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Machado de Assis em Linha

versão On-line ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.11 no.24 São Paulo maio/ago. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201811245 

ARTIGOS

PERSUASÃO RETÓRICA EM "O IMORTAL",DE MACHADO DE ASSIS

Rhetoric persuasion in “The immortal”, by machado de assis

RITA DE CÁSSIA SIMÕES MARTELINI1 

1Universidade Estadual de Londrina. Londrina, Paraná, Brasil

Resumo

O presente artigo faz uma leitura do conto "O imortal", de Machado de Assis, a partir dos modos de persuasão retóricos, estudados por Aristóteles: éthos, páthos e lógos. No conto, o narrador-personagem, dr. Leão, médico homeopata, busca persuadir seus ouvintes, o coronel Bertioga e o tabelião Linhares, sobre a imortalidade de seu pai, Rui de Leão, que teria vivido por 255 anos, entre 1600 e 1855, graças a um poderoso elixir. Apelando à imagem que faz de si mesmo (éthos), à emoção/paixão dos interlocutores (páthos) e ao próprio discurso (lógos), o forasteiro alcançará seu objetivo: a propagação da homeopatia.

Palavras-Chave: Machado de Assis; conto; persuasão; éthos; páthos; lógos

Abstract

This article provides a reading of the short story, "O imortal," by Machado de Assis, based on the rhetorical modes of persuasion studied by Aristotle: ethos, pathos and logos. In the story, the narrator-character, Dr. Leão, a homeopathic doctor, seeks to persuade his listeners, Colonel Bertioga and the notary, Linhares, about the immortality of his father, Rui de Leão, who would have lived for 255 years between 1600 and 1855, thanks to a powerful elixir. Appealing to the image that he makes of himself (ethos), the emotion/passion of the interlocutors (pathos), and his own speech (logos), the stranger will achieve his goal: the propagation of homeopathy.

Key words: Machado de Assis; tale; persuasion; ethos; pathos; logos

The moment we want to believe something, we suddenly see all the arguments for it, and become blind to the arguments against it.

George Bernard Shaw, The intelligent woman's guide to Socialism and Capitalism

Mchado de Assis escreveu mais de duzentos contos entre 1858 e 1907, período que abrange praticamente toda a sua carreira literária, iniciada em 1855. Publicados originalmente em periódicos e depois em livros, editados sob o olhar atento do próprio autor, os contos machadianos são considerados por muitos estudiosos como um laboratório,1 no qual o escritor trabalhava os grandes romances, surgidos a partir de 1880. Além de dialogar com o leitor, a maioria dos narradores é dotada de uma peculiar capacidade de persuasão, como veremos no conto "O imortal",2 publicado em 1882. A narrativa é longa e dividida em capítulos, apresentando como narrador principal o dr. Leão, filho do suposto "imortal", Rui de Leão. O conto apresenta também um narrador onisciente, que introduz o médico homeopata e, por fim, há alguns trechos narrados pelo próprio Rui, a partir das invocações memorialistas de seu filho.

O conto

A história inicia-se com a chegada do dr. Leão a uma vila fluminense, em 1865, para exercer sua profissão e propagar o novo sistema medicinal, a homeopatia. Certa noite, estando com o coronel Bertioga e o tabelião da vila, João Linhares, narra-lhes as aventuras do pai, Rui de Leão, que teria nascido em 1600, no Recife, e só morrido, por vontade própria, em 1855. Antes de ser questionado pelos ouvintes, o narrador antecipa-se dizendo que a história do pai "não é fácil de crer" (ASSIS, 2008, p. 279), o que, segundo Hansen, é uma estratégia para se fazer aceito:

É provável que a história que o médico começa a contar para seus ouvintes também não coincida "naturalmente" com as opiniões do leitor. O leitor considera falsa a opinião de que um homem possa viver 255 anos, pois não conhece nenhuma evidência empírica que a comprove como fato biológico natural, habitual e normal. O narrador põe em cena essa mesma opinião, quando faz o homeopata antecipar-se às objeções dos ouvintes [...] (HANSEN, 2006, p. 58).

