos duas vezes, por intervenção direta de outro dileto amigo do escritor, o dramaturgo Artur Azevedo.

Em janeiro de 1893, Artur Azevedo iniciou, auxiliado pelo jornalista Paula Ney, a publicação da revista O Álbum (1893-1895). Na apresentação do primeiro número – "Cavaco preliminar" – além de explicar o intuito do periódico, Azevedo (1893a, p. 1) informou que "cada número trará, fora do texto, um retrato de pessoa notável, constituindo assim O Álbum, no fim de algum tempo, uma interessante galeria, na qual figurarão, em curiosa promiscuidade, todas as classes sociais". Nesse número de estreia, a primeira "pessoa notável" retratada fora o compositor e maestro Carlos Gomes. No entanto, ainda na primeira página e logo abaixo do sumário, já era anunciado ao público que "o segundo número d'O Álbum trará o retrato e o esboço biográfico de Machado de Assis" (AZEVEDO, 1893a, p. 1).

De início, o segundo número d'O Álbum foi aberto com uma pequena nota "À imprensa", agradecendo a acolhida da revista.13 No mais, em relação a Machado de Assis, além propriamente de sua fotografia,14 foi reproduzido – a título de dupla homenagem – o artigo que Artur Barreiros havia publicado na Galeria Contemporânea do Brasil. O texto do jornalista era precedido inclusive pela seguinte explicação:

Em 1885 [sic] Artur Barreiros escreveu, num periódico efêmero, profundo e luminoso artigo sobre a personalidade de Machado de Assis. Hoje, que O Álbum se honra publicando o retrato do Mestre, transcreve para as suas colunas esse artigo quase inédito, rendendo assim uma dupla homenagem ao glorioso autor das Memórias póstumas de Brás Cubas, e ao ilustre moço cuja morte prematura foi uma perda sensível para as letras nacionais (BARREIROS, 1893, p. 9-10).

Após o breve introito, foi então reproduzida apenas a parte do texto em que Artur Barreiros fazia uma breve apreciação crítica da obra literária de Machado de Assis, de Crisálidas aos Papéis avulsos. No entanto, a chamada "parte biográfica", que na Galeria Contemporânea do Brasil vinha logo no início do artigo, foi literalmente reescrita por Artur Azevedo (1893b, p. 10) – "acrescentaremos alguns apontamentos biográficos" – e publicada separadamente. No que se refere ao período entre 1858 e 1860, Azevedo, em mais que evidente diálogo textual com o artigo de Barreiros, afirma:

Em 1858 Machado de Assis abraçou a arte tipográfica, mas no ano seguinte abandonou-a para ser revisor de provas da famosa casa de Paula Brito e do Correio Mercantil.

Em 25 de março de 1860 encetou Machado de Assis a sua vida jornalística, ao lado de Saldanha Marinho, Quintino Bocaiuva e César Muzzio, no Diário do Rio de Janeiro. Demorou-se na redação dessa folha até o começo de 1867 (AZEVEDO, 1893b, p. 10-11).

A relação de amizade entre Artur Azevedo e Machado de Assis era, por assim dizer, notoriamente reconhecida no mundo literário brasileiro, sobretudo por ambos terem trabalhado na mesma repartição pública durante muitos anos, como o dramaturgo maranhense fez questão de frisar na sua coluna "Palestra" do jornal O País (1884-1934) no dia seguinte à morte de Machado: "Calculem como devo estar comovido diante do cadáver do companheiro, amigo e mestre, com quem durante trinta e quatro anos me encontrei quase todos os dias, sob o mesmo teto!" (AZEVEDO, 1908, p, p. 2). Assim, não seria nenhum despropósito pensar aqui na possibilidade de que as pontuais mudanças nas informações biográficas do artigo de Artur Barreiros possam de alguma forma ter sido objeto de conversas entre os dois. Aliás, novamente por influência direta de Artur Azevedo, na mesma edição d'O País, de 30 de setembro de 1908, foi mais uma vez publicado, com modificações pontuais e a mesma explicação de autoria, a versão do artigo de Artur Barreiros que saíra n'O Álbum.15

