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Machado de Assis em Linha

On-line version ISSN 1983-6821

Machado Assis Linha vol.11 no.25 São Paulo Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1983-6821201811250 

EDITORIAL

Machado de Assis em tradução

Machado de Assis in translation

HÉLIO DE SEIXAS GUIMARÃES1 

MARTA DE SENNA2 

1Universidade de São Paulo. São Paulo, Brasil

2Fundação Casa de Rui Barbosa. Rio de Janeiro, Brasil

Ao encerrar o ano em que a revista completa sua primeira década, a MAEL traz um dossiê sobre Machado de Assis e a tradução, organizado por Pedro Meira Monteiro, da Princeton University, e Walter Costa, da Universidade Federal de Santa Catarina e da Universidade Federal do Ceará.

O assunto é tratado por várias perspectivas, incluindo desde os descaminhos das traduções da obra do escritor em seu tempo de vida até as recentes traduções para o inglês, espanhol e chinês.

O artigo de Lúcia Granja, "Três é demais! (ou por que Garnier não traduziu Machado de Assis?)", levanta, por meio de pesquisa em arquivos do Brasil e da França, hipóteses sobre as dificuldades impostas à obra do escritor para sua circulação na Europa, especialmente na França, onde o primeiro livro de Machado foi publicado apenas em 1910, dois anos depois da morte do escritor.

Também baseado em pesquisa documental, Wilton Marques, em "Machado de Assis e 'Maria Duplessis': a talvez primeira tradução", defende a hipótese de que a primeira tradução feita por Machado de Assis seria uma dupla tradução: do poema francês "Maria Duplessis", de Alexandre Dumas Filho, e a partir da tradução em prosa de Leonel de Alencar.

Os três ensaios seguintes tratam de três casos de tradução: para o espanhol, para o chinês e para o inglês.

Em "Crônicas de Machado de Assis em tradução: marcas de edições vernáculas na tradução para o castelhano", Rosario Lázaro Igoa identifica a tendência, nas edições em espanhol, de distanciar as crônicas de suas marcas jornalísticas, ressaltando as características literárias, que as aproximariam do conto.

Em "Tradução e introdução das obras de Machado de Assis na China", de Zhihua Hu e Maria Teresa Roberto, conhecemos as principais traduções de obras de Machado de Assis para o chinês já realizadas, bem como os procedimentos de domesticação e estrangeirização adotados pelos tradutores de Quincas Borba, Dom Casmurro e Contos escolhidos.

Flora Thomson-DeVeaux, em "Reading Machado Through the Looking-Glass: Case Studies from the Translations of Memórias Póstumas", compara as três traduções do romance para o inglês já publicadas, mostrando como as diferentes soluções tradutórias permitem conhecer melhor a grandeza e complexidade do texto de Machado de Assis.

Além do dossiê sobre tradução, o número traz outros cinco artigos, que focalizam o romance e o conto de Machado de Assis.

Kathryn Sanchez, em "'Coxa de Nascença': Misconceptions, Normalcy and the Aesthetics of Difference in Memórias Póstumas de Brás Cubas by Machado de Assis", analisa a célebre passagem do encontro entre Brás Cubas e Eugênia pelo viés teórico dos Disability Studies (Estudos de deficiência), numa abordagem inédita no âmbito dos estudos machadianos, que revela nuances sobre os parâmetros de beleza e normalidade vigentes no Brasil do século XIX.

"Dona Fernanda e a técnica narrativa de Quincas Borba" é o assunto de Maria Cecília Boechat, em artigo que retoma a polêmica em relação ao caráter da personagem feminina, procurando revê-la em conexão com procedimentos narrativos estruturadores do romance.

Em "'Ernesto de tal': o amor, o casamento por conveniência e o consórcio entre as instituições sociais", Naiara Santana Pita e Mirella Márcia Longo Vieira Lima examinam as visões dissonantes de amor e de casamento presentes na obra de Machado de Assis, por meio da análise do conto publicado na década de 1870 no Jornal das Famílias.

Por fim, Antônio Joaquim Pereira Neto e Marcello Moreira questionam as leituras da obra de Machado de Assis pela chave realista, por meio da análise da presença do fantástico no conto "O segredo do bonzo".

A edição traz ainda as resenhas de Histoires diverses, de Saulo Neiva, escrita por Luana Ferreira de Freitas e Cynthia Beatrice Costa; e de A voluptuosidade do nada: niilismo e galhofa em Machado de Assis, de Vitor Cei, feita por Regina Sanches Xavier.

Na seção da tradição crítica, que desde o primeiro número abre a revista, a Machado de Assis em linha homenageia desta vez o escritor, professor e crítico português Jorge de Sena, cujo centenário de nascimento se completa em 2019, com a publicação do ensaio "O quinteto carioca de Machado de Assis". Nesse estudo do final da década de 1960, Sena propõe a leitura dos cinco últimos romances de Machado de Assis como uma unidade, em sintonia com o que de melhor se produzia então na crítica machadiana, conforme sugeriam Antonio Candido, que em 1968 se referia às "transições quase imperceptíveis que unificam a diversidade do escritor" (CANDIDO, 1970, p, p. 32), e Silviano Santiago, que no mesmo ano de 1968 propunha: "Já é tempo de se começar a compreender a obra de Machado de Assis como um todo coerentemente organizado, percebendo que à medida que seus textos se sucedem cronologicamente certas estruturas primárias e primeiras se desarticulam sob forma de estruturas diferentes, mais complexas e mais sofisticadas" (SANTIAGO, 2000, p, p. 27).

Além da proposição de certa unidade na obra, Jorge de Sena refletia sobre a difícil circulação, nos grandes centros de cultura, da obra de escritores geniais que produziram suas obras em línguas e culturas consideradas menores. Com isso, o texto de Jorge de Sena se mostra em perfeita sintonia com as reflexões deste número em torno das traduções e dos modos de circulação internacional da obra de Machado de Assis.

Referências

CANDIDO, Antonio. Vários escritos. São Paulo: Duas cidades, 1970. [ Links ]

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. 2. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. [ Links ]

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