Hansen, que estuda a verossimilhança em "O imortal", explica que a narração sobre fatos não ancorados em ações prováveis pertence hoje ao gênero fantástico, ao qual Machado de Assis dedicou esse e outros contos, em que o humor e a ironia revelam o ceticismo do autor diante de situações improváveis. Para o crítico, o leitor precisa estar ciente de que se trata de uma vertente "explicitamente incrível", que trabalha com o falso, cuja descrença é o seu pressuposto e não um efeito: "Seu destinatário deve saber que lê uma arte de representar o inacreditável do não-ser e do não-existente, aceitando, contudo, a realidade da convenção e do artifício" (HANSEN, 2006, p. 60).

Segundo o dr. Leão, o segredo da longevidade de seu pai é atribuído a um elixir, elaborado por um velho pajé e entregue ao chefe indígena Pirajuá, cuja filha, Maracujá, Rui de Leão desposara em uma aldeia, após fugir do convento e deixar o hábito franciscano, por volta de 1639. Numa manhã, o sogro de Rui, sentindo que iria morrer, pede ao moço que o acompanhe até a mata onde lhe revela a bebida milagrosa, contida em um boião enterrado sob uma pedra. Como desejava morrer, o velho não a bebe, mas confia-a a Rui: "Pirajuá quer descansar na terra, está aborrecido. Mas Pirajuá quer deixar este segredo a guerreiro branco; está aqui; foi feito por um velho pajé de longe, muito longe... Guerreiro branco bebe, não morre mais" (ASSIS, 2008, p. 283). O boião foi enterrado novamente; Pirajuá morreu antes de retornar à aldeia e Rui de Leão não acreditou na virtude do elixir, atribuindo a mentira do índio à idade e às condições de saúde do ancião. Passado tempo, Rui adoece, e seu caso é dado como perdido, restando-lhe apenas a droga selvática para curá-lo. Mesmo duvidando de sua eficácia, a ela recorre: bebe a metade do líquido e volta a enterrar a parte restante, para recuperá-la depois. Após a morte de Maracujá, Rui de Leão volta à civilização e segue para a Europa, "Com o boião ao lado, a mocidade nas pernas e a resolução no peito" (ASSIS, 2008, p, p. 286).

No Velho Continente, começa a vivenciar efetivamente sua imortalidade. Participa de guerras e rebeliões, é dado como morto em episódios de lutas históricas e envolve-se com muitas mulheres. Além disso, Rui pratica diversas profissões: "Convém dizer que em todos os países por onde andara tinha ele exercido os mais contrários ofícios: soldado, advogado, sacristão, mestre de dança, comerciante e livreiro. Chegou a ser agente secreto da Áustria, guarda pontifício e armador de navios" (ASSIS, 2008, p. 288). No campo sentimental, Rui "deixou muito longe o algarismo dom-juanesco das mille e tre" (ASSIS, 2008, p, p. 288), segundo o dr. Leão. Um delas, lady Emma Sterling, que vivia em Haia, quase tornou o pernambucano rei da Inglaterra, incentivando-o a invadir o país e liderar os rebeldes, mas a conspiração falhou; Rui foi preso e condenado à morte, em Londres. Quando subiu no cadafalso, tinha 86 anos e não aparentava mais de quarenta: a "eterna juventude" seria destruída instantaneamente, como narrou ao filho: "[...] não fiz discurso; inclinei o pescoço sobre o cepo, o carrasco deixou cair a arma, senti uma dor penetrante, uma angústia enorme, como que a parada súbita do coração; mas essa sensação foi tão grande como rápida; no instante seguinte tornara ao estado natural" (ASSIS, 2008, p, p. 291). Novo golpe, igual reação. Público aterrado: santo ou coisa-ruim? Nada de revelação do elixir; Rui preferiu sustentar o mistério.

Ao longo dos séculos, desiludido de tudo, procura desesperadamente a morte, mas suas tentativas de suicídio falham; somente a parcela restante do elixir é capaz de conceder-lhe o fim: "Tinha provado tudo, esgotado tudo; agora era a repetição, a monotonia, sem esperança, sem nada" (ASSIS, 2008, p. 303). Rui contava ao filho que a vida eterna era excelente para quem tinha a certeza de que morreria, mas tornava-se "o mais atroz dos suplícios" para os que não podiam morrer. Para Gerlach, o objetivo do narrador de mostrar que a morte é um benefício é apenas uma passagem para algo mais imediato, atual, "machadiano típico": a intenção do dr. Leão de divulgar a homeopatia (GERLACH, 1989, p. 121).