Dentro dessa perspectiva, ao omitir n'O Álbum e, por tabela, n'O País, o detalhe de que Machado de Assis teria trabalhado apenas um mês no Correio Mercantil, para, em seu lugar, afirmar genericamente que "no ano seguinte [1859]" tornou-se "revisor de provas da famosa casa de Paula Brito e do Correio Mercantil", Artur Azevedo contribuiu para que tanto o suposto exato período da passagem do escritor carioca pela folha liberal como a sugerida intervenção direta do dr. Henrique César Muzzio fossem literalmente esquecidos, o que, inclusive, abriu aos futuros biógrafos outras possibilidades de interpretação. Lucia Miguel Pereira, quase ipsis litteris ao texto de Azevedo, escreve, por exemplo, que "em 1858 Machado de Assis [...] era revisor de provas na casa de seu amigo Paula Brito, começando um ano depois, a exercer as mesmas funções no Correio Mercantil", com o acréscimo adicional de que o emprego no jornal liberal fora conseguido "graças à proteção de Pedro Luís e Francisco Otaviano, de quem o aproximara Manuel Antônio de Almeida" (PEREIRA, 1949, p, p. 45, grifos nossos).

Mesmo diante dos indícios até aqui levantados, é sempre importante nunca perder de vista que, quando da republicação do artigo modificado de Artur Barreiros n'O Álbum, em janeiro de 1893, Machado Assis já era Machado de Assis. Depois da morte de José de Alencar em dezembro de 1877, tornou-se plenamente reconhecido pela crítica como o principal escritor brasileiro. E, portanto, a eventual preocupação com dados pontuais de sua própria biografia não seria motivo de qualquer surpresa, afinal, como se sabe, toda e qualquer "biografia autorizada", dependendo do que se quer revelar, é sempre feita através de acréscimos e/ou omissões. Ou, dito de outro modo, e usando aqui as palavras do famoso narrador enganoso que, no início de seu "livro de memórias", escreveu: "aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira" (ASSIS, 1994a, p. 810).

Enfim, tendo ou não discutido com Machado de Assis, com quem convivera por mais de três décadas "sob o mesmo teto", Artur Azevedo, ao omitir de forma deliberada, sobretudo o detalhe temporal – "não chegou a completar um mês" – do artigo de Artur Barreiros, sobrevalorizou em sua notícia biográfica apenas e tão somente a informação algo generalizante de que o escritor carioca havia trabalhado como revisor de provas no Correio Mercantil em 1859. Ao que tudo indica, é muito provável que, naquele momento, o dramaturgo maranhense tenha julgado que a sua versão sobre o episódio fosse a mais adequada para construir a "recordação" da persona pública do "amigo e mestre". Em outras palavras, por conta da reconhecida importância do Correio Mercantil na história da imprensa oitocentista brasileira, Artur Azevedo, ao também "perder", como o narrador enganoso, o "espinho temporal" do artigo de Artur Barreiros, acabou por conferir a esse fato pontual na vida de Machado de Assis maior relevância histórico-biográfica do que ele provavelmente tenha tido.

Referências

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1 O presente artigo faz parte da pesquisa "Machado de Assis e as primeiras incertezas", financiada pelo CNPq.

2Daqui para frente apenas Correio Mercantil.

3 Poemas: "Esperança" (25.10.1858); "O progresso" (30.11.1858); "À Itália" (10.02.1859); "A partida" (14.02.1859); "A um poeta" (23.03.1859); "Condão" (28.03.1859); "A redenção" (04.05.1859); "A Ch. F., filho de um proscrito" (21.07.1859); "Ofélia" (21.10.1859); "A Mme. de La Grange" (16.11.1859) e "Ícaro" (09.01.1860). Artigo: "O jornal e o livro" (parte I: 10.01.1859, parte II: 12.01.1859). Ver, respectivamente, Assis (1858a, 1858b, 1859c, 1859d, 1859e, 1859f, 1859g, 1859h, 1859i, 1859j, 1860b, 1859a, 1859b).

4 Há aqui um equívoco na informação de Jean-Michel Massa, pois não existe qualquer menção ao Correio Mercantil no verbete sobre Machado de Assis do dicionário bibliográfico de Sacramento Blake. A referência ao período em questão versa apenas sobre o trabalho do autor na Tipografia Nacional: "vocação decidida para as letras, exercendo a arte tipográfica na imprensa nacional, onde serviu de 1856 e 1858, deixou-a para só dedicar-se às letras" (SACRAMENTO BLAKE, 1898, p, p. 489-492).

5 Daqui para frente apenas O Novo Mundo.

6 Curiosamente, o artigo de Machado de Assis foi publicado duas vezes n'O Novo Mundo, a primeira, em março de 1873 e, a segunda, em abril de 1879, numa edição especial em que se comemorava o centésimo número do periódico (ASSIS, 1873, p, p. 107-108; ASSIS, 1879, p. 90-91).