A persuasão

Para narrar a história inacreditável de seu pai, o dr. Leão precisa tornar o seu público receptivo e disposto a acreditar em suas palavras: a persuasão será obtida ou não, dependendo de como o enunciador apresenta a sua causa no momento em que fala. Na obra Retórica, composta por três livros, Aristóteles ensina que há três meios de persuasão que se baseiam na palavra falada: "O primeiro depende do caráter pessoal do orador; o segundo, de levar o auditório a uma certa disposição de espírito; e o terceiro, do próprio discurso no que diz respeito ao que demonstra ou parece demonstrar" (ARISTÓTELES, 2013, p. 45). Respectivamente, portanto, temos as três categorias retóricas propostas pelo pensador grego: éthos, páthos e lógos.

Apelando ao éthos, o dr. Leão precisa fazer com que o próprio discurso revele sua honestidade como orador, atraindo para si a confiança dos interlocutores. Primeiramente, ele diz ao coronel e ao tabelião que não tem interesse em contar a vida do pai e que não pode demorar-se em pormenores. Quando a noite avança, o médico interrompe a fala e propõe que durmam, pois é tarde, o que não agrada aos ouvintes, que preferem a sequência da história, nem que seja "por alto" (ASSIS, 2008, p. 298). Esse aparente desinteresse em prosseguir com o relato, aliado à observação dos moradores locais sobre o doutor, contribui para a persuasão do público: "Era um homem inteligente, de fino trato e coração benigno. A gente da vila notou-lhe certa tristeza no gesto, algum retraimento nos hábitos, e até uma tal ou qual sequidão de palavras [...]" (ASSIS, 2008, p, p. 278).

Para Aristóteles, a honestidade pessoal revelada pelo orador é um dos meios mais importantes de persuasão. Trata-se de um efeito construído no momento da fala, sobretudo quando há certeza de suas boas intenções e incerteza sobre o narrado:

A persuasão é obtida graças ao caráter pessoal do orador, quando o discurso é proferido de tal maneira que nos faz pensar que o orador é digno de crédito. Confiamos em pessoas de bem de modo mais pleno e mais prontamente do que em outras pessoas, o que é válido geralmente, não importa qual seja a questão, e absolutamente válido quando a certeza exata é impossível e há divergência de opiniões (ARISTÓTELES, 2013, p. 45).

Sendo a história contada pelo dr. Leão algo difícil de crer, o éthos do enunciador precisa ser bem trabalhado para se obter a adesão dos ouvintes, que é o objetivo principal. Para Santana Neto, a enunciação discursiva contribui para que surja uma imagem apropriada de orador a cada público: "O tom de voz, na fala, a escolha das palavras e dos argumentos, gestos, mímicas, postura etc. Esses são alguns signos, elocucionais e oratórios, vestimentais e simbólicos, para qualquer orador impor uma imagem psicológica e social" (SANTANA NETO, 2011, p. 976). Como podemos observar, o éthos age no segundo plano, de uma "maneira lateral" (SANTANA NETO, 2011, p, p. 976), mobilizando a afetividade dos interlocutores e legando para um segundo plano a "verdade", o que, de certa forma, reflete a tendência machadiana pós Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) de criar situações narrativas improváveis ou inverossímeis. Conforme analisa Hansen (2006, p, p. 61), esses narradores dos contos fantásticos de Machado de Assis optam por transformar a "matéria social de seu tempo", ao relativizar e destruir a representação baseada em estruturas da realidade objetiva.

Antes de iniciar a narrativa sobre as aventuras do pai, o dr. Leão já é confrontado por um de seus interlocutores, o coronel Bertioga, ao afirmar que o pai nascera em 1600: "– Perdão, em 1800, naturalmente...", mas o médico replica, "de um modo grave e triste", que fora em 1600 (ASSIS, 2008, p, p. 277). Pretendendo ser breve e dizendo não ter interesse em relatar-lhes a vida do pai, o forasteiro acaba por narrar uma longa história, que ao invés de entediar os ouvintes, aguça-lhes cada vez mais a atenção; seu vocabulário é simples e desprovido de terminologias científicas, cumprindo uma característica linguística da arte da persuasão: "[...] a retórica se utiliza da linguagem comum do dia a dia, e não de uma linguagem técnica ou especializada. Isso ocorre porque a retórica é dirigida a todos os homens, e não a um setor específico da população" (PACHECO, 2018, p. 27).

Um segundo meio de persuasão retórico presente no discurso do dr. Leão é o páthos, que se relaciona às emoções/paixões dos ouvintes. Na concepção de Aristóteles (2013, p. 45-46), "os julgamentos que emitimos variam segundo experimentamos sentimentos de angústia ou júbilo, amizade ou hostilidade". Tanto o coronel como o tabelião se mostram agoniados diante da possibilidade de existir um homem imortal e, mesmo receptivos à história que têm a ouvir, buscam refutá-la logo de início:

Os dous ouvintes continuavam pasmados. A dúvida fora posta pelo dono da casa, o coronel Bertioga, e o tabelião ainda insistiu no caso, mostrando ao médico a impossibilidade de ter o pai nascido em 1600. Duzentos e cinquenta e cinco anos antes! Dous séculos e meio! Era impossível. Então, que idade tinha ele? E de que idade morreu o pai?

– Não tenho interesse em contar-lhes a vida de meu pai – respondeu o Dr. Leão –. Falaram-me no macróbio que mora nos fundos da matriz; disse-lhes que, em negócio de macróbios, conheci o que há mais espantoso no mundo, um homem imortal...

– Mas seu pai não morreu? – disse o coronel.

– Morreu.

– Logo, não era imortal – concluiu o tabelião triunfante –. Imortal se diz quando uma pessoa não morre, mas seu pai morreu.

– Querem ouvir-me?

– Homem, pode ser – observou o coronel meio abalado –. O melhor é ouvir a história. [...]

Excitada a curiosidade, não foi difícil impor-lhes silêncio (ASSIS, 2008, p. 278-279).

A história da imortalidade de Rui de Leão seguirá povoada de lugares-comuns da literatura: crendices, ciúmes, traição, fé e amores impossíveis, o que se configura em uma estratégia do orador para despertar o interesse dos ouvintes. Esses elementos pitorescos presentes no discurso do dr. Leão corroboram a tese de que o páthos opera como um "contrato prévio" (SANTANA NETO, 2011, p. 978) entre locutor/orador e alocutário/auditório, ou seja, a imagem que um tem do outro é fundamental para o desenrolar da narração. Nesse ínterim, o suscitar da confiança dependerá de como o páthos do auditório é atingido, sendo necessário para isso que o narrador se apresente em uma "adequada disposição de espírito" (ARISTÓTELES, 2013, p, p. 121). É igualmente essencial tornar a experiência recíproca para colher os resultados/sentimentos: os participantes precisam compartilhar as mesmas emoções, conforme notamos nesta passagem do conto, na qual o dr. Leão narra a perda de um amigo do pai, na conquista da República dos Palmares, em 1695:

[...] Bateu-se como um bravo, e perdeu um amigo, um amigo íntimo, crivado de balas, pelado...

− Pelado?

− É verdade; os negros defendiam-se também com água fervendo, e este amigo recebeu um pote cheio; ficou uma chaga. Meu pai contava-me esse episódio com dor, e até com remorso, porque, no meio da refrega, teve de pisar o pobre companheiro; parece até que ele expirou quando meu pai lhe metia as botas na cara...

O tabelião fez uma careta; e o coronel, para disfarçar o horror, perguntou o que tinha a conquista dos Palmares com a mulher que... (ASSIS, 2008, p. 294-295).

Trata-se de Helena, com quem Rui de Leão havia se casado na Bahia, em 1694, quando contava 94 anos e aparentava ser moço. Rui a desposara depois que, muito aborrecido, deixou Olinda, local da batalha de Palmares e onde ele havia levantado suspeitas da população de que tivera um filho ilegítimo com uma viúva. O rapaz era um jovem oficial, Damião, a quem Rui salvara de uma flecha no peito, ciente de sua imortalidade: "Meu pai compreendeu que a flecha não lhe faria mal a ele, e então, de um salto, interpôs-se. O golpe feriu-o no peito; ele caiu. [...] Damião passou a noite ao pé da cama de meu pai, agradecido, dedicado, louvando-lhe uma ação tão sublime" (ASSIS, 2008, p. 295).