7 João de Almeida foi repórter d'A República, d'O Cruzeiro e da Gazeta de Notícias (ASSIS, 2009a, p. 83).

8 Agradeço à pesquisadora Mônica Rinaldi, que, gentilmente, enviou-me uma cópia fotográfica desse número do jornal.

9 Confirmando a íntima amizade com Artur Barreiros, Machado, em carta aberta a Valentim Magalhães, de 21 de fevereiro de 1885, publicada na revista A Semana, dirigida por Magalhães, lamenta a morte do amigo, ocorrida no dia 17 do mesmo mês, "Não sei que lhe diga que possa adiantar ao que sabe do nosso Artur Barreiros. Conhecêmo-lo: tanto basta para dizer que o amamos. Era um dos melhores da sua geração, inteligente, estudioso, severo consigo, entusiasta das coisas belas, dourando essas qualidades com um caráter exemplar e raro [...]. Não posso lembrar-me dele, sem recordar também outro Artur, o Artur de Oliveira, ambos tão meus amigos. [...] O tempo dar-lhe-ia a completa vitória; mas o mesmo tempo o levou, depois de longa e cruel enfermidade. Não levará a nossa saudade nem a estima que lhes devemos" (ASSIS, 2009a, p. 288-290, grifo nosso).

10 Segundo a notícia veiculada no jornal Diário do Rio de Janeiro, de 29 de outubro de 1857, Manuel Antônio de Almeida fora oficialmente nomeado no dia anterior: "Por decreto de ontem [...]. Foi aposentado no lugar de administrador da tipografia nacional o Sr. Braz Antônio Castrioto, e nomeado para o substituir o Sr. Manuel Antônio de Almeida" (DIÁRIO DO RIO DE JANEIRO, 1857, p, p. 1).

11 As Notícias Diversas do Correio Mercantil, de 4 de outubro de 1859, anunciava que: "Por decreto de 30 de setembro último foi nomeado o administrador da Tipografia Nacional, o Dr. Manuel Antônio de Almeida, 2º oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda. Para aquele lugar foi nomeado na mesma data João Paulo Ferreira Dias" (CORREIO MERCANTIL, 1859a, p. 1).

12 Ver nota 3.

13 Diz a nota: "Penhoradíssimos, agradecemos à grande e generosa Imprensa Fluminense as palavras encomiásticas com que anunciou e recebeu o primeiro número deste modesto periódico" (AZEVEDO, 1893b, p. 9).

14 Em carta a Machado de Assis, de 17 de janeiro de 1893, o então jovem discípulo Carlos Magalhães de Azeredo, escrevendo de São Paulo, onde estudava direito, comenta: "O Álbum traz um retrato seu admiravelmente tirado" (ASSIS, 2011, p, p. 23).

15 Da mesma forma que n'O Álbum, o artigo de Artur Barreiros n'O País também foi precedido pela seguinte explicação: "Em 1885 [sic], Artur Barreiros, escritor fluminense de muito valor, que a morte nos arrebatou antes dos trinta anos, escreveu, num periódico efêmero, um luminoso artigo sobre a personalidade de Machado de Assis. Certos de que não poderíamos dizer mais nem melhor, transcreveremos em seguida esse escrito quase inédito. De tudo quanto se tem dito – e tem sido muito – sobre o grande mestre que ontem desapareceu, nada nos parece mais tópico. Eis o artigo:" (BARREIROS, 1908, p. 1).

Recebido: 05 de Janeiro de 2018; Aceito: 30 de Março de 2018

WILTON JOSÉ MARQUES é doutor em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo. Professor de literatura brasileira e teoria literária do Departamento de Letras, do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Literatura da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP – Araraquara). Em 2011, recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Crítica e Teoria Literária pelo livro Gonçalves Dias: o poeta na contramão (EDUFSCar, 2010). Posteriormente, publicou onze verbetes no Le dictionnaire universel des créatrices (Éditions des Femmes, 2013) e, mais recentemente, O poeta do lá (EDUFSCar, 2014), O poeta sem livro e a pietà indígena (Editora da Unicamp, 2015) e Ao correr da pena (folhetins inéditos), de José de Alencar (EDUFSCar: 2017). Atualmente, trabalha na pesquisa que trata do poema inédito “O grito do Ipiranga”, de Machado de Assis. E-mail: will@ufscar.br

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