Nesse ponto, os ouvintes, envolvidos, já não contestam a narração, mas procuram adivinhar-lhe a sequência, que trata da traição de Helena; da fuga de Rui para o Sul, quando descobre a mineração e a riqueza; e de sua chegada ao Rio, onde Helena e seus parentes o procuram, muito tempo depois: "O que me parece – aventurou o coronel –, é que eles vieram ao cheiro dos cobres..." (ASSIS, 2008, p. 295). Para Aristóteles, as emoções/paixões são capazes de mudar os julgamentos e vêm acompanhadas por um sentimento de dor ou prazer (ARISTÓTELES, 2013, p. 122-123). A compaixão dos ouvintes pelo amigo morto em Palmares ou a constatação de Bertioga de que a família de Helena era interesseira, mostram que o apelo ao páthos dos ouvintes teve êxito para a adesão ao discurso. Concordamos, portanto, com Santana Neto, quando diz que o páthos tem por fim "a influência afetiva, pretendida e exercida pelo locutor sobre o alocutário, com a finalidade de nele exercitar, favoravelmente à proposição, afetos violentos (movere, comovere)" (SANTANA NETO, 2009, p. 3.532).

Tendo construído sua própria imagem de forma positiva no discurso (éthos) e envolvido os interlocutores pelas emoções despertadas (páthos), resta ao dr. Leão demonstrar a verdade ou o que parece ser a verdade, pelo seu próprio discurso (lógos). O lógos é a categoria retórica relacionada à verossimilhança, à razão ou ao raciocínio; é o momento em que o orador seleciona argumentos plausíveis para completar a persuasão. Esse meio de convencimento é construído, entre outros recursos da linguagem verbal, a partir de um "fazer argumentativo" com base em argumentos didáticos (SANTANA NETO, 2011, p. 978-979). No conto, o narrador recorre ao lógos, ao anunciar que pretende contar um dia, por escrito, a história do pai e que "a obra dará cinco volumes, sem contar os documentos" (ASSIS, 2008, p, p. 293). Essa última palavra causa uma reação imediata no tabelião, que procura saber quais "documentos" seriam aqueles, ansioso pela comprovação da história fantástica que já tinha por acreditada. Hansen explica que, em "O imortal", a possibilidade de "comprovar" algo tido como improvável aproxima o ficcional da historiografia:

Na historiografia, o leitor sabe, provas documentais atestam a existência dos eventos narrados, distinguindo a narração histórica da narração ficcional. Alegando as provas documentais que tornam o gênero histórico provável, o médico homeopata propõe que o fantástico da sua história tem a autenticidade e a autoridade de um discurso verdadeiro sobre coisas e eventos reais – "fatos", como diziam os positivistas também no tempo de Machado de Assis. [...] Se a opinião de que um homem possa viver 255 anos é considerada falsa, a história do Dr. Leão sobre a vida do pai é improvável; mas ela tende a ser recebida não só como plausível, mas principalmente como verídica, quando declara aos ouvintes que tem documentos que a comprovam (HANSEN, 2006, p. 66).

Ao argumento simbólico do elixir do pajé, a história conduz os ouvintes às supostas provas documentais do dr. Leão e sua ideia de documentar as aventuras do pai em livro. Atingindo a Independência do Brasil, em 1822, e depois de reunidos os quarenta anos seguintes em que prevaleceu a angústia eterna de Rui de Leão, a narração encaminha-se para o fim.

Neste ponto os dous ouvintes redobraram de atenção. Compreenderam que iam chegar ao desenlace, e não quiseram perder uma sílaba daquela parte da narração, em que iam saber da morte do imortal. Pela sua parte, o Dr. Leão parara um pouco; podia ser uma lembrança dolorosa; podia também ser um recurso para aguçar mais o apetite (ASSIS, 2008, p. 302).

Finalmente, morre o "imortal", após suas tentativas fracassadas de pôr termo à própria vida e a sua confissão ao filho de que o princípio homeopático o havia salvado. O dr. Leão fazia uma exposição sobre a homeopatia a alguns amigos, quando percebeu que reluziram nos olhos do pai "um fogo desusado e extraordinário". À noite, já moribundo na cama, Rui confessa a façanha ao filho: "Bebera o resto do elixir, e assim como a primeira metade lhe dera a vida, a segunda dava-lhe a morte" (ASSIS, 2008, p. 304). Sucumbidos ao éthos do narrador, afetados em suas emoções e convencidos pelo discurso do dr. Leão,

O coronel e o tabelião ficaram algum tempo calados, sem saber que pensassem da famosa história; mas a seriedade do médico era tão profunda, que não havia duvidar. Creram no caso, e creram também definitivamente na homeopatia (ASSIS, 2008, p. 304).

Diferentemente do que se passou com o auditório particular, composto pelos dois senhores da vila, ao auditório geral − privado do éthos do enunciador − a persuasão do dr. Leão quanto à imortalidade de seu pai não teve êxito:

Narrada a história a outras pessoas, não faltou quem supusesse que o médico era louco; outros atribuíram-lhe o intuito de tirar ao coronel e ao tabelião o desgosto manifestado por ambos de não poderem viver eternamente, mostrando-lhes que a morte é, enfim, um benefício. Mas a suspeita de que ele apenas quis propagar a homeopatia entrou em alguns cérebros, e não era inverossímil (ASSIS, 2008, p. 304).

Conclusão

A partir dos pressupostos teóricos de Aristóteles, procuramos mostrar como os três meios de persuasão retóricos, éthos, páthos e lógos, são utilizados pelo narrador de "O imortal" para obter a persuasão de seus ouvintes quanto à imortalidade de seu pai, um subterfúgio para seu objetivo principal: a divulgação dos princípios homeopáticos. Explorando sua própria imagem, apelando às emoções dos ouvintes ou apropriando-se do discurso para erigir provas, o dr. Leão integra a galeria de narradores machadianos versáteis e estrategistas, cujos "lembretes" presentes na narração, como assinala Gerlach (1989, p. 121), constituem uma "tática enriquecedora" para alongar a história sem entediar o público. Até mesmo os gestos do orador denunciam sua intenção persuasiva, como notamos nesta passagem: "O coronel e o tabelião aguçaram os ouvidos, enquanto o Dr. Leão extraía pausadamente uma pitada e inseria-a no nariz, com a pachorra de quem está negaceando uma cousa extraordinária" (ASSIS, 2008, p, p. 281).

Para Hansen (2006, p. 60), não há uma moral na história, mas apenas a intenção de divertir; e o leitor que busca uma moralidade no conto pode "concluir que estar livre da morte, mas sujeito às contingências da condição humana, é tristemente tedioso [...]". Assim é que Rui de Leão, mesmo "imortal", vê-se condenado a viver "as possibilidades restritas" da vida efêmera e comum a todos, o que o leva a buscar desesperadamente a morte (HANSEN, 2006, p. 61).

Lembramos ainda que o conto sugere a intenção de Machado de Assis, em 1882, escritor consagrado pelas Memórias póstumas de Brás Cubas, de parodiar o ideário romântico e os lugares-comuns da literatura, de amor, ódio, intriga, suicídios e aventuras, elementos já não comportados em plena época do cientificismo.

Referências

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1 Paul Dixon (2006, p. 187), por exemplo, refere-se aos contos machadianos como "laboratório de práticas repetidas".

2 "O imortal" foi originalmente publicado na revista de modas A Estação, entre julho e setembro de 1882. É outra versão do conto "Rui de Leão", publicado no Jornal das Famílias dez anos antes (ASSIS, on-line).

Recebido: 11 de Janeiro de 2018; Aceito: 09 de Abril de 2018

RITA DE CÁSSIA SIMÕES MARTELINI é mestra em Letras pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), com a dissertação O dinheiro e o jogo das aparências: temas recorrentes na contística machadiana. Atualmente, é doutoranda em Estudos da Linguagem também pela UEL, sob orientação da professora Esther Gomes de Oliveira, e desenvolve pesquisa sobre os recursos linguístico-argumentativos na crônica de Machado de Assis, com ênfase na série "Bons Dias!". Bolsista Capes desde 2015. E-mail: ritamartelini.uel@gmail.com